quinta-feira, 7 de setembro de 2017

It: A Coisa

NOTAS DA SESSÃO:

- Logo no início, na cena em que o Georgie desce até o porão pra pegar a cera, é um pouco inapropriado criar um longo momento de suspense, sendo que o filme ainda nem disse sobre o que será a história, nem sugeriu que algo sobrenatural possa existir, etc.

- A produção em geral é um acerto. Os atores que fazem os garotos são bons (exceto talvez o que faz o hipocondríaco, que soa forçado), o visual de filme dos anos 80 convence, a cidadezinha e as locações criam um clima nostálgico agradável, a trilha é boa, etc. E obviamente, o livro Stephen King é um ótimo material... Mas como ele já tem uma adaptação famosa, a tarefa desse filme aqui é mais difícil, pois ele tem que ter méritos maiores pra se justificar.

- A cena do bueiro é divertida. O grande problema é que depois da performance icônica do Tim Curry no filme de 1990, é praticamente impossível um novo palhaço não decepcionar. É como tentar fazer um remake de Esqueceram de Mim como um "novo Macaulay Culkin". É algo que não existe; a comparação vai sempre prejudicar o filme.

- É um pouco estranho esses outros monstros aparecerem logo no começo (a mulher que sai do quadro, etc.) enquanto o palhaço ainda nem foi estabelecido como o vilão principal. O conceito fica meio confuso. Além disso esses outros monstros não são tão bem feitos ou assustadores. O menino que desce a escada sem cabeça, por exemplo, e daí começa a correr loucamente, acaba parecendo meio ridículo da maneira como a cena foi executada. Muito do impacto do filme antigo vinha das cenas de terror acontecerem em ambientes inofensivos, cotidianos, envolvendo objetos inocentes, que subitamente se transformavam em algo assustador (como em A Hora do Pesadelo). Agora um quadro que já é assustador virar um monstro assustador num quarto assustador... não há contraste, é outro estilo de terror.

- Depois de 1 hora de aparições de monstros, o filme começa a ficar meio repetitivo. E é falso depois de tantas aparições as crianças não estarem apavoradas, continuarem com uma rotina normal, não contarem pra ninguém das visões que estão tendo, etc. O pior momento é quando todos os amigos ajudam a Beverly a limpar o banheiro sujo de sangue, como se aquilo fosse uma faxina comum. Certamente nesse ponto todos já deveriam estar em pânico e discutindo abertamente a situação - e não se divertindo, limpando litros de sangue sobrenatural ao som de uma trilha divertida!

- No antigo, o que dava medo no palhaço era a performance do Tim Curry - a personalidade carismática, expansiva, brincalhona, em contraste com a aparência medonha. Bastava apontar a câmera pra ele que já era algo assustador (em plena luz do dia, sem truques de edição, sem cortes, sem efeitos, etc). Aqui o filme fica tentando dar medo através de jump scares, técnicas de filme de terror barato - Pennywise surgindo subitamente atrás da bexiga, ou correndo em direção à câmera em fast forward com efeitos sonoros clichê, etc.

- Quando os amigos finalmente conversam sobre terem visto o palhaço, em vez disso gerar um clima assustador, a situação é logo quebrada por uma piadinha de um deles ("isso é coisa de virgem?"). O filme não sabe diferenciar entre alívio cômico e piadas que arruinam todo o clima do filme. Na cena da guerra de pedras, há novamente um uso extremamente inapropriado de humor. O que era pra ser um momento de heroísmo, superação, fica parecendo uma comédia besteirol (não dá nem pra dizer que o humor não foi intencional, por causa da música usada).

- SPOILER: Um jump scare que funcionou bem na minha opinião é quando eles estão assistindo os slides, e o palhaço pula da tela.

- Mesmo depois deles terem reconhecido a existência do palhaço, o comportamento dos garotos continua artificial. Por exemplo: eles todos toparem ir até a casa abandonada, entrarem fazendo piadinhas como se não estivessem nem aí... Daí, quando o filme precisa que algum personagem realmente entre em pânico, comece a gritar, isso não convence - é incoerente em relação à atitude de antes. No filme dos anos 90, o medo era algo intenso, as emoções dos personagens eram "maiores que a vida" (me vem à mente aquela cena do menino que fica com os cabelos brancos só de olhar pra Coisa, ou então o Stan, depois de adulto, que se suicida na banheira só por ficar sabendo que o palhaço voltou). Aqui nada é "maior que a vida" - em qualquer momento pode surgir uma piadinha pra quebrar o clima (por exemplo: quando o menino hipocondríaco vê o monstro leproso e desmaia de maneira cartunesca, ou depois quando ele confunde "placebo" com "gazebo" no meio de uma cena séria). Não chamaria isso nem de Romantismo Reprimido, e sim de Anti-Romantismo (vou discutir isso numa outra postagem).

- SPOILER: Depois que o palhaço dá uma trégua e todo mundo volta pra vida normal, há 2 sequências seguidas que são muito parecidas, e parecem fazer parte de um outro filme: quando 2 dos personagens secundários se vingam de seus pais abusivos (o bully que esfaqueia o próprio pai, depois a Beverly que ataca o pai no banheiro). Aliás, os pais nesse filme parecem monstros até piores que o Pennywise. Não fica muito claro também se essas vinganças foram espontâneas, ou controladas pelo Pennywise (afinal ele estava presente nas 2 cenas). Quer dizer que o palhaço "ajuda" também as crianças a fazerem certas coisas?

- Quando a Beverly é raptada pelo Pennywise e todos decidem se unir para salvá-la, eles não têm uma estratégia muito sólida pra matar o palhaço. Levam lanças, armas comuns... Mas não parece nada provável que um monstro extra-dimensional possa ser derrotado dessa forma.

- Ridículo o gordinho acordar a Beverly do transe com um beijo de "amor verdadeiro", parodiando A Bela Adormecida.

- SPOILER: A maneira como o Pennywise é derrotado é insatisfatória, pois não há muita consistência na ideia de que o medo das crianças é o que dá poder a ele... Ou seja, que quando as crianças não têm medo, o palhaço não consegue derrotá-las. Em vários momentos elas estavam com medo sim e mesmo assim o palhaço não conseguiu matá-las. E quando ele foi ferido pela lança da primeira vez, não ficou claro que o motivo foi porque elas não estavam com medo naquela hora. O filme é muito mais uma homenagem aos "losers", aos excluídos, do que um confronto empolgante contra uma força do mal.

- SPOILER: Que exagero esse pacto que os amigos fazem no final, dando as mãos cheias de sangue... Bizarro também a cena do beijo - a Beverly sujando o rosto do Billy com sangue. É pra sugerir que ela é a Coisa? Que o Pennywise também pode "possuir" pessoas? Nada disso foi pré-estabelecido, então fica apenas parecendo uma atitude sem-noção.

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CONCLUSÃO: Estimulante, bem feito em termos de produção, na aparência externa do filme, mas altamente falho na direção, no desenvolvimento da história, na construção do terror, no comportamento falso dos personagens, etc.

It / EUA / 2017 / Andy Muschietti

Postagens relacionadas: Romantismo Reprimido

FILMES PARECIDOS: Annabelle 2: A Criação do Mal (2017) / Stranger Things (2016) / Super 8 (2011)

NOTA: 4.5

2 comentários:

Dood disse...

Assiti num evento nerd realizado por aqui (peguei do meio pro final). A impressão que eu tive é que não estava assistindo a um filme de Terror de tão mal conduzido que era a trama. Os garotos pareciam que estavam numa aventura estilo Goonies só que mais pobre do que num filme de terror. Parecia que o filme estava com medo de deixar um impacto que era lidar com um ser sobrenatural que é essencial num filme de terror.

A cena final quando um dos garotos diz eu odeio vocês e todos riem foi a constatação que não era um filme de terror e sim um filme que pretendia ser um filme de terror.

Caio Amaral disse...

Nossa nem sabia q existiam eventos nerds, hehe. Sim, parece q a intenção era mais criar um senso de nostalgia.. do que fazer um filme de terror.. e mesmo a nostalgia pra mim não funcionou pois eles subvertem justamente os elementos que tornavam os filmes da época legais.. assim como disse de Stranger Things 2.. abs!