sábado, 10 de janeiro de 2026

Marty Supreme

Uma das poucas boas surpresas dessa temporada. Joias Brutas (dirigido por Josh Safdie ainda junto com o irmão Benny) foi um dos filmes mais esteticamente desagradáveis que já vi. Em 2025, os irmãos resolveram se separar e lançar cada um seu longa solo. Benny fez The Smashing Machine e Josh fez Marty Supreme. Como The Smashing Machine teve uma direção bem menos caótica que Joias Brutas, eu estava achando que Josh é que se provaria o irmão niilista da dupla, e entrei na sala esperando ser torturado por 150 minutos. No fim, me deparei com um filme agitado, excêntrico, às vezes até histérico, mas muito mais controlado do que eu esperava, e que nunca pareceu hostil em relação ao espectador. (Ou seja, talvez a interação dos dois seja o que criava o caos.)

Não é o tipo de história que costuma me atrair (lembrei bastante do Scorsese dos tempos de Touro Indomável ou Os Bons Companheiros), mas o que me conquistou foi a originalidade e a qualidade geral da obra; a alta Densidade Criativa do roteiro e o “Fator G” elevado da produção. É o oposto da superficialidade intelectual que senti em O Brutalista. Aqui, o universo parece totalmente crível, e o cineasta parece estar falando de conflitos e pessoas com os quais conviveu e tem bagagem pra discutir. Há tanta informação nos diálogos e na construção de mundo que é como se estivéssemos consumindo em velocidade normal algo que foi pensado em ultra câmera lenta (toda boa obra de arte, na verdade, deveria dar essa sensação).

Mas e quanto ao teor da história? Provavelmente haverá muito debate quanto à mensagem do filme, que não é das mais claras. Estava esperando que tudo não passasse de uma crítica cínica à ganância e à busca desenfreada por sucesso. Mas, assim como Joias Brutas, o filme é mais sofisticado que o normal; evita generalizações e não cai no ataque raivoso clichê ao capitalismo. Está mais pra uma narrativa positiva de sucesso em que o protagonista, por acaso, tem sérios problemas de caráter do que pra um cautionary tale contra a ambição.

Seria um caso de Idealismo Corrompido? Eu diria que não — que o filme cai mais na categoria de Idealismo Crítico. Isso porque os positivos aqui são retratados como positivos, e os negativos como negativos. O filme tem plena noção dos problemas de Marty e não os romantiza nem os justifica. Ao mesmo tempo, suas virtudes são apresentadas de maneira atraente, inspiradora (muito do mérito aqui é da performance excelente de Timothée Chalamet, que consegue andar nessa corda bamba preservando o carisma do personagem). Essa distinção moral é a marca do Idealismo Crítico saudável. No Idealismo Corrompido, o filme está sempre criando inversões de valores e apresentando virtudes sob uma luz negativa.

Sim, Marty Supreme tem um Senso de Vida misto: reflete um artista ambicioso, que acredita no sucesso, mas tem uma visão conflituosa de mundo que faz com que ele dê protagonismo e importância existencial a figuras problemáticas como Marty. Mas Safdie lida com esse conflito de maneira mais consciente e madura do que o artista malevolente padrão. Em uma entrevista recente, ele disse:

“Eu cresci cercado por algumas pessoas falhas na minha vida, e não tive escolha a não ser admirá-las. Acho que isso moldou a empatia com que eu costumo enxergar as pessoas. Às vezes isso é ruim. Às vezes dói, te coloca em enrascadas, porque você sabe… pode acabar se apaixonando por alguém que vai te machucar de alguma forma. Mas, ao mesmo tempo, isso abre o seu coração e permite que você veja o lado bom das pessoas e meio que releve algumas das coisas ruins — a menos que elas sejam realmente pessoas más.”

Ou seja, Marty Supreme é como se fosse Safdie duelando consigo mesmo e tentando decidir como lidar com o misto de admiração e condenação que sente por certas pessoas em sua vida. (Fiquei com a impressão de que, apesar da história se passar no tempo de seus avós, no fundo Josh está falando sobre a era de seus pais — a ambição característica dos yuppies dos anos 80, o que ajudaria a explicar os anacronismos propositais da trilha sonora.)

Marty Supreme tem questões mal resolvidas no nível da mensagem, e a conclusão do filme se torna menos satisfatória por causa disso. Safdie não parece ter uma tese sobre o tema que resolveu abordar, mas pela maneira como ele lida com os personagens ao longo da história, sua investigação pelo menos caminha em uma boa direção.

Marty Supreme / 2025 / Josh Safdie

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