sábado, 21 de fevereiro de 2026

Hollywood vs. IA

A lista ao lado mostra uma divisão em Hollywood entre cineastas que estão abraçando a IA e outros que estão resistindo. Minha maior preocupação com relação à IA no entretenimento ainda é a questão da identificação. Se o conteúdo criado por IA for facilmente identificável, diferenciado de registros fotográficos e de trabalhos autorais feitos sem IA, será apenas uma revolução tecnológica como o CGI foi. Sim, muitas pessoas perderão seus empregos atuais, longas poderão ser feitos num estalo de dedos por amadores em seus laptops, e isso pode ter o efeito de degradar ainda mais o status do cinema na cultura — mas essa é uma consequência inevitável do progresso tecnológico. Reclamar disso é como reclamar da invenção da eletricidade, da fotografia digital etc.

Cineastas que quiserem manter o nível da arte continuarão podendo fazer filmes à moda antiga (fotografando atores em ambientes reais — o que se tornará apenas mais caro e inconveniente) ou usarão a IA com bons critérios — apenas para funções não criativas — colaborando com outros artistas (escritores, atores, diretores de arte, fotógrafos, compositores etc.), para que cada elemento da obra seja intencional, reflita decisões e talentos humanos, e não funções automáticas do algoritmo.

O problema é se não pudermos diferenciar facilmente trabalhos feitos com IA de trabalhos feitos sem IA.

Muita gente parece não entender, por exemplo, que existe uma diferença fundamental entre imagens fotografadas e imagens feitas no computador. Por mais que você torne um ator de IA realista, ele nunca terá o mesmo impacto de um ator que existe de verdade. Astros são tão importantes que, até em animações, hoje se tornou uma convenção contratá-los para dublar os personagens, pois isso aumenta o interesse pela produção.

O mesmo princípio vale para os cenários e os espaços físicos do filme: por mais grandiosa que seja uma imagem de CGI, ela sempre parecerá pequena em comparação com um panorama de David Lean. Se a IA se tornar a forma padrão de se criar imagens, isso significa que todo o cinema se transformará em animação. Animações podem ter muitos dos méritos criativos de um filme, mas o magnetismo de uma imagem fotografada não pode ser recriado por um desenho. “Ah, mas e se chegar a um ponto em que a imagem feita por IA fique indistinguível da realidade?” — Aí, o espectador terá uma desconfiança eterna em relação a tudo o que vê e, por via das dúvidas, assumirá que tudo é IA — ou seja, não se permitirá confiar na imagem e sentir o tipo de emoção que sentimos quando estamos diante de algo real. Mesmo quando a imagem for real, ele terá um pé atrás e reagirá a tudo como se fosse uma animação (isso já acontece hoje, com o excesso de CGI nos filmes). A confiança é uma coisa frágil. Se você descobre que uma pessoa lhe contou uma mentira descarada, você começa a duvidar de todas as suas outras afirmações.

Mais grave ainda é o fato de muita gente não entender a importância do talento humano, da autoria da obra (e dos diversos aspectos da obra), como se apenas o produto final importasse, independentemente de sua origem (já discuti isso no texto IA e Criatividade). Mas pense: toda vez que você viu algo realmente extraordinário na arte, toda vez que uma obra impactou sua vida, você provavelmente se perguntou logo em seguida: “Quem fez isso?” — e foi pesquisar sobre o artista. Se a autoria de tudo for colocada em xeque com a chegada da IA no entretenimento, a “desconfiança eterna” criada pela tecnologia prejudicará também essa dimensão da arte.

Agora pergunte-se: quem é que se beneficiaria ao borrarmos a linha entre trabalhos feitos com IA e trabalhos feitos sem IA? Quem teria interesse em não identificar que seu trabalho foi feito por IA? Certamente não é o artista talentoso, capaz de inspirar o público com suas verdadeiras capacidades. É aquele que deseja usar a IA para esconder sua incapacidade e tentar obter algum crédito imerecido desse estado de incerteza inaugurado na mente do público. A IA, nesse cenário, torna-se uma máquina gigante de “redistribuição de crédito”, dando crédito a quem não merece às custas de quem merece.

Num futuro mais distante, pode ser que a tecnologia avance tanto que modifique por completo a natureza humana; aí, nossas filosofias e valores terão de ser totalmente repensados. Mas, por enquanto, não vivemos nesse futuro, e ainda é importante que saibamos o que é verdade e o que não é, o que reflete talentos humanos reais e o que não reflete. Enquanto isso for um fato, fazer arte com IA e não avisar o espectador será uma forma de fraude.

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