16/2 — Erudição Judaica
Como mencionei na crítica, uma das coisas que mais apreciei em Marty Supreme foi a qualidade da escrita, a riqueza de ideias e a bagagem cultural que, intelectualmente, colocam o filme num patamar superior. Me ocorreu que isso não é raro em filmes de autores judeus. Lembro de ter notado essa qualidade específica em alguns filmes recentes, como Blue Moon, Saturday Night e A Verdadeira Dor — todos de roteiristas judeus. O nível de cultura da população parece ter decaído tanto nas últimas décadas que, hoje em dia, quando você nota essa qualidade intelectual em um roteiro, você quase pode adivinhar que o autor é judeu. A cultura judaica é conhecida por incentivar o desenvolvimento intelectual, os estudos e o conhecimento, de forma que, entre judeus, talvez esse declínio na erudição média tenha sido menos acentuado.
Fico pensando se a superficialidade do cinema contemporâneo pode ser explicada, em parte, por uma diminuição na presença de judeus na indústria. Lembrem-se que o cinema deve muito de sua legitimação enquanto arte aos judeus — a figuras como Irving Thalberg, que fizeram um esforço consciente para trazer cultura e sofisticação à indústria em seus primórdios, quando os filmes eram considerados apenas uma distração vulgar.
15/2 — Alguns cineastas estão sob ataque no Festival de Berlim — não por comentarem sobre política, mas por quererem evitar o assunto em coletivas de imprensa e focar em cinema. Isso revela uma situação curiosa nesses ambientes: se você não se posiciona, você é cancelado. Se você se posiciona, mas tem uma opinião que diverge do posicionamento “correto”, também é cancelado. Qual a única opção que sobra pra não ser cancelado, então? Falar — e falar aquilo que a imprensa quer que você fale.
15/2 — Se eu fosse fazer uma versão atualizada daquele meu vídeo do Oscar dos amputados:
12/2 — Dawson
Assisti a um ou outro episódio de Dawson’s Creek na época em que ia ao ar e, com a morte de James Van Der Beek ontem, lembrei de uma cena do episódio 10 da 3ª temporada que me marcou. Dawson, que era um estudante idealista, fã de Spielberg e aspirante a cineasta, estava se inscrevendo em um festival de cinema. Na recepção, após fornecer alguns dados, perguntam a ele qual era seu diretor favorito. Ele responde, sem hesitação: Spielberg. A reação da recepcionista foi o que eu nunca esqueci: ela olha para ele incrédula, revirando os olhos, como se ele tivesse dito algo totalmente bizarro, inesperado e uncool.
Esse episódio foi ao ar entre 1999 e 2000, numa época em que eu ainda não entendido que o Idealismo estava ficando “fora de moda” e não era bem aceito em ambientes acadêmicos. Pra mim, Dawson estava sendo totalmente sensato e respeitável ao dar essa resposta. Mas, no final dos anos 90, jovens cinéfilos já viviam no mundo de cineastas como Tarantino, David Fincher e Paul Thomas Anderson, em que Spielberg representava o establishment — o “óbvio” do qual eles sentiam necessidade de se diferenciar — uma atitude que definiu os cineastas da Geração X, que são o establishment em Hollywood hoje (Pulp Fiction foi o grande estopim dessa virada).
O curioso é que, hoje, os jovens cineastas não estão indo contra o novo establishment. Sim, eles querem se diferenciar, mas não rejeitando a atitude básica da Geração X. Em vez de voltar na direção do Idealismo, eles estão apenas “dobrando a aposta” e tentando ser ainda mais subversivos em relação ao antigo establishment do que os Tarantinos da época foram.
6/2 — O desejo de parecer inteligente
Outro dia li um comentário do diretor Scott Derrickson no X que ficou comigo: ele disse que a maioria das listas de melhores filmes do ano são feitas para “fazer o autor da lista parecer inteligente”. Isso é a pura verdade, mas o que me impactou ao ler essa frase foi perceber que muito do entretenimento hoje é feito com esse mesmo objetivo: muitos artistas produzem não pra dar prazer ou apresentar algo edificante ao público, mas pra parecerem inteligentes.
Se duvidar, escute algumas faixas do álbum do Bad Bunny que venceu o Grammy 2026 e reflita se alguém honestamente escuta aquilo pra ter qualquer tipo de satisfação musical. É como se o desejo de parecer inteligente estivesse arruinando a cultura inteira: artistas criam para parecerem inteligentes, o público consome e diz que gostou para parecer inteligente, e os críticos exaltam para parecerem inteligentes — num ciclo que mantém todos isolados em suas próprias bolhas de infelicidade.
Nada contra quem quer ser inteligente e ser apreciado por essa qualidade — o problema é que, quando esse não é de fato o ponto forte da pessoa, ela acaba confundindo inteligência com as táticas que discuto na postagem Pseudo-sofisticação, e o resultado disso é o estado da cultura pop atual.
3/2 — Michael - Trailer Oficial
O trailer oficial de Michael me deixou mais animado quanto ao filme. Há um foco claro na trajetória de sucesso e nas mensagens otimistas que Michael costumava transmitir; não me parece o tipo de filme que irá focar demais nos traumas de infância, no sofrimento psicológico, nem o tipo de biografia Naturalista/minimalista que anda em alta hoje. Tem tudo para ser um raro blockbuster Idealista em 2026, pelo menos no nível do conteúdo.
3/2 — Kleber Mendonça Filho e a feiura
Notei algo perturbador em O Agente Secreto que me levou a fazer o seguinte comentário na crítica: “Não sei se o diretor tem um olhar que, sem querer, revela a feiura das coisas ou se isso é proposital — se ele tem algum compromisso ideológico com a representação do feio na arte.” Não estava falando exclusivamente dos atores, mas outro dia me deparei com uma matéria da Hollywood Reporter que me ajudou a compor um perfil. Apesar do que chamo de Casting Naturalista já ser uma prática comum no audiovisual há muitos anos, na entrevista, Kleber fala como se ainda houvesse uma pressão enorme na indústria pra escalar atores de boa aparência — algo que ele considera “ultrapassado”. Não só ele não valoriza a aparência dos atores, como diz também que não gosta de distinguir entre atores profissionais e não-atores. A matéria obviamente foi escrita porque O Agente Secreto está concorrendo ao Prêmio da Academia de Melhor Seleção de Elenco e, pelo visto, essa inversão de valores o coloca à frente na disputa.
3/2 — Vilanização da riqueza
Revendo a lista dos filmes mais populares de 2025, percebi que hoje são minoria os filmes que NÃO vilanizam a riqueza e o sucesso: Marty Supreme, apesar de celebrar ambição, não deixa de ser um retrato crítico da busca por sucesso; Hamnet e Valor Sentimental mostram os danos emocionais que homens de sucesso causam à família; A Única Saída e Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out são sobre pessoas matando umas às outras pra subir na vida; em Pecadores, os ricos são racistas, assassinos, parte de uma elite opressora, assim como em Uma Batalha Após a Outra, O Agente Secreto e Zootopia 2; em A Empregada, eles são psicopatas mentalmente desequilibrados; em Bugônia, são aliens infiltrados querendo destruir a humanidade — e daria pra achar mensagens similares em diversos outros filmes populares, como Wicked: Parte II, O Sobrevivente, Acompanhante Perfeita, A Longa Marcha, Materialistas etc. O item 4 do Screen Guide for Americans nunca foi tão necessário.


Caio, conhece a Debescreve? Você chegou a ver a critica dela sobre Morro dos Ventos Uivantes?
ResponderExcluirOlá Dood, não conheço não! Vou checar o canal dela depois.
ResponderExcluirAcabei deletando o vídeo do Jurandir Gouveia depois que fui ver algumas outras coisas dele. Como não opinei sobre O Morro dos Ventos Uivantes, achei que podia pegar um atalho com aquele vídeo.. mas é melhor não dar a entender que é um endosso do canal como um todo.
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