A moralidade altruísta dominante na cultura cria uma “regra” que dificilmente consegue ser quebrada hoje no cinema: vilões devem sempre ser representados pelos fortes, poderosos, privilegiados, e as vítimas/mocinhos, sempre pelos mais humildes, desprovidos, vulneráveis.
Na ética por trás do Idealismo, não associamos força ao mal. Muito pelo contrário: o mal vem da irracionalidade, do erro, que, em última instância, torna o agente impotente. A fraqueza, portanto, é que é associada ao mal. Por trás da maldade, enxergamos burrice, ignorância, motivações como inveja, ressentimento, racionalizações e o desejo de proteger uma pseudoautoestima.
Pouquíssimos filmes, no entanto, retratam o mal dessa forma. O mal absoluto, no entretenimento, quase sempre é associado à força — a um personagem poderoso que ataca suas vítimas não por invejá-las ou para camuflar suas próprias fragilidades, mas porque é forte demais, e a força corrompe.
A realidade, porém, é que pessoas realmente fortes (estou falando de força de caráter, de pessoas motivadas por autoestima, ambição moral, pela conquista de valores positivos) não perdem tempo indo atrás de pessoas fracas para atacá-las; não ocupam suas mentes com elas. Pena, indiferença ou desprezo — não ódio mortal — é o que uma pessoa forte sente por aqueles que não têm suas forças. O forte odiará o fraco apenas se for atacado e prejudicado por ele, mas não gratuitamente, não como um impulso primário. Já a pessoa de caráter fraco (dominada pela “moralidade de escravo” descrita por Nietzsche) tende a odiar os mais fortes apenas por eles serem mais fortes — como a existência dos fortes evidencia sua fragilidade, eles representam uma “ameaça”, um “ataque”, mesmo que não tenham tomado nenhuma ação contra ela.
Essa verdade — de que o “ódio” primordial é um ódio da fraqueza em direção à força, não da força em direção à fraqueza — é o grande tabu que o cinema raramente ousa quebrar. Isso é ainda mais verdadeiro em sociedades ou eras decadentes, quando a autoestima geral da população é baixa.
Isso significa que, para ser mainstream, politicamente correto e aceito pelo público, todo conflito entre bem e mal, de uma forma ou de outra, acaba tendo que ser distorcido e apresentado como uma agressão provocada pelo forte. Isso leva, entre outras coisas, a uma falta de realismo psicológico no entretenimento: a vilões caricatos, cujo ódio parece gratuito, exagerado, irracional, sem as motivações mundanas, de lógica simples, que encontramos em conflitos da vida real.
Sim, existem pessoas “fortes” que não têm senso ético e, na busca de seus objetivos, podem atropelar os fracos — não por odiá-los, mas por não se importarem o bastante com eles, por vê-los como meros obstáculos em seu caminho. Nesse contexto, o fraco pode odiar o forte por razões legítimas — mas seu ódio será voltado contra a falta de ética de indivíduos específicos; não criará todo um ressentimento contra pessoas fortes, colocando no mesmo saco os éticos e os antiéticos. Mas esse tipo de distinção é raro entre pessoas que se colocam no time dos fracos. Pra essas, é muito mais conveniente ver os fortes sempre como opressores, os iniciadores de qualquer violência.
Outro ódio legítimo é o dirigido à pessoa obstinada por poder, por dominar outros homens, que muitas vezes consegue ser bem-sucedida economicamente, obter poder político e é confundida com alguém forte. Mas a obsessão por poder sobre os outros é sempre sinal de fraqueza de caráter, não de força. Por trás desse comportamento, há sempre um ego frágil, um ressentimento contra pessoas que o “poderoso” enxerga como ainda mais fortes do que ele — mas esse fato raramente é reconhecido pelos filmes hoje, que insistem na ideia de que o mal tem sua origem no poder.
É por causa dessa regra criada pela moralidade altruísta que dificilmente vemos filmes denunciando regimes comunistas. Discutir os males do comunismo honestamente requer que se exponha o ódio do fraco em relação ao forte, o que é um tabu. A maioria dos filmes anticomunismo acaba retratando os comunistas praticamente da mesma forma que os fascistas são retratados no cinema: autoritários, confiantes, oprimindo uma população humilde.
Os Gritos do Silêncio (1984), sobre os horrores cometidos no Camboja nos anos 70, nunca deixa claro que os Khmers Vermelhos eram seguidores do partido comunista. Se você não entender o contexto histórico, vai sair do filme com a impressão de que os Estados Unidos (fortes) foram os responsáveis pelo genocídio e que os mocinhos são os jornalistas expondo a crueldade do imperialismo ocidental.
Primeiro, Mataram o Meu Pai (2017) é um pouco melhor nesse sentido, pois, embora evite associar o Khmer Vermelho ao comunismo e culpe parcialmente os EUA no final, pelo menos expõe que os vilões são igualitários, rejeitam o luxo e a propriedade privada — características claras do comunismo. Mas a história não deixa de ser contada por uma lente altruísta, que quer que simpatizemos com os cambojanos por serem vulneráveis, simples, vítimas passivas, em contraste com os vilões assertivos e autoritários. Há toda uma atitude “humanitária” na abordagem que, pra o espectador comum, pode se traduzir em uma crítica à força excessiva.
No caso de filmes que denunciam o nazismo, já estamos tão acostumados com a ideia de os nazistas serem os “fortes” que achamos que, nesse caso, o retrato é honesto e não há controvérsia alguma. Mas será mesmo? Um dos maiores “plot twists” da minha vida adulta foi descobrir que, ao contrário do que os filmes sempre fizeram parecer, os judeus, na verdade, eram vistos como fortes pelos nazistas e pela população europeia — não como um grupo frágil, humilde, digno de desprezo. No documentário Shoah (1985), isso fica claro nos depoimentos de alguns poloneses entrevistados. Eles não descreviam os judeus como inferiores no período pré-Segunda Guerra, mas como “os mais ricos em qualquer profissão”, as mulheres mais bem vestidas etc. Ou seja, o antissemitismo também era um ódio da fraqueza direcionado contra a força, e só quando entendi isso a perseguição contra os judeus fez sentido psicológico para mim.
A crueldade dos nazistas contra um povo tão vulnerável sempre me soou um pouco estranha — mas talvez essa tenha sido a narrativa que os judeus tiveram que construir para se proteger. Judeus em Hollywood, muito espertos, sabiam que, se fossem vistos como fortes pela população, sempre gerariam desconfiança e seriam julgados como maus. Portanto, o cinema ressignificou essa dinâmica e construiu a imagem do judeu simples, humilde, oprimido pela força dos nazistas. Quando eu era criança e ouvia falar em “povo judeu”, me vinha imediatamente à mente a imagem de pessoas frágeis, “simplinhas”, mal alimentadas — o equivalente ao que se pensa hoje em relação aos palestinos. Enquanto essa narrativa se sustentou, o antissemitismo esteve em baixa. Nos últimos anos, porém, a percepção de que os judeus na verdade são os fortes voltou à atenção das massas, e o antissemitismo no mundo explodiu.
Um filme único nessa discussão e que quebra essa regra altruísta do cinema de maneira engenhosa é Dogville (2003). A artimanha de Dogville é dar a entender que a história se trata de uma crítica aos EUA. Não sei até que ponto isso foi intencional e até que ponto é reflexo das contradições do autor, mas gosto de pensar que é um truque de mestre de Lars von Trier. Ao anunciar o filme como parte de uma trilogia irônica chamada “EUA: Terra das Oportunidades”, ele confunde o espectador o bastante para que ele acompanhe a história achando que se trata de um ataque aos fortes, sem perceber que Trier está, ao longo do filme todo, fazendo o contrário — expondo a mediocridade dos cidadãos de Dogville e revelando a verdadeira origem do ódio humano: o ressentimento do fraco em relação ao forte.
Em culturas dominadas pelo altruísmo, celebrar a força é sempre politicamente incorreto, sempre impopular e arriscado. É por ir contra a moralidade altruísta — contra a ideia de que os fortes são maus e os fracos são os nobres — que o Idealismo não consegue florescer em tempos como os atuais. Quanto mais o altruísmo domina a cultura, mais o artista precisará usar artimanhas, camuflagens, ser indireto, confundir o público, se quiser desafiar esses valores sem se tornar persona non grata na sociedade.
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