Venho discutindo os perigos da IA para o entretenimento, focando mais no lado do espectador e em como os filmes podem se tornar menos impactantes para o público, mas a IA pode ser igualmente destrutiva do lado do criador.
A arte é uma das expressões máximas da potência criativa do homem. Há poucas coisas mais satisfatórias e que trazem mais plenitude do que criar uma obra da qual você se orgulhe. E o processo criativo é tão gratificante quanto o resultado final. Ter uma grande ideia é uma das experiências mais prazerosas que um homem pode ter. O ato criativo é o “orgasmo da alma”. Por essa ótica, pense no absurdo que é delegar o processo criativo à IA. Seria tão bizarro quanto ficar feliz com uma nova tecnologia que permita que um robô brinque com seus filhos por você ou faça sexo com sua esposa, já que ele pode fazer isso de maneira muito mais eficiente e lhe poupar esforço.
A autoestima é uma necessidade psicológica fundamental para o ser humano, e o trabalho criativo é onde o homem consegue a maior parte de sua autoestima. Mas autoestima vem da avaliação que você faz de si mesmo, não do que os outros acham de você. Por isso, pra ter uma autoestima autêntica, você tem que saber que é o autor do seu trabalho, que se superou, que realmente desenvolveu as capacidades que admira e está demonstrando. Se não, você está tentando obter uma autoestima falsa, baseada em uma ilusão na mente de outras pessoas.
Meu temor é que obter esse tipo de “autoestima” seja a motivação principal daqueles mais empolgados com os avanços da IA. Por que será que a IA generativa parece tão focada em Hollywood, em se desenvolver a ponto de poder imitar a arte perfeitamente? Eu não tenho nada contra a tecnologia em si. Mas há vários usos para ela fora do campo da arte que me interessam muito mais. Imagine como aplicativos de mapas podem evoluir. Imagine como vai ser mais fácil planejar um corte de cabelo, uma cirurgia plástica, visualizar uma reforma. Imagine aulas de história para crianças acompanhadas de vídeos realistas mostrando como era a Grécia Antiga etc. Tudo isso eu acharia fantástico, mas por algum motivo, estão todos obcecados em fazer filmes com IA, músicas com IA, escrever livros com IA — ou seja, fazer arte, aquilo que serve para expressar a potência criativa do homem e que, historicamente, sempre foi uma das fontes mais elevadas de autoestima e de prestígio na sociedade. É um senso de orgulho e valor pessoal que as pessoas estão buscando na IA — porém, de forma desonesta.
Vamos traçar um paralelo com as Olimpíadas. Imagine que inventem uma espécie de perna mecânica que permita que uma pessoa sedentária possa correr tão rápido quanto um atleta profissional. Eu não teria nada contra a tecnologia em si, que poderia ser usada para vários fins práticos fora do esporte — chegar mais rápido ao trabalho, passear pela cidade sem se cansar etc. Pra isso, a perna não precisaria ser ultrarrealista e se parecer exatamente com uma perna humana. Agora imagine que o usuário não esteja interessado nessas funções práticas, mas queira usar a perna mecânica para competir nas Olimpíadas. Qual é seu objetivo, nesse caso? Obter o tipo de admiração e prestígio que apenas atletas profissionais antes conseguiam. E, como ele deseja fazer o público acreditar que as capacidades da perna são suas capacidades naturais, ele precisa que a perna seja realista, indistinguível de uma perna humana.
Pense no quão ridícula é essa atitude. Não só esse homem está sendo desonesto com o público, como está confessando que a única coisa que lhe importa na vida é o que os outros acham dele. Ele sabe que não tem as virtudes que está exibindo, mas isso não importa, desde que receba os aplausos, as medalhas, os créditos sociais. Ele confessa também que não tem nenhum prazer no esporte em si. Que treinar, atingir metas, superar seus limites não lhe interessa. Que o esporte é apenas um meio para obter aplausos — e, se uma máquina puder eliminar toda a parte “chata”, melhor.
Minha esperança é que essa confusão a respeito da função da arte, tanto para o artista quanto para o espectador, leve a um cenário caótico apenas nos primeiros anos de IA, mas que, com o tempo, as pessoas comecem a cair em si e a limitar o uso da IA apenas a funções mais técnicas, “braçais”, que não destruam a dimensão criativa da arte. Veremos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário