Filmes modernos do Spielberg muitas vezes se tornam das experiências mais indigestas pra mim no cinema, pois meu apego por seu passado me torna emocionalmente refém... Não consigo simplesmente menosprezar o que estou vendo, descartar como uma estreia fraca que não é pra mim. Me sinto como a Ripley em Alien - A Ressurreição, naquela que pra mim é uma das cenas mais horrorizantes da história do cinema: quando ela entra no laboratório onde se depara com seus clones abortados, mal-sucedidos. Ela não consegue permanecer fria diante das monstruosidades que está vendo, matá-las a sangue frio, pois elas têm seu próprio rosto. Dia D pra mim é como ver Contatos Imediatos do Terceiro Grau nesse estado — elementos daquilo que eu amo ainda são reconhecíveis, forçando empatia, mas aparecem distorcidos, conectados por tecidos e protuberâncias mal-formadas que causam aversão.
O que tornou o filme indigesto pra mim se divide em várias categorias.
Muito do que me incomodou em West Side Story em termos de direção se repete aqui, como a linguagem visual excessivamente autoconsciente/chamativa que cria distanciamento dos atores e do conteúdo. Essa não é uma característica recente, do Spielberg moderno. Se você assistir a certos filmes dele dos anos 70, como A Louca Escapada, já verá esses maneirismos. Minha impressão é que Spielberg se esconde atrás de lentes e movimentos de câmera sempre que ele não está verdadeiramente conectado com a narrativa, ou então quando tenta lidar com temas mais adultos que não domina.
Assim como WSS, Dia D pra mim foi decepcionante pois é um projeto que parecia uma tentativa de Spielberg de recuperar um senso perdido de deslumbramento, de encanto, e isso acaba não ocorrendo. Temos aqui uma história que cai mais na categoria de filmes como Snowden ou Todos os Homens do Presidente do que de E.T. e Contatos Imediatos — um thriller sobre pessoas vazando um escândalo político para a mídia, mais focado em hard drives e pastas secretas do que no fascínio pela vida extraterrestre. Até porque a existência de extraterrestres não é novidade para alguns dos protagonistas. A surpresa ocorreu meses ou anos antes do filme começar (imagine se E.T. começasse no 3º ato, focando só na perseguição até a nave). Este tom mais político/social do que escapista fica evidente nas cenas em que vídeos dos aliens são mostrados para alguém: a reação é de choque, dor, indignação, como quem está vendo uma matéria sobre um genocídio, crimes contra a humanidade (às vezes parece até que os maus-tratos aos aliens nos vídeos são mais relevantes que a própria existência deles).
Extraterrestres não têm um significado emocional intrínseco. Se os associamos a algo mágico, é por causa de símbolos criados pelo próprio Spielberg no passado. Em E.T. e Contatos Imediatos, aliens representam esperança, sonhos. Mas em Guerra dos Mundos, eles já passaram a simbolizar o medo pós-11 de Setembro. Agora, em Dia D, refletem a desconfiança das instituições — viraram ganância corporativa e corrupção estatal.
Ainda que não seja meu "modo" favorito do Spielberg, consigo imaginar um filme respeitável dentro dessa proposta. O problema é que, além dessas questões conceituais todas, Dia D tem um roteiro terrível. A história é simplesmente conturbada, mal contada.
SPOILERS
Pegamos a narrativa de Daniel Kellner (Josh O'Connor) já no meio — não há muita introdução de personagem, contextualização inicial, o que limita nossa identificação com ele e sua jornada. Nossa ponte acaba sendo mais a Margaret (Emily Blunt), que é quem não sabe de nada ainda. Porém, as reações dela aos eventos do início são um pouco frustrantes. Em vez de ficar perplexa ao começar a falar novas línguas, ler mentes, ela nunca parece realmente entender a gravidade do que está acontecendo. Ela reage a tudo de maneira casual, frívola, o que cria desconexão — a personagem parece possuída, mentalmente ausente, o que diminui a grandiosidade de tudo.
Kellner, que já roubou os arquivos secretos quando o filme começa, precisa agora apenas escapar dos agentes da Wardex e divulgá-los para o mundo. Por que ele não faz logo um upload de tudo na internet é algo que nunca é realmente justificado. Ele passa 2h de filme sendo perseguido, correndo risco de vida, tentando chegar a algum lugar vago, que depois de muito tempo descobrimos ser uma estação de TV (como se a TV aberta ainda fosse imprescindível para comunicação em massa). Toda essa ação do miolo do filme, portanto, não parece muito coerente, nem necessária. O vilão também é fraco, caricato, pois não há uma motivação crível por trás de sua maldade e obsessão em proteger o segredo. Mais mal explicado ainda é o "pit stop" que precisa ser feito antes dos dois chegarem à emissora — a sequência no galpão onde está o personagem de Colman Domingo. Lá, Margaret se depara com uma réplica exata de sua casa de infância, que servirá de ferramenta psicanalítica para desreprimir memórias antigas. Mas por que isso precisa ser feito antes da divulgação dos dados? Por que a casa de Margaret, e não a de Daniel, já que ele também não lembrava de sua abdução? E como Colman Domingo já estava construindo a casa de Margaret no início do filme, sendo que ele só descobre quem ela é depois? Se ele tinha tantos dados sobre a garotinha, não seria fácil descobrir o nome dela e achá-la adulta?
Dia D começa de forma propositalmente intrigante, mostrando coisas misteriosas sem explicar nada para o público. Isso prende a atenção inicialmente porque achamos que tudo será amarrado depois... Mas quanto mais o filme avança, mais vemos que as peças não se encaixarão direito. Por exemplo: quando Hugo (Colman Domingo) diz para Daniel "Há dois de você. Sempre houve apenas 2 de vocês" e na sequência surgem círculos na plantação ao redor de Daniel — o que isso significa? Quando um filme cria ganchos mas depois não entrega as recompensas, o espectador se sente traído.
Em E.T. e Contatos Imediatos, há alguns "furos" desse tipo que vêm de Spielberg priorizar o emocional, o divertido, não o plausível. Mas não eram furos constantes que comprometiam os alicerces da história. Os filmes se passavam em um universo racional, onde o mágico tinha uma origem clara e delimitada. Dia D já parece escrito por alguém que realmente acredita no esotérico, que não sabe diferenciar o objetivo do subjetivo, fatos de emoções, que vê "poesia" no irracional etc. Nesse ponto, Spielberg se aproxima do subjetivismo típico da ficção científica moderna, enfatizando o psicológico — a casa de Margaret seria sua versão da biblioteca do final de Interestelar. O problema é que Spielberg é muito menos eficaz nesse tipo de coisa do que Nolan, que tem o irracional como língua nativa. Muito da trama acaba dependendo de intuições mal explicadas, de poderes sem regras, efeitos sem causas claras. O artefato alienígena, por exemplo, pode ao mesmo tempo servir de telefone, controlar mentes e corpos, tornar qualquer coisa invisível, religar a energia... A eventual vitória dos mocinhos é frustrante pois deve-se a esse artefato mágico que resolve tudo.
Outro problema do roteiro de Dia D é querer abordar uma série de questões e temas intelectuais sem saber se aprofundar na maioria deles. A relação dos traumas de Margaret com os aliens poderia ter sido foco de um filme inteiro (alguém entendeu a crise de pânico no meio dos pianos?), os dilemas religiosos renderiam outro filme, os conflitos geopolíticos outro, a discussão sobre lógica vs. empatia outro. Em vez de adicionar camadas e tornar a história rica, isso gera apenas ruído, poluição cognitiva.
Os filmes antigos do Spielberg eram simples. Havia sofisticação na execução, mas as histórias eram baseadas em desejos básicos. Eram como deliciosos cheeseburgers. Hoje, talvez Spielberg tenha perdido o paladar para esses sabores elementares. Ou talvez tenha se tornado tão lendário, haja tanta pressão e auto-importância em seus projetos, que ele acha que precisa enfiar todo tipo de ingrediente exótico no cheeseburger para impressionar, abafando no processo o sal, a gordura, o açúcar — os sabores que realmente dão prazer. Dia D é um filme que parece não localizar onde está o prazer do espectador — algo que já foi especialidade e meta explícita de Spielberg. A história está sempre desviando do que seria realmente interessante, complexificando o que não precisava ser complexo, causando pequenos estranhamentos gratuitos (pense na escolha de abrir o filme com uma imagem desconexa de um lutador de wrestling saltando na câmera).
Quando entrei na sala, eu queria ver pessoas se maravilhando com a aparição de aliens; céticos se deparando com o impossível. Isso não acontece — ou as pessoas já sabem sobre eles, ou não eram céticas pra começo de conversa, e reagem com um espanto indefinido, não maravilhado, mas também não apavorado (o que ainda seria divertido). Eu queria ver uma profissional ambiciosa, subvalorizada no emprego, tendo a chance de apresentar o maior furo de reportagem de todos os tempos. Isso não acontece, pois não há foco suficiente nas ambições profissionais de Margaret; não é enfatizado que ela é subvalorizada, e ela sinceramente parecia ter mais vocação para garota do tempo do que para âncora de jornal. Eu queria desvendar os segredos por trás de um grande mistério — o que não ocorre porque toda a mitologia dos aliens e a backstory são confusas, mal explicadas. Queria ver a aventura aproximando personagens gostáveis, formando laços novos e profundos — mas saímos nos lembrando mais da deterioração de dois namoros do que da aproximação entre Margaret e Daniel, que mal dá tempo de acontecer no meio de toda a correria (a única cena que achei de fato tocante no filme foi o primeiro encontro entre os dois, quando Margaret resgata Daniel de dentro do trailer dos vilões, e temos um gostinho desse vínculo). Eu queria ver um mundo afundando em guerra e pessimismo sendo transformado para melhor com a revelação dos aliens — o que não chegamos a ver porque o filme acaba de forma abrupta, no meio da transmissão, antes daquilo ter qualquer consequência.
Nem mesmo as cenas de ação pura achei eficazes, pois há descuidos que as fazem parecer meio tolas, como a maneira como os agentes da Wardex nunca enxergam Daniel escondido atrás de galhos secos e espaços totalmente abertos; ou o carro que engancha no trem de forma impossível só para ter alguma movimentação.
Outra decepção vem de uma tática desonesta de marketing, que inseriu no trailer aquela cena da nave saindo de dentro da nuvem à la Independence Day, como se fosse o grande momento do filme. Isso faz todo mundo pensar que o clímax de Dia D envolve uma chegada espetacular dos aliens, sendo que a cena faz parte apenas de imagens de arquivo que passam em um monitor, tornando o final ainda menos satisfatório. Em vez de pessoas boquiabertas olhando para um evento cósmico nos céus, o grande evento aqui é uma jornalista fazendo uma transmissão bombástica — que por acaso tem aliens como assunto.
A verdade é que Spielberg talvez nunca tenha tido um grande controle sobre o impacto emocional de seus filmes. O encanto não era resultado de valores sólidos, técnicas conscientes, mas das circunstâncias de um período de sua vida, onde diversos fatores e motivações se convergiram para produzir aquele tipo de cinema. O que é consistente ao longo de sua filmografia, e que continuamos vendo em Dia D, é o domínio da imagem — a linguagem visual objetiva, estimulante, e o alto valor de produção. Mas isso também tivemos nos fracassos, como 1941 e O Bom Gigante Amigo. O Spielberg que me emociona, que é o maior representante do Idealismo no cinema, infelizmente não é esse constante, intencional, mas aquele que foi possível durante duas décadas quando as estrelas se alinharam.
Disclosure Day / 2026 / Steven Spielberg
★★
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