
NOTAS DA SESSÃO:
- Não me empolga muito a cena inicial no trânsito. O plano sequência parece apenas pra chamar atenção pro diretor, não pra criar uma cena melhor. A música não é muito boa, nem a coreografia. Só se destaca pelo simples fato de ser uma sequência musical nos dias de hoje - não por apresentar uma série de boas ideias ou algo de especialmente criativo ou bonito.
- Visualmente o filme também não sabe falar a língua dos musicais. Planos-sequência dão um senso de improviso, realismo, deixam momentos de vazio e silêncio - o que é o oposto da atitude do gênero musical. Detalhes como a cena em que a câmera fica no centro da piscina girando enquanto as pessoas dançam em volta revelam a falta de tato do cineasta. Pra que colocar "Cinemascope" no início do filme, ficar fazendo referências saudosistas à Hollywood, se a intenção do filme na verdade era a de desconstruir os musicais? Minha postagem
Idealismo Corrompido resume bem o filme.
- A personagem da Emma Stone não é apresentada como alguém especialmente interessante, carismática. Não sabemos se ela tem qualquer talento. O filme quer que a gente se identifique com ela apenas pelo fato dela não ter sucesso e se sentir "injustiçada".

- A direção é ruim. O diretor fica exibindo seu estilo às custas da história. Está tão preocupado com seus planos-sequência que mal registra o rosto do Ryan Gosling quando o personagem é apresentado (em compensação, não hesita em fazer pequenas sequências com cortes rápidos, closes em objetos aleatórios, instrumentos musicais, pra dar a impressão de que o filme é "bem editado").
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Idealismo Corrompido: o filme não é um musical de fato. Não é feito pra quem gosta e entende de musicais. Ele é feito por alguém que considera musicais (e entretenimento popular em geral) algo superficial (veja como eles zombam de forma horrível do pop dos anos 80). A própria expressão "La La Land" já é carregada de cinismo, e a tagline do pôster diz "Para os tolos que sonham"! Musicais de verdade inspiram sonhos - são sobre beleza, espetáculo, talento, diversão, otimismo - criam um mundo ideal na tela pro deleite do espectador. Esse aqui é um filme (mediano) sobre realismo, frustrações da vida adulta, que apenas faz referências aos musicais como maneira de enfatizar a frustração dos personagens. Ele é sobre a incapacidade de chegarmos naquele ideal. É um "musical" muito mais como
Once (
Apenas Uma Vez) ou
One From the Heart - mas que age como se estivesse honrando os musicais da MGM - e é essa contradição que torna tudo meio hipócrita.
- O romance não é envolvente. Não há conflitos interessantes que os impedem de ficar juntos, não ficamos torcendo por eles. Mal entendemos direito que a Emma Stone já tem um namorado. O filme não desenvolve em nada esse conflito. Se o filme tivesse diálogos inteligentes, personagens bem escritos, profundidade psicológica, eu poderia perdoar o fato dele fracassar como musical e curtir como se fosse um filme do Woody Allen. Mas ele também não é bom dessa forma.
- É sintomático que o personagem do Ryan Gosling seja um amante de jazz - alguém que provavelmente despreza os musicais (pelas coisas que ele diz). O discurso dele em defesa do jazz é muito mais energético do que qualquer coisa que o filme diga a respeito de Los Angeles, Hollywood, etc (embora seus argumentos a favor do jazz sejam terríveis - o fato de um artista sofrer não torna sua arte necessariamente melhor).
- Não gostei de nenhuma música até agora (um piano calmo e uma voz aerada não tornam uma música automaticamente sofisticada - sou bem mais a canção da
Moana). E as sequências musicais não são bem integradas à narrativa, motivadas por mudanças significativas na história, nas emoções dos personagens. Quando o Ryan Gosling canta "City of Stars", é uma cena sem nenhuma relevância que poderia ter sido cortada. Não é como se ele tivesse acabado de conhecer a Emma Stone e estivesse encantado (tipo "Maria" de
West Side Story). Eles já se viram várias vezes.
- A cena do vôo no planetário representa bem o que digo em Idealismo Corrompido (faz o romance parecer uma coisa meio fútil, fantasiosa, um sonho distante). E não faz sentido eles criarem um grande momento na cena do beijo, como se fosse um grande acontecimento no roteiro. Foi a primeira vez que eles se beijaram? O que os estava impedindo antes? Que mudança interna ocorreu em algum deles pra eles se beijarem só agora?
- Roteiro ruim, cheio de sub-tramas mal desenvolvidas. A banda do John Legend virou um sucesso? A peça que a Emma Stone escreveu já está pra estrear? Sobre o que é? Quem ajudou ela a montar? São acontecimentos importantes no filme e não participamos de nada disso. Essas pessoas têm amigos? Família? Os personagens são meio artificiais.
- SPOILER: No fim a Emma Stone consegue o papel justamente pra um filme que não tem roteiro, e onde ela não tem que atuar no teste de elenco. Apenas conta uma história triste de sua infância e é escalada! Em vez de mostrar ela fazendo algo realmente memorável, provando seu talento, o filme quer que o público torça pela mocinha por ela ser meio frágil e desiludida (toda a ênfase está nas fragilidades da protagonista, e pouco vemos do que ela tem de interessante).
- A sequência de sonho no final tenta homenagear musicais como
Sinfonia de Paris, etc, mas acaba sendo triste ver que mais de 50 anos depois não conseguem fazer algo à altura em termos de dança, visual, etc.
- SPOILER: Muito mal explicada a ideia de que os 2 tiveram que terminar o relacionamento por causa do trabalho. Ela só ia ficar uns meses em Paris gravando o filme. A impressão que fica é que o vínculo entre os dois não devia ser tão forte assim. Mas se o Ryan colocou o nome do bar de "Seb's", quer dizer que ele gostava dela de fato. Então por que eles ficaram 5 anos sem se ver? Ninguém tem telefone nesse filme? Houve algum outro conflito que não foi mostrado? Dá a impressão que o filme é puro estilo, "conceito", não tem nenhuma preocupação com conteúdo, narrativa, coerência emocional (e ainda ousa sugerir que os musicais antigos é que eram superficiais!). É um final triste forçado, enfiado no roteiro de forma pouco convincente, só porque o cineasta deve achar que finais tristes são mais profundos que finais felizes.
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CONCLUSÃO: Não tem nem o espírito nem o talento dos musicais que finge homenagear, mas também não satisfaz como romance para o público adulto.
La La Land / EUA / 2016 / Damien Chazelle
FILMES PARECIDOS: Apenas Uma Vez (2007) / Across the Universe (2007) / Todos Dizem Eu Te Amo (1996) / O Fundo do Coração (1981)