A moralidade do altruísmo é talvez a maior vilã da civilização ocidental segundo a filosofia do Objetivismo. Ayn Rand certa vez disse: “Se alguma civilização quiser sobreviver, é a moralidade do altruísmo que os homens terão de rejeitar.”
Embora eu concorde que, em termos de ideias filosóficas, o altruísmo talvez seja a mais perigosa para a sociedade, não acho que ele seja a origem dos grandes males do mundo, como alguns objetivistas sugerem.
Pra mim, o altruísmo é, primeiramente, uma ferramenta de controle e manipulação — uma ideia que permite que pessoas obtenham o imerecido, tenham acesso aos recursos dos outros, sem precisar recorrer ao roubo ou a métodos mais explícitos de extorsão.
A origem do mal, portanto, é o parasitismo/predatismo humano, o “egoísmo irracional” — o altruísmo é apenas uma estratégia intelectual. Se convencêssemos todo mundo a abandonar o altruísmo enquanto conceito, os problemas da sociedade não desapareceriam. Os parasitas e predadores apenas não teriam mais essa estratégia para usar e passariam a recorrer a táticas mais diretas, como provavelmente faziam antes da civilização moderna.
Sim, lutar contra a moralidade do altruísmo é importante. Mas quando objetivistas falam como se os seres humanos fossem de fato altruístas em suas intimidades, vítimas indefesas dessa falsa moralidade, eles soam pouco convincentes, pois, intuitivamente, todo mundo sabe que o egoísmo irracional explica muito melhor o comportamento humano.
Todos já ouvimos histórias de supostos humanitários ou altruístas que, no fim, foram expostos e se revelaram abusadores, pessoas horríveis. Agora, quão comum é o contrário: você encontrar uma pessoa que age com base no auto-interesse no dia a dia, mas é flagrada fazendo atos altruístas entre quatro paredes que ninguém deveria ter visto? (Não valem esses ricos que fazem atos públicos de caridade e ganham status com isso.)
Vale apontar também que a pessoa que se sacrifica — a suposta “vítima” da moralidade do altruísmo — muitas vezes aceita esse papel porque pretende, futuramente, lucrar com essa moralidade. Por exemplo: imagine que alguém que você não valoriza te peça um enorme favor, como ficar um mês hospedado na sua casa ou servir de acompanhante por vários dias em um hospital. Você precisa ter um grande senso de autoconfiança e independência pra recusar esse tipo de pedido — sentir que, se um dia estivesse numa situação parecida, você não dependeria do sacrifício de ninguém para ter suporte (teria dinheiro o bastante, pessoas que verdadeiramente te amam e gostariam de te ajudar etc.). Agora, quando você não tem essa confiança, você se sente obrigado a ajudar, porque sabe que sua vida também depende dos sacrifícios alheios. Nesse caso, você não está sendo apenas vítima da moralidade do altruísmo: você a adota porque também é adepto do parasitismo/predatismo humano.
A porcentagem da população que é puramente vítima da moralidade do altruísmo, na minha percepção, é muito pequena — quase irrelevante para discussões culturais amplas. Portanto, não acho que a mensagem mais fundamental do objetivismo no campo da moralidade deva ser a mensagem anti-altruísmo. A grande mensagem — aquela que realmente soa verdadeira, faz as pessoas questionarem suas atitudes — é a mensagem anti-parasitismo, anti-egoísmo irracional: de que devemos ser justos, controlar nossos impulsos de tirar vantagem, de trapacear, mentir, e agir corretamente mesmo quando ninguém está vendo. É a cena de Howard Roark deixando de ganhar uma fortuna como arquiteto porque se recusou a abrir mão de seus princípios.
Dizer que as pessoas devem ser egoístas em vez de se sacrificarem o tempo todo soa como uma mensagem excêntrica e meio inútil, pois o principal desafio da maioria das pessoas, na verdade, é aprender a perseguir seus interesses de maneira não destrutiva, não predatória. Essa capacidade é o grande diferencial de um objetivista, aquilo que uma pessoa de fora olha e pode admirar, por entender que é algo nobre e difícil de fazer.
Portanto, ao condenar a moralidade do altruísmo, acho importante identificá-la como uma ferramenta de controle e apontar o verdadeiro mal por trás de sua prática e de sua popularidade.
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