sábado, 24 de janeiro de 2026

Pecadores

ANOTAÇÕES:

(Os comentários a seguir foram baseados nas notas que fiz durante a sessão.)

- A cena inicial do Sammie chegando machucado na igreja com o violão é um prólogo esquisito e anticlimático — até porque essa cena nunca se provará crucial para a narrativa. (Acho que o produtor mandou inserir isso só para avisar a plateia de que haverá ação mais pra frente, já que o filme irá enrolar horas até qualquer coisa acontecer).

- Dizer que não havia diferença entre Chicago e o interior do Mississippi na época é aquele insulto desonesto contra os EUA que faz você parecer moralmente superior hoje.

- Toda a primeira parte do filme é sobre Smoke e Stack recrutando pessoas para o bar que irão inaugurar. Mas isso não é um gancho narrativo. Por que eu deveria torcer pelo sucesso desses dois, se eles claramente são gângsters de caráter duvidoso? A única coisa que gera certa curiosidade até agora é a promessa do prólogo de que algo violento e sobrenatural irá ocorrer mais pra frente.

- Há muitos diálogos aleatórios sobre o passado dos personagens, as injustiças que sofreram, mas é aquele desenvolvimento de personagem solto que não contribui em nada para a trama — além disso, você precisa simpatizar com pessoas corruptas para se importar com esses dramas pessoais.

- As cenas e diálogos envolvendo sexo nesse filme são gratuitamente nojentos. O fato do roteirista que escreveu essas falas estar indicado ao Prêmio da Academia deveria ser suficiente para descreditar o evento.

- Aos quarenta e poucos minutos, descobrimos que estamos vendo um filme sobre vampiros! Óbvio que não é literalmente um filme de terror, assim como A Substância não é terror, e Bacurau não é faroeste. É apenas uma desconstrução de gênero típica de quem está mais preocupado em parecer original do que em contar uma boa história. (A mistura de filme de gângster/Lei Seca com filme de vampiro, por si só, já daria ao filme aquele ar excêntrico de produções como Cowboys & Aliens ou Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros — mas o filme soma outras bizarrices em cima disso).

- Assim como o prólogo, essa cena do vampiro na casa foi só para relembrar o espectador de que algo excitante irá acontecer no futuro — mas não ainda! Continuamos vendo um filme arrastado sobre criminosos inaugurando um bar.

- Não é nada convincente que, em um único dia, eles tenham conseguido contratar toda a equipe do bar e organizar tudo para a inauguração.

- O filme é descaradamente anti-brancos. De início, achei que eles tinham inserido pelo menos uma personagem branca boa na história pra mostrar que o problema não é cor de pele. Mas o motivo dela ser do bem é “explicado” pelo fato do avô dela ser mestiço! Mesmo assim, depois ela acaba sendo a vampira que se infiltra no bar e dá início ao caos.

- O filme é escrito naquele estilo de minissérie de TV. Não há um protagonista claro, ficamos alternando entre diversos dramas paralelos, o foco todo está em diálogos que enchem linguiça e não avançam a história, etc. Já estamos em uma hora de projeção e ainda não há sinal de vampiros se aproximando.

- A cena musical com os artistas negros de várias eras é uma das mais ridiculamente pretensiosas que já vi. O filme já tinha apresentado elementos de fantasia, mas não essa linguagem simbólica/surrealista, na qual o diretor rompe com o realismo físico pra “filmar ideias” e passar mensagens diretamente ao público. Há uma mudança brusca de linguagem e uma tentativa de enfiar uma reflexão histórica abrangente na trama que nada tem a ver com os assuntos que vinham se desenvolvendo até agora. É tão fora de contexto que tiveram até de repetir a narração mitológica do início, se não o espectador nem ia lembrar que essa discussão esotérica sobre música fazia parte do enredo.

- Outro problema dessa cena é que ela universaliza o conflito racial. Não é apenas um problema local, de um momento histórico, mas um duelo metafísico, atemporal, em que um lado é sempre o opressor e o outro sempre o oprimido.

- Está me lembrando esses filmes sobre cultura oriental, tipo K-Pop Demon Hunters, Ne Zha 2, que são sempre um duelo entre duas “energias” opostas, uma do bem e outra do mal (música negra vs. música branca aqui), e nada precisa ter muita lógica na trama, pois tudo funciona num nível simbólico.

- Ideologicamente, esse é talvez o filme mais perigoso do ano, porque ele traz uma perspectiva extremista de esquerda (ataque aos EUA, aos brancos/ricos, aos padrões morais), mas a apresenta de forma sedutora para pessoas mais alinhadas com a direita (por ter testosterona, falar em tradições, não ser woke, não subverter masculinidade, papéis de gênero, ser alinhado com certos temas cristãos, etc.). Não é como Uma Batalha Após a Outra, cujo discurso seduz mais quem já é de esquerda.

- Lá pela 1h20, os protagonistas finalmente descobrem a presença de vampiros e a ação principal se inicia. Mas é aquele tipo de conflito que espera que você torça por um dos grupos só porque o outro é ainda pior, não porque o primeiro tenha reais virtudes.

- Sinceramente, Michael B. Jordan, Delroy Lindo e Wunmi Mosaku não têm atuações dignas de Oscar. A única atuação desse filme que se destacou pra mim foi a do Miles Caton (Sammie), que tem uma voz surpreendente — e ele não foi indicado. Pegue a cena em que um dos gêmeos morre após ser mordido por Mary: a reação do Michael B. Jordan à morte do irmão deveria ter sido um grande momento, mas não é interessante nem intensa o bastante. Mosaku também não tem cenas muito expressivas. E o “mérito” do Delroy Lindo é mais trazer uma ironia que deturpa a seriedade do filme, como na cena: “Estão sentindo um cheiro? Acho que me ca****”.

- A fotografia e o design de produção do filme são ótimos, e dão uma embalagem de “filme premiável” a um roteiro que, de fato, não merece.

- Agora que há uma ação mais concreta, o roteiro se revela tão tolo quanto o de qualquer filme rotineiro de horror/ação. Os personagens já testemunharam eventos claramente sobrenaturais, mas continuam agindo e reagindo de maneira burra, como se ainda não tivessem percebido que estão diante de vampiros. Sem falar na coisa mais sem sentido de todas, que é a mulher oriental de propósito liberar a entrada dos vampiros no bar.

- As lutas são o típico videogame de filmes de ação modernos: pessoas despreparadas matando diversos monstros bem mais fortes do que elas como se fossem bonecos de papel machê.

- Mesmo que fosse um filme mais coeso narrativamente, com um protagonista gostável, provavelmente eu não gostaria muito do filme, porque ele cai um pouco naquela categoria de filme de zumbi, em que o horror não leva a uma aventura empolgante, mas a conflitos entre amigos, mortes de entes queridos, sacrifícios, etc.

- Nada faz sentido depois que eles saem do bar e vão para o lago. Como aquele disco metálico do violão do Sammie atravessou o crânio do vampiro? Ah, não importa, é a simbologia da música! Por que os outros vampiros ficaram lá parados, gritando, em vez de atacar os humanos? Como o sol nasceu tão rápido? Por que eles não se esconderam da luz? Os humanos acabam vencendo a batalha por acidente, e graças à burrice dos vampiros.

- Agora temos de novo a cena do Sammie chegando na igreja, que ainda não sei por que foi escolhida para ser o prólogo.

- Depois de derrotar os vampiros, inventam agora uma batalha extra contra os homens da KKK, que soa desnecessária. Já houve uma vitória contra os brancos maus e racistas; que efeito terá mais uma? Na verdade, o filme deveria ter sido inteiro sobre gângsters negros querendo abrir um bar e lutando contra a KKK. Os vampiros é que foram enfiados no filme sem necessidade. Mas agora fica simplesmente estranho tentar resolver um conflito com um segundo grupo de vilões em uma cena breve no final.

- Sammie velho tocando blues nos anos 90, como se fosse uma biografia de um músico, é a aleatoriedade perfeita para terminar um filme com tantos elementos desconexos. Como disse antes no blog, o filme é “o tipo de subversão de gênero misturada com comentário social que eu esperaria de um cineasta como Jordan Peele, não de Ryan Coogler. Vem nessa onda de filmes autorais desajeitados que, na tentativa de se provarem ‘não formulaicos’ e de atender à atual demanda por obras originais, jogam fora todos os princípios narrativos — inclusive os que não deviam.”

- Por que Pecadores recebeu 16 indicações aos Prêmios da Academia? Porque é um filme que promove de forma brilhante a ideologia corrupta da instituição. O fato de ser um “filme negro”, por si só, não explica o favoritismo — basta lembrar de A Cor Púrpura (2024), que recebeu 1 única indicação.

Sinners / 2025 / Ryan Coogler

A Teleologia do Prêmio

A corrupção dos valores da Academia tem um efeito negativo na indústria que é pouco discutido, porque poucos reconhecem um fato: que muitos cineastas fazem filmes justamente pelo desejo de ganhar um “Oscar”. Nossa tendência é achar que cineastas têm motivos sofisticados para fazer filmes, tomam decisões baseadas puramente em visões pessoais, considerando no máximo os espectadores — e que os Prêmios da Academia existem em uma dimensão paralela que nada interfere no processo criativo. Mas isso está longe de ser verdade. Uma das plateias que os cineastas mais trabalham para agradar é a própria Academia. Isso significa que as preferências da premiação têm o poder de moldar os filmes que são feitos — pelo menos aqueles que buscam prestígio, reconhecimento da crítica etc. (há sempre os filmes que se contentam apenas com bilheteria).

Todo ano, quando saem os indicados aos Prêmios da Academia, eu reviro os olhos e tento imaginar uma seleção alternativa, pensando quais filmes daquele ano seriam indicados a Melhor Filme caso o Oscar tivesse preservado seus valores. O problema é que esses filmes sequer foram feitos. Como o que ganha prêmio hoje são filmes com uma vertente mais autoral/experimental ou mais naturalista/social, o artista que quer ganhar prêmios acaba contaminando seu processo criativo com esses critérios. Ele não vai continuar tentando agradar a Academia de 40 anos atrás. Só fará isso hoje quem não se importar demais com prestígio e acreditar tanto nesses valores que esteja disposto a seguir com sua visão, abrindo mão de troféus, da aceitação das “autoridades” etc.

A verdade é que poucos artistas são tão independentes assim, especialmente no cinema, que depende de mídia, de retorno financeiro e da colaboração de centenas de pessoas. Não que isso justifique alguém corromper sua visão a ponto de se tornar um queridinho da crítica atual. Mas também não quero invalidar totalmente a necessidade de aprovação externa, o desejo de ser reconhecido por profissionais experientes e bem estabelecidos da sua indústria. Dentro de certos limites, esse é um desejo humano racional.

Por isso, acho um crime o fato de praticamente todas as instituições que dão esse reconhecimento hoje estarem alinhadas com ideais corrompidos. Não é estranha a falta de diversidade ideológica nas premiações? Todo ano parece que os mesmos cinco ou dez filmes rodam todos os eventos recolhendo os prêmios: Cannes, BAFTA, Globo de Ouro etc. Antigamente, alguns prêmios para filmes populares, como o MTV Movie Awards, operavam por critérios diferentes e ainda tinham certa relevância. Hoje, nenhum prêmio alternativo tem qualquer impacto cultural. Portanto, se você não se alinhar com os valores corrompidos da crítica, você simplesmente ficará sem o “prestígio”.

É por isso que, se a Academia realmente estiver além da salvação, seria importante que outra instituição preenchesse esse vácuo e criasse um prêmio que exercesse sua função antiga: premiar filmes narrativos de grande impacto cultural, que unam apelo popular com qualidade técnica e artística e, acima de tudo, tenham um compromisso com elevação moral e excelência humana.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Cultura - Janeiro 2026

22/1 — Reação Inicial: Indicados aos Prêmios da Academia 2026

Imagine que você está andando na rua e recebe uma cantada. Você pode até ficar envaidecido por um momento, se assumir que o autor do elogio é criterioso, racional. Agora imagine que instantes depois ele repita o mesmo elogio a um cavalo que passa. Sua emoção muda totalmente, pois os critérios do galanteador são colocados em xeque. É mais ou menos essa a experiência que eu tenho vendo premiações de cinema hoje em dia — acompanho tudo com uma completa indiferença no que diz respeito aos resultados. No momento em que você começa a ficar alegre com o reconhecimento de um filme merecedor, você lembra que os filmes mais tediosos do ano estão na mesma disputa e com mais chances de vencer.

O fato mais risível desta edição dos Prêmios da Academia (até que criem um apelido mais apropriado, vou evitar o termo “Oscar”) são as 16 indicações para Pecadores. A mídia vai dizer que o filme quebrou o recorde de todos os tempos, superando as 14 indicações de Titanic e A Malvada, ignorando totalmente (e propositalmente) o fato de que o prêmio mudou de critérios e de identidade nas últimas décadas, preservando apenas o rótulo. Se você quiser exaltar esse feito de Pecadores, a forma mais honesta de dar a notícia é: “Pecadores quebra recorde e recebe 3 indicações a mais que Emília Pérez!”.

As indicações para O Agente Secreto são coerentes, se você levar em conta a nova realidade da Academia. O filme fez uma boa campanha, está ideologicamente alinhado com a agenda política dos votantes e traz o engajamento dos “torcedores de futebol” brasileiros nas redes sociais de quebra. Nos tempos de Cidade de Deus, porém, o filme provavelmente teria rodado alguns cinemas do circuito alternativo no Brasil e nunca chegado aos ouvidos dos votantes.

Uma Batalha Após a Outra é o segundo filme com mais indicações (13) e é outro filme extremamente ideológico desta edição. Até entenderia o reconhecimento em categorias como Fotografia e Edição — mas 4 indicações de atuação já indicam uma simpatia exagerada pelo filme (e seus personagens) que tem origens duvidosas.

O único filme que acho merecedor na disputa para Melhor Filme é Marty Supreme, mas não torço nem deixo de torcer por qualquer vitória.

O vídeo abaixo é do ano passado, mas vale repostar:

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

Uma dessas “biografias” ou filmes históricos desconstruídos que primeiro escolhem se passar em um ambiente onde algo extraordinário está ocorrendo, só pra ir contra as expectativas e focar no ordinário. Durante a maior parte do filme, o nome de Shakespeare sequer é pronunciado, e nenhuma importância é dada ao seu trabalho. A abordagem é Naturalista e todo o foco está na rotina familiar, nos momentos singelos entre ele, sua esposa e os filhos. Há uma certa romantização do rústico, do místico, do estilo de vida primitivo que, assim como em Sonhos de Trem, parece vir de uma aversão à ciência e à civilização moderna.

Tudo vai bem até que uma série de infortúnios aleatórios começa a acontecer e, em vez de uma rotina banal, passamos a contemplar sofrimento, dor, morte, luto — e é aí que o filme encontra sua razão de ser. Se algo explica o favoritismo de Jessie Buckley na temporada de prêmios, são seus diversos urros de dor, que representam o sacrifício feminino.

Nada importa aqui o fato de William Shakespeare ser um gênio que moldou a cultura ocidental. O que importa, em primeiro lugar, é a grande mulher por trás dele. Na medida em que ele é relevante, o que deve nos interessar é o fato de que ele sofreu e de que ele era falho como todos os maridos, sempre colocando o trabalho acima da família. Londres — simbolizando a modernidade, a carreira — é mostrada como um lugar feio, decadente, quase como um prostíbulo onde Shakespeare precisa ir pra dar vazão a seus instintos inferiores.

Nas mãos de um diretor mais ressentido, teríamos aqui o palco perfeito pra um ataque ao legado de Shakespeare. Porém, Chloé Zhao aposta em uma “ressignificação” mais elegante, em que todas essas mensagens são transmitidas sem que o filme precise ser espalhafatoso para manchar a imagem de ninguém (Zhao faz com Shakespeare algo parecido com o que faz com a Amazon em Nomadland).

Estranhamente, o filme termina em uma nota positiva, exaltando Hamlet e perdoando Shakespeare parcialmente por suas falhas como pai. Mas nada me tira da cabeça que essa sequência final não foi encomendada e co-dirigida por Spielberg, produtor do filme. Não só por ela destoar de todo o resto (Agnes subitamente muda de caráter e se torna a esposa ingênua e incentivadora, encantada com o brilhantismo do marido), como por alguns detalhes de direção muito característicos de Spielberg nos minutos finais (os gestos manuais, a música, a despedida emocionante enquanto alguém atravessa uma porta para outro mundo). Em vez desse final me fazer gostar mais do filme, ele só me fez sair da sala mais contrariado, como se uma energia spielbergiana tivesse sequestrado o filme pra maquiar a intenção de Zhao, revelando falta de integridade em ambas as partes.

Hamnet / 2025 / Chloé Zhao

sábado, 10 de janeiro de 2026

Marty Supreme

Uma das poucas boas surpresas dessa temporada. Joias Brutas (dirigido por Josh Safdie ainda junto com o irmão Benny) foi um dos filmes mais esteticamente desagradáveis que já vi. Em 2025, os irmãos resolveram se separar e lançar cada um seu longa solo. Benny fez The Smashing Machine e Josh fez Marty Supreme. Como The Smashing Machine teve uma direção bem menos caótica que Joias Brutas, eu estava achando que Josh é que se provaria o irmão niilista da dupla, e entrei na sala esperando ser torturado por 150 minutos. No fim, me deparei com um filme agitado, excêntrico, às vezes até histérico, mas muito mais controlado do que eu esperava, e que nunca pareceu hostil em relação ao espectador. (Ou seja, talvez a interação dos dois seja o que criava o caos.)

Não é o tipo de história que costuma me atrair (lembrei bastante do Scorsese dos tempos de Touro Indomável ou Os Bons Companheiros), mas o que me conquistou foi a originalidade e a qualidade geral da obra; a alta Densidade Criativa do roteiro e o “Fator G” elevado da produção. É o oposto da superficialidade intelectual que senti em O Brutalista. Aqui, o universo parece totalmente crível, e o cineasta parece estar falando de conflitos e pessoas com os quais conviveu e tem bagagem pra discutir. Há tanta informação nos diálogos e na construção de mundo que é como se estivéssemos consumindo em velocidade normal algo que foi pensado em ultra câmera lenta (toda boa obra de arte, na verdade, deveria dar essa sensação).

Mas e quanto ao teor da história? Provavelmente haverá muito debate quanto à mensagem do filme, que não é das mais claras. Estava esperando que tudo não passasse de uma crítica cínica à ganância e à busca desenfreada por sucesso. Mas, assim como Joias Brutas, o filme é mais sofisticado que o normal; evita generalizações e não cai no ataque raivoso clichê ao capitalismo. Está mais pra uma narrativa positiva de sucesso em que o protagonista, por acaso, tem sérios problemas de caráter do que pra um cautionary tale contra a ambição.

Seria um caso de Idealismo Corrompido? Eu diria que não — que o filme cai mais na categoria de Idealismo Crítico. Isso porque os positivos aqui são retratados como positivos, e os negativos como negativos. O filme tem plena noção dos problemas de Marty e não os romantiza nem os justifica. Ao mesmo tempo, suas virtudes são apresentadas de maneira atraente, inspiradora (muito do mérito aqui é da performance excelente de Timothée Chalamet, que consegue andar nessa corda bamba preservando o carisma do personagem). Essa distinção moral é a marca do Idealismo Crítico saudável. No Idealismo Corrompido, o filme está sempre criando inversões de valores e apresentando virtudes sob uma luz negativa.

Sim, Marty Supreme tem um Senso de Vida misto: reflete um artista ambicioso, que acredita no sucesso, mas tem uma visão conflituosa de mundo que faz com que ele dê protagonismo e importância existencial a figuras problemáticas como Marty. Mas Safdie lida com esse conflito de maneira mais consciente e madura do que o artista malevolente padrão. Em uma entrevista recente, ele disse:

“Eu cresci cercado por algumas pessoas falhas na minha vida, e não tive escolha a não ser admirá-las. Acho que isso moldou a empatia com que eu costumo enxergar as pessoas. Às vezes isso é ruim. Às vezes dói, te coloca em enrascadas, porque você sabe… pode acabar se apaixonando por alguém que vai te machucar de alguma forma. Mas, ao mesmo tempo, isso abre o seu coração e permite que você veja o lado bom das pessoas e meio que releve algumas das coisas ruins — a menos que elas sejam realmente pessoas más.”

Ou seja, Marty Supreme é como se fosse Safdie duelando consigo mesmo e tentando decidir como lidar com o misto de admiração e condenação que sente por certas pessoas em sua vida. (Fiquei com a impressão de que, apesar da história se passar no tempo de seus avós, no fundo Josh está falando sobre a era de seus pais — a ambição característica dos yuppies dos anos 80, o que ajudaria a explicar os anacronismos propositais da trilha sonora.)

Marty Supreme tem questões mal resolvidas no nível da mensagem, e a conclusão do filme se torna menos satisfatória por causa disso. Safdie não parece ter uma tese ainda sobre o tema que resolveu abordar, mas pela maneira como ele lida com os personagens ao longo da história, sua investigação pelo menos caminha em uma boa direção.

Marty Supreme / 2025 / Josh Safdie

domingo, 4 de janeiro de 2026

Temporada 2025

2025 pra mim foi um dos piores anos da história do cinema — não só pela ausência de grandes filmes, mas pela qualidade média do cinema mainstream, que atingiu um ponto tão deprimente que acho que só não provoca uma revolta maior no público por causa de algum fenômeno tipo a síndrome do sapo na panela.

Em outros anos, me indignei mais com as mensagens e os valores projetados nos filmes. Não que isso tenha melhorado muito, mas a questão da qualidade básica das obras — especialmente na área de roteiro — foi o que mais me chamou a atenção em 2025.

É a primeira vez que chego ao final de um ano não só sem nenhuma avaliação máxima, mas também sem nenhum filme “4 estrelas”, o que deve me impossibilitar de criar um Top 10 minimamente aceitável (não tenho grandes expectativas em relação aos filmes do Oscar que estreiam entre janeiro e fevereiro).

Se algo meio que “salvou” o ano pra mim, foi um punhado de filmes comerciais sem grandes pretensões, que deixaram um pouco as agendas ideológicas de lado, se propuseram apenas a criar um entretenimento leve e foram bem-sucedidos nisso. Entre esses, destacaria Lilo & Stitch, Como Treinar o Seu Dragão e Um Filme Minecraft.

O fato desses filmes, que nem foram tão excepcionais assim, terem sido enormes sucessos de bilheteria me dá certa esperança de que os espectadores ainda têm salvação — de que o problema mais grave está nas instituições, nos estúdios, nas lideranças atuais etc. Continuo acreditando na minha teoria de que “Filmes Nota 6”, alinhados com princípios Idealistas, teriam capacidade de reerguer a indústria.

Infelizmente, não vejo nenhum movimento que aponte para um 2026 muito melhor. Meus mais aguardados, por enquanto, são Dia D, Michael e A Odisseia — mas em relação a Michael e A Odisseia, tenho mais uma curiosidade quanto ao tema e à abordagem do que uma esperança de que serão ótimos filmes de fato.

Já não tenho mais expectativas em relação ao entretenimento em geral, nem em relação ao Oscar. O ano passado pra mim foi como se a cultura americana tivesse finalmente morrido. Se as coisas melhorarem no futuro, estará mais pra uma ressurreição do que pra uma mera recuperação. Ainda assim, continuarei aqui, acompanhando tudo e deixando meus comentários sempre que achar relevante.