sexta-feira, 28 de abril de 2017

Guardiões da Galáxia Vol. 2

NOTAS DA SESSÃO:

- Sinais de Romantismo Reprimido / Herói Envergonhado desde as primeiras cenas: o visual ridículo do Kurt Russell jovem, que ao mesmo tempo homenageia e zomba dos anos 80, ou os Guardiões lutando contra o monstro enquanto a câmera foca no Baby Groot dançando - o que não faz o menor sentido, só serve pra mostrar pra plateia que o filme não leva heroísmo a sério, que essa história toda de salvar a galáxia é apenas um pano de fundo, um boneco de vodu que o filme monta pra depois ter o prazer de torturar.

- Chris Pratt é sempre uma graça em cena, e dessa vez o humor às custas dele não incomoda tanto quanto na parte 1.

- As cenas de ação são péssimas, confusas visualmente, mal dirigidas (por exemplo, a perseguição de naves quando a Ayesha está atrás das baterias / a queda da nave no planeta). É tudo extremamente exagerado, sem nenhum realismo, clareza ou respeito pelo bom senso (os filmes de ação atuais parecem ter prazer em romper cada vez mais com a realidade).

- A trama também é um pavor. Essa história deles estarem sendo perseguidos por causa do roubo de algumas baterias é um conflito banal demais (se essas baterias fossem tão vitais a ponto de iniciarem uma guerra intergaláctica, teria sido tão simples de um guaxinim roubá-las como se fossem balas num supermercado?). A sub-trama do cara azul (Yondu) e do Stallone é mal apresentada. Será que é algo que deveríamos lembrar do primeiro filme? Depois tem a trama do Taserface, do Rocket que é capturado, e tem também a história da irmã da Gamora que quer se vingar, e o Chris Pratt indo pro planeta do pai (essa turma parece que não está nem aí pra história das baterias). Quem é o vilão do filme? A mulher dourada? A irmã da Gamora? O Taserface? O Kurt Russell? Qual o rumo da história? O protagonista que é o Chris Pratt mal aparece, não faz nada de útil, ficamos perdendo tempo nessas sub-tramas desinteressantes. Há aquela sequência interminável do Rocket preso e o Baby Groot tentando pegar uma "crista" pra soltá-los. É um roteiro mal estruturado, irracional... Tentar consertá-lo mentalmente é tão inútil quanto ficar apontando erros de ortografia numa sopa de letrinhas - o propósito nunca foi ter ordem. O filme quer divertir apenas através do "humor", do carisma dos personagens (bem na linha Esquadrão Suicida).

- O filme fica fazendo piadas em momentos inapropriados, envolvendo vilões, personagens que não são cômicos, colocando músicas alegres em momentos aleatórios, só pra reforçar a "brand" da franquia que deu certo - e não porque o humor surgiu organicamente das cenas.

- A Zoe Saldana (Gamora) é extremamente antipática, está sempre emburrada. Será que era pra gente estar torcendo por um romance entre ela e o Chris Pratt?

- Detestável essa irmã da Gamora. Ela tem ódio da irmã pelo fato dela ser mais virtuosa, é uma invejosa assumida, e em vez do filme vilanizá-la, ele mostra ela com certa dignidade, como se fosse pro espectador se identificar e respeitar a figura do perdedor rancoroso.

- SPOILER: Mais pro final o filme finalmente ganha um conflito mais dramático e envolvente, quando o Kurt Russell se revela um vilão e quer usar o Chris Pratt pra ajudá-lo a expandir seu império. O problema é que a partir daí começam a ficar mais explícitos os valores malignos do filme - a atitude anti-autoestima, anti-razão (Alerta Vermelho). Pra começar o monstro do filme se chama "Ego". Ou seja, o ego, a ambição, o individualismo, é o grande vilão que ameaça toda a vida e precisa ser destruído. O Kurt Russell é uma energia criadora infinita, capaz de gerar planetas inteiros e coisas belíssimas com o poder de sua vontade - mas alguém assim, obviamente, só pode ser um assassino sanguinário que não liga pra outras pessoas, pra amigos, não tem empatia, e está pronto pra destruir qualquer um que entre em seu caminho. E o símbolo disso tudo o que é? O cérebro!!! É literalmente um cérebro gigante (a razão, a lógica, a inteligência) que os heróis precisam encontrar e explodir pro mundo ser do jeito que eles querem. Não me surpreende que um filme tão irracional, tão medíocre e sem talento queira viver em um mundo sem inteligência e sem ego.

- Toda a ação final é um caos tedioso que dá preguiça de comentar. É tudo tão falso fisicamente, as regras são tão arbitrárias... O Ego com um poder tão grandioso, do tamanho de um planeta, iria permitir que os heróis entrassem em seu núcleo? A Mantis iria fazê-lo dormir tão facilmente? (Nesses filmes não importa o tamanho do monstro, há sempre um ponto fraco que pode ser atingido sem esforço, destruindo a coisa toda de maneira tediosa).

- Fico chocado com algumas frases: "O Ego quer destruir o universo, precisamos impedi-lo!". É incrível que hoje em dia um vilão possa se chamar "Ego" sem que isso soe grotesco pra plateia. Que decadência desde os anos 80, onde a Xuxa lutava contra o "Baixo-Astral", e isso é o que era considerado uma ameaça à vida no senso comum.

- SPOILER: O Chris Pratt vence o vilão quando finalmente rejeita o Ego, e diz que não vê problemas em não ser excepcional, em ser igual a todo mundo. Daí o cérebro explode, o pai "perfeito" é destruído, e o Chris Pratt é salvo pelo pai imperfeito que é um criminoso e que o explorou a infância toda (claro que Yondu se mata, pois sem um ato de auto-sacrifício desnecessário no final o filme não estaria completo). O herói aprende que a perfeição não era o que ele imaginava (a noção de ideal dele era o David Hasselhoff!), e sim a banalidade que já estava ao seu lado. Ele perdoa o pai bandido e explorador, a Gamora faz as pazes com a irmã monstruosa e invejosa que tentou matá-la o filme inteiro, e o filme encerra com uma grande queima de fogos em celebração do imperfeito, do fraco, do medíocre.

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CONCLUSÃO: Medíocre em valores, mas principalmente em cinema.

Guardians of the Galaxy Vol. 2 / EUA / 2017 / James Gunn

FILMES PARECIDOS: Esquadrão Suicida (2016) / Homem-Formiga (2015) / Operação Big Hero (2014) / O Homem de Aço (2013) / Os Aventureiros do Bairro Proibido (1986)

NOTA: 2.5

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Paterson

NOTAS DA SESSÃO:

- Naturalismo: O filme é um retrato tedioso da rotina de pessoas comuns sem nada de especial - o protagonista é um motorista de ônibus numa cidadezinha esquecida que sonha em se tornar um poeta (e pelas coisas que ele escreve não fica claro que ele tem qualquer talento), a namorada vende cupcakes mas sonha em ser uma estrela da música country (quando obviamente não tem a menor vocação pra isso). É quase como se o filme tivesse tirando sarro das ambições dessas pessoas, ao mesmo tempo em que demonstra carinho por elas, por acreditar que essa é condição de toda a humanidade. O sentimento por trás do filme é o de que somos todos perdedores, pessoas medíocres com expectativas ilusórias em relação à vida que nunca iremos atingir.

- O filme não quer contar uma história, criar uma experiência positiva pro espectador, se contenta apenas em fazer pequenas observações a respeito do comportamento humano, pra mostrar a "sensibilidade" do cineasta. Mas repare que todas essas observações reforçam o tema de que o ser humano é um fracassado: os homens feios no ônibus tentando dar a impressão de que são desejados por mulheres, o colega de trabalho que não perde uma oportunidade pra falar de seus problemas, o cara no bar apaixonado por uma mulher que o rejeita, o bar decadente que coloca fotos de sub-celebridades na parede pra tentar ganhar certo glamour, etc. A "sensibilidade" do cineasta no fim consiste em sua habilidade de observar o lado patético do ser humano.

- A personagem mais medíocre de todas é a namorada. Paterson ainda parece ter a decência de saber que é um fracassado. Mas ela não - ela realmente acredita ser especial, acredita que suas receitas são deliciosas quando na verdade são horríveis, acredita ser criativa e "artística" quando na verdade tem péssimo gosto. E o que é mais repulsivo é a maneira como o filme a retrata: não como uma figura patética, exagerada, uma exceção digna do riso da plateia, e sim como alguém normal, uma garota bonita, de bom coração, que poderia ser uma de nós na plateia. É quase como se o cineasta estivesse ameaçando o espectador, dizendo "é melhor você não pensar que é especial ou qualquer coisa além do medíocre, pois eu estarei aqui com meu gosto requintado e minhas lentes especiais enxergando sua verdadeira essência".

- O filme fica criando uma série de padrões e coincidências aleatórias: o nome do protagonista é Paterson, a cidade se chama Paterson, na estante há um livro com o nome Paterson. A namorada sonha que tinha engravidado de gêmeos, e a partir daí o protagonista vê uma série de gêmeos na cidade. A garotinha fala em cachoeira, e no jantar há um quadro com uma cachoeira na parede. Isso é uma tolice só pra dar a sensação de que o filme tem estrutura, "rimas internas", como nas poesias - mas na prática é uma "forma" totalmente desconectada de propósitos narrativos, da experiência do espectador. É como um cara com TOC que acende a apaga a luz dezenas de vezes pra se dar uma falsa sensação de ordem, quando sua vida na verdade é uma zona.

- O cineasta não sabe que há um limite pra quantas vezes você pode mostrar planos de cachorro num mesmo filme pra tirar reações "fofinhas" da plateia.

- O relacionamento do casal é deprimente. Ele escreve poesias dizendo o quanto a namorada é vital pra ele, mas na prática não vemos essa admiração ou apego. Ele parece vê-la como a loser que ela é. Por exemplo, a reação dele quando ela diz que vai comprar um violão pra se tornar artista country, ou quando ele prova a torta que ela fez e acha horrível, mas não fala nada pra não magoá-la. O protagonista nunca diz o que pensa. Ri de piadas no bar quando não acha a menor graça. É um cara reprimido, frustrado, que vive na mediocridade e não faz nada pra sair dela.

- Qual o sentido do encontro com o oriental no banco? Mais coincidências, padrões aleatórios, pessoas tolas, momentos embaraçosos. E no fim a semana acaba, volta a ser segunda-feira, e a chatice toda irá recomeçar.

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CONCLUSÃO: História tediosa feita por alguém que despreza as pessoas, a vida e a plateia.

Paterson / EUA, França, Alemanha / 2016 / Jim Jarmusch

FILMES PARECIDOS: Flores Partidas (2005)

NOTA: 1.5

sábado, 22 de abril de 2017

Vida

NOTAS DA SESSÃO:

- A falta de originalidade tira um pouco da estatura do filme no começo. Não só pela premissa lembrar muito a de Alien, o Oitavo Passageiro, mas o plano-sequência inicial (são mais de 5 minutos sem cortes) parece querer imitar o início de Gravidade, outro filme do mesmo gênero.

- SPOILER: A cena da luva onde o "Calvin" ataca pela primeira vez é muito tensa e eficiente (a mão do cientista quebrando, etc). E logo na sequência há a morte chocante do Ryan Reynolds - que impressiona não só pelos detalhes gráficos (o sangue saindo da boca em gravidade zero), como também pelo fato do filme eliminar um de seus astros tão cedo na história, criando uma sensação meio Psicose de que qualquer um pode morrer daqui pra frente.

- Todas as cenas de ação são bem tensas: por exemplo a mulher do lado de fora da nave, não só tendo que lutar contra o alien, mas ao mesmo tempo se afogando e com dificuldades pra enxergar por causa da água no capacete.

- Só é forçado o alien conseguir entrar de volta na nave uma vez que ele estava lá fora. Se a nave é tão vedada que nem o ar de dentro consegue escapar, como ele iria entrar? Nem se ele fosse totalmente líquido teria como ele entrar por uma "fresta". Sem falar que mais pro final fica claro que o bicho não pode sobreviver sem muito oxigênio. Como ele ficou esse tempo todo lá fora no espaço?

- Uma coisa que enfraquece um pouco o filme (em comparação com Alien), é a ausência de personagens fortes e carismáticos. Os tripulantes não têm muita personalidade - não chega a ser um prazer ver essas pessoas lutando contra a criatura (como era um prazer ver a Sigourney Weaver, por exemplo). E não só os humanos não têm muita personalidade, como o alien também não tem muita personalidade. É quase como um conjunto de células, uma planta carnívora mal humorada, não é um ser com uma consciência, uma identidade forte, como era o Xenomorph. Ainda assim os personagens são decentes, e a direção é realista o bastante pra gente se envolver na situação.

- Alguns detalhes meio forçados, como o Calvin estar preso na perna do Hugh e ninguém ter percebido; ou então quando chega a nave de "resgate", e o Sho abre a comporta por engano e deixa o Calvin entrar e matar todo mundo (até parece que seria tão fácil assim abrir essas comportas em estações espaciais).

- SPOILER: Não funciona direito a cena em que o Jake Gyllenhaal e a Miranda, percebendo que são os últimos sobreviventes e que poderão morrer, começam a conversar sobre suas infâncias de maneira melancólica, etc. Os personagens não foram desenvolvidos o bastante pra um momento "intimista" como esse tocar a plateia. O filme funciona melhor quando é pura ação.

10 Tendências Irritantes em Hollywood #5 - claro que no final o mocinho teria que cometer um ato de auto-sacrifício pra se provar um herói.

- SPOILER: É divertido o conceito do final surpresa, porém ele não foi muito bem preparado - acaba parecendo forçado, enfiado no roteiro só porque o diretor se apegou à ideia. Não é bem explicado por que o Jake Gyllenhaal tinha que se sacrificar, escapar em uma cápsula, a Miranda em outra... A sequência é dirigida de maneira propositalmente confusa pra despistar a plateia, de forma que quando os pescadores se aproximam da cápsula no mar, o espectador mais experiente já sabe que quem está lá dentro não é a Miranda. E como o Calvin não é um monstro muito carismático (não é tipo um Xenomorph ou um Jason, por exemplo), não há aquele prazer em descobrir que o vilão ainda está vivo e pronto pra mais matança. É um choque (o que é bom pra um final), mas um meio deprimente.

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CONCLUSÃO: Premissa não muito original, com um final duvidoso, mas o filme é bem eficiente em seus momentos de suspense / terror.

Life / EUA / 2017 / Daniel Espinosa

FILMES PARECIDOS: Passageiros (2016) / Gravidade (2013) / Prometheus (2012)

NOTA: 6.5

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Velozes e Furiosos 8

NOTAS DA SESSÃO:

- Divertido o racha inicial (embora seja extremamente forçado). É meio clichê a ideia do mocinho ter que competir usando uma ferramenta pior que o rival, e vencer mesmo assim, provando de uma vez por todas sua superioridade. Só que aqui eles empurram esse conceito até os limites, dando um ar de fantasia pra tudo: Vin Diesel está com o carro mais podre de Cuba, e o rival está com o melhor e mais rápido - e mesmo assim Diesel vence!

- Interessante a ideia do Vin Diesel passar pro time dos "maus". Ficamos querendo descobrir o que foi que a Charlize Theron mostrou pra ele pra convencê-lo.

- O filme tem várias ideias divertidas de ação, mas sempre às custas da lógica: Diesel entrando de carro no avião, ou a bola de demolição destruindo vários carros, etc. A cena de luta na prisão é quase surrealista de tão exagerada. Pelo menos o filme mantém o tom leve e divertido, não foca na violência e em sentimentos de ódio como John Wick.

- Difícil lembrar do último filme pra saber se faz sentido o Vin Diesel ter um filho com essa ex ao mesmo tempo em que está num relacionamento estável com a Michelle Rodriguez. Pelo menos o sequestro justifica as atitudes do Vin Diesel e cria uma motivação mais ou menos eficaz (mais ou menos porque essa mulher e essa criança surgiram do nada na história, é um coelho tirado da cartola, não são personagens que fazem parte da narrativa pelos quais realmente nos importamos). Mas acaba prendendo a atenção, até pelo fato do Diesel estar "traindo" os amigos e eles ainda não saberem a razão.

- Falsa a cena em que o Vin Diesel finge parar pra consertar o carro e dá uma "fugidinha", bate o maior papo com a Helen Mirren, e a Charlize Theron não percebe nada pelas câmeras.

- Um exagero essa cena dos carros andando sozinhos em piloto automático. Tudo isso só pra capturar aquela limousine? Os roteiristas pensam assim: "não seria legal se tivesse uma cena onde acontecesse a ideia X envolvendo carros?". E daí eles dão um jeito de enfiar essa ideia na história sem nenhuma preocupação em justificá-la racionalmente.

- É engraçado como cada etapa da trama "exige" que os protagonistas apareçam com seus carros, estejam eles em aviões, na Rússia, no meio do gelo... É como se eles fossem uns Transformers: não há uma identidade pessoal que possa ser separada dos carros. Eles usam carros como se fossem peças de roupas.

- SPOILER: Mal explicada (e previsível) a "ressurreição" do Jason Statham.

- Tirando os absurdos envolvidos (por exemplo o fato do submarino estar navegando numa velocidade altíssima a ponto de alcançar os carros), essa sequência toda do submarino é muito divertida. O filme funciona pois ele é construído em torno de set pieces de ação espetaculares e feitos com muita energia. Infelizmente o desprezo do filme pela realidade destrói parte da magia. A admiração que sentimos pelos personagens fica no plano da fantasia. O filme acaba promovendo o tipo de autoestima e otimismo baseados em misticismo que eu descrevi na postagem Por Que a Esquerda É Mais Inteligente que a Direita.

- Esse é o 8º Velozes e Furiosos mas parece que é a vigésima vez que vejo esse final feliz morno com os amigos todos reunidos num "churrasco" comemorando.

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CONCLUSÃO: Roteiro pouco lógico que serve apenas pra justificar as cenas com carros, mas a premissa é razoavelmente envolvente e as sequências de ação garantem um bom entretenimento.

The Fate of the Furious / EUA / 2017 / F. Gary Gray

FILMES PARECIDOS: Missão: Impossível - Nação Secreta (2015) / Terremoto: A Falha de San Andreas (2015)

NOTA: 6.5

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Eu, Daniel Blake

NOTAS DA SESSÃO:

- Naturalismo: o filme é um retrato superficial de pessoas comuns, "vítimas" da sociedade, que não têm objetivos ou vidas interessantes. O protagonista é simpático, mas o filme quer apenas conscientizar o espectador a respeito da situação de certa parte da população - coloca a função social / jornalística do filme acima de valores artísticos, acima da experiência cinematográfica.

- Não há uma história interessante e bem contada, é apenas um relato de como é complicado pra um senhor de idade conseguir seguro desemprego - uma denúncia da burocracia, do péssimo "atendimento", etc. Mas mesmo que você assuma que é dever do governo cuidar da população (o que eu discordo), ainda é uma história tediosa de assistir.

- Tudo o que pode dar de errado pro protagonista, dá errado (ele não sabe usar computador, quando aprende, o site dá erro, etc). A mentalidade por trás do filme é a mesma de pessoas que gostam de se fazer de vítimas: falar o tempo todo dos próprios problemas e dizer que a culpa é dos outros.

- O protagonista é tão azarado que não apenas não pode trabalhar, não tem dinheiro guardado, não tem parentes e amigos para socorrê-lo, como não tem habilidade o bastante pra conseguir ajuda do governo, pois o processo é muito burocrático. E isso é mostrado como se Daniel Blake fosse um cidadão comum, não uma trágica exceção, tudo pra reforçar a ideia de que o ser humano é incapaz, que o governo é imprescindível, precisa crescer e se responsabilizar por todos.

- O filme não mostra por que esses personagens chegaram a essa situação. Se foi uma tragédia realmente imprevisível e não-merecida, ou se foi por falta de planejamento, esforço, responsabilidade ao longo da vida, etc. Por mais triste que seja, ainda não é um argumento a favor do socialismo. O único ponto válido do filme é que, já que o protagonista pagou impostos a vida toda, agora seria justo ele ter direito a certos benefícios. Isso sim. Mas o filme seria mais interessante se fosse um alerta contra o governo, por mostrar que mesmo nos países mais ricos ele é ineficaz quando tenta se responsabilizar pela população - mas não, apesar de tudo, ele parece exigir mais e mais governo.

- O filme glamouriza o auto-sacrifício: acha virtuoso que o protagonista, apesar de idoso, doente e numa situação terrível, doe seu tempo e esforço pra ajudar uma família necessitada; ou então que a mãe deixe de comer seu jantar pra alimentar um desconhecido, etc. Os protagonistas são todos admiráveis por serem altruístas, e o "sistema" fica parecendo injusto por recompensar as pessoas de acordo com mérito, e não de acordo com generosidade e benevolência.

- 1 hora de filme e ele ainda está tentando preencher formulários pro seguro desemprego! Essa é certamente uma das histórias mais chatas que alguém poderia ter pensado. Não surpreende ser o grande vencedor do Festival de Cannes.

- SPOILER: No fim, tudo é culpa dos outros. Como o governo não sustenta a população direito, a vida dos personagens se torna uma desgraça: a filha começa a sofrer bullying na escola por usar roupas velhas, a mãe é forçada a se prostituir, o protagonista morre, etc. O filme tem uma narrativa ascendente "bem sucedida", mas o "valor" que é satisfeito ao longo da história é o da vitimização: conforme a história progride, mais e mais os protagonistas sofrem nas mãos do governo, chegando ao clímax que é a morte. Nesse sentido, é uma narrativa "satisfatória", mas apenas para aqueles que enxergam a vitimização como algo atraente.

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CONCLUSÃO: Propaganda esquerdista tediosa.

I, Daniel Blake / Reino Unido, França, Bélgica / 2016 / Ken Loach

FILMES PARECIDOS: Dois Dias, Uma Noite (2014)

NOTA: 4.0

terça-feira, 11 de abril de 2017

Mulheres do Século 20


Um dos filmes mais pessoais e psicologicamente sensíveis que vi no último ano, provavelmente pelo fato do diretor Mike Mills ter baseado a história em sua infância, tornando os personagens extremamente convincentes. A personagem da Annette Bening é particularmente fascinante (certamente merecia uma indicação ao Oscar) - uma mulher madura e relativamente conservadora lutando pra se conectar com o próprio filho e entender (sem muito sucesso) a geração mais jovem, que nos anos 70 estava deslumbrada com feminismo, punk rock e coisas do gênero (há muitos paralelos com os dias de hoje).

A história tem uns toques Naturalistas, uma narrativa não muito direcionada, mas os personagens são tão bem escritos, os diálogos tão interessantes, que o filme se mantém vivo do começo ao fim.

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20th Century Women / EUA / 2016 / Mike Mills

FILMES PARECIDOS: Manchester À Beira-Mar (2016) / Álbum de Família (2013) / A Lula e a Baleia (2005) / Em Seu Lugar (2005) / Laços de Ternura (1983)

NOTA: 8.0

segunda-feira, 10 de abril de 2017

A Cabana

NOTAS DA SESSÃO:

- O filme começa bem - tem um visual bonito, o mistério da carta e o sumiço da filha prendem a atenção, o protagonista é gostável e dá abertura pro espectador não-religioso se identificar com ele (por mostrar que tem senso crítico, que tem questionamentos a respeito de Deus, etc).

- Meio forçado ele ser levado de helicóptero até a cabana pra ver a cena do crime. De qualquer forma, é uma cena forte que cria uma base sólida pra história.

- Todo o trecho da volta dele à cabana é bem interessante: a mudança no clima, a cabana restaurada, a ideia dos 3 personagens representarem o pai, o filho e o espírito santo, etc. E a reação do protagonista é convincente, faz a gente comprar a ideia do que está acontecendo.

- O problema é que daí pra frente o filme começa a entrar em questões mais "técnicas" da religião e vai perdendo a força. O Sam Worthington levanta um ponto interessante quando pergunta pra Octavia Spencer por que Deus permitiu que a filha dele morresse de forma tão cruel, etc. Daí ela faz cara de sábia, diz uma série de frases confusas, e não responde nada.

- Por se basear em religião, o filme também acaba promovendo algumas ideias nocivas intelectualmente: a de que não devemos julgar o que é certo ou errado, que Deus é a única autoridade em questões éticas, que precisamos do sobrenatural pra termos qualquer senso de otimismo, etc.

- Um absurdo a cena da caverna com a Alice Braga. O que ela diz basicamente é que ninguém é culpado de nada - se um homem comete um assassinato, é porque seus pais devem ter tratado ele mal na infância, e assim por diante.

- O que prova o desafio que ela coloca pro Sam Worthington, de ter que escolher entre os dois filhos? O filme fica criando uns "twists" mentais pra confundir o espectador e conseguir se safar sem responder as questões difíceis. No fim nada é esclarecido, ficamos apenas confusos, com a sensação de que o universo é complexo demais pra entendermos, portanto melhor confiar no que Deus fala e parar de raciocinar.

- A Octavia Spencer no fim diz que o mal existe porque é obra do demônio, não de Deus. Então Deus não é todo poderoso? Não pode proteger quem acredita nele? Então por que a ideia Deus deveria dar conforto pra qualquer pessoa, já que ele não pode parar as forças do mal?

- Toda essa conversa não ajudou em nada o protagonista a superar a morte da filha. Não foram os ensinamentos que ajudaram ele no final, e sim o fato de que ele teve o privilégio de falar pessoalmente com Deus, teve a prova de que existe vida após a morte, pôde VER a filha com os próprios olhos e saber que ela está feliz no paraíso, etc. Assim qualquer um ficaria curado do sofrimento. Mas e todo o resto da humanidade que nunca terá esse tipo de experiência? Outro problema é que isso reforça a ideia de que, sem o sobrenatural, a realidade seria trágica e não haveria como ser verdadeiramente feliz.

- Não fica claro qual o propósito do reencontro dele com o pai. O filme é sobre a morte da filha. Encontrar o espírito do pai não tem nada a ver com a história - é só pra ter mais um momento de catarse e dar a impressão que a experiência na cabana foi ainda mais transformadora.

- Um absurdo ele ter que perdoar o assassino da filha. Não sentimos que houve uma real compreensão aqui da parte dele. Ele só perdoou o cara porque foi pressionado por Deus, mas foram palavras vazias.

- SPOILER: Como narrativa é interessante esse final meio Contato mostrando que ele nem chegou a voltar à cabana - que ele sofreu um acidente no caminho e tudo o que rolou aconteceu na cabeça dele. Ainda assim, é o velho apelo pro subjetivismo - Deus não pode ser provado, é tudo uma experiência pessoal, se a fé curou sua tristeza isso já prova que ela é real, etc. Saímos do cinema com as mesmas dúvidas que entramos.

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CONCLUSÃO: Bem realizado e com um começo envolvente, mas perde a força quando começa a querer justificar a religião racionalmente e a dar lições de autoajuda.

The Shack / EUA / 2017 / Stuart Hazeldine

FILMES PARECIDOS: Além da Vida (2010) / Um Olhar do Paraíso (2009) / Amor Além da Vida (1998)

NOTA: 5.5

sábado, 8 de abril de 2017

Princípio da Ascensão

O Princípio da Ascensão é o princípio estético que diz que uma obra deve evoluir ao longo do tempo - que o nível de satisfação do espectador deve ir aumentando conforme a obra caminha em direção ao fim. Claro, isso vale apenas pras artes temporais como o cinema, a música, o teatro e a literatura - e não para a pintura ou a escultura, por exemplo, que são são artes estáticas.

"O primeiro mandamento de toda arte temporal é: Guarde o melhor para o final." - Robert McKee

De onde vem esse princípio?

O ser humano é naturalmente atraído por narrativas ascendentes: por coisas que evoluem e parecem estar caminhando para um futuro melhor do que o presente e o passado - como uma flor se desabrochando ou uma criança nos primeiros anos de vida. Pense em algo que acontece na vida real: até os 20 e tantos anos, a natureza garante uma espécie de narrativa ascendente pro ser humano, pois seu corpo e seu intelecto estão num processo automático de evolução (na maioria dos casos). É por isso que celebrações de aniversários de crianças costumam ser muito mais cheias de otimismo do que as de alguém na meia-idade. Após essa fase da juventude, a natureza não nos garante mais uma narrativa ascendente automática num nível biológico: é responsabilidade do adulto continuar se desenvolvendo de outras formas se ele quiser preservar algum entusiasmo ao seu redor (desenvolvendo seu caráter, sua mente, produzindo coisas mais importantes, se tornando mais bem sucedido, etc).

Coisas que ficam estagnadas ou perdem energia e se deterioram ao longo do tempo são naturalmente deprimentes para o ser humano, pois nos remetem ao processo de morte. Uma narrativa ascendente representa pro subconsciente uma espécie de vitória momentânea sobre a morte - é como se durante aquela experiência, a ordem natural das coisas tivesse magicamente sido invertida. Em vez de o tempo avançar em direção ao tédio e à tristeza, ele avançou em direção à alegria e à vida.

Vamos pensar no sexo: se o orgasmo fosse a primeira coisa que acontecesse no contato entre 2 pessoas e daí pra frente a experiência se tornasse menos e menos prazerosa, não haveria um incentivo pras pessoas continuarem o ato por muito mais tempo. É justamente o fato do sexo ser uma narrativa ascendente em direção a um clímax que o torna um "entretenimento" atraente pra tantas pessoas (num nível puramente físico). É por isso também que, em uma refeição, tendemos a comer a salada primeiro e a sobremesa por último, e que os fogos de artifício tendem a acontecer no final de um evento.

Já numa obra de arte, temos que ir além do nível sensorial. Precisamos caminhar em direção a emoções mais satisfatórias e a significados mais satisfatórios. Se você começa um filme com uma cena de ação onde o herói enfrenta meia dúzia de bandidos, e ao longo do filme vai colocando mais e mais bandidos pra lutar contra o herói, terminando numa grande batalha com centenas de pessoas, isso NÃO é uma narrativa ascendente. Se a ação estiver divorciada de valores e emoções, após 2 ou 3 cenas de luta o filme cairá na monotonia independente do número de pessoas na tela. Nesses casos há também o problema da repetição:

"A lei dos Rendimentos Decrescentes diz o seguinte: Quanto mais vivenciamos algo, menos efeito aquilo tem. Uma experiência emocional não pode ser repetida muitas vezes seguidas com o mesmo efeito. O primeiro sorvete de casquinha é uma delícia. O segundo não é mau. O terceiro te deixa enjoado." - Robert McKee

Pra garantir uma experiência satisfatória, o artista não só precisa entender os diversos tipos de desejos do espectador, mas também saber dosar e orquestrar a satisfação desses desejos criando uma narrativa ascendente.

Não adianta ter uma narrativa monótona, entediar o espectador por horas, e no final vir com um momento surpreendente que arrebate a plateia. Desde o começo já deve haver a promessa de algo desejável no horizonte. Uma isca - ou diversas iscas - que provoquem determinadas vontades no espectador, que serão satisfeitas aos poucos pelo artista.

"Uma composição musical requer que você mantenha sua plateia mais interessada no que irá acontecer do que naquilo que está acontecendo agora. Mesmo quando um momento maravilhoso está ocorrendo numa canção, os ouvintes estão subconscientemente aguardando o próximo "momento". É isso que significa construir energia ao longo de uma música, e é isso o que chamamos de forma. É indicar sutilmente que algo de bom irá ocorrer. Esse senso constante de antecipação é crucial. Seja na letra, na instrumentação, na dinâmica ou em outro aspecto da composição." - Gary Ewer

O Princípio da Ascensão não se aplica apenas à estrutura da obra como um todo, mas também a segmentos menores da estrutura. Nos melhores filmes, cada cena é construída de forma a criar uma pequena narrativa ascendente com um pequeno clímax, assim como cada ato da história. Não apenas o livro como um todo pode ter uma estrutura ascendente satisfatória, mas também cada capítulo e cada parágrafo. Esses picos ao longo da narrativa devem ser seguidos de momentos mais calmos onde a energia volta a cair, pra que um novo ciclo se inicie buscando picos mais altos, culminando no clímax. Nós sempre precisamos de recompensas a curto e a médio prazo se quisermos ter energia pra perseguir objetivos a longo prazo.

A (quase) exceção que às vezes encontro pra essa "lei" da ascensão é no caso de obras que pretendem ser um grande êxtase do começo ao fim: em vez de começarem num nível baixo de energia e irem crescendo aos poucos, elas já começam numa grande explosão e tentam apenas manter o nível até o final (afinal, antes do Princípio da Ascensão vem o Princípio do Prazer, que é ainda mais fundamental). Mesmo nesses casos, alguma dinâmica ainda é necessária pra que o tédio eventualmente não tome conta - só que em vez dessas obras representarem uma curva inclinada para cima, a "linha" está o tempo todo no alto, com apenas alguns picos surgindo de vez em quando pra não deixar o interesse cair (isso é mais comum em músicas do que em filmes, afinal é impossível manter alguém em êxtase por 2 horas).

Não estou sugerindo aqui que toda obra de arte deva buscar um grande êxtase, que essa curva ascendente deva sempre ser dramática e atingir os picos mais altos. Uma obra pode ser perfeitamente bem sucedida com uma ascensão sutil, sem atingir os extremos. O importante é manter o senso de que a curva está indo para cima e não para baixo - de que se o espectador acompanhar a obra até o final, algo que ele deseja mais do que ele tem agora irá acontecer (o que tem muito a ver com o vídeo que fiz sobre motivação de personagem).

"Seres humanos são organismos caçadores de objetivos. Não estamos felizes a não ser que estejamos caminhando para atingir algo que queremos" - Brian Tracy

Esse princípio é um dos mais fundamentais e universais no mundo da arte e do entretenimento, e é um que parece estar sendo cada vez mais ignorado na cultura popular. Até algumas décadas atrás, era parte do senso comum que uma obra deveria buscar uma curva ascendente - crescer em intensidade, em complexidade, em significado, em estímulo, em emoção, em beleza. O propósito da arte em geral costumava ser o de entreter, sem medo de alimentar os prazeres naturais e instintivos do espectador. Até obras comerciais medianas e sem grande valor artístico muitas vezes funcionavam, pois estavam seguindo fórmulas e clichês que respeitavam esses princípios básicos. O Princípio da Ascensão nunca foi uma técnica avançada, um segredo dos grandes gênios, e sim algo tão óbvio e intuitivo que nem precisava ser explicado de maneira teórica.

Algo parece ter mudado no senso comum dos artistas, e esse princípio hoje em dia existe mais como uma convenção antiga que as pessoas às vezes seguem sem saber por que. Pegue por exemplo a noção de que uma canção deve ser divida em versos e refrões - e que o refrão deve ser mais prazeroso que o verso. Isso já garante algum nível de ascensão na maioria das composições, mas alienados dos prazeres do espectador e sem entender o Princípio da Ascensão, os músicos atuais param por aí. Se você ouve uma música até o primeiro refrão hoje em dia, você provavelmente já ouviu tudo o que ela tem a oferecer em termos de evolução. Os próximos versos e refrões serão parecidos e não apresentarão nada de muito mais satisfatório musicalmente. Nos sucessos do passado, era comum você ter que esperar até a ponte ou o último refrão pra ouvir seu trecho favorito da música - o momento mais virtuoso do vocalista, a variação mais bonita da melodia ou do arranjo. A música estava sempre evoluindo - às vezes até durante o fade out, se você aumentasse o volume, era possível ouvir um último "momento".

Ao contrário de uma regra artificial, o Princípio da Ascensão libera o artista pra ser mais criativo, mais expressivo e inovador. Entendendo essa lei básica, Hitchcock por exemplo se sentiu livre pra assassinar sua protagonista no meio de Psicose - algo que jamais seria recomendado num livro de técnicas e fórmulas de roteiro, que tendem a engessar o artista. Ele sabia que desde que ele conseguisse criar uma nova narrativa ascendente após a morte de Marion Crane, e fazer o espectador continuar buscando algo na narrativa além do que ele já teve, o filme não perderia a força. Ou então Kubrick em 2001: Uma Odisséia no Espaço, que foi muito além ao quebrar com regras narrativas, criando uma história sem protagonistas - ou melhor, onde o protagonista é a humanidade em si. Ele sabia que enquanto a plateia estivesse intrigada com o monolito e caminhando em direção à solução de um mistério cósmico, ele poderia trocar de protagonistas, fazer saltos dramáticos no tempo, que o espectador continuaria interessado.

Assim como o uso de acordes maiores foi diminuindo no mundo da música ao longo das últimas décadas (como apontei na postagem Acordes e Senso de Vida), a estrutura ascendente também foi deixando de ser um objetivo primário na arte popular. Muitas dessas tendências culturais apontam pra uma mesma direção - indicam uma certa rejeição ou alienação tanto dos artistas quanto dos espectadores de seus prazeres mais primários. No lugar disso, mais atenção vem sendo dada à satisfação de desejos mais superficiais e de curto alcance - necessidades sociais imediatas como a de fazer parte das tendências do momento, ou a de levantar as bandeiras ideológicas que estão em alta.

Quando você baseia um trabalho em necessidades desse tipo, ele pode até fazer sucesso, mas atingirá o espectador de forma mais rasa e terá vida curta. Quando um bom trabalho é fundado em necessidades humanas sólidas, como o desejo por evolução, por exemplo, ele atingirá o espectador num nível mais profundo, será mais universal e resistirá ao teste do tempo.

Quanto mais cínica e desiludida uma cultura está, mais a arte que ela produz se distancia dessas formas puras de satisfação. Quando estamos doentes, geralmente não temos energia pra pensar em prazer. A felicidade parece algo distante e irreal - todo nosso foco se volta pra diminuição da dor e pra cura de nossas feridas. Apenas quando estamos num estado saudável e os problemas básicos parecem já ter sido superados é que passamos a nos preocupar com o positivo - em como buscar mais satisfação e aproveitar melhor a vida. O mesmo acontece com a cultura e a arte que ela produz.


segunda-feira, 3 de abril de 2017

A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell

NOTAS DA SESSÃO:

- Muito bonita a sequência inicial com a montagem do robô. Scarlett Johansson foi uma boa escolha pro papel, o visual e os efeitos são ótimos. A produção tem mais nível que a média (os diálogos têm certa inteligência, o elenco coadjuvante é interessante, etc).

- Apesar da visão pessimista meio clichê de futuro (que lembra Blade Runner, Robocop), o filme contrói um universo interessante - há várias ideias bem pensadas de design, tecnologia, etc.

- A trama envolvendo terrorismo é pouco interessante (cai na categoria "filme de serviço"). O que acaba envolvendo mais o espectador é o lado emocional da protagonista, a busca dela por um senso de conexão, e também as falhas no sistema que dão a ideia de que há alguma mentira por trás da realidade que estamos vendo.

- SPOILER: Depois que descobrimos que Scarlett e Kuze na verdade são vítimas da companhia, a trama fica mais interessante (os toques anti-capitalistas não chegam a acionar meu Alerta Vermelho). A protagonista ganha um propósito, um inimigo que ela queira derrotar não apenas por ser seu trabalho, mas por razões pessoais.

- Chega a ser um alívio ver um filme do gênero onde a ação não parece totalmente absurda, onde se tenta minimamente respeitar as leis da física. Não há aquelas cenas onde a heroína luta contra 200 inimigos ao mesmo tempo parecendo um videogame. Sentimos que estamos num universo crível onde há vulnerabilidades e limites para o que ela pode fazer.

- SPOILER: Legal a cena em que a Juliette Binoche muda de ideia e decide ajudar a Scarlett Johansson a escapar. Por um instante acreditamos que ela iria matá-la, o que torna a reviravolta satisfatória.

- SPOILER: A sequência de ação final contra a aranha é fraca - uma máquina grande e lenta assim não parece tão ameaçadora, sem falar que é só um robô - falta a presença do vilão real ali. Scarlett acaba derrotando Cutter à distância depois, numa cena pouco memorável. Outra coisa que enfraquece a história é a ideia de que todo o mal foi causado apenas por 1 diretor corrupto da empresa... Não sentimos que há uma organização realmente maligna ameaçando o mundo, tanto que no fim ela volta a trabalhar na Section 9. Fica a sensação de que foi apenas um problema localizado, um conflito menos épico do que poderia ter sido.

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CONCLUSÃO: Ficção feita com bom gosto e inteligência, embora a história não seja das mais empolgantes e o final deixe um pouco a desejar.

Ghost in the Shell / EUA / 2017 / Rupert Sanders

FILMES PARECIDOS: RoboCop (2014) / Lucy (2014) / No Limite do Amanhã (2014) / Sem Limites (2011) / Matrix (1999)

NOTA: 6.8