sexta-feira, 28 de abril de 2017

Guardiões da Galáxia Vol. 2

NOTAS DA SESSÃO:

- Sinais de Romantismo Reprimido / Herói Envergonhado desde as primeiras cenas: o visual ridículo do Kurt Russell jovem, que ao mesmo tempo homenageia e zomba dos anos 80, ou os Guardiões lutando contra o monstro enquanto a câmera foca no Baby Groot dançando - o que não faz o menor sentido, só serve pra mostrar pra plateia que o filme não leva heroísmo a sério, que essa história toda de salvar a galáxia é apenas um pano de fundo, um boneco de vodu que o filme monta pra depois ter o prazer de torturar.

- Chris Pratt é sempre uma graça em cena, e dessa vez o humor às custas dele não incomoda tanto quanto na parte 1.

- As cenas de ação são péssimas, confusas visualmente, mal dirigidas (por exemplo, a perseguição de naves quando a Ayesha está atrás das baterias / a queda da nave no planeta). É tudo extremamente exagerado, sem nenhum realismo, clareza ou respeito pelo bom senso (os filmes de ação atuais parecem ter prazer em romper cada vez mais com a realidade).

- A trama também é um pavor. Essa história deles estarem sendo perseguidos por causa do roubo de algumas baterias é um conflito banal demais (se essas baterias fossem tão vitais a ponto de iniciarem uma guerra intergaláctica, teria sido tão simples de um guaxinim roubá-las como se fossem balas num supermercado?). A sub-trama do cara azul (Yondu) e do Stallone é mal apresentada. Será que é algo que deveríamos lembrar do primeiro filme? Depois tem a trama do Taserface, do Rocket que é capturado, e tem também a história da irmã da Gamora que quer se vingar, e o Chris Pratt indo pro planeta do pai (essa turma parece que não está nem aí pra história das baterias). Quem é o vilão do filme? A mulher dourada? A irmã da Gamora? O Taserface? O Kurt Russell? Qual o rumo da história? O protagonista que é o Chris Pratt mal aparece, não faz nada de útil, ficamos perdendo tempo nessas sub-tramas desinteressantes. Há aquela sequência interminável do Rocket preso e o Baby Groot tentando pegar uma "crista" pra soltá-los. É um roteiro mal estruturado, irracional... Tentar consertá-lo mentalmente é tão inútil quanto ficar apontando erros de ortografia numa sopa de letrinhas - o propósito nunca foi ter ordem. O filme quer divertir apenas através do "humor", do carisma dos personagens (bem na linha Esquadrão Suicida).

- O filme fica fazendo piadas em momentos inapropriados, envolvendo vilões, personagens que não são cômicos, colocando músicas alegres em momentos aleatórios, só pra reforçar a "brand" da franquia que deu certo - e não porque o humor surgiu organicamente das cenas.

- A Zoe Saldana (Gamora) é extremamente antipática, está sempre emburrada. Será que era pra gente estar torcendo por um romance entre ela e o Chris Pratt?

- Detestável essa irmã da Gamora. Ela tem ódio da irmã pelo fato dela ser mais virtuosa, é uma invejosa assumida, e em vez do filme vilanizá-la, ele mostra ela com certa dignidade, como se fosse pro espectador se identificar e respeitar a figura do perdedor rancoroso.

- SPOILER: Mais pro final o filme finalmente ganha um conflito mais dramático e envolvente, quando o Kurt Russell se revela um vilão e quer usar o Chris Pratt pra ajudá-lo a expandir seu império. O problema é que a partir daí começam a ficar mais explícitos os valores malignos do filme - a atitude anti-autoestima, anti-razão (Alerta Vermelho). Pra começar o monstro do filme se chama "Ego". Ou seja, o ego, a ambição, o individualismo, é o grande vilão que ameaça toda a vida e precisa ser destruído. O Kurt Russell é uma energia criadora infinita, capaz de gerar planetas inteiros e coisas belíssimas com o poder de sua vontade - mas alguém assim, obviamente, só pode ser um assassino sanguinário que não liga pra outras pessoas, pra amigos, não tem empatia, e está pronto pra destruir qualquer um que entre em seu caminho. E o símbolo disso tudo o que é? O cérebro!!! É literalmente um cérebro gigante (a razão, a lógica, a inteligência) que os heróis precisam encontrar e explodir pro mundo ser do jeito que eles querem. Não me surpreende que um filme tão irracional, tão medíocre e sem talento queira viver em um mundo sem inteligência e sem ego.

- Toda a ação final é um caos tedioso que dá preguiça de comentar. É tudo tão falso fisicamente, as regras são tão arbitrárias... O Ego com um poder tão grandioso, do tamanho de um planeta, iria permitir que os heróis entrassem em seu núcleo? A Mantis iria fazê-lo dormir tão facilmente? (Nesses filmes não importa o tamanho do monstro, há sempre um ponto fraco que pode ser atingido sem esforço, destruindo a coisa toda de maneira tediosa).

- Fico chocado com algumas frases: "O Ego quer destruir o universo, precisamos impedi-lo!". É incrível que hoje em dia um vilão possa se chamar "Ego" sem que isso soe grotesco pra plateia. Que decadência desde os anos 80, onde a Xuxa lutava contra o "Baixo-Astral", e isso é o que era considerado uma ameaça à vida no senso comum.

- SPOILER: O Chris Pratt vence o vilão quando finalmente rejeita o Ego, e diz que não vê problemas em não ser excepcional, em ser igual a todo mundo. Daí o cérebro explode, o pai "perfeito" é destruído, e o Chris Pratt é salvo pelo pai imperfeito que é um criminoso e que o explorou a infância toda (claro que Yondu se mata, pois sem um ato de auto-sacrifício desnecessário no final o filme não estaria completo). O herói aprende que a perfeição não era o que ele imaginava (a noção de ideal dele era o David Hasselhoff!), e sim a banalidade que já estava ao seu lado. Ele perdoa o pai bandido e explorador, a Gamora faz as pazes com a irmã monstruosa e invejosa que tentou matá-la o filme inteiro, e o filme encerra com uma grande queima de fogos em celebração do imperfeito, do fraco, do medíocre.

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CONCLUSÃO: Medíocre em valores, mas principalmente em cinema.

Guardians of the Galaxy Vol. 2 / EUA / 2017 / James Gunn

FILMES PARECIDOS: Esquadrão Suicida (2016) / Homem-Formiga (2015) / Operação Big Hero (2014) / O Homem de Aço (2013) / Os Aventureiros do Bairro Proibido (1986)

NOTA: 2.5

17 comentários:

Dood disse...

Por curiosidade resolvi fazer um busca sobre o vilão desse filme:

https://en.wikipedia.org/wiki/Ego_the_Living_Planet

Ego the Living Planet was initially introduced in the title Thor issue #132 (Sept. 1966), and was created by writer Stan Lee and artist Jack Kirby.

Ego was created by Kirby during a phase in which he was fascinated with the universe. Ego, the alien Kree, and The Colonizers immediately followed the creation of Galactus, thus establishing Marvel Comics' own "space age mythology."[1] As Kirby recalled in 1969, shortly after the character's debut, Ego's genesis came when:

I began to experiment ...and that's how Ego came about. ... A planet that was alive; a planet that was intelligent. That was nothing new either because there had been other stories [about] live planets but that's not acceptable. ... [Y]ou would say, 'Yeah, that's wild,' but how do you relate to it? Why is it alive? So I felt somewhere out in the universe, the universe ... becomes denser and turns liquid — and that in this liquid, there was a giant multiple virus, and if [it] remained isolated for millions and millions of years, it would ... begin to evolve by itself and it would begin to think. By the time we reached it, it might be quite superior to us — and that was Ego.[2

Dood disse...

Continuando, não sei o que eles queriam transformando isso em vilão dentro do filme e não tenho muito respaldo das Hqs pra te dar, mas pelo que li não dá pra tirar ele como vilão em si (li rapidamente).

Eu gosto do Guardiões mais pelo Starlord. Não sei se é pelo personagem ou pelo fato do Cris ser bom ator. A história era mediana, as músicas são o que mais gosto do filme. Você comparar com Esquadrão Suicida a continuação me fez ficar com receio de assistir, porém vou encarar de qualquer jeito.

Caio Amaral disse...

Ah, no Guardiões o Ego é claramente um vilão.. nem há dúvidas..
Tb gosto do Chris Pratt, pelo menos é um tempero positivo no filme (mas tudo por mérito do carisma ator, não do personagem em si, das ações, falas, etc). Algumas músicas eu gosto, mas não gosto do uso delas no filme, pois elas aparecem em tom cômico, cínico, como no Perdido em Marte (o que falo em Romantismo Reprimido). Abs.

Dood disse...

Eu fiquei decepcionado porque esperava algo mais fiel as Hqs no caso do pai do Star Lord: acho muito sem noção o lance do Ego ser o pai dele, sendo que na HQ o pai dele é de uma raça chamada Spartax.

Agora quanto a sua análise do primeiro filme que você não entendeu o lance do Orb - é que esse Orb é uma das Gemas do Infinto que são pedras que concedem poderes a quem possuir, Loki usa no primeiro filme dos Vingadores causado a discórdia entre os membros e dominando o Gavião Arqueiro.

Só pra comentar mais um pouco sobre o lance do Ego provavelmente o autor tem a visão de algumas pessoas de que uma pessoa com características excepcionais é vista como soberba, maligna e outras características negativas, enquanto a humildade é confundida com a Mediocridade.

Caio Amaral disse...

Eu tinha entendido sim que o orbe era poderoso, só não achei que o filme conseguiu criar qualquer interesse ao redor do objeto a ponto de fascinar e prender o espectador (como acontecia com os diversos tesouros da série Indiana Jones, por exemplo).

Sim, o autor associa poder/habilidade à maldade.. e na vida real muitas vezes as duas coisas podem andar juntas mesmo.. mas é tudo uma questão de como você aborda o tema, qual a intenção por trás do discurso.. como eu explico na postagem Alerta Vermelho. abs!

Dood disse...

A grande defeito do primeiro filme era isso: ficou muito focado na busca do artefato sem mostrar o que ele podia realmente fazer, pelo menos nos Vingadores tínhamos a noção daquilo que Loki tinha em mãos. Em Guardiões 1, só tivemos aquela noção de poder dele no final com aquele momento dramático da coisa.

Esse é o ponto que sempre acho errado em adaptações de HQ pra filme: sempre fica faltando algo, alteração do que era originalmente (geralmente pra pior) e má administração do tempo em apresentar o universo ao não leitor de HQ.

Caio Amaral disse...

Esse "descaso" com elementos tão básicos é o que vai revelando que o filme não está de fato preocupado em criar personagens admiráveis, uma narrativa empolgante pra plateia.. e sim em subverter o gênero.. seguir tendências, etc.

Marcus Aurelius disse...

Vi o filme, li tua crítica e fiquei tipo "não pode ser essa a intenção de verdade (destruir o ego, a razão, o cérebro, o excepcional, o belíssimo, etc..) quem entenderia? eu captei a mensagem mas será que o público e a crítica captaram também?". Pior que sim, vi uma enxurrada de críticos por aí falando sobre a fraternidade, a destrutividade do egoísmo e como é às vezes é necessário ser medíocre para ser aceito no grupo fiquei estarrecido.

As duas diferenças fundamentais que eu percebi entre o 'Esquadrão Suicida' é a qualidade da produção e dos visuais e as intenções reais por trás (eu achei 'Esquadrão' menos mal intencionado nesse aspecto). De resto, é o mesmo zero bem redondo pra mim.

Outra coisa, tu vai fazer crítica de 'Get Out'? Eu vi agora e é 'Martyrs' tudo de volta.

Marcus Aurelius disse...

Peraí.... nos filmes parecidos tu colocou 'Os Aventureiros do Bairro Proibido', como assim? se bem que eu assisti só quando era pequeno, mas tenho boas memórias a respeito.

Caio Amaral disse...

Oi Marcus.. não li as críticas do filme, mas não me surpreende elas estarem celebrando esse aspecto..

Sim o Esquadrão Suicida é menos mal intencionado, só que em termos de cinema e narrativa é o fim da linha.. kkk. Foi mais essa a semelhança que enxerguei.

Nunca vi Martyrs, o Get Out eu vi hoje, de repente posto sobre ele amanhã..

Os Aventureiros do Bairro Proibido não é tão ruim quanto esse claro, mas achei interessante colocá-lo aqui por causa de alguns paralelos.. Além de ter o Kurt Russell em comum, é um exemplo mais antigo que me vem à mente dessa questão do Romantismo Reprimido, Herói Envergonhado.. pra não dar a impressão de que esse fenômeno só surgiu de uns anos pra cá.. veja o que o Kurt Russell falou a respeito do personagem:

"a hero who has so many faults. Jack is and isn't the hero. He falls on his ass as much as he comes through. This guy is a real blowhard. He's a lot of hot air, very self-assured, a screw-up", "at heart he thinks he's Indiana Jones, but the circumstances are always too much for him".

Então já havia aquela intenção ali de subverter o gênero.. enfatizar as falhas do herói.. E há também o fato do filme ser bem ruim em termos de roteiro (pelo menos pros padrões da época), apenas uma desculpa pra mostrar ação, efeitos especiais, personagens "divertidos", etc.. Então enxergo como um "primo mais velho" do Guardiões de repente.. mas claro que ali tínhamos um diretor decente, as cenas de luta eram divertidas, etc..

Dood disse...

Eu gosto de Aventureiros do Bairro Proibido por conta de ser trash e não se levar a sério. É um escapismo pra se assistir com o cérebro no colo.

Agora teve uma resenha que me chamou atenção ela analisava sem spoilers o filme admirando o sacrifício do herói, como se o herói tivesse que abdicar do seu eu e prol de algo maior.

Caio Amaral disse...

Quando o Aventureiros saiu, ele era um filme com ótimo valor de produção, efeitos especiais de ponta, etc.. Então não é que ele foi feito com a intenção de parecer mal feito, etc..

Pois é, essa história do auto-sacrifício no final é a maior prova de heroísmo e bondade na cabeça de muita gente..

Vanessa disse...

O Filme vai ser top..

Dood disse...

A decisão do autor por trocar o Pai de Peter (originalmente J'Son pelo Ego):

Agora que Guardiões da Galáxia Vol. 2 já está no cinema, o diretor James Gunn respondeu algumas perguntas sobre a história e filme.

O cineasta usou uma Live no Facebook para responder várias perguntas dos fãs, entre elas, o motivo de ter trocado o pai de Peter Quill. E ele foi bem claro:

“Eu não gosto de J’son. Eu não gosto muito do personagem. Eu também acho que é muito Star Wars, visto que ele é da realeza.”

O diretor disse que já tinha um plano para o pai de Peter Quill bem antes do primeiro filme e queria que ele fosse um Celestial que não tramava fazer o bem.

Gunn disse que o personagem deveria aparecer como um raio de luz e que seria enganado por Yondu.

“E eu ainda não tinha decidido quem seria. Qual personagem da Marvel se encaixaria nesses requerimentos? E para mim, era Ego. Achei que seria uma ideia mais interessante do que ter um rei vestindo um uniforme da Marinha.”

Pois é, parece que J’son não tem chances de aparecer no Universo Cinematográfico da Marvel.

Caio Amaral disse...

As histórias vão sendo modificadas pra se adequarem ao presente né.. ao público atual.. no caso, tiveram que achar uma ideia mais podre que a original.. rs.

Irasema Saravia disse...

Comentários interessantes... Eu amei Guardiões da Galáxia, Chris Pratt tem um grande desempenho! É um ator lindo, carismático e talentoso. ❤️. Passageiros é um dos seus filmes mais recentes. Tem um bom roteiro e visualmente nos limpa os olhos. Para uma tarde de lazer é uma boa opção! :)

Caio Amaral disse...

Sempre gosto da presença dele nos filmes.. e talvez isso explique meus 2.5, hehe.