segunda-feira, 23 de março de 2026

Devoradores de Estrelas

Embora goste do gênero, já não fui com muitas expectativas por conta do trailer e do histórico dos criadores (não gosto de Perdido em Marte nem da franquia Aranhaverso). A história é sobre um homem em uma missão pelo espaço para salvar a humanidade, mas qualquer senso de heroísmo que você poderia esperar disso é destruído logo na primeira aparição do Ryan Gosling, que parece mais estar estrelando a paródia dos Trapalhões do filme do que a obra original (imagine Interestelar mas com as piadinhas de Guardiões da Galáxia). O humor às vezes é tão desnecessário que parece uma tática pra prender a atenção de uma plateia mentalmente prejudicada — me lembrei desses vídeos curtos do YouTube que precisam dividir a tela e inserir gameplays ou coisas tolas na parte superior para o público aguentar a discussão mais séria embaixo.

Outra coisa que costumo esperar em filmes de espaço/extraterrestres é um senso de encantamento, de inspiração ("awe") diante da grandiosidade do cosmos. Mas, assim como em Perdido em Marte, não há nada desse sentimento aqui. O protagonista é basicamente um cientista em sua rotina de trabalho — o fato disso envolver conhecer outros planetas e interagir com alienígenas é apenas um aspecto curioso do serviço, mas nada que provoque emoções grandiosas ou faça o personagem sair do seu modo irônico/blasé de reagir a tudo.

Os três pilares emocionais do Idealismo são: Autoestima, Excitação e Benevolência. O anti-heroísmo e a atitude blasé do protagonista dão conta de destruir os dois primeiros. Resta a Benevolência — algo que a ética cristã da história se encarrega de minar, transformando a trama em uma grande competição de autossacrifício. O Ave Maria do título, na verdade, é uma referência a um passe do futebol americano, mas as referências religiosas do filme (que incluem o nome do protagonista — Grace/"Graça") são totalmente consistentes com a moralidade da história. 

SPOILER: Embora o protagonista já estivesse em uma missão suicida para salvar a humanidade, ficamos sabendo mais tarde que ele acabou sendo colocado à força na nave, pois tentou voltar atrás na hora H. Culpado por não ter se sacrificado corajosamente no início, a redenção do personagem vem quando ele tem uma segunda oportunidade de se sacrificar — e, dessa vez, o faz por livre e espontânea vontade, não mais em nome da humanidade, mas em nome de um alien. Assim, o filme expande o alcance da moralidade altruísta para que sacrifícios humanos tenham valor até quando o beneficiário é de outro planeta. (Após o ato altruísta bem-sucedido, o filme termina em um tom festivo, ao som da música gospel “Glory, Glory”.)

Pra lista de coisas que me irritaram no filme, adiciono a narrativa não linear, entrecortada por flashbacks, que vêm expor fatos básicos da trama quando já é tarde demais pra você reavaliar suas opiniões sobre os personagens (eventualmente eles “explicam” por que Ryan Gosling parecia um maconheiro após uma bad trip no começo do filme — só que isso não anula o poder que a introdução de um personagem tem no cinema).

Quanto à amizade entre Grace e Rocky, não achei nada cativante — não só pelo altruísmo e pelo tom irônico que sublinham a relação, mas também porque é difícil ter empatia por uma pedra sem face. Fiquei pensando no trabalho brilhante de Carlo Rambaldi e na sensibilidade envolvida no design de E.T. para que a criatura projetasse traços de caráter e fosse carismática. Aqui, toda essa dimensão do processo de caracterização é descartado. Rocky acaba sendo mais um conceito curioso de vida extraterrestre do que a coestrela do buddy movie que o filme parece achar que é.

Dito isso, imagino que Devoradores de Estrelas será um grande sucesso de público e crítica, e estará indicado a vários Prêmios da Academia no ano que vem. Se você gostou de Perdido em Marte e dos filmes citados no início, não deixe que meu gosto exótico te impeça de comprar o ingresso.

Project Hail Mary / 2026 / Phil Lord, Christopher Miller

★½

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