Para quem busca criar Idealismo em uma cultura Anti-Idealista, é importante entender que seu senso de impotência não vem tanto do fato de você oferecer algo que as pessoas não querem, mas algo que as pessoas não podem dizer que querem. A ética dominante da cultura define o que é apropriado dizer em público, o que as pessoas aprovam quando os outros estão olhando, mas não define o que as pessoas de fato desejam.
Imagine o sexo em uma sociedade ultrarreligiosa: torna-se raro ver expressões públicas de sexualidade, discursos favoráveis ao sexo, mas isso não quer dizer que as pessoas não se interessem por ele entre quatro paredes.
Essa perspectiva ajuda a explicar por que filmes Idealistas, quando conseguem ser feitos, continuam sendo sucessos de bilheteria, mesmo nos tempos atuais (pegue o caso de Top Gun: Maverick). O problema do Idealismo hoje não é nem tanto o fato do público ignorá-lo quando ele aparece, mas o fato de ser difícil produzi-lo com todas as interferências e barreiras que existem na indústria.
Um filme depende de dezenas de pessoas para ser produzido, e incontáveis decisões criativas são tomadas no processo. Muitas dessas decisões são tomadas em público, em diálogo com outros profissionais. Toda vez que isso ocorre, a ética dominante interfere no processo decisório e tende a afastar a produção do Idealismo.
Ganhar prêmios se torna ainda mais inviável. Embora o Idealismo continue tendo força comercial mesmo em eras Anti-Idealistas, ele não tem força em premiações, em áreas que dependem de apoio público, de aprovação formal. Muito do senso de alienação e de impotência do Idealista vem daí — nem tanto do fato de ninguém pessoalmente valorizar seu produto ou de ninguém querer consumi-lo, mas de ninguém aprová-lo publicamente.
Por isso, criadores com um olhar Idealista têm muito mais facilidade de serem bem-sucedidos em áreas que não exigem tantas etapas de sanção moral explícita entre a criação do produto e o consumidor final. Quando um produto que reflete valores Idealistas é colocado diante dos consumidores, ele é naturalmente comercial, atraente. O problema é que, na indústria do entretenimento hoje, dominada por uma ética contrária ao Idealismo, apenas criadores realmente confiantes e comprometidos com a causa (ainda que em um nível subconsciente) conseguem produzir algo Idealista sem que sua visão seja corrompida no processo.
Não estou negando a existência de consumidores Não Idealistas que genuinamente não se conectam com esses valores. Só estou negando que eles sejam uma vasta maioria, como a cultura faz parecer em certos períodos. É importante lembrar também de um fenômeno: o Idealismo continua sendo interessante até para aqueles que o rejeitam formalmente. Como o Idealismo reflete valores racionais e necessários para a felicidade, ninguém se livra totalmente de seus encantos. Já o contrário não é verdadeiro: uma pessoa de valores Idealistas não precisa ter uma atração reprimida pelo Não Idealismo. É por isso que o Idealismo não precisa que a população inteira seja Idealista para que ele permaneça comercial. Ainda que boa parte da população se volte contra o Idealismo intelectualmente, ele sempre será foco de interesse; a população ainda irá consumi-lo, nem que seja para atacá-lo depois.
Por exemplo: se o Oscar voltasse a ser como já foi um dia — celebrasse mérito, exaltasse os melhores sem culpa — ele provavelmente voltaria a ter uma grande audiência. Ainda que o público criticasse os resultados, as pessoas estariam assistindo. Agora, quando a Academia começa a se ajustar às preferências declaradas da sociedade, a refletir o discurso ético oficial, o evento "misteriosamente" vai perdendo o interesse.
Pra ajudar a entender a diferença entre essas duas áreas, pedi pra IA me ajudar a criar as listas abaixo:
Áreas determinadas por preferência declarada (o julgamento coletivo, público e moral pesa mais):
Eleições e votações em geral / Promoções corporativas em grandes empresas / Prêmios literários, acadêmicos e culturais / Indicações a cargos públicos e diplomáticos / Aprovação em comitês e bancas universitárias / Escolha de porta-vozes e representantes sindicais / Financiamento público para arte e cultura / Viralização em redes sociais quando o tema é moral/político / Indicações ao Oscar e premiações de "impacto social" / Escolha de líderes religiosos e comunitários
Áreas determinadas por desejo latente (a escolha é privada, anônima, ou o custo de ser honesto é baixo):
Consumo de entretenimento em casa (o que as pessoas realmente assistem) / Buscas no Google e histórico de navegação privado / Aplicativos de namoro e atração sexual / Músicas mais tocadas no modo privado/offline / Escolha de mentores e modelos pessoais (não declarados) / Mercado de luxo e símbolos de status / Apostas e mercados de previsão / Quem as pessoas realmente ouvem em decisões importantes de vida / Empreendedorismo — o mercado pune a performance e premia o resultado / Esportes de alto rendimento — o desempenho é objetivo e inegável / Quem as pessoas seguem silenciosamente sem comentar ou curtir
Outro dia li uma frase que resume bem esse conflito interno gerado pela moralidade altruísta:
"Apoio público ao cordeiro, desejo privado pelo leão"
Com isso, vêm boas e más notícias. A má notícia é que se torna pouco produtivo, para quem produz Idealismo, buscar apoio público, prestígio social e reconhecimento explícito em uma era como a atual. A boa notícia é que, se essas não forem suas necessidades primárias, a pessoa terá o mercado ao seu favor e poderá ter muito sucesso prático em áreas onde as decisões são menos afetadas pelo julgamento social.
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