sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Três Anúncios Para um Crime

NOTAS DA SESSÃO:

- A premissa é curiosa mas um pouco morna. É como se pegássemos a história do meio - víssemos apenas um trecho de um filme maior, um que contasse a história completa desde o assassinato, explorasse todo o drama da personagem, etc.

- O filme assume que de cara estaremos torcendo pra Frances McDormand, mas não nos dá motivo pra isso. Não mostra como era a relação dela com a filha, nem que medidas a polícia já tomou. A polícia está de fato agindo de má vontade? Poderiam fazer algo específico que não estão fazendo pra pegar o assassino? O quanto a Frances já insistiu até tomar essa decisão drásticas dos outdoors?

- Depois de umas cenas fica claro que ela é totalmente insensata (exigindo que colham o sangue da população inteira pra testes de DNA, etc). Ainda assim, o filme a retrata como se ela fosse heróica e o policial fosse o vilão, só por não poder solucionar o caso.

- Ridículo o discurso dela pro padre - acusando ele de pedofilia só por ser membro da igreja, mesmo que ele pessoalmente nunca tenha feito nada (a comparação que ela faz com ser membro de uma gangue não tem nenhum sentido). O padre só foi lá dar um conselho bastante razoável sobre os outdoors, e ela vem com uma atitude incivilizada, baixo nível (e o filme acha que ela "lacrou" na resposta).

- Que absurdo ela agredir o dentista, cuspir na cara dele! Essa personagem é desumana, irracional, cheia de ódio... O filme é simplesmente uma série de situações onde a Frances McDormand chega e humilha algum opositor de forma grosseira e solta uma frase de efeito no fim (a repórter na beira da estrada, etc). É a exatamente mesma coisa de A Forma da Água. O filme não está preocupado em nos envolver numa narrativa interessante, criar empatia pelos personagens, criar suspense, fazer a gente torcer por justiça, simpatizar pela menina que morreu, etc. É apenas política. Frances McDormand é a "justiceira" da esquerda, que dá porrada nos homens brancos (eleitores do Trump). A nova modinha de demonizar a polícia, a igreja, o americano típico, qualquer coisa que pareça conservadora (a mãe caipira do Sam Rockwell, etc). O filme tem uma mentalidade de tribo, de torcedor de futebol... Não conta uma história universal, não deseja unir a plateia... É feito pra uma tribo específica, cujo prazer vem exclusivamente de humilhar e atacar a tribo inimiga. Todos os homens praticamente são maus... A polícia é corrupta, violenta, espanca negros, gays, deixa mulheres serem estupradas, o padre é pedófilo, o dentista é mau, o ex-marido da Frances é um espancador de esposas, etc. As únicas pessoas boas no filme parecem ser as minorias - o casal de negros, o gay, o anão interpretado pelo Peter Dinklage, etc.

- Ridículo ela negar que agrediu o dentista, quando de fato agrediu... Toda essa situação do dentista foi totalmente forçada, e agora entendemos por que - é só pro filme poder fazer um discurso sobre vítimas de estupro, pra Frances dar uma lição de moral na polícia, que se nega a acreditar em mulheres que são violentadas, mas acredita em homens quando esses são agredidos. É um diálogo totalmente desnecessário, que não tem nada a ver com a história... A polícia não está negando que a filha dela foi estuprada. É um debate fora de contexto, só pro filme dar umas "piscadinhas" pras feministas na plateia.

- A narrativa é fraca, sem conflito. A personagem da Frances não tem um grande obstáculo, algo importante a perder (a filha já está morta), os outdoors não são garantia alguma de que o assassino será encontrado. Os "vilões" (que seriam os policiais) são fracos... Eles no máximo parecem incompetentes, idiotas, mas não representam uma ameaça a ela - não há um conflito moral interessante movendo a história. Se você quer apenas ver uma boa história sobre uma mãe buscando justiça (e não está interessado em discursinhos políticos camuflados) é um roteiro tedioso. Terra Selvagem desse ano tem uma temática e uma ambientação parecida e é bem melhor (só que é cinema, não política, então os críticos não se empolgam tanto).

- Quando a Frances fica sem dinheiro pra pagar os outdoors (e achamos que surgirá algum conflito pelo menos), entra uma mulher do nada no escritório e entrega um envelope com 5 mil reais de presente pra cobrir as despesas. Conflito resolvido em 1 minuto.

- Os diálogos têm momentos horrorosos. Por exemplo a Frances conversando com o cervo naquele momento poético, e de repente fazendo comentários sobre "Doritos pontudos"... Ou o pior de todos que é o do Woody Harrelson com a esposa na cama. Ele dá um beijo nela (tudo num clima romântico) e diz com uma voz sexy:

Woody: Você não está com cheiro de vômito, o que é bom.
Esposa: Aquafresh. Um truque que aprendi.
Woody: Ainda é sua vez de limpar a bosta dos cavalos no estábulo, sabia?
Esposa: Esses cavalos fodidos. Eles são seus cavalos fodidos. Eu vou mandar alguém matar esses cavalos fodidos.
Woody: Deixa que eu faço. Sua vadia preguiçosa.
Esposa: Obrigado, papa. Foi muito legal hoje. Foi uma foda muito legal. Você tem um pau muito bonito, Sr. Willoughby.
Woody: Isso é de alguma peça? "Você tem um pau muito bonito Sr. Willoughby", acho que ouvi isso numa peça do Shakespeare uma vez.
Esposa: Seu bobo. É do Oscar Wilde.

(isso bate qualquer coisa dita em 50 Tons de Cinza)

- Toda essa história do Woody Harrelson ter câncer não tem relevância pra história. Ele deveria ser o obstáculo central do filme, mas daí ele morre antes de fazer qualquer coisa de útil.

- Por que o Sam Rockwell espanca o gay quando ouve da morte do Woody Harrelson? Ele não sabia que o Woody tinha câncer? Achou que se matou por causa dos outdoors? Mas daí a culpada não seria a Frances? O filme não está nem aí... Simplesmente joga uma cena aleatória de um policial espancando um gay, afinal esse tipo de coisa nunca é demais.

- Nada a ver o policial falar pro Sam Rockwell ir na delegacia à noite sozinho (sendo que ele não trabalha mais lá) só pra pegar a carta que o Woody Harrelson deixou. Quem entra numa delegacia assim? Não parece plausível. É só porque o roteirista precisava de uma desculpa pra ele estar lá na hora que a Frances incendeia o prédio. E é puro nonsense a Frances McDormand incendiar a delegacia. Por que ela faz isso? Ela concluiu que foram os policiais que destruiram os outdoors? E se acha na razão de ir lá e por fogo no lugar sem prova alguma? A cidade inteira está contra os outdoors! Qualquer um poderia ter feito isso (e de fato foi o ex-marido dela que fez, não os policiais!).

- O gay que foi brutalmente espancado pelo policial resolve perdoá-lo e serve suco de laranja pra ele no hospital?!! Isso é totalmente irreal, só pra mostrar como os "oprimidos" são dóceis e humanos em comparação com os "opressores" e perdoam seus inimigo (exceto a Frances que pode usar violência pra tudo).

- Outro conflito resolvido de maneira preguiçosa: os outdoors pegam fogo, mas daí alguém bate na porta da Frances com uma cópia de tudo! E vão todos lá felizes colar os outdoors de novo: Frances, os 2 negros e o anão - as minorias contra a polícia má.

- SPOILER: Trama tola, mal escrita: no fim os outdoors não serviram pra nada, o Sam Rockwell simplesmente vai num bar e ouve o estuprador confessando o crime em voz alta, por pura coincidência. E em vez de chamar a polícia, ele resolve arranhar o rosto do cara pra colher o DNA com suas unhas! Essa bobagem estar indicada ao Oscar de Melhor Roteiro é uma piada.

- Assim como o Woody Harrelson se "redime" depois de ter câncer e se suicidar (manda a carta pra Frances, etc), agora o Sam Rockwell, que era totalmente imoral, vira do "bem" na história, afinal ele perdeu o emprego na polícia, foi espancado, teve o rosto deformado por queimaduras. Então agora ele resolve ajudar a Frances (virou um "oprimido" também) e ela fica amiga dele, esquecendo que poucos dias antes ele estava espancando pessoas na rua sem razão alguma. Se você é uma vítima, Frances te apoiará, independentemente do seu caráter.

- SPOILER: O final é um absurdo... Eles partirem os 2 pra outro estado com uma espingarda pra matar um cara que pode ou não ser o assassino da filha, pode ou não ter cometido um crime, tudo baseado em suposições... É igual ela incendiar a delegacia... Provas não são necessárias, pois essa é a "verdade dela".

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CONCLUSÃO: Assim como A Forma da Água, um roteiro morno, mal escrito, sem talento, que apela pra discursos políticos polarizadores pra conquistar a plateia.

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri / Reino Unido, EUA / 2017 / Martin McDonagh

FILMES PARECIDOS: A Forma da Água (2017) / Terra Selvagem (2017) / Onde os Fracos Não Têm Vez (2007)

NOTA: 2.5

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