sexta-feira, 19 de junho de 2026

A Força Gravitacional da Época

Já parou pra pensar que o jeito de você falar não é neutro, mas é moldado pela época em que você está vivendo? No presente, é difícil identificarmos o "sotaque" particular do nosso tempo. Há uma ilusão de neutralidade. Mas quando vemos vídeos de outras décadas, sempre notamos um jeito diferente de falar. Não estou me referindo a gírias ou termos específicos, mas à própria entonação — no início dos anos 90, por exemplo, havia um jeito meio manhoso e cantado de falar que simplesmente desapareceu depois. O "r" dos paulistas dos anos 40 e 50 é totalmente diferente do "r" dos anos 70, e a entonação era mais formal também.

Estou destacando o jeito de falar — em vez do estilo de roupa ou algo mais óbvio — pra mostrar como há inúmeras influências agindo sobre nós das quais não temos consciência.

O mesmo ocorre na arte. Há modismos mais explícitos que caracterizam os filmes de cada época — a trilha sonora, os penteados dos atores — mas há inúmeras outras tendências que parecem apenas ser o "neutro" daquele período. Essas influências podem ser acidentais, definidas por questões puramente técnicas (a mudança da película para o digital, por exemplo, deu uma cara um pouco diferente aos filmes), mas muitas vezes as mudanças são reflexos de valores e crenças dominantes em um período, e vêm com uma carga simbólica que pode ser positiva ou negativa.

É muito difícil, ainda mais no cinema, escapar totalmente da força gravitacional da época em que se vive. Uma das melhores provas disso é o cinema dos anos 70 e como todo tipo de cineasta trabalhando naquele período acabou fazendo "filmes dos anos 70", querendo ou não. Quando você assiste a O Pequeno Príncipe (1974), por exemplo, é difícil acreditar que se trata de um musical de Stanley Donen, responsável por Cantando na Chuva duas décadas antes. Há algo de desconstruído e "hippie" na estética do filme que não remete em nada ao trabalho prévio do diretor. Os filmes de Hitchcock dos anos 70 também ficaram mais realistas, menos polidos visualmente, com atores menos glamurosos nos papéis principais. Os filmes de James Bond mudaram de estética e de tom nessa época, assim como as animações da Disney. Spielberg e George Lucas fizeram alguns "filmes dos anos 70" antes de ajudarem Hollywood a transicionar para uma nova era no final daquela década.

Muito do meu trabalho aqui no blog é tornar visíveis as influências ocultas do atual período nos diversos aspectos dos filmes — casting, caracterização, fotografia, padrões narrativos etc.

Mas minha ideia não é incentivar as pessoas a irem contra todas essas tendências indiscriminadamente. Com o tempo, passei a entender a importância de "dançar conforme a música" em alguns aspectos do trabalho. Assim como pode ser prejudicial sair na rua ou ir a uma reunião vestido de uma forma totalmente incompatível com sua época, criar uma obra de arte que não dialoga em nada com as tendências dominantes irá alienar o espectador desnecessariamente. Se sua ideia é fazer um filme avant-garde, experimental, não há tanto problema. Mas, se você quer entreter, fazer o espectador embarcar na história, não é interessante que a obra cause estranhamento imediato, antes mesmo de a história começar.

Mas, pra fazer essas concessões sem comprometer a essência da obra, é preciso entender, entre todas essas influências que impactam o filme, quais têm peso estético, emocional ou moral e quais são menos significativas.

Ainda que eu não goste de algumas coisas, como a fotografia menos saturada do cinema moderno ou a luz mais natural/motivada, se eu fosse fazer um filme hoje, estaria disposto a ceder um pouco nessa área para dar ao filme uma cara contemporânea. Tudo o que é sensorial, externo, de absorção instantânea, é mais difícil de ser subvertido sem assustar o público. Quando o filme está "vestido adequadamente" e a embalagem deixa de gerar ruído, o público fica aberto para o conteúdo e para o que o filme tem a dizer. Ou seja: os valores e o conteúdo moral da história já têm mais liberdade para desafiar as tendências da época, pois são processados intelectualmente, de forma mais lenta, e não de forma sensorial e imediata.

Um filme Idealista em uma era como a atual, portanto, não precisaria ter a aparência de um filme feito nos anos 40 ou nos anos 90. Ele pode ter uma aparência geral compatível com o presente (dentro daquilo que é contemporâneo, há sempre variedade o bastante para que você não precise escolher uma opção totalmente incompatível com suas preferências). Num primeiro contato com a obra, o espectador deve pensar que se trata de um filme normal. O "anormal" será percebido em outro estágio — no decorrer da narrativa, ele notará uma racionalidade maior na linguagem, o caráter mais nobre dos personagens, uma visão mais inspiradora de mundo etc.

O grande problema é que a maioria dos artistas não adota apenas a roupagem externa da época em que está vivendo como tática de comunicação e persuasão, mas absorve os valores fundamentais em si, trocando de ética, de epistemologia, o que me faz lembrar da famosa frase de Groucho Marx: "Estes são os meus princípios. E, se você não gosta deles... bem, eu tenho outros."

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