quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

O Impossível

Produção espanhola (mas falada em inglês) que conta a história verídica de um casal (Naomi Watts e Ewan McGregor) e 3 filhos pequenos que são pegos pelo tsunami de 2004 quando estão a passeio na Tailândia. O filme foi bem recebido pela crítica e deve receber algumas indicações ao Oscar este ano.

O filme tem alguns pontos ao seu favor: o elenco está muito bem (não só os adultos, mas as crianças principalmente são muito convincentes), a sequência da onda é incrivelmente bem feita, e a situação toda acaba prendendo a atenção por ser um drama físico tão intenso, ainda mais quando sabemos que realmente aconteceu.

Mas o filme não vai muito além do drama físico - acaba sendo uma espécie de 127 Horas ou um desses filmes que usam o fato da história ser verídica como pretexto pra mostrar pessoas se machucando, etc (se fosse pura ficção, a violência aqui soaria apelativa). Lembrei daquele filme que passava antigamente no SBT - O Resgate de Jessica, sobre um bebê que caía num poço e ficava mais de 2 dias até ser resgatado. A situação é dramática mas não chega a ser uma história que mereça ser contada - é o fato de ser verídica que faz com que as pessoas assistam com respeito. Conflitos "homem vs. natureza" são geralmente vazios; histórias de desastres precisam incluir outros tipos de conflitos pra que tenham um significado maior (Titanic é o melhor exemplo disso, ou mesmo o recente As Aventuras de Pi).


O único tema mais abstrato que surge é a ideia de que devemos ter compaixão, ajudar o próximo, etc. Mas o filme não define a diferença entre ter boa vontade e praticar auto-sacrifício, o que torna a mensagem duvidosa. Quando Watts decide socorrer o garotinho no começo do filme, aquilo é perfeitamente correto e humano, pois apesar de machucada ela tinha condições de ajudar. Mas em outros momentos o filme parece admirar aqueles que se sacrificam: por exemplo, quando retrata como vilão o homem que não empresta o celular pro personagem do Ewan McGregor - e depois faz um santo do outro que, mesmo com pouca bateria, deixa ele fazer 2 ligações, uma delas até desnecessária.

SPOILER: No fim toda a família sobrevive e o filme termina com um tom de alívio e esperança, mas no fundo não há nada de muito inspirador na história. A sobrevivência deles foi uma raríssima exceção que pouco teve a ver com virtudes pessoais. Fica difícil não pensar nas milhares de outras famílias que não tiveram a mesma sorte, e se perguntar se o filme faria mais sentido se fosse sobre uma delas. Não acho que faria.

The Impossible (Espanha / 2012 / 114 min / Juan Antonio Bayona)

INDICAÇÃO: Pra quem gostou de 127 Horas, As Torres Gêmeas, etc.

NOTA: 7.0

sábado, 29 de dezembro de 2012

As Aventuras de Pi

Espetáculo visual de Ang Lee (O Tigre e o Dragão, Brokeback Mountain) que conta a história de Piscine Molitor Patel ("Pi") - um garoto indiano que perde a família num naufrágio e fica à deriva no Oceano Pacífico num bote salva-vidas junto com um tigre de bengala chamado Richard Parker.

Mas em vez de um drama trágico, o filme é contado como se fosse uma aventura - uma viagem ao paraíso onde o garoto vive uma experiência inesquecível (dá pra lembrar de O Corcel Negro, A Lagoa Azul, Náufrago e até filmes como Amor Além da Vida, Um Olhar do Paraíso, O Mensageiro do Diabo, que também usam desse contraste entre o desastre e a fantasia).

A história tem uma introdução divertida (há tantos detalhes que até parece um filme diferente), apresentando Pi como um garoto independente, profundamente místico, e estabelecendo a relação dele com seus familiares. O pai é extremamente racional, e é interessante como o roteiro aborda a discussão de fé X razão com inteligência, mas sem atacar os valores de ninguém.

É difícil comparar o filme pois ele reúne vários tipos de história em uma só, e dessa mistura acaba surgindo algo novo. Já vimos filmes de sobrevivência no mar, já vimos filmes sobre um garoto domando um animal selvagem, já vimos filmes sobre a descoberta de um lugar paradisíaco, já vimos comédias sobre famílias estrangeiras exóticas, já vimos filmes sobre homens que narram suas histórias de vida e aumentam os fatos - mas nunca isso tudo junto, o que dá ao filme um aspecto familiar e original ao mesmo tempo.


SPOILER: No final, surge a questão: a história de Pi é real, ou é apenas uma versão enfeitada de eventos muito mais dolorosos? Ouvi algumas pessoas reclamando que essa questão é colocada de maneira muito explícita, mastigada - que seria mais interessante deixar a platéia lidar sozinha com a ambiguidade. Talvez. Mas isso não me incomoda, pois o filme não apresenta a ideia de maneira pretensiosa - e uma boa ideia não deixa de ser boa apenas por ser fácil de entender. Me incomoda um pouco o toque de pessimismo, pois nesse momento o filme acaba expressando um senso de vida trágico - dizendo que a realidade é cruel e portanto existe certa sabedoria em fugir pra um mundo de ilusão.

Mas isso não tira a beleza do filme, que é uma aula de narrativa visual e um dos melhores exemplo de como a computação gráfica e o 3D podem contribuir artisticamente para um filme. O espectador é constantemente presenteado com imagens impossíveis que parecem ter sido extraídas diretamente de um sonho - o mar iluminado por plânctons, a sequência na ilha flutuante, o barco perdido em meio às estrelas... Mais pro começo do filme, há uma tomada magnífica do navio submergindo que é um daqueles momentos mágicos do cinema onde fotografia, música, tecnologia e narrativa se unem com tal perfeição que Ang Lee mereceria um Oscar por ela apenas.

Life of Pi (EUA, China / 2012 / 127 min / Ang Lee)

INDICAÇÃO: Pra quem gostou de Avatar, Náufrago, Forrest Gump, O Corcel Negro.

NOTA: 9.0

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

O Hobbit: Uma Jornada Inesperada

Apesar de se tratar apenas de 1 livro, resolveram transformar numa longa trilogia (por interesses óbvios) essa "prequel" que se passa 60 anos antes de O Senhor dos Anéis. Peter Jackson e boa parte da equipe original permanece a mesma, mas agora a história foca em Bilbo Baggins (Martin Freeman), um hobbit inexperiente e ligeiramente covarde que parte com um grupo de anões numa jornada à Montanha Solitária - território deles que foi invadido pelo dragão Smaug e precisa ser reconquistado.

Se o filme tem uma sensação um pouco menos épica que a trilogia dos Anéis, isso se deve mais ao fato do herói e dos personagens principais serem um grupo mais modesto, menos heróico que o dos outros filmes (embora Frodo e Sam também estejam longe figuras grandiosas). Em termos de produção e história, O Hobbit tem a mesma escala dos filmes dos Anéis. Na verdade, acho a história aqui até mais forte. Em O Senhor dos Anéis, a aventura tinha um objetivo pouco interessante - apenas destruir um anel mágico que a gente mal sabia o que fazia (a mensagem por trás era a de que "o poder corrompe" - Tolkien era cristão então há certos valores na história que vêm da religião). A jornada aqui tem um objetivo mais sólido - recuperar o território e o tesouro que é deles por direito e foi tomado pelo dragão.

É mais uma representação da "Jornada do Herói" - a história mítica do jovem que precisa deixar a proteção do lar pra aprender a ser homem e a se defender sozinho. Assim como os Anéis e Star Wars, o filme se encaixa perfeitamente no "monomito" (quem não conhece os estudos de Joseph Campbell vale a pena dar uma pesquisada). Há várias etapas do monomito que o filme segue à risca como a "Recusa do Chamado", momento em que o herói se recusa a partir na aventura, ou a "Barriga da Baleia", quando o herói passa por uma experiência de quase morte mas escapa milagrosamente (um dos problemas - que talvez venha da influência cristã - é que o herói está constantemente sendo salvo por alguma ajuda sobrenatural ou por pura sorte; heróis que vencem por inteligência e por competência própria são muito mais interessantes, eu acho).


Os efeitos são impressionantes, mas a maior inovação visual aqui vem do filme ser rodado a 48 quadros por segundo (em vez dos 24 habituais), o que dá à imagem uma característica mais fluida e mais próxima da realidade (apenas cinemas selecionados estão exibindo o filme com o "High Frame Rate"). Pessoalmente tenho certas reservas com esse tipo de imagem, pois ela está mais próxima do vídeo e deixa tudo com cara de making of ou de coisa feita pra TV; mas suspeito que isso seja apenas um apego emocional ao jeito que sempre assistimos filmes (não vejo como argumentar logicamente contra os 48 frames).

Mas o importante é que a história funciona - começa devagar, mas vai ganhando força até uma segunda metade espetacular, cheia paisagens de tirar o fôlego e cenas interessantes - como a luta dos gigantes de pedra ou a aparição de Gollum, que dá mais um show de interpretação.

The Hobbit: An Unexpected Journey (EUA, Nova Zelândia / 2012 / 163 min / Peter Jackson)

INDICAÇÃO: Pra quem gostou das sagas O Senhor dos Anéis, Harry Potter, Star Wars, etc.

NOTA: 8.0

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O Homem da Máfia

Filme de crime do diretor de O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford, também estrelado por Brad Pitt, que aqui faz um assassino profissional contratado pra investigar um assalto a uma roda de poker controlada pela máfia.

O filme parece uma tentativa de se fazer um filme de Martin Scorsese - é muito menos sobre a história do que sobre o diretor exibindo seu estilo. A diferença é que no caso de Scorsese o estilo era autêntico, e além disso os filmes tinham ótimos roteiros, personagens, diálogos... Aqui até há uma história, mas que não é bem traduzida em termos de ação na tela. A maior parte do filme consiste de "fotografias de pessoas conversando" - e as conversas são desinteressantes, confusas, longe dos diálogos criativos dos filmes de Tarantino, por exemplo. O filme é apenas um registro do "serviço" dos personagens - não há conflitos, objetivos pessoais, nada universal o bastante pra plateia se importar...


Pitt não tem nada a perder - não parece correr risco de ser preso, de ser morto, as pessoas que ele precisa matar não são importantes pra ele, não representam nenhum perigo ou valor... Ele nem acha imoral o que está fazendo. A intenção parece ser apenas a de contemplar a vida de bandidos com aquela atitude de admiração e cinismo típica de quem acha "cool" esse tipo de submundo, mas não tem conteúdo pra interessar o público num nível mais amplo (há uma série de discursos presidenciais sobre a crise econômica no meio do filme, mas eles nada tem a ver com a história - é apenas uma maneira forçada de dar ao filme uma cara anti-americana, o que parece ser um pré-requisito pra quem quer parecer descolado).

Killing Them Softly (EUA / 2012 / 97 min / Andrew Dominik)

INDICAÇÃO: Pra quem gostou de Os InfratoresAtração Perigosa, Xeque-Mate, Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes, etc.

NOTA: 4.5

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

A Origem dos Guardiões

Animação da Dreamworks produzida por Guillermo del Toro que é uma espécie de Liga da Justiça do mundo infantil. Jack Frost se une ao Papai Noel, ao Coelhinho da Páscoa, à Fada do Dente e ao Sandman pra lutar contra as forças do mal - o Bicho Papão, que vem ganhando forças no mundo e trazendo pesadelos para as crianças.

O filme passa perto de criar uma parábola interessante pra atual cultura americana, que de fato se tornou mais desesperançosa e sombria na última década (como um termômetro, compare os filmes de sucesso dos anos 2000 com os da década de 90 e 80). Mas infelizmente perde a oportunidade, apresentando noções clichês do que é bem e mal, do que são valores, com uma mensagem de "esperança" que é composta de generalizações vagas - do tipo que dão uma má reputação ao entretenimento; que fazem as pessoas pensarem que filmes otimistas são mentirosos e infantis. Além disso, o filme faz uma confusão perigosa entre ter esperança e ter fé - quando eles falam que as crianças estão deixando de "acreditar", algo importante não fica claro. Na filosofia Disney, quando eles dizem "acredite", "sonhe", isso pode ser facilmente traduzido em "tenha confiança", "propósito", "busque seus objetivos" - valores positivos e saudáveis. Aqui, o conceito está mais próximo da fé religiosa, da crença no sobrenatural, o que torna a mensagem suspeita - é como se a possibilidade de seres mágicos e ocultos fosse a única coisa que tornasse a vida na Terra positiva.


A animação é bem feita e tem um ritmo acelerado - às vezes até demais, atropelando momentos da história que deveriam ter mais importância. Mas dentro do gênero é um filme acima da média - só não chega à seriedade e ao nível estético das produções da Disney/Pixar (em parte por não tratar seus heróis com a devida admiração, transformando o Papai Noel e o Coelho da Páscoa em personagens despretensiosos, comuns em termos de consciência, como se fosse a galera de Madagascar ou A Era do Gelo).

Rise of the Guardians (EUA / 2012 / 97 min / Peter Ramsey)

INDICAÇÃO: Quem gostou de Como Treinar o Seu Dragão, Happy Feet, O Grinch.

NOTA: 6.5

terça-feira, 20 de novembro de 2012

A Saga Crepúsculo: Amanhecer - Parte 2

A Parte 1 já tinha uma história muito fraca (se resumia a assistir a uma gravidez parada e desagradável) dando a impressão que muito iria acontecer nesse capítulo final da série, afinal qual seria a justificativa para dividir o livro em 2 filmes? Mas acontece que essa parte tem ainda menos a mostrar que a outra.

A filha de Edward e Bella nasceu, e agora eles correm o risco de serem atacados pelos Volturi (a "família real" dos vampiros que destrói aqueles que desrespeitam suas leis). E tudo por causa de um mal entendido: os Volturi ficam sabendo da existência da criança, mas acham que se trata de uma criança humana transformada em vampira, o que iria contra suas regras.

(SPOILERS) Ou seja, o filme todo é uma expectativa por uma batalha que não tem razão de existir, e que no fim nem acontece: antes da briga eles explicam pros Volturi que a menina é filha deles e tudo se resolve na conversa! Mas o que acontece é ainda pior - há uma batalha de uns 10 minutos onde vários personagens importantes morrem, chocando toda a plateia - mas daí o diretor "volta a fita" e revela que tudo não havia passado de uma visão na mente de Alice, a vampira capaz de ver o futuro. E todos ainda estavam lá parados, conversando pacificamente! É um dos roteiros mais absurdos que eu já vi e um final nada épico pra série - esse grande clímax na cabeça da personagem é um crime dramatúrgico que nenhum roteirista são ousaria cometer.


Fora isso o filme continua surpreendentemente trash pra uma mega-produção de Hollywood: atuações mal ensaiadas, diálogos constrangedores, maquiagem tosca, efeitos especiais de mau gosto... A única coisa que sustenta a série é seu romantismo - a tentativa de retratar uma paixão intensa entre personagens idealizados. O resultado é decepcionante, mas se vê tão pouco disso hoje em dia que até o mal feito acaba se tornando necessário.

The Twilight Saga: Breaking Dawn - Part 2 (EUA / 2012 / 115 min / Bill Condon)

INDICAÇÃO: pra quem gostou da Parte 1.

NOTA: 4.5

domingo, 18 de novembro de 2012

Argo

Terceiro filme dirigido por Ben Affleck, que desta vez acerta em cheio com um ótimo roteiro sobre uma operação secreta da CIA (junto com o governo canadense) que resgatou 6 diplomatas americanos do Irã em meio à uma revolução no ano de 1980. A sacada de Tony Mendez (Ben Affleck), especialista "exfiltrações" da CIA, foi inventar uma falsa produção de Hollywood como fachada para a operação - um filme de ficção científica que seria rodado no Irã.

É um desses filmes com uma situação muito clara: um herói, uma missão com etapas bem definidas, e um vilão perigoso servindo como obstáculo. Tudo se resume a uma pergunta: eles irão escapar ou não? Acho sempre eficientes esses roteiros onde há um momento no terceiro ato pelo qual você espera o filme todo e para o qual todos os eventos apontam. Desde o começo você sabe que o clímax será uma tentativa perigosa de fuga, o que cria uma expectativa e um senso de propósito pra trama que nos mantém interessados até o fim.

O filme foi baseado numa história real, mas obviamente distorce alguns eventos pra tornar o roteiro mais envolvente, o que realmente funciona (a sequência do aeroporto é puro suspense e funciona na maneira em que coloca a vida de todos nas mãos de um telefone que toca, de uma passagem que não chega, etc).


Parte do charme da produção é a cara de filme antigo. Affleck usou um processo fotográfico especial pra deixar a imagem granulada e, segundo o IMDb, copiou cenas e movimentos de câmera de Todos os Homens do Presidente. Toda a produção é impecável e te dá a impressão de estar vendo um desses dramas políticos dos anos 70. Há referências a vários outros filmes da época como Rede de Intrigas, Planeta dos Macacos, Star Wars - e todo esse encontro entre o mundo da CIA com a magia de Hollywood cria um contraste interessante para a história, trazendo um elemento imaginativo e escapista pra uma trama que talvez fosse burocrática demais de outra forma.

Affleck está contido e eficaz no papel principal, mas sua melhor performance mesmo é como diretor. Em seus dois filmes anteriores ele me pareceu apenas uma celebridade brincando de cineasta. Suspeito que agora ninguém o verá mais como o amigo menos talentoso de Matt Damon.

Argo (EUA / 2012 / 120 min / Ben Affleck)

INDICAÇÃO: Pra quem gostou de Tudo Pelo Poder, Operação Valquíria, Munique, Todos os Homens do Presidente.

NOTA: 8.5

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Magic Mike

Filme de Steven Soderbergh que mostra a vida de Mike e Adam (Channing Tatum e Alex Pettyfer), 2 amigos que trabalham como strippers num "clube das mulheres" na Flórida. 

Durante a sessão esqueci completamente que era um filme de Steven Soderbergh e me espantei ao ver o nome dele nos créditos finais; estava convencido de que se tratava de um diretor estreante - um amador sem a menor noção de como contar uma história, dirigir atores ou filmar uma cena.

O filme realmente é um caso estranho. O problema é que ele faz uma mistura infeliz de estilos e intenções. Parte de uma proposta meio Flashdance / Burlesque / Striptease - uma dessas histórias onde um desconhecido busca algum tipo de fama e enfrenta uma série de obstáculos. Mas ao mesmo tempo, o filme tem um estilo naturalista que foge disso e vai mais pro lado do cinema independente, não-comercial - diálogos improvisados, enquadramentos esquisitos, narrativa solta, protagonista indefinido, cenas sem propósito, etc. Acaba que nenhuma das duas propostas funcionam.

O lado Flashdance / Burlesque do filme é desastroso. Pra começar, os personagens não estão buscando um sonho pessoal; trata-se apenas de um "bico". Os números de apresentação são constrangedores, visualmente feios (há algo naturalmente ridículo num homem exibindo suas curvas para mulheres; fica até difícil imaginar como seria uma boa cena dessas que não fosse pro lado cômico). Alex Pettyfer está apático no papel, sua escalada para o sucesso não é bem ilustrada e não convence... Falta um conflito maior para os personagens, que aceitam muito bem o fato de serem strippers (pra mulheres parece que há sempre um dilema moral quando usam o corpo pra ganhar dinheiro, o que cria automaticamente um conflito pra história; no caso desses personagens, tirar a roupa parece apenas uma profissão meio patética, mas sem esse mesmo tom degradante). O roteiro é uma bagunça. Se a intenção era fazer algo na linha dos filmes que mencionei, o resultado é trágico.


Já se a intenção era a de fazer um filme mais "artístico" - um retrato realista do universo desses personagens, sem a pretensão de contar uma história de sucesso, com começo, meio, fim, etc - então o filme não funciona pela falta de boas caracterizações. Os personagens são incongruentes, se comportam de maneira artificial... Você está constantemente pensando "essa pessoa jamais agiria dessa maneira / jamais se interessaria por essa pessoa / jamais faria tal comentário". As atitudes nunca formam personalidades reconhecíveis. Muito do problema é o elenco. Um bom drama naturalista é sempre sensível, tem personagens verdadeiros e bons atores.

O filme só funciona mesmo no nível do strip - pra quem for ao cinema ver corpos bonitos. E pelos 150 milhões que ele faturou, isso deve ter sido motivo o suficiente pra muita gente.

Magic Mike (EUA / 2012 / 110 min / Steven Soderbergh)

INDICAÇÃO: Pra quem gostou de Burlesque; Ela Dança Eu Danço; Show Bar.

NOTA: 4.0

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Frankenweenie

No espírito de Hugo de Martin Scorsese, Tim Burton usa o melhor da tecnologia 3D e dos seus talentos visuais pra fazer uma homenagem ao cinema clássico. Frankenweenie foi um curta-metragem que Burton fez em 1984, e que agora ganha um remake estendido e em animação stop motion.

A história é uma paródia / homenagem em preto e branco ao Frankenstein de 1931, e conta a história de Victor Frankenstein, um garoto desajustado que usa seu conhecimento científico pra trazer seu cachorrinho Sparky de volta à vida, após ele ser atropelado.

Mas em vez de voltar como um monstro, o cão permanece do mesmo jeito que ele era, deixando a história sem grandes conflitos. Após ressuscitar Sparky, não há nada de muito envolvente na trama. Victor já realizou seu objetivo principal e suas preocupações passam a ser esconder o cão de seus pais (que no máximo dariam uma bronca nele), e mais para o final, corrigir um erro cometido por seus colegas da escola, que roubam sua ideia e ressuscitam gatos, tartarugas e outros bichos que saem destruindo a cidade (não fica claro por que alguns animais ficam bons, outros maus, uns gigantes, outros não, etc).


O curta foi expandido pra virar longa-metragem, mas não parece ter sido expandido em termos de profundidade, conflito. Burton evita mensagens sérias, situações dramáticas, surpresas, cenas muito intensas - tudo é meio morno, como se ele estivesse preparando um programa para pessoas com problemas cardíacos. O filme é agradável, impecável tecnicamente, mas frustra por não aproveitar os temas de amizade/perda, aceitação/rejeição, e todos os acordes mais dramáticos da história.

Frankenweenie (EUA / 2012 / 87 min / Tim Burton)

INDICAÇÃO: Quem gostou de A Invenção de Hugo Cabret, Os Fantasmas de Scrooge, A Noiva Cadáver, O Estranho Mundo de Jack, Ed Wood, etc. 

NOTA: 6.5

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Atividade Paranormal 4

É uma continuação de Atividade Paranormal 2 (e não do 3), se passando alguns anos depois dos eventos daquele filme. Mas as histórias são tão parecidas e os personagens tão secundários que eu acho um pouco demais esperar que a plateia se lembre de quem era quem em cada um dos filmes - e se importe por eles.

É melhor que a parte 3, que abusava de sustos baratos e tinha personagens que agiam de maneira incoerente. Fora isso, é mais do mesmo e minhas queixas continuam iguais (leia meus comentários sobre o 2 e o 3). Não há um enredo, o que limita as possibilidades do filme e reduz a experiência a aguardar passivamente o próximo susto - que nem sempre é tão forte quanto gostaríamos. Há algumas sacadas novas que são divertidas (como o efeito visual da sala forrada com pontinhos luminosos, provocados pelo sensor do video game).


Mas ideias visuais e estratégias pra provocar medo não compensam a falta que faz uma história, então infelizmente (digo infelizmente porque eu sempre quero gostar de filmes que trazem fantasia e aventura para o ambiente domiciliar) depois de meia hora o filme acaba se tornando monótono - especialmente para aqueles que não acreditam em espíritos (pra quem acredita, pelo menos o filme está falando de um assunto sério e dando explicações assustadoras para as portas que batem sozinhas e para as crianças que acordam no meio da noite).

Paranormal Activity 4 (EUA / 2012 / 88 min / Henry Joost, Ariel Schulman)

INDICAÇÃO: Pra quem gostou dos outros da série, Apollo 18, Quarentena, etc.

NOTA: 4.5