quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Pantera Negra


NOTAS DA SESSÃO:

- A introdução é confusa. Eles tentam explicar a origem de Wakanda, e ao mesmo tempo apresentar o conflito entre o T'Chaka e o irmão, tudo antes dos créditos iniciais... Mas é tão mal dirigido que nem prestamos atenção direito nos diálogos. Quando apagam as luzes daquela sala e surge o Pantera Negra pela primeira vez, isso é mostrado de um jeito que parece que as mulheres na sala é que se transformaram no Pantera Negra... Daí ainda temos que absorver que esse Pantera Negra ainda não é o protagonista, mas o pai do Pantera Negra (T'Challa) que virá depois. Nesse ponto já nem sei mais o que é Vibranium, sobre o que eles estão falando, etc.

- A sequência do resgate da Lupita Nyong'o dos caminhões também é confusa... Não sabemos direito quem é essa personagem, o que ela está fazendo aí, se ela está presa ou não, qual a relevância dessa sequência toda... É só porque o T'Challa queria que ela estivesse presente na cerimônia de coroação?

- A luta entre o T'Challa e o M'Baku na cachoeira é bem amadora em termos de direção, coreografia, etc. Considerando que o diretor é o Ryan Coogler (do ótimo Creed: Nascido para Lutar) tecnicamente o filme é pior do que se poderia esperar.

- A cena onde o T'Challa conversa com o espírito do pai é curiosamente bonita. A imagem marcante das panteras em cima da árvore, as frases sábias do pai... Até a trilha sonora tem uns momentos mais coloridos nesse momento.

- A história demora muito pra engatar. O conflito é fraco - não sabemos o que o tal comprador pretende / pode fazer com o Vibranium roubado - isso não parece ser uma grande ameaça.

- SPOILER: É só lá pela 1 hora e meia que o filme ganha força - quando o verdadeiro vilão (Killmonger) entra em cena, descobrimos quem ele é, o que ele pretende fazer com o Vibranium, etc. A ideia dele derrotar o T'Challa na cachoeira e conquistar o trono de maneira legítima torna tudo mais interessante. E o filme demora um tempo até mostrar que o T'Challa sobreviveu à queda, criando mais interesse.

- É um alívio também que o vilão Killmonger é quem tem uma filosofia revolucionária marxista de "Panteras Negras" (Black Panther Party), e não o herói, que apenas quer paz, harmonia, etc.

- A falta de habilidade na direção acaba matando alguns momentos que poderiam até ter sido bons... Pegue por exemplo a cena em que o T'Challa finalmente "ressuscita". Um diretor melhor teria mostrado o herói saindo de dentro do gelo de maneira mais dramática, dado algo interessante pra ele dizer... Mas aqui nós só vemos um plano dele já se sentando, daí ele fala de maneira totalmente casual "alguém tem um cobertor?", tornando tudo meio brochante.

- Meio forçado o Ross, que nem sabia pilotar, ficar como responsável por capturar as naves que estão tentando sair de Wakanda, e conseguir fazer isso recebendo orientações por "telefone" da menina que está lá no meio da batalha.

- SPOILER: É mal explicado no fim como o T'Challa consegue derrotar o Killmonger. O trilho do trem apenas desestabilizou a armadura dos dois, mas por que o T'Challa agora parece estar lutando de igual pra igual, sendo que na primeira luta ele era claramente mais fraco?

- Bonito o diálogo entre o T'Challa e a Nakia antes do beijo. Ele a agradece, e ela quase responde usando um argumento altruísta clichê ("Era nosso dever..."), mas daí ela para no meio da frase e responde com o real motivo.

- O discurso na ONU na cena pós-crédito me parece bem intencionado também... T'Challa resolvendo dividir a tecnologia de Wakanda com o mundo, transmitindo uma mensagem de união, progresso, etc.

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CONCLUSÃO: Fraco como cinema (como a maioria dos filmes do gênero) mas após um começo devagar, a história consegue se recuperar e divertir nos 45 minutos finais. 

Black Panther / EUA / 2018 / Ryan Coogler

FILMES PARECIDOS: Thor: Ragnarok (2017) / Vingadores: Era de Ultron (2015)

NOTA: 5.5

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

O Sacrifício do Cervo Sagrado

NOTAS DA SESSÃO:

- O close inicial na cirurgia é grotesco, feito apenas pra chocar, incomodar. Mas pelo menos tem a ver com a história, não é algo totalmente aleatório.

- Todo o começo é um exercício em estranheza, em não-convencionalidade. O sexo esquisito entre o Colin Farrell e a Nicole Kidman, os encontros bizarros entre o Colin e o garoto (Martin), o comportamento estranho dos personagens em geral, as conversas aleatórias sobre pulseiras de relógios, a trilha sonora dissonante, as lentes grande angulares extremas que distorcem o ambiente... É o que falo na postagem Subjetivismo: é estranheza pela estranheza, o filme tem prazer em quebrar as regras simplesmente pra ser diferente, coloca estilo acima de conteúdo, etc. Mas pelo menos faz isso de maneira razoavelmente divertida, sem a intenção de promover valores negativos.

- Quando Martin revela a maldição pro Colin Farrell (lá pelos 50 minutos), o filme começa a se distanciar do Subjetivismo inicial e a apresentar uma história mais sólida; vai tornando a situação um pouco menos nonsense (Nicole questiona a amizade entre o Colin e o garoto, e isso é mais ou menos justificado, etc).

- A Nicole Kidman acaba se tornando um ponto de identificação para o espectador, pois ela age de maneira mais humana e sensata que o Colin Farrell e mesmo os filhos (vai atrás do Martin pra tentar fazê-lo retirar a maldição, procura o anestesista pra saber o que houve na cirurgia e entender a motivação do menino, etc).

- O cineasta certamente rouba muito do estilo de Stanley Kubrick: o uso de música clássica, os zoom-in/zoom-out longos em incontáveis cenas, o uso de iluminação prática (abajures com lâmpadas fortíssimas que já servem pra iluminar o ambiente sem a necessidade de outros refletores), os passeios pelos corredores do hospital que lembram O Iluminado, o uso de grande angulares, o casting da Nicole Kidman (de De Olhos Bem Fechados), aqueles pizzicatos na trilha que lembram O Iluminado também, etc. A grande diferença (e que talvez seja o maior problema do filme) é que Kubrick tinha um ótimo senso de drama, apresentava conflitos morais difíceis, discutia questões sociais / psicológicas sérias, etc. Aqui é simplesmente uma situação trágica: Colin Farrell cometeu um erro médico, sem querer o pai do Martin morreu, e agora Martin resolveu se vingar, fazendo sua família pagar o preço. É apenas um garoto perturbado ameaçando uma família, e não uma história sobre questões mais profundas como tenta parecer (referências à mitologia grega não tornam um filme mais profundo automaticamente).

- SPOILER: O final é insatisfatório. Os finais do Kubrick eram quase sempre irônicos, intrigantes, faziam a gente refletir. Aqui não houve nada de surpreendente: o Colin Farrell apenas pagou pelo seu erro, que era exatamente o desejo do vilão. Não houve um desfecho inesperado, uma transformação de personagem, uma grande lição, etc. A cena do restaurante não diz muita coisa, apesar da trilha épica.

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CONCLUSÃO: Exercício de estilo interessante com uma premissa curiosa, mas a discussão moral não é tão forte quanto poderia ser, e o final deixa um pouco a desejar.

The Killing of a Sacred Deer / Reino Unido, Irlanda, EUA / 2017 / Yorgos Lanthimos

FILMES PARECIDOS: O Estranho que Nós Amamos (2017) / Grave (2016) / O Lagosta (2015) / O Presente (2015)

NOTA: 5.0

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Respondendo às Perguntas

Foram poucas mas boas!

Lady Bird: É Hora de Voar

Greta Gerwig me parece cair naquela categoria de pessoa criativa que é quase boa atriz o bastante pra estar na frente das câmeras, mas que de fato explora melhor seu potencial quando está por trás. Lady Bird (sua grande estreia na direção) apenas reforça essa impressão. O filme tem tudo aquilo que costumo gostar nos filmes do Noah Baumbach: a torrente de diálogos inteligentes que faz você querer anotar várias frases, personagens divertidos e bem escritos, a perspicácia psicológica - menos aquilo que costuma me incomodar nos filmes de Baumbach: a visão de mundo deprimida.

É o tipo de filme que fica no meio do caminho entre o Realismo e o Idealismo. Lady Bird é uma típica adolescente americana, sem grandes virtudes além de sua personalidade adorável, os dramas que ela vive são dramas típicos de garotas de sua idade, nada de muito épico acontece no filme... Mas o roteiro não é escrito de maneira realista - a história não é um simples retrato passivo de sua realidade, e sim um entretenimento cuidadosamente planejado, onde não se encontram nem 10 segundos de "tempo morto", com nada de interessante ou surpreendente acontecendo na tela.

Pegue por exemplo os momentos após a apresentação da peça na escola: temos a cena da amiga gordinha indo conversar com o professor (por quem ela é secretamente apaixonada), daí corta pro professor de teatro deprimido porque ninguém "entendeu" sua obra, daí corta pra Saoirse indo no banheiro masculino e pegando os 2 garotos aos beijos, depois corta pra cena no carro com as 2 amigas chorando ouvindo música... São 4 ótimos momentos, cômicos por razões diferentes, que são metralhados na plateia deixando a gente quase sem piscar.

Saoirse Ronan está perfeita no papel, transmite todas as nuances da personagem, se sai bem nos momentos cômicos, nos momentos dramáticos, e tem até uma cena "musical" onde ela consegue ser péssima e maravilhosa ao mesmo tempo - é possivelmente minha performance feminina favorita de 2017.

Outros momentos que gostei do filme: o bate boca entre Saoirse e a mãe no carro na cena de abertura, os comentários "wtf" do Timothée Chalamet, a aula de teatro com o professor substituto, o momento em que o Lucas Hedges e a Saoirse fazem as pazes, o confronto no colégio com a mulher anti-aborto, Saoirse perguntando se a mãe gosta dela (não se ela a ama), ela fazendo 18 anos e indo comprar coisas "proibidas" na loja de conveniência... Não é um filme incrivelmente ambicioso, inovador, mas dentro de sua proposta, é extremamente bem sucedido.

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Lady Bird / EUA / 2017 / Greta Gerwig

FILMES PARECIDOS: O Estado das Coisas (2017) / Sing Street: Música e Sonho (2016) / Mistress America (2015) / Enquanto Somos Jovens (2014) / A Garota de Rosa-Shocking (1986)

NOTA: 8.0

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Três Anúncios Para um Crime

NOTAS DA SESSÃO:

- A premissa é curiosa mas um pouco morna. É como se pegássemos a história do meio - víssemos apenas um trecho de um filme maior, um que contaria a história completa desde o assassinato, explorasse todo o drama, etc.

- O filme assume que de cara estaremos torcendo pra Frances McDormand, mas não nos dá motivo pra isso. Não mostra como era a relação dela com a filha, nem que medidas a polícia já tomou. A polícia está de fato agindo de má vontade? Poderiam fazer algo específico que não estão fazendo pra pegar o assassino? O quanto a Frances já insistiu até tomar essa decisão drásticas dos outdoors?

- Depois de umas cenas fica claro que ela é totalmente insensata (exigindo que colham o sangue da população inteira pra testes de DNA, etc). Ainda assim, o filme a retrata como se ela fosse heróica e o policial fosse o vilão.

- Ridículo o discurso dela pro padre - acusando ele de pedofilia só por ser membro da igreja, mesmo que ele pessoalmente nunca tenha feito nada (a comparação que ela faz com ser membro de uma gangue não tem nenhum sentido). O padre só foi lá dar um conselho bastante razoável sobre os outdoors, e ela vem com uma atitude incivilizada, baixo nível (e o filme acha que ela "lacrou" na resposta).

- Que absurdo ela agredir o dentista, cuspir na cara dele! Essa personagem é desumana, irracional, cheia de ódio... O filme é simplesmente uma série de situações onde a Frances McDormand chega e humilha algum opositor de forma grosseira e solta uma frase de efeito no fim (a repórter na beira da estrada, etc). É a exatamente mesma coisa de A Forma da Água. O filme não está preocupado em nos envolver numa narrativa interessante, criar empatia pelos personagens, criar suspense, fazer a gente torcer por justiça, simpatizar pela menina que morreu, etc. É apenas política. Frances McDormand é a "justiceira" da esquerda, que dá porrada nos homens brancos (eleitores do Trump). A nova modinha de demonizar a polícia, a igreja, o americano típico, qualquer coisa que pareça conservadora (a mãe caipira do Sam Rockwell, etc). O filme tem uma mentalidade de tribo, de torcedor de futebol... Não conta uma história universal, não deseja unir a plateia... É feito pra uma tribo específica, cujo prazer vem exclusivamente de humilhar e atacar a tribo inimiga. Todos os homens praticamente são maus... A polícia é corrupta, violenta, espanca negros, gays, deixa mulheres serem estupradas, o padre é pedófilo, o dentista é mau, o ex-marido da Frances é um espancador de esposas, etc. As únicas pessoas boas no filme parecem ser as minorias - o casal de negros, o gay, o anão interpretado pelo Peter Dinklage, etc.

- Ridículo ela negar que agrediu o dentista, quando de fato agrediu... Toda essa situação do dentista foi totalmente forçada, e agora entendemos por que - é só pro filme poder fazer um discurso sobre vítimas de estupro, pra Frances dar uma lição de moral na polícia, que se nega a acreditar em mulheres que são violentadas, mas acredita em homens quando esses são agredidos. É um diálogo totalmente desnecessário, que não tem nada a ver com a história... A polícia não está negando que a filha dela foi estuprada. É um debate fora de contexto, só pro filme dar umas "piscadinhas" pras feministas na plateia.

- A narrativa é fraca, sem conflito. A personagem da Frances não tem um grande obstáculo, algo importante a perder (a filha já está morta), os outdoors não são garantia alguma de que o assassino será encontrado. Os "vilões" (que seriam os policiais) são fracos... Eles no máximo parecem incompetentes, idiotas, mas não representam uma ameaça a ela - não há um conflito moral interessante movendo a história. Se você quer apenas ver uma boa história sobre uma mãe buscando justiça (e não está interessado em discursinhos políticos camuflados) é um roteiro tedioso. Terra Selvagem desse ano tem uma temática e uma ambientação parecida e é bem melhor (só que é cinema, não política, então os críticos não se empolgam tanto).

- Quando a Frances fica sem dinheiro pra pagar os outdoors (e achamos que surgirá algum conflito pelo menos), entra uma mulher do nada no escritório e entrega um envelope com 5 mil reais de presente pra cobrir as despesas. Conflito resolvido.

- Os diálogos têm momentos horrorosos. Por exemplo a Frances conversando com o cervo naquele momento poético, e de repente fazendo comentários sobre "Doritos pontudos"... Ou o pior de todos que é o do Woody Harrelson com a esposa na cama. Ele dá um beijo nela (tudo num clima romântico) e diz com uma voz sexy:

Woody: Você não está com cheiro de vômito, o que é bom.
Esposa: Aquafresh. Um truque que aprendi.
Woody: Ainda é sua vez de limpar a bosta dos cavalos no estábulo, sabia?
Esposa: Esses cavalos fodidos. Eles são seus cavalos fodidos. Eu vou mandar alguém matar esses cavalos fodidos.
Woody: Deixa que eu faço. Sua vadia preguiçosa.
Esposa: Obrigado, papa. Foi muito legal hoje. Foi uma foda muito legal. Você tem um pau muito bonito, Sr. Willoughby.
Woody: Isso é de alguma peça? "Você tem um pau muito bonito Sr. Willoughby", acho que ouvi isso numa peça do Shakespeare uma vez.
Esposa: Seu bobo. É do Oscar Wilde.

(isso bate qualquer coisa dita em 50 Tons de Cinza)

- Toda essa história do Woody Harrelson ter câncer não tem relevância pra história. Ele deveria ser o obstáculo central do filme, mas daí ele morre antes de fazer qualquer coisa de útil.

- Por que o Sam Rockwell espanca o gay quando ouve da morte do Woody Harrelson? Ele não sabia que o Woody tinha câncer? Achou que se matou por causa dos outdoors? Mas daí a culpada não seria a Frances? O filme não está nem aí... Simplesmente joga uma cena aleatória de um policial espancando um gay, afinal esse tipo de coisa nunca é demais.

- Nada a ver o policial falar pro Sam Rockwell ir na delegacia à noite sozinho (sendo que ele não trabalha mais lá) só pra pegar a carta que o Woody Harrelson deixou. Quem entra numa delegacia assim? Não parece plausível. É só porque o roteirista precisava de uma desculpa pra ele estar lá na hora que a Frances incendeia o prédio. E é puro nonsense a Frances McDormand incendiar a delegacia. Por que ela faz isso? Ela concluiu que foram os policiais que destruiram os outdoors? E se acha na razão de ir lá e por fogo no lugar sem prova alguma? A cidade inteira está contra os outdoors! Qualquer um poderia ter feito isso (e de fato foi o ex-marido dela que fez, não os policiais!).

- O gay que foi brutalmente espancado pelo policial resolve perdoá-lo e serve suco de laranja pra ele no hospital?!! Isso é totalmente irreal, só pra mostrar como os "oprimidos" são dóceis e humanos em comparação com os "opressores" e perdoam seus inimigo (exceto a Frances que pode usar violência pra tudo).

- Outro conflito resolvido de maneira preguiçosa: os outdoors pegam fogo, mas daí alguém bate na porta da Frances com uma cópia de tudo! E vão todos lá felizes colar os outdoors de novo: Frances, os 2 negros e o anão - as minorias contra a polícia má.

- SPOILER: Trama tola, mal escrita: no fim os outdoors não serviram pra nada, o Sam Rockwell simplesmente vai num bar e ouve o estuprador confessando o crime em voz alta, por pura coincidência. E em vez de chamar a polícia, ele resolve arranhar o rosto do cara pra colher o DNA com suas unhas! Essa bobagem estar indicada ao Oscar de Melhor Roteiro é uma piada.

- Assim como o Woody Harrelson se "redime" depois de ter câncer e se suicidar (manda a carta pra Frances, etc), agora o Sam Rockwell, que era totalmente imoral, vira do "bem" na história, afinal ele perdeu o emprego na polícia, foi espancado, teve o rosto deformado por queimaduras. Então agora ele resolve ajudar a Frances (virou um "oprimido" também) e ela fica amiga dele, esquecendo que poucos dias antes ele estava espancando pessoas na rua sem razão alguma. Se você é uma vítima, Frances te apoiará, independentemente do seu caráter.

- SPOILER: O final é um absurdo... Eles partirem os 2 pra outro estado com uma espingarda pra matar um cara que pode ou não ser o assassino da filha, pode ou não ter cometido um crime, tudo baseado em suposições... É igual ela incendiar a delegacia... Provas não são necessárias, pois essa é a "verdade dela".

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CONCLUSÃO: Assim como A Forma da Água, um roteiro morno, mal escrito, sem talento, que apela pra discursos políticos polarizadores pra conquistar a plateia.

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri / Reino Unido, EUA / 2017 / Martin McDonagh

FILMES PARECIDOS: A Forma da Água (2017) / Terra Selvagem (2017) / Onde os Fracos Não Têm Vez (2007)

NOTA: 2.5

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Todo o Dinheiro do Mundo

NOTAS DA SESSÃO:

- Filmes de sequestro costumam já ter uma premissa minimamente envolvente, e nesse caso, pela vítima ser o neto do homem mais rico do mundo, a situação é ainda mais interessante.

- Muito boa a apresentação do personagem do J. Paul Getty. A maneira como ele fez sua fortuna com petróleo, os diálogos no início sobre tudo ter um preço (o que nos faz pensar na atitude dele no futuro diante do sequestro). Christopher Plummer está ótimo. E é divertida a maneira como ele se recusa a pagar o resgate. O filme não o mostra como alguém detestável, um vilão, e sim como um homem consciente, não emotivo, que simplesmente entende que não é uma boa ideia negociar com criminosos. Tanto que depois ele contrata o Mark Wahlberg pra ajudar no resgate.

- O fato da Michelle Williams ser distante do Getty, brigada com o ex-marido, torna a situação dela ainda mais complicada (ter que pedir uma fortuna pro ex-sogro que não dá a mínima pra ela).

- Divertidíssimo o Getty e suas mesquinharias (instalar um telefone público em casa para as visitas, etc). Outro ótimo momento é quando ele fala do problema das liberdades que o dinheiro traz e dos parasitas que vivem ao redor dele.

- A suspeita de que o neto possa ter armado o próprio sequestro cria uma reviravolta interessante no meio.

- SPOILER: Ótimo o trecho onde achamos que os bandidos executaram o garoto (por ter visto o rosto dos sequestradores), há toda a sequência do reconhecimento do corpo, e no fim não era o menino. O roteiro é realmente bom. Consegue criar diversas surpresas e variações em cima de uma situação que poderia ser monótona, apenas o garoto sequestrado e a família tentando achá-lo. Logo depois disso há a cena em que a polícia invade o cativeiro, mas daí o garoto já foi vendido, etc.

- Divertida a cena em que achamos que o Getty está negociando o resgate, mas daí ele está apenas comprando um quadro. O filme está sempre brincando com nossas percepções.

- SPOILER: Por que os bandidos querem que o garoto coma bife, fique forte? Cria certa intriga... Legal a tentativa do menino de escapar, provocar o incêndio. Ele não é uma vítima passiva e chata que não faz nada o filme inteiro. E a relação "positiva" que ele forma com um dos sequestradores traz uma leveza pra situação que funciona.

- Um pouco forçado a Michelle Williams lembrar do minotauro que o filho ganhou do avô. Ninguém simplesmente se lembra que tem milhões de dólares guardados no armário por acaso (ainda mais ela não sendo rica). Mas é uma tentativa interessante do roteiro de criar um pequeno twist dentro da história maior, principalmente pelo que isso revela a respeito da personalidade do Getty.

- SPOILER: Forte a cena da orelha! Não sou fã de violência explícita, mas nesse caso não é algo gratuito - é a única cena violenta no filme, e considerando o tema da história, é aceitável (as cenas que vêm depois disso são ótimas também: a secretária recebendo a orelha pela correspondência, depois a Michelle Williams mandando milhares de jornais pro Getty, etc).

- SPOILER: Muito filho da puta o Getty decidir pagar o resgate, mas exigir em troca a guarda dos filhos. Agora sim o filme começa a mostrá-lo como vilão, mau caráter. Pra piorar, em vez de pagar os 4 milhões, ele paga apenas uma parte... Não faz sentido, pois até então, ele estava se recusando pagar o resgate por uma questão de princípios, não de falta de dinheiro. Mas decidir pagar, e não dar o valor cheio, é apenas maldade da parte dele.

- O discurso do Mark Wahlberg no fim reforça essa atitude anti-ricos, anti-dinheiro, que não era a essência da história na minha visão. O conflito principal era mais entre razão e emoção. A mãe (emoção) desesperada, disposta a fazer qualquer coisa que os bandidos pedissem, mesmo que isso tivesse consequências ruins, e o Getty sendo mais frio, tentando manter a objetividade e pensando a longo prazo. No fim o filme consegue fazer o sequestrador parecer mais humano e bondoso do que o Getty!

- Legal a entrega do dinheiro: o carro na estrada seguindo as pistas, etc.

- SPOILER: Não parece muito realista a ação final onde a mãe e os bandidos estão caçando o garoto na cidadezinha... Por outro lado eu gosto dessas liberdades que o filme toma pra tornar a narrativa mais dramática (em vez de ficar preso à história verídica). Getty morrer e a Michelle Williams assumir tudo também parece meio improvável (o timing perfeito), mas é um desfecho irônico pra história (embora faça falta um encontro final entre o Getty, o neto e a mãe pra gerar um senso de conclusão).

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CONCLUSÃO: Há certamente um elemento anti-dinheiro na história que é questionável, mas fora isso é uma trama envolvente, com um roteiro dinâmico, cheio de cenas interessantes, e uma ótima atuação de Christopher Plummer.

All the Money in the World / EUA / 2017 / Ridley Scott

FILMES PARECIDOS: Os Suspeitos (2013) / A Negociação (2012)

NOTA: 7.5

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Esperando a Era de Ouro

(Essa é uma espécie de resposta otimista à postagem Como a Cultura Encomenda Seus Ídolos)

Embora eu esteja sempre reclamando aqui dos filmes atuais, elogiando o cinema de 20, 30, 40 anos atrás, atacando o Anti-Idealismo cada vez mais explícito em Hollywood, eu queria colocar as coisas um pouco em perspectiva e discutir a diferença entre variações reais nos valores predominantes de uma cultura, versus um tipo de insatisfação crônica com o presente que é muito comum, e que costuma gerar essa impressão falsa de que a cultura do passado era sempre melhor, que antigamente o público tinha mais bom gosto, etc - um tema elaborado de maneira divertida no filme Meia-Noite em Paris de Woody Allen:



Pra começar quero dizer que sim - acho que existem altos e baixos na cultura, momentos em que valores positivos estão mais em alta, e que valores negativos estão mais em alta, em que padrões estéticos estão mais elevados e menos elevados. E acho que desde o começo dos anos 2000, estamos num desses "baixos", onde as ideias ruins se tornaram muito mais dominantes na cultura popular (e por ideias "ruins" eu quero dizer Anti-Idealistas).

Isso não quer dizer que a realidade em si esteja pior, nem que o Idealismo tenha desaparecido, sido derrotado. Traçando um paralelo com política: se um país elege um presidente conservador ou um liberal, isso pode indicar que mais de 50% da população esteja pensando de um jeito, mas não faz desaparecer a parcela da população que pensa de outro jeito e continuará pensando de outro jeito independente das ideias mais populares no momento.

Creio que o conflito entre Idealismo vs. Anti-Idealismo (assim como o conflito entre Capitalismo vs. Socialismo, Individualismo vs. Coletivismo, Egoísmo vs. Altruísmo) sempre existiu na sociedade e sempre irá existir, pois essas coisas estão ligadas a questões emocionais como autoestima, felicidade - e enquanto o mundo for mundo, sempre existirá uma divisão equilibrada na sociedade entre pessoas com mais autoestima, menos autoestima, pessoas mais otimistas, menos otimistas, mais felizes, menos felizes, mais independentes, menos independentes, etc. E por isso, enquanto houver liberdade, sempre teremos na cultura coisas sendo produzidas pra agradar a todos esses públicos (e todas as misturas e graus entre os extremos).

Não acho que possa existir uma "era de ouro" de fato como às vezes podemos fantasiar, onde determinados valores passem a dominar totalmente uma cultura, e derrotem definitivamente os valores opostos. No máximo certos valores podem se tornar mais fortes numa época, mais influentes, conquistarem uma parcela maior da população, mas não irão eliminar a pressão constante vinda do lado oposto.

Mesmo na época que pra mim foi o auge do entretenimento, nos anos que produziram os melhores filmes, as melhores músicas, o mundo era tão dividido e complexo quanto ele é hoje - a diferença é que haviam mais coisas sendo produzidas de acordo com as minhas preferências, e meus valores estavam mais em alta - mas ao mesmo tempo, continuava existindo uma forte oposição a eles e coisas indo contra essas ideias (no Oscar 98, meu filme favorito era o Titanic, que era a maior bilheteria de todos os tempos e acabou levando 11 prêmios - ainda assim não era uma unanimidade: Arnaldo Jabor e José Wilker estavam lá em rede nacional atacando o filme, e certamente tinha muita gente que pensava como eles).

Então acho importante abandonar a noção enganosa de um passado mágico onde a cultura estava em plena harmonia, onde tudo era melhor, as pessoas tinham o mesmo gosto que você, e o mundo não estava em conflito.

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Então por que muitas vezes temos a sensação de que o passado era melhor? Que a cada década as coisas pioram na cultura? Vou listar abaixo algumas das minhas hipóteses:

1. Uma insatisfação natural com o presente e com a realidade imediata. Dificuldade de aceitar que o "agora" é tão especial quanto sempre foi, e que podemos ser tão felizes nesse instante quanto podíamos no passado.

2. O fato de que memórias e experiências da infância / juventude sempre parecem mais mágicas e intensas, dando um eterno senso de que o passado era melhor. Não só pelo que disse no item anterior, mas pela própria natureza da juventude e da infância:
- Na juventude nós vivemos numa espécie de bolha, nossos pais filtram aquilo que chega até nós, nos mostram apenas coisas adequadas pra alguém da nossa idade, criando uma impressão de um mundo mais benevolente do que de fato é, enquanto na vida adulta nós vemos o mundo sem filtro, com todos os positivos e negativos, somos expostos a mundos diferentes do nosso, etc.
- Quando somos crianças, tudo feito por um adulto (inclusive obras de arte) tem um ar mais grandioso, inatingível - mas quando somos adultos, boa parte do mistério se vai, pois nós entendemos como as coisas são feitas, passamos a ver os defeitos, etc.
- Nossas primeiras experiências são sempre mais impactantes do que aquilo que já vivenciamos centenas de vezes. Nossas primeiras visões de virtude sempre têm um impacto maior do que elas têm mais tarde (um artista que surgiu semana passada dificilmente irá te fascinar como seu ídolo de infância, por mais talento que tenha).
- Na infância nós somos inocentes em relação às coisas ruins e focamos mais nos aspectos positivos das coisas que vemos (não enxergamos mensagens políticas nas obras, por exemplo). Se eu tivesse 5 anos hoje, eu provavelmente acharia a Elsa do Frozen o máximo, e nem me incomodaria com os aspectos menos ideais de sua personalidade. Agora se eu fosse adulto nos anos 70, talvez eu olhasse pros Jackson 5 com certa suspeita ("Ah, eles se vestem como hippies, usam penteado afro, talvez tenham uma agenda marxista oculta"), sendo que criança eu acharia tudo inocente e nem questionaria qualquer coisa.

3. Nós vemos apenas os "melhores momentos" do passado, e comparamos isso com o presente sem filtros (seria como comparar seu cotidiano real com a vida de pessoas que você só vê pelo Instagram). Por exemplo: poderíamos ficar com a impressão de que 1977 foi um ótimo ano pro cinema, pois tivemos Star Wars, Contatos Imediatos do Terceiro Grau, Noivo Neurótico, Noiva Nervosa - e achar que filmes assim eram a norma da época, quando na verdade isso é apenas a "nata" daquele ano, que na maior parte estava lançando coisas fracas como O Exorcista II - O Herege, Orca - A Baleia Assassina, e coisas muito piores.

4. Com o tempo e a tecnologia, tudo vai se "democratizando" - o que era dominado por uma elite no passado, com o tempo vai ficando mais ao alcance das pessoas. Nos anos 40, você só faria um filme se estivesse dentro do sistema de estúdios em Hollywood, o que era muito difícil, restrito a profissionais de altíssimo nível. E o público só podia consumir aquilo que era oferecido por essa elite. Não havia espaço para o amador, para o experimental, então na média as coisas até podiam ser melhores (tanto em nível estético quanto em termos de valores), mas isso por uma falta de oportunidade, não porque a população era de fato mais inteligente e exigia coisas mais sofisticadas. Hoje qualquer um pode fazer um filme, lançar uma música. Então com o tempo, tudo tende a ir se aproximando mais do gosto real do povo, que nunca é muito sofisticado - e as coisas de mais qualidade vão ficando mais reservadas para uma elite. Por exemplo: hoje em dia é muito difícil você construir um prédio, então todos os prédios são construídos por arquitetos profissionais, seguem uma série de princípios sólidos, etc. Agora imagine daqui a 100 anos, com impressoras 3D disponíveis pra todos - qualquer pessoa poderá erguer um prédio por conta própria, e por isso muito mais mediocridade vai existir no mundo da arquitetura... Os estudados então irão sentir falta dos "velhos tempos", irão reclamar das construções modernas, etc. Mas na verdade essa piora talvez seja apenas um efeito colateral de uma coisa boa, como diz o Chico Buarque nesse vídeo:



Coisas bem feitas não deixarão de existir, mas elas se tornarão cada vez mais voltadas para uma minoria, pois para as massas terá surgido uma forma mais barata e menos sofisticada de se fazer as coisas, que será boa o suficiente para elas.

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Essas são apenas algumas explicações que na minha visão trabalham juntas pra criar esse senso constante de decadência cultural, que nem sempre é real.

Não estou sugerindo que nós estamos vivendo numa Era de Ouro agora, mas acho que, se nós estivéssemos, uma pessoa com uma mentalidade saudosista do tipo Meia-Noite em Paris não iria conseguir perceber. Porque o que essa pessoa está esperando - reviver o encanto da infância, o senso de estar num mundo em plena harmonia onde seus valores mandam na cultura e não existe oposição - é algo que nunca existiu de fato; era no máximo um estado de consciência, a maneira mais filtrada como olhamos o mundo na juventude.

Temos que pensar que quando chegar a próxima Era de Ouro, a realidade não será muito diferente do que ela é agora - ela nunca será igual às lembranças de 50 anos atrás. De repente, em vez de 2 filmes excelentes no ano, talvez sejam lançados 5 ou 6, e isso já configure uma nova Era de Ouro. E em vez de 2 ou 3 novos artistas que você admire, talvez existam 6 ou 7. Tudo isso no meio de uma maioria de coisas de baixa qualidade, e de artistas com valores opostos aos seus continuando a produzir e a ter seu público.

A reflexão que fica é: se o melhor que podemos esperar da cultura é um punhado de coisas admiráveis em meio a uma maioria de coisas necessariamente mais medíocres; se grandes obras sempre representarão uma pequena porcentagem de tudo o que é produzido; se coisas antagônicas aos seus valores sempre estarão sendo produzidas pra atender a uma parte da população que pensa diferente, será que precisamos esperar uma "Era de Ouro" chegar pra começarmos a aproveitar o presente como se já vivêssemos em uma? É realmente importante convencer a maior parte da população de que você está certo? Faz diferença pra sua felicidade pessoal se seus valores são os mais populares no momento, ou estão em 2º lugar, ou em 10º? Se o seu filme favorito ganha vários Oscars ou não é indicado a nenhum? Se seu músico favorito é o que fica mais tempo no topo das paradas? Se o povão tem bom gosto?

Antes essas coisas me incomodavam mais, mas com o passar do tempo, tenho ligado cada vez menos para o que pensa a sociedade como um todo, e visto até certa graça em não compartilhar dos mesmos valores das massas, ou mesmo da "elite intelectual" (pelo menos no que diz respeito à arte - em questões políticas o problema é maior, pois a opinião das pessoas de fato pode representar uma ameaça à sua liberdade).

Mesmo nos piores anos, bons filmes são lançados, boas músicas são produzidas... Podemos sempre continuar consumindo as coisas do passado pra reabastecermos nossos espíritos... E pra quem produz cultura, é bom lembrar que há sempre público pra coisas bem feitas, há sempre uma maneira de comunicar sua mensagem, mesmo que ela vá contra os modismos atuais.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Maze Runner: A Cura Mortal

NOTAS DA SESSÃO:

- A produção dos Maze Runners sempre me parece mais rica e bem cuidada visualmente do que a de outras sagas adolescentes como Divergente, etc. Não é nenhum Mad Max: A Estrada da Fúria, mas é respeitável.

- A sequência inicial do trem não tem nada de muito especial em termos de ideias, direção, mas é uma tentativa de se criar um Set Piece empolgante logo na cena de abertura, o que é sempre um bom sinal.

- A motivação do herói aqui é mais fraca que no último filme. Todo o objetivo dos personagens é salvar o oriental (Minho) que foi capturado pela WCKD. É algo totalmente altruísta, pouco ambicioso, sem nenhum benefício atraente pro Thomas e pros outros personagens. Eu como espectador não estou nem aí pra esse Minho - ele já era um personagem esquecível no filme anterior, e o roteiro não tenta torná-lo importante pro espectador nesse novo capítulo, pra termos um interesse real em seu resgate. Devemos apenas aceitar que ajudar o próximo vale qualquer sacrifício (especialmente se o próximo for "multicultural").

- Pra quem não sacou, a Last City representa a América egoísta e má, cercada pelo muro do Trump, disposta a metralhar os pobres estrangeiros do lado de fora pra não ter que dividir suas riquezas com eles. E Thomas é um herói, não porque ele tem virtudes interessantes, mas porque apesar de branco, ele se sacrifica em prol dos não-brancos e luta contra o sistema. É o mesmo discurso tedioso anti-América, anti-individualismo que temos que ouvir em todos os filmes, músicas, séries e eventos televisivos hoje em dia. Isso só não arruina o filme pois nesse caso fica claro que o objetivo do filme não é político, intelectual, no fundo ele quer apenas mostrar uma aventura, entreter, etc. Essas mensagens só estão presentes pois são os valores mainstream de hoje - é o que você tem que repetir se você quiser ser pop, atual, politicamente correto, etc.

- Como "heist movie" o filme é bem fraco. A maneira como eles invadem a WCKD é bem trivial (raptam a Teresa que abre as portas facilmente com suas impressões digitais) e pior ainda é a maneira forçada como eles resgatam o Minho e escapam do prédio (Minho pra facilitar já estava fugindo quando os amigos chegam pra resgatá-lo, e daí em poucos minutos eles se livram de todos os guardas saltando pela janela do alto do prédio e mergulhando no espelho d'água mais fundo de todos os tempos).

- O filme é cheio de saídas fáceis, mal pensadas, que não geram nenhuma admiração pelos personagens e ainda fazem o roteiro parecer tolo. Logo após a fuga forçada do prédio, há a cena absurda em que o ônibus com os refugiados é cercado pelas autoridades da WCKD, mas daí milagrosamente cai um cabo de aço do céu, e um guindaste (perfeitamente posicionado onde o ônibus parou aleatoriamente) ergue o ônibus pra fora dos muros da cidade (déjà-vu do vagão do trem sendo "pescado" pela nave na sequência inicial). Filmes que ignoram o conceito de autoestima estão sempre dependendo dessas soluções mágicas pra salvar os heróis (e de dons divinos que tornam o protagonista especial por causa de sua genética, não de seu caráter e suas ações).

- Como a história é fraca, no final eles usam o mesmo recurso da parte 1 e 2 pra dar um senso de conclusão: algo trágico acontece a algum amigo de Thomas, daí ele grita e chora intensamente (e a gente na plateia lembra que Gally, um personagem que morreu tragicamente no fim da parte 1, ressuscitou e está de volta à série - por que então devemos acreditar que os que morreram nesse filme de fato morreram?).

- SPOILER: Como o herói ainda não sofreu e se sacrificou o bastante, no fim ele se entrega voluntariamente pros inimigos pra salvar a humanidade. E de bônus ainda leva um tiro na barriga pra proteger a Teresa (uma personagem má).

- SPOILER: O filme vai cada vez chutando mais o balde. A maneira como Thomas mata o vilão é muito falsa (aquele vidro prendendo os zumbis iria se quebrar tão facilmente?). E depois a maneira forçada como a Teresa acaba morrendo só porque a nave não conseguiu dar uma ré de 2 metros pra ela subir (mais um sacrifício, mais um amigo morrendo pro herói gritar e chorar).

- É meio esquisito os vilões do filme serem pessoas que estão atrás de uma cura pra uma doença mortal que pode acabar com a vida de todos, e os mocinhos serem aqueles que se recusam a colaborar com a cura e não demonstram qualquer interesse nela (a única empresa no mundo querendo salvar a humanidade é essa que é maligna?!). Outro detalhe: os vilões não queriam deixar os estrangeiros entrarem na Last City pois os consideravam perigosos... Mas quando os estrangeiros finalmente entram na cidade, o que eles fazem? Tacam fogo em tudo, derrubam todos os prédios, destroem a cidade, sugerindo que os vilões não estavam tão errados assim.

- SPOILER: No fim a Last City (a civilização moderna, a "América") é totalmente incendiada e destruída pelas pessoas do "bem", os únicos cientistas que tinham conhecimento sobre a cura são mortos, e os mocinhos vão felizes e satisfeitos pra um lugar "paradisíaco" onde tudo é rústico, o trabalho é manual, as pessoas vivem de agricultura, artesanato, moram em tendas, etc.

- A carta do Newt no fim é uma tentativa barata de comover a plateia. Não funciona pois o personagem era raso, esquecível, e não demonstrou essa ligação emocional toda com o Thomas ao longo do filme.

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CONCLUSÃO: Apesar das mensagens políticas péssimas, não acho o filme mal intencionado, pois elas são apenas um pano de fundo. O problema aqui no fim é a história fraca, o protagonista fraco, e a falta de inteligência que tira a credibilidade da ação.

Maze Runner: The Death Cure / EUA / 2018 / Wes Ball

FILMES PARECIDOS: As séries Divergente, Jogos Vorazes, etc.

NOTA: 4.5

domingo, 28 de janeiro de 2018

O Artista do Desastre

NOTAS DA SESSÃO:

- Ótima a cena do Tommy (James Franco) na aula de teatro. Não só é uma apresentação hilária do personagem, como já serve pra unir os protagonistas e estabelecer a relação entre os 2 (é fácil entender o que atrai Tommy a Greg e vice-versa após isso).

- Legal, não sabia que a frase famosa do The Room ("You're tearing me apart, Lisa!") era inspirada em Juventude Transviada!

- É fascinante essa capacidade de Tommy de manter sua "autoestima" e a fé nos seus sonhos independente da realidade, dos fatos externos. Ele representa um caso tão extremo e único que o filme acaba se tornando referência imediata pra todo tipo de comportamento que caia dentro dessa categoria.

- Hilária a cena da mãe do Greg indo até o carro pra conhecer o Tommy. As participações especiais são ótimas surpresas ao longo do filme (Megan Mullally, Sharon Stone, etc).

- Não havia ninguém mais perfeito que James Franco pra interpretar Tommy Wiseau. A risada, o sotaque... Certamente merecia a indicação ao Oscar. Dave Franco está adorável também.

- O roteiro é um acerto. Já começa com a sacada ótima de contar a história do The Room, mas além disso, ele sabe pegar os aspectos mais interessantes da história e transformá-los em cenas hilárias, seguindo uma sequência lógica de acontecimentos cada vez mais absurdos, até o lançamento do filme (as audições, a compra dos equipamentos, a primeira vez de Tommy em frente às câmeras, a filmagem da cena de sexo, etc). A história não tem 1 trecho chato do começo ao fim. É tipo uma mistura de Primavera para Hitler com Toni Erdmann.

- O filme não torna muito explícita a psicologia de Tommy (o que é uma boa ideia), mas há todo o subtexto entre ele e o Greg, a relação de ciúme, possessão, que tornam o filme mais rico do que uma simples comédia de 1 piada só. A cena em que o Greg vai se despedir do Tommy (quando ele decide ir morar com a namorada) é sutilmente genial: Tommy está no banheiro pintando o cabelo, se admirando no espelho, e mal olha na cara de Greg enquanto ele se despede. É um momento que captura todo o drama de Tommy - a autoestima cega, o foco exagerado em suas supostas virtudes (pitando o cabelo pra parecer mais jovem, se gabando de músculos que nem tem) como forma de bloquear psicologicamente a rejeição que está vindo do mundo externo, das outras pessoas.

- Ótimo ele forçar o Greg a escolher entre o filme e o papel na série de TV (o problema de ter que fazer a barba, etc). É um conflito perfeitamente lógico, bem costurado na trama, que revela personagem, avança a história, etc.

- SPOILER: Muito boa toda sequência final na estreia do filme. As reações iniciais da plateia, a situação desesperadora do Greg, a parte da cena de sexo - até o "sucesso" inesperado do filme como comédia. A homenagem do Tommy ao Greg após a exibição é um momento lindo.

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CONCLUSÃO: Original, hilário, inteligente, tocante - um acerto.

The Disaster Artist / EUA / 2017 / James Franco

FILMES PARECIDOS: Toni Erdmann (2016) / Dirigindo no Escuro (2002) / Os Picaretas (1999) / Ed Wood (1994) / Primavera para Hitler (1967)

NOTA: 9.0

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

The Post: A Guerra Secreta

Spielberg continua tentando provar que ele é um cineasta "sério", investindo nesse seu lado mais burocrático, político, de emoções contidas, que na minha opinião não é onde ele brilha mais. Os personagens parecem emocionalmente distantes na maior parte do filme, e a história não chega a ser tão envolvente quanto a de outros dramas de jornalismo como Spotlight: Segredos Revelados. Um dos motivos é o fato de não ficar muito claro o quão bombásticas são as informações que os personagens têm nas mãos, afinal a "bomba" principal (a informação de que o governo americano estava mentindo sobre a guerra do Vietnã) já tinha sido jogada pelo New York Times, então o Washington Post publicar mais páginas do mesmo relatório fica parecendo pra plateia apenas "mais do mesmo", e não algo novo, inesperado, que realmente mudaria o rumo da história, chocaria o mundo, etc.

Minha impressão é que Spielberg fez o filme mais por causa da mensagem pró-liberdade de imprensa (e indiretamente anti-Trump) e pró-feminismo que a história transmite, numa tentativa de se conectar com os "liberals" que dominam Hollywood. O problema é que ele é equilibrado e íntegro demais pra agradar o público moderno nesses termos. Ele defende feminismo e liberdade de expressão só que da maneira sensata, racional, sendo respeitoso em relação aos homens, aos valores americanos... Assim ele nunca vai conquistar o público niilista, raivoso, anti-americano, da mesma forma que um Guillermo del Toro consegue com A Forma da Água, por exemplo, então a estratégia parece frustrada.

Mas apesar desses poréns, volto a dizer o mesmo que disse sobre Ponte dos Espiões: a história é tão bem contada, a produção tão rica, as atuações tão incríveis, a música tão boa, que ainda assim ele se destaca como um dos bons filmes do ano. E apesar do início lento, a história acaba ganhando certa força após a primeira hora, particularmente após 2 cenas (o diálogo entre o Tom Hanks e a esposa, e depois o diálogo entre a Meryl Streep e a filha no quarto das crianças) que nos fazem entender melhor quais os riscos da decisão pra personagem da Meryl num nível mais emocional. A meia hora final é bastante satisfatória e a cena final com Nixon faz a gente apenas lamentar o fato do resto do filme não ter tido mais dessa mesma energia.

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The Post / Reino Unido, EUA / 2017 / Steven Spielberg

FILMES PARECIDOS: Spotlight: Segredos Revelados (2015) / Ponte dos Espiões (2015) / O Voo (2012)

NOTA: 7.5