terça-feira, 5 de junho de 2018

Tully

NOTAS DA SESSÃO:

- Na postagem Filmes Bem vs. Mal Intencionados eu listo como uma das "más intenções" quando o objetivo primário do filme é: "amenizar a dor ou a baixa autoestima do espectador triste ou com senso de inferioridade, retratando personagens infelizes ou problemáticos de maneira positiva - não em prol do entretenimento, mas pra provocar um senso de "conforto" e identificação no espectador, mostrando que outros sofrem como ele, que ele não está sozinho em sua miséria" - então eu de cara já não embarco muito na história de Tully porque esta é justamente a proposta do filme - dizer pra mães exaustas que a maternidade realmente é uma tortura, e que elas não devem se sentir culpadas por estarem infelizes, não conseguirem ser mães ideais, etc.

- O filme em geral é do tipo Realista, mas às vezes ele tem umas atitudes Anti-Idealistas ruins quando, pra "confortar" o espectador frustrado, ele se permite alfinetar pessoas felizes e bem sucedidas (como o irmão e a cunhada) sem justificativa alguma (retratando elas de maneira ridícula, caricata, como se felicidade fosse uma espécie de alienação).

- Não gosto do pessimismo e da vitimização. Se pelo menos o filme contrastasse os momentos difíceis com alguns momentos positivos entre ela e os filhos, pelo menos 1 sorriso dela direcionado ao bebê, mostrando a criança como algo de valor, o filme pareceria melhor intencionado... Mas não - é como não houvesse nada de compensador na situação. O filme retrata o bebê como se fosse um pedaço de carne sem alma que está ali só pra gritar e arruinar as noites da Charlize Theron. É um filme com uma visão vazia e materialista da vida. E a pergunta que não quer calar: se ter filhos é tão infernal assim, por que o casal está no filho número 3? Somos obrigados a perpetuar a espécie? A seguir o mesmo roteiro que todo mundo?

- Quando chega a Tully (babá) o filme dá uma melhorada no tom. Mas espero que a mensagem final não seja tão rasa assim ("A vida está muito puxada? Então aceite dinheiro do seu irmão rico e contrate um empregado!").

- Há algo de suspeito na Tully. O filme quer que a gente a veja como a babá perfeita, como uma nova amiga da Charlize, mas há algo de sinistro e falso na personagem que torna as cenas incômodas. Não sabemos nada sobre a vida dela, ela não demonstra emoções autênticas, está sempre com uma atitude estranhamente positiva, altruísta, que soa manipulativa... E não faz sentido uma menina tão qualificada assim estar nesse emprego... A gente fica esperando baixar a Rebecca De Mornay nela a qualquer momento.

- SPOILER: Péssimo (e totalmente artificial) a Tully transar com o marido da Charlize pra "ajudar" na vida sexual do casal. Essa cena na cama chega a ser incômoda de ver. Ou então mais pra frente quando ela espreme o peito da Charlize no banheiro pra ajudar o leite a sair. Se fosse um filme de terror onde a babá fosse pra ser sinistra, seria perfeito. Mas o filme continua querendo mostrar a Tully como se fosse uma babá moderna, admirável, um anjo que caiu na vida da Charlize.

- SPOILER: Uma tolice a revelação final de que a Tully só existia na imaginação da Charlize. Na postagem Simbolismo e Filmes Interpretativos eu discuto por que desaprovo filmes que vêm com uma "carta na manga" no último momento e com isso tentam consertar uma narrativa que foi inteira problemática. Se eu passei 1h30 de filme achando tudo mal escrito, sem realismo psicológico, a personagem estranha, sem carisma... Não adianta no fim dizer "supresa, era tudo simbólico!" e achar que o espectador sairá satisfeito. Isso é apenas a Diablo Cody (roteirista) tentando pagar de espertinha, colocando sua sacada "genial" acima de questões narrativas mais importantes. E a mensagem é uma chatice: "Vejam maridos, não existem Tullys na vida real, então tratem de ajudar suas esposas nas tarefas domésticas!". Reparem como o filme promove uma maneira destrutiva de se lidar com os problemas da vida: o desejo da Charlize no começo do filme é o de obter ajuda pra cuidar dos filhos, o que é totalmente compreensível (o desejo do protagonista é o que chamamos de a "espinha" da história). No fim, como é que a "heroína" conquista seu objetivo? Sendo responsável, assertiva, racional, criativa, buscando soluções de ganha-ganha, dando um exemplo inspirador pra plateia? Não: quase se matando num acidente de carro, até que seu marido finalmente fica convencido de que ela é incapaz, digna de pena, chegou no seu limite, e assim decide ajuda-la com base na culpa. E o irmão rico da Charlize também era imaginário? Ele não continua disposto a pagar por uma babá? Com 3 filhos pequenos (sendo 1 autista) isso ainda não seria uma ótima opção pro casal, mesmo que eles não achassem uma babá tão "mágica" quanto a Tully?

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Tully / EUA / 2018 / Jason Reitman

NOTA: 4.0

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Han Solo: Uma História Star Wars

Meu desacordo com a cultura atual é tão incrível que, quando público e crítica estão eufóricos em relação a um filme, eu posso ter quase certeza que irei detestar. E quando um filme é recebido de maneira morna (como nesse caso) eu já começo a ficar mais esperançoso. Entre O Despertar da Força, Rogue One e Os Últimos Jedi, Han Solo pode não ser o que irá gerar mais frisson, mas é certamente o que eu considero o melhor filme em termos de roteiro, direção, elenco, e é de longe o melhor em termos de valores - o único que é consistentemente Idealista e que tem um espírito compatível com o da trilogia original.

Se você olha quem dirigiu e escreveu o filme, não há mistério: Ron Howard (diretor de Uma Mente Brilhante, Apollo 13, Frost/Nixon, Willow - Na Terra da Magia) é um contador de histórias altamente experiente, competente, e que trabalha bem em todos os gêneros. E o roteirista Lawrence Kasdan escreveu nada menos que O Império Contra-Ataca, O Retorno de Jedi e Os Caçadores da Arca Perdida (ele também foi roteirista de O Despertar da Força, porém lá teve que trabalhar junto com outros 2 roteiristas, incluindo o diretor J. J. Abrams, enquanto aqui ele escreveu apenas com seu filho, resultando num trabalho mais íntegro).

Ao assistirem o filme, reparem como a história é estranhamente fácil de acompanhar - como o filme foi feito pra ser visto num estado de alerta, por cineastas que desejam que o espectador acompanhe o passo a passo da história sem grandes dificuldades, que só incluem na narrativa eventos que são relevantes pros objetivos estabelecidos dos personagens, e que possam ser compreendidos pelo espectador (que não fica numa névoa olhando figuras que agem de maneira aleatória, cenas que não sabemos pra que servem, ações que não levam a lugar nenhum, etc).

Reparem como o filme nos mostra relacionamentos atraentes entre todos os personagens. Lembro que em Guardiões da Galáxia Vol. 2 comentei que a Zoe Saldana era uma personagem extremamente antipática, que estava sempre contrariada, emburrada com o Chris Pratt - sendo que essa deveria ser a relação mais positiva do filme. Aqui é o exato oposto - até entre o Han Solo e o Beckett (Woody Harrelson) que é um semi-vilão, temos uma relação fascinante, carismática, entre duas pessoas que têm autoestima e se tratam com dignidade.

Reparem como somos transportados pra um universo que parece palpável, orgânico, com cenários físicos, em vez de ambientes 3D que parecem mais um videogame.

Reparem como Han Solo é de fato um herói, como em diversos momentos podemos de fato ver ele fazendo coisas interessantes, demonstrando suas habilidades, tendo sacadas inteligentes pra se livrar de enrascadas ou pra manipular os vilões (sacadas que fazem sentido e que exigiram certo raciocínio do roteirista), demonstrando bons valores de caráter (sendo o "mocinho" mesmo ele não gostando de admitir isso), e como em vez de focar na decadência dos heróis como na maioria dos filmes atuais, aqui nós vemos a ascensão e a celebração de um que ainda está caminhando para o seu auge.

Sim, falta algo no filme que o impede de se tornar altamente memorável ou relevante. Mas talvez seja simplesmente por causa da proposta dessa saga, que pretende contar histórias menos épicas dentro do universo Star Wars, o que deixa os filmes num meio-do-caminho esquisito: não são nem simples o bastante pra funcionarem como pequenas "pérolas", mas também não podem ser ambiciosos o bastante a ponto de competirem com os filmes principais.

De qualquer forma, é um entretenimento old-school muito bem vindo pra quem quer um descanso das tendências atuais do cinema.

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Solo: A Star Wars Story / EUA / 2018 / Ron Howard

NOTA: 7.5

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Deadpool 2

Queria não ter deletado o vídeo que gravei na época do lançamento do primeiro Deadpool, pois tinha traduzido uns trechos do artigo "Bootleg Romanticism" da Ayn Rand que seriam novamente relevantes aqui. Mas só pra relembrar uma parte:

"Observe que na questão de humor vs. thrillers, os intelectuais modernos estão usando o termo "humor" como um anti-conceito, um "combo" de 2 significados, com o significado correto servindo de cobertura pra que eles enfiem o significado inapropriado nas mentes das pessoas. A intenção é destruir a distinção entre "humor" e "ridicularização", particularmente "auto-ridicularização" - e portanto levar as pessoas a sujarem seus próprios valores e suas autoestimas, por medo de serem acusadas de não terem um "senso de humor". Lembre-se que humor não é uma virtude incondicional - ele depende do objeto. Você pode rir com um herói, mas nunca de um herói - assim como uma sátira pode rir de um determinado objeto, mas nunca de si mesma. Uma composição que ri de si mesma é uma fraude sobre a plateia."

Concordo plenamente com ela (é o que já discuti em postagens como Herói Envergonhado e Idealismo Reprimido) e esse é o principal motivo de eu não me divertir com essa série.

Mas há outros valores ruins no filme também. Não só ele é anti-heróis, anti-autoestima, como ele é explicitamente pró auto-sacrifício, apresentando uma história onde o herói dedica todo o seu esforço pra salvar um personagem secundário, que nada tem a ver com sua vida, que é intencionalmente feio, mau caráter, não tem o menor carisma... Ou seja, o grande tesouro da história, a "arca perdida" que o herói tem que lutar pra conquistar, agora é um adolescente revoltado, andrógino, com obesidade mórbida, representante das "minorias oprimidas".

SPOILER: No clímax, assim como no último Star Wars, temos novamente um momento de duplo auto-sacrifício (1 só já se tornou uma dose muito fraca pro público atual) - onde o herói tenta morrer em nome dos mais fracos, mas daí um personagem secundário se sacrifica de última hora pra impedi-lo de se sacrificar. Assim, o herói consegue provar pro público que tem o "coração no lugar certo" - que está em harmonia com os ensinamentos de Jesus - mas não precisa morrer na prática, afinal isso seria muito inconveniente, o que vale mesmo é a intenção (o interessante nesse caso específico é que mesmo depois que o Deadpool se joga na frente da bala e leva o tiro pelo garoto, ele ainda poderia se salvar apenas tirando o dispositivo do pescoço que anula seus poderes - tirando o colar, o ferimento da bala se regeneraria - mas não: ele insiste em não tirar o colar e morrer de propósito, apenas pra provar que ele não fez aquilo por qualquer motivo egoísta (egoísmo = Hitler). Para um altruísta, apenas o sacrifício total conta como uma verdadeira prova de bondade.

A completa rejeição da lógica, da realidade, de regras claras, também é algo impressionante nos filmes da Marvel, e aqui não é diferente - o que destrói qualquer possibilidade de suspense na história e envolvimento nas cenas de ação (como ficar apreensivo, temer qualquer coisa, ou admirar qualquer virtude num universo onde tudo pode, onde nada tem características sólidas, onde não se tem uma noção de quais são os limites do herói, do que ele pode ou não fazer?). Afinal, não só Deadpool é praticamente indestrutível (ele é desmembrado diversas vezes no filme - às vezes demoram alguns dias pros seus membros crescerem de volta, mas às vezes ele já aparece todo "colado" na cena seguinte), como também há uma máquina do tempo no filme, então mesmo que alguém consiga matá-lo, sabemos de antemão que será possível desfazer tudo num estalar de dedos.

Rand dizia que a arte reflete a soma dos valores filosóficos mais profundos de uma sociedade. Não sei se Deadpool é um bom representante da cultura atual, mas o que quer que ele reflita, não é boa notícia.

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Deadpool 2 / EUA / 2018 / David Leitch

FILMES PARECIDOS: Logan (2017) / Star Wars: Os Últimos Jedi (2017) / Kingsman: Serviço Secreto (2014)

segunda-feira, 14 de maio de 2018

A Noite do Jogo

Comédia sobre um grupo de amigos que se reunem semanalmente pra noites de jogos, mas que em uma noite em particular acabam se envolvendo em um mistério real. É um daqueles filmes onde fica óbvio desde o começo que tudo o que está acontecendo ainda pode fazer parte do jogo, e que no fim poderemos ter a grande "surpresa" de que era tudo uma armação de um deles. O filme se esforça pra deixar o espectador na dúvida, mas o problema é que, quando nós consideramos as 2 possibilidades ao longo da história, percebemos que nenhuma delas teria muita graça: se tudo ainda for parte do jogo, é uma ideia clichê e usada de maneira previsível; já se estiver acontecendo pra valer, então quer dizer que o filme depende de uma coincidência tão forçada que faz o roteiro parecer preguiçoso e irreal.

O filme é dos mesmos diretores do remake de Férias Frustradas, e sofre dos mesmos problemas daquele filme: apesar de bem intencionado, de querer ser uma comédia com um tom leve, onde o humor vem de ideias criativas, do roteiro, de Set Pieces originais (em vez de apelar pra vulgaridades comuns, atores careteiros, etc), é simplesmente um daqueles casos onde falta talento, onde a história simplesmente não é tão esperta quanto tenta parecer, onde as cenas de humor parecem forçadas, auto-conscientes, mal integradas à história...



De qualquer forma, a plateia riu bastante durante a sessão, e o filme está com avaliações positivas no IMDb, no Metacritic, então de repente é uma boa opção pra espectadores menos exigentes que queiram apenas uma diversão passageira, um filme "bobinho", "pra não ter que pensar", etc.

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Game Night / EUA / 2018 / John Francis Daley, Jonathan Goldstein

FILMES PARECIDOS: Férias Frustradas (2015) / Família do Bagulho (2013) / Quero Matar Meu Chefe (2011)

terça-feira, 8 de maio de 2018

Update 8/5 - A Noite de 16 de Janeiro

Nesse domingo fui assistir à peça da Ayn Rand "A Noite de 16 de Janeiro" que está em cartaz aqui em São Paulo, dirigida pelo Jô Soares. Eu não sou expert em teatro e ainda não li o texto original da Rand, então não vou criticar a peça em si (minha impressão é que ele foi fiel ao texto de forma geral, porém acrescentou diversos toques de humor pra aproximar a peça do estilo dele e daquilo que o público dele espera, mas sem subverter demais o conteúdo).

Meu maior receio era que o Jô tivesse apenas ficado interessado no texto de Rand, no "gimmick" de usar a plateia como juri, mas fosse evitar de tocar no nome dela na divulgação pra evitar polêmicas. Mas felizmente não é o caso; logo na entrada do teatro recebemos um jornal com informações sobre a peça, onde na primeira página há uma foto de Rand, frases dela, uma mini-biografia onde são citados o objetivismo, A Revolta de Atlas, etc. Depois, antes de começar o espetáculo, Jô aparece num vídeo e novamente fala sobre Rand, dizendo que ela é considerada "de direita pela esquerda, e de esquerda pela direita", o que não é totalmente falso. Ele nunca toca nos aspectos mais polarizadores de sua filosofia (o que não viria ao caso mesmo), e pelo que ele tem dito em entrevistas fica claro que ele ainda não conhece muito bem as ideias de Rand, mas o legal é que ele está aparecendo por aí na TV aberta promovendo os trabalhos dela (algo que me parece inédito no Brasil), falando sempre de maneira elogiosa, e quase se desculpando por sua "vasta ignorância" de nunca ter ouvido falar em seu nome nos seus 80 anos de vida.




sexta-feira, 27 de abril de 2018

Vingadores: Guerra Infinita

Vi 2 horas do filme mas acabei me cansando e indo embora meia hora antes do final. Simplesmente me senti perdendo tempo na sala, mais uma vez investindo numa franquia que desde o primeiro capítulo nunca me proporcionou um pingo de prazer ou de satisfação artística, que me parece insípida em todos os aspectos importantes de um bom entretenimento, e que continua a entregar apenas mais do mesmo de forma mecânica, enlatada. Quando vejo esses filmes da Marvel muitas vezes me sinto como um assexual entrando num cinema pornô, ou um ateu atendendo um culto evangélico... A sensação de olhar pra tela e simplesmente não entender qual a graça, como se me faltasse uma glândula extra que todos os outros espectadores tivessem.

Pra mim o problema é que todas as coisas que o filme oferece de "valor" na verdade são fundadas em questões passageiras, superficiais: efeitos especiais grandiosos que parecem sofisticados hoje mas que daqui a 10 anos já serão ultrapassados; a presença de dezenas de astros que estão em alta no momento e fazem o filme parecer imponente, cool, mas que não representarão muito para as gerações futuras assistindo ao filme; o apego que os fãs têm aos personagens por mérito dos quadrinhos ou de filmes anteriores, e não deste filme em particular; e também por uma espécie de auto-afirmação social, da identificação do espectador com uma "tribo" ou uma sub-cultura específica defendida pelo filme (nesse caso a dos nerds), da mesma forma que nos anos 60/70 faziam filmes hippies pra agradar o público hippie, filmes Disco pra quem ouvia música Disco - filmes que hoje em dia em geral parecem péssimos.

Uma das principais marcas de um bom filme é que ele resiste ao teste do tempo, pois o que ele tem de valor está na essência, naquilo que é universal e atemporal na arte (e no cinema, tudo começa com um bom roteiro e uma boa história) não nos elementos secundários. Então filmes assim acabam sendo o equivalente cinematográfico a essas músicas sobre rebolar a bunda que fazem sucesso por alguns meses e podem até proporcionar instantes divertidos na balada, demonstrar algum tipo de "sabedoria pop" e valor de produção, mas cuja pobreza musical a faz cair em esquecimento na temporada seguinte.

Pra quem quiser melhorar essa capacidade de enxergar o que é essencial em um filme e o que é secundário, o melhor exercício é começar a assistir muitos clássicos e filmes antigos em geral. E parar pra pensar por que é que um bom clássico continua impactante hoje em dia... Observar o que ele tem de especial, que erros ele não comete, por que determinadas cenas continuam tocando as pessoas da mesma forma... E por que outros filmes que foram grandes hits em suas épocas (às vezes mais bem sucedidos do que esses que se tornaram clássicos) hoje em dia soam tão datados, pobres, ineficazes, como por exemplo alguns filmes de desastre dos anos 70, que eram repletos de astros e efeitos especiais caros - coisas que podiam divertir o público num nível superficial e lotar salas de cinema - mas que vendo hoje fica claro que sem essas "muletas" o filme não se sustenta tão bem.

Avengers: Infinity War / EUA / 2018 / Anthony Russo, Joe Russo

FILMES PARECIDOS: Capitão América: Guerra Civil (2016) / Vingadores: Era de Ultron (2015)

quinta-feira, 26 de abril de 2018

A Ghost Story

A postagem Subjetivismo e Filmes de Arte explica bem por que eu não gosto desse gênero de filme, então meio que vou pular essa parte da discussão e apenas comentar algumas observações que me vieram à mente:

O filme se sustenta basicamente em cima de 1 sacada estilística central, que é a de colocar um fantasma tipo Scooby-Doo dentro de um contexto de filme dramático, causando um contraste estranho entre o visual sério da produção e a figura cartunesca no cenário, que se torna o mesmo tempo ridícula e assustadora.

O problema é que passada a curiosidade inicial gerada por essa imagem, o filme não se propõe a oferecer algo mais interessante em termos de história, desenvolvimento de personagem (há uma tentativa de um plot-twist no final que pra mim não fez o menor sentido, pois o filme não tinha uma trama em primeiro lugar que pudesse ser "revirada" no fim).

Outro elemento diferente aqui é a tela com formato quadrado e bordas arredondadas (algo que eu nunca tinha visto), que me parece aquela busca forçada por inconvencionalidade que o Robert McKee diz no texto sobre Filme de Arte, algo que desconecta o espectador da história e o faz focar mais no estilo e na figura do autor (no meu texto Mentalidade Clichê há uma discussão interessante sobre o convencional versus o não-convencional que é bem relevante aqui).

Há 1 momento curioso no filme que acho interessante mencionar, onde um homem numa festa faz um longo discurso sobre niilismo para os outros convidados (é o momento mais verbal do filme, que em geral é bem silencioso), que na minha visão pode ser visto como o cineasta tentando se justificar pro público, explicando por que ele fez um filme tão nonsense quanto esse. É como se ele dissesse: "Vejam espectadores, a vida não faz sentido, então por que o meu filme tem que fazer? Pegaram a sacada?" - o que é engraçado, pois o leva a à contradição inevitável que discuto na postagem Pessimismo.

O filme tem um apelo visual forte, é ousado, mas está longe do valor artístico/intelectual que parece querer atingir.

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FILMES PARECIDOS: Mãe! (2017) / O Lagosta (2015) / Sob a Pele (2013) / Tio Boonmee (2010)

A Ghost Story / EUA / 2017 / David Lowery

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Aos Teus Olhos

Gosto muito do Daniel de Oliveira como ator e o filme começa com uma situação envolvente, mostrando um professor de natação carismático que é acusado de abusar de um de seus alunos - mas sem revelar pra plateia se ele é inocente ou culpado, apenas acompanhando o impacto do escândalo em sua vida pessoal. É uma situação que já vimos antes em diversos filmes como Dúvida, A Caça, mas que sempre garante certo suspense. O grande problema aqui é o "combo" de Realismo, Subjetivismo e Pessimismo que se unem impedindo a história de se tornar uma narrativa realmente satisfatória.

SPOILER: Ao longo do filme nós não sabemos se o protagonista é inocente ou culpado, não sabemos se o aluno disse de fato pra mãe que ele foi abusado ou se é tudo uma invenção dela, e pra piorar nossa frustração, o filme termina numa cena aleatória, de forma aberta, inconclusiva, sem nos mostrar nem o que acontece com o protagonista no fim.

Saímos apenas com uma noção vaga de que a felicidade é algo frágil, que um pequeno gesto pode desencadear uma série de acontecimentos e destruir sua vida a qualquer momento, que não existe verdade absoluta, apenas "narrativas" diferentes, e que a tecnologia e as redes sociais vão tornar o mundo ainda mais caótico e imprevisível no futuro.

Não é desinteressante de assistir, mas fica a impressão de um roteiro incompleto, tirado do "forno" antes do tempo, que merecia pelo menos um final mais sólido.

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Aos Teus Olhos / Brasil / 2018 / Carolina Jabor

FILMES PARECIDOS: Sangue Azul (2014) / A Caça (2012) / Dúvida (2008)

NOTA: 5.0

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Update 20/4

Continuo com minha rotina meio atrapalhada; o único filme que vi no cinema esses dias foi Rampage: Destruição Total. Achei divertido, mas enfraquecido pelo total rompimento com a realidade... É o tipo de coisa que temos visto cada vez mais nesses filmes com Dwayne Johnson, Vin Diesel (que pra mim são reflexo da direita atual) - a tentativa de atingir grandiosidade mas sem verdade, sem bom senso, sem inteligência... Romper descaradamente com o mundo real (quase como uma provocação consciente - uma imaturidade / irresponsabilidade assumida) e daí se sentir livre pra celebrar coisas como autoconfiança, heroísmo, aventura, etc. A intenção me parece boa, mas como digo na postagem Os 4 Pilares do Idealismo, sem respeito pela realidade você não consegue de fato criar um bom entretenimento (a não ser que faça algo tipo Sharknado e assuma o lado cômico).

Na Netflix, vi um episódio de La Casa de Papel e também de Lost in Space, mas não me interessaram o bastante pra continuar. 😉✌✌✌

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Spielberg, Rand e Princípios Estéticos

Vendo Jogador Nº 1 me lembrei desse trecho de The Art of Fiction da Ayn Rand e fiquei me perguntando se Spielberg cairia nessa categoria de artista. Claro que ele teve muito mais que apenas 1 grande filme no início da carreira e ainda continua um bom diretor, mas também é verdade que seus filmes "pipoca" das últimas décadas (como Jogador Nº 1, O Bom Gigante Amigo, As Aventuras de Tintim ou Guerra dos Mundos) estão a anos-luz de filmes como Tubarão, Os Caçadores da Arca Perdida, E.T.,  e indicam que ele não tem um grande controle sobre seu estilo nem muita consciência do que é que o tornava tão brilhante na primeira fase da carreira (não deixem de ver o vídeo no fim da postagem).

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Tirado de The Art of Fiction, de Ayn Rand:

"O artista que diz que escrever é um talento inato - que se você senta pra escrever, ou Deus te move ou não te move, e que se ele não te mover, não há nada que você possa fazer a respeito - esses escritores não estão necessariamente mentindo. Eles apenas são ruins em introspecção. Eles não sabem o que é que os permite escrever."

"Esse tipo de escritor geralmente se esgota após alguns anos. Como regra, ele começa bem jovem, e demonstra o que se chama de um "potencial incomum"; mas depois de alguns anos você o vê repetindo as mesmas coisas, cada vez de maneira menos brilhante e original - e logo ele percebe que não tem mais nada pra escrever. Aquela inspiração cuja fonte ele desconhecia desapareceu. Ele não sabe como reabastecê-la."

"Por imitação, mais do que por compreensão, ele aprendeu a escrever; ele entendeu que as pessoas podem colocar ideias, sentimentos e impressões no papel, e ele o fez. Se ele tiver observações originais o bastante acumuladas no seu subconsciente, certo valor literário pode estar presente em sua obra por um tempo (junto com um monte de porcaria). Mas uma vez que ele tenha usado aquele estoque de impressões iniciais, ele não tem mais nada a dizer."

"Ele apenas tinha uma ideia generalizada do que é escrever, e surfou no seu subconsciente por um tempo, nunca tentando analisar de onde vinham suas ideias, o que ele estava fazendo, e por que. Tal escritor é antagônico à análise; ele é do tipo que te diz que a "mão fria da razão" é prejudicial à sua inspiração. Ele não consegue funcionar através da razão, ele diz - se ele começar a analisar, ele acha que isso irá parar sua inspiração completamente (dada a maneira como ele funciona, isso iria de fato pará-lo)."

"Por contraste, se você sabe de onde realmente vem sua inspiração, seu material nunca se esgotará. Um escritor racional consegue alimentar seu subconsciente assim como alguém coloca combustível em uma máquina. Se você continuar armazenando coisas na sua mente para os seus trabalhos futuros, e continuar integrando as escolhas de tema ao seu conhecimento geral, permitindo o escopo de sua escrita crescer conforme seu conhecimento se amplia, então você sempre terá algo a dizer, e você encontrará cada vez maneiras melhores de dizê-lo. Você não irá descer ladeira abaixo após uma explosão inicial de coisas de qualidade."

"Se parte de sua mente ainda estiver pensando, "Sim, mas como eu posso saber que escrever não é um talento inato?" a probabilidade é que você nunca começará a escrever, ou então começará mas estará num eterno estado de terror. Toda vez que você escrever algo bom, você irá se perguntar: "Mas será que eu vou conseguir da próxima vez?".

"Eu já ouvi vários escritores famosos reclamarem que eles têm literalmente ataques de ansiedade toda vez que começam um livro. Não importa o quão bem sucedidos eles sejam; como eles não entendem plenamente do que consiste o processo de escrita - ou, a propósito, por que um livro é bem sucedido ou não - eles estão sempre à mercê desse terror: "Sim, 10 livros foram bons, mas como eu posso saber que o 11º será bom?".

"Em vez de irem melhorando, esses escritores normalmente permanecem num nível precário ou, com mais frequência, deterioram ao longo dos anos. Um exemplo é Somerset Maugham. Pelo que se pode saber de suas opiniões através de seus trabalhos, ele não acredita que escrever seja um processo racional; e seus trabalhos mais tardios são bem menos interessantes do que seus trabalhos iniciais. Embora ele ainda não tenha se esgotado totalmente, a qualidade decaiu."

"Pra poder formar seu gosto literário pessoal e colocá-lo sob seu controle consciente, sempre registre o que é que você gosta e não gosta em suas leituras, e sempre se dê razões. De primeira talvez você identifique apenas as razões imediatas pra sua estimativa de um certo parágrafo ou livro. Conforme você pratica, você irá cada vez mais fundo. (Não memorize seus princípios. Apenas os armazene no seu subconsciente; eles estarão lá quando você precisar deles.)"

"É possível que um escritor tenha bons princípios literários de forma inconsciente, ou seja: por imitação ou por intuição. Muitos escritores os têm, e portanto não conseguem identificar as razões de sua escrita. Eles dizem "Eu escrevo porque simplesmente vem para mim", e eles realmente acreditam que eles têm um talento inato ou que algum poder sobrenatural dita para eles. Não conte com esse poder sobrenatural pra lhe dar esse talento. Se você estiver tentado a perguntar "Por que eu não posso simplesmente confiar no meu instinto?", minha resposta é que seu "instinto" não funcionou pra você até agora. Você não tem princípios literários - a mera dúvida da sua parte já é uma indicação. E mesmo que você tenha princípios literários, ou o que as pessoas chamam convencionalmente de "indicações de talento", você permaneceria no mesmo nível por toda sua carreira e nunca evoluiria pra escrever aquilo que você realmente quer. Pra adquirir princípios literários, ou desenvolver aqueles que você já tem, o que você precisa é de conhecimento consciente."

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(Spielberg não está se referindo aqui ao seu dom necessariamente, à fonte de seu talento, e sim à fonte de sua motivação, de sua paixão pelo cinema... Mas ainda assim, a resposta revela uma atitude bastante "antagônica à análise" que deve se espalhar pra outras áreas, e que combina muito com o que Rand disse no texto.)