quarta-feira, 22 de março de 2017

Horizonte Profundo: Desastre no Golfo

NOTAS DA SESSÃO:

- A apresentação dos personagens tem alguns detalhes interessantes de caracterização - é um pouco menos genérica do que se espera pra esse tipo de filme. Legal a ideia da latinha de Coca-Cola em "erupção" anunciando o que está por vir.

- O maior problema do filme é a falta de uma história humana forte por trás do desastre. O fato de um grande acidente ter ocorrido não é razão o bastante pra se fazer um filme. Se não vira apenas uma reconstituição de telejornal mega-produzida, como se o prazer de ver um acidente em detalhes fosse um fim em si. Quando James Cameron fez o famoso "pitch" pra vender seu conceito de um filme sobre o Titanic pros produtores, ele não disse: "Titanic afunda". Ele disse "Romeu e Julieta no Titanic".

- Visualmente o filme é muito bem feito; as imagens da plataforma são bonitas, os efeitos especiais são ótimos, realmente acreditamos estar nesse lugar testemunhando cada detalhe do evento.

- Apesar da narrativa não ser muito interessante na primeira metade do filme, dos conflitos serem clichês (o empresário ganancioso vilão que coloca dinheiro acima de segurança, etc), o filme não se torna tedioso pois sabemos que os personagens estão sentados em cima de uma bomba que pode explodir a qualquer momento.

- A sequência toda da erupção é bastante tensa e bem feita. Detalhes como o Mark Wahlberg conversando com a mulher pelo computador dão um senso de realismo pro momento, e os efeitos especiais, o som, dão uma dimensão da violência física do que está pra acontecer.

- Outro clichê cansativo é esse da esposa que fica em casa preocupada com o marido e não serve pra mais nada na história. O filme tem os mesmos problemas de Horas Decisivas, aliás parece um remake do mesmo filme (um pouco melhorado).

- Outra coisa que dá preguiça é esse foco no altruísmo do Mark Wahlberg; a ideia de que um verdadeiro herói sempre estará disposto a se sacrificar pra salvar o "próximo" (não alguém que ele ame pessoalmente, mas qualquer um que precise de ajuda). Acho sempre engraçado o fato desses elementos (altruísmo, ataque a empresários gananciosos) estarem presentes em muitos filmes com valores conservadores / republicanos - é como se fosse resultado de culpa, vinda do lado cristão deles.

- O filme termina de forma previsível e continua com a sensação de que foi uma história vazia, apenas um pretexto pra filmar ação.

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CONCLUSÃO: Bem realizado e com alguns momentos tensos, mas sem uma história interessante por trás da ação que dê um sentido maior ao filme.

Deepwater Horizon / Hong Kong, EUA / 2016 / Peter Berg

FILMES PARECIDOS: Sully: O Herói do Rio Hudson (2016) / Horas Decisivas (2016) / Evereste (2015) / Capitão Phillips (2013)

NOTA: 6.0

segunda-feira, 20 de março de 2017

Destino Especial

NOTAS DA SESSÃO:

- O filme estranhamente começa já no segundo ato. Só depois de uns 20 minutos é que o espectador entende o que está acontecendo. Mas pelo menos é um começo intrigante: queremos entender por que os 2 homens raptaram o menino, por que o garoto age como se eles fossem conhecidos, o que ele tem de especial pro governo estar atrás dele, etc.

- A premissa é divertida - a narrativa lembra Contatos Imediatos do Terceiro Grau, porém numa versão "romantismo reprimido". O filme flerta com esse universo Spielbergiano do cinema, porém nega pra plateia alguns dos prazeres mais elementares que esse tipo de filme proporciona (jogou fora todas as surpresas que teríamos tido no primeiro ato, não tenta criar um senso de encantamento pelo sobrenatural, não apresenta heróis muito atraentes e sim personalidades mais comuns, etc). Romantismo Reprimido às vezes funciona mais ou menos como uma pessoa que não sabe contar a piada, mas gosta tanto da piada que decide apenas explicar a sacada pros ouvintes de maneira fria e casual, sem tentar fazer ninguém gargalhar de fato.

- Ainda assim a história é envolvente e consegue entreter moderadamente (há toda uma expectativa pelo "dia do julgamento", a jornada até o local é cheia de ação e momentos interessantes como a queda do satélite, etc), não é como A Chegada que vai mais longe na tentativa de subverter o gênero.

- O personagem do Adam Driver é interessante. Como ele está de fora da situação, nós nos identificamos mais com ele do que com os protagonistas que já estão por dentro de todo o mistério.

- Legal a reviravolta quando o menino é raptado pelo governo. Cria mais tensão na história, justifica a presença do Adam Driver na trama - embora pareça um pouco fácil / rápida demais a maneira como eles escapam do prédio sem ninguém impedi-los.

- SPOILER: O final é movimentado, o filme não foge de cenas de ação, efeitos especiais, etc. Só não é tão satisfatório pois nós não nos identificamos de fato com os protagonistas, talvez pelo filme ter começado da metade sem nos apresentar direito os personagens, suas motivações, conflitos, sonhos, etc. Eles atingem o objetivo, o menino consegue ir embora, mas isso não resulta num grande impacto emocional pro espectador. Ainda assim, há certa satisfação em poder ver o "lado de lá", solucionar o mistério, etc.

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CONCLUSÃO: Tentativa interessante de fazer uma aventura oitentista. Só é um pouco frustrante porque, em comparação com os filmes da época, esse acaba parecendo tímido demais na tentativa de emocionar e entreter a plateia.

Midnight Special / EUA, Grécia / 2016 / Jeff Nichols

FILMES PARECIDOS: A Chegada (2016) / Stranger Things (TV) (2016) / Corrente do Mal (2014) / Super 8 (2011)

NOTA: 6.5

Fome de Poder

NOTAS DA SESSÃO:

- O filme é bem narrado, envolvente, até por contar uma história de sucesso tão extrema e sobre algo tão familiar pra todos nós. Curioso o filme focar na história do Ray Kroc e não na dos irmãos McDonald que realmente criaram o restaurante. Mas os flashbacks mostrando como eles desenvolveram o conceito do McDonald's são fascinantes (a cena na quadra de tênis, etc)! Eles eram verdadeiros cientistas, inventores, inovadores.

- A comparação que o Michael Keaton faz entre o McDonald's e as igrejas é ótima. Apesar dele ser um personagem meio vulgar, ele realmente tem talento pro marketing. Ótima a sequência em que ele está indo atrás de financiamento, e todos se lembram dele da época em que ele estava vendendo produtos medíocres (o que tira toda sua credibilidade).

- Interessante o conflito entre os irmãos McDonald e o Ray Kroc. Os irmãos eram quase artistas, estavam preocupados com qualidade, valores, integridade, não queriam colocar propaganda nos menus, etc. E o Ray Kroc só pensando em expandir o negócio, mesmo às custas da qualidade. É um conflito entre 2 extremos - talvez nenhum dos 2 lados esteja 100% certo sozinho, mas o equilíbrio que surgiu dessa tensão foi o que permitiu o sucesso estrondoso da rede.

- Não fica muito claro como o Ray resolveu o problema do controle de qualidade quando começaram a surgir novos restaurantes. No começo ele estava selecionando os franqueados a dedo, mas e depois?

- O roteiro é bem estruturado. Mantém o interesse mesmo depois do sucesso dos restaurantes, pois o Ray ainda está com problemas financeiros, tem conflitos com os irmãos McDonald, ainda não teve a sacada do mercado imobiliário, etc. É uma aula de empreendedorismo.

- SPOILER: Odioso o Michael Keaton passar a perna nos sócios e colocar o sorvete instantâneo, quebrando o contrato. O personagem vai ficando cada vez mais desprezível e assustador. O filme acaba confirmando a noção que as pessoas têm de que o capitalismo desperta o pior nas pessoas, recompensa a desonestidade, a ganância, a falta de escrúpulos, etc. Isso só não prejudica o filme porque o personagem não é retratado como se fosse um herói; a performance do Michael Keaton não tenta romantizá-lo, etc (mas acho que o filme peca por não exaltar o bastante os irmãos McDonald - eles acabam parecendo meio que 2 losers).

- Legal a noção de que o nome "McDonald's" foi um fator importante pro sucesso do negócio. Mas uma coisa ainda mais básica que o filme não explica é em relação às receitas e ao sabor dos lanches. Dá a impressão que o McDonald's fez sucesso simplesmente pela velocidade do atendimento, pelo novo conceito de fast-food, por ter um nome catchy, etc. Mas e a comida? Eu sempre achei que o grande diferencial do Mc é que eles realmente têm um sabor único, um ingrediente secreto que atrai as pessoas que nem formiga ao açúcar.

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CONCLUSÃO: História de sucesso interessante e bem contada, embora o protagonista seja um tanto desprezível.

The Founder / EUA / 2016 / John Lee Hancock

FILMES PARECIDOS: Joy: O Nome do Sucesso (2015) / Walt nos Bastidores de Mary Poppins (2013) / Jobs (2013) / A Rede Social (2010)

NOTA: 7.3

quinta-feira, 16 de março de 2017

A Bela e a Fera

NOTAS DA SESSÃO:

- A produção é magnífica e me lembra algo que o Walt Disney disse na época em que estava idealizando seus parques - algo que ilustra bem o respeito que ele tinha pelo entretenimento e pelo espectador de todas as idades e classes: "Eu quero que o convidado entre num prédio de 1 milhão de dólares e possa comer um hambúrguer de 1 dólar".

- A sequência musical inicial no vilarejo é ótima, faz a gente lembrar de como eram os musicais de verdade. 

- O elenco está impecável. Emma Watson como Bela foi um acerto total do casting. Ela tem aquela mistura perfeita de beleza, inocência, força e sofisticação que não se vê mais nos personagens Disney. Não vejo 1 toque do que chamo de herói envergonhado ou das outras tendências que vêm contaminando o entretenimento atual. Pra mim é a experiência rara de entrar num filme onde todos os problemas básicos parecem já ter sido tirados do caminho - os problemas de narrativa, de identificação com os personagens, dos valores malignos que se revelam nas entrelinhas - e eu simplesmente pudesse tirar a "armadura" de crítico e deixar ser tocado pela beleza do que está na tela de uma forma quase que puramente sensorial.

- O romance é interessante e convincente. A gente entende o valor que um traz pra vida do outro, por que eles formam um bom par, e ao mesmo tempo entendemos os obstáculos. 

- A Fera está ótima... Há uma seriedade genuína e meio assustadora na performance que faz a gente até esquecer que esse é um filme "pra criança". A própria ideia do casal se aproximar por causa de afinidades intelectuais já é um elemento que torna esse conto mais adulto que o normal.

- Eu sempre sinto uma certa "barriga" no roteiro na porção central - algo que já vinha do desenho e do musical. A narrativa dá uma estacionada e a gente apenas tem apenas que ficar esperando os 2 se apaixonarem, o único obstáculo sendo o fato da Fera ainda não ser um homem. Os conflitos criados pra manter a história movimentada não são dos mais envolventes (Gaston amarrar o pai da Bela na floresta, etc).

- Mas isso tudo deixa de importar na cena do baile, que é uma das coisas mais lindas que vi nos últimos anos!

- O Gaston era tão divertido e charmoso no começo do filme. A transformação dele em vilão não é das mais convincentes. Ele não parece o tipo de homem com um complexo de inferioridade tão grande que o faria virar um monstro assassino só por causa de uma rejeição amorosa já esperada.

- SPOILER: O final é lindo (a quase morte da Fera e dos outros personagens, e depois a restauração de tudo). Já sabemos o que vai acontecer, mas o filme cria uma experiência visual tão bonita que queremos saber como irá acontecer. E há detalhes novos o bastante pra dar a sensação de estarmos vendo algo novo (a presença da feiticeira, o "piano" ganhar a forma humana sem dentes por ter cuspido as teclas, as brincadeiras com os personagens gays, etc).

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CONCLUSÃO: Um acerto da Disney e de Bill Condon que dá vida ao desenho de forma exuberante, mantendo o mesmo espírito da produção original.

Beauty and the Beast / EUA / 2017 / Bill Condon

FILMES PARECIDOS: Mogli: O Menino Lobo (2016) / Cinderela (2015)

NOTA: 9.0

segunda-feira, 13 de março de 2017

Silêncio

NOTAS DA SESSÃO:

- Como já se espera do Scorsese, o filme é muito bem realizado tecnicamente, a fotografia e as locações são muito bonitas, os atores estão bem, porém a história não é das mais interessantes. O grande problema aqui é que o filme assume que o espectador se importa por fé, religião, em particular pelo cristianismo, e portanto pelos dramas dos protagonistas. Mas pra quem não é religioso, o filme é sobre um conflito sem sentido e tedioso. A história não é contada de maneira universal, para todo tipo de público.

- O protagonista não tem nada de admirável além da fidelidade dele aos valores cristãos - mas fidelidade não é uma virtude em si, ela depende da pergunta "fidelidade a que?". O Andrew Garfield só vai ser admirável pro espectador cristão - os outros ficarão o filme todo querendo que ele deixe de ser fiel e salve a própria vida. Será difícil pro espectador não religioso simpatizar por uma crença que glamourize o martírio, a fé cega, o sofrimento, que diga que auto-sacrifício é uma virtude - e uma virtude maior ainda se for auto-sacrifício em nome dos miseráveis e corruptos, etc.

- A discussão ética parece tola pra quem está de fora. Por exemplo: o personagem se sente culpado por não conseguir amar os torturadores (assim como Jesus manda). Pra qualquer não religioso, é claro que ele não deveria amá-los! E qual o problema de pisar na imagem de Jesus? É apenas um pedaço de matéria. Seria apenas um ato físico sem verdadeiro significado. Os vilões estão forçando eles a fazerem isso. Se eles não pisarem, serão mortos! Será que o cristianismo diz que, numa situação dessa, o correto é desobedecer os criminosos e ser assassinado? Só isso já deveria ser motivo o bastante pra eles questionarem a religião.

- A narrativa é monótona e pouco prazerosa. O filme tem 2h40 e basicamente é a repetição de uma mesma cena: um cristão em conflito entre "renunciar" sua fé ou ser morto pelos japoneses. Os protagonistas não têm nenhum objetivo interessante, nenhum plano, são apenas vítimas que ficam sofrendo e sendo agredidas pelos vilões.

- Intelectualmente o filme é raso. Os debates que tentam provar a superioridade do cristianismo não são muito lógicos ou bem argumentados.

- É bem questionável o desejo dos protagonistas de disseminarem sua fé num outro país que não os quer lá. Claro que os japoneses estão errados em matar os cristãos, mas também não dá pra simpatizar muito pelos "mocinhos". O filme mostra um conflito entre 2 grupos duvidoso - você não pode defender nenhum dos lados 100%.

- SPOILER: O final é uma celebração da fé cega. Apesar do Andrew Garfield nunca ter tido 1 sinal de Deus, de ter vivido uma vida miserável, de saber das incoerências da religião e da impraticabilidade de muitos de seus ideais, o filme parece achar nobre o fato dele ignorar isso tudo e morrer agarrado ao crucifixo.

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CONCLUSÃO: Produção bem feita, mas com uma narrativa chata que não se esforça pra se comunicar com os não religiosos.

Silence / EUA, Taiwan, México / 2016 / Martin Scorsese

FILMES PARECIDOS: Até o Último Homem (2016) / Invencível (2014) / 12 Anos de Escravidão (2013) / A Conquista da Honra (2006) / Além da Linha Vermelha (1998)

NOTA: 5.0

sexta-feira, 10 de março de 2017

Kong: A Ilha da Caveira

NOTAS DA SESSÃO:

- Má ideia eles mostrarem o King Kong (parcialmente) logo na primeira sequência, o que estraga um pouco da expectativa. De qualquer forma, o filme começa bem. Visualmente é um dos filmes mais estilizados e ocupados desde Mad Max: Estrada da Fúria (a quantidade de detalhes e ideias visuais é realmente anormal). Os personagens são divertidos, a missão interessante, a chegada de helicóptero na ilha é legal apesar de lembrar muito Jurassic Park...

- Brochante de novo o King Kong aparecer logo de cara na chegada na ilha! A imagem com o sol se pondo é fantástica, mas emocionalmente a cena é fraca, as reações dos personagens não são convincentes, falta realismo, seriedade... O roteiro não soube construir um grande momento. Além disso é muito falso todos os helicópteros chegarem perto do King Kong e serem destruídos! Se sobrasse pelo menos 1 pra eles fugirem ou chamarem resgate, todo o resto do filme deixaria de existir. Ficou tudo falso agora. O diretor parece mais interessado em criar imagens atraentes do que em fazer um bom entretenimento.

- Romantismo Reprimido: o filme é cheio de toques de humor inapropriados que destroem a seriedade da aventura. O personagem do John C. Reilly quando surge com os índios é ridículo, parece que estamos vendo Saturday Night Live. Todo o propósito desse tipo de história deveria ser fazer você acreditar na fantasia, e não torná-la obviamente um faz-de-conta.

- A ação toda do filme não tem o menor realismo. Por exemplo: a cena em que a Brie Larson tenta levantar um helicóptero sozinha (!) pra ajudar o animal preso, e subitamente o King Kong aparece do lado dela pra ajudar. Ela não percebeu que um macaco de 300 metros estava se aproximando?

- Péssima essa sub-trama do Samuel L. Jackson. Não faz sentido ele querer se "vingar" do King Kong e matá-lo. A trama toda é ruim. O motivo deles estarem presos na ilha já é forçado (a queda de todos os helicópteros), e agora esse conflito prendendo eles aí também.

- SPOILER: A sequência de ação no clímax é absurda. Pra que a Brie Larson subiu em cima daquela montanha sozinha? Como ela não morreu quando o King Kong pegou ela na mão e lutou contra o lagarto? O filme lembra um pouco Círculo de Fogo, no sentido de que ele exagera de propósito a falta de realismo da aventura pro diretor exibir pra plateia que ele está se "divertindo" e não se leva a sério (Romantismo Reprimido também).

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CONCLUSÃO: Visualmente impressionante, mas o tom frívolo e a falta de sentido da história destroem a diversão.

Kong: Skull Island / EUA / 2017 / Jordan Vogt-Roberts

FILMES PARECIDOS: A Lenda de Tarzan (2016) / Godzilla (2014) / Círculo de Fogo (2013)

NOTA: 5.5

sexta-feira, 3 de março de 2017

Logan

NOTAS DA SESSÃO:

- O começo parece uma ilustração de tudo o que eu escrevi em textos como Romantismo Reprimido, Herói Envergonhado, 10 Tendências Irritantes em Hollywood... Como força e autoestima estão fora de moda nos tempos atuais, o filme agora pretende ganhar o respeito da plateia mostrando um super-herói num estado tão decadente e miserável que nós ficamos até aliviados de não sermos como ele. Em vez de inspirar, o cinema agora nos habituou a sentir pena dos heróis.

- Logan (nesse filme pelo menos) é um protagonista antipático, sem nenhum valor de caráter positivo que faça a gente se importar por ele. A garotinha Laura também não tem o menor apelo, a atriz é fraca... Os relacionamentos são todos conflituosos (pra mostrar que o filme é "adulto").

- A história não é mal contada - é legal por exemplo o "ponto de virada" quando a garotinha se revela uma mutante e sai matando geral (essa sequência de ação é a mais divertida do filme). Ainda assim é uma história fraca. O herói é deprimido, não tem nenhuma motivação envolvente... Ele resolve ajudar a "filha" por um senso de dever e responsabilidade, não por um verdadeiro interesse. Por que nós como espectadores deveríamos nos importar então? Fugir dos vilões não é um interesse forte o bastante se não temos algo de positivo pra esperar (Logan está deprimido, suicida, mas o que ele deseja pra sair desse estado?). Os protagonistas não são gostáveis - não consigo torcer por uma aproximação entre os 2 simplesmente por eles terem uma ligação genética.

- Por que esse acidente de carro? Esse encontro com a família negra? Eles vão passar a noite aí? Em que isso progride a trama? De repente o Wolverine está ajudando um estranho a consertar vazamentos, se metendo em brigas tolas entre fazendeiros... É uma sub-trama totalmente desnecessária. A ideia do filme é transformar X-Men num road-movie despretensioso que revela o lado "humano" e "sensível" do herói.

- SPOILER: Horrível matarem o Xavier sem ele ter feito nada de útil ou admirável no filme. Foi mostrado apenas como um velho agonizante que só serviu pra atrapalhar o Logan (claro, a grande "utilidade" dele aqui é criar uma oportunidade pro Logan mostrar como ele é altruísta, alguém que ajuda um senhor cadeirante a se sentar na privada, etc).

- Quando eles chegam no Éden, os mutantes parecem mais um comercial da Benetton Kids... Tem crianças de todas as raças, nacionalidades, sem dar destaque pra nenhum grupo em particular... O filme parece preocupadíssimo em se enquadrar em todas tendências culturais do momento.

- Meio forçado o último ato. Por que as crianças acabam dependendo da ajuda do Logan pra fugir? É como se elas fossem indefesas, mas na prática elas juntas parecem bem mais fortes que os vilões. E não fica claro por que elas estarão protegidas ao cruzarem a fronteira. Se era tão perto, por que elas já não ficaram do lado de lá da fronteira aguardando?

- Detesto esse culto à porradaria... A ideia de que a plateia ficará empolgada ao ver um cara raivoso triturando dezenas de homens. Não há nenhum prazer nessas cenas enquanto ação, cinema... É apenas um show de violência grotesca. Mas faz sentido de certa forma. Desde o começo o filme mostra que valoriza a dor, o conflito, a destruição... Pra quem compartilha desses mesmos valores, uma cena como essa deve ser um grande ecstasy.

- SPOILER (MESMO!): Realizado mais uma vez o grande fetiche do público atual: o desejo de matar os heróis. E tenho que reconhecer que é genial a simbologia da imagem final: o "X" dos X-Men sendo formado por uma cruz sobre o túmulo do Logan. Isso é melhor ainda do que o "Supercaixão" do Superman em Batman vs Superman.

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CONCLUSÃO: Não mal realizado, mas a história é desinteressante e reflete todo o esgoto em que se transformou a cultura atual.

Logan / EUA / 2017 / James Mangold

FILMES PARECIDOS: Jason Bourne (2016) / Deadpool (2016) / Perdido em Marte (2015)

NOTA: 4.0

quarta-feira, 1 de março de 2017

A Grande Muralha

Esse é um daqueles filmes cujas falhas acabam o tornando engraçado e relativamente divertido de assistir. O problema no fim é que o diretor Zhang Yimou (do ótimo Herói) tem certo talento, e isso impede o filme de se tornar um verdadeiro entretenimento trash. O filme parte de uma premissa ridícula, mas a execução não é ruim o bastante pra torná-lo um novo Sharknado. A má ideia aqui foi a de apresentar o filme como sendo uma espécie de épico tipo O Último Samurai, e não deixar claro pra plateia (através do título e do pôster pelo menos) que na verdade ele conta a história de uma invasão alienígena. Seria que nem você ir ao cinema assistir um filme chamado O Grande Abraham Lincoln e, uma vez dentro da sala, se deparasse com o filme Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros. Não que A Grande Muralha fosse se tornar muito melhor caso a plateia já tivesse certeza do que ela veria na tela. Independente da premissa, o filme é repleto de clichês, a história e o herói não são interessantes, a ação é irreal, etc. Mas acima de tudo, o choque entre 2 universos tão incompatíveis parece praticamente arruinar a possibilidade de um resultado de bom gosto. Isso me faz lembrar que filmes, assim como pessoas, produtos, empresas, também têm personalidades, projetam arquétipos, e estão sujeitos às mesmas regras que definem se uma marca parecerá coerente, atraente, ou simplesmente uma bagunça.

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The Great Wall / China, EUA / 2016 / Zhang Yimou

FILMES PARECIDOS: Ben-Hur (2016) / Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos (2016) / Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros (2012)

NOTA: 4.5

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Um Limite Entre Nós

NOTAS DA SESSÃO:

- Naturalismo: A primeira hora é um falatório longo e chato sobre coisas desimportantes pra plateia, um retrato da vida de pessoas "humildes"... Embora alguns diálogos sejam interessantes (por exemplo: a discussão entre o Denzel Washington e o filho sobre emprestar os 10 dólares), não há nenhuma história, nenhuma direção pra isso tudo.

- Os atores estão ótimos, principalmente o Denzel e a Viola Davis (indicações ao Oscar merecidas). E os diálogos são muito bons em termos de conteúdo moral, sensibilidade, no que eles revelam a respeito dos personagens (nesse ponto o filme começa a flertar com o Romantismo - não é um retrato superficial externo como Moonlight, mas começa a revelar as motivações de cada um). A cada 15 minutos há um momento forte de diálogo que impede o filme de se tornar um tédio total.

- O personagem do Denzel Washington tem cenas incríveis (ele dizendo que não é obrigado a gostar do filho, etc), porém o personagem é detestável - está sempre diminuindo os outros pra se sentir superior, age como se a vida fosse um enorme sacrifício, que família pra ele é um dever, que o trabalho é um fardo que ele carrega heroicamente, e gosta de jogar isso tudo na cara de todos, como se tirasse certo prazer da situação.

- SPOILER: A segunda metade do filme é melhor. Denzel revela que está traindo a esposa e isso gera uma série de conflitos - surge a curiosidade de saber como a situação será resolvida, e o filme ganha certo rumo. A Viola Davis dá um show na cena que confronta o Denzel a respeito da amante.

- Bonita a cena em que a Viola aceita tomar conta do bebê.

- O personagem do Denzel está cada vez mais odioso (ele bêbado brigando com o filho na entrada da casa). O pior é que o filme não parece estar contra ele. É um retrato neutro de uma família em conflito, como se dissesse: essas coisas acontecem, são realistas, portanto devemos nos importar.

- SPOILER: Senso de Vida ruim. No fim o Denzel morre, e o que todos aprenderam? Nada de muito revelador. Que a realidade é dura, que as pessoas fazem o possível, mas a felicidade só pode ser atingida em moderação - ou seja, a vida é essencialmente feita de conflitos, tragédias, mas temos que nos esforçar pra ver alguma beleza no meio disso tudo.

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CONCLUSÃO: Filme Naturalista com uma mensagem chata, porém com excelentes atuações e bons diálogos.

Fences / EUA / 2016 / Denzel Washington

FILMES PARECIDOS: Indomável Sonhadora (2012) / Rio Congelado (2008) / O Segredo de Vera Drake (2004) / Vinhas da Ira (1940)

NOTA: 6.0

Eu Não Sou Seu Negro

Menos irracional e desonesto que A 13ª Emenda (outro documentário sobre racismo indicado ao Oscar), mas ao mesmo tempo menos relevante. A 13ª Emenda pelo menos pretendia abordar o tema sob um novo ângulo, falando do racismo no sistema carcerário, tentando discutir ideias relevantes pros dias de hoje. Esse aqui só repete o que todo mundo já está careca de saber: que o racismo era intenso nos EUA nos anos 50/60, que líderes como Martin Luther King foram assassinados, etc, etc, etc. Apenas mostra tudo pelo ponto de vista do autor James Baldwin (que diz não ser racista mas se sente perfeitamente à vontade chamando Doris Day de uma figura "grotesca" sem oferecer maiores explicações). A narração de Samuel L. Jackson traz bastante autoridade às palavras de Baldwin (que às vezes projetam inteligência e sensatez, e às vezes um anti-americanismo ressentido e tendencioso), mas no fim é apenas mais um lamento pra manter viva a memória de que os negros foram vítimas na história dos EUA - sem uma narrativa interessante ou novos dados esclarecedores que o destaque como documentário.

I Am Not Your Negro / França, EUA / 2016 / Raoul Peck

NOTA: 4.0