segunda-feira, 23 de abril de 2018

Aos Teus Olhos

Gosto muito do Daniel de Oliveira como ator e o filme começa com uma situação envolvente, mostrando um professor de natação carismático que é acusado de abusar de um de seus alunos - mas sem revelar pra plateia se ele é inocente ou culpado, apenas acompanhando o impacto do escândalo em sua vida pessoal. É uma situação que já vimos antes em diversos filmes como Dúvida, A Caça, mas que sempre garante certo suspense. O grande problema aqui é o "combo" de Realismo, Subjetivismo e Pessimismo que se unem impedindo a história de se tornar uma narrativa realmente satisfatória.

SPOILER: Ao longo do filme nós não sabemos se o protagonista é inocente ou culpado, não sabemos se o aluno disse de fato pra mãe que ele foi abusado ou se é tudo uma invenção dela, e pra piorar nossa frustração, o filme termina numa cena aleatória, de forma aberta, inconclusiva, sem nos mostrar nem o que acontece com o protagonista no fim.

Saímos apenas com uma noção vaga de que a felicidade é algo frágil, que um pequeno gesto pode desencadear uma série de acontecimentos e destruir sua vida a qualquer momento, que não existe verdade absoluta, apenas "narrativas" diferentes, e que a tecnologia e as redes sociais vão tornar o mundo ainda mais caótico e imprevisível no futuro.

Não é desinteressante de assistir, mas fica a impressão de um roteiro incompleto, tirado do "forno" antes do tempo, que merecia pelo menos um final mais sólido.

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Aos Teus Olhos / Brasil / 2018 / Carolina Jabor

FILMES PARECIDOS: Sangue Azul (2014) / A Caça (2012) / Dúvida (2008)

NOTA: 5.0

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Update 20/4

Continuo com minha rotina meio atrapalhada; o único filme que vi no cinema esses dias foi Rampage: Destruição Total. Achei divertido, mas enfraquecido pelo total rompimento com a realidade... É o tipo de coisa que temos visto cada vez mais nesses filmes com Dwayne Johnson, Vin Diesel (que pra mim são reflexo da direita atual) - a tentativa de atingir grandiosidade mas sem verdade, sem bom senso, sem inteligência... Romper descaradamente com o mundo real (quase como uma provocação consciente - uma imaturidade / irresponsabilidade assumida) e daí se sentir livre pra celebrar coisas como autoconfiança, heroísmo, aventura, etc. A intenção me parece boa, mas como digo na postagem Os 4 Pilares do Idealismo, sem respeito pela realidade você não consegue de fato criar um bom entretenimento (a não ser que faça algo tipo Sharknado e assuma o lado cômico).

Na Netflix, vi um episódio de La Casa de Papel e também de Lost in Space, mas não me interessaram o bastante pra continuar. 😉✌✌✌

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Spielberg, Rand e Princípios Estéticos

Vendo Jogador Nº 1 me lembrei desse trecho de The Art of Fiction da Ayn Rand e fiquei me perguntando se Spielberg cairia nessa categoria de artista. Claro que ele teve muito mais que apenas 1 grande filme no início da carreira e ainda continua um bom diretor, mas também é verdade que seus filmes "pipoca" das últimas décadas (como Jogador Nº 1, O Bom Gigante Amigo, As Aventuras de Tintim ou Guerra dos Mundos) estão a anos-luz de filmes como Tubarão, Os Caçadores da Arca Perdida, E.T.,  e indicam que ele não tem um grande controle sobre seu estilo nem muita consciência do que é que o tornava tão brilhante na primeira fase da carreira (não deixem de ver o vídeo no fim da postagem).

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Tirado de The Art of Fiction, de Ayn Rand:

"O artista que diz que escrever é um talento inato - que se você senta pra escrever, ou Deus te move ou não te move, e que se ele não te mover, não há nada que você possa fazer a respeito - esses escritores não estão necessariamente mentindo. Eles apenas são ruins em introspecção. Eles não sabem o que é que os permite escrever."

"Esse tipo de escritor geralmente se esgota após alguns anos. Como regra, ele começa bem jovem, e demonstra o que se chama de um "potencial incomum"; mas depois de alguns anos você o vê repetindo as mesmas coisas, cada vez de maneira menos brilhante e original - e logo ele percebe que não tem mais nada pra escrever. Aquela inspiração cuja fonte ele desconhecia desapareceu. Ele não sabe como reabastecê-la."

"Por imitação, mais do que por compreensão, ele aprendeu a escrever; ele entendeu que as pessoas podem colocar ideias, sentimentos e impressões no papel, e ele o fez. Se ele tiver observações originais o bastante acumuladas no seu subconsciente, certo valor literário pode estar presente em sua obra por um tempo (junto com um monte de porcaria). Mas uma vez que ele tenha usado aquele estoque de impressões iniciais, ele não tem mais nada a dizer."

"Ele apenas tinha uma ideia generalizada do que é escrever, e surfou no seu subconsciente por um tempo, nunca tentando analisar de onde vinham suas ideias, o que ele estava fazendo, e por que. Tal escritor é antagônico à análise; ele é do tipo que te diz que a "mão fria da razão" é prejudicial à sua inspiração. Ele não consegue funcionar através da razão, ele diz - se ele começar a analisar, ele acha que isso irá parar sua inspiração completamente (dada a maneira como ele funciona, isso iria de fato pará-lo)."

"Por contraste, se você sabe de onde realmente vem sua inspiração, seu material nunca se esgotará. Um escritor racional consegue alimentar seu subconsciente assim como alguém coloca combustível em uma máquina. Se você continuar armazenando coisas na sua mente para os seus trabalhos futuros, e continuar integrando as escolhas de tema ao seu conhecimento geral, permitindo o escopo de sua escrita crescer conforme seu conhecimento se amplia, então você sempre terá algo a dizer, e você encontrará cada vez maneiras melhores de dizê-lo. Você não irá descer ladeira abaixo após uma explosão inicial de coisas de qualidade."

"Se parte de sua mente ainda estiver pensando, "Sim, mas como eu posso saber que escrever não é um talento inato?" a probabilidade é que você nunca começará a escrever, ou então começará mas estará num eterno estado de terror. Toda vez que você escrever algo bom, você irá se perguntar: "Mas será que eu vou conseguir da próxima vez?".

"Eu já ouvi vários escritores famosos reclamarem que eles têm literalmente ataques de ansiedade toda vez que começam um livro. Não importa o quão bem sucedidos eles sejam; como eles não entendem plenamente do que consiste o processo de escrita - ou, a propósito, por que um livro é bem sucedido ou não - eles estão sempre à mercê desse terror: "Sim, 10 livros foram bons, mas como eu posso saber que o 11º será bom?".

"Em vez de irem melhorando, esses escritores normalmente permanecem num nível precário ou, com mais frequência, deterioram ao longo dos anos. Um exemplo é Somerset Maugham. Pelo que se pode saber de suas opiniões através de seus trabalhos, ele não acredita que escrever seja um processo racional; e seus trabalhos mais tardios são bem menos interessantes do que seus trabalhos iniciais. Embora ele ainda não tenha se esgotado totalmente, a qualidade decaiu."

"Pra poder formar seu gosto literário pessoal e colocá-lo sob seu controle consciente, sempre registre o que é que você gosta e não gosta em suas leituras, e sempre se dê razões. De primeira talvez você identifique apenas as razões imediatas pra sua estimativa de um certo parágrafo ou livro. Conforme você pratica, você irá cada vez mais fundo. (Não memorize seus princípios. Apenas os armazene no seu subconsciente; eles estarão lá quando você precisar deles.)"

"É possível que um escritor tenha bons princípios literários de forma inconsciente, ou seja: por imitação ou por intuição. Muitos escritores os têm, e portanto não conseguem identificar as razões de sua escrita. Eles dizem "Eu escrevo porque simplesmente vem para mim", e eles realmente acreditam que eles têm um talento inato ou que algum poder sobrenatural dita para eles. Não conte com esse poder sobrenatural pra lhe dar esse talento. Se você estiver tentado a perguntar "Por que eu não posso simplesmente confiar no meu instinto?", minha resposta é que seu "instinto" não funcionou pra você até agora. Você não tem princípios literários - a mera dúvida da sua parte já é uma indicação. E mesmo que você tenha princípios literários, ou o que as pessoas chamam convencionalmente de "indicações de talento", você permaneceria no mesmo nível por toda sua carreira e nunca evoluiria pra escrever aquilo que você realmente quer. Pra adquirir princípios literários, ou desenvolver aqueles que você já tem, o que você precisa é de conhecimento consciente."

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(Spielberg não está se referindo aqui ao seu dom necessariamente, à fonte de seu talento, e sim à fonte de sua motivação, de sua paixão pelo cinema... Mas ainda assim, a resposta revela uma atitude bastante "antagônica à análise" que deve se espalhar pra outras áreas, e que combina muito com o que Rand disse no texto.)


quinta-feira, 12 de abril de 2018

Jogador Nº 1

NOTAS DA SESSÃO:

- Muito interessante a ideia do OASIS e a metáfora que o Spielberg parece querer criar em relação ao escapismo de seus filmes, embora nesse contexto do OASIS, a ideia de "escapismo" seja um tanto deprimente, pois mostra o ser humano abandonando totalmente a realidade pra buscar felicidade num mundo artificial (não diria que isso é igual à arte ou aos filmes do Spielberg, pois pra mim a arte serve como inspiração pra que a gente seja melhor na vida real, e não apenas como uma fuga, um momento de escape de uma realidade trágica, que continuará trágica após esse breve "descanso").

- Pelo menos fica estabelecido que, se a pessoa morrer ou perder moedas no OASIS, isso representa de fato uma perda de valor no mundo real, não é apenas um jogo inconsequente (embora a gente não saiba exatamente o que o protagonista tem a perder, o que de ruim aconteceria em sua vida pessoal caso ele perca no jogo, etc).

- O objetivo de encontrar o Easter Egg também é bem estabelecido, mas não há um grande envolvimento do espectador, pois a motivação do personagem é mal fundada, superficial. Ele não parece ter um grande sonho de ser dono do OASIS, não parece estar precisando desesperadamente do dinheiro ou algo do tipo, então a corrida não tem carga dramática, um significado emocional pra ele. É apenas um joguinho com um prêmio atraente no fim, mas se ele não ganhar, tudo bem também. A garota Art3mis até tem uma motivação mais sólida, ideológica (meio esquerdista), mas que não parece ser vital pro Wade de fato.

- Divertidas as milhares de referências à cultura pop. Embora o filme dê tiro pra todo lado, tentando agradar públicos opostos (acho legal quando são referências a coisas compatíveis com o mundo do Spielberg - De Volta para o Futuro, etc - mas quando ele começa a homenagear coisas mais underground, indie, me parece inautêntico - assim como o vilão do filme na cena em que ele tenta ganhar a simpatia do Wade mencionando John Hughes, Duran Duran, quando na realidade é um homem de negócios que não entende de nada disso).

- Seria muito mais inspiradora a história se o Halliday tivesse escondido as chaves de forma que apenas uma pessoa com grandes qualidades de caráter pudesse encontrar. Alguém com as mesmas virtudes dele, e que cada chave provasse que o jogador tem alguma qualidade específica, tornando-o digno de comandar o OASIS. Mas na prática pra encontrar as chaves aqui você só precisa desvendar enigmas comuns - qualquer pessoa inteligente que pesquise bem a vida de Halliday poderia encontrá-las.

- As maneiras como o herói descobre as chaves também não são muito legais. Por exemplo, quando ele descobre que tem que dar ré na corrida de carro - é uma associação tão distante que o espectador não tem como entender como foi feita. A gente não participa da brincadeira, não entende a lógica por trás das descobertas, apenas assiste passivamente o herói tendo sacadas mirabolantes que não sabemos de onde vieram. Nos melhores filmes, o espectador consegue entender como o herói teve o insight, sente que ele também teria tido a sacada se estivesse na mesma situação. A diversão do espectador não está em descobrir que o herói é mais esperto que ele, e sim no prazer de ver uma revelação incrível com seus próprios olhos - o que costumava ser a abordagem do Spielberg no passado: vejam por exemplo essa cena de Contatos Imediatos do Terceiro Grau, onde o Richard Dreyfuss finalmente descobre o que significa a montanha que aparece em suas visões, após dias tentando decifrar o enigma dos aliens:




- Meio confusa essa história das 3 chaves - o fato de todo mundo poder pegar a chave também depois que o 1º revela o segredo. Isso não vai "filtrando" as pessoas, de forma que só os melhores jogadores se aproximem da 3ª chave.

- O romance não funciona. A menina é antipática, não há sintonia entre eles, ele diz que está apaixonado por ela, mas não vimos 1 momento de real intimidade, não vimos ele demonstrar em nenhum momento que estava envolvido emocionalmente - e eles nem se conhecem na vida real (a ideia tola de que você deve se apaixonar por uma pessoa apenas por sua consciência, e ignorar totalmente a dimensão física).

- Meio desnecessário todo o trecho na balada, a disputa de dança ao som de Bee Gees, etc. Só serve pra fazer mais referências à cultura pop, mas soa forçado, até porque a segunda chave não está aí.

- O vilão também é fraco. É um empresário ganancioso que quer virar o dono do OASIS, mas não tem uma motivação realmente destrutiva, maligna, nem tem nada contra o herói pessoalmente (os dois mal se conhecem, então não há muito drama).

- O filme entrar dentro de O Iluminado é uma ideia maravilhosa e tecnicamente é muito bem feito - mas ainda acho que o filme depende demais dessas referências pop pra agradar o público, porque se dependesse só da história e dos personagens, seria pouco interessante.

- Confuso quando o Wade começa a conhecer os amigos na vida real. Os amigos eram secundários demais no OASIS, e lá todo mundo vive mudando de disfarces, então nem sei mais quem é quem agora. São pessoas que não parecem ter nada em comum e não criam uma equipe atraente.

- Não é claro como descobrem que a 3ª chave está no Atari.

- O filme cria um enorme suspense em cima daquele orbe, como se fosse uma arma altamente perigosa, quando é apenas um escudo pra impedir os competidores de chegarem no Atari enquanto os vilões jogam.

- O final vai ficando cada vez pior e mais caótico. É péssimo todo esse trecho onde a Art3mis é presa, mas daí consegue escapar e facilmente subir até a sala do vilão, tudo pra desativar o orbe e liberar o Atari, que nem sabemos se é mesmo a 3ª chave. A sequência de batalha é poluída visualmente, não dá pra entender qual o objetivo físico, se esses milhares de pessoas estão aí pra tentar jogar o Atari...

- O herói faz aquele discurso pra multidão, como se tivesse numa batalha épica pra salvar o planeta... Não cola, pois foi o que disse no começo: Wade não tem uma motivação pessoal forte na história, e o vilão não tem de fato um plano de destruir o mundo, etc. Não são como os rebeldes em Star Wars. É uma história bem mais simples, sem essa carga política toda.

- Não fica claro por que o Wade atira na Art3mis. É um ato extremamente dramático, mas que não parece ter necessidade alguma, acontece de maneira rápida, casual. Só aumenta a impressão de que morrer no jogo não é tão sério assim no fim das contas.

- SPOILER: O herói não faz nada de admirável o filme todo. No fim sobrevive porque ganhou uma moeda mágica de presente que nem sabia que tinha. E acha o Easter Egg não por ter virtudes relevantes, mas porque é um pouco mais nerd que os outros jogadores e deve passar o dia todo lendo trivia de video game.

- Nada a ver a cena em que ele se recusa a assinar o contrato. Ele nem leu o que estava escrito. É como se contratos fossem intrinsecamente maus, coisas de "homens corporativos" que só podem ser maléficos.

- Herói Envergonhado: a ausência de foco nas virtudes de Wade; toda a ênfase no trabalho de equipe; a decisão de Wade de dividir o prêmio com os amigos, etc.

- Detalhes confusos, mal escritos: por que Wade desconfia que o Halliday não é um avatar, sugerindo que ele possa ser uma consciência real ou algo do tipo? De onde veio essa ideia? Ou depois o diálogo com o Ogden Morrow onde é "revelado" que ele é que era a chave de Halliday, e não a Kira. Como assim? A Kira foi sim a 2ª chave. Ogden foi citado no desafio do contrato, mas isso o Wade já sabia. O que há de revelador nessa cena agora? O filme só fica tentando confundir o espectador, dar a sensação de que houve várias revelações surpreendentes agora no clímax, pra ele sair com a vaga impressão de que viu uma grande história, embora não tenha entendido muito bem.

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CONCLUSÃO: As referências culturais divertem e é legal ver o Spielberg tentando se reconectar com o público jovem, mas o roteiro por baixo não se sustenta.

Ready Player One / EUA / 2018 / Steven Spielberg

FILMES PARECIDOS: Ender's Game: O Jogo do Exterminador (2013) / Minority Report - A Nova Lei (2002)

NOTA: 5.0

terça-feira, 10 de abril de 2018

Um Lugar Silencioso

É o tipo de filme com uma premissa tão ilógica que já me perde logo nos primeiros minutos e não recupera mais, pois todos os acontecimentos e todas as ações depois apenas constroem em cima dessa premissa inicial que já parece insultar minha inteligência. E não estou falando do elemento de fantasia, dos monstros, etc... Isso eu compro numa boa. O que eu não compro é o comportamento dos personagens - isso não deve ser irreal num filme, mesmo numa história sobrenatural, se você quiser que o espectador se importe por qualquer coisa. Num filme desse gênero, o que nós queremos ver é como um ser humano real poderia se comportar diante de eventos extraordinários. Os personagens podem ser pessoas comuns, pessoas heroicas, pessoas boas, más, mas ainda assim, devem agir de acordo com a natureza humana pra que nos importemos.

Agora se no filme o mundo está infestado por monstros que vão devorar qualquer pessoa que faça um barulhinho qualquer, é simplesmente idiota, nonsense, que essas pessoas estejam andando ao ar livre, deixando crianças saírem por aí sozinhas, que elas vivam em lugares abertos, cheios de portas, janelas destrancadas, em lugares silenciosos onde cada objeto derrubado de uma prateleira possa significar a morte. Nenhum ser humano agiria assim, nem mesmo um muito burro. A coisa mais óbvia que qualquer pessoa faria numa situação dessas seria primeiro encontrar um abrigo protegido, com muros, paredes e portas resistentes, ou de repente um apartamento no alto de um prédio, onde mesmo que se fizesse barulho, os monstros não poderiam entrar facilmente por conta de uma barreira física. A questão do barulho seria facilmente driblável também se eles espalhassem caixas de som por aí criando um ruído constante ou tocando música alta por onde eles tivessem que passar (se o pai é tão bom com tecnologia que pode desenvolver aparelhos para surdos em seu porão sozinho, certamente instalar umas caixas de som não seria complicado). Na pior das hipóteses, eles poderiam viver próximos ao mar ou a uma cachoeira, onde o barulho da natureza camuflaria os sons que eles produzissem.

Se só o ponto de partida fosse ilógico, mas o resto do filme não, ainda seria aceitável.. O problema é que tudo o que acontece no filme demonstra falta de noção de realidade por parte dos criadores (como a ideia do tanque de armazenamento de grãos, que age como se fosse areia movediça sugando as pessoas pro fundo - há diversos momentos bizarros como esse em que você se pergunta se o cineasta está te chamando de idiota, ou se ele realmente acha que aquilo é convincente).

Eu ainda tenho certa tolerância quando esse tipo de falta-de-noção está associada a ingenuidade, despretensão, ao desejo de criar um entretenimento leve, etc... O que torna tudo mais irritante aqui é que o cineasta acredita que está fazendo um suspense inovador, autoral, "high-concept", que de alguma forma ele foi brilhante ao pensar num thriller moderno quase sem diálogos... E o público parece estar impressionado também, como se fosse tão ousado pensar numa ideia dessas que o filme merecesse ser aclamado independentemente de seus defeitos.

Não há uma boa história, senso de evolução, bons personagens... É apenas 1 longa sequência de suspense onde ninguém pode fazer barulho se não morre. O cineasta deve ter pensado: "Nossa, aquelas cenas de filmes de monstros onde ninguém pode fazer barulho são tão eficazes, é tão genial quando o diretor não usa trilha sonora em momentos de extrema tensão, criando um contraste entre o silêncio e a expressão dramática no rosto dos atores - não seria legal pegar uma cena dessas e estendê-la por 1 hora e meia?".

Poderia ter sido uma boa ideia, mas ninguém parou pra pensar numa premissa que tornasse crível a situação. E a ideia do "suspense sem diálogos" é apenas um gimmick pra impressionar leigos (e facilitar o trabalho do roteirista). O diretor não usa a ausência de diálogos como forma de tornar o filme uma experiência cinematográfica mais pura, criativa, visual, como fazia Hitchcock. Não há uma noção especial de comunicação visual aqui. É apenas um filme com poucas falas, ou seja, com menos material e conteúdo que outros filmes - e talvez até por isso soe mais inteligente que a média para alguns espectadores ("Até o tolo, estando calado, é tido por sábio; e o que cerra os seus lábios, por entendido.").

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A Quiet Place / EUA / 2018 / John Krasinski

FILMES PARECIDOS: Ao Cair da Noite (2017) / O Homem nas Trevas (2016)

NOTA: 3.0

terça-feira, 3 de abril de 2018

Update 3/4

Além da ressaca pós-Oscar, essas semanas ando concentrado em um novo projeto musical, por isso não tenho postado tanto por aqui (meu lado espectador / crítico às vezes fica meio atrofiado quando estou produzindo algo, não sei por que - fica até difícil pensar em palavras e construir frases quando sento pra comentar um filme). Mas continuo indo ao cinema: vi Jogador Nº 1 que achei um dos mais legais do Spielberg das últimas 2 décadas... Revi Com Amor, Simon e curti ainda mais que da primeira vez... E vi também Uma Dobra no Tempo, que deve entrar facilmente na minha lista dos piores filmes. Tento postar os comentários assim que puder. ✌😉

terça-feira, 27 de março de 2018

Com Amor, Simon

Comédia romântica leve com cara de Sessão da Tarde (lembra muito coisas do John Hughes dos anos 80, o que é um elogio), mas com um roteiro de ótimo nível, elenco excelente (reparem como cada personagem coadjuvante é bem escrito e tem cenas importantes no filme), humor inteligente, sensibilidade emocional, e com a quantidade certa de realismo e maturidade pra tornar convincente o idealismo inocente da história.

Eu sou um espectador difícil pro gênero pois não me interesso tanto por romances, então sou uma boa "audiência teste" pra esses filmes, pois pra me prender, o filme realmente tem que ter um roteiro criativo, com bons recursos narrativos... Não pode contar com projeções românticas pessoais, preferências sexuais particulares do espectador, etc (se alguém acha que eu tenho um "bias" em relação a filmes gays, veja o que falei sobre Me Chame Pelo Seu Nome ou Moonlight).

Aqui, o filme nos prende basicamente por transformar o romance em um jogo - a história não é de fato sobre uma relação amorosa, e sim uma espécie de "whodunit", um mistério sobre um garoto tentando descobrir quem é a figura oculta com a qual ele conversa pela internet... É também um suspense sobre alguém que tem um grande segredo e precisa impedir esse segredo de ser exposto e de arruinar sua vida social. Nesse caso em particular, o segredo é o fato de Simon ser gay, mas poderia muito bem ser a Molly Ringwald em A Garota de Rosa-Shocking que não queria que seu "crush" descobrisse que ela morava num bairro pobre. Bons filmes sempre conseguem transformar os conflitos particulares dos personagens em questões mais amplas com as quais qualquer um possa se identificar, e este certamente é o caso aqui.

Enfim, adorei os personagens, dei risada, me emocionei, gostei da revelação de quem era o Blue, e o simbolismo da roda gigante no fim cria um clímax maravilhoso que põe o filme bem alto no meu ranking de filmes de temática LGBT.

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Love, Simon / EUA / 2018 / Greg Berlanti

FILMES PARECIDOS: Extraordinário (2017) / Lady Bird: A Hora de Voar (2017) / Cidades de Papel (2015) / Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014) / A Garota de Rosa-Shocking (1986)

NOTA: 8.0

sábado, 17 de março de 2018

Tomb Raider: A Origem

ANOTAÇÕES:

- Desde que anunciaram que a Alicia Vikander faria a Lara Croft eu achei o casting equivocado, e isso pra mim apenas se confirma agora (ela é talentosa, mas não convence tanto nesse tipo de papel).

- A introdução da personagem é um pouco frustrante. Pra parecer mais realista, o filme mostra a Lara Croft perdendo a luta pra outra garota, depois há aquela perseguição de bicicletas desnecessária que termina com Lara se distraindo e sofrendo um acidente... Em vez de uma heroína em potencial, ela fica parecendo apenas incompetente.

- Lara é pra ser admirável por recusar a herança do pai, preferir trabalhar em sub-empregos, fazendo delivery, etc... Pra mim isso só a faz parecer uma tola.

- Alguns clichês muito preguiçosos: o pai que abandona a filha na infância, mas antes deixa um amuleto especial, etc.

- A história avança de maneira clara, mas as cenas simplesmente não são muito boas. Por exemplo: é meio anticlimático a maneira como a Lara decifra o enigma e encontra a chave deixada pelo pai logo ali na sala de reunião na frente daqueles executivos... Ou quando ela vai vender o amuleto e joga café em cima do comprador sem a menor razão... Ou o roubo da mochila totalmente desnecessário, que só serve pra ter uma cena de perseguição dispensável... Ou o Lu Ren, que é pra ser um marinheiro experiente, mas ao mesmo tempo é bêbado, afunda o barco logo que surge a primeira tempestade... Não há muita inteligência na narrativa.

- Não fica muito claro também por que Lara fica tão interessada em ir até a ilha. Ela quer apenas descobrir se o pai está vivo? O filme dá a impressão que ela está indo por causa do mito da rainha Himiko, pra dar continuidade às pesquisas do pai, mas não é convincente essa menina do nada resolver dar uma de Indiana Jones e partir numa aventura dessas... Ela não demonstrou um interesse tão grande por esses assuntos antes, então a motivação não é muito bem fundada.

- A situação na ilha é divertida, mas é um plágio tão descarado de Indiana Jones que acaba sendo frustrante (os mocinhos e os vilões seguindo pistas numa corrida pra encontrar um túmulo com poderes sobrenaturais; o vilão ganancioso que rouba os estudos do pai da heroína pra encontrar o local primeiro, mas não tem cultura nem respeito pela arqueologia, etc).

- A cena do avião na cachoeira beira o cômico de tão forçada. Até porque o filme começou numa pegada mais realista, mostrando Lara com limitações físicas naturais... E agora vai pro outro extremo e vira Velozes e Furiosos, abandonando a realidade por completo (Lara no começo fugiu do trombadinha só porque ele puxou uma faca pra ela, mas agora toda ferida ela consegue matar o capanga mais perigoso do vilão numa luta de braço).

- SPOILER: Meio brochante o pai da Lara estar numa gruta escondido há anos... Ter virado um senhor meio caduco, inútil (em vez do herói admirável que imaginávamos).

- Lara e o pai não criam nenhum plano inteligente pra recuperar as pesquisas... Pelo contrário - ela sai correndo no meio do acampamento pra pegar aquele telefone, se expõe pros vilões de forma descuidada, o pai depois fica lá admirando a porta do túmulo e acaba sendo capturado pelo vilão, que força Lara a abrir o túmulo pra ele...

- O roteiro caminha na direção certa, é bem intencionado, mas é tudo feito com um nível muito baixo de inteligência e originalidade. O trecho dentro da gruta é legal; queremos ver como serão as armadilhas, o que acontecerá quando eles encontrem o túmulo (pelo menos eles estão atrás de algo interessante, misterioso, e não esses artefatos banais que muitas vezes motivam filmes de super-heróis). Mas claro, o mérito aqui ainda é mais de Indiana Jones do que do filme.

- SPOILER: Interessante a ideia da rainha ter uma doença contagiosa e ter se enterrado ali pra proteger o resto do mundo. Foge da explicação sobrenatural padrão.

- A ação final e a fuga de Lara da gruta é outro trecho que acaba perdendo o efeito por não ter um pingo de realismo.

- SPOILER: O final é mais ou menos. Lara perdeu o que ela mais queria, que era o pai, e também não derrotou os vilões definitivamente. Mas o gancho pra sequência gera um pequeno ápice.

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CONCLUSÃO: Aventura bem intencionada mas prejudicada por um roteiro pouco original e inteligente.

Tomb Raider / Reino Unido, EUA / 2018 / Roar Uthaug

FILMES PARECIDOS: Pantera Negra (2018) / Thor: Ragnarok (2017) / Jumanji: Bem-Vindo à Selva (2017) / A Lenda do Tesouro Perdido (2004) / A Múmia (1999)

NOTA: 5.0

Aniquilação

NOTAS DA SESSÃO:

- Os primeiros 15 minutos são bastante intrigantes pois o filme esconde dados da plateia; mostra o interrogatório da Natalie Portman, o meteoro caindo, o marido "morto" que reaparece, os papos sobre a origem da vida - peças interessantes de um quebra-cabeça que ainda não podemos começar a montar.

- Felizmente o filme não vai pelo lado do Subjetivismo, e logo após essa introdução nos revela exatamente o que está acontecendo (ou pelo menos nos revela o que os protagonistas sabem sobre o que está acontecendo, o que é melhor ainda, pois o mistério sobre o fenômeno é preservado, nos mantendo presos até o final - como foi feito em 2001: Uma Odisséia no Espaço).

- O elenco é ótimo, os diálogos são inteligentes - acreditamos que essas pessoas são cientistas, pertencem a esse universo, o flashback da Natalie Portman e do Oscar Isaac na cama mostra uma relação positiva, convincente, etc.

- Legal a Natalie Portman decidir entrar no "Brilho" com as outras. O roteiro é bem estruturado pois quando elas atravessam a fronteira do Brilho, nada muito revelador acontece ainda.. A situação vai se intensificando aos poucos, ficando mais e mais estranha conforme elas caminham pro farol.

- Interessantíssimo esse conceito das mutações genéticas (a cena do crocodilo). É uma ideia diferente, nova, que foge dos clichês dos filmes do gênero.

- Essa ideia dos dias passarem sem elas perceberem é bem intrigante (lembra o Bruxa de Blair de 2016). Embora pareça um obstáculo meio aleatório (não é explorado de novo na história, não tem tanto a ver com a ideia das mutações, etc).

- Há algo de Idealismo Reprimido no filme, pois apesar dele querer proporcionar uma aventura empolgante, cheia de surpresas, monstros, etc, ele mantém tudo sob uma atmosfera meio deprimente - os personagens parecem estar sempre entediados, sérios, as relações são negativas, há um senso de que a vida é trágica e os seres humanos são autodestrutivos (meio como A Chegada ou, indo mais longe, filmes do Tarkovsky como Stalker e Solaris). Mas ainda assim diverte.

- A jornada é pontuada por cenas marcantes e novas informações que mantém a história se movendo (o vídeo da missão anterior que elas encontram, etc).

- A floresta, os prédios abandonados, o design das plantas e das mutações - toda a parte visual do filme é muito interessante.

- Alguns elementos da trama parecem mal desenvolvidos. Por exemplo: por que exatamente a Natalie escondeu que era casada com o Oscar Isaac? Não vejo por que isso tornaria as outras desconfiadas - acaba servindo só pra gerar confusão mais tarde com a Anya. Os flashbacks que mostram o caso da Natalie com aquele homem negro também não parecem servir pra muita coisa.

- SPOILER: Medonho o urso que invade a casa! Essa é uma daquelas cenas com potencial pra virar um momento clássico do cinema cult.

- SPOILER: A Josie virando planta na sequência também é bem sinistro. É interessante que o "vilão" do filme não é uma pessoa ou um bicho, e sim algo metafísico: o caos, a desordem em si... Algo alien que cai no nosso mundo trazendo o irracional, destruindo as leis da física, etc.

- O final no farol pretende ser um grande Set Piece surrealista, mas não chega a ser tão brilhante e satisfatório quanto os dos filmes do David Lynch, ou o final de 2001, por exemplo. Aqui o filme parece apelar pro Subjetivismo e pro Pessimismo pra parecer mais profundo, o que nos remete mais a coisas do Christopher Nolan.

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CONCLUSÃO: Apesar de alguns elementos insatisfatórios, o roteiro é muito bem fundado e resulta numa das ficções mais criativas e assustadoras dos últimos anos.

Annihilation / Reino Unido, EUA / 2018 / Alex Garland

FILMES PARECIDOS: Vida (2017) / A Chegada (2016) / Ex Machina (2015) / Corrente do Mal (2014) / Sunshine - Alerta Solar (2007) / 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968)

NOTA: 7.5

terça-feira, 13 de março de 2018

Medo Profundo

NOTAS DA SESSÃO:

- Cômica a pretensão do diretor de colocar seu nome junto do título do filme ("Johannes Roberts' 47 Meters Down") como se fosse uma grande obra literária.

- O roteiro é muito básico, vai pelo caminho mais clichê e menos criativo possível: 2 belas garotas viajando no México decidem fazer algo perigoso, e obvio que dá tudo errado. O filme ainda cria uma motivação psicológica tola pra justificar o mergulho (Mandy Moore quer impressionar o ex-namorado que pensa que ela é chata) como se isso acrescentasse mais "camadas" à história.

- Se elas foram mergulhar justamente pra postarem fotos nas redes sociais, não faz sentido a menina pedir uma câmera emprestada pro cara do barco casualmente, no último momento. Ela já devia ter uma câmera própria.

- O filme não inventa nem uma razão especial pra jaula afundar... Algum tipo de erro humano, etc... O equipamento simplesmente é podre e o cabo de aço rompe assim que elas entram no mar, sem grandes motivos.

- Um pouco contraditório o equipamento de mergulho ser tão sofisticado a ponto de ter microfones pras pessoas conversarem embaixo d'água, sendo que toda a ideia é a empresa parecer meio clandestina, ter equipamentos velhos, pra justificar o acidente.

- A situação certamente é tensa (o oxigênio limitado, a impossibilidade de nadar até a superfície rapidamente por causa da descompressão, etc). Em termos de suspense funciona melhor que Águas Rasas (2016), que tinha que ficar forçando uma série de ações falsas pra menina entrar na água e se expor ao tubarão.

- O "vilão" não é dos mais fortes - o filme não foca em 1 tubarão específico, não cria uma personalidade ameaçadora pra nenhum deles (como o Tubarão de 1975). São apenas animais selvagens aleatórios.

- São bobos esses jump scares onde o tubarão pula na tela do nada, mas daí acaba "errando a mira" e não come a heroína, só pra história poder continuar.

- Muitos filmes de terror hoje em dia acabam virando "estudos de sofrimento"... Mostram pessoas desesperadas, em situações horríveis, indefesas, e quanto mais elas gritam e se machucam, mais o filme acha que está impressionando. Em filmes como Tubarão ou Alien não era nada disso...  A aventura era agradável pro espectador, por mais que fingisse se tratar de uma tragédia. Os protagonistas estavam geralmente no comando da situação, faziam a gente se sentir seguro, e se divertiam no processo... Os obstáculos eram apenas oportunidades pra exaltar as virtudes dos personagens, o objetivo principal não era o de provocar emoções incômodas na plateia.

- SPOILER: Desnecessário haver um segundo cabo de aço no barco e o cabo quebrar de novo assim como o primeiro.

- A ação vai ficando cada vez mais artificial. A menina "pescando" o tanque de oxigênio com o arpão, ou conseguindo erguer a jaula inflando o colete, ou conseguindo espantar os tubarões só com aquele sinalizador (digo "menina" pois desde que as 2 puseram as máscaras no começo do filme, eu não sei mais quem é a Mandy Moore e quem é a irmã - e o roteiro é tão superficial que não faz a menor diferença).

- SPOILER: Chato o clímax ter sido uma alucinação, justo o momento mais dramático do filme... O grande problema do filme é que ele trai o princípio da Objetividade. Quer apenas provocar sensações no espectador, mas sensações desconectadas de lógica, da realidade... Ele se reduz ao papel de um trem-fantasma: se você pulou na cadeira, então valeu, pois pro diretor a única coisa que importa são as sensações momentâneas que ele conseguiu te provocar.

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CONCLUSÃO: Tolo, clichê, mas razoavelmente divertido.

47 Meters Down / Reino Unido, República Dominicana, EUA / 2017 / Johannes Roberts

FILMES PARECIDOS: Águas Rasas (2016)

NOTA: 5.0