sábado, 10 de fevereiro de 2018

Lady Bird: A Hora de Voar

Greta Gerwig me parece cair naquela categoria de pessoa criativa que é quase boa atriz o bastante pra estar na frente das câmeras, mas que de fato explora melhor seu potencial quando está por trás. Lady Bird (sua grande estreia na direção) apenas reforça essa impressão. O filme tem tudo aquilo que costumo gostar nos filmes do Noah Baumbach: a torrente de diálogos inteligentes que faz você querer anotar várias frases, personagens divertidos e bem escritos, a perspicácia psicológica - e menos aquilo que costuma me incomodar nos filmes de Baumbach: a visão de mundo deprimida.

É o tipo de filme que fica no meio do caminho entre o Realismo e o Idealismo. Lady Bird é uma típica adolescente americana, sem grandes virtudes além de sua personalidade adorável, os dramas que ela vive são dramas típicos de garotas de sua idade, nada de muito épico acontece no filme... Mas o roteiro não é escrito de maneira realista - a história não é um simples retrato passivo de sua realidade, e sim um entretenimento cuidadosamente planejado, onde não se encontram nem 10 segundos de "tempo morto", sem nada de interessante ou surpreendente acontecendo na tela.

Pegue por exemplo os momentos após a apresentação da peça na escola: temos a cena da amiga gordinha indo conversar com o professor (por quem ela é secretamente apaixonada), daí corta pro professor de teatro deprimido porque ninguém "entendeu" sua obra, daí corta pra Saoirse indo no banheiro masculino e pegando os 2 garotos aos beijos, depois corta pra cena no carro com as 2 amigas chorando ouvindo música... São 4 ótimos momentos, cômicos por razões diferentes, que são metralhados na plateia um após o outro deixando a gente quase sem piscar.

Saoirse Ronan está perfeita no papel, transmite todas as nuances da personagem, se sai bem nos momentos cômicos, nos momentos dramáticos, e tem até uma cena "musical" onde ela consegue ser péssima e maravilhosa ao mesmo tempo - é possivelmente minha performance feminina favorita de 2017.

Outros momentos que gostei do filme: o bate boca entre Saoirse e a mãe no carro na cena de abertura, os comentários "wtf" do Timothée Chalamet, a aula de teatro com o professor substituto, o momento em que o Lucas Hedges e a Saoirse fazem as pazes, o confronto no colégio com a mulher anti-aborto, Saoirse perguntando se a mãe gosta dela (não se ela a ama), ela fazendo 18 anos e indo comprar coisas "proibidas" na loja de conveniência... Não é um filme incrivelmente ambicioso, inovador, mas dentro de sua proposta, é extremamente bem sucedido.

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Lady Bird / EUA / 2017 / Greta Gerwig

FILMES PARECIDOS: O Estado das Coisas (2017) / Sing Street: Música e Sonho (2016) / Mistress America (2015) / Enquanto Somos Jovens (2014) / A Garota de Rosa-Shocking (1986)

NOTA: 8.0

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