Recentemente vi um influenciador exaltando A Odisseia (2026), e dizendo que ficou embasbacado com Agamemnon. Achei estranho, pois o personagem não faz nada de memorável na história. Fiquei com a impressão que a armadura e sua presença visualmente imponente foram suficientes para encantá-lo. Esse influenciador em particular é fascinado por tudo que projeta masculinidade, força física e poder — ele provavelmente tem o arquétipo do Guerreiro como seu mais essencial. Pessoas assim me intrigam porque o Guerreiro é um dos arquétipos menos importantes pra mim enquanto espectador. Se eu pegar a lista dos filmes mais populares de todos os tempos, terei visto a maioria, mas os maiores buracos no meu repertório (consequência da minha preguiça de vê-los) serão filmes como os do Bruce Lee, Jackie Chan ou mesmo a série James Bond — ou seja, filmes de tiro, luta, cheios de testosterona, que não são famosos por serem bons como filmes, mas que atendem às necessidades de seu público-alvo.
Ter consciência desse tipo de espectador é útil pra mim, pois me ajuda a refletir sobre os meus vieses e a evitar ser totalmente cegado por eles.
No meu caso pessoal, o valor da Benevolência, representado pelo arquétipo do Idealista/Inocente, é o mais fundamental emocionalmente, pelo menos como espectador (o que eu projeto como cidadão ou criador não é necessariamente a mesma coisa). Se você quiser realmente me entender, e entender minha relação com a cultura atual, esta é a qualidade-chave. Posso gostar de uma variedade de coisas, mas aquelas pelas quais sou mais atraído terão sempre um toque de inocência. Admiro Kubrick imensamente, mas meus heróis do entretenimento são figuras como Walt Disney, Steven Spielberg e Michael Jackson, por terem celebrado a "criança interior" de forma épica na nossa cultura.
Ter esse tipo de qualidade como um valor essencial pode trazer vários desafios hoje. Não só por este ser um valor tradicionalmente associado às crianças e, às vezes, às mulheres, sendo frequentemente desvalorizado quando suas características se manifestam em homens ou adultos, mas também por ser um valor renegado pela cultura atual (o que não era o caso nos anos 80 ou 90, por exemplo). Como discuti no texto sobre Arquétipos, toda era escolhe alguns arquétipos que irá respeitar, e coloca outros de "castigo". Atualmente, o Idealista/Inocente está de castigo. Isso cria a impressão de que esses valores só são apropriados para crianças, mulheres tolas, tempos remotos ou para a fantasia. Nunca para homens, adultos, capazes, hoje. Se minha "incompatibilidade" com o entretenimento atual parece estranha, mais radical até do que seria razoável, parte disso tem a ver com o fato de eu ter a Benevolência como um valor indispensável.
Sim, o Idealismo (teoria estética) depende de uma combinação dos quatro Pilares para ser completo e, quando algo projeta Benevolência isoladamente, mas não Autoestima, Objetividade etc., eu não me sinto realmente inspirado, ainda que possa haver uma leve identificação. Ainda assim, é um fato que existe uma preferência pessoal, um "viés" emocional na direção da Benevolência, que pode ser útil que vocês que me acompanham entendam. Quando os quatro Pilares estão presentes, posso apreciar cada um deles. A Objetividade é a ponte que me permite compreender e respeitar necessidades diferentes da minha. Mas, quando os outros valores unem forças para enfatizar Benevolência em particular, é quando eu me sinto mais inspirado. Por outro lado, sua ausência é praticamente garantia de distanciamento emocional.
Da mesma forma que o influenciador que citei anteriormente pode cair no erro de aclamar algo simplesmente por projetar o Guerreiro em um nível superficial, eu, se não tomasse cuidado, poderia cometer o erro de aclamar algo que projete o Idealista/Inocente de forma superficial e desequilibrada. Da mesma forma que posso menosprezar "filmes de lutinha" quando são pobres artisticamente e oferecem apenas testosterona de forma irracional, tenho que ter consciência de que, para uma pessoa com necessidades diferentes das minhas, as coisas que me encantam podem soar infantis, ingênuas e refletir uma "Síndrome de Peter Pan", se não estiverem equilibradas com outras qualidades. (Geralmente, o que se chama de guilty pleasure é algo que satisfaz apenas uma necessidade arquetípica básica, mas de forma pobre, desequilibrada, ignorando outras virtudes indispensáveis — o Chuck Norris de uns vira o meu High School Musical.)
A diferença é que a sociedade não rejeita igualmente todas as necessidades arquetípicas em cada época. No momento, por exemplo, o Guerreiro (assim como o Realista, o Governante ou o Revolucionário) é mais respeitado do que o Idealista/Inocente. O Guerreiro, até em suas versões desequilibradas, tóxicas (pense em líderes da "machosfera"), consegue ter impacto cultural e receber aplausos. Portanto, alguns arquétipos têm mais incentivo para se expressar desavergonhadamente do que outros. Claro, a versão imatura de qualquer arquétipo será sempre um alvo fácil e se sentirá frequentemente rejeitada. E a versão mais evoluída sempre terá caminhos mais abertos e espaço para ser celebrada. Ainda assim, cada época tem suas preferências, que aumentam ou diminuem resistências.
Quando você sente que vive na época errada, a ânsia por uma transformação cultural não é só o desejo de ter coisas melhores para consumir, é também a ânsia de viver em uma sociedade que acolha e celebre, em vez de condenar, aquele valor essencial que você carrega dentro de si. Por isso é importante para esse perfil de pessoa ("kids at heart") ter consciência da origem de seu senso de inadequação. Quando ela não tem consciência, a tendência será reprimir suas necessidades, ou distorcer sua própria identidade para poder expressá-la de maneira socialmente adequada (ou menos condenável): se refugiando na infância, no feminino, no passado ou na fantasia.
Na postagem sobre os 4 Pilares do Idealismo, descrevo Benevolência da seguinte forma:
"A experiência de acreditar que o universo é um lugar receptivo para o ser humano, harmonioso, onde a felicidade é possível e nossos valores podem ser atingidos. De acreditar que os homens podem ser perfeitamente morais, felizes, e que seus interesses não precisam estar em conflito. Que conflitos, a dor e o mal não são o estado natural da vida, e sim coisas a serem combatidas e superadas. É um certo respeito pela inocência da infância, pela visão daquilo que o mundo poderia ser..."
Vendo por esta ótica, não há nenhuma razão pela qual este sentimento deva ser relegado a crianças ou à fantasia. Ele não ignora que a vida tem dificuldades, ou que a vida adulta envolve responsabilidades. Pode não ser uma necessidade fundamental para todas as pessoas, mas é tão natural quanto qualquer outra necessidade arquetípica básica, e deve ser honrada por aqueles que se identificam com ela.
Por isso, convido vocês a refletirem sobre suas necessidades arquetípicas fundamentais. Elas são aceitas pela cultura atual? Você consegue expressá-las livremente? Que estratégias talvez esteja adotando para não ser julgado? E você está satisfazendo suas necessidades de forma equilibrada, evitando a sombra do arquétipo? De que formas você pode tornar suas necessidades mais maduras e menos incompatíveis com as de pessoas diferentes de você?

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