sexta-feira, 12 de junho de 2026

Dia D

Filmes modernos do Spielberg muitas vezes se tornam das experiências mais indigestas pra mim no cinema, pois meu apego por seu passado me torna emocionalmente refém... Não consigo simplesmente menosprezar o que estou vendo, descartar como uma estreia fraca que não é pra mim. Me sinto como a Ripley em Alien - A Ressurreição, naquela que pra mim é uma das cenas mais horrorizantes da história do cinema: quando ela entra no laboratório onde se depara com seus clones abortados, mal-sucedidos. Ela não consegue permanecer fria diante das monstruosidades que está vendo, matá-las a sangue frio, pois elas têm seu próprio rosto. Dia D pra mim é como ver Contatos Imediatos do Terceiro Grau nesse estado — elementos daquilo que eu amo ainda são reconhecíveis, forçando empatia, mas aparecem distorcidos, conectados por tecidos e protuberâncias mal-formadas que causam repulsa.

O que tornou o filme indigesto pra mim se divide em várias categorias.

Assim como West Side Story, Dia D pra mim foi decepcionante pois é um projeto que parecia uma tentativa de Spielberg de recuperar um senso perdido de deslumbramento, de encanto, e isso acaba não ocorrendo. Temos aqui uma história que cai mais na categoria de filmes como Snowden ou Todos os Homens do Presidente do que de E.T. e Contatos Imediatos — um thriller sobre pessoas vazando um escândalo político para a mídia, mais focado em hard drives e pastas secretas do que no fascínio pela vida extraterrestre. Até porque a existência de extraterrestres não é novidade para alguns dos protagonistas. A surpresa ocorreu meses ou anos antes do filme começar (imagine se E.T. começasse no 3º ato, focando só na perseguição até a nave). Este tom mais político/social do que escapista fica evidente nas cenas em que vídeos dos aliens são mostrados para alguém: a reação é de choque, dor, indignação, como quem está vendo uma matéria sobre um genocídio, crimes contra a humanidade (às vezes parece até que os maus-tratos aos aliens nos vídeos são mais relevantes que a própria existência deles).

Extraterrestres não têm um significado emocional intrínseco. Se os associamos a algo mágico, é por causa de símbolos criados pelo próprio Spielberg no passado. Em E.T. e Contatos Imediatos, aliens representam esperança, sonhos. Mas em Guerra dos Mundos, eles já passaram a simbolizar o medo pós-11 de Setembro. Agora, em Dia D, refletem a desconfiança das instituições — viraram ganância corporativa e corrupção estatal.

Ainda que não seja meu "modo" favorito do Spielberg, consigo imaginar um filme respeitável dentro dessa proposta. O problema é que, além dessas questões conceituais todas, Dia D tem um roteiro terrível. A história é simplesmente conturbada, mal contada.

SPOILERS

Pegamos a narrativa de Daniel Kellner (Josh O'Connor) já no meio — não há muita introdução de personagem, contextualização inicial, o que limita nossa identificação com ele e sua jornada. Nossa ponte acaba sendo mais a Margaret (Emily Blunt), que é quem não sabe de nada ainda. Porém, as reações dela aos eventos do início são um pouco frustrantes. Em vez de ficar perplexa ao começar a falar novas línguas, ler mentes, ela nunca parece realmente entender a gravidade do que está acontecendo. Ela reage a tudo de maneira casual, frívola, o que cria desconexão — a personagem parece possuída, mentalmente ausente, o que diminui a grandiosidade de tudo.

Kellner, que já roubou os arquivos secretos quando o filme começa, precisa agora apenas escapar dos agentes da Wardex e divulgá-los para o mundo. Por que ele não faz logo um upload de tudo na internet é algo que nunca é realmente justificado. Ele passa 2h de filme sendo perseguido, correndo risco de vida, tentando chegar a algum lugar vago, que depois de muito tempo descobrimos ser uma estação de TV (como se a TV aberta ainda fosse imprescindível para comunicação em massa). Toda essa ação do miolo do filme, portanto, não parece muito coerente, nem necessária. O vilão também é fraco, caricato, pois não há uma motivação crível por trás de sua maldade e obsessão pessoal em proteger o segredo. Mais mal explicado ainda é o "pit stop" que precisa ser feito antes dos dois chegarem à emissora — a sequência no galpão onde está o personagem de Colman Domingo. Lá, Margaret se depara com uma réplica exata de sua casa de infância, que servirá de ferramenta psicanalítica para desreprimir memórias antigas. Mas por que isso precisa ser feito antes da divulgação dos dados? Por que a casa de Margaret, e não a de Daniel, já que ele também não lembrava de sua abdução? E como Colman Domingo já estava construindo a casa de Margaret no início do filme, sendo que ele só descobre quem ela é depois? Se ele tinha tantos dados sobre a garotinha, não seria fácil descobrir o nome dela e achá-la adulta?

Dia D começa de forma propositalmente intrigante, mostrando coisas misteriosas sem explicar nada para o público. Isso prende a atenção inicialmente porque achamos que tudo será amarrado depois... Mas quanto mais o filme avança, mais vemos que as peças não se encaixarão direito. Por exemplo: quando Hugo (Colman Domingo) diz para Daniel "Há dois de você. Sempre houve apenas 2 de vocês" e na sequência surgem círculos na plantação ao redor de Daniel — o que isso significa? Quando um filme cria ganchos mas depois não entrega as recompensas, o espectador se sente traído.

Em E.T. e Contatos Imediatos, há alguns "furos" desse tipo que vêm de Spielberg priorizar o emocional, o divertido, não o plausível. Mas não eram furos constantes que comprometiam os alicerces da história. Os filmes se passavam em um universo racional, onde o mágico tinha uma origem clara e delimitada. Dia D já parece escrito por alguém que realmente acredita no esotérico, que não sabe diferenciar o objetivo do subjetivo, fatos de emoções, que vê "poesia" no irracional etc. Nesse ponto, Spielberg se aproxima do subjetivismo típico da ficção científica moderna, enfatizando o psicológico — a casa de Margaret seria sua versão da biblioteca do final de Interestelar. O problema é que Spielberg é muito menos eficaz nesse tipo de coisa do que Nolan, que tem o irracional como língua nativa. Muito da trama acaba dependendo de intuições mal explicadas, de poderes sem regras, efeitos sem causas claras. O artefato alienígena, por exemplo, pode ao mesmo tempo servir de telefone, controlar mentes e corpos, tornar qualquer coisa invisível, religar a energia... A eventual vitória dos mocinhos é frustrante pois deve-se a esse artefato mágico que resolve tudo.

Outro problema do roteiro de Dia D é querer abordar uma série de questões e temas intelectuais sem saber se aprofundar na maioria deles. A relação dos traumas de Margaret com os aliens poderia ter sido foco de um filme inteiro (alguém entendeu a crise de pânico no meio dos pianos?), os dilemas religiosos renderiam outro filme, os conflitos geopolíticos outro, a discussão sobre lógica vs. empatia outro (supostamente, tanto Margaret quanto Daniel foram imbuídos com superpoderes, mas o filme nunca explora os de Daniel!). Em vez de adicionar camadas e tornar a história rica, isso gera apenas ruído, poluição cognitiva.

Os filmes antigos do Spielberg eram simples. Havia sofisticação na execução, mas as histórias eram baseadas em desejos básicos. Eram como deliciosos cheeseburgers. Hoje, talvez Spielberg tenha perdido o paladar para esses sabores elementares. Ou talvez tenha se tornado tão lendário, haja tanta pressão e auto-importância em seus projetos, que ele acha que precisa enfiar todo tipo de ingrediente exótico no cheeseburger para impressionar, abafando no processo o sal, a gordura, o açúcar — os sabores que realmente dão prazer. Dia D é um filme que parece não localizar onde está o prazer do espectador — algo que já foi especialidade e meta explícita de Spielberg. A história está sempre desviando do que seria realmente interessante, complexificando o que não precisava ser complexo, causando pequenos estranhamentos gratuitos (pense na escolha de abrir o filme com uma imagem desconexa de um lutador de wrestling saltando na câmera).

Quando entrei na sala, eu queria ver pessoas se maravilhando com a aparição de aliens; céticos se deparando com o impossível. Isso não acontece — ou as pessoas já sabem sobre eles, ou não eram céticas pra começo de conversa, e reagem com um espanto indefinido, não maravilhado, mas também não apavorado (o que ainda seria divertido). Eu queria ver uma profissional ambiciosa, subvalorizada no emprego, tendo a chance de apresentar o maior furo de reportagem de todos os tempos. Isso não acontece, pois não há foco suficiente nas ambições profissionais de Margaret; não é enfatizado que ela é subvalorizada, e ela sinceramente parecia ter mais vocação para garota do tempo do que para âncora de jornal. Eu queria desvendar os segredos por trás de um grande mistério — o que não ocorre porque toda a mitologia dos aliens e a backstory são confusas, mal explicadas. Queria ver a aventura aproximando personagens gostáveis, formando laços novos e profundos — mas saímos nos lembrando mais da deterioração de dois namoros do que da aproximação entre Margaret e Daniel, que mal dá tempo de acontecer no meio de toda a correria (a única cena que achei de fato tocante no filme foi o primeiro encontro entre os dois, quando Margaret resgata Daniel de dentro do trailer dos vilões, e temos um gostinho desse vínculo). Eu queria ver um mundo afundando em guerra e pessimismo sendo transformado para melhor com a revelação dos aliens — o que não chegamos a ver porque o filme acaba de forma abrupta, no meio da transmissão, antes daquilo ter qualquer consequência.

Nem mesmo as cenas de ação pura achei eficazes, pois há descuidos que as fazem parecer meio tolas, como a maneira como os agentes da Wardex nunca enxergam Daniel escondido atrás de galhos secos e espaços totalmente abertos; ou o carro que engancha no trem de forma impossível só para ter alguma movimentação.

Outra decepção vem de uma tática desonesta de marketing, que inseriu no trailer aquela cena da nave saindo de dentro da nuvem à la Independence Day, como se fosse o grande momento do filme. Isso faz todo mundo pensar que o clímax de Dia D envolve uma chegada espetacular dos aliens, sendo que a cena faz parte apenas de imagens de arquivo que passam em um monitor, tornando o final ainda menos satisfatório. Em vez de pessoas boquiabertas olhando para um evento cósmico nos céus, o grande evento aqui é uma jornalista fazendo uma transmissão bombástica — que por acaso tem aliens como assunto.

A verdade é que Spielberg talvez nunca tenha tido um grande controle sobre o impacto emocional de seus filmes. O encanto não era resultado de valores sólidos, técnicas conscientes, mas das circunstâncias de um período de sua vida, onde diversos fatores e motivações se convergiram para produzir aquele tipo de cinema. O que é consistente ao longo de sua filmografia, e que continuamos vendo em Dia D, é o domínio da imagem — a comunicação visual expressiva, estimulante, e o alto valor de produção. Mas isso também tivemos nos fracassos, como 1941 e O Bom Gigante Amigo. O Spielberg que me emociona, que é o grande expoente do Idealismo no cinema, infelizmente não é esse constante, intencional, mas aquele que foi possível durante duas décadas quando os astros se alinharam.

Disclosure Day / 2026 / Steven Spielberg

★★

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Cultura - Junho 2026

11/6 — Estreia — Disclosure Day:

Já assisti Dia D do Spielberg ontem à noite, mas estou indo ver de novo agora antes de postar minhas impressões, até porque quis evitar fazer anotações na primeira sessão pra não me distrair.



5/6 — Martin Scorsese e IA

Pra não parecer que sou anti-tecnologia, aqui está uma polêmica onde estou do lado da IA. Martin Scorsese recentemente apoiou o uso de IA em certas etapas da pré-produção, como na criação de storyboards. Os ataques que ele vem sofrendo vêm principalmente daqueles que lamentam que artistas de storyboard agora ficarão sem trabalho. Essa pra mim não é uma queixa legítima. Meu problema com a IA é quando ela começa a tomar decisões criativas pelo artista e a executar a obra final em si, colocando um ponto de interrogação no talento e na autoria do trabalho — o artista se torna um prompter, supervisionando o processo de maneira distanciada, sem deixar mais suas digitais nos pormenores da obra. Mas há inúmeras etapas práticas na produção de um filme que podem ser facilitadas pela IA. Estou elaborando um roteiro atualmente e aproveitando para refletir sobre essa questão na prática. Uma coisa que a IA facilita muito, por exemplo, é o processo de pesquisa. Quando você está escrevendo sobre um período histórico, sobre um emprego ou ramo da ciência no qual não tem domínio, e precisa de informações e detalhes para tornar a história mais crível, a IA é um ótimo assistente. Você consegue ter uma visão geral rápida sobre o assunto, encontrar as melhores fontes e autores caso precise se aprofundar no tema, etc. Algumas coisas já começam a esbarrar mais no processo criativo, como usar a IA para te dar feedback, mas nem isso compromete necessariamente a integridade do trabalho. Certamente existe uma zona cinzenta onde começa a ficar complexo julgar a ética do uso da IA. Mas usá-la para storyboards pra mim ainda está longe da zona de perigo. Não seria contra nem fazer um rascunho do filme inteiro em IA antes de filmar a coisa real — uma versão aprimorada do que se chama de "monstro" ou "animatic" hoje no audiovisual — seja para vender a ideia para produtores, seja por questões criativas: checar o ritmo, planejar tomadas, comunicar melhor a visão do diretor para a equipe, etc.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Junho 2026 - outros filmes vistos

Mestres do Universo (Masters of the Universe / 2026 / Travis Knight) ★★★

Assumidamente "Sessão da Tarde" — não é o tipo de filme que pega um material pop e tenta torná-lo artístico — mas é mais decente do que eu imaginava. O grande perigo aqui era o deste "não levar-se a sério" acabar caindo pro lado da autoparódia. Mas diria que em 85% do tempo, o humor do filme é benevolente, não destrutivo. Nem o fato do Esqueleto ser bem-humorado me incomodou, pois em filmes mais juvenis é aceitável o vilão ser semicômico pra história não ficar assustadora demais. Há sim alguns momentos em que o filme apela para o humor cínico estilo Guardiões da Galáxia, onde o heroísmo dos personagens se torna o alvo das piadas. Mas essas cenas acabam parecendo até deslocadas — algo que o filme insere mais pra seguir tendências do que por refletir o real espírito dos autores. Quando você analisa o conjunto da obra — o casting de He-Man, a trilha sonora, a fotografia, as mensagens, etc. — o que marca Mestres do Universo é sua tentativa de se distanciar do entretenimento envergonhado da última década em direção a algo mais honesto.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Todo Mundo em Pânico

Não é tão bom quanto eu gostaria, mas dá pra matar a saudade da franquia e do estilo de humor (algo que o novo Corra que a Polícia Vem Aí pra mim não fez). O conceito de Densidade Criativa explica em parte o motivo de eu gostar de comédias como essa: o gênero praticamente força o autor a apresentar três ou mais ideias cômicas por minuto. Ou seja, a Frequência Criativa costuma ser altíssima — ainda que a Qualidade Criativa possa oscilar (várias das piadas acabem sendo fracas). Há formas mais e menos artísticas de se fazer besteirol, e digamos que o nível aqui não é dos mais elevados. O filme é uma sucessão de sketches parodiando filmes de terror modernos (e a cultura americana moderna), mas não há um grande esforço para conectar uma coisa à outra, apresentar um enredo minimamente coerente, ou tornar as piadas autossuficientes (independentes de referências externas). Por mais que você vá ver um filme desses esperando burrice, você quer algo "brilhantemente burro", não piadas jogadas de qualquer jeito. Nesse ponto, o filme não satisfaz 100%, mas há risadas o bastante pra justificar o ingresso, sem falar na liberdade refrescante de ver alguém fazendo piada com tudo aquilo que parecia tabu até pouco tempo atrás (na verdade, há coisas aqui que ainda não estão "liberadas" para escárnio e o filme faz piada mesmo assim; vamos ver até que ponto os Wayans passam impunes).

Scary Movie / 2026 / Michael Tiddes

★★★

segunda-feira, 1 de junho de 2026

A Revolução dos Bichos

Como já comentei antes, não li o livro do Orwell e conheço a história principalmente pela animação de 1954. Na minha percepção leiga, esta nova adaptação moderniza e ameniza um pouco a história para tentar apelar para crianças, mas é basicamente fiel à ideologia do livro. A indignação tanto da esquerda quanto da direita me parece equivocada. A direita rechaçou o filme porque quer acreditar que o livro é contra o socialismo, e que a animação teria deturpado os ideais de Orwell. A esquerda, por ser contra tudo o que é higienizado e açucarado para fins comerciais. Nem a questão da "deturpação" nem a da "higienização" foram problema pra mim. Se a ideia é trazer A Revolução dos Bichos para os tempos atuais, as alterações na história até que são coerentes. E nada contra tirar elementos deprimentes demais se seu público inclui crianças. O filme é bem mais equilibrado do que as reações fazem parecer. Isso me fez gostar do filme? Não. Primeiro porque eu provavelmente já teria questões com o livro do ponto de vista ideológico (apesar do ceticismo quanto à implementação prática do socialismo, a história ainda é favorável aos ideais éticos por trás dele). Segundo, porque se a intenção do filme é transmitir ideias políticas, isso é um tanto incompatível com um entretenimento familiar. Se sua história é primeiramente ideológica, o melhor é assumir isso e fazer um filme intelectual para adultos. Tornar tudo colorido e cheio de piadinhas não faz o filme automaticamente funcionar como entretenimento familiar — não há real conexão com os protagonistas, nem eventos intrinsecamente prazerosos de assistir. Tudo que o filme tem de interessante — e há detalhes espertos que me surpreenderam — ocorre em um nível cerebral. A adaptação foi incompleta nesse aspecto. Pra realmente funcionar como animação para a família, teria que ser algo mais como Vida de Inseto (1998), onde as mensagens políticas emergem de uma aventura que se sustenta sozinha, e menos um ensaio ideológico explícito.

Animal Farm / 2025 / Andy Serkis

★★

sábado, 30 de maio de 2026

Backrooms: Um Não-Lugar

Com o buzz ao redor de Obsessão e Backrooms, estou começando a achar que eu estava certo quando sugeri que Hollywood iria pular a Geração Millennial e a próxima safra de diretores novos que empolgariam a indústria viria da Gen Z.

Gostei mais de Backrooms do que de Obsessão (ainda que Exit 8 seja a comparação mais óbvia entre os lançamentos recentes de terror), pois Obsessão pra mim já descarrilhou logo no início do ato 2, o que me deixou descrente pela maior parte do filme. Backrooms se mantém bom por um tempo bem maior — e é só na segunda metade, mais para a meia hora final, que ele começou a me frustrar.

O conceito das salas secretas é intrigante como gancho inicial, e os cenários/design de produção são o que tornam Backrooms distinto. Em termos de narrativa, o grande diferencial pra mim é algo que deveria ser óbvio, comum, mas hoje em dia não é: o filme tem uma sensatez básica na sequência de acontecimentos e na maneira como os atores reagem a tudo. É como pessoas reais talvez reagissem e se portassem ao descobrirem algo aparentemente impossível (Renate Reinsve foi uma escolha inusitada de elenco, mas ela ajuda a dar credibilidade à situação). Essa intenção sempre foi normal no entretenimento — é só na última década e pouco que se tornou padrão a completa ausência de lógica nas tramas e os personagens agirem de forma implausível. Fui ver Hokum: O Pesadelo da Bruxa outro dia — que é também sobre um homem preso num labirinto de quartos secretos sinistros, fugindo de uma presença maligna — e não passava mais de 2 minutos sem que algo completamente sem sentido acontecesse, seja em termos físicos/práticos, seja em termos de psicologia e comportamento humano. Essa postura mais realista ao lidar com o fantástico é o que cria a sensação de que os eventos de Backrooms estão realmente acontecendo. Sem isso, perde-se muito do magnetismo da ação.

SPOILERS: Se meu interesse diminuiu na segunda metade, é porque essa postura foi em parte abandonada, e o filme começou a ficar mais explicitamente simbólico, psicológico. Nesse ponto, o cineasta não traz nada de novo para a indústria; está apenas seguindo aquilo que já é um clichê há décadas no horror — o subjetivismo que talvez tenha sido "edgy" em 2002, quando Shyamalan transformou o clímax de Sinais em uma sessão de terapia, mas hoje já é o esperado. Não ajuda também o fato de as questões psicológicas no centro da história serem um tanto banais — o protagonista não é desenvolvido o bastante nem está vivendo nada tão grandioso que justifique uma representação tão dramática de sua mente.

Ou seja, é um filme onde os ganchos são frequentemente melhores que as recompensas, mas ainda assim rende uma sessão divertida.

Backrooms / 2026 / Kane Parsons

★★★

Cultura - Maio 2026

30/5 — Um bom momento para o cinema

Em janeiro, quando escrevi o post sobre a Temporada 2025, estava mais pessimista do que nunca — um pouco por causa da sempre deprimente temporada de prêmios. Mas abril e maio de 2026 foram alguns dos meses mais animadores pra mim da última década. No passado, fiquei pontualmente empolgado com um ou outro filme, mas há muito tempo não sinto uma onda consistente de filmes com intenções positivas (ou pelo menos, intenções melhores). E o público está reagindo positivamente: semana após semana, noto as salas mais movimentadas, como se parte da população tivesse subitamente decidido retomar o hábito de ir ao cinema. Michael acho que foi o sucesso que coroou este período, mas outros lançamentos também ajudaram a criar uma mudança de ares (franquias menos corrompidas que de costume, ou filmes que vieram atender à demanda por histórias originais). Sem falar nos trailers dos próximos lançamentos: Dia D, Todo Mundo em Pânico, Mestres do Universo — não sei se esses filmes serão bons, mas os trailers pelo menos estão vendendo um tipo de entretenimento mais honesto, menos Anti-Idealista (como disse em 2025, os melhores sinais estão vindo dos filmes comerciais sem grandes pretensões com a crítica, não dos filmes que visam prêmios). Em algumas dessas sessões, vendo as salas cheias e esses trailers passando, consegui ter a ilusão momentânea de estar vivendo em tempos normais. Um pouco de exagero, claro. Não aguardo o início de nenhuma era de ouro do cinema e, levando em conta o fim da "monocultura", já nem sei se acredito mais na ideia de "pêndulo" ou de coesão cultural. Mas se uma forma mais autêntica de Idealismo pelo menos deixar de ser démodé, se tornar um nicho viável, que pode coexistir com outras abordagens de entretenimento, já será uma vitória.


11/5 — Billie Eilish: Hit Me Hard and Soft - The Tour in 3D

Não me interesso pela Billie Eilish, mas fui assistir ao show/documentário por causa da direção do James Cameron — e saí continuando sem entender por que ele se envolveu com esse projeto, com uma artista que não dá match nenhum com ele, onde ele pôde contribuir muito pouco além de garantir um 3D tecnicamente bem feito, mas que acaba tendo pouco impacto até pela crueza visual do palco. (Cameron não dirigiu o show em si; apenas cuidou da captação e edição, além de fazer algumas entrevistas superficiais que não agregam muita coisa.)

7/5 — Orwell e comunicação objetiva

Eu tenho um jeito bastante explícito, “direto ao ponto” de escrever, e uma das minhas maiores dificuldades na faculdade agora é ter que me adaptar a um estilo cognitivo totalmente diferente — a uma linguagem vaga, inespecífica, indireta, que parece ter medo de se comprometer com qualquer coisa ou de expor a mente de quem escreve.

Tentando entender melhor essa diferença, encontrei um texto ótimo do George Orwell chamado Política e a Língua Inglesa”, que explica bem por que a faculdade às vezes me faz sentir como um estrangeiro aprendendo uma língua nova, ou então como um caso muito mais grave de TDAH.

No fim, o vilão é a velha falta de Objetividade (que, segundo Orwell, é comum não só por problemas de inteligência e ética, mas também por razões políticas). No cinema, estou mais treinado pra identificar como a linguagem não objetiva e a má cognição afetam roteiros, direção, e já não deixo que isso me traga qualquer senso de inferioridade. Mas o meio acadêmico é novo para mim, e diante desses textos vagos e dos métodos irracionais de ensino, muitas vezes ainda me pego questionando minha própria sanidade.


Orwell - A política e a língua inglesa (tradução que encontrei em Portugês PT)

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Maio 2026 - outros filmes vistos

Exodus (1960 / Otto Preminger) ★★★½

Nunca tinha visto este épico sobre a criação do estado de Israel. Não chega a ser um David Lean, mas gostei de assistir por ser uma produção grandiosa sobre um tema pouco explorado no cinema. O mais surpreendente de tudo, pra quem vê o filme no contexto atual, é "descobrir" que na época em que o filme foi feito, defender Israel era uma coisa de esquerda! Exodus inclusive foi escrito por Dalton Trumbo, e foi uma peça fundamental para dar fim à lista negra de Hollywood (que caçava comunistas na indústria), já que o diretor Otto Preminger foi corajoso e decidiu dar crédito a Trumbo por seu roteiro (durante a lista negra, comunistas tinham que usar pseudônimos e trabalhar nas sombras).

O estranhamento vem de constatar que, nas primeiras décadas após a 2ª Guerra, os judeus ainda eram vistos como um povo oprimido, e Israel como uma espécie de experimento socialista. O grande vilão da história era o Império Britânico — por isso, a esquerda estava do lado de Israel. Os palestinos eram uma questão secundária. Foi só no final dos anos 60 que Israel se estabeleceu como uma grande potência militar, e aí a narrativa se inverteu totalmente — os judeus se tornaram os opressores para a esquerda, que passou para o time dos palestinos. Exodus se torna um caso interessantíssimo de um ponto de vista estético/político. É um filme com um posicionamento controverso, inaceitável hoje em dia, mas feito com uma linguagem mainstream, como quem não sabe que está "do lado errado" da história. Me fez pensar que talvez essa seja a melhor forma mesmo de apresentar qualquer ponto de vista, se sua intenção é normalizá-lo — tratá-lo como algo natural, humano, de bom gosto, parte do senso comum, em vez de deixar que a controvérsia se reflita na sua abordagem.


Congo (1995 / Frank Marshall) ★★

Frank Marshall tinha praticamente tudo nas mãos pra fazer o seu Jurassic Park — um grande orçamento, um roteiro sobre cientistas sendo perseguidos por predadores ferozes numa selva exótica, também baseado em um livro de Michael Crichton (autor de Jurassic Park), uma equipe técnica excelente, que inclui a editora de Lawrence da Arábia, o fotógrafo de E.T., Jerry Goldsmith na trilha sonora — lembrando que o próprio Marshall já havia trabalhado ao lado de Spielberg como produtor em inúmeros sucessos, como os três primeiros Indiana Jones, De Volta para o Futuro, Hook, etc. Ou seja, em termos de produção, ele tinha aqui o pacote completo para criar um blockbuster spielbergiano, o que parece ter sido sua intenção — a única coisa que faltava mesmo era o próprio Spielberg (e John Williams, claro). A diferença brutal que isso faz torna Congo um ótimo caso de estudo para entender os detalhes intangíveis por trás de uma grande direção.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Star Wars: O Mandaloriano e Grogu

Lembro de ter visto o primeiro episódio de The Mandalorian e achado problemática uma questão que também afeta o longa, que é o fato de termos um protagonista sem rosto. Se você for pensar, isso é extremamente incomum no cinema — há inúmeros filmes estrelados por humanos que não falam, por personagens animados, por animais, objetos, seres fantasiosos, mas não lembro de quase nenhum onde o protagonista não tem um rosto. E não acho que isso seja acidental. Há algo de crucial para o engajamento visual e para o entretenimento nas expressões faciais e reações dos personagens. Sem falar na questão do carisma e nos elementos de caracterização que se perdem com a ausência do rosto.

A história de O Mandaloriano e Grogu não é das mais envolventes. Trata-se de um "filme de serviço" onde o Mandaloriano, que é um caçador de recompensas, recebe uma missão aleatória no início do filme e parte para cumpri-la: viaja para um local, faz uma reunião com uma pessoa, depois segue para outro lugar, pega pistas com uma nova pessoa, e assim por diante.

Nada parece ter grande relevância, pois o filme viola algo que podemos chamar de "Princípio do Centro do Universo". Os melhores blockbusters costumam contar histórias onde o protagonista é o centro do universo — no sentido de estar participando daquilo que parece ser o evento mais importante do mundo naquele momento. Numa escala menos épica, um blockbuster no mínimo deveria tentar contar uma história que retrate o momento mais crucial da vida do personagem — algo tão especial e decisivo para sua vida que justifique existir um filme sobre aquilo. Em O Mandaloriano e Grogu, a sensação é que aquela é apenas mais uma missão como inúmeras outras que o herói já viveu ou viverá, e que aquele conflito em particular é apenas um entre centenas de outros ocorrendo na galáxia — não estamos tentando destruir a Estrela da Morte e acabar com o Império de uma vez por todas, como na saga original — apenas lidar com uns vilõezinhos de segunda. O próprio Mandaloriano não parece ter um grande status dentro do universo Star Wars. Como disse na postagem O que torna um personagem gostável?: "No Idealismo, tendemos a pensar em extremos. Se o personagem for um agente secreto, queremos que ele seja o melhor agente secreto do mundo. Se for uma criança levada, queremos que seja a mais levada que já vimos...". No filme, o Mandaloriano luta bem, mas não há nada de tão extremo ou único que o faça parecer central no universo da franquia.

No fim, o maior problema de O Mandaloriano e Grogu é a timidez e a falta de personalidade do filme. Não há nada de terrivelmente ruim ou de mau gosto na produção, o que já é uma vitória. Tudo é adequado, apresentável — e os elementos Corrompidos que destruíram tantos produtos Star Wars nos últimos anos também estão bem reduzidos. A Disney parece estar querendo escutar os fãs. O problema é que não basta excluir os negativos. Falta inserir os positivos — as boas ideias, as cenas surpreendentes, os 300 Beats Criativos que são a base de um bom espetáculo. Mas isso requer imaginação e liberdade criativa, coisas não muito incentivadas na cidade corporativa, avessa ao risco, que é Hollywood hoje.

Star Wars: The Mandalorian and Grogu / 2026 / Jon Favreau

★★

domingo, 17 de maio de 2026

Obsessão

Gostei do set-up da história — a primeira meia hora quando conhecemos o protagonista, vemos as tentativas fracassadas de Bear de se declarar para a amiga, etc. Os primeiros momentos após Nikki ser "possuída" também funcionam, até pela maneira realista com que Michael Johnston reage a tudo, tornando convincente uma situação que seria difícil de levar a sério com uma performance menos sensível. O problema de Obsessão é que o filme não sabe muito bem o que fazer no ato 2. Nikki está claramente fora de si, e em vez de Bear comprar um outro feitiço pra tentar reverter a situação, ou então pedir socorro para os amigos, ele tenta levar uma vida normal de casal com Nikki, tornando tudo artificial demais — como naqueles filmes de casa mal-assombrada onde mesmo após o protagonista já ter tido contato direto com o fantasma, ele continua morando na casa normalmente, como se precisasse que o mesmo fato óbvio fosse esfregado 5 ou 6 vezes na sua cara até ele tomar uma atitude sensata (aí, o roteirista já enrolou o bastante e conseguiu chegar ao ato 3). Alguns clichês na caracterização do "monstro" também são frustrantes (até quando o cinema vai achar que uma mulher com cabelo pra frente estilo Samara provoca medo?), até porque Obsessão é mais sofisticado que a média do gênero, e podia ter encontrado soluções menos batidas para os momentos de terror.

Obsession / 2025 / Curry Barker

★★½