domingo, 20 de setembro de 2026

Resident Evil

O filme é bem produzido, visualmente interessante, e quem é fã do jogo deve gostar da maneira como o diretor traduziu a experiência para a tela grande. Para o resto, a história não tem o mínimo de plausibilidade pra envolver por si só — não estou falando de os monstros não serem plausíveis, mas de toda a sequência de acontecimentos não ter pé nem cabeça, uma vez que você aceita a premissa. O protagonista só precisa ir de ponto A para ponto B para fazer uma entrega, e o roteiro fica inventando uma série de contratempos sem sentido para atrasá-lo ou desviá-lo do caminho, permitindo que novos set-pieces de terror aconteçam. A maior parte do filme, por exemplo, se passa em uma montanha nevada pela qual Bryan tem que passar dirigindo para chegar ao hospital. Fiquei o tempo todo me perguntando por que um hospital importante seria construído num local tão inacessível que parece que a qualquer dobra da estrada você vai se deparar com o Hotel Overlook. 1 hora filme adentro, descobrimos que o hospital na verdade não fica naquele local isolado, mas em uma cidade de porte razoável, com infraestrutura, que certamente tem mais de uma rodovia de acesso. Por que Bryan então passou a maior parte do filme naquele lugar assustador? Simples: porque o cenário seria cool para um filme de terror.

Mais tarde, descobrimos que aquilo que Bryan tem que entregar no hospital é o único antídoto capaz de brecar o surto de zumbis e possivelmente evitar o apocalipse. Boa sorte tentando entender por que algo tão importante e urgente foi colocado nas mãos de um entregador desmiolado que trata o pacote com menos cuidado que um motoboy do iFood numa sexta à noite.

As regras do universo são mal estabelecidas, tornando tudo fácil pro roteirista: um infectado pode se comportar de maneira amigável, de repente ficar agressivo sem nenhum motivo, parecer morto ou ressuscitar sempre que conveniente, e as mutações genéticas aparentemente são tão potentes que conseguem criar uma suspensão das leis da física: um cachorro pode abrir a boca e soltar tentáculos com o triplo do volume do animal inteiro, o estômago de um homem pode comportar 500 litros de ácido, etc.

O pior de tudo é o uso de humor, que transforma o filme numa grande fraude. Se você entra no cinema pela fantasia, pelo horror, para ser transportado para o universo da história, a comédia estará o tempo inteiro quebrando a ilusão e te relembrando que aqueles são apenas atores em situações de mentirinha. Caso interpretemos o filme como uma comédia de fato, ainda seria o tipo de comédia que pra mim não tem graça, em que você ri das trapalhadas do protagonista não por serem nonsense, gags bem elaboradas, mas porque você se identifica e pensa: "ele é um loser sem qualquer virtude, assim como eu".

A única hora em que o filme se permite ser sério é durante as ligações entre o "herói" e a namorada, em que eles discutem dramas de relacionamento, responsabilidades, e algumas frases sobre aborto são jogadas pra tentar dar profundidade ao roteiro (por que não uma menção casual à situação em Gaza?). Nesse momento, Resident Evil mostra que tem vergonha do próprio gênero. Ele é capaz de tratar com dignidade temas mais realistas, "humanos" e o sofrimento do homem comum, mas não aquilo que é divertido, escapista e que o espectador pagou para ver.

Resident Evil / 2026 / Zach Cregger

★½

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Cultura - Setembro 2026

16/9 — Invasores de Marte (Invaders from Mars / 1986)

Esse filme é a melhor prova de que Spielberg dirigiu Poltergeist, não Tobe Hooper. Antes eu achava que Spielberg tinha apenas ajudado Hooper, dado alguns toques ao longo da filmagem, mas hoje já vejo Poltergeist como um filme 100% do Spielberg. Invasores de Marte deixa isso claro porque é um filme tentando desesperadamente ser algo como Poltergeist, E.T. e Contatos Imediatos — e falhando miseravelmente. É como se o produtor Menahem Golan tivesse tido a ideia de fazer um filme comercial imitando o estilo de Spielberg, que estava em alta na época, e contratado Tobe Hooper acreditando que ele tinha dirigido Poltergeist. Agora, Hooper tinha que provar uma capacidade que não tinha e fazer mais um Poltergeist, só que sem Spielberg — como alguém que mentiu no currículo e é colocado à prova. Assim como Congo (1995), que discuti em maio, esse é mais um bom caso para estudar boa vs. má direção.

domingo, 6 de setembro de 2026

Setembro 2026 - outros filmes vistos

Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor (Practical Magic 2 / 2026 / Susanne Bier) ★★

Não tenho nenhuma nostalgia especial em relação ao primeiro filme (o que mais me recordo é que os cabelos da Sandra Bullock e da Nicole Kidman estavam lindíssimos e volumosos). Já na época achei a direção e o roteiro fracos, e o tom era menos Idealista do que gostaria (a influência da cultura alternativa dos anos 90 já estava atingindo os filmes mainstream em cheio em 98). Esta continuação achei ligeiramente inferior, porque além de não ter o fator novidade, o filme parece sem energia, entusiasmo — mais ou menos como O Diabo Veste Prada 2 me pareceu meio "murcho", com um humor mais tímido do que o original. Sandra Bullock e Nicole Kidman ficam numa posição meio mal resolvida, em cima do muro — querem em parte assumir o papel secundário das "tias velhas", dando espaço para a nova geração, mas ao mesmo tempo querem parecer jovens e reprisarem o que fizeram no primeiro filme. Nenhuma das duas coisas acaba sendo realmente empolgante. A trama também não faz muito sentido. As duas passam boa parte do filme em uma jornada física para encontrar a filha de Bullock, simplesmente porque esta decide que não vai atender o celular. Por fim, o tom continua menos Idealista do que eu gostaria. Toda a aventura e a magia servem mais de fachada para a verdadeira essência do filme, que é uma história sobre traumas, cura de feridas, sacrifícios etc.


Mayday (2026 / John Francis Daley, Jonathan Goldstein) ★★★

Buddy comedy mais ambiciosa do que se poderia esperar, considerando que é um lançamento de streaming. Tenta apelar para o público que gostou de Top Gun: Maverick e sente falta de um certo americanismo no cinema — quem está por trás da produção é David Ellison, CEO da Paramount Skydance, que também produziu Maverick.

O lado cômico às vezes parece forçado — o filme torna escrachados momentos em que um humor mais sutil combinaria melhor com a situação — mas há uma história interessante o bastante para que ele não dependa totalmente das risadas pra funcionar. Não é grande coisa, mas é aquele tipo de filme "nota 6" que eu digo que anda em falta: despretensioso, mas com certa personalidade, que se esforça pra entregar um entretenimento decente e não parece feito no piloto automático, de forma preguiçosa, como tanta coisa que hoje chega até aos cinemas.

domingo, 30 de agosto de 2026

Agosto 2026 - outros filmes vistos

Coyote vs. Acme (2026 / Dave Green) ★★

O grande destaque aqui é o fato do roteiro ser mais inteligente e criativo do que se espera de um filme do gênero, acrescentando uma dimensão mais adulta sem que isso subverta o tom de entretenimento familiar. Não achei o humor tão bom quanto o de Tico e Teco: Defensores da Lei, mas é decente e dá para traçar paralelos entre as propostas dos dois filmes. O que mais me incomodou foi a militância anticapitalista mais pro final, que me deixou até pensando se esse não teria sido um dos motivos para o filme quase ter sido enterrado pelo estúdio. Pelo menos não é algo que pareça gratuito, que arruíne o tom leve ou surja desconectado de funções narrativas — é a forma artisticamente decente de inserir ideologia em um filme.


Ponto Sem Retorno (The Dog Stars / 2026 / Ridley Scott) ★★

A história viola vários dos princípios narrativos que eu defendo. Como em muitos filmes pós-apocalípticos, há muito pouco de positivo a se esperar aqui. A grande dúvida do personagem é: será que o mundo já se tornou horrível o bastante para eu cometer suicídio ou ainda resta um mínimo de coisas positivas pelas quais vale a pena continuar sobrevivendo? E é por esse mínimo que você “torce” ao longo do filme, sem a expectativa de uma transformação realmente positiva para os personagens.

Também falta um bom gancho narrativo. O protagonista parte em uma jornada episódica em busca de um lugar melhor pra viver, sem muita perspectiva de sucesso, e no meio do caminho precisa lutar contra gangues hostis e consertar coisas depois que acidentes aleatórios acontecem. Não é uma história sobre conquistar positivos, mas sobre combater negativos pra que a situação ao menos permaneça num nível de ruindade parecido com o do início e não caia pra um nível ainda pior.

Apesar da produção bonita e do cenário de aventura, é basicamente um drama psicológico sobre um homem quebrado aprendendo a seguir em frente. As cenas de ação acabam parecendo super forçadas e desnecessárias, como se o roteiro originalmente imaginasse uma produção intimista, feita direto pra streaming, e alguém tivesse decidido de última hora contratar o Ridley Scott e dar ao filme um tratamento mais grandioso.

A Última Casa (The Last House / 2026 / Louis Leterrier) ★★

O Fim da Rua (The End of Oak Street / 2026 / David Robert Mitchell) ★★½

A Última Casa e O Fim da Rua são dois lançamentos desse início de agosto que tentam emular os filmes do Spielberg dos anos 80 e 90. A história de ambos envolve uma família normal, vivendo tranquila em uma casa no subúrbio, até que um fenômeno sobrenatural acontece e o bairro é invadido por criaturas de outro mundo.

As cenas abaixo homenageiam (ou copiam?) E.T.: nas três, durante a refeição, algum membro da família relata ter visto algo estranho no dia anterior, e os outros comentam de maneira cética, tentando dar explicações mais plausíveis.


Nenhum dos dois filmes é muito bem-sucedido na tentativa. A Última Casa é mal dirigido e mais "corrompido" em tom (se torna um filme sobre confinamento, sobrevivência e dramas familiares). O Fim da Rua é melhor realizado e mais focado na diversão. Mas o roteiro de ambos deixa a desejar — não só quando comparados aos clássicos de Spielberg, mas até em relação aos blockbusters mais rotineiros daquele período (nenhum se esforça, por exemplo, para dar uma explicação minimamente inteligente para o fenômeno sobrenatural).

O bom sinal é que estreias como essas reforçam a impressão de que a indústria voltou a flertar com o Idealismo em 2026. Referências a sucessos dos anos 80/90 nunca morreram, mas antes havia sempre uma tentativa de reformá-los, tornando-os mais cínicos para os tempos modernos. Agora, tenho visto alguns artistas atenuando o cinismo, a subversão, e tentando voltar a uma forma mais honesta de entretenimento.

O desafio é que uma mudança em intenção e tom emocional ainda não é o bastante — falta recuperar a técnica e a rede de talentos que foram perdidas nos últimos 15 anos (especialmente os bons escritores).

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Cultura - Agosto 2026

27/8 — Nova versão do livro

Ando focado na tradução do livro para o inglês, que na verdade será praticamente uma nova versão, pois não só estou incluindo várias ideias que só elaborei depois da primeira edição (Ganchos e Recompensas, Densidade Criativa, Arquétipos, Complementaridade, paralelos com Aristóteles etc.) como estou alterando bastante o tom da escrita, focando nos princípios positivos do Idealismo que possam ser úteis para o leitor, e menos nos ataques aos "maus artistas" e "maus espectadores".

3/8 — Nolan vs. Autoestima

Trecho de uma entrevista recente com Nolan sobre A Odisseia:

Entrevistadora: Vivemos em uma época que exige que a nobreza ("greatness") peça perdão. Quando retratamos a nobreza, nós desviamos dela, a tratamos como privilégio e exigimos que ela peça desculpas. É um fato sobre Hollywood. Me pergunto como você aborda a nobreza. Ainda é uma história de pedido de perdão, que exige arrependimento, reflexão e autocrítica?

Christopher Nolan: Como um contador de histórias, você está sempre em diálogo com as expectativas da plateia. Temos que ter consciência da energia que a plateia traz para a história e da intersecção entre nossa intenção e a maneira como a plateia a recebe. Falando de forma simples: você tem que tornar o personagem gostável. Então nos perguntamos: iremos tratar a nobreza como um absoluto? Ou, vindo do contexto filosófico mais idealizado e democrático em que vivemos hoje, em que queremos ver as pessoas como sendo iguais, precisamos pedir desculpas por essa nobreza? E a resposta é: sim, precisamos, ou então a plateia rejeita a nobreza.

Nolan fala como se esta fosse uma regra universal para qualquer contador de histórias hoje, ignorando que há filmes de sucesso que não corrompem seus heróis como um pedido de perdão (os blockbusters do Tom Cruise, por exemplo). Mais correto seria ele dizer: "Para agradar o tipo de público que eu acho importante e para receber os prêmios da crítica que eu acho importantes, sim, precisamos pedir desculpas pela nobreza."

Para entender como lidar, no Idealismo, com essa relação entre virtudes e vulnerabilidades, recomendo os textos O que torna um personagem gostável?Complementaridade: Por que o herói tem que ser incompleto

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Homem-Aranha: Um Novo Dia

Achei apenas mais um filme-salsicha corporativo feito por comitê. Gostei do Tom Holland, algumas cenas de ação do Homem-Aranha saltando entre os prédios são visualmente empolgantes, mas me parece que os filmes da Marvel considerados bons hoje (como este) não são aqueles que apresentam algo realmente extraordinário, mas aqueles que têm a "virtude" de não terem algo tosco ou controverso que revolte o público — os que parecem normais, bem executados e fieis ao tom/estética esperada. Mas se você ignora esta barra estabelecida pelo estúdio e vai apenas esperando ver uma boa história, o filme é uma bagunça.

Pra começar, a narrativa é conturbada e confusa para quem não tem um guia do lado com tudo o que já aconteceu antes no universo Marvel. Pros espectadores mais apegados a lógica e causalidade, como eu, o universo amorfo, sem identidade, onde esses filmes costumam se passar, também torna tudo frustrante de acompanhar. Além dessas coisas que tipicamente me incomodam no gênero — como o protagonista altruísta que não tem motivações convincentes para trabalhar de segurança da cidade — algumas coisas desse capítulo não funcionaram direito pra mim. Por exemplo: em um filme solo do Homem-Aranha, acho fácil comprar o conceito de sua identidade precisar ser secreta (assim como a de Superman). Mas quando você está em um universo onde existem diversos outros super-heróis, nenhum deles com essa mesma questão, essa necessidade de guardar segredo parece menos vital — e todo o drama central de Um Novo Dia se baseia nisso. Outro atrativo do roteiro envolve os "novos poderes" do Homem-Aranha, que agora começa a soltar teias orgânicas do próprio braço e a ter instintos aguçados de aranha... Mas isso é apenas um upgrade nos poderes que ele sempre teve. No 4º filme, não há mais como repetir o senso de novidade de uma história de origem. Fica a sensação de uma franquia que já foi explorada à exaustão e agora não tem mais o que fazer, a não ser apagar a memória de personagens estratégicos e dar um reset em coisas que já aconteceram antes pra poder recontar a mesma história de sempre. Uma tática do filme pra tentar fugir da mesmice é introduzir um personagem surpresa do universo Marvel, só que esta sub-trama fica parecendo o primeiro ato de um filme separado que resolveram enfiar em Um Novo Dia, não algo que enriquece o próprio filme do Homem-Aranha.

Pra nós "antiquados", que, em um filme de super-herói, esperamos ver habilidades admiráveis, indivíduos evoluídos, há muito pouco aqui também que deixe um senso de inspiração: Homem-Aranha está sempre em conflito com seus parceiros (bem e mal estão sempre se misturando, trocando de posição) e passa o filme inteiro caindo, falhando, ganhando hematomas, agindo como um aprendiz, dando a impressão de que a única coisa que o torna "super" mesmo é o acidente genético.

Spider-Man: Brand New Day / 2026 / Destin Daniel Cretton

★★

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Benevolência como valor fundamental

Recentemente vi um influenciador exaltando A Odisseia (2026), e dizendo que ficou embasbacado com Agamemnon. Achei estranho, pois o personagem não faz nada de memorável na história. Fiquei com a impressão que a armadura e sua presença visualmente imponente foram suficientes para encantá-lo. Esse influenciador em particular é fascinado por tudo que projeta masculinidade, força física e poder — ele provavelmente tem o arquétipo do Guerreiro como seu mais essencial. Pessoas assim me intrigam porque o Guerreiro é um dos arquétipos menos importantes pra mim enquanto espectador. Se eu pegar a lista dos filmes mais populares de todos os tempos, terei visto a maioria, mas os maiores buracos no meu repertório (consequência da minha preguiça de vê-los) serão filmes como os do Bruce Lee, Jackie Chan ou mesmo a série James Bond — ou seja, filmes de tiro, luta, cheios de testosterona, que não são famosos por serem bons como filmes, mas que atendem às necessidades de seu público-alvo.

Ter consciência desse tipo de espectador é útil pra mim, pois me ajuda a refletir sobre os meus vieses e a evitar ser totalmente cegado por eles.

No meu caso pessoal, o valor da Benevolência, representado pelo arquétipo do Idealista/Inocente, é o mais fundamental emocionalmente, pelo menos como espectador (o que eu projeto como cidadão ou criador não é necessariamente a mesma coisa). Se você quiser realmente me entender, e entender minha relação com a cultura atual, esta é a qualidade-chave. Posso gostar de uma variedade de coisas, mas aquelas pelas quais sou mais atraído terão sempre um toque de inocência. Admiro Kubrick imensamente, mas meus heróis do entretenimento são figuras como Walt Disney, Steven Spielberg e Michael Jackson, por terem celebrado a "criança interior" de forma épica na nossa cultura.

Ter esse tipo de qualidade como um valor essencial pode trazer vários desafios hoje. Não só por este ser um valor tradicionalmente associado às crianças e, às vezes, às mulheres, sendo frequentemente desvalorizado quando suas características se manifestam em homens ou adultos, mas também por ser um valor renegado pela cultura atual (o que não era o caso nos anos 80 ou 90, por exemplo). Como discuti no texto sobre Arquétipos, toda era escolhe alguns arquétipos que irá respeitar, e coloca outros de "castigo". Atualmente, o Idealista/Inocente está de castigo. Isso cria a impressão de que esses valores só são apropriados para crianças, mulheres tolas, tempos remotos ou para a fantasia. Nunca para homens, adultos, capazes, hoje. Se minha "incompatibilidade" com o entretenimento atual parece estranha, mais radical até do que seria razoável, parte disso tem a ver com o fato de eu ter a Benevolência como um valor indispensável.

Sim, o Idealismo (teoria estética) depende de uma combinação dos quatro Pilares para ser completo e, quando algo projeta Benevolência isoladamente, mas não Autoestima, Objetividade etc., eu não me sinto realmente inspirado, ainda que possa haver uma leve identificação. Ainda assim, é um fato que existe uma preferência pessoal, um "viés" emocional na direção da Benevolência, que pode ser útil que vocês que me acompanham entendam. Quando os quatro Pilares estão presentes, posso apreciar cada um deles. A Objetividade é a ponte que me permite compreender e respeitar necessidades diferentes da minha. Mas, quando os outros valores unem forças para enfatizar Benevolência em particular, é quando eu me sinto mais inspirado. Por outro lado, sua ausência é praticamente garantia de distanciamento emocional.

Da mesma forma que o influenciador que citei anteriormente pode cair no erro de aclamar algo simplesmente por projetar o Guerreiro em um nível superficial, eu, se não tomasse cuidado, poderia cometer o erro de aclamar algo que projete o Idealista/Inocente de forma superficial e desequilibrada. Da mesma forma que posso menosprezar "filmes de lutinha" quando são pobres artisticamente e oferecem apenas testosterona de forma irracional, tenho que ter consciência de que, para uma pessoa com necessidades diferentes das minhas, as coisas que me encantam podem soar infantis, ingênuas e refletir uma "Síndrome de Peter Pan", se não estiverem equilibradas com outras qualidades. (Geralmente, o que se chama de guilty pleasure é algo que satisfaz apenas uma necessidade arquetípica básica, mas de forma pobre, desequilibrada, ignorando outras virtudes indispensáveis — o Chuck Norris de uns vira o meu High School Musical.)

A diferença é que a sociedade não rejeita igualmente todas as necessidades arquetípicas em cada época. No momento, por exemplo, o Guerreiro (assim como o Realista, o Governante ou o Revolucionário) é mais respeitado do que o Idealista/Inocente. O Guerreiro, até em suas versões desequilibradas, tóxicas (pense em líderes da "machosfera"), consegue ter impacto cultural e receber aplausos. Portanto, alguns arquétipos têm mais incentivo para se expressar desavergonhadamente do que outros. Claro, a versão imatura de qualquer arquétipo será sempre um alvo fácil e se sentirá frequentemente rejeitada. E a versão mais evoluída sempre terá caminhos mais abertos e espaço para ser celebrada. Ainda assim, cada época tem suas preferências, que aumentam ou diminuem resistências.

Quando você sente que vive na época errada, a ânsia por uma transformação cultural não é só o desejo de ter coisas melhores para consumir, é também a ânsia de viver em uma sociedade que acolha e celebre, em vez de condenar, aquele valor essencial que você carrega dentro de si. Por isso é importante para esse perfil de pessoa ("kids at heart") ter consciência da origem de seu senso de inadequação. Quando ela não tem consciência, a tendência será reprimir suas necessidades, ou distorcer sua própria identidade para poder expressá-la de maneira socialmente adequada (ou menos condenável): se refugiando na infância, no feminino, no passado ou na fantasia.

Na postagem sobre os 4 Pilares do Idealismo, descrevo Benevolência da seguinte forma:

"A experiência de acreditar que o universo é um lugar receptivo para o ser humano, harmonioso, onde a felicidade é possível e nossos valores podem ser atingidos. De acreditar que os homens podem ser perfeitamente morais, felizes, e que seus interesses não precisam estar em conflito. Que conflitos, a dor e o mal não são o estado natural da vida, e sim coisas a serem combatidas e superadas. É um certo respeito pela inocência da infância, pela visão daquilo que o mundo poderia ser..."

Vendo por esta ótica, não há nenhuma razão pela qual este sentimento deva ser relegado a crianças ou à fantasia. Ele não ignora que a vida tem dificuldades, ou que a vida adulta envolve responsabilidades. Pode não ser uma necessidade fundamental para todas as pessoas, mas é tão natural quanto qualquer outra necessidade arquetípica básica, e deve ser honrada por aqueles que se identificam com ela.

Por isso, convido vocês a refletirem sobre suas necessidades arquetípicas fundamentais. Elas são aceitas pela cultura atual? Você consegue expressá-las livremente? Que estratégias talvez esteja adotando para não ser julgado? E você está satisfazendo suas necessidades de forma equilibrada, evitando a sombra do arquétipo? De que formas você pode tornar suas necessidades mais maduras e menos incompatíveis com as de pessoas diferentes de você?

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Cultura - Julho 2026

23/7 — Eu Sou o Rocky

Gosto mais da história por trás de Rocky - Um Lutador do que do filme em si. Eis que resolveram fazer um filme sobre a gênese do longa e, pelo trailer, Eu Sou o Rocky promete ser um hit de viés Idealista no fim do ano. Stallone foi explícito na época ao dizer que seu filme era uma resposta ao estado do cinema dos anos 60 e 70, o que pode tornar a mensagem do filme oportuna hoje.


23/7 — O público quer filmes "reais"

Parece que estamos em um momento em que as sequências, reboots e filmes industrializados carregados de CGI estão finalmente dando prejuízo, enquanto filmes que vão na direção oposta têm se destacado justamente por isso. Por um lado, é bom ver que as forças do mercado funcionam. Por outro, é frustrante notar que elas costumam estar sempre pelo menos uma década atrasadas. O que essa matéria da Hollywood Reporter diz sobre o público é o que o espectador mais criterioso já sentia lá no meio dos anos 2010. Mas esse espectador parece não contar muito. É só quando as grandes massas mudam de comportamento — quando o incômodo chega àqueles espectadores que deixam o filme passando na TV enquanto lavam a louça — que o mercado responde, o que pode criar a impressão de que a mediocridade está sempre prevalecendo.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

A Odisseia

História mal contada, diálogos sem inteligência, ação sem lógica, mas tudo apresentado através de imagens imponentes e uma mixagem de som que faz você descobrir que é possível ser estuprado pelos ouvidos. Há 20 anos que acho Nolan um mau cineasta — especialmente um mau roteirista — mas essa é a primeira vez que ele adapta uma história clássica com a qual eu já tinha certa familiaridade, e ver como ele lida com uma trama conhecida só me fez ter uma visão mais clara de suas inaptidões: a maneira como a não-linearidade e a fragmentação da história são usadas para camuflar falta de domínio narrativo e temático, como o realismo e o tom sombrio viram muletas para fazer um roteiro tolo soar sério, etc. A ruindade dos diálogos (cheios de exposições forçadas e toques anacrônicos) pra mim pareceu ainda mais gritante, pois acabei de rever Troia (2004), que é cheio de falas brilhantes e fica parecendo Shakespeare em comparação.

Pra ilustrar algumas dessas minhas críticas, pegue os set pieces de ação, por exemplo. Em outras versões de A Odisseia que assisti, não tive problema nenhum em aceitar a lógica das táticas de Odisseu para superar os monstros e obstáculos da jornada. Mas agora, detalhes estranhos tornaram muitas das cenas forçadas, ilógicas ou simplesmente confusas: a fuga da gruta do ciclope não parece mais baseada em uma série de sacadas brilhantes de Odisseu; o Cavalo de Troia não tem mais rodas, ficando inconveniente de transportar e perigoso para quem está dentro; parece haver outros caminhos para o navio evitar o redemoinho, em vez de uma geografia que os força a escolher entre o redemoinho de um lado e a Cila do outro... Outros detalhes também tiram credibilidade: Atena (que não tem muito mais utilidade na história) não transforma Odisseu em mendigo quando ele chega em Ítaca, o que torna forçado Matt Damon dialogar por horas com as pessoas com o rosto coberto para não ser reconhecido. Depois, quando ele tem que lutar contra os pretendentes de Penelope, há tantos adversários que a luta se torna inacreditável, até porque Matt Damon não está com um grande porte físico e a má coreografia o torna meio ridículo em alguns momentos. Em Ulysses (1954) e na minissérie A Odisseia de 1997, essa sequência é dirigida de forma que não parece absurdo o herói derrotar os homens sozinho. Quanto a Helena de Troia — meu problema com o casting da Lupita Nyong'o não é o fato dela ser negra, mas o fato de não ter o tipo de beleza óbvia e lendária que "lança mil navios", criando mais um toque de artificialidade.

Embora A Odisseia tenha um formato episódico, que normalmente torna filmes arrastados, algumas adaptações anteriores conseguiram contornar isso criando um enorme suspense em relação a Penelope e os pretendentes. Víamos primeiro como era a vida do casal antes da partida de Odisseu, como eles tinham um lar ideal em Ítaca, e como tudo vai sendo degradado com o tempo pelos pretendentes (como quando Scar sobe ao poder em O Rei Leão). Isso criava um gancho que tornava a jornada de Odisseu super envolvente. Aqui, não vemos como as coisas eram antes para poder comparar, portanto não há mais a mesma sede de vingança nem senso de urgência pelo retorno de Odisseu (a narrativa não-linear também ajuda a diluir a tensão, minando este gancho da história).

Outro atrativo de uma obra como A Odisseia é o potencial de escapismo — aquilo que torna os clássicos do Ray Harryhausen encantadores de ver. Mas o estilo de Nolan é incompatível com esse tipo de escapismo — sua seriedade não combina com os ingredientes mais fantasiosos da história, que exigiriam uma abordagem mais leve. Na tentativa de tornar bruxas e gigantes coisas sérias, adultas, ele acaba eliminando muito da magia. O resultado é aquele meio do caminho entre o naturalista e o fantasioso que tornava certas cenas da trilogia Batman esquisitas — quando estávamos numa sala realista, cheia de homens comuns, e de repente um adulto fantasiado de morcego entrava pela porta.

"Ah, se é tão ruim assim, como Christopher Nolan é o diretor mais bem-sucedido do século 21?". Acho que ele é muito bom em criar uma aura de poder, autoimportância, autoridade, o que parece ser irresistível para muitas pessoas. Meu problema não é com esses valores em si, mas com o fato dele projetar apenas esses valores (ter pouca versatilidade), e projetá-los em um nível sensorial, driblando o cérebro do espectador. Sua autoridade vem muito mais de gimmicks como rodar o filme em IMAX 70mm e escalar 10 dos atores mais bem pagos de Hollywood do que de suas reais competências. Nolan não saberia fazer o coração do espectador disparar no clímax da história com base em seu controle narrativo, mas junto com sua equipe de som, ele consegue desenvolver um batuque atordoante que, por meios fisiológicos, não duvido que acabe provocando uma taquicardia em alguém. É uma forma frágil de poder — e em alguns aspectos, seus filmes recentes têm falhado até em demonstrar o tipo de potência testosterônica superficial que seus fãs respeitam. Assim como a explosão de Oppenheimer foi decepcionante, o herói de A Odisseia nunca parece um guerreiro tão poderoso quanto deveria, e as cenas grandiosas do filme são tímidas se comparadas às multidões de Troia (2004). Admiro grandes feitos, mas Nolan é muito mais sobre uma pretensão de grandiosidade do que sobre grandiosidade de fato (o que por algum motivo me fez sair da sessão pensando em Trump e no dom de ambos de forjar esse tipo de autoestima sem lastro que encanta multidões).

The Odyssey / 2026 / Christopher Nolan

★½

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Julho 2026 - outros filmes vistos

O Convite (The Invite / 2026 / Olivia Wilde) ★★½

Uma "comédia inteligente" que não achei nem engraçada nem particularmente inteligente. O humor é do tipo Naturalista, baseado nos constrangimentos cotidianos das interações sociais (das classes mais altas, pelo menos). E a situação central me pareceu boba demais. Se os personagens do Seth Rogen e da Olivia Wilde fossem mais antiquados ou extremamente religiosos, o contraste com os vizinhos talvez rendesse boas risadas. Mas eles não parecem em nada o tipo de pessoa que ficaria chocada ao ser convidada para uma orgia. Parece o tipo de humor ultrapassado que você veria em uma comédia da Globo Filmes estrelada pela Ingrid Guimarães, e não na comédia sofisticada e cosmopolita que Olivia Wilde aparentemente pensa estar fazendo.


Moana (2026 / Thomas Kail) ★★

Um remake ainda menos necessário que o de costume. Primeiro porque o original não é antigo o bastante pra justificar uma nova versão; segundo porque a história foi mantida praticamente idêntica. O que funcionava na animação continua funcionando aqui, e o que não funcionava continua não funcionando. O frustrante é que há tanto CGI e fundo verde que em muitos momentos você nem sente os benefícios de estar vendo um live-action. Se houvesse um esforço para recontar a história em cenários reais, poderia haver um ganho em termos de fotografia e imersão visual. Mas do jeito como foi feito, é quase como rever o mesmo filme, apenas com gráficos mais realistas.

Se houve alguma melhora, diria que Catherine Laga'aia torna a heroína um pouco mais simpática e atraente do que na animação. Tive essa mesma impressão em Lilo & Stitch e Como Treinar o Seu Dragão — talvez porque live-actions evitam certas tendências da animação moderna que reforçam o fenômeno do "herói envergonhado".