segunda-feira, 16 de março de 2026

Cultura - Março 2026

16/3 — Prêmios da Academia: Vencedores

Uma Batalha Após a Outra foi o grande vencedor e, como eu disse, reflete um posicionamento mais moderado da Academia — a demonstração de algum respeito ainda por técnica cinematográfica, merecimento: é como se estivéssemos nos anos 70, quando filmes mais cínicos e de teor político ganhavam o prêmio, mas pelo menos eram bem dirigidos, tinham grandes atuações etc.

Michael B. Jordan levar Melhor Ator foi o prêmio mais forçado da noite, assim como o de Melhor Roteiro Original para Pecadores. A performance de Timothée Chalamet e o roteiro de Marty Supreme pra mim eram obviamente superiores, e o fato de Marty Supreme ter saído de mãos abanando é um mau sinal. Mas Pecadores ter perdido 12 dos 16 prêmios ajuda a diminuir um pouco a sensação de “fim dos tempos” que tive quando saíram as indicações.

Fora isso, não acho que os resultados foram exageradamente injustos, levando em conta os filmes disponíveis. Posso não gostar da maioria dos filmes como um todo, mas não discordo que tenham mérito em categorias específicas: gosto de Amy Madigan em A Hora do Mal (uma versão mais camp da personagem de Ruth Gordon em O Bebê de Rosemary, que também venceu Atriz Coadjuvante), achei Sean Penn ótimo em Uma Batalha, a performance de Jessie Buckley não me toca, mas não havia outras muito mais premiáveis que a dela; respeito a direção de Paul Thomas Anderson, a fotografia de Pecadores, gosto dos cenários e figurinos de Frankenstein, da canção de Guerreiras do K-Pop...

Em 2025, quase não tivemos bons filmes alinhados com o Idealismo, então, pela ausência de constraste, minha sensação de injustiça nessa cerimônia foi menor que de costume.

12/3 — Hamnet: arte paliativa

A cena que mais me incomodou em Hamnet foi a cena final da apresentação da peça. Pra minha surpresa, é a cena que mais vem emocionando as pessoas. Fãs do filme parecem achar particularmente bonita a maneira como o filme ilustra o poder da arte; a maneira como a arte se torna crucial para a transformação dos personagens no final. Até aí não vejo nenhum problema. O que me impede de me conectar com a cena (além dos problemas de caracterização) é que ela só funciona sob a perspectiva da “arte paliativa”: da arte como remédio para as dores da vida, não como afirmação de valores positivos. De certa forma, é um final metalinguístico. O espectador se comove com Hamnet por ser uma história sobre luto e, no final, a protagonista de Hamnet vai a uma peça que a comove igualmente por falar sobre luto. 

11/3 — Prêmios da Academia: Expectativas

Pra usar a cerimônia deste domingo como termômetro cultural, os três filmes mais importantes pra ficar de olho são Uma Batalha Após a Outra, Pecadores e Marty Supreme.

Marty Supreme é o concorrente “opressor” da temporada. Ainda que tenha toques desconstruídos, no contexto atual, ele acaba simbolizando a busca por excelência, padrões elevados e merecimento à moda antiga — por isso mesmo vem perdendo força na disputa. A única categoria na qual ainda tem chances é a de Melhor Ator. Caso Timothée Chalamet vença, será um aceno bem-vindo (e hipócrita) da Academia à meritocracia.

Uma Batalha Após a Outra é o filme militante “respeitável”. Se vencer Melhor Filme e Melhor Direção, será a Academia optando por uma alternativa menos radical. Sim, ela ainda funciona como plataforma política, continua sendo contra os valores do antigo Oscar, mas pelo menos acredita que é importante equilibrar essa agenda com um pouco de mérito, reconhecendo artistas talentosos, de bom currículo etc.

Pecadores já é o chute no balde. É o filme que jamais conseguiria ser indicado pelos critérios antigos e só tem força na disputa por questões ideológicas que nada têm a ver com a qualidade real do filme. Prêmios técnicos ou ligados à produção podem até ser merecidos, mas, se ganhar Melhor Filme, Direção, Roteiro Original e qualquer prêmio de atuação, será uma vitória da “justiça social”, a mensagem clara de que mérito e excelência não são mais os critérios, que o antigo Oscar continua morto etc. Com base nos resultados da última década, seria minha aposta para Melhor Filme.

11/3 — Todo Mundo em Pânico 6 — trailer

Os Wayans estavam afastados da franquia Todo Mundo em Pânico desde o segundo filme e agora estão voltando determinados a ressuscitar o besteirol politicamente incorreto dos anos 90/2000. Marlon Wayans disse à Deadline que seu objetivo é "cancelar a cultura do cancelamento" e que o filme é "sobre trazer a comédia de volta". Uma missão mais do que nobre e, pelo trailer, acho que eles têm tudo pra conseguir.

sábado, 14 de março de 2026

O Idealismo é naturalmente comercial

Para quem busca criar Idealismo em uma cultura Anti-Idealista, é importante entender que seu senso de impotência não vem tanto do fato de você oferecer algo que as pessoas não querem, mas algo que as pessoas não podem dizer que querem. A ética dominante da cultura define o que é apropriado dizer em público, o que as pessoas aprovam quando os outros estão olhando, mas não define o que as pessoas de fato desejam.

Imagine o sexo em uma sociedade ultrarreligiosa: torna-se raro ver expressões públicas de sexualidade, discursos favoráveis ao sexo, mas isso não quer dizer que as pessoas não se interessem por ele entre quatro paredes.

Essa perspectiva ajuda a explicar por que filmes Idealistas, quando conseguem ser feitos, continuam sendo sucessos de bilheteria, mesmo nos tempos atuais (pegue o caso de Top Gun: Maverick, entre outros sucessos recentes). O problema do Idealismo hoje não é nem tanto o fato do público ignorá-lo quando ele aparece, mas o fato de ser difícil produzi-lo com todas as interferências e barreiras que existem na indústria.

Um filme depende de dezenas de pessoas para ser produzido, e incontáveis decisões criativas são tomadas no processo. Muitas dessas decisões são tomadas em público, em diálogo com outros profissionais. Toda vez que isso ocorre, a ética dominante interfere no processo decisório e tende a afastar a produção do Idealismo.

Ganhar prêmios se torna ainda mais inviável. Embora o Idealismo continue tendo força comercial mesmo em eras Anti-Idealistas, ele não tem força em premiações, em áreas que dependem de apoio público, de aprovação formal. Muito do senso de alienação e de impotência do Idealista vem daí — nem tanto do fato de ninguém pessoalmente valorizar seu produto ou de ninguém querer consumi-lo, mas de ninguém aprová-lo publicamente.

Por isso, criadores com um olhar Idealista têm muito mais facilidade de serem bem-sucedidos em áreas que não exigem tantas etapas de sanção moral explícita entre a criação do produto e o consumidor final. Quando um produto que reflete valores Idealistas é colocado diante dos consumidores, ele é naturalmente comercial, atraente. O problema é que, na indústria do entretenimento hoje, dominada por uma ética contrária ao Idealismo, apenas criadores realmente confiantes e comprometidos com a causa (ainda que em um nível subconsciente) conseguem produzir algo Idealista sem que sua visão seja corrompida no processo.

Pra ajudar a entender a diferença entre essas duas áreas, pedi pra IA me ajudar a criar as listas abaixo:

Áreas determinadas por preferência declarada (o julgamento coletivo, público e moral pesa mais):

Eleições e votações em geral / Promoções corporativas em grandes empresas / Prêmios literários, acadêmicos e culturais / Indicações a cargos públicos e diplomáticos / Aprovação em comitês e bancas universitárias / Escolha de porta-vozes e representantes sindicais / Financiamento público para arte e cultura / Viralização em redes sociais quando o tema é moral/político / Indicações ao Oscar e premiações de "impacto social" / Escolha de líderes religiosos e comunitários

Áreas determinadas por desejo latente (a escolha é privada, anônima, ou o custo de ser honesto é baixo):

Consumo de entretenimento em casa (o que as pessoas realmente assistem) / Buscas no Google e histórico de navegação privado / Aplicativos de namoro e atração sexual / Músicas mais tocadas no modo privado/offline / Escolha de mentores e modelos pessoais (não declarados) / Mercado de luxo e símbolos de status / Apostas e mercados de previsão / Quem as pessoas realmente ouvem em decisões importantes de vida / Empreendedorismo — o mercado pune a performance e premia o resultado / Esportes de alto rendimento — o desempenho é objetivo e inegável / Quem as pessoas seguem silenciosamente sem comentar ou curtir

Não estou negando a existência de consumidores que genuinamente não se conectam com os valores do Idealismo. Só estou negando que eles sejam uma vasta maioria, como a cultura faz parecer em certos períodos. É importante lembrar também de um fenômeno: o Idealismo continua sendo interessante até para aqueles que o rejeitam formalmente. Como o Idealismo reflete valores racionais e necessários para a felicidade, ninguém se livra totalmente de seus encantos. Já o contrário não é verdadeiro: uma pessoa de valores Idealistas não precisa ter uma atração reprimida pelo Não Idealismo. É por isso que o Idealismo não precisa que a população inteira seja Idealista para que ele permaneça comercial. Ainda que boa parte da população se volte contra o Idealismo intelectualmente, ele sempre será foco de interesse; a população ainda irá consumi-lo, nem que seja para atacá-lo depois.

Por exemplo: se o Oscar voltasse a ser como já foi um dia — celebrasse mérito, exaltasse os melhores sem culpa — ele provavelmente voltaria a ter uma grande audiência. Ainda que o público criticasse os resultados, as pessoas estariam assistindo. Agora, quando a Academia começa a se ajustar às preferências declaradas da sociedade, a refletir o discurso ético oficial, o evento "misteriosamente" vai perdendo o interesse.

Outro dia li uma frase que resume bem esse conflito interno gerado pela moralidade altruísta:

"Apoio público ao cordeiro, desejo privado pelo leão"

Com isso, vêm boas e más notícias. A má notícia é que se torna pouco produtivo, para quem produz Idealismo, buscar apoio público, prestígio social e reconhecimento explícito em uma era como a atual. A boa notícia é que, se essas não forem suas necessidades primárias, a pessoa terá o mercado ao seu favor e poderá ter muito sucesso prático em áreas onde as decisões são menos afetadas pelo julgamento social.

segunda-feira, 2 de março de 2026

Março 2026 - outros filmes vistos

Cara de Um, Focinho de Outro (Hoppers / 2026 / Daniel Chong) 

Treinamento ideológico de esquerda para baixinhos. A "heroína" aqui é uma ativista ambiental revoltada que, pra proteger uma área verde perto de sua casa, organiza uma espécie de revolução dos bichos (com o auxílio de uma tecnologia inovadora à la Avatar) e bola uma estratégia para impedir a construção de uma rodovia que atravessará a floresta. Apesar da protagonista chegar a dar um passo na direção de assassinar o político responsável pela obra, o filme no fim opta por uma posição mais moderada — não quer ir ao extremo de promover terrorismo, mas também não quer dar liberdade total ao progresso humano. O ideal é o meio-termo, onde cada lado cede um pouco, permitindo que homem e natureza vivam em equilíbrio — uma mensagem bonita, mas desonesta no fim das contas. A "solução" que o filme apresenta não explica de fato como é possível ter progresso sem impactar a natureza. Para as crianças, fica a mensagem mais importante: quando você vir uma jovem raivosa, desarrumada, protestando contra homens engravatados sob alguma bandeira "progressista", ela provavelmente está no time certo.


Pânico 7 (Scream 7 / 2026 / Kevin Williamson) 

★★★

Corrigiu os principais problemas que me fizeram considerar Pânico VI o pior da franquia — a má direção, a falta de plausibilidade do roteiro, o casting naturalista, a ausência de Neve Campbell etc. Agora não há mais uma tentativa de “modernizar” a franquia (corrompê-la), mas de resgatar o clima dos filmes do Wes Craven, apostando no que já deu certo — algo que Kevin Williamson faz bem o bastante (roteirista do original que agora virou diretor). O maior problema aqui é que, no 7º episódio da franquia, apenas acertar o tom não é suficiente. Um mínimo de inovação seria necessário. O filme acaba parecendo algo que já vimos inúmeras vezes, sem novidades ou frescor criativo (o final também não ajuda — achei tão insatisfatório quanto o do filme anterior). Diverte na maior parte do tempo e reflete um recuo positivo da indústria em relação às tendências Anti-Idealistas dos últimos anos, mas em termos de história, não chega a ter nada muito memorável.