Acho que os algoritmos e a obsessão por controle/manipulação das redes sociais estão de fato tornando a internet um lugar desagradável, e o documentário faz um bom trabalho em expor algumas dessas táticas eticamente questionáveis. Mas acho uma tolice o tipo de cenário apocalíptico que esse filme pinta. Pra começar, ele cria a impressão de que empresas e anunciantes são coisas maléficas, cujo grande propósito é fazer mal aos consumidores (em vez de oferecer um produto útil e desejado pelo consumidor, que é a intenção da maioria). Outra ideia boba é essa de que as pessoas ficaram viciadas no celular, como se isso fosse algo doentio. É óbvio que um adolescente não consegue ficar longe do celular por 1 semana (como eles dramatizam no documentário). Não é só o vício em likes e o aspecto "caça-níquel" das redes sociais que tornam o celular algo necessário. As pessoas precisam dele pra trabalhar, pedir comida, ler notícias, receber mensagens, combinar algo com os amigos. Seria autodestrutivo — e não saudável — querer ficar sem celular por uma semana nos dias de hoje. Claro que o celular abre portas para "viciar" usuários de maneira não saudável, mas qualquer coisa que dá prazer faz isso: jogos, doces, drogas, sexo... É responsabilidade de cada um não se deixar levar por esse tipo de excesso, e não da indústria de evitar produzir coisas "excessivamente interessantes". Mas o principal problema do documentário acima de tudo é que ele rejeita totalmente a ideia de que o ser humano tem livre arbítrio, autocontrole. É como se uma persuasão bem feita pudesse ser capaz de fazer a gente agir completamente contra nossos interesses e valores, fazer qualquer coisa que o algoritmo queira, como se não tivéssemos filtro algum para estímulos externos (lembre que nem hipnotizados fazemos coisas contra nossa vontade). É aquela visão da humanidade como um gado não pensante que sempre é usada pra justificar mais controles do governo (sim, no fim alguns entrevistados dizem que a solução pra isso tudo deve ser a intervenção estatal). Bem, se a humanidade de fato é tão indefesa e manipulável assim, praticamente tudo pode ser uma ameaça à civilização, não só as redes sociais: qualquer tipo de propaganda, todas as religiões, a TV, intelectuais, políticos, o sistema de educação, videogames, a indústria do cinema... Sim, muitas pessoas são manipuláveis, não pensam, mas ser burro sempre trouxe e sempre trará consequências negativas, não é uma novidade da era digital. O documentário é até meio hipócrita, pois ele em si é uma ferramenta de manipulação, repleto de noções equivocadas que promovem políticas destrutivas de esquerda. A Netflix e sua seção de documentários é uma das máquinas mais poderosas de propaganda anti-capitalista da atualidade — isso sim é algo que deveria te assustar.
The Social Dilemma / 2020 / Jeff Orlowski
NOTA: 6.0




















