sexta-feira, 28 de julho de 2017

Dunkirk

NOTAS DA SESSÃO:

- Produção excelente. A imersão audio-visual que o filme proporciona é incrível. Parece que estamos num simulador da Disney (especialmente em IMAX).

- A trilha sonora é uma das piores que já ouvi. Em vez de uma composição musical com melodia, estrutura, diversos climas que acompanham a narrativa e se integram à imagem, temos apenas um zumbido constante dando um clima de gravidade, e eventualmente barulhos pulsantes irritantes que soam como um alarme pra deixar a plateia tensa.

- A ideia do filme se passar em 3 tempos (1 semana, 1 dia, 1 hora) é um mecanismo tolo. Não cria nenhum tipo de ordem na cabeça do espectador, não acrescenta nada à história, não vemos nenhuma conexão especial entre as 3 histórias. É apenas um daqueles truques de Nolan pra narrativa parecer mais elaborada do que é (o "sonho dentro do sonho", etc).

- Um pouco mal explicada a ideia do Mark Rylance partir de barco sozinho pra Dunkirk, arriscar a vida de seus filhos junto. Falta uma motivação melhor, uma explicação mais convincente.

- O filme não tem nenhum desenvolvimento de personagem, não tem protagonista, não estabelece a motivação de ninguém, não cria empatia por ninguém. Fica apenas mostrando homens em situações de perigo, esperando o resgate sem ter muito o que fazer, intercalando eventuais ataques aéreos com outras situações menores de tensão do tipo: soldado quase é esmagado, soldado quase morre afogado, soldado quase é baleado, soldado quase pega fogo, soldado quase explode, etc. Literalmente não há nenhuma história ou conteúdo no filme. É apenas um simulador de parque de diversões como disse acima, pra gente sentir como é estar no meio da guerra...

- O garoto tropeça dentro do barco e fica cego? É um incidente totalmente desnecessário pra história. E de repente ele começa a falar em tom poético, como se tivesse vivendo um drama grandioso, sendo que ele só teve um acidente idiota! O cineasta busca qualquer oportunidade pra mostrar tragédia, personagens "contemplativos" diante da morte, glamourizando o sofrimento humano (não em contraste com valores positivos na história, mas como um fim em si mesmo). Há uma série de acidentes banais (portas que emperram, trens de pouso que enguiçam, etc) só pra mostrar atores com expressões de desespero. (Minha postagem Emoções Irracionais resume bem o filme.)

- Não temos a menor noção de onde estão os inimigos, de quanto tempo falta pra eles chegarem, em quantos eles estão, por onde chegarão, etc... Imagina assistir Titanic sem ter uma ideia de quanto tempo demora pro navio afundar, quanto tempo falta pro resgate chegar, o quão letal é a temperatura da água, etc.

- Todo esse "respeito" que Nolan tenta demonstrar pelo cinema, pela tradição, no fim parece uma grande farsa. Ele grava o filme em 70mm, se apresenta como um defensor da verdadeira experiência cinematográfica, se coloca contra Netflix, ver filme em telas pequenas, etc, mas ao mesmo tempo ele joga no lixo aquilo que é o principal de tudo: a arte de contar histórias. Ele só quer que as pessoas vejam o filme dele em IMAX porque ele sabe que ele não tem nada a oferecer além de imagens e sons impactantes. Se você vê um filme do Kubrick em casa numa VHS velha, ainda é um ótimo filme. O que sobraria de Dunkirk? As pessoas acham que Nolan é o diretor que trouxe de volta a inteligência pros blockbusters, que ele representa uma união entre o cinema comercial e o cinema de arte, entre "corpo e mente", mas no fundo ele é apenas "corpo". Apenas experiência sensorial, sem conteúdo. Não é muito diferente de um Transformers, uma experiência audio-visual desmiolada - a diferença é que Transformers não finge ser algo mais sofisticado do que é.

- Toda essa sub-trama dos soldados escondidos no casco do barco é muito mal desenvolvida: os inimigos praticando tiro ao alvo justo onde eles estão, a ideia deles esperarem a maré subir pra poderem fugir, depois tentando tampar os buracos de bala com as mão pra água não entrar - é tudo muito forçado e mal conduzido. O diretor inventou que não pode mostrar nenhum inimigo no filme, mas isso acaba tornando cenas como essa confusas e irreais.

- SPOILER: Quando chegam os barcos no fim pra resgatar os soldados, eles surgem como um milagre. Não é um "pay-off" pra algo que já estava sendo desenvolvido na trama, é apenas uma solução mágica que cai no colo deles. Não é um resultado satisfatório pra decisões tomadas pelos protagonistas ao longo do filme. E esses barquinhos vão conseguir resgatar 400.000 homens?!

- Mal dirigida a sequência do avião sem combustível no fim que consegue abater o outro avião. E por que todo mundo começa a aplaudir, a musica fica épica? O filme quer dar a sensação de que esse foi o "ataque final", o mais perigoso do filme, e que agora todos estão a salvo e o filme pode acabar. Mas na realidade foi apenas mais 1 ataque como dezenas de outros que ocorreram. Não há nenhuma dinâmica, nenhuma construção ao longo do filme... Ele começa mostrando soldados sendo atacados, e 1 hora e meia depois ainda está mostrando soldados sendo atacados nas mesmas condições. Não houve uma "vitória" especial agora, um senso real de desfecho.

- Péssima toda essa música triunfante no fim, o discurso emotivo, tentando criar uma emoção artificial no espectador, sendo que o filme não se importou em fazer a gente se envolver com ninguém desde o início.

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CONCLUSÃO: O nada mais grandioso do ano.

Dunkirk / Reino Unido, Países Baixos, França, EUA / 2017 / Christopher Nolan

FILMES PARECIDOS: O Regresso (2015) / Interestelar (2014) / Gravidade (2013) / A Árvore da Vida (2011)

NOTA: 3.5

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Emoções Irracionais

Na postagem Os 4 Pilares do Entretenimento, eu disse que Objetividade é uma das qualidades fundamentais dos bons filmes, e que em geral os filmes comerciais respeitam esse princípio, que é mais desafiado por filmes alternativos, abstratos, pós-modernistas, etc.

Mas existem formas em que até os filmes comerciais podem trair esse princípio - não por um desejo consciente de tornar a experiência subjetiva, e sim por uma falta de habilidade dos próprios criadores.

Vou especificar aqui uma maneira particular em que os filmes podem trair esse princípio da Objetividade:

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Os filmes podem tentar provocar emoções / reações / impressões de forma racional ou irracional no espectador.

Uma "emoção racional" é quando o filme apresenta fatos, eventos, e espera que o espectador reaja / se emocione com base nesses fatos, após assimilar aquilo que viu, e julgar de acordo com seus valores.

Uma "emoção irracional" é quando o filme tenta provocar emoções de maneira direta, "analógica", apelando para os instintos primários do espectador - por exemplo, usando música, fazendo o atores emularem certas emoções na tela e esperando que a mesma emoção surja no espectador por "osmose", driblando a mente e apelando diretamente para o lado mais emotivo da plateia.

Não estou sugerindo aqui que esses recursos (trilha sonora, interpretação) sejam maus - apenas que eles não devem tentar substituir os fatos e o conteúdo da história. Nos bons filmes, as 2 coisas acontecem em conjunto: a história te conduz a uma certa emoção, e daí o cineasta utiliza todos os "truques" cinematográficos junto com os atores pra tornar aquela emoção mais vívida, intensa, real.

Os bons cineastas pressupõem sempre que o espectador seja racional e não esteja sujeito a manipulações baratas. Infelizmente, a verdade é que a maior parte da plateia está sim sujeita a essas manipulações, e responde prontamente a impressões superficiais, aparências, sensações, reações, como se fossem equivalentes a fatos.

Por causa dessa deficiência, alguns filmes e cineastas conseguem se tornar extremamente populares, apenas por saberem apertar esses "botões" e apelarem para o lado irracional dos espectadores (assim como um político pode chegar à presidência de um país sem ter nada de coerente para dizer, sem explicar claramente seus planos, apenas conseguindo criar certas emoções em seus discursos, sendo um bom show-man, desenvolvendo seu carisma e sua imagem pessoal, passando um "ar" de poder e respeitabilidade que não estão fundados na realidade).

Pra ilustrar o que seriam emoções racionais, vamos pegar como exemplo o filme E.T. - O Extraterrestre (1982). Certamente a performance de Henry Thomas, os efeitos especiais, a música de John Williams contribuem muito para o impacto emocional do filme. Mas se o espectador se emociona no final, na sequência de despedida, por exemplo, não é apenas porque os personagens estão chorando em sua frente e a orquestra está tocando uma música bonita - e sim porque os eventos da história o prepararam para aquele estado (talvez para o espectador puramente emocional, bastassem as lágrimas, as reações e a música fora de contexto, mas um bom filme sempre tentará atingir o espectador consciente).

Por que a plateia está correta em ficar triste com o fato de E.T. ir embora? Porque o filme estabeleceu, cena após cena, ao longo do filme inteiro, que E.T. é um valor importante para o protagonista. Nós primeiro vimos como era a vida de Elliott antes da chegada de E.T. (uma criança que ninguém levava a sério, levando uma vida comum, tentando fazer parte da turma sem sucesso, sendo perturbado pelos colegas da escola, pelo irmão mais velho, etc), e depois vimos como E.T. transformou tudo isso para melhor. Como ele fez de Elliott um garoto mais forte, responsável, respeitado, tornou sua vida mais excitante, grandiosa, etc. E tão importante (ou mais) que E.T. ser um valor para Elliott, é o fato de E.T. ser um valor pra plateia - pelo personagem ter tornado a experiência do espectador mais agradável. Ao longo do filme, E.T. foi o causador de uma série de emoções prazerosas na plateia. O espectador riu com seu jeito atrapalhado, se encantou com seus poderes mágicos, etc. Então quando E.T. vai embora, a plateia não se comove apenas por consideração a Elliott, mas também por interesse próprio, porque o espectador também sentirá falta do personagem e das emoções positivas associadas a ele:

https://www.youtube.com/watch?v=gTVoFCP1BLg

Ou seja, o espectador tem razões palpáveis pra se emocionar no final. De maneira simplificada, podemos colocar dessa forma: o espectador fica feliz quando um personagem que foi estabelecido como uma boa pessoa conquista algo que foi estabelecido como desejável e de primeira importância pra ele (especialmente quando isso também é essencial pra felicidade / prazer do espectador na história). E o espectador fica triste quando um personagem que foi estabelecido como uma boa pessoa perde algo que foi estabelecido como desejável e de primeira importância pra ele (especialmente quando isso também era essencial pra felicidade / prazer do espectador na história).

Não adianta mostrar uma mãe perdendo um filho, filmar uma cena trágica de guerra, e achar que isso automaticamente comoverá o espectador por serem coisas "intrinsecamente" tristes. Isso não irá convencer o espectador consciente, que tem controle sobre suas emoções. Mas se a abordagem do cineasta for correta, ele poderá comover o espectador até com a "morte" de objetos inanimados, como por exemplo a bola de vôlei do filme Náufrago (2000).

https://www.youtube.com/watch?v=LHtgKIFoQfE

Estou focando aqui na emoção de tristeza, mas isso vale pra todas as emoções e reações que um filme pode causar: um senso de vitória, a surpresa de uma reviravolta na trama, um sentimento romântico, etc. Há sempre a maneira racional de provocar essas emoções, e a maneira falsa, desonesta, que apela pra impressões, aparências, clichês, etc.

Imagine por exemplo um filme de esporte onde os heróis precisam vencer a disputa final. Pro espectador ficar feliz com a vitória, algumas coisas teriam que ser estabelecidas antes. Primeiro, os protagonistas têm que ser pessoas boas pelas quais vale a pena torcer. Depois temos que ter uma noção da importância da vitória pra eles. O que aquilo significará, que mudança irá trazer... E temos que saber do lado negativo também. O que de ruim pode acontecer caso eles não conquistem esse objetivo, e também por que os adversários não merecem a vitória. O espectador tem que ter também um "gostinho" das emoções negativas de desilusão, derrota, vergonha ao longo da história, pra que daí sim, quando ocorrer a vitória, ele tenha uma base pra ficar feliz. Essa seria a forma de criar uma emoção racional.

Ainda assim, através do poder do cinema, é possível provocar arrepios e reações superficiais no espectador simplesmente através da técnica, da manipulação, do uso da música, apelando pro subconsciente, etc. E muitas vezes, mesmo o espectador racional pode se ver "caindo" nessa manipulação - se arrepiando contra sua vontade, com um misto de prazer e ressentimento... mas serão sempre emoções descartáveis se sua mente não estiver igualmente comprometida com a história.

Alguns dos mestres das emoções irracionais atualmente são cineastas como Christopher Nolan e M. Night Shyamalan, provavelmente por serem ótimos diretores mas não tão brilhantes como roteiristas.

Peguem por exemplo a cena do filme Interestelar (2014) onde o personagem do Matthew McConaughey, que está há anos numa missão espacial, abre mensagens de vídeo de seus filhos na Terra e começa a chorar:

https://www.youtube.com/watch?v=MoLkabPK3YU

Se nos emocionamos com essa cena, não podemos dizer que é pelo apego que tínhamos em relação aos personagens dos filhos, pela importância que o protagonista atribui à paternidade, etc. A emoção vem fora de contexto, simplesmente por causa da performance do ator, da música, da edição, e por causa da vaga noção de que é triste estar separado de seus filhos. Nada que tenha de fato sido estabelecido como um valor dentro do contexto da história. Se Interestelar fosse um livro e lêssemos essa cena no papel, ela dificilmente teria um grande impacto emocional, pois estaríamos apenas lidando com os fatos da história, sem o poder do cinema de forjar certas sensações.

Em muitos de seus filmes, Nolan usa métodos parecidos pra provocar a impressão de profundidade e inteligência. Em vez de apresentar uma série de fatos e eventos palpáveis, e esperar que a plateia enxergue sozinha a inteligência naquelas associações, e com isso ficar inspirada, Nolan apela para o irracional: confunde o espectador com tramas obscuras, impedindo que ele tenha uma medida exata daquilo que está sendo afirmado, toca em temas técnicos e confusos como viagem no tempo, física quântica, o funcionamento do cérebro, etc, deixando o espectador "desarmado", sem o poder de julgar os fatos com clareza, e em cima disso, usa sua habilidade de causar emoções pra criar a impressão de um acontecimento profundo, arrebatador, com atores fazendo expressões de espanto, uma música épica tocando, etc.

Shyamalan é outro que apenas ocasionalmente consegue provocar emoções de maneira racional. SPOILER: Em seu último filme Fragmentado (2016), há um momento no final onde aparece o personagem do Bruce Willis, que conecta o filme com o universo de Corpo Fechado (2000):

https://www.youtube.com/watch?v=T4drX5Xzo5o

A revelação só parece impactante por causa da maneira como a cena é dirigida: a música edificante, a câmera se aproximando lentamente, a aparição inesperada de Bruce Willis, etc. Mas é uma reviravolta que não tem qualquer consequência pra história que acabamos de assistir, pros destinos dos personagens que estávamos acompanhando, e a conexão com o filme Corpo Fechado não parece especialmente lógica ou engenhosa a ponto de ficarmos admirados pelo roteiro. O filme simula muito bem a emoção de uma surpresa arrebatadora, mas não consegue suportar essa emoção com fatos. Algo bem diferente do final de O Sexto Sentido (1999), onde de fato tínhamos razões para ficarmos espantados.

Ou seja, estou apenas diferenciando o método que diferentes cineastas usam pra provocar impressões na plateia, e não o conteúdo dessas impressões. Um filme pode utilizar do método certo, e ainda assim desagradar o "espectador racional", caso ele esteja projetando valores que vão contra os seus.

No filme recente Okja (2016), eu critiquei a tentativa do filme de criar empatia pelo animal mostrando que ele morreria pela garotinha (o ideal do auto-sacrifício), dando ênfase em suas fezes em tom de humor, etc. Minha crítica aqui não é em relação ao método (racional ou irracional). O método está certo: o filme tenta criar uma emoção de afeto mostrando a relação entre o animal e a garotinha, apresentando as qualidades do bicho através de ações, cenas, etc. Minha objeção aqui é em relação ao conteúdo, pois não acho que as qualidades demonstradas pela criatura sejam de fato atraentes.

domingo, 23 de julho de 2017

Em Ritmo de Fuga

NOTAS DA SESSÃO:

- Horrível esse começo com o Ansel Elgort dançando no carro enquanto os amigos cometem o assalto (isso nem combina com o personagem, que é tão introvertido que mal abre a boca). O que há de engraçado no fato deles serem criminosos? Não há nenhum contexto que justifique esse humor por enquanto - exceto a noção de que, no cinema, bandidos são automaticamente "cool" por algum motivo.

- A perseguição de carro em seguida é muito bem feita. Ao longo do filme o diretor demonstra bastante estilo, domínio técnico - capricho na edição, nos movimentos de câmera, na integração entre música e imagem, etc. A direção parece o grande destaque do filme.

- Todo o cinismo tira um pouco da minha boa vontade (compromete o pilar da Benevolência). Primeiro o fato do filme glamourizar bandidos. Depois tem o lance da trilha sonora - o uso de músicas antigas alegres em tom sarcástico (como fazem em Guardiões da Galáxia, Perdido em Marte, etc).

- O romance do Baby com a garçonete (Lily James) é bem superficial, não chega a criar um novo interesse dramático. Os personagens não são muito bem desenvolvidos.

- Falta certo conflito na história. Baby está meio que sendo "forçado" a participar dos assaltos, mas ele não parece resistir à situação de nenhuma forma. Não parece ter um grande conflito moral (está até fazendo dinheiro com isso), ou um plano pra se vingar do Kevin Spacey, etc. Ele não tem um objetivo muito forte, apenas obedece o grupo. A história não é motivada por ele. As coisas que acontecem ao longo do filme (toda a trama dos assaltos) não são interessantes pra plateia, pois são apenas um serviço que o protagonista faz de forma apática, não por um desejo pessoal.

- Pelo menos mais pro final do filme ele começa a planejar escapar, o que cria um conflito mais interessante entre ele e os outros do grupo.

- SPOILER: Mas a maneira como ele é "desmascarado" é muito forçada (a história dele estar usando o gravador; depois associarem magicamente que a Debora da fita é a mesma Debora da lanchonete, etc).

- SPOILER: Forçado também o Jon Hamm ser baleado na lanchonete, não morrer, ainda conseguir alcançar o Baby, depois escapar do carro quando cai do prédio... E ele nem era o vilão do filme. Nem havia uma rivalidade pessoal entre ele e o Baby que dê intensidade e sentido pra esse confronto épico no fim (o Jamie Foxx e o Kevin Spacey eram muito mais inimigos do que ele).

- SPOILER: Baby rouba uma série de carros, assassina o Jamie Foxx, destrói um monte de propriedade... E ainda é pra acharmos que ele é um cara inocente que apenas se meteu numa confusão sem querer. Que bom que pelo menos ele vai preso no fim pra dar uma equilibrada na ética do filme.

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CONCLUSÃO: Filme ágil, bem editado, filmado, etc, mas que está mais preocupado em parecer "cool" do que em provocar emoções verdadeiras ou contar uma história interessante.

Baby Driver / Reino Unido, EUA / 2017 / Edgar Wright

FILMES PARECIDOS: Dois Cara Legais (2016) / Scott Pilgrim Contra o Mundo (2010) / Beijos e Tiros (2005) / Pulp Fiction: Tempo de Violência (1994)

NOTA: 6.0

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Carros 3

NOTAS DA SESSÃO:

- As cenas de corrida no início não empolgam. O filme não consegue mostrar as qualidades que tornam McQueen o melhor corredor. Ele apenas faz "cara de força" e ultrapassa os outros carros facilmente. Em termos de ação as cenas também são chatas (até por esse ser um esporte meio monótono e previsível, tirando os acidentes).

- O filme insiste nessa ideia tradicionalista de que as técnicas do passado eram melhores, mas não explica por que, nem qual o problema com as técnicas atuais.

- Toda a história de superação do McQueen não funciona direito. Ele não tem uma motivação pessoal interessante, um desejo de realizar algo admirável que a plateia ainda não tenha visto (o personagem é desinteressante, comum, assim como os coadjuvantes). Quer apenas vencer por vencer, pra derrotar o adversário que é metido e agora passou na frente dele. É uma meta subjetiva, baseada numa rivalidade tola, sem carga emocional. E já vimos ele vencendo diversas vezes no começo do filme. Vê-lo fazendo cara de força mais uma vez no final e vencendo mais um adversário não é uma boa motivação pra plateia.

- O filme quer passar a ideia de que, pra vencer, você precisa praticar, treinar, se exercitar, buscar técnicas diferentes das do adversário. Mas não mostra nada que pareça minimamente plausível ou inteligente a partir disso. O espectador não absorve nenhum conceito ou informação que pareça ter qualquer utilidade na vida real. A única "sacada" é a velha ideia de que as técnicas tradicionais são as melhores. Que treinar com equipamentos high-tech não adianta: é preciso se sujar, correr na areia, na lama, na terra, ser "old school". Além disso não ser nenhuma novidade pro McQueen (ele já corria na terra na parte 2), é uma ideia sem sentido. Se ele quer ser o melhor em uma pista de asfalto, ainda mais num esporte tão tecnológico onde tudo é tão milimétrico e cada detalhe é tão decisivo, por que faz sentido ele correr em todo tipo de lugar exceto em pistas como as que acontecem a corrida? Não há muita inteligência na história.

- Meio falso a Cruz Ramirez ser a melhor treinadora do mundo sendo tão jovem e sem nunca ter competido 1 única vez na vida. Pelo menos é um drama mais forte que o do McQueen - dá pra torcer pra que ela explore mais o seu potencial, deixe de ser reprimida, etc.

- Filmes da Pixar mesmo quando são fracos costumam ser ter muitas ideias criativas na composição do universo dos personagens (por exemplo, como funciona o cérebro em Divertida Mente, etc). Esse aqui é bem baixo em criatividade, e o humor também é fraco.

- Frustrante a treinadora ganhar do McQueen nos exercícios. Quer dizer que mesmo com as melhores técnicas do mundo, McQueen não conseguirá se superar?

- SPOILER: Revoltante o McQueen se sacrificar no final e deixar a treinadora competir no lugar dele. Finalmente entendemos porque a história estava tão chata, pouco convincente: é que a intenção do filme nada tinha a ver com mensagens inspiradoras, com o desejo de estimular a autoestima das crianças, etc. No fundo é apenas mais uma animação infantil promovendo coletivismo, altruísmo, que estava apenas disfarçada de história motivacional. Por isso pouco importava o que McQueen fazia nos treinos, se eram coisas plausíveis ou não, pouco importava fazer o espectador torcer por ele. Toda essa pseudo-trama seria jogada fora no fim pra celebrar a Cruz Ramirez. No fim, o grande herói americano cede espaço para a mulher latina (Disney e suas agendas políticas "sutis")! É um insulto à inteligência da plateia dizer que uma novata que NUNCA competiu na vida entraria pela primeira vez numa corrida de verdade e venceria o adversário que nem o melhor do mundo conseguia superar.

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CONCLUSÃO: Uma das produções mais esquecíveis e desnecessárias da Disney / Pixar.

Cars 3 / EUA / 2017 / Brian Fee

FILMES PARECIDOS: O Bom Dinossauro (2015) / Detona Ralph (2012) / Turbo (2013)

NOTA: 4.0

quarta-feira, 19 de julho de 2017

A Coisa Mais Simples do Mundo

Pessoal, o curta-metragem que fiz ano passado já está disponível no YouTube. A história foi adaptada do conto The Simplest Thing In the World da Ayn Rand, que aparece no livro The Romantic Manifesto. Se curtirem, ajudem a divulgar - e quem tiver conta no IMDb passa lá depois, agora quem define a NOTA são vocês ;)

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt6352292/


sexta-feira, 14 de julho de 2017

Fala Comigo

Longa de estreia do brasileiro Felipe Sholl sobre um garoto de 17 anos que se envolve com uma das pacientes de sua mãe (psicóloga) que tem mais do dobro de sua idade. O filme tem algumas boas performances e um enredo simples mas que se mantém estimulante do começo ao fim. Meu maior problema com a história (além de algumas manobras improváveis da trama) foi aceitar e torcer pelo romance entre os dois, que acaba de fato parecendo desequilibrado, imaturo, e me deixou torcendo mais pela mãe do garoto (Denise Fraga), que tenta impedir a relação, do que pelos desejos do casal. Desde o começo fica claro que o garoto apenas tem uma tara por mulheres mais velhas - ele não se apaixona especificamente pela personagem da Karine Teles por suas qualidades pessoais, por uma compatibilidade especial entre os dois que seja compreensível pra plateia. Fica difícil entender o que um garoto como ele veria numa mulher como ela. Em filmes sobre relações improváveis como essa, como A Primeira Noite de um Homem ou O Medo Consome a Alma, o parceiro tem sempre uma "virtude compensatória" que acaba ofuscando as diferenças, o que não vemos direito aqui. Ela, por outro lado, já se mostra uma mulher dependente, psicologicamente instável, que mergulha nessa nova relação de forma irresponsável simplesmente pra fugir da depressão e esquecer o ex-marido. Ou seja, se a intenção do filme era a de quebrar tabus, mostrar que toda forma de amor é bonita e válida, ele acaba não funcionando muito bem (pelo contrário, alguns detalhes sexuais acabam até beirando o repulsivo). Ainda assim é um filme que, com um mínimo de recursos, consegue tirar algumas boas reações da plateia.

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Fala Comigo / Brasil / 2017 / Felipe Sholl

FILMES PARECIDOS: Que Horas Ela Volta (2015) / Casa Grande (2014)

NOTA: 5.0 

sábado, 8 de julho de 2017

Homem-Aranha: De Volta ao Lar

NOTAS DA SESSÃO:

- Interessante a introdução - mostrar os trabalhadores que limparam os destroços em Nova York depois da batalha dos Vingadores, etc. Dá um toque realista que torna todo o universo Marvel mais convincente.

- Tom Holland convence no papel, é simpático, mas o personagem em si não é dos mais empolgantes (há alguns sinais do Herói Envergonhado). O maior esforço aqui está em mostrar como ele é comum, desastrado, um garoto como qualquer outro da plateia, e não alguém excepcional.

- Outro sinal de que o filme está querendo agradar os politicamente corretos são esses personagens coadjuvantes (como Ned) que parecem ter sido escalados só pra dar um ar "multicultural" pra produção - e não porque eles são particularmente carismáticos e convencem no papel.

- Referência a Curtindo a Vida Adoidado: se a ideia era que Peter Parker lembrasse Ferris Bueller, os produtores realmente não devem ter assistido ao clássico.

- Michael Keaton é sempre bom ator, mas o vilão em si é fraco. Por que ele vira do mal se era um cara normal no começo? Excesso de poder? Qual sua motivação? Não sabemos que perigo o Homem-Aranha corre. Parece um vilão de segunda-linha, e não uma grande ameaça pra cidade. E também não fica claro o que Peter Parker irá ganhar se derrotá-lo. Se irá de fato ser "promovido" a Vingador pelo Stark ou não, etc.

- O romance também é um tédio. A relação entre os dois não tem nenhum drama, não faz o espectador torcer, não acreditamos que Peter está de fato apaixonado por ela. Tudo que acontece no filme parece mecânico: Peter lutar contra criminosos, se apaixonar... Nada parece vir de dentro dele, de suas convicções, emoções, desejos...

- O traje do Homem-Aranha desenvolvido pelo Stark é ótimo. Divertido ele tentando usar a roupa no "modo avançado" e se confundindo com os novos comandos.

- Desnecessária e sem propósito toda essa sequência em que ele fica preso dentro do galpão. E a cena depois no obelisco é bem tensa e vertiginosa, porém é motivada por um acidente banal, desnecessário (não foi um evento provocado pelo vilão, algo necessário pra trama, etc).

- Fraca a cena de ação na balsa de Staten Island. Dá a impressão que quando o Homem-Aranha tenta ajudar, muito mais desgraça acaba acontecendo. Se o vilão fosse deixado em paz, ele simplesmente estaria traficando algumas armas. Mas quando entra o Homem-Aranha em ação, a cidade começa a ser destruída, a população entra em risco, etc. Sem falar que a ideia da balsa ser partida ao meio e depois remendada sem afundar beira o ridículo.

- Peter ser despedido do "estágio" pelo Stark é legal... Cria uma nova motivação, agora ele precisa se provar e tem a desvantagem de não ter mais o traje.

- SPOILER: Não faz o menor sentido o vilão ser justamente o pai da garota que ele está a fim. É uma coincidência totalmente aleatória que demonstra displicência dos roteiristas (a intenção de integrar o vilão com a vida pessoal de Peter é positiva, mas foi tudo muito mal feito). A maneira como o Michael Keaton descobre que Peter é o Homem-Aranha (na cena do carro) também é bem forçada.

- Que chatice Peter estar sempre decepcionando a menina que ele gosta, largar ela no baile sozinha, etc. Nem faz sentido ele descobrir algo no meio do baile e ter que sair, e daí ser atacado pelo Shocker.. Como o Shocker sabia o que ele iria fazer, etc?

- Não convence também que agora sem o traje, Peter iria conseguir vencer essas pessoas todas que nem antes ele conseguia derrotar. Que chances ele teria contra o Michael Keaton sem o traje? Por que ele vai ao encontro dele naquele galpão então? Óbvio que iria dar errado (como dá). É meio tolo também aquela roupa do Vulture (com tecnologia alienígena) não ter poder pra derrotar o Homem-Aranha, e ser mais prático derrubar o teto do galpão na cabeça dele (!).

- Confusa visualmente (e forçada) toda a sequência de ação no avião. Mais uma vez o Homem-Aranha provoca um desastre muito maior do que seria necessário pra combater o tráfico das armas. Sem ele o avião não teria caído.

- SPOILER: No fim o Michael Keaton não é pego por mérito do Homem-Aranha, e sim porque o traje dele dá um defeito inesperado.

- Parece que matar o vilão hoje em dia é muito cruel, então o Homem-Aranha tem que mostrar compaixão, tentar salvar sua vida, etc.

- SPOILER: O final é uma chatice. Não só o "romance" termina num tom desagradável, a menina sem entender porque Peter a tratou mal o filme inteiro... Como depois ele é promovido a Vingador pelo Stark, recebe tudo o que sonhava, mas daí rejeita o convite!!!!!! É patético. O filme quer mostrar que o herói é "maduro" por abrir mão do sucesso, por sacrificar sua glória em nome de "metas pessoais" mais nobres que nem entendemos direito quais são.

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CONCLUSÃO: "Padrãozinho" da Marvel prejudicado por alguns descuidos de roteiro e algumas das tendências ruins da atualidade.

Spider-Man: Homecoming / EUA / 2017 / Jon Watts

FILMES PARECIDOS: Capitão América: Guerra Civil (2016) / Homem-Formiga (2015)




NOTA: 5.5 

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Os 4 Pilares do Entretenimento

Como disse na postagem O Que Nos Atrai à Arte?, a arte nos atrai porque ela nos oferece um escape para um universo compreensível, benevolente e com significado. Queria agora pegar essas características ainda vagas ("compreensível", "benevolente", "com significado") e concretizá-las no que vou chamar de Os 4 Pilares do Entretenimento.

Na minha filosofia de arte e entretenimento, os grandes filmes (e isso vale pra qualquer arte) são aqueles que melhor satisfazem esses 4 desejos:

1. O desejo por Objetividade
2. O desejo por Autoestima
3. O desejo por Benevolência
4. O desejo por Diversão

Vou expandir um pouco cada um desses termos pra gente compreendê-los melhor.

(Para mais ilustrações e exemplos relacionados a esse tópico, recomendo que vejam também minhas postagens: O Que Nos Atrai à Arte?, Senso de VidaVirtudes e Tipos de Filmes e O Que o Cinema Pode Aprender com o Futebol)

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1. OBJETIVIDADE

É o desejo de entender o mundo, de ver ordem no universo, estabilidade, de ter confiança em nossas capacidades cognitivas, de saber da verdade por trás das coisas (o que nos dá um senso de controle e segurança). É a atitude de nunca aceitar a ignorância, a confusão e a incomunicabilidade como o estado natural do ser humano. De nunca aceitar o subjetivismo como uma resposta.

Uma obra de arte pode satisfazer esse desejo através de seu conteúdo, mostrando uma trama clara, inteligente, expondo as motivações por trás das ações dos personagens, por exemplo, mas principalmente através de seu estilo, na maneira como o artista comunica suas ideias, conduz a atenção do espectador, demonstra seu talento, na clareza com que ele apresenta conceitos em sua obra, da objetividade das técnicas que ele usa pra expressar valores e criar emoções, na maneira como ele retrata a realidade, o ser humano, tornando claro e compreensível aquilo que muitas vezes é caótico e confuso na vida real.

Esse conceito de Objetividade é muitas vezes uma pré-condição pra expressão de todos os outros valores nessa lista, e costuma ser naturalmente respeitado por obras que têm algum tipo de pretensão comercial, sendo desafiado apenas por artistas mais alternativos ou experimentais (ou por aqueles que simplesmente não têm habilidade de se comunicarem objetivamente / ou por aqueles que querem de propósito dar um toque experimental em obras comerciais por acharem que isso as tornará mais "sofisticadas").

É por isso que eu valorizo tanto a clareza na direção cinematográfica, na condução da trama, e por isso sou crítico em relação a filmes Naturalistas, pós-modernos, que pretendem retratar a realidade de maneira ambígua, superficial, ou pior, criar um estado de confusão ainda maior do que o que temos num estado normal de consciência, diminuindo (em vez de aumentar) a confiança do espectador no poder de sua mente.


2. AUTOESTIMA

É o desejo humano de se sentir importante, especial, capaz, orgulhoso, de obter respeito e ser reconhecido por suas virtudes, de ser o melhor em algo, de acreditar no seu potencial individual, de acreditar que a vida deve ser grandiosa. É a atitude de não aceitar a impotência e incapacidade como a verdadeira essência do ser humano. A banalidade como a essência da vida. Não aceitar os próprios defeitos e imoralidades como coisas naturais, inevitáveis. De sempre desejar virtude, progresso, sucesso - e de se lamentar e nunca se orgulhar das próprias falhas.

Uma obra de arte não consegue de fato dar autoestima a uma pessoa, mas pode simular / incentivar essa emoção, e lhe dar estímulo e confiança para conquistá-la em sua vida pessoal (através do sentimento de admiração). Como sempre, a obra pode satisfazer esse desejo através do conteúdo (retratando um herói admirável, contando uma história de superação, com eventos grandiosos, por exemplo), mas principalmente através do estilo - das virtudes demonstradas pelo artista na realização da obra em si (virtudes como domínio técnico, originalidade, inteligência, profundidade, etc), provocando a admiração do espectador pelo trabalho em sua frente (ou seja, mesmo uma obra que retrate personagens maus pode ser inspiradora nesse sentido).

É por isso que sou crítico em relação a filmes Naturalistas, que não só costumam retratar personagens comuns, sem grandes virtudes, com vidas simples, como também não demonstram grandes virtudes técnicas por parte do cineasta, que estão mais focados no retrato da realidade, na mensagem social, etc. E é por isso também que eu critico certas tendências atuais que vão contra a autoestima, como o fenômeno do Herói Envergonhado ou Romantismo Reprimido.


3. BENEVOLÊNCIA

É o desejo de acreditar que o universo é um lugar receptivo para o ser humano, harmonioso, onde a felicidade é possível e nossos valores podem ser atingidos. Que os homens devem ser perfeitamente morais, felizes, e que seus interesses não precisam estar em conflito. Que conflitos, a dor e o mal não são o estado natural da vida, e sim coisas para serem superadas. É um certo respeito pela inocência da infância, pela visão daquilo que o mundo poderia e deveria ser (mesmo um filme com final trágico ou um filme sobre um personagem decadente pode ter o valor da Benevolência, desde que ele culpe os resultados trágicos nas irracionalidades dos personagens, e não na vida em si, na natureza humana, etc).

Isso pode ser visto no conteúdo - em histórias onde o bem é retratado positivamente e o mal negativamente, onde os personagens têm livre arbítrio e o poder de atingirem seus objetivos, onde vemos relacionamentos positivos e harmoniosos entre os personagens, onde os personagens são puros moralmente (não aceitam o mal e a corrupção em si mesmos) - mas Benevolência também pode ser vista na forma, na atitude geral do artista em relação ao público: na escolha de mostrar beleza, de se comunicar com o espectador, falar de assuntos que lhe interessam, no desejo de provocar emoções prazerosas e inspiradoras no espectador, agradar seus sentidos, se adequar às suas necessidades, etc.

É por isso que sou crítico em relação a filmes com um Senso de Vida malevolente, valores destrutivos, filmes que cultuam a violência de forma inapropriada, glamourizam o sofrimento, que focam apenas em relacionamentos negativos, que enaltecem personagens cínicos e imorais, que dizem que o ser humano é perverso, que são feitos pra expressar os sentimentos agressivos do artista em relação à plateia, etc.


4. DIVERSÃO

É o desejo por estímulo, excitação, prazer, felicidade, emoções intensas, o desejo de fugir do tédio, da monotonia do dia a dia e dos estados normais de consciência, das regras e dos deveres chatos impostos pelos outros e pela sociedade. É o desejo de tornar a vida interessante e prazerosa. É o que nos faz buscar risada, aventura, catarse, magia, êxtase, adrenalina, terror, lágrimas, surpresas, etc. É a atitude de não aceitar o tédio, a monotonia, a melancolia como o estado natural e inescapável do ser humano. De achar a felicidade o estado mais nobre de consciência. Significa não achar uma virtude a habilidade de reprimir seus desejos, de sacrificar seus prazeres.

Isso pode ser visto no conteúdo de uma obra - por exemplo, em filmes onde os personagens passam por grandes aventuras, situações divertidas, vivem momentos de tensão, etc, mas principalmente no estilo, no método em que a história é contada: se há suspense, envolvimento, surpresas, emoções intensas, se o ritmo da história é estimulante, se os eventos apresentados são incomuns, etc (ou seja, mesmo um filme sobre uma história trágica ou um monólogo podem ser "divertidos" nesse sentido).

É por causa do pilar da Diversão que enfatizo tanto a questão da narrativa, do envolvimento na história, do clímax, o Princípio da Ascensão, os Set Pieces, e é por isso também que critico filmes Naturalistas, sem trama, ou filmes que colocam a função social / educativa / jornalística da obra acima da experiência da plateia.

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Ou seja, todo filme que eu avalio negativamente aqui no blog, é porque de alguma forma ele desrespeitou ou não foi bem sucedido em erguer esses 4 pilares, todos eles indispensáveis em algum nível.

Notem que em muitos pontos essas ideias começam a se sobrepor, e que é impossível expressar 1 desses valores sem começar a expressar alguns dos outros também. Por exemplo: pra demonstrar virtudes e inspirar Autoestima no espectador, é preciso primeiro que exista o valor da Objetividade em algum nível. E ao estimular esse sentimento de Autoestima na plateia, haverá também um senso de Benevolência envolvido na experiência.

Em postagens futuras posso explorar melhor algumas questões que possam surgir a partir daqui, como por exemplo o princípio do contraste. Pensem comigo: pra expressar o senso de Benevolência de maneira satisfatória, é preciso incluir uma certa dose do oposto disso na obra (medo, pessimismo, rejeição, etc), pois a mente percebe valores através de contrastes e comparações. Ou seja: pra ficarmos felizes que o casal fica junto no final, é preciso antes sentir o medo da perda. Pra ficarmos admirados com a superação do herói, é preciso antes sabermos de suas vulnerabilidades e temermos uma possível derrota.

Outra questão importante pra ser discutida é a do relativismo moral. Por exemplo: se uma pessoa acha que a razão é algo destrutivo e opressor, e sente um grande prazer vendo uma obra niilista pós-moderna, isso significa que a obra gerou Benevolência? Diversão? Se uma pessoa frustrada com a própria vida sente satisfação ao ver o infortúnio de pessoas virtuosas, isso torna a obra Benevolente? Ou se um artista pouco confiante vê uma obra mediana e sente um certo alívio, isso gerou Autoestima?

Minha resposta é não, pois acredito numa moralidade objetiva - ou seja, que aquilo que é bom, é bom porque de fato promove a vida, torna o ser humano mais apto a lidar com a realidade, viver uma vida saudável, bem sucedida, feliz, sem contradições, e portanto não pode ser considerado mau por outra pessoa, e vice versa. Mas nessa postagem ainda não pretendo discutir as possíveis distorções psicológicas que possam erguer "falsos pilares", apenas o de esclarecer a natureza das emoções presentes nos melhores entretenimentos.

Claro que no meio disso tudo há muito espaço para discussão, gostos individuais, diferenças perfeitamente aceitáveis entre as pessoas, o que não invalida a objetividade de certos princípios morais básicos.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Meu Malvado Favorito 3

NOTAS DA SESSÃO:

- Logo de cara fica clara a baixa pretensão artística / criativa do filme. Ideias fracas como a do chiclete gigante que faz levitar o navio; o desenvolvimento tolo da trama (a maneira como o vilão rouba o diamante); músicas pop ou cenas de dança que surgem aleatoriamente só pra manter um clima animado, etc.

- A produção é vazia de valores de entretenimento. Nem os Minions que são divertidos têm grandes momentos de humor, piadas bem elaboradas. E o filme é todo meio contaminado pelas tendências culturais atuais que são adversas ao romantismo. Eles tentam criar um entretenimento inteiro evitando justamente as emoções que são a alma do entretenimento, e que são consideradas tabu por certos grupos, como a ideia de autoestima. É mais ou menos o que digo nos textos Herói Envergonhado ou Romantismo Reprimido. Mas aqui me parece mais uma espécie de Veganismo Cultural (ideia pra um futuro post). Uma tentativa de alimentar o espírito das crianças mas proibindo as substâncias que realmente proporcionariam prazer e satisfação. "As crianças não devem se sentir especiais ou importantes, e elas também não devem ter ambição nem sonhar muito alto, então vamos garantir que não haja nenhum personagem atraente no filme, e que as crianças em particular sejam fisicamente feias na história, e que ninguém tenha um humor inteligente demais, e que o heroísmo retratado na aventura não seja convincente nem inspirador, apenas uma ação tola e irreal, e vamos inserir uma sequência que nada tem a ver com o filme onde a filha do Gru aprende que unicórnios não existem, só pro público infantil já ir se acostumando com desilusões e a reprimir seus desejos."

- Claro que os anos 80 têm que ser retratados de maneira cínica pelo filme (afinal, nada mais oposto ao "veganismo cultural" que eles propõem do que os anos 80) - tudo ligado à época parece meio patético e está associado ao vilão. O lado bom é que acabam tocando algumas músicas boas no filme (embora sob uma luz feia).

- Falta um mínimo de bom senso e plausibilidade na história. Que história é essa de ter que escalar a torre até um cubo mágico gigante no meio do mar? Depois que eles fogem com o diamante, como é que o vilão escapa do chiclete, coloca a máscara da Lucy, pega um helicóptero e consegue enganar o Gru em tão pouco tempo? É um tipo de niilismo que só pode fazer mal pro cérebro de uma criança.

- No final temos os anos 80 na forma de um grande monstro que volta pra aterrorizar Hollywood, jogando chiclete em tudo que é lugar e querendo mandar a cidade pro espaço (chiclete é tão doce e divertido que só pode ser obra do demônio).

- Qual o sentido dessa "dance fight" no final? Não tem o menor sentido o Gru propor uma dança na hora do confronto - é só mais uma oportunidade de colocar dancinhas e músicas divertidas no filme pra prender a atenção do público de forma imediatista e vulgar, já que não há emoções mais sólidas sustentando a história.

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CONCLUSÃO: Mais um caça-níqueis esquecível da Illumination Entertainment.

Despicable Me 3 / EUA / 2017 / Kyle Balda, Pierre Coffin

FILMES PARECIDOS: A Era do Gelo: O Big Bang (2016) / Angry Birds: O Filme (2016) / Minions (2015) / Meu Malvado Favorito 2 (2013)

NOTA: 4.0