sexta-feira, 31 de julho de 2026

Homem-Aranha: Um Novo Dia

Achei apenas mais um filme-salsicha corporativo feito por comitê. Gostei do Tom Holland, algumas cenas de ação do Homem-Aranha saltando entre os prédios são visualmente empolgantes, mas me parece que os filmes da Marvel considerados bons hoje (como este) não são aqueles que apresentam algo realmente extraordinário, mas aqueles que têm a "virtude" de não terem algo tosco ou controverso que revolte o público — os que parecem normais, bem executados e fieis ao tom/estética esperada. Mas se você ignora esta barra estabelecida pelo estúdio e vai apenas esperando ver uma boa história, o filme é uma bagunça.

Pra começar, a narrativa é conturbada e confusa para quem não tem um guia do lado com tudo o que já aconteceu antes no universo Marvel. Pros espectadores mais apegados a lógica e causalidade, como eu, o universo amorfo, sem identidade, onde esses filmes costumam se passar, também torna tudo frustrante de acompanhar. Além dessas coisas que tipicamente me incomodam no gênero — como o protagonista altruísta que não tem motivações convincentes para trabalhar de segurança da cidade — algumas coisas desse capítulo não funcionaram direito pra mim. Por exemplo: em um filme solo do Homem-Aranha, acho fácil comprar o conceito de sua identidade precisar ser secreta (assim como a de Superman). Mas quando você está em um universo onde existem diversos outros super-heróis, nenhum deles com essa mesma questão, essa necessidade de guardar segredo parece menos vital — e todo o drama central de Um Novo Dia se baseia nisso. Outro atrativo do roteiro envolve os "novos poderes" do Homem-Aranha, que agora começa a soltar teias orgânicas do próprio braço e a ter instintos aguçados de aranha... Mas isso é apenas um upgrade nos poderes que ele sempre teve. No 4º filme, não há mais como repetir o senso de novidade de uma história de origem. Fica a sensação de uma franquia que já foi explorada à exaustão e agora não tem mais o que fazer, a não ser apagar a memória de personagens estratégicos e dar um reset em coisas que já aconteceram antes pra poder recontar a mesma história de sempre. Uma tática do filme pra tentar fugir da mesmice é introduzir um personagem surpresa do universo Marvel, só que esta sub-trama fica parecendo o primeiro ato de um filme separado que resolveram enfiar em Um Novo Dia, não algo que enriquece o próprio filme do Homem-Aranha.

Pra nós "antiquados", que, em um filme de super-herói, esperamos ver habilidades admiráveis, indivíduos evoluídos, há muito pouco aqui também que deixe um senso de inspiração: Homem-Aranha está sempre em conflito com seus parceiros (bem e mal estão sempre se misturando, trocando de posição) e passa o filme inteiro caindo, falhando, ganhando hematomas, agindo como um aprendiz, dando a impressão de que a única coisa que o torna "super" mesmo é o acidente genético.

Spider-Man: Brand New Day / 2026 / Destin Daniel Cretton

★★

6 comentários:

  1. Enquanto os filmes baseados em quadrinhos tiverem que esperar que só faça sentido para quem lê os quadrinhos sempre será confuso. Eu nem me atrevo a ver esses últimos filmes até mesmo do Homem Aranha. Porque são feitos para serem bem executados, mas não tem uma substância narrativa boa. Eles querem recuperar o público que perderam, porque os personagens que eram para ser a nova equipe dos Vingadores não cairam no gosto popular. Tanto que o novo Vingadores que sairá no fim do ano está sendo preparado pra isso.

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    1. Sim... é o "cinema de fandom"... assim como um show da Taylor Swift que passa nos cinemas não precisa ter uma narrativa envolvente, apenas as músicas, figurinos e elementos que os fãs querem ver... filmes de super-heróis funcionam mais ou menos por essa lógica.

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  2. É justamente aí que eu acho que está o problema. Não é simplesmente “cinema de fandom”. O fandom sempre existiu. A questão é quando o fandom começa a substituir a narrativa.

    Um show da Taylor Swift não precisa de uma grande narrativa porque o produto é a própria artista, as músicas e a experiência do fã. Já um filme de super-herói ainda deveria conseguir contar uma boa história para quem não conhece todo o universo por trás dele.

    O que aconteceu com o MCU é que o arquétipo do herói foi progressivamente sendo substituído pelo culto ao próprio universo e às celebridades que o representam. O personagem deixa de ser o centro e o ator, a referência, o easter egg e a conexão com outros filmes passam a ser o grande atrativo.

    Por isso a Marvel ter mudado sua vinheta abertura que celebrava os quadrinhos para uma que celebra os próprios filmes. É quase como se a adaptação tivesse se tornado mais importante que a obra que originou a adaptação.

    E isso também explica o culto às celebridades. O ator passa a carregar uma dimensão quase sagrada para o público. Não importa apenas o Homem-Aranha; importa aquele ator como Homem-Aranha, aquela versão, aquela memória, aquela encarnação que o público aprendeu a cultuar.

    O problema é quando o reconhecimento substitui a experiência narrativa. Quando o espectador deixa de perguntar “o que essa história está dizendo?” e passa a perguntar “o que eu reconheci aqui?”.

    Nesse ponto, o filme começa a funcionar quase como um ritual de culto: ele apresenta os símbolos que o grupo já conhece, e a recompensa está justamente em reconhecê-los.

    E talvez seja por isso que tantos desses filmes conseguem provocar uma reação gigantesca no cinema no momento da participação de determinado personagem, mas, quando você retira aquele momento, sobra muito pouco da história.

    O culto é imediato. A narrativa é o que permanece depois que o culto passa. Por isso que o MCU é um produto descartável.

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    1. Pois é... Na minha visão, shows de música também deveriam ter ganchos, narrativa, etc. Mas sabemos que isso não é necessário para encher estádios... Os estúdios sabem que dá pra fazer algo similar no cinema - facilitar o trabalho do roteirista apelando pra esse apego emocional do fã ao personagem/universo... O filme se torna inferior esteticamente, menos universal, menos atemporal, mas satisfaz pessoas o bastante a curto prazo pra gerar bilheteria.

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    2. Acho que esse seria justamente um passo evolucionário plausível: não abandonar o espetáculo, o fandom ou o apego emocional, mas colocar substância e significado dentro deles.

      No cinema, acho que deveria acontecer algo parecido. O problema não é o filme querer satisfazer o fã. Isso sempre fez parte do cinema de franquia e não há nada de errado nisso. O problema é quando essa satisfação passa a ser o próprio conteúdo da experiência.

      O caminho mais interessante seria justamente conseguir unir as duas coisas: dar ao fã aquilo que ele espera, mas utilizar esse conhecimento prévio como matéria-prima para construir algo que tenha significado por si só. A participação de um personagem, uma referência ou um easter egg deveriam ampliar a narrativa, hoje ela é praticamente o ponto do filme.

      O filme deveria funcionar em diferentes níveis: para quem conhece todo o universo, haveria uma camada extra de reconhecimento e emoção; para quem não conhece, ainda existiria uma história com personagens, conflitos, temas e consequências que fazem sentido por si mesmos. Isso até ajudaria a evitar comentários do tipo "eu preciso ler o material relacionado para entender?"

      Se os produtos de de fandom (shows, filmes) descobriram que podem mobilizar multidões através do apego emocional, o próximo passo não deveria ser explorar esse apego indefinidamente, mas transformar essa energia em alguma coisa artisticamente mais substancial.

      Em vez de perguntar apenas “o que podemos mostrar para o fã reconhecer?”, a pergunta poderia ser “o que podemos dizer usando aquilo que o fã já reconhece?”.

      Porque o reconhecimento produz a reação imediata. O significado é o que dá alguma chance de a obra permanecer depois que a reação termina. Isso vale pra qualquer mídia de shows, álbuns de música a cinema. Isso recuperaria até sentido de mídia física desse material.

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    3. É... há duas discussões ligeiramente diferentes aí: ter um roteiro que prende a atenção e satisfaz através da narrativa vs. prender através de fan service, elementos externos etc. Depois, essa questão separada do roteiro ter um significado mais profundo que vá fazer a obra permanecer na mente do espectador.. de qq forma, tudo volta ao roteiro. abs!

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