segunda-feira, 21 de novembro de 2022

Desencantada

Encantada pra mim foi um dos melhores filmes originais da Disney dos anos 2000, então acho que ele merecia uma sequência mais sofisticada, lançada nos cinemas, em vez desta produção com cara de lançamento direto pra VHS. E o que dá essa impressão não é apenas a cenografia, os efeitos especiais mais simples, as canções mais genéricas, mas principalmente a trama pouco grandiosa, que foca em problemas pequenos que Giselle enfrenta ao mudar para uma cidadezinha chamada Monroeville com sua família. É tipo quando criam uma série de TV animada baseada num blockbuster, mas daí em vez de tramas envolvendo acontecimentos épicos, conflitos profundos, você vê historinhas mais cotidianas, tipo "o primeiro dia de escola do filho do herói".

O roteiro tem umas escolhas esquisitas que tornam a história menos memorável também. Começa sugerindo que o "felizes para sempre" da parte 1 não durou muito, e após uns anos, Giselle passou a ter uma vida frustrante, sem magia, como a da maioria das mães modernas. Porém, quando Amy Adams surge na tela pela primeira vez, ela parece quase tão encantada e vendo tudo em cor-de-rosa quanto antes. Não há contraste o suficiente pra justificar o "Desencantada" do título, e a necessidade de ir embora de Nova York. Mais pra frente, quando Giselle se vê frustrada também em Monroeville, ela usa uma magia pra transformar a cidade num lugar mágico como Andalasia — só que a mudança também não é tão radical a ponto de criar um conceito memorável... Pois antes mesmo da transformação, Monroeville já parecia um lugar cenográfico, utópico. Narrativamente, costuma ser muito mais interessante você ir de um extremo para o outro nesse tipo de situação, em vez de apresentar variações ambíguas de um ambiente ou personagem.

SPOILERS: Depois disso, a história basicamente se resume a Giselle tentando desfazer o feitiço, e se torna um desses enredos onde não esperamos nada realmente emocionante ou positivo no final, apenas a eliminação de um erro (e a "cura emocional" — o momento clichê onde alguém abraça alguém, derrama uma lágrima, e feixes mágicos resolvem tudo). A ideia basicamente é que o poder corrompe, e que a busca pela perfeição é perigosa (Giselle começa a ser seduzida pelo "lado negro da força" e a se tornar uma madrasta má — o que faz com que a sequência explore menos a personalidade ingênua de Giselle, que é onde Amy Adams brilha mais). Em vez de divertir, o filme vem com uma daquelas mensagens "responsáveis" sobre aceitar as adversidades da vida, ser comedido, não exagerar muito na busca pela felicidade. É uma história "super excitante" sobre uma família que vai de um padrão de vida nota 7 pra um padrão de vida nota 8.5. A vida em Nova York não parecia particularmente terrível, nem mesmo a vida em Monroeville antes da transformação. Nada do que ocorre parece necessário. E o conflito entre Giselle e a filha/enteada é tão vago que no fim nem entendemos direito qual foi a grande "cura", o que mudou fundamentalmente entre as duas que tornará tudo melhor agora.

Disenchanted / 2022 / Adam Shankman

Satisfação: 5

Categoria: I- / IC

Filmes Parecidos: Abracadabra 2 (2022) / Espelho, Espelho Meu (2012) / Frozen II (2019) / Cinderela (2021)

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