Lembro de ter visto o primeiro episódio de The Mandalorian e achado problemática uma questão que também afeta o longa, que é o fato de termos um protagonista sem rosto. Se você for pensar, isso é extremamente incomum no cinema — há inúmeros filmes estrelados por humanos que não falam, por personagens animados, por animais, objetos, seres fantasiosos, mas não lembro de quase nenhum onde o protagonista não tem um rosto. E não acho que isso seja acidental. Há algo de crucial para o engajamento visual e para o entretenimento nas expressões faciais e reações dos personagens. Sem falar na questão do carisma e nos elementos de caracterização que se perdem com a ausência do rosto.
A história de O Mandaloriano e Grogu não é das mais envolventes. Trata-se de um "filme de serviço" onde o Mandaloriano, que é um caçador de recompensas, recebe uma missão aleatória no início do filme e parte para cumpri-la: viaja para um local, faz uma reunião com uma pessoa, depois segue para outro lugar, pega pistas com uma nova pessoa, e assim por diante.
Nada parece ter grande relevância, pois o filme viola algo que podemos chamar de "Princípio do Centro do Universo". Os melhores blockbusters costumam contar histórias onde o protagonista é o centro do universo — no sentido de estar participando daquilo que parece ser o evento mais importante do mundo naquele momento. Numa escala menos épica, um blockbuster no mínimo deveria tentar contar uma história que retrate o momento mais crucial da vida do personagem — algo tão especial e decisivo para sua vida que justifique existir um filme sobre aquilo. Em O Mandaloriano e Grogu, a sensação é que aquela é apenas mais uma missão como inúmeras outras que o herói já viveu ou viverá, e que aquele conflito em particular é apenas um entre centenas de outros ocorrendo na galáxia — não estamos tentando destruir a Estrela da Morte e acabar com o Império de uma vez por todas, como na saga original — apenas lidar com uns vilõezinhos de segunda. O próprio Mandaloriano não parece ter um grande status dentro do universo Star Wars. Como disse na postagem O que torna um personagem gostável?: "No Idealismo, tendemos a pensar em extremos. Se o personagem for um agente secreto, queremos que ele seja o melhor agente secreto do mundo. Se for uma criança levada, queremos que seja a mais levada que já vimos...". No filme, o Mandaloriano luta bem, mas não há nada de tão extremo ou único que o faça parecer central no universo da franquia.
No fim, o maior problema de O Mandaloriano e Grogu é a timidez e a falta de personalidade do filme. Não há nada de terrivelmente ruim ou de mau gosto na produção, o que já é uma vitória. Tudo é adequado, apresentável — e os elementos Corrompidos que destruíram tantos produtos Star Wars nos últimos anos também estão bem reduzidos. A Disney parece estar querendo escutar os fãs. O problema é que não basta excluir os negativos. Falta inserir os positivos — as boas ideias, as cenas surpreendentes, os 300 Beats Criativos que são a base de um bom espetáculo. Mas isso requer imaginação e liberdade criativa, coisas não muito incentivadas na cidade corporativa, avessa ao risco, que é Hollywood hoje.
Star Wars: The Mandalorian and Grogu / 2026 / Jon Favreau
★★
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