
A maneira em que os heróis têm sido retratados no cinema revela um dos conflitos mais presentes na cultura popular hoje em dia: a necessidade de projetar algum tipo de virtude, de capacidade, de figura admirável, brigando com o fato de que a cultura se tornou anti-ambição, anti-autoestima - ou seja, os valores que tornam os heróis possíveis. Os anos 80 e 90 foram décadas em que a cultura foi dominada por projeções inspiradoras e romantizadas do ser humano, tanto no cinema quanto na TV e na música. A partir dos anos 2000 as coisas foram mudando. Os heróis não foram abandonados por completo, pois isso seria impossível: é da natureza humana querer ter algo pra aplaudir, admirar e servir de inspiração - mas agora isso briga com o medo de ser acusado de ser arrogante, superior, ou pior: de ferir os que se sentem fracos. Então os heróis dos filmes, da TV e da música estão sendo diminuídos - eles demonstram certas virtudes, mas de uma maneira corrompida, disfarçada, envergonhada, misturada com algum elemento subversivo, que serve como um perdão por suas qualidades.
Existem vários tipos de "heróis envergonhados", mas eles revelam sempre a culpa da parte dos artistas em projetar autoestima, habilidade, nobreza; um senso de orgulho e ambição que muita gente considera nocivo hoje em dia.
Isso tudo é muito evidente nos filmes de super-heróis, por exemplo, que começaram a ficar cada vez mais sombrios e realistas. Os heróis, em vez de serem figuras de destaque, personagens carismáticos, maiores que a vida, passaram a ficar mais "humanos", comuns, apresentando todo tipo de fragilidade e de distúrbio psicológico.
As animações infantis também revelam claramente essa mudança. Em vez das princesas belas e inocentes
dos tempos da Branca de Neve ou mesmo da Pequena Sereia, você tem figuras muito mais simplórias: príncipes e princesas sem glamour, cínicos, às vezes de caráter ambíguo, que falam e gesticulam de maneira comum, fazem caretas, estão frequentemente em situações e poses ridículas, não têm a nobreza que caracterizava os personagens Disney de antigamente.
Há também uma série de programas de TV e artistas pop que levantam a bandeira dos "losers", como Glee, afirmando que agora é a vez dos fracos conquistarem os holofotes.
Não estou dizendo que um herói não possa apresentar fragilidades ou desvantagens. Muito pelo contrário - acho importante que um herói tenha vulnerabilidades e pontos fracos, pois seria impossível para o público se identificar com um ser perfeito e indestrutível. Alguém infalível que realiza um grande feito não diz nada para o espectador. Só pode ser uma inspiração alguém que tenha limitações humanas naturais e mesmo assim supere essas limitações e conquiste seus objetivos. Mas há uma diferença grande entre ter limitações, fragilidades, e ser um "herói envergonhado". A principal é que, no primeiro caso, o foco está na projeção das virtudes e não na projeção das falhas - as qualidades e as conquistas do herói são dramáticas, convincentes, empolgantes, memoráveis, criativas, as fragilidades estão presentes apenas pra dar um senso de realismo e tornar a superação ainda mais intensa. Já num filme de "herói envergonhado", toda atenção é dada às fragilidades, às inseguranças, ao lado "humano" e "realista" do herói, mas nunca vemos uma apresentação dramática de suas virtudes, daquilo que faz dele digno de ser admirado (é comum essas figuras fazerem parte de um grupo, onde a atenção é diluída entre vários personagens, o foco seja o trabalho em equipe, e o protagonista não ganhe crédito demais por suas conquistas).
É importante também diferenciar entre desvantagens, fragilidades, e falhas de caráter. Enquanto desvantagens e fragilidades são aceitáveis e criam uma ponte pro espectador se identificar com o herói, falhas de caráter são no fundo uma tentativa de corromper o conceito de herói.
Outra maneira de diminuir o herói é através do uso de humor. Não que o herói não possa ser divertido ou
ter senso de humor. A pergunta a ser feita aqui é: você está rindo com o personagem ou do personagem? Não há problemas em rir de coisas que o personagem faz intencionalmente e que não diminuem sua estatura. Mas rir às custas do herói é quase sempre errado, a não ser que você esteja vendo uma paródia.
Heróis são feitos pra provocar inspiração - as crianças saem do cinema motivadas, imitando seus gestos, querendo ser como eles. Já um "herói envergonhado" é feito pra amenizar a baixa autoestima, dar um senso de conforto pro espectador, de "inclusão", dizendo que ninguém é grande demais - que todo mundo é inseguro, tem falhas, portanto não há por que se sentir inferior. O problema é que eles fazem isso de uma maneira destrutiva, mal intencionada: se você quer celebrar humildade, igualdade, o lado simples e não-heroico do ser humano, há várias formas de fazer isso sem precisar ser hostil em relação a virtudes positivas. Mas o que esses cineastas querem é contar histórias grandiosas, de superação, de integridade, de reis e princesas - ou seja, primeiro criar heróis, pra daí mostrar que eles não são tão heroicos assim. A intenção não é inspirar o fraco e dizer que ele é capaz de se superar - mas destruir o forte e trazer todo mundo pro nível do comum.
Esse elemento pode surgir de várias maneiras e em vários graus diferentes, nem sempre comprometendo o total do trabalho. Às vezes de maneira óbvia, explícita, às vezes de maneira menos evidente. Em casos onde há uma mistura de heroísmo com elementos de "herói envergonhado", meu critério final é: no fim das contas a figura é admirável? Inspira um senso de desafio, de ambição? Tem habilidades que encantam? Uma criança ficaria inspirada - gostaria de evoluir pra ser um dia como ela? Se a resposta for sim, pode ser possível perdoar o resto.
Isso tudo é muito evidente nos filmes de super-heróis, por exemplo, que começaram a ficar cada vez mais sombrios e realistas. Os heróis, em vez de serem figuras de destaque, personagens carismáticos, maiores que a vida, passaram a ficar mais "humanos", comuns, apresentando todo tipo de fragilidade e de distúrbio psicológico.
As animações infantis também revelam claramente essa mudança. Em vez das princesas belas e inocentes
dos tempos da Branca de Neve ou mesmo da Pequena Sereia, você tem figuras muito mais simplórias: príncipes e princesas sem glamour, cínicos, às vezes de caráter ambíguo, que falam e gesticulam de maneira comum, fazem caretas, estão frequentemente em situações e poses ridículas, não têm a nobreza que caracterizava os personagens Disney de antigamente.
Há também uma série de programas de TV e artistas pop que levantam a bandeira dos "losers", como Glee, afirmando que agora é a vez dos fracos conquistarem os holofotes.
Não estou dizendo que um herói não possa apresentar fragilidades ou desvantagens. Muito pelo contrário - acho importante que um herói tenha vulnerabilidades e pontos fracos, pois seria impossível para o público se identificar com um ser perfeito e indestrutível. Alguém infalível que realiza um grande feito não diz nada para o espectador. Só pode ser uma inspiração alguém que tenha limitações humanas naturais e mesmo assim supere essas limitações e conquiste seus objetivos. Mas há uma diferença grande entre ter limitações, fragilidades, e ser um "herói envergonhado". A principal é que, no primeiro caso, o foco está na projeção das virtudes e não na projeção das falhas - as qualidades e as conquistas do herói são dramáticas, convincentes, empolgantes, memoráveis, criativas, as fragilidades estão presentes apenas pra dar um senso de realismo e tornar a superação ainda mais intensa. Já num filme de "herói envergonhado", toda atenção é dada às fragilidades, às inseguranças, ao lado "humano" e "realista" do herói, mas nunca vemos uma apresentação dramática de suas virtudes, daquilo que faz dele digno de ser admirado (é comum essas figuras fazerem parte de um grupo, onde a atenção é diluída entre vários personagens, o foco seja o trabalho em equipe, e o protagonista não ganhe crédito demais por suas conquistas).
É importante também diferenciar entre desvantagens, fragilidades, e falhas de caráter. Enquanto desvantagens e fragilidades são aceitáveis e criam uma ponte pro espectador se identificar com o herói, falhas de caráter são no fundo uma tentativa de corromper o conceito de herói.
Outra maneira de diminuir o herói é através do uso de humor. Não que o herói não possa ser divertido ou
ter senso de humor. A pergunta a ser feita aqui é: você está rindo com o personagem ou do personagem? Não há problemas em rir de coisas que o personagem faz intencionalmente e que não diminuem sua estatura. Mas rir às custas do herói é quase sempre errado, a não ser que você esteja vendo uma paródia.
Heróis são feitos pra provocar inspiração - as crianças saem do cinema motivadas, imitando seus gestos, querendo ser como eles. Já um "herói envergonhado" é feito pra amenizar a baixa autoestima, dar um senso de conforto pro espectador, de "inclusão", dizendo que ninguém é grande demais - que todo mundo é inseguro, tem falhas, portanto não há por que se sentir inferior. O problema é que eles fazem isso de uma maneira destrutiva, mal intencionada: se você quer celebrar humildade, igualdade, o lado simples e não-heroico do ser humano, há várias formas de fazer isso sem precisar ser hostil em relação a virtudes positivas. Mas o que esses cineastas querem é contar histórias grandiosas, de superação, de integridade, de reis e princesas - ou seja, primeiro criar heróis, pra daí mostrar que eles não são tão heroicos assim. A intenção não é inspirar o fraco e dizer que ele é capaz de se superar - mas destruir o forte e trazer todo mundo pro nível do comum.
Esse elemento pode surgir de várias maneiras e em vários graus diferentes, nem sempre comprometendo o total do trabalho. Às vezes de maneira óbvia, explícita, às vezes de maneira menos evidente. Em casos onde há uma mistura de heroísmo com elementos de "herói envergonhado", meu critério final é: no fim das contas a figura é admirável? Inspira um senso de desafio, de ambição? Tem habilidades que encantam? Uma criança ficaria inspirada - gostaria de evoluir pra ser um dia como ela? Se a resposta for sim, pode ser possível perdoar o resto.

