terça-feira, 19 de dezembro de 2023

Lady Ballers

Tentativa meio frustrada do Daily Wire de fazer uma comédia besteirol estilo as do início dos anos 2000, mas pegando a polêmica "mulheres trans em esportes femininos" como tema. Vejo 3 grandes obstáculos no caminho deste projeto:

1) O meio intelectual conservador nunca foi um grande berço pra artistas talentosos, e este filme parece comandado por pessoas mais preparadas pra entregar um discurso ideológico espertinho do que pra criar um bom entretenimento.

2) Até em Hollywood, a crise de talento hoje é tamanha que nem profissionais da área conseguem mais fazer comédias besteirol no nível de um As Branquelas (filmes que na época eram considerados trash, mas que hoje por contraste já revelam certas virtudes que antes passavam despercebidas, como comentei na crítica de De Volta ao Baile). Se até os "pros" de hoje parecem amadores, que dirá pessoas sem tanta experiência na área. (Pra dar um crédito pro filme, até que ele não está tão abaixo das comédias ruins feitas em Hollywood hoje).

3) Há uma diferença entre você fazer um filme com um viés de direita, e um filme promovendo uma organização ideológica específica. Uma vez li em um livro teórico sobre comédia que "humor de direita é um oxímoro". Discordo disso em partes pois não vejo por que a direita não possa ser engraçada; consigo imaginar a cultura woke sendo alvo de uma sátira e conseguindo apelar pro público geral (me vem à mente o recente South Park: Joining the Panderverse, filmes como Trovão Tropical, o trecho de A Vida de Brian onde o Eric Idle decide virar "Loretta", e até o De Volta ao Baile, que não diverte mais por falta de qualidade do que pelo alvo das piadas em si). Mas por um lado entendo o que pode ter levado o autor do livro a afirmar tal coisa. Um pouco pode ter a ver com a natureza mais rígida e moralista da direita. Mas acho que uma questão mais fundamental aqui é: nenhum desses filmes que citei foi feito primeiramente pra promover uma ideologia, ou parece filiado a uma organização política específica, a uma sub-cultura particular, cheia de códigos internos e de valores que precisam ser defendidos em conjunto pra você fazer parte. Já o Daily Wire tem sim uma agenda ideológica, está fazendo propaganda de seu próprio movimento, e isso fica claro ao longo do filme (há participações especiais de figuras fundadoras como Ben Shapiro, Matt Walsh, Candace Owens etc.). Então o oxímoro pra mim não seria "humor de direita", e sim "entretenimento panfletário" (que valeria também pra filmes panfletários de organizações de esquerda, de religiões, de países em guerra etc.), pois a intenção de entreter, descontrair, fazer rir, é incompatível com a mentalidade de alguém agarrado a um grupo, tentando se proteger, querendo salvar a sociedade de uma ameaça iminente (neste sentido, o lado que estiver perdendo numa guerra cultural terá sempre menos chances de expressar leveza e descontração — o que estiver ganhando ainda conseguirá camuflar melhor o desespero por trás de sua militância). Toda obra de arte/entretenimento é "militante" no sentido de expressar a preferência de um artista por certos valores. Mas há uma diferença entre um artista promovendo seus valores pessoais, promovendo valores amplos e atemporais que apelam pra uma grande fatia da humanidade, de uma obra panfletária querendo lidar com crises do momento, promovendo uma doutrina específica, uma organização reconhecível na cultura. Tais grupos ideológicos são sempre sustentados por racionalizações, e quanto mais irracionais forem essas racionalizações, mais o grupo refletirá um estado de apreensão, medo, ódio, repulsa, autoenganação, que será sentido pelo espectador — e isso sim é incompatível com divertimento. Por isso todas essas tentativas de dar uma roupagem de entretenimento leve e escapista pra filmes que no fundo têm intenções panfletárias acabam resultando não só em obras não muito bem feitas (já que bons artistas são sempre escassos nos confins desses grupos) como resultam também em obras artificiais, que parecem desonestas em algum nível, disfarçando suas verdadeiras naturezas. O Daily Wire, que se revolta tanto com as crises de identidade dos outros, deveria refletir um pouco também sobre esse tipo menos óbvio de confusão de gênero.

Lady Ballers / 2023 / Jeremy Boreing

Satisfação: 3

Categoria: NI

Filmes Parecidos: O Que é uma Mulher? (2022)

segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

O Mundo Depois de Nós

Achei um desperdício pois o filme tem um bom elenco, o diretor mostra potencial (apesar do estilo exibicionista que às vezes atropela o conteúdo), a premissa é intrigante, há boas ideias de filme-catástrofe (como o acidente de navio, os veados ao redor da casa), e o filme tem aquela camada de reflexão filosófica por trás da ação física que costuma caracterizar os bons filmes do gênero. Infelizmente, não só essa camada se torna grossa demais, transformando tudo num "filme de mensagem" estilo Ruído Branco, onde os acontecimentos deixam de ser convincentes pois os personagens e eventos se tornam veículos vazios pra mensagem do autor, como além disso o cineasta não tem nada de realmente brilhante ou sólido a dizer (o que frequentemente é o caso nesse tipo de filme). Tudo se sustenta nos velhos ataques ao capitalismo e na visão pessimista da natureza humana e de futuro provocados pela ética cristã: a razão humana e o estilo de vida Ocidental são maus pois destroem a natureza, que em breve irá se "vingar" de todos nós; egoísmo é sinônimo de ser cruel com os outros; somos todos hipócritas na América pois fingimos viver de acordo com a ética altruísta publicamente (o filme usa o exemplo do canudo de papel), mas isso é tudo uma fachada, pois no fundo sabemos que somos egoístas e, portanto, pecadores.

Leave the World Behind / 2023 / Sam Esmail

Satisfação: 5

Categoria: IC

Filmes Parecidos: Batem à Porta (2023) / Ruído Branco (2022) / Tempo (2021) / Nós (2019) / Ensaio Sobre a Cegueira (2008) / O Nevoeiro (2007)

Godzilla Minus One

Melhor blockbuster do ano e um dos melhores filmes de monstro do século 21. Me lembrou um pouco o caso de Top Gun: Maverick: não é um filme que vai se destacar pela originalidade, por grandes inovações, pois ele depende em grande parte do que foi criado do passado (incluindo o ótimo tema musical do Godzilla de 1954), porém ele é realizado com tanto capricho, tanta integridade e respeito pelo material original (ignorando totalmente valores "modernos" que Hollywood se sente sempre na obrigação de abraçar), que o filme se torna uma viagem no tempo e um caso exemplar pro cinema atual.

Gojira -1.0 / 2023 / Takashi Yamazaki

Satisfação: 9

Categoria: I

domingo, 17 de dezembro de 2023

Maestro

Como mencionei na crítica de Tár, tenho uma admiração pelo Leonard Bernstein desde que vi gravações do seu Young People's Concerts em aulas na faculdade, então fui ver Maestro com um interesse especial, até por ter gostado do trabalho do Bradley Cooper como diretor em Nasce uma Estrela — e também por este ser um projeto que já esteve nas mãos de grandes nomes como Spielberg e Scorsese (que assinam aqui como produtores).

Além do tópico, o filme tem várias qualidades que o mantém interessante, apesar de alguns pontos fracos. Bradley está bem no papel (com a ajuda do trabalho mais notável de maquiagem que vi desde A Baleia), Carey Mulligan está melhor ainda, e os diálogos têm riqueza o bastante pra passar uma ideia de como seria um homem como Bernstein na intimidade (lembrando um pouco os méritos de Tár).

Porém Bradley Cooper como roteirista/diretor, pra mim parece ter deixado a pretensão subir à cabeça. Sabe aqueles cineastas prodígio tipo Orson Welles ou Francis Ford Coppola, que após algumas obras-primas, passam a se achar geniais demais para o "sistema" e começam a experimentar com a linguagem, fazendo obras menos acessíveis de propósito? É como se no 2º longa (e sem ter feito suas obras-primas ainda), Bradley já quisesse saltar pra esse estágio da carreira, e mostrar um tipo parecido de sofisticação (que pra mim é Pseudo-Sofisticação até mesmo nos casos de Welles/Coppola).

O filme tem uma abordagem semi-Naturalista que vê graça na mera reprodução do universo de Bernstein; em nos dar o privilégio de espiar a vida de um mestre por algumas horas. Por retratar um homem excepcional, bem-sucedido (em vez de uma pessoa medíocre) o filme foge do Naturalismo clássico, mas narrativamente, ele ainda não tem um senso de direção, um tema, algo a dizer sobre o personagem, e o Naturalismo se revela também nos aspectos da vida de Bernstein que o filme decide mostrar. Ao contrário de Steve Jobs (2015), que pelo menos focava em grandes momentos da carreira de Jobs (apesar de ser um filme também sem muita história, focado em caracterização), Maestro já faz um esforço grande pra não parecer uma celebração do talento de Bernstein. O fato mais conhecido de sua carreira — ele ser o compositor de West Side Story — é citado de forma tão casual que uma pessoa não familiarizada com o musical provavelmente sairá do filme sem registrar este "detalhe". O programa de TV Young People's Concerts (também um dos grandes responsáveis por sua fama) nem é citado.

Maestro está muito mais interessado no lado "humano" de Bernstein: nos problemas de seus relacionamentos íntimos, seus vícios, no fato dele ser bissexual, um homem um pouco egocêntrico, no câncer de sua esposa Felicia (que toma uma parte considerável do filme e é mostrado em mais detalhes que muitos filmes sobre doenças terminais). Não diria que a intenção do filme é manchar a imagem de Bernstein, pois há um glamour até mesmo na forma em que esses negativos são mostrados. Mas algo leva o filme a achar que pra cada virtude exibida, 3 fatos menos admiráveis sobre Leonard precisem ser incluídos pra equilibrar o resultado.

Fico me perguntando se isso é influência da ética altruísta; algo motivado por um senso de culpa, ou se é exatamente o oposto: se é a pretensão fútil de quem quer se mostrar tão superior, tão culto, tão parte da elite, que cita esses triunfos de forma casual, blasé, pois sabe que essa é a atitude de pessoas realmente sofisticadas.

Maestro / 2023 / Bradley Cooper

Satisfação: 6

Categoria: I- / NI

Filmes Parecidos: Tár (2022) / Steve Jobs (2015)

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

Wonka

Wonka / 2023 / Paul King

Categoria: Idealismo Corrompido / Anti-Idealismo

Satisfação: 3

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

Vidas Passadas


Past Lives / 2023 / Celine Song

Satisfação: 8

Categoria: Idealismo Diminuto

segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Cameo de Ayn Rand em "Past Lives"

Um detalhe no filme Vidas Passadas (Past Lives / 2023 / Celine Song) que talvez eu seja a única pessoa no mundo que reparou:


Imagino que seja algo acidental que já estava na locação (o filme não tem nada a ver com ideias de Rand). Mas ainda assim achei curioso, pois Journals of Ayn Rand é um livro que só objetivistas mais "avançados" costumam ter. Quem será o dono da casa?

sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

Melissa Barrera e Julianna Margulies - Guerra divide Hollywood


Quando a Melissa Barrera foi demitida de Pânico 7 por apoiar o lado dos palestinos na guerra Israel/Hamas (e se mostrar ser o tipo de pessoa que minha primeira impressão dela sugeriu), achei que algo de positivo pudesse estar surgindo desta divisão que a guerra provocou em Hollywood - que costuma tentar manter a imagem de uma comunidade homogênea em suas posições políticas. Podia ser a chance da esquerda se dividir, da metade mais niilista ser exposta pelo que é, e disso ajudar a encerrar o clima de polarização extrema que caracterizou os últimos 8 anos. Mas vendo a diferença entre as reações a esses dois casos, já comecei a duvidar.

Vamos acompanhar - estou curioso pra ver o que farão com a Julianna Margulies (que não falou nada de homofóbico ou racista no podcast - acabei de escutar o episódio). Talvez ela se safe por não ser associada à direita, ser anti-Trump, etc. Mas se ela tivesse sua carreira prejudicada, adoraria saber se isso seria chamado de censura também, e se ela receberia um apoio tão expressivo da comunidade artística quanto Barrera.

Napoleão


Napoleon / 2023 / Ridley Scott

Satisfação: 4

Categoria: Idealismo Crítico Imperfeito