terça-feira, 31 de maio de 2016

Jogo do Dinheiro

(Esta crítica está no formato de anotações - em vez de uma crítica convencional, os comentários a seguir foram baseados nas notas que fiz durante a sessão.)

ANOTAÇÕES:

- Alerta Vermelho: O filme quer fazer a plateia acreditar que pessoas da mídia e de Wall Street são indecentes, sem escrúpulos, mais ou menos como A Grande Aposta fez recentemente.

- Apesar dos astros, o elenco é um pouco discutível. George Clooney não convence como esse tipo de apresentador irreverente que faz dancinhas ao vivo na TV. Mesmo depois, quando ele se torna refém do terrorista, ele não parece ser o ator certo pro papel de vítima. Julia Roberts está mais adequada, mas não chega a passar o tipo de intensidade e adrenalina que uma situação dessa pediria. O terrorista já me parece simplesmente errado no papel. Parece um cara tolo, vulnerável demais, que não tem convicções fortes e não inspira uma ameaça séria.

- A motivação do terrorista é imbecil! Culpar o Clooney por causa da besteira que ele fez de apostar todo o dinheiro onde não devia. O pior de tudo é que o filme e o personagem do Clooney não tratam o terrorista como o ignorante que ele é... O filme parece achar que o argumento do criminoso é válido! Dá credibilidade e simpatiza por ele!

- A trama é ruim. Depois que o terrorista toma o estúdio, o roteiro não sabe mais pra onde ir. Não tem conteúdo pra preencher a próxima hora de filme, manter o interesse elevado. A intenção do filme é simplesmente a de denunciar o capitalismo, mas ele não tem uma boa história pra carregar essa mensagem... O filme é apenas um veículo para uma ideia tola que poderia ter sido passada através de uma frase - e refutada sem muito esforço.

- O filme fica em cima do muro. Se comporta como se fosse um thriller de sequestro por um lado (fica mostrando os avanços dos policiais, tem música de suspense, etc). Mas isso não funciona, afinal o filme no fundo está do lado do bandido. Então ele não trabalha pra fazer a gente ficar preocupado pelas vítimas, torcer por elas, criar tensão, etc... Toda essa atitude "thriller" é uma farsa (é só uma estética pra embalar a mensagem política) e acaba sendo mal feita.

- Nada realista o plano do Clooney pra virar o jogo - fazer as ações da empresa subirem ao vivo pra agradar o terrorista e salvar a própria vida. O Kyle já tinha dito que não está interessado em dinheiro. E depois o Clooney comparando a vida dele com a do Kyle no monitor pra ver qual tem mais valor. Todos os acontecimentos do filme são forçados. As pessoas se comportam de maneira irreal pra encher linguiça e pra validar a mensagem do filme. A própria ideia de uma "pane" no sistema fazer 800 milhões de dólares sumirem já é um absurdo e não corresponde a coisas que acontecem normalmente na economia.

- Desde o começo do filme a polícia parece estar "chegando" no estúdio, se preparando pra algo. Já passou 1 hora e eles ainda estão chegando pra fazer algo que não entendo.

- SPOILER: Clooney e Kyle saírem do estúdio pras ruas é uma manobra forçada e irreal do roteiro! Até parece que eles estariam andando pelas ruas com uma bomba amarrada no corpo, e multidões estariam querendo se aproximar deles, vibrando, inclusive famílias, crianças - e ainda apoiando o terrorista!

- SPOILER: Claro, o vilão tinha que ser o empresário bilionário... Que não só é bandido, como também trai a esposa! O estranho é que isso vai um pouco contra a ideologia anticapitalista do filme, pois joga a culpa em 1 caso isolado de um homem corrupto e não em todo o sistema econômico como de costume.

- Até parece que eles iam conseguir desvendar o crime do empresário tão rápido. A cena em que a Julia Roberts digita "Mambo" + "África do Sul" no Google e descobre tudo acho que é uma das coisas mais burras que já vi num filme. Todo filme com ideologia anticapitalista costuma demonstrar inteligência limitada até certo ponto, mas este aqui realmente leva a coisa pra um outro nível.

- SPOILER: O desfecho todo é patético. Clooney e Kyle conseguindo pegar o bilionário de surpresa, ele admitindo que o que fez é errado, o terrorista virar um mártir e se tornar querido pela população - enquanto o bilionário é ridicularizado nas redes sociais, etc.

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CONCLUSÃO: Um roteiro estúpido (do mesmo autor de Neve pra CachorroOperação Dumbo e Táxi com a Gisele Bundchen), mal dirigido, feito apenas pra expressar as ideias emoções anticapitalistas de Jodie Foster e George Clooney.

Money Monster / EUA / 2016 / Jodie Foster

FILMES PARECIDOS: A Grande Aposta / O Lobo de Wall Street / Um Dia de Cão / Rede de Intrigas (sem querer comparar em termos de qualidade com esses 2 últimos)

NOTA: 2.5

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Alice Através do Espelho

NOTAS DA SESSÃO:

- Alice virou capitã de navio?? Usa roupas chinesas? Que bizarro, isso não parece ter nada a ver com o universo da história original! A sequência de ação inicial no mar é forçada e desnecessária.

- Gosto da atriz Mia Wasikowska, visualmente o filme é atraente e parece caro (como tudo da Disney).

- É criado todo um interesse no início do filme (Alice querendo ser capitã do navio, os problemas legais com o ex-noivo, os conflitos com a mãe, etc), mas depois, quando Alice atravessa o espelho e vai pro outro mundo, isso tudo é esquecido e se revela ser inútil pra história! A missão dela é completamente nova.

- A chegada / apresentação do mundo Subterrâneo e o reencontro com os antigos personagens é fraca, apressada, sem impacto. Eles mal dão "oi" e já estão explicando o que Alice deve fazer, etc.

- Acho Johnny Depp ruim nesse papel e Anne Hathaway também (assim como no primeiro filme, parece que esqueceram de avisá-la que ela não está em uma paródia).

- Excesso de fantasia: o filme já começa em Londres há séculos atrás, daí Alice entra no espelho e vai pra outro mundo, daí entra numa porta e cai do céu em outro mundo, daí entra num relógio e vai pra outro mundo. Não há magia nenhuma nisso. A magia acontece quando há um contraste entre o realista e o fantástico.

- O objetivo da protagonista é fraco. Não parte de um desejo pessoal e importante. É apenas uma missão caridosa pra ajudar o Chapeleiro Maluco.

- Esse universo dentro do relógio é muito feio. O personagem do Sacha Baron Cohen, as criaturas... E a trama é péssima. Alice é totalmente imoral por roubar a Cronosfera - colocar em risco o universo inteiro e a vida de todos só pra ajudar seu amigo Chapeleiro que anda meio deprimido. Essa trama do Chapeleiro é muito mal construída. Não estamos interessados nisso. Era mais envolvente o conflito apresentado antes da Alice atravessar o espelho.

- As ideias do filme sobre viagem no tempo são confusas, mal formuladas. Não é uma dessas tramas engenhosas, com sacadas lógicas e inteligentes, das quais a gente pode tirar alguma satisfação intelectual.

- O filme é um desastre. Uma sequência ruim após a outra (a coroação da rainha, a história dela bater a cabeça quando criança e isso arruinar sua vida, Alice acordar num manicômio e ter que fugir) e tudo isso motivado pelo objetivo péssimo da personagem de voltar no tempo pra ajudar o amigo.

- O filme acha que ser otimista é o mesmo que acreditar no impossível, no ilógico, ter fé em qualquer coisa sem nenhuma prova. Alice, segundo o Chapeleiro, é uma boa pessoa apenas quando não questiona nem duvida de nada.

- SPOILER: A ação no final (a ferrugem consumindo o mundo) é tão forçada e irreal que deixa a plateia alienada. E os esforços de Alice aqui não são pra realizar algo interessante, de interesse da plateia, mas apenas pra consertar a besteira que ela fez ao roubar a Cronosfera - algo que se provou desnecessário, afinal o passado não pôde ser alterado (ou quase) e os pais do Chapeleiro estavam vivos esse tempo todo. Ela nem consegue salvar o mundo por méritos próprios no clímax... É pura sorte o fato da Cronosfera cair no lugar certo e voltar à ativa.

- SPOILER: Que chatice, a história é uma zona e no fim é tudo pra passar a mensagem sentimental de que o que mais importa na vida é sermos aceito pelos outros - em particular pelas figuras "opressoras" em nossas vidas. A rainha cabeçuda recebe o perdão da bela irmã que a magoou. O Chapeleiro rejeitado recebe o perdão do pai autoritário. E ainda há a mensagem altruísta de que a única coisa que conta na vida é o que fazemos pelos outros. O filme não é nem um pouco sobre superação, sobre Alice atingir seu sonho de ser capitã de navio e se tornar uma mulher independente. Isso foi apenas uma oportunidade pro filme fazer uma homenagem solta ao feminismo. Nem existia na história original de Lewis Carroll pelo que sei. Vou até dar um Alerta Vermelho aqui pro roteiro, pela vilanização do dinheiro, dos homens de negócios, e pelas mensagens subjetivistas anti-razão (a ideia de que sonho e realidade são a mesma coisa, que devemos acreditar no ilógico, etc).

CONCLUSÃO: Superficialmente o filme funciona: tem um visual caprichado, uma protagonista simpática, um ritmo estimulante, está em harmonia com a cultura pop atual... Mas por baixo disso há um roteiro realmente feio e ordinário.

Alice Through the Looking Glass / EUA / 2016 / James Bobin

FILMES PARECIDOS: Peter Pan (2015) / As Crônicas de Nárnia (série) / Piratas do Caribe (série)

NOTA: 4.0

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Emoções e Relações Entre Acordes

Música é algo complexo e existem vários elementos que podem fazer a gente gostar mais ou menos de uma música: a estrutura, o ritmo, a melodia, a interpretação, o arranjo, a letra, o artista, etc. Mas pra mim nada é mais fundamental do que a progressão de acordes. Como discuto no capítulo sobre Música do meu livro (recomendo que leiam!) os acordes se comunicam com nosso cérebro num nível primário, animal, que até um bebê entende, da mesma forma que ele entende a diferença entre sabores doces e amargos desde os primeiros meses. São as mudanças de acordes que, acima de tudo, definem a emoção e o Senso de Vida básico que uma música está transmitindo. Elas não determinam a qualidade estética da música, mas fazem com que a gente se identifique ou não com ela num nível emocional: se a música apresentar níveis de doçura/amargura, harmonia/desarmonia, prazer/contenção que refletem nosso Senso de Vida pessoal, ficaremos tocados e estaremos mais abertos a apreciar suas outras qualidades. Abaixo está a tabela (ainda em fase experimental) que há alguns anos eu uso para classificar mudanças de acordes:


Entendendo a tabela:

Os números e letras na borda preta são só para podermos nomear cada célula.

A coluna cinza indica a distância relativa entre o primeiro acorde e o acorde seguinte. Embora existam muito mais do que 3 tons numa escala, só é necessário ir até 3 tons pra cobrir todas as mudanças de acordes possíveis, afinal, se você sobe 3 tons e meio, você cai no mesmo acorde que cairia se tivesse descido 2 e meio. 

As bolinhas com os sinais de + e - indicam se você está indo de um acorde maior para um outro maior, de um maior para um menor, de um menor para um maior, ou de um menor para outro menor.

As flechas entre as bolinhas indicam se você está subindo tons (quando apontadas para cima) ou descendo tons (quando apontadas para baixo). Entre 2 acordes maiores e 2 acordes menores tanto faz se você está subindo ou descendo tons, a emoção que a mudança causa é praticamente idêntica, por isso as flechas estão na horizontal funcionam nas duas direções nas colunas 1 e 6.

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Obviamente acordes não se dividem apenas entre maiores e menores, mas estes são os mais elementares e os mais usados na música popular. Com essa tabela, é possível visualizar todas as possíveis mudanças entre esses acordes básicos.

O significado das cores:

- As células em VERMELHO indicam as mudanças de acordes mais puras e extasiantes. São as relações que transmitem beleza, harmonia, prazer, felicidade, intensidade, êxtase, grandiosidade, esperança, inocência - todos os sentimentos mais puros e positivos. Elas não são todas iguais, claro. A célula Y1 é a que eu chamo de "êxtase" por exemplo. A V1 eu chamo de "inocência" ou "esperança" dependendo do contexto. Cada célula tem sua característica própria e seria necessário uma postagem muito maior pra descrever cada uma com suas sutilezas. Isso é apenas um guia geral. 

- As células em ROSA são mudanças também harmoniosas, prazerosas, mas não tão puras quanto as vermelhas. São boas para versos, conexões e instantes onde você quer manter um clima positivo mas sem utilizar os sentimentos mais extremos.

- As células em VINHO criam um clima denso de drama, conflito e seriedade.

- As células em ROXO trazem um sentimento de melancolia e desencanto.

- As células em AZUL CLARO são relações especiais que trazem um ar de surpresa e mudança de atmosfera, e portanto não devem ser usadas em excesso.

- As células em LILÁS estão no meio do caminho entre algo harmonioso e algo desarmonioso e servem mais como conexões do que como algo prazeroso em si.

- As células em VERDE são um tanto desarmônicas mas são úteis pra se criar um clima de tensão extrema e um desejo por resolução.

- As células em CINZA ESCURO são mudanças que considero dissonantes e inapropriadas.

Mudanças de acordes transmitem emoções e valores através de padrões sonoros. Que tipo de padrão mais irá te atrair depende em grande parte de seu Senso de Vida e de seus valores e necessidades emocionais mais fundamentais.

Isso é apenas uma rápida introdução ao tema. É algo que eu uso pessoalmente pra compreender melhor o efeito da música em mim e nunca tinha antes compartilhado com outras pessoas. Achei que seria legal postar aqui pra ver se essas ideias fazem sentido pra mais alguém.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

X-Men: Apocalipse

NOTAS DA SESSÃO:

- A sequência inicial na pirâmide é um pouco feia e artificial (o excesso de CGI, a ação exagerada, etc).

- O elenco é incrível. James McAvoy sempre carismático, Jennifer Lawrence está ótima com esse cabelo anos 80, Michael Fassbender consegue melhorar qualquer filme só por estar nele...

- Por que o Apocalipse acorda justo nos anos 80 após séculos dormindo? Não fica muito bem explicado o que o fez acordar. De qualquer forma, é divertido ele saindo pelas ruas do Cairo e interagindo com as pessoas. O filme tem um tom bem mais "fun" que outros da Marvel como Capitão América: Guerra Civil, Vingadores, etc, e também que X-Men: Dias de um Futuro Esquecido, onde eu reclamei que havia um clima sério e burocrático o tempo todo.

- A trama parece um pouco arrastada no começo. Sabemos que irá acontecer algo dramático mais pra frente, quando o Apocalipse se encontrar com o Xavier e os outros mutantes, mas até lá, os protagonistas não têm coisas muito interessantes pra fazer (precisam achar a Moira, depois vão atrás do Magneto, etc). Ainda assim, a história é melhor que a do último, até porque o vilão tem mais personalidade e é uma presença mais ameaçadora na história. A cena do encontro entre o Apocalipse e o Magneto na fábrica é boa!

- Boa a cena em que o Xavier e o Apocalipse se "conectam" através do Cérebro / o lançamento das bombas / o primeiro encontro entre os 2 times. As coisas estão realmente se intensificando e caminhando pra um final satisfatório, diferente do último filme.

- A direção aqui é clara, as ideias são bem comunicadas, ao contrário da maioria dos filmes do gênero (que costumam me provocar um caos mental). Por exemplo: a cena em que o Xavier manda a mensagem telepática oculta pra Jean Grey através do Apocalipse. Já tinha dado pra entender o que aconteceu (a sequência foi bem editada e é já tinha ficado claro quais os poderes desses personagens), mas ainda assim o filme garante que o espectador entendeu tudo através de um diálogo posterior.

- SPOILER: Muito boa a aparição do Wolverine!! A câmera começando nos pés dele e subindo... E depois a sequência dele matando todo mundo.

- O roteiro não é dos mais enxutos. Muita coisa acontece que você não sabe se é necessária pra trama principal. Ainda assim, não há sequências chatas e que soam totalmente descartáveis.

- Cena da Mística no avião conversando com os aprendizes: é por esse e outros detalhes que digo que esse filme tem um tom mais positivo - que os personagens e as relações não são desagradáveis, apenas de rivalidade e desentendimento como de costume.

- Há umas sequências bem grandiosas de efeitos especiais: a construção da mega pirâmide, Magneto começando a destruir o mundo (a Opera House em Sidney, etc).

- SPOILER: No último X-Men, a missão deles era apenas impedir a construção dos Sentinelas, o que gerou um clímax fraco. Aqui é tudo muito mais épico: o Apocalipse tentando passar pro corpo do Xavier (e matá-lo), a humanidade inteira prestes a ser destruída, etc. Coisas realmente decisivas estão acontecendo.

- SPOILER: Legal a luta "mental" final entre Xavier e Apocalipse (e a história da Jean poder ajudá-lo por também ter esse tipo de poder telepático). No entanto, algumas coisas me desagradam um pouco: acho que faltou um motivo melhor pro Magneto mudar de lado e decidir ajudar os X-Men, e além disso faltou um momento de destaque pro Xavier, pois no fim ele é salvo pela Jean e fica essa mensagem de que o importante é o trabalho em equipe, etc. Também acho que devia ter sido explicado melhor de onde vem esse super-poder da Jean Grey que faz ela destruir o Apocalipse.

CONCLUSÃO: Um dos mais legais da Marvel.

X-Men: Apocalypse / EUA / 2016 / Bryan Singer

FILMES PARECIDOS: X-Men: Dias de um Futuro Esquecido / Wolverine: Imortal

NOTA: 7.0

segunda-feira, 16 de maio de 2016

O Maior Amor do Mundo

NOTAS DA SESSÃO:

- O filme conta várias histórias paralelas, mas individualmente nenhuma delas é interessante. Esse tema do dia das mães também é uma chatice sem fim. Ninguém no filme tem grandes objetivos, conflitos... A proposta do filme é apenas mostrar o cotidiano de jovens pais, como se fosse um vídeo educacional pra pessoas que pensam em ter filhos.

- Os personagens e os diálogos são extremamente superficiais e sem graça. Parece uma conversa de elevador interminável. As pessoas estão o tempo todo fazendo comentários sarcásticos a respeito de atualidades como Twitter, iPhone, Skype, Snapchat, como se isso transformasse o filme numa crítica inteligente e moderna à sociedade.

- O filme parece incerto quanto a ser ou não uma comédia. As freiras na academia, o útero gigante - alguns elementos parecem ser uma tentativa de se fazer um humor mais subversivo e nonsense tipo Os Simpsons, mas que fica tímido e não se encaixa num universo tão convencional.

- O personagem da Julia Roberts é completamente descartável. Nem sei o que ela está fazendo nesse filme. O fato de uma vendedora de TV como ela ser vista como uma celebridade apenas revela o quão tediosos são os personagens e o universo todo do filme.

- Tudo é um clichê: o pai que não sabe lidar com a menstruação da filha adolescente, a Jennifer Aniston ameaçada pela esposa jovem e sexy do seu ex, a caixa do supermercado que constrange o cliente ao anunciar algo íntimo no microfone, etc, etc.

- A história não tem nenhum propósito, não caminha pra nenhuma resolução de conflito, pra nenhuma satisfação de algum desejo, apenas mostra o dia a dia banal dessas pessoas. O prazer aqui parece ser o de reafirmar o status-quo. Pregar um estilo de vida "normal" para pessoas "ajustadas", que conseguem viver no mundo moderno (ou seja, "até aceitam" que existem gays, estrangeiros e coisas mais "diferentes") desde que não tenham que romper com os valores tradicionais.

- Esse casal lésbico é a coisa mais artificial que eu já vi. Uma tentativa do filme parecer liberal que acaba apenas revelando o quão limitada é sua visão de mundo. Sem falar que é tudo mal explicado. Como é que os pais dessas personagens não sabem de nada a respeito da vida das filhas? Que uma é lésbica, que a outra se casou com um indiano e teve filho?

*** DESISTI E FUI EMBORA DO CINEMA ***

Mother's Day / EUA / 2016 / Garry Marshall

FILMES PARECIDOS: O Que Esperar Quando Você Está Esperando / Noite de Ano Novo / Idas e Vindas do Amor

NOTA: 2.0 ~ 3.5
(como não vi o filme até o fim, isto é apenas um chute)

sábado, 14 de maio de 2016

Angry Birds: O Filme

O filme é tão medíocre que nem me parece digno de uma crítica. Postei recentemente no Instagram esta citação do Stanislavski (se referindo a atores e a teatro) mas que me parece apropriada nesse contexto:

"O teatro, devido ao seu caráter público e espetacular, atrai muitas pessoas que querem apenas capitalizar sua beleza ou fazer carreiras. Aproveitam-se da ignorância do público, de seu gosto deturpado, favoritismo, intrigas, falso sucesso e muitos outros expedientes, que não têm relação alguma com a arte criadora. Tais exploradores são os inimigos mortais da arte."

Personagens mal construídos, uma história tola e vazia, clichês, piadas sem inteligência, tudo isso abraçando os valores decadentes da atualidade, promovendo mediocridade e feiura. Angry Birds é um produto desses exploradores também, que viram no cinema uma oportunidade pra ampliarem suas fortunas e, em vez de criarem algo genuíno, divertido e respeitoso ao público, simplesmente copiaram, seguiram fórmulas preguiçosas, e fizeram o mínimo necessário pra lucrarem em cima da ignorância e falta de senso crítico das crianças.

The Angry Birds Movie / Finlândia, EUA / 2016 / Clay Kaytis, Fergal Reilly

FILMES PARECIDOS: Minions / Cada Um Na Sua Casa

NOTA: 2.5

quinta-feira, 12 de maio de 2016

O Dono do Jogo

NOTAS DA SESSÃO:

- Meu grande problema com o filme é que o protagonista acaba não sendo uma figura gostável. Ele apenas teve a sorte de nascer com uma habilidade pro xadrez (e habilidades inatas não me inspiram como espectador, afinal não há nada que eu possa fazer pra ser mais como o herói), e jogar xadrez não chega a ser uma virtude importante, que o torna admirável como pessoa. Pelo contrário. Ele é extremamente arrogante, agressivo, problemático, e usa a superioridade dele nesse jogo como motivo pra rebaixar os outros.

- A falta de dificuldades e limitações no jogo também tornam a história fraca, pois faltam conflitos pra Bobby. Ele já sabe que é o melhor do mundo desde o começo, e só precisa mostrar isso pra impressionar os outros. Não tem nada interessante a superar.

- Partidas de xadrez não são coisas cinematográficas. Em filmes de esporte, pelo menos há certo suspense em acompanhar a disputa, pois você pode enxergar o que está acontecendo, se envolver na ação. Aqui, a gente não tem ideia do que os personagens estão fazendo. O que cada movimentação significa. Se eles fazem uma jogada de mestre, a gente só sabe disso pelas reações e comentários dos espectadores. Nós nunca de fato vemos o protagonista fazer algo incrível. Nossas reações são todas de segunda mão.

- Bobby é ridículo. A motivação dele claramente é a de derrotar os outros. Ele não quer criar algo, não quer se desenvolver, não quer trazer algo de positivo para o mundo. Como ele mesmo diz, o prazer dele está em destruir o ego dos outros. Vibrar enquanto seu oponente é derrotado e humilhado, o que é uma motivação horrorosa.

- Acho tola essa forma de patriotismo: a ideia de que a vitória de Bobby no xadrez mostraria que os EUA são melhores que a Rússia enquanto nação.

- Detesto esses personagens coadjuvantes que só servem pra puxar saco de Bobby, serem humilhados, e ainda assim se mostrarem perplexos com a superioridade dele. O filme não tem consciência de que Bobby não é uma figura inspiradora. O cineasta, com essa história, parece querer se convencer de que, quando você é muito habilidoso em alguma coisa - qualquer coisa - isso te garante o respeito e admiração de todos, mesmo que você seja uma pessoa desagradável.

- O final todo é chato pelo motivo que citei antes: as partidas de xadrez só fazem sentido através das reações dos personagens. Nos temos que reagir a reações, e não a fatos, o que torna tudo tedioso.

CONCLUSÃO: O personagem pouco carismático, sem muitos conflitos, e as partidas de xadrez incompreensíveis tornam o filme fraco apesar da produção ser respeitável.

Pawn Sacrifice / EUA, Canadá / 2014 / Edward Zwick

FILMES PARECIDOS: Steve Jobs / The Beach Boys: Uma História de Sucesso / Uma Mente Brilhante

NOTA: 5.5

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Capitão América: Guerra Civil

NOTAS DA SESSÃO:

- As sequências de ação/luta são desinteressantes, não têm nada de atraente em termos de coreografia, fotografia, direção, conceito, etc.

- Cai na categoria Mentalidade Clichê.

- Legal o efeito especial do Robert Downey Jr. jovem! O elenco é forte pela quantidade de astros, etc.

- Acho uma bobagem toda essa ideia de que os Vingadores mataram inocentes. Eles apenas protegeram as pessoas de criminosos que, se deixados livres, teriam causado um estrago incrivelmente maior. A culpa pela mortes acidentais é dos vilões, e não dos que estão defendendo a população (é o que disse recentemente em Decisão de Risco). Nesse ponto o Capitão América está certíssimo. Pior ainda é a ideia de que os heróis, por serem poderosos, atraem desafios, conflitos, portanto são indiretamente culpados pelas mortes. Ou seja, vamos todos ser medíocres, comuns, fracos, assim não chamamos atenção de ninguém, não criamos rivalidades, não atraímos criminosos, e a população fica mais segura (!).

- Ainda assim, acho válido o debate de que os heróis deviam cooperar com o governo e não se colocar acima dele nessas questões de segurança pública.

- Legal a cena do atentado em Viena (que leva o Black Panther a mudar de lado e buscar vingança pela morte do pai).

- O filme tem mentalidade de série de TV e não apresenta os personagens direito pra gente relembrar da história. Já nem sei direito como era a relação entre o Capitão América e o amigo Barnes, como funciona o Winter Soldier, etc. Muitas coisas são mal explicadas e prejudicam a narrativa.

- Assim como em Batman vs Superman, me irrita essa ideia de colocar os heróis uns contra os outros, tornar as relações conflituosas, etc. Sem falar nessa coisa anti-individualista de fazer filmes sobre "grupos de super-heróis". Ninguém parece "super" nesse contexto, o que tira toda a graça da história. Parece forçado também trazer o Homem-Aranha, o Homem-Formiga pro filme... Não soa como uma estratégia brilhante e necessária, e sim como uma forma de arrancar uns suspiros fáceis dos fãs.

- Um tédio a sequência de luta no aeroporto. A rivalidade entre os 2 grupos não é forte o bastante, não podemos torcer plenamente pra nenhum dos lados, em termos de direção é tudo muito preguiçoso e caótico, me irrita eles destruindo desnecessariamente tanta propriedade privada, aviões, etc, o humor constante quebra a seriedade do momento (principalmente os comentários do Homem-Aranha), muitas coisas que acontecem não fazem muito sentido... Achei divertido o Homem-Formiga ficar gigante, mas por exemplo: por que ele é derrotado pelo Homem-Aranha simplesmente por cair no chão? É o tipo de filme que só funciona quando visto com a mente fora de foco.

- A briga final entre o Capitão América e o Homem de Ferro também é uma bobagem. Por que o Homem de Ferro não entende que não foi o Barnes que matou os pais dele... mas que a mente dele estava sendo controlada pela Hydra?

- O vilão do filme é fraco, pouco presente. A motivação dele é bem clichê: mataram pessoas que ele amava agora ele quer vingança! Só que os pais dele não foram mortos de propósito pelos Vingadores, foi tudo um acidente, então é uma vingança superficial. Os conflitos mais fortes da história são entre os heróis, só que esses conflitos não gerariam toda essa guerra se o roteiro fosse mais plausível.

CONCLUSÃO: O mesmo "nada" cinematográfico da maioria desses filmes do gênero.

Captain America: Civil War / EUA / 2016 / Anthony Russo, Joe Russo

FILMES PARECIDOS: Vingadores: Era de Ultron / Homem-Formiga / Capitão América 2: O Soldado Invernal

NOTA: 4.5

quarta-feira, 27 de abril de 2016

A Juventude

NOTAS DA SESSÃO:

- Assim como A Grande Beleza, o filme impressiona logo de cara pela excentricidade, pela originalidade, e também pela beleza das locações e da fotografia. O elenco é ótimo.

- Muito bom o diálogo entre o Michael Caine e o Paul Dano sobre eles terem ficado famosos pelo "crime" de terem feito trabalhos mais leves e populares em algum ponto da carreira. Não gosto da oposição dos personagens (e do filme) ao entretenimento, mas acho inteligente o texto e os personagens são muito bem construídos.

- Meu problema com o filme é o seguinte: ele é inteligente, tem ótimos atores, cenas interessantes, mas o Senso de Vida é deprimente: pra começar ele se passa num lugar onde "ex-glamourosos" e "ex-felizes" vão quando estão decadentes; além disso, ele reforça a ideia de que intelectuais são necessariamente deprimidos e de que pessoas felizes são necessariamente fúteis (e jovens!). Retrata a vida como um grande problema, uma experiência trágica onde sempre haverá algo de essencial faltando.

- Falta um propósito maior: algo que nos faça ter interesse pela história como um todo e não apenas pelo que está imediatamente acontecendo na tela. Ainda assim, isoladamente todas as cenas são interessantes.

- Divertida a cena da Miss Universo dando lição de moral no Paul Dano! Rs. É interessante o filme ter consciência de que sua filosofia cínica não é necessariamente racional. Nessa cena em particular o filme vai contra sua premissa básica de que pessoas positivas são ignorantes, e acaba ganhando um pouco mais da minha simpatia.

- A locação é realmente fantástica! Onde eles acharam esse hotel?

- Idealismo Corrompido: embora o filme esteja mais do lado do Naturalismo, ele ressente isso e inveja artistas que estão do outro lado. Em alguns momentos, ele chega a brincar com o universo do Idealismo, mas sem se levar a sério. Esse é o tema central do filme e o drama principal do personagem do Michael Caine. É uma discussão interessante mas que não chega a ser desenvolvida numa boa história. Em vez de um filme, é como se a gente estivesse assistindo o cineasta ensaiando se vai fazer um filme de verdade ou não, tentando decidir se de fato cria a "magia do cinema" pra plateia, ou se apenas fica filosofando sobre seus conflitos internos - e faz disso o filme (que é o que ele acaba fazendo).

- Forte a cena com a Jane Fonda! Adoro a honestidade brutal dela ao criticar os filmes do Harvey Keitel (que de fato não parecem muito bons).

- Legal a aparição da rainha no final. É surpreendente o filme de fato apresentar as Simple Songs e satisfazer essa curiosidade da plateia - em vez de deixar a música só na nossa imaginação.

CONCLUSÃO: Tão divertido quanto pode ser um filme sobre decadência e vazio existencial.

Youth / Itália, França, Reino Unido, Suíça / 2015 / Paolo Sorrentino

FILMES PARECIDOS: Anomalisa / The Lobster / O Homem Irracional / A Grande Beleza

NOTA: 7.0

terça-feira, 26 de abril de 2016

Amor por Direito

NOTAS DA SESSÃO:

- É um dos raros romances gays que eu vejo onde a história é contada de uma maneira relativamente universal: onde mesmo você não sendo lésbica, é possível você se identificar com romance, entender a conexão entre as 2... Não se trata de atração sexual, mas de 2 pessoas que se complementam em termos de temperamento, qualidades, etc (mesmo assim, na primeira cena de beijo, uma família mais "simples" que estava no cinema perto de mim levantou e foi embora, rs).

- As personagens têm bom caráter, a relação é positiva e a Ellen Page e a Julianne Moore estão ótimas.

- Divertida a maneira como a Ellen Page descobre que a Julianne Moore é policial.

- Ao contrário de Carol, onde o filme foca apenas no relacionamento e nada mais parece acontecer, aqui o roteiro equilibra vários temas, tornando a narrativa mais interessante: o desenvolvimento do romance, a trama policial, a questão do preconceito no trabalho, a saúde da Julianne Moore, e finalmente a questão do casamento gay que é a discussão principal do filme.

- Parece um estereótipo uma lésbica trabalhar como mecânica e a outra como policial. Mas como a história é verídica a gente aceita, rs. Engraçada a cena da Ellen Page competindo com o outro mecânico pra ver quem troca as rodas mais rápido.

- De novo filme da Julianne Moore com doença terminal?? Pelo menos, assim como em Para Sempre Alice, o filme consegue contar a história com uma atitude positiva, sem apelar pro desagradável.

- Politicamente o filme também é corretíssimo. Não é como As Sufragistas, que apesar de defender uma boa causa, acaba sendo desonesto e imoral. Aqui elas simplesmente buscam o que é justo, de maneira pacífica, responsável e inteligente, sem distorcer a realidade e sem caracterizar os conservadores como monstros sanguinários.

- O elenco todo está bem, inclusive Michael Shannon, Steve Carell e Josh Charles (que eu não via no cinema acho que desde Três Formas de Amar).

- O filme é convencional, previsível, lembra outros filmes com tema semelhante, não tem nada de extremamente original, etc. E a história não é das mais dramáticas, talvez pelo conflito não ser tão intenso; os "vilões" da história são apenas pessoas um pouco indecisas - não é um duelo épico entre pessoas de valores opostos. Ainda assim a história é bem contada e a maneira como elas vão virando o jogo é satisfatória e agradável de acompanhar.

- Os personagens transmitem um senso de integridade que é um prazer de assistir. Por exemplo: o policial que, após a resistência inicial, decide sair do armário pra apoiar a Julianne Moore... Ou o detalhe do Josh Charles, que "vaza" a informação de que algumas pessoas recebem múltiplas pensões, mas depois quando confrontado pelos freeholders, admite que foi ele mesmo quem vazou sem hesitar.

- SPOILER: Apesar de previsível, o final é emocionante... E além da vitória, há a surpresa da Julianne Moore realizar seu sonho de virar tenente antes de morrer.

CONCLUSÃO: O roteiro é convencional mas o filme se destaca pelas ótimas performances, pelos valores positivos e pela sensibilidade no retrato do romance.

Freeheld / EUA / 2015 / Peter Sollett

FILMES PARECIDOS: Spotlight - Segredos Revelados / A Garota Dinamarquesa / Para Sempre Alice / Milk - A Voz da Igualdade

NOTA: 7.5