quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Saint Laurent

- Bom o começo mostrando os detalhes da confecção das roupas, o perfeccionismo de Yves. Ao mesmo tempo, ele é apresentado como como uma pessoa ligeiramente antipática.

- Produção decente (boa fotografia, figurinos, elenco, etc).

- O que tem a ver a montagem mostrando os acontecimentos políticos da época? Ficou algo solto, sem relação com o resto do filme.

- Caracterização de Yves é superficial. O que o motiva? O que ele quer expressar com suas roupas? O filme não nos faz conhecê-lo. É um retrato externo de um estilo de vida superficial, vazio, de pessoas cínicas e entediadas.

- Quase todos os personagens coadjuvantes são anônimos, distantes, mal apresentados. O filme dá a sensação de entrar numa festa errada onde você não foi convidado e não conhece ninguém.

- Embora não seja americano, o filme segue a tendência das biografias ofensivas. O desejo do cineasta parece ser o de mostrar a podridão por trás do sucesso, do talento... de igualar genialidade a perturbação mental, de mostrar pra plateia que talento é algo aleatório que não está ligado a virtudes, a esforço, etc.

- Não há história. Por que retratar esse período específico da vida de Yves e não qualquer outro? O que de importante está acontecendo com ele? O filme é cheio de cenas chatas, desnecessárias, que não levam a lugar nenhum e nem revelam algo de interessante a respeito do personagem. O filme é uma celebração do mundo das aparências, das drogas, do sexo casual (e não é uma condenação desse estilo de vida - os personagens são glamourosos).

- Final é interminável e vai ficando cada vez mais monótono, sem ritmo, fragmentado, tedioso.

- Roupas do desfile final são muito bonitas. A melhor coisa do filme é o figurino, sem dúvida.

CONCLUSÃO: Biografia longa e fútil de Saint Laurent que foca no lado decadente do personagem e carece de história.

(Saint Laurent / França, Bélgica / 2014 / Bertrand Bonello)

FILMES PARECIDOS: Coco Antes de Chanel / Os Sonhadores

NOTA: 3.5

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Boa Sorte

- Direção de atores não é muito boa. Deborah Secco e Fernanda Montenegro seguram, mas o garoto principal e o resto do elenco não convencem muito bem.

- Nível geral do filme é baixo - tecnicamente não há nada de especial, os diálogos são ruins, os personagens são fracos, a psicologia é superficial, não há um drama envolvente, cenas memoráveis, etc.

- Retrato naturalista de pessoas decadentes, vivendo num lugar horrível e sem objetivos interessantes. E pra piorar o filme mostra os personagens com simpatia, como se eles fossem pessoas interessantes ou "descoladas" no mínimo.

- A conexão entre os dois não é muito profunda ou fascinante, a impressão que dá é que eles se uniram pela solidão mesmo, não por reais afinidades.

- Nojento mostrar os dois se beijando na boca logo depois da cena em que a personagem aidética é vista tossindo sangue.

CONCLUSÃO: Filme pobre tanto em técnica quanto em conteúdo que tenta ganhar alguma relevância apelando para o negativo e deprimente.

(Boa Sorte / Brasil / 2014 / Carolina Jabor)

FILMES PARECIDOS: O Azul É a Cor Mais Quente, Paraísos Artificiais.

NOTA: 2.0

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Jogos Vorazes: A Esperança - Parte 1

- Um pouco confuso o começo pra quem não lembra bem da última parte.

- 40 minutos de filme e ainda não há um gancho dramático. A trama é burocrática, chata, não há uma meta interessante, suspense, ação, romance. O que prende a atenção é mais o fato do filme ser uma produção cara, ter uma atriz forte no papel principal, um tom sério, mas não há um bom roteiro de fato sustentando isso tudo.

- O filme parece focar numa discussão política, mas na realidade não diz nada de concreto a respeito de política (exceto que uma ditadura é ruim, o que é meio óbvio). Tanto a direita quanto a esquerda poderão aproveitar o filme e achar que no fundo ele defende os seus ideais (na minha visão, ele está sutilmente mais em sintonia com a esquerda).

- Não foi a Katniss que derrubou a aeronave em cima do hospital?? Ficou confusa essa parte.

- Outra parte confusa: os rebeldes cometem suicídio em massa só pra explodir a hidrelétrica???

- O filme foca muito no negativo - no sofrimento, na dor, no dever. Das "10 tendências irritantes em Hollywood", o filme segue pelo menos umas 5. Pra um dos filmes mais comerciais e "pop" do ano, ele é incrivelmente anti-entretenimento, anti-prazer. A preocupação parece ser mais a de soar "sério" e "respeitável".

- A heroína não tem 1 desejo próprio, o que a torna pouco interessante. Ela parece estar apenas a serviço dos outros, sem nenhum interesse pessoal (tudo o que ela faz é pelo povo, pela irmã, nem mesmo o romance com Peeta parece ser algo que ela deseja com intensidade).

- SPOILER: Surpreendente o ataque do Peeta, embora seja um susto meio barato (ele simplesmente estava drogado - jamais teria feito aquilo em sã consciência).

CONCLUSÃO: Produção respeitável porém pouco divertida, pouco surpreendente, sem muita originalidade, que foca mais no aspecto político da história, mas não diz nada de interessante a respeito disso.

(The Hunger Games: Mockingjay - Part 1 / EUA / 2014 / Francis Lawrence)

FILMES PARECIDOS: Maze Runner, O Doador de Memórias, Divergente, Harry Potter, etc.

NOTA: 6.0

sábado, 15 de novembro de 2014

Debi & Lóide 2

- Ótima a ideia da "pegadinha" que o Lóide faz com o Debi. É como se eles tivessem sido congelados por 20 anos e a história continuasse agora como se nada tivesse mudado. 

- Gosto do estilo caricato e exagerado do filme, que torna inconfundível o fato do filme ser uma comédia. Tem muita comédia hoje em dia que borra a linha divisória entre comédia e drama e às vezes pede pra gente se importar seriamente pelos personagens (ou pela história).

- A trama de ir atrás de um rim não é das mais interessantes... A história poderia ser um pouco mais divertida.

- As piadas nem sempre são boas, mas gosto do fato de ser uma comédia criativa, baseada em ideias (muitas piadas visuais) e em performance, não apenas em escatologia, cenas constrangedoras (embora o filme não esteja livre disso).

- Clímax na conferência menos divertido do que o resto do filme (não tem tanto a ver esse clima "policial" que o filme adquire no fim).

- SPOILER: Brilhante a história do rim ter sido uma pegadinha também. Nada mais apropriado do que o filme inteiro ter sido uma besteira completamente desnecessária!!!

CONCLUSÃO: Irregular, mas ainda assim é uma comédia cheia de boas piadas e com performances divertidas de Jim Carrey e Jeff Daniels.

(Dumb and Dumber To / EUA / 2014 / Bobby Farrelly, Peter Farrelly)

FILMES PARECIDOS: Família do Bagulho, Anjos da Lei, Professora Sem Classe, O Âncora, Jackass: Cara-de-Pau - O Filme.

NOTA: 6.5

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Uma Viagem Extraordinária

- Visual realmente impressionante! Que locações são essas na fazenda???? Lindíssimo.

- Filme cheio de ideias criativas, divertidas e excêntricas (tanto no visual, quanto nos diálogos, nas ações, etc). Lembra um pouco o estilo do Wes Anderson, mas melhorado, pois há inteligência nos diálogos, profundidade psicológica, e além disso os personagens e os relacionamentos são gostáveis (o garotinho é inteligente, independente, fofo, etc).

- Detalhe técnico: a legenda em português é muito mal feita e entra em conflito com o 3D do filme.

- Filme sofre do que chamo de Romantismo Reprimido. Basicamente é a história de um menino especial, gênio, que vive uma grande aventura e ganha um prêmio no fim. Virtudes, aventura, triunfo: tudo isso parece ser romântico, no entanto o filme não soa romântico, pois tudo isso é bastante atenuado através da direção, de forma que o filme fica parecendo uma fábula, algo que não existe e não está acontecendo de fato - uma história inspiradora mas que é só de "brincadeirinha". Não é realista e nem tenta parecer.

- Viagem de trem linda! O grande mérito do filme é a fotografia em 3D, sem dúvida. Até os vermes na laranja parecem lindos.

- Elenco do filme é bom: Judy Davis, Helena Bonham-Carter. Divertida a relação da Judy Davis com o garoto e a forma como ela o acolhe.

- SPOILER: A história da morte do irmão parece algo desencaixado do filme, que não tem a ver com o tema e a história - apenas algo acrescentado pra tentar dar mais carga dramática ao filme.

- SPOILER: O final é um pouco estranho e anticlimático: a entrevista dele pra TV quase vira um fiasco, depois a Judy Davis, que era adorável, xinga o menino de "motherf..." (isso combina com o Romantismo Reprimido do filme: "sujar" o final um pouco pra ele não se tornar tão satisfatório).

CONCLUSÃO: Filme simpático, com personagens gostáveis, ideias criativas, mas que se destaca principalmente pelo visual.

(L'Extravagant voyage du jeune et prodigieux T.S. Spivet / França, Austrália, Canadá / 2013 / Jean-Pierre Jeunet)

FILMES PARECIDOS: Moonrise Kingdom, Tão Forte e Tão Perto, Viagem a Darjeeling, O Fabuloso Destino de Amélie Poulain.

NOTA: 7.5

Romantismo Reprimido

Vou chamar de Romantismo Reprimido um fenômeno que é da família do do Herói Envergonhado, mas que é algo mais abrangente, que está num estágio anterior - é uma característica psicológica que interfere no filme (ou na obra) como um todo, não apenas na figura do personagem central. Podemos dizer que o Herói Envergonhado pode ser resultado do Romantismo Reprimido, mas este pode se manifestar de outras formas também (e não só em filmes!).

Romantismo é a visão de que a arte deve projetar as coisas como elas deveriam ser - uma visão exaltada da existência (e do homem) que inspira o espectador e transmite valores positivos. É algo que apela para nossa natureza idealista, que busca a perfeição e deseja vivenciar sem restrições o melhor que o mundo tem a oferecer.

Quando somos criança, todos gostamos do Romantismo e o aceitamos sem questionamento (geralmente nem temos consciência de que há uma "polêmica" a respeito disso, e não entendemos por que alguém iria querer consumir arte que não fosse romântica). Na medida em que crescemos, alguns de nós preservam esse gosto pelo Romantismo, mas alguns o abandonam, passando a ter uma visão cínica e pessimista da vida (e querendo ver essa visão refletida na arte, muitas vezes como um ato de rebeldia contra o idealismo da juventude, ou como uma justificativa pras próprias frustrações). Mas em muitos casos, as pessoas ficam no meio do caminho - nem cedendo totalmente ao cinismo, e nem aceitando a visão romântica por completo. É aí que pode ocorrer o que chamo de Romantismo Reprimido.

Ele acontece quando o artista, num nível emocional, deseja criar algo idealizado, positivo, mas isso entra em conflito com o seu lado cínico (que não acredita totalmente na mensagem que quer passar). Então ele tenta "disfarçar" seu romantismo de alguma forma - amenizando esse aspecto de seu trabalho (normalmente por medo de ser acusado de ser ingênuo, imaturo, ou uma farsa). O resultado é um trabalho contraditório, que cria e destrói as próprias intenções, fica no meio do caminho, nem inspira e nem deprime.

É importante notar a essência do equívoco: muitas pessoas acreditam subconscientemente que o romantismo é algo que reflete imaturidade, ingenuidade, fraqueza, falta de realismo - e que cinismo, pessimismo e moderação refletem força, maturidade, realismo (talvez por ser algo exclusivo da vida adulta, o que não torna isso necessariamente desejável; artrose também é algo exclusivo da vida adulta e nem por isso é algo bom). Como os adultos (mesmo os românticos) querem ser vistos como maduros e inteligentes, eles podem cair na armadilha de adotar uma atitude cínica achando que isso comprovará inteligência e maturidade, quando na verdade essas são características independentes. Uma pessoa pode ser 1) idealista e madura, 2) idealista e imatura, 3) cínica e madura, 4) cínica e imatura. A postura que a pessoa toma diante da vida e do homem é uma coisa - depende de seu temperamento, de sua filosofia, de seu Senso de Vida, etc. A qualidade e a profundidade de seu pensamento é outra. O que quero dizer é: mesmo sendo realista e aceitando que a vida raramente é tão perfeita quanto a imaginação pode conceber, ainda é possível manter um respeito pela função da arte romântica de projetar esses ideais que nos inspiram e nos fazem buscar o melhor, sem se rebelar imaturamente contra o fato de que a vida não é perfeita na maior parte do tempo.

Vou listar abaixo algumas das estratégias que esses artistas divididos costumam usar pra "disfarçar" o aspecto idealista / romântico neles:

1. Expressando algo romântico mas de maneira caricata, exagerada, dando um tom cômico, fútil ou não realista para aquilo.
2. Expressando algo romântico mas logo em seguida fazendo algo anti-romântico pra quebrar o clima.
3. Expressando algo romântico mas simultaneamente fazendo apelo ao violento, ao vulgar, ao imoral, ao trágico, ao melancólico, ao feio e ao negativo pra "equilibrar" o resultado.
4. Expressando algo romântico mas de maneira discreta, casual, despretensiosa, sem emoção, vigor ou intensidade, como se não fosse algo importante (misturando romantismo com naturalismo, minimalismo).
5. Expressando algo admirável apenas num nível técnico / visual, mas não em aspectos mais relevantes da obra.
6. Não sendo romântico, mas constantemente fazendo referências e flertando com o universo do romantismo, geralmente em tom cínico.
7. Debochando do romantismo de outras pessoas, lugares ou épocas, invalidando aquilo como algo superficial, ridículo ou ultrapassado.

Esses últimos na verdade não são românticos reprimidos, e sim cínicos convictos que desejam apenas desencorajar o que há de romântico nas outras pessoas. No que chamo de Romantismo Reprimido, o artista simpatiza pelo Romantismo em algum nível, mas ele tenta disfarçar ou amenizar isso através das técnicas acima (entre outras). O receio é sempre o de revelar seu lado idealista - o que há de mais puro em sua essência: felicidade, ambição, autoestima, uma visão não-cínica da existência e do homem.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

10 Tendências Irritantes em Hollywood

1. Anti-Heróis


Antigamente o normal em Hollywood era você ver protagonistas admiráveis, figuras exemplares, inspiradoras, que o público saía da sala querendo imitar. Agora os heróis passaram a demonstrar todo tipo de problema, de questões psicológicas, fisicamente se tornaram mais limitados, moralmente ambíguos e questionáveis - isso quando o filme não abandona totalmente o conceito de herói e passa a retratar figuras assumidamente más. Isso tudo faz parte de uma tendência anti-romântica que ganhou força nos EUA nesse começo de século. Leiam a postagem "herói envergonhado" pra uma discussão detalhada (embora aqui eu esteja me referindo a anti-heróis em geral, e não apenas ao que chamo de herói envergonhado, que é um fenômeno mais específico).



2. Câmera na Mão


Antigamente a câmera na mão costumava ser usada em certos contextos: quando se queria criar um clima de documentário, ou em cenas de ação / suspense (Kubrick com frequência usava câmera na mão em cenas de briga ou de tensão pra criar um clima de instabilidade). Mas é isso que a câmera na mão produz: um clima de instabilidade, improviso, agitação. É um efeito perfeitamente útil em certos momentos, mas quando isso passa a ser a maneira normal de se gravar filmes e séries, a técnica acaba perdendo o sentido e dando um tom de improviso pro filme como um todo: como se o diretor quisesse dizer que ele é despretensioso e não liga muito pra precisão técnica.


3. Culto à Dor


É quando o cineasta acredita que sofrimento/dor/violência são coisas dignas de contemplação e usa isso como se fosse um substituto para conteúdo e méritos cinematográficos reais - não como uma técnica pra criar tensão, um contraste pra cenas positivas que virão depois na história e trarão alívio, mas como um fim em si mesmo. Sempre houve filmes agressivos e violentos em todas as épocas, mas o que chama atenção agora é essa atitude estar invadindo o cinema de entretenimento: filmes de grande bilheteria como Batman, Harry Potter, desenhos como Toy Story 3, inúmeras versões "dark" de filmes infantis e contos de fadas (Branca de Neve e o Caçador, etc) - ser sombrio ou pesar a mão na violência e no sofrimento de repente se tornou a forma mais garantida de ser "cool" e respeitável, indicando orgulhosamente pra plateia que o filme não é agradável demais e, portanto, "superficial" e "hollywoodiano".



4. Fotografia Dessaturada

Cor é sinônimo de vitalidade, saúde, alegria. Deixar uma imagem com menos cor do que o natural pode ser perfeitamente útil pra criar um clima de melancolia, tristeza, mas muitos filmes hoje em dia que supostamente querem divertir adotam como padrão essa aparência dessaturada (ou azulada, dando um ar de frieza), que pode parecer um detalhe, mas é também reflexo do item anterior: o culto ao sombrio, ao melancólico, ao triste.






5. Auto-Sacrifício

Fico sempre atento a filmes quando eles tentam tornar sacrifício sinônimo de heroísmo. Não vejo problemas em um herói abrir mão de algo importante em sua vida por algum motivo racional (como em Casablanca), ou até em se suicidar quando não se vê mais chances de ser feliz na Terra (como em Thelma & Louise). Mas não admiro sacrifício em nome de um dever, de um senso de responsabilidade por algo externo, que coloca uma obrigação social acima do valor da própria vida. É comum cenas de sacrifício acontecerem nos finais dos filmes, onde no lugar deveriam estar os momentos de maior satisfação da história. Observe Guardiões da Galáxia, Frozen, Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge, Detona Ralph, etc.


6. Sequências / Versões / Reboots / Prequels / Adaptações

Na década de 90 nos EUA, os filmes de maior bilheteria do ano foram em sua maior parte histórias originais: Esqueceram de Mim, Aladdin, Forrest Gump, Toy Story, Independence Day, Titanic, O Resgate do Soldado Ryan - e isso também foi verdade nas décadas anteriores. Mas de 2000 pra cá, apenas em 2009 o filme de maior bilheteria foi uma história original (Avatar). Em todos os outros anos, o campeão foi ou uma sequência, ou uma adaptação de um livro ou quadrinho já de muito sucesso: Harry Potter, Homem-Aranha, O Senhor dos Anéis 3, Shrek 2, Star Wars Ep. 3, Piratas do Caribe 2, Homem-Aranha 3, Batman - O Cavaleiro das Trevas, Toy Story 3, Harry Potter 7 - parte 2, Jogos Vorazes - Em Chamas, etc, etc. Uma verdadeira crise de originalidade parece ter tomado conta de Hollywood (ou um verdadeiro medo de investir no novo).

7. Relacionamentos Conflituosos

Quando vejo filmes eu não busco ver apenas personagens admiráveis, mas também relacionamentos admiráveis. Me chama a atenção não só no cinema, mas principalmente na TV, que a maior parte do tempo nós passamos observando relações negativas entre as pessoas: relações de rivalidade, desconfiança, cinismo, desentendimento, atrito, inimizade. Quando estiver vendo um filme, série ou mesmo uma novela, calcule quanto tempo você passa olhando para situações de desentendimento e desarmonia, pessoas discutindo na tela e sendo agressivas umas com as outras, e compare com o tempo que você passa olhando pra algo positivo e desejável. Não vejo problema em conflitos entre heróis e vilões, pois nesse caso há o prazer de observar o herói sendo íntegro e defendendo a coisa certa. O problema é que muitos filmes focam em conflitos entre personagens que devemos gostar, ou que não são nem heróis nem vilões. Não há um conflito claro entre bem e mal - as relações simplesmente são complicadas, ambos os lados têm certas virtudes e certos defeitos, interesses incompatíveis, o que vira uma contemplação do conflito pelo conflito em si.

8. Comédias Vulgares

As comédias parecem ter se tornado impróprias para menores, e cada vez mais apelam pra escatologia e piadas explícitas envolvendo sexo. Ir ao cinema ver uma comédia com a família está cada vez mais difícil. Isso em parte reflete a diminuição da criatividade em Hollywood, pois é muito mais fácil arrancar uma risada com baixaria do que ter que criar uma frase ou piada engraçada, mas também indica uma perda de inocência na cultura em geral. Do fim dos anos 90 pra cá, as comédias de maior sucesso foram filmes como: Ted, Se Beber, Não Case, Missão Madrinha de Casamento, filmes do Adam Sandler e da turma do Judd Apatow - todos bastante grosseiros (o que às vezes eu gosto, não estou rejeitando totalmente esse tipo de humor, apenas notando o sumiço do outro tipo). Dos anos 90 pra trás, as comédias que dominavam as bilheterias eram visivelmente mais leves: Austin Powers, O Mentiroso, Melhor É Impossível, Clube das Desquitadas, True Lies, Esqueceram de Mim, Mudança de Hábito, Os Caça-Fantasmas, Férias Frustradas, Corra que a Polícia Vem Aí, Os Fantasmas Se Divertem, etc.

9. Realities Mentirosos

Reality shows dominaram a televisão nas últimas décadas, e a influência chegou também ao cinema. Muitos filmes adotaram essa linguagem de documentário - não só filmes do estilo found-footage (Atividade Paranormal, etc), como filmes como Borat ou Vovô Sem Vergonha, que dizem mostrar situações reais. No caso dos found-footage, já está subentendido que é tudo mentira. Mas em filmes como Vovô Sem Vergonha, eles realmente fingem ser situações reais, quando na verdade tudo é combinado. Séries de TV (como as de competição de canto, de chefs de cozinha, modelos, também são quase todas roteirizadas e combinadas, mas se passam por espontâneas). Me pergunto se, além de ser algo revoltante, desonesto e um insulto à inteligência da plateia, se isso não seria inclusive ilegal.

10. Biografias Ofensivas

Em vez de inspirar, biografias têm servido mais pra revelar os podres e o lado negro das celebridades. Sempre que surge algum filme biográfico, sei que é hora de aprender que aquele ídolo que eu tinha em mente na verdade era uma pessoa de caráter duvidoso. O tom dos filmes biográficos é quase sempre de ambiguidade (veja Jersey Boys, Hitchcock, A Dama de Ferro, J. Edgar - e agora no Brasil em Tim Maia, etc). Esses filmes raramente são uma celebração da vida de alguém, mas uma análise cínica, que quer te fazer concluir que sucesso não leva à felicidade, e que ninguém é admirável de fato quando visto de perto.

Interestelar

- Por que exatamente o mundo está se destruindo? É culpa da humanidade? Do "consumismo"? Seria interessante explicar melhor isso.

- SPOILER: O que é este fantasma?? Alterações na gravidade formam um código na poeira que são coordenadas que levam o Matthew McConaughey até a NASA? Que loucura! E se a poeira não tivesse entrado pela janela? Muito confusa e mal contada essa ideia! Nolan certamente se inspirou em Contatos Imediatos do Terceiro Grau (onde a melodia passa as coordenadas para o local de pouso dos aliens), mas ali era tudo mais compreensível.

- Filme é interessante pois fala de eventos grandiosos, temas importantes, e o fato de ser uma super produção com vários atores famosos também ajuda.

- Bizarro esse robô TARS (não me parece nada moderno o jeito dele se locomover). E o humor parece deslocado (Nolan nunca soube encaixar humor muito bem em seus filmes).

- Matthew se despede dos filhos, pega a camionete e vai pro espaço como se tivesse indo até o mercado??? Gente, isso não parece nada realista. Cadê toda a preparação dos astronautas que duraria meses? O filme não tem um tom científico - é como se o roteirista fosse leigo e não tivesse pesquisado nada sobre como funcionaria uma missão desse tipo. Tudo acaba parecendo irreal, não sentimos que está realmente acontecendo.

- Cena em que Matthew chora ao ver as mensagens em vídeo do filho: a situação é dramática, mas o público não se emociona como o personagem, pois não foi desenvolvida uma relação forte entre o pai e o filho - a reação dele soa exagerada, só pra mostrar a performance do ator.

- SPOILER: Absurda a sugestão da Anne Hathaway de ir pro planeta de Edmund pois ela está apaixonada pelo cara! Uma discussão como essa seria impensável entre cientistas de verdade. Aliás, todo o filme parece ser anti-ciência. Por exemplo: o personagem do Matt Damon, que seria o maior de todos os cientistas, na verdade é um covarde irresponsável movido pelas emoções. O filme usa um contexto de ciência mas na verdade quer falar de fé, subjetivismo, sacrifício - me lembra essas pseudo-religiões que tentam ganhar certa legitimidade fazendo referências à física quântica e coisas do tipo, quando na verdade não têm interesse nenhum em ciência.

- Trilha sonora cansativa. Não é de fato música - muitas vezes é um som constante, sem melodia, que permanece igual durante 10, 20 minutos, independente do que está acontecendo na tela. Apenas cria um clima de drama e tensão.


- Por que esses planetas seriam bons para habitar se ficam tão próximos a um buraco negro?!?!

- SPOILER: Divertido o Matthew entrar no buraco negro (embora o ato de auto-sacrifício seja um pouco irritante).

- SPOILER: Buraco negro leva ao outro lado da estante de livros da filha dele?? Que diabos é isso???! O filme tem ideias muito mal formadas, sem sentido, e que não são especialmente divertidas. É como se ele quisesse dar um nó na mente da plateia e impedi-la de raciocinar direito, para assim poder soar inteligente para pseudo-intelectuais (essa é a técnica que Nolan usa em todos os seus filmes).

- Buraco negro parece tirado de 2001: Uma Odisséia no Espaço - os "aliens" mais evoluídos construírem em seu mundo um ambiente familiar e compreensível pro homem.

- Final todo muito ruim e mal explicado. O filme acha que está sendo profundo e inteligente, mas na verdade parece essas pessoas sob o efeito de drogas que decidem entrar em papos "cabeça" e a discutir assuntos esotéricos, mas não têm muito bom senso no que estão falando. Por exemplo: se o controle da gravidade permite ao Matthew empurrar livros da estante (fazer movimentos horizontais), por que ele simplesmente não escreve um recado pra filha em inglês (na poeira ou algo do tipo)?

CONCLUSÃO: Menos negativo que os últimos de Nolan, o filme é uma tentativa de criar um grande espetáculo visual, discutir questões profundas, mas não tem credibilidade científica nem profundidade intelectual pra sustentar os temas que quer discutir (e tudo é prejudicado pelo estilo caótico de Nolan pensar e comunicar suas ideias).

(Interstellar / EUA, Reino Unido / 2014 / Christopher Nolan)

FILMES PARECIDOS: Gravidade / A Viagem / Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge /A Origem / Fonte da Vida

NOTA: 4.0

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Tim Maia

- Não tinha ideia da relação do Tim Maia com o Roberto Carlos no começo da carreira. Talvez essa seja a maior surpresa do filme pra plateia.

- A fotografia é decente, mas a reconstituição de época não convence, principalmente nos EUA e em cenas externas. Fica óbvio que eles não tinham muito pra investir em efeitos e cenografia.

- Não sabia que ele tinha chegado a roubar e ir pra cadeia! Isso mantém a história interessante, mas vai tornando suspeito o caráter do personagem e também do filme, pois tudo é retratado com humor, como se fosse algo leve e sem importância.

- Sucesso do primeiro disco acontece muito de repente, sem explicação. O filme simplesmente informa a plateia de maneira apática que agora ele ficou famoso - não dramatiza esse momento importante que poderia ter sido um ponto alto do filme.

- Retrato externo, superficial - filme apenas relata os principais eventos da carreira do Tim Maia, não vai mais a fundo no personagem, não discute sua relevância cultural, quais seus objetivos como artista, etc. Queria saber mais sobre suas motivações, suas ideias, sua musicalidade... Dá a impressão que tudo aconteceu por acaso - que ele foi simplesmente alguém que nasceu com uma boa voz e sabia escrever músicas populares. Falta um tema, um ponto de vista, algo mais abstrato e interessante, além da mera exposição de fatos. O filme podia abordar, por exemplo, o tema do hedonismo - a busca desenfreada por prazer (sem princípios, sem racionalidade), algo que se reflete tanto nas músicas de Tim Maia quanto em sua vida pessoal - no abuso das drogas, etc.

- Trecho em que ele se junta à "seita" parece torná-lo ainda mais frágil como personalidade. Todo o foco do filme é no lado negativo e não-admirável de Tim Maia. Aprendemos que ele era ladrão, traficante, drogado, violento, intelectualmente inseguro, e que só fez sucesso pois puxou saco de um outro artista que ele desprezava.

- Filme não tem nenhuma grande cena musical, e não toca vários dos maiores sucessos de Tim Maia (ou seja, o que ele tinha de melhor, que era a música, o filme não dá muita ênfase).

CONCLUSÃO: Filme biográfico convencional, sem muita originalidade, que tenta dar um tom divertido e inspirador pra uma história que na realidade soa triste e vazia.

(Tim Maia / Brasil / 2014 / Mauro Lima)

FILMES PARECIDOS: Somos Tão Jovens, Gonzaga - De Pai pra Filho.

NOTA: 5.5