sábado, 14 de outubro de 2017

Detroit em Rebelião

NOTAS DA SESSÃO:

- Esse tema da violência policial contra os negros é delicado, mas felizmente o filme deixa claro que não irá simplificar a história de maneira falsa e tendenciosa, só pra provar seu argumento. Ele mostra que tanto do lado dos policiais quanto do lado dos negros existiam pessoas boas e más, o que dá mais credibilidade pra discussão (se o filme tivesse sido feito por um ativista desses fanáticos, ele não conseguiria retratar nenhum dos policiais positivamente).

- O filme gasta um bom tempo pra apresentar cada personagem, criar empatia (ou antipatia), fazer a gente entender o caráter de cada um, tanto do lado da polícia quanto do lado dos suspeitos, antes de juntar todo mundo na sequência central do motel, o que torna tudo mais envolvente, como se estivéssemos realmente participando da situação, entendendo o ponto de vista de todos os envolvidos.

- É interessante que o problema todo só ocorre porque existiam indivíduos malignos dos 2 lados. Primeiro o Carl, que sem motivo algum resolveu atirar pela janela contra a polícia. E depois o Krauss, que estava disposto a revidar com mais violência ainda. Se qualquer um dos 2 fosse menos violento, nada teria acontecido... Mas junta um idiota de um lado contra outro idiota do outro, o sangue começa a jorrar.

- SPOILER: Por que ninguém fala pra polícia que o Carl estava com a arma de brinquedo e atirou pela janela? Ele já está morto! Que mal faria agora dizer a verdade? Fica a impressão que eles só estão nesse interrogatório por que querem. É a única coisa um pouco mal explicada no filme.

- As táticas de interrogatório são assustadoras! A situação é muito tensa e bem feita. Um absurdo a atitude dos policiais. Faz a gente pensar até que ponto é correto maltratar civis pra tentar encontrar o inimigo - algo que muitos filmes de guerra discutiram recentemente (mas diria que são 2 casos diferentes; que numa situação de guerra, onde uma nação inteira está sendo ameaçada, é bem mais justificável do que o que está acontecendo aqui).

- Na minha última crítica (First They Killed My Father) eu disse que não gosto de filmes onde os protagonistas apenas sofrem nas mãos dos inimigos, sem ter muito o que fazer. O que torna esse filme melhor, além do fato dos personagens serem muito mais interessantes e terem personalidade, é que há tensão narrativa: há a possibilidade de fuga, as vítimas muitas vezes tentam reagir, nós queremos saber se eles sairão vivos ou não, se contarão a verdade, se o policial será julgado, etc. E a caracterização do mal é tão boa que acaba gerando certo fascínio, assim como uma Nurse Ratched de Um Estranho no Ninho. O policial Krauss é um dos vilões mais memoráveis dos últimos tempos.

- Incrível toda essa sequência no motel. É quase um mini-filme dentro do filme. Nem sei quanto tempo durou, mas parece que ficamos mais de 1 hora ali sem que a energia diminuísse em nenhum momento.

- Por que o John Boyega mente pra polícia que só chegou no motel depois de tudo? Irrita o fato de que as pessoas inocentes do filme não agem corretamente. Acabam contribuindo pra confusão. Mas pelo menos não vira um daqueles filmes onde os 2 lados do conflito são imorais, e ficamos apenas vendo um monte de gente odiosa brigando entre si. Aqui fica bem claro que Krauss é o grande vilão... As vítimas podem não ser perfeitas, mas são inocentes naquilo que estão sendo acusadas.

- Ótimo o momento em que o Krauss pede pro outro policial mentir no depoimento: "Algo que levou 1 minuto pra acontecer não pode definir sua vida inteira". É exatamente assim que um criminoso pensaria. São por esses detalhes que o personagem se torna convincente e assustador.

- A parte do tribunal também é bem tensa, pois entendemos como os policiais podem sair impunes, apesar de todos os absurdos cometidos. O filme obviamente tem essa intenção de alertar a população pra uma questão social (algo que não costumo elogiar aqui), mas esse filme consegue fazer isso através de uma história bem contada, com bons personagens, suspense, então se torna algo válido - ele não coloca a mensagem social acima da experiência cinematográfica; mas junta as 2 coisas de forma bem feita.

- SPOILER: Até o "racismo inverso" do Larry no final é compreensível. O público da Motown era predominantemente branco, a música representava uma quebra de barreiras raciais, passava um senso de união no país... Dá pra entender por que pro Larry, alguém que acabou de viver uma experiência tão horrível envolvendo racismo, não iria suportar fazer parte dessa gravadora.

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CONCLUSÃO: Filme forte que aborda um tema social complicado, mas o faz de forma inteligente, equilibrada, e sem desprezar a experiência narrativa da plateia.

Detroit / EUA / 2017 / Kathryn Bigelow

FILMES PARECIDOS: Selma: Uma Luta Pela Igualdade (2014) / A Hora Mais Escura (2012) / Dia de Treinamento (2001)

NOTA: 8.0

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

First They Killed My Father

NOTAS DA SESSÃO:

- O filme escolheu essa abordagem de mostrar os horrores do comunismo pelos olhos de uma criança, porém ele não chega a construir uma narrativa interessante do ponto de vista individual da menina (como Spielberg faz em Império do Sol, por exemplo, que é satisfatório apenas como o drama de um garoto, independentemente do conteúdo político). Aqui, dá a impressão que o propósito da Angelina Jolie era puramente político, mas que ela não teve coragem de fazer um filme mais complexo sobre o comunismo, discutindo o tema de forma aberta. Então escolheu esse ponto de vista da menina, assim ela consegue condenar o regime indiretamente, sem ter que dizer nada de maneira mais explícita intelectualmente (conservadores ou libertários nunca saem totalmente do armário em Hollywood).

- Visualmente o filme é bem bonito. Não é uma fotografia muito narrativa / cinematográfica. Mas esteticamente agrada.

- Revoltante os comunistas tirando os bens pessoais das pessoas, forçando elas a sairem da civilização pra morarem no meio do mato, os discursos contra a propriedade privada, contra o individualismo, a proibição de remédios importados, etc. É tão raro no cinema alguém criticar um regime de esquerda (principalmente um "insider" de Hollywood) que o filme merece certo crédito apenas por isso.

- Infelizmente Angelina optou por retratar tudo de maneira meio Naturalista, o que se você for pensar acaba sendo um pouco contraditório, pois Naturalismo é o equivalente à esquerda artisticamente. A garotinha é passiva na história, fica apenas sendo levada de um lugar para o outro. Não tem objetivos, planos, etc. Serve apenas como uma desculpa pro filme nos levar a esse ambiente, e pelas entrelinhas revelar pro espectador os horrores que aconteceram no Camboja.

- Como não há uma boa trama, personagens ativos, a história é um pouco monótona. Apenas uma cena após a outra onde a garotinha testemunha algo horrível sendo cometido pelos comunistas. É um filme sobre pessoas sofrendo nas mãos dos inimigos, sem ter o que fazer, o que cria uma narrativa ruim. Não há ideias cinematográficas, criatividade... O filme poderia muito bem ter sido um documentário.

- O que me faz simpatizar pela menina é que ela é inocente e é retratada de maneira muito digna (diferente do protagonista de Beasts of No Nation, por exemplo, que é corrompido pelo sistema). Em geral ela está com uma atitude serena, mantendo o controle. Se fosse uma menina desesperada, sofrendo do começo ao fim, daí seria uma ênfase excessiva na tragédia, um elogio à vitimização que tornaria o filme desagradável.

- SPOILER: Alguns momentos que poderiam ter sido dramáticos são feitos de maneira bem descuidada. Por exemplo: no começo, os comunistas pegam as roupas da família, inclusive um vestidinho da protagonista. Só depois, em flashback, ficamos sabendo que a menina tinha certo apego por aquele vestido. Se o filme quisesse ilustrar direito o quão maligna é essa ideia de igualitarismo, ele poderia ter preparado isso muito melhor. Mostrado antes algum objeto que fosse especial / insubstituível pra menina... E daí criado um momento dramático na hora que os comunistas tirassem isso dela. Outro momento feito de maneira bem preguiçosa é o reencontro com os irmãos, depois que os 3 haviam sido separados por um tempo. Eu achava que eles nunca mais iriam se ver. Esse reencontro deveria ter sido um momento de enorme emoção (imagine A Cor Púrpura), mas tudo acontece de maneira tão rápida e confusa que de primeira eu achei até que fosse um sonho.

- Fortes as cenas de violência (o campo minado, etc). O filme me emocionou em alguns momentos, mas isso por saber que é uma história verídica, e também por simpatizar pela personagem - não porque a história em si é particularmente bem contada.

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CONCLUSÃO: Interessante por ser um raro filme sobre o comunismo, mas acaba não sendo muito satisfatório como discussão política, nem como a jornada pessoal de uma garota. É apenas um retrato de pessoas sofrendo, com o intuito de denunciar o Khmer Vermelho. O filme tem um propósito mais jornalístico / social do que artístico.

First They Killed My Father: A Daughter of Cambodia Remembers / Camboja, EUA / 2017 / Angelina Jolie

FILMES PARECIDOS: Beasts of No Nation (2015) / Indomável Sonhadora (2012)

NOTA: 6.0

domingo, 8 de outubro de 2017

Trazendo Inteligência para o Entretenimento

No final da minha crítica a Blade Runner 2049, eu listei como Filmes Parecidos títulos como Chegada, Interestelar e Mad Max: Estrada da Fúria. Notei que uma coisa em comum entre esses filmes é que são todos filmes comerciais, de gênero, que fizeram sucesso de público - ao mesmo tempo em que foram aclamados pela crítica. A outra coisa em comum é que eu não gostei de nenhum deles (ou melhor, pelo menos não gostei tanto quanto a maioria).

Eu sempre me sinto meio mal de atacar esses filmes, pois julgando de forma superficial, esses são os filmes que eu mais deveria apoiar, pois eles tentam trazer mais sofisticação pro cinema comercial. Aqui no meu blog, eu sempre defendo que o cinema deveria ser tanto arte quanto entretenimento. Que deveria ter qualidade, ser autoral, ter inteligência - e ao mesmo se preocupar em divertir o espectador. Por que então essa minha "mania" de sempre dar notas baixas pra esse tipo de filme?

A resposta é que, pra mim, o que alguns desses cineastas estão trazendo pro cinema comercial não é de fato inteligência. É outra coisa.

Quando eu digo que apoio entretenimento inteligente, eu quero dizer literalmente "inteligência" no sentido de racionalidade, capacidade mental, lógica, conhecimento. Eu quero ver que o autor é alguém que, além de querer me proporcionar uma experiência prazerosa, é alguém que realmente compreende o mundo de uma maneira especial, que entende da linguagem do cinema, que estudou as técnicas desenvolvidas pelos grandes cineastas ao longo da história, tem domínio narrativo, bagagem, um gosto apurado, se comunica com precisão com o espectador, respeita a racionalidade da plateia, é alguém que tem uma ampla cultura que vai além do cinema simplesmente (tem conhecimento sobre outras artes, sobre psicologia, filosofia, ciência, tem experiência de vida, etc).

Não é nada disso que eu percebo nos filmes citados no início da postagem, por exemplo. Esses filmes podem até soar mais inteligentes e sofisticados do que o blockbuster rotineiro, mas isso não acontece porque eles apresentam as qualidades que eu listei acima, e sim por causa de alguns "truques" usados pelos cineastas, que acabam muitas vezes iludindo o espectador menos atento.

O primeiro desses truques é o do subjetivismo. É inserir dentro de um gênero "pipoca" coisas como finais abertos, tramas ambíguas e contraditórias, reviravoltas inexplicáveis, borrar de propósito a linha entre sonho e realidade, sugerir que nada é real, que a razão é ilusória, que não podemos entender direito o que acontece ao nosso redor, que não devemos buscar consistência, explicações fáceis, que o universo é caótico e complexo, etc.

Outro truque favorito desses cineastas é o do pessimismo: apelar para o trágico, pro melancólico, pra noção de "universo malevolente". É trazer pra gêneros tradicionalmente escapistas e divertidos, temas deprimentes, um clima sombrio, sofrimento, personagens moralmente duvidosos, histórias com uma visão pessimista do ser humano e da vida, etc.

Um outro truque é o de negar as emoções de orgulho e autoestima. Em vez de apresentar heróis, figuras admiráveis, o filme se propõe a revelar o lado mais frágil e "humano" dos protagonistas, enfatizar seus problemas, as dificuldades que eles dividem com o resto da humanidade, ser mais realista, etc.

Ou então o de negar estímuloexcitação para o espectador, tornando a história intencionalmente mais lenta, monótona, sem ação, sem emoções extremas, mostrando personagens que não se divertem nunca, etc.

Eu diria que nenhuma dessas atitudes de fato demonstram inteligência, no sentido que defini aqui. Se você parar pra pensar, o que esses cineastas estão fazendo é apenas negar certos valores desejados pelo espectador. Como disse na postagem Os 4 Pilares do Entretenimento, os conceitos de Objetividade, Autoestima, Benevolência e Diversão são a base do entretenimento. Esses "truques" consistem apenas em subverter de propósito alguns desses pilares.

Ser capaz de "desconstruir" algo, de negar um valor só por negar, não é "sofisticado" ou "inteligente", exceto talvez no sentido de que não é algo que crianças ou pessoas totalmente incultas sabem fazer. É preciso um certo nível de experiência (e pretensão) intelectual pra começar a se comportar dessa forma. Mas isso não é uma demonstração de inteligência ainda. No máximo prova que a pessoa já saiu da infância, que ela não faz parte do povão, das massas mais ignorantes - da mesma forma que começar a fumar pode fazer um garoto sentir que ele não é mais uma criança, mas ainda não é o suficiente pra provar que ele é um adulto.

Essa é a mesma atitude de alguns estilistas, por exemplo, que apresentam roupas inquestionavelmente feias em seus desfiles: beleza é toda a base dessa indústria, então ao subverter justamente esse elemento, eles ficam parecendo mais sofisticados por algum motivo. É como se a capacidade de "questionar", de ir contra o "sistema", já provasse que a pessoa é evoluída.

Reparem que no meu conceito de "entretenimento inteligente", a inteligência não exige a destruição do entretenimento. São duas coisas que se complementam e podem co-existir. Na minha visão, seria possível até um filme da Xuxa ser extremamente inteligente, uma verdadeira obra de arte, sem prejudicar em nada a diversão do público infantil. Da mesma forma, um filme do Bergman poderia se tornar muito mais divertido sem perder nada em conteúdo e densidade. Nunca há uma boa razão pra fazer algo de maneira pobre, descuidada, sem capricho, assim como nunca há uma boa razão pra deprimir o espectador, matá-lo de tédio, etc.

Mas na medida em que você acrescenta elementos como subjetivismo e pessimismo num filme pra torná-lo mais "inteligente", necessariamente você o torna menos divertido.

Esses artistas partem do erro filosófico comum de que existe um conflito metafísico entre corpo e alma, entre moralidade e felicidade. Eles concordam com a noção dos intelectuais de que "ignorância é uma bênção". Que inteligência nos leva automaticamente ao pessimismo, a incertezas, a falta de confiança, etc - e consequentemente, que felicidade, otimismo, convicções, orgulho, só podem ser sinônimos de burrice.

Essa é uma maneira imatura e superficial de abordar o tema, e o que acaba acontecendo com esses filmes é que, na tentativa de trazer inteligência para o entretenimento, eles acabam não sendo nem inteligentes e nem divertidos.

O que estou questionando aqui não é nem tanto o pessimismo, o subjetivismo, etc. E sim usar desses artifícios como estratégia pra tentar deixar uma obra mais sofisticada, sem demonstrar sofisticação em si. É como o garoto que fuma pra tentar te enganar que ele já é adulto, sem ter as virtudes essenciais de um adulto de fato: se você é um homem bem sucedido, responsável, culto, experiente, e você fuma, eu posso até não gostar desse hábito, mas não diria que você é uma fraude por isso. Mas se você é um moleque sem nada na cabeça, fumando pra tentar parecer um adulto, como se isso em si já fosse prova, daí você é um tolo. E é isso o que esses cineastas estão fazendo: eles estão inserindo elementos destrutivos em seus filmes (associados a filmes mais artísticos) pra tentarem parecer mais sofisticados, mas sem demonstrar as qualidades essenciais de filmes que são de fato sofisticados.

Pra trazer racionalidade, inteligência, sofisticação, boa técnica pra um filme de entretenimento, você não precisa diminuir em nada o prazer da experiência (pelo contrário, o fato dessas virtudes estarem presentes tornarão o filme ainda mais prazeroso). Tem uma história que li sobre o Walt Disney (não sei se é verdade, mas conhecendo seus princípio faz sentido) onde ele fez questão de que, no carrossel da Disneyland, a tinta dourada que pintava os cavalos fosse realmente feita de pó de ouro de 23 quilates. Essa é a atitude certa pra alguém que quer trazer sofisticação pro entretenimento. Você não precisa tornar a experiência mais desagradável - tem apenas que inserir riquezas. Mas na cabeça desses cineastas atuais, pra você tornar um carrossel sofisticado, por exemplo, seria preciso pintá-lo de cinza, diminuir a velocidade do brinquedo ao ponto do tédio, colocar cavalos abatidos, mutilados na guerra, etc.

Não estou dizendo que um filme como Blade Runner 2049 deveria se inspirar mais em Cinderela pra ser melhor. É perfeitamente possível um filme lidar com temas mais sombrios e ainda assim funcionar como entretenimento. Mas em nenhum caso noções como pessimismo, subjetivismo ou monotonia tornam um filme automaticamente mais sofisticado, liberando o artista da necessidade de demonstrar inteligência e qualidades de verdade.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Blade Runner 2049

- Antes de falar do novo, é bom dizer que não sou exatamente um fã ardoroso de Blade Runner, o Caçador de Andróides. Acho que é uma das produções visualmente mais espetaculares já feitas, uma verdadeira obra-prima em termos de design de produção, direção de arte, fotografia, etc - mas sempre achei a história sem força dramática, a investigação pouco envolvente, o protagonista meio distante e impessoal, além de não gostar do clima melancólico, da visão deprimente do futuro, etc. Ainda assim, há tanto talento e originalidade na produção (a trilha sonora icônica de Vangelis, por exemplo) que eu ainda tenho bastante respeito pelo filme.

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NOTAS DA SESSÃO:

- Visualmente o filme impressiona se comparado a filmes atuais em geral. Mas comparado com o Blade Runner original, ele é menos sofisticado. No antigo, cada centímetro de cada cenário parecia cuidadosamente planejado, criado especialmente pro filme e nos transportava pra um mundo jamais visto. Todos os cenários eram deslumbrantes. Aqui, você tem algumas cenas pontuais com enquadramentos espetaculares (a maioria está no trailer), mas no decorrer do filme você tem um visual mais casual e realista do que o primeiro, com menos cor e algumas sequências em ambientes que parecem ser até aqui do nosso mundo.

- No começo a história é um pouco parada. 'K' (Ryan Gosling) não age por uma motivação pessoal, está apenas cumprindo seu dever de forma apática (nós não torcemos pra ele matar replicantes, a descoberta de que replicantes podem ter filhos não parece impacta-lo especialmente, etc).

- As cenas envolvendo aquela "esposa" de holograma não são muito fortes (o sexo a 3 mais pro meio do filme), afinal o 'K' também é um robô. Toda essa discussão sobre inteligência artificial só ganha uma dimensão moral interessante quando se trata de um relacionamento entre um humano e uma máquina, e a máquina começa a se parecer demais com um humano (como em Ela, 2001: Uma Odisséia no Espaço, etc). Mas se 'K' também é uma pessoa artificial, fica estranho o filme retratar essa relação com esse tom de cinismo - mostrando o "vazio" moderno de uma pessoa real se relacionar com uma máquina, etc.

- A trilha sonora é impactante, mas não chega a ser boa música (pelo visto Hans Zimmer não precisa de Christopher Nolan pra abraçar essa tendência). São efeitos sonoros agressivos e diferentes - e um monte de BAUM.

- Em termos de narrativa, esse filme tem uma dose bem maior de névoa e subjetivismo do que o primeiro (outra influência de Nolan?). No primeiro, seguíamos uma trama totalmente clara e compreensível. Os elementos subjetivos (sonhos, origamis, etc), eram claramente destacados da trama principal. Aqui, há uma série de cenas mal explicadas, tecnologias incompreensíveis, detalhes confusos propositais que vão tirando o espectador do comando da história, dando um clima intangível pra tudo.

- SPOILER: Quando 'K' começa a desconfiar que é o filho perdido da Rachael, isso cria um drama mais pessoal pra história que não havia antes, o que é bom.

- SPOILER: Faz sentido o 'K' encontrar o cavalinho de madeira no lugar que ele lembrava ter escondido? Afinal, mesmo que a memória não seja dele, por que a pessoa que escondeu o cavalo ali não teria ido buscá-lo depois que se livrou dos bullies? Sendo que era algo tão precioso pra ela? E se essa é uma memória pessoal da Dra. Stelline distribuída pra vários replicantes, um outro replicante antes de 'K' já não o teria encontrado ali nesses anos todos? É o tipo de toque confuso que vai deixando o filme meio "Nolanesco".

- Uma coisa é fato, o filme tem diálogos bem ruins e superficiais. Algumas frases beiram o trash. Se fosse um filme de ação despretensioso eu não ligaria, mas pra um filme que pretende discutir temas filosóficos, profundos, isso é algo que prejudica.

- SPOILER: Por que o 'K' tem essa reação dramática quando descobre que o cavalinho é uma memória real? Ele ainda não sabe se é uma memória dele. E 'K' é um cara distante, frio, não combina com ele explodir assim. Não há contexto psicológico. Parece que isso é só porque o cineasta quis 1 momento mais visceral pro Ryan Gosling poder competir ao Oscar. Mas torna a cena meio confusa... Eu por exemplo comecei a pensar na teoria de que o Ryan Gosling poderia ser uma pessoa real, e que a empresa do Wallace estava secretamente sequestrando seres humanos, fazendo uma espécie de lavagem cerebral pra eles pensarem que eram replicantes (aquele teste que 'K' passa na empresa diariamente na sala branca), e usando os humanos como escravos - o que faria muito mais sentido no contexto da história, já que o grande problema de Wallace é não conseguir fabricar tantos replicantes quanto gostaria para o seu projeto (o que é bem improvável considerando a tecnologia da época). Aliás, toda essa meta do Wallace de querer engravidar replicantes é muito ruim. Até parece que isso seria mais prático e produtivo do que simplesmente fabricar mais.

- Falso o 'K' mentir pra Joshi (Robin Wright) dizendo que matou a tal criança replicante, e ela acreditar sem nenhuma evidência, só porque ele disse. Não há nenhum protocolo básico quando se "aposenta" um replicante?

- Veja a insanidade desse roteiro: o 'K' descobre uma radiação no cavalinho, e segundo o expert essa radiação por algum motivo só poderia ter vindo de Las Vegas (isso já seria forçado o bastante). Daí 'K' vai até lá, décadas depois do cavalinho ter sido feito, e encontra facilmente o Harrison Ford, justamente a pessoa que ele procurava.

- Todo esse encontro entre os 2 é péssimo. O diretor usa lentidão pra dar criar um clima épico e cerimonioso pra tudo, sendo que na história em si não há nada de épico acontecendo. Harrison começa a atirar no Ryan Gosling sem nenhuma necessidade, os 2 começam a lutar de forma estúpida... É uma tentativa artificial de acrescentar drama a um filme que não tem nenhum (oh, Deckard aparece pela primeira vez desde 1982, precisamos fazer qualquer coisa pra tornar esse momento intenso!).

- SPOILER: Tem alguma lógica a Dra. Stelline que fabrica as memórias (e que estava ajudando o 'K' na investigação) ser justamente a filha do Harrison Ford? Ou é só mais uma coincidência pra dar aquela sensação de que o universo é um lugar misterioso com uma ordem mística que não devemos tentar entender (e que permite o roteirista se safar com qualquer ideia que passe por sua cabeça)?

- SPOILER: O clímax é simplesmente fraco. A ação é ruim, visualmente não há nada de épico nesse carro meio afundado na água, a vilã morre de forma esquecível, a trilha é um zumbido constante que nem se pode chamar de música, a ideia do 'K' resolver se sacrificar por uma causa maior é clichê e tediosa... E o reencontro do Deckard com a filha não emociona (a personagem é meio sinistra, o filme não cria nenhuma empatia por ela).

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CONCLUSÃO: As "táticas Nolan" tornam a produção imponente num nível superficial, mas na realidade é um filme mal escrito, mal dirigido, feito sem 1/5 do talento e do bom gosto do primeiro.

Blade Runner 2049 / EUA, Reino Unido, Canadá / 2017 / Denis Villeneuve

FILMES PARECIDOS: Alien: Covenant (2017) / A Chegada (2016) / Mad Max: A Estrada da Fúria (2015) / Interestelar (2014)

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NOTA: 4.5

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Simbolismo e Filmes Interpretativos

O filme Mãe! de Darren Aronofsky trouxe à tona a discussão sobre o uso de simbolismo no cinema. Já apontei na minha crítica do filme por que não gosto desse tipo de simbolismo, mas aqui vão mais algumas observações (e no final, a opinião da Ayn Rand sobre o tema):

Primeiro há aquilo que apontei no texto Virtudes e Tipos de Filmes - um filme não deve depender de um manual pra fazer sentido, um "guia de usuário", ele deve tentar ser o mais universal e "auto-contido" possível - não deve esperar que o espectador tenha lido entrevistas com o diretor ou tenha qualquer tipo de conhecimento externo específico pra funcionar.

Um artista que tem respeito pelo espectador não o deixa no vácuo (pelo menos não por muito tempo). Não o abandona numa narrativa confusa, tediosa, guardando o "ouro" todo para si e para aqueles poucos que conheçam seu segredo. Os que fazem isso são apenas os pretensiosos e mal intencionados, que desejam exibir suas supostas "inteligências" às custas da plateia - fazendo ela se sentir inferior, sem confiança na própria mente.

Claro, nem todo filme precisa ser entregue inteiro mastigado pro espectador. Pelo contrário, alguns dos melhores filmes são aqueles que mais exigem de nossa inteligência e percepção. Há um grande prazer em poder descobrir algo sozinho assistindo a um filme, fazer uma conexão surpreendente, desvendar o significado abstrato por trás dos acontecimentos, das técnicas usadas pelo artista, etc. Mas o cineasta honesto e bem intencionado quer que o espectador tenha o prazer de descobrir as coisas por si só. E quer que ele faça isso através da obra, não do Google. Ele sabe que ninguém na sala de cinema é vidente, tem bola de cristal, portanto, ele irá se comunicar racionalmente, deixando "pistas" concretas na obra que possam levar a uma interpretação válida. O cineasta que é de fato inteligente, maduro, não tem interesse em esconder suas virtudes do público, tornando impossível de entender o que ele está pensando. Os que gostam de fazer isso em geral são os pseudo-intelectuais, aqueles que não têm nada pra mostrar, e por isso "tornam suas águas turvas para que pareçam profundas".


Do ponto de vista do espectador, é preciso também haver uma motivação pra que ele queira decifrar o significado por trás desses filmes mais interpretativos. Ele precisa ter razões suficientes pra acreditar que aquilo que o autor está ocultando é uma ideia valiosa que merece ser descoberta. E pra isso, o filme tem que ter sido brilhante já num nível primário, superficial. Quando você assiste 2001: Uma Odisséia no Espaço e as coisas começam a ficar surreais mais pro final, você já viu tantas ideias originais, tanta inteligência, talento e consistência ao longo do filme, que se torna irresistível querer entender o significado por trás desses outros eventos menos compreensíveis. O cineasta já ganhou sua confiança. Agora, se um filme é repleto de personagens vazios, clichês, diálogos tolos, cenas desagradáveis, e não te diz nada de realmente bom num nível primário, por que você iria imaginar que aquilo que o cineasta está ocultando é justamente o que torna o filme genial? Seria como uma pessoa se vestir como um mendigo, ser estúpida com os outros, cheirar mal, e depois reclamar que ninguém quis se aproximar pra descobrir o verdadeiro gênio por trás daquela aparência.

Há alguns casos de filmes mais abstratos / surrealistas que eu gosto, mesmo sem entender a mensagem total da história. Isso acontece quando a experiência narrativa é intrinsecamente prazerosa, e também quando o filme é brilhante tecnicamente, demonstra conteúdo em outros aspectos (na construção dos personagens, nos diálogos, na direção das cenas individuais, etc), de forma que ele não dependa de uma explicação total em termos de trama pra ter valor. Alguns cineastas conseguem fazer isso de maneira talentosa, como David Lynch, Lars von Trier, ou mesmo o já citado Stanley Kubrick. Voltando ao exemplo de 2001 - mesmo que você não entenda o feto gigante flutuando no espaço numa primeira assistida, nada vai te tirar o prazer audiovisual que o filme proporciona, ou o trecho da missão para Júpiter, por exemplo (o confronto com o HAL-9000, etc) que é um deleite em si, independentemente do que você conclua no fim. Diria que até diretores como Luis Buñuel, Andrei Tarkovsky (esse último um dos mais obscuros de todos os cineastas) têm coisas brilhantes em alguns de seus filmes que os tornam respeitáveis apesar de excessivamente interpretativos.

Se eu passei 2 horas tendo prazer, apreciando valores e vendo um talento real na tela, eu não me importo de voltar pra casa com algumas perguntas no ar. E também não me importo que o diretor inclua algumas idiossincrasias suas na obra, se ele for bem intencionado e brilhante o bastante pra merecer isso. Mas se a experiência é incompreensível, sem riquezas evidentes, e ainda por cima desagradável, tediosa, com personagens horríveis, uma visão de mundo maligna, daí não há mensagem oculta que possa transformar isso em algo bom. O simples fato do artista ter escondido ideias de você e usado símbolos pra representá-las não as torna automaticamente profundas e inteligentes (nem torna o artista mais inteligente).

Os melhores filmes só adicionam camadas mais abstratas à história depois que ele já garantiu valor pro espectador num nível mais básico - quando ele já tem uma narrativa envolvente, uma linha de interesse sólida que funcione por si só. Você pode assistir O Iluminado apenas como um filme simples de terror, torcendo pra que Danny e Wendy escapem vivos dos fantasmas, e você pode assisti-lo depois mais 10 vezes tentando decifrar seus elementos mais misteriosos. Independentemente da explicação para os eventos, o filme tem um sentido básico, projeta valores cena após cena, te envolve, constrói ótimos personagens, tem cenas fantásticas, ação, suspense, um clímax satisfatório, etc.

Esses princípios valem pra quaisquer elementos subjetivos / surrealistas / simbólicos / alegóricos que possam surgir num filme - tudo aquilo que fuja intencionalmente de um nível de comunicação direta com o espectador.

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AYN RAND SOBRE SIMBOLISMO - trecho do livro The Art of Fiction

Simbolismo é a concretização de uma ideia em um objeto ou em uma pessoa representando essa ideia.

Um exemplo de escrita simbólica são as Moralidades (uma forma de teatro medieval). Assim como contos de fadas apresentam a fada boa e a fada má, as Moralidades apresentam conceitos morais através de figuras humanas, como uma Justiça personificada ou uma Virtude personificada. As figuras não representam características (como na ficção Romântica); elas representam as abstrações em si, como uma espécie de arquétipo Platônico. Essa é uma forma rudimentar de drama, mas legítima desde que o simbolismo seja apresentado de forma clara.

O Médico e o Monstro é simbólico na medida em que formas físicas representam um conflito psicológico - o Monstro sendo um símbolo do mal psicológico.

A única regra absoluta no uso de simbolismo é que o símbolo seja legível; de outra forma, a técnica se torna uma contradição em termos. Isso se aplica também a simbolismos criados internamente em uma obra, que não sejam símbolos num sentido mais amplo. Meu uso do sinal do dólar em A Revolta de Atlas é um exemplo: eu estabeleço seu significado, e mais tarde, quando faço referência a ele, eu o faço nessa base. Da mesma forma, quando escritores de histórias religiosas usam a cruz, fica claro o que a cruz representa. Mas quando autores começam a apresentar todo tipo de triângulos e pirâmides cortadas no meio, e ninguém sabe o que isso significa, isso sai fora dos limites da propriedade racional. Pegue Kafka, ou qualquer um desses modernistas; se ninguém sabe o que os supostos símbolos representam, não se pode nem chamar isso de simbolismo.

Quando no final da segunda parte de A Revolta de Atlas, Dagny segue Galt em direção ao nascer do sol, isso é simbolismo. É um símbolo até banal, mas tão apropriado que era legítimo. Literalmente, ela está seguindo seu avião no fim da noite, e pelo local da ação ele teria que estar indo em direção ao oeste (algo que planejei com bastante antecedência). Simbolicamente, ela tinha estado no escuro ao longo de toda a história, mas agora ela está prestes a ver o nascer do sol - e a primeira luz surge das asas do avião de Galt.

Usar o nascer do sol, ou qualquer forma de luz, como um símbolo de algo bom ou de revelação é um clichê, mas é um clichê da mesma forma que é o amor: é tão amplo e fundamental que você não tem como evitá-lo. O que vai tornar o seu uso disso um clichê ou não, é se você traz alguma originalidade para o assunto.

Não é um bom método introduzir sequências simbólicas numa história que em geral é realista. Por exemplo, alguns livros têm sequências de sonhos feitas pra serem simbólicas, mas que acabam sempre ficando confusas. É uma má mistura de técnicas. Ela não pode ser justificada, pois destrói a realidade da história. (Isso é apropriado, no entanto, em musicais. Em musicais, vale tudo, a única regra sendo a imaginação.)

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sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Big Little Lies

Vencedora de 8 Emmys esse ano incluindo Melhor Minissérie e Melhor Atriz pra Nicole Kidman, a série conta a história de 3 mães que apesar de terem vidas privilegiadas num aspecto mais externo (são jovens, saudáveis, bonitas, têm um bom padrão de vida), enfrentam diversos dramas em suas vidas emocionais. A série foi adaptada de um livro por David E. Kelley (criador de Ally McBeal) e dirigida pelo canadense Jean-Marc Valée (dos bons C.R.A.Z.Y. - Loucos de Amor, Livre, e Clube de Compras Dallas). Foi uma das melhores coisas que vi esse ano até agora. O grande destaque vai pros personagens, todos escritos com inteligência, sensibilidade psicológica, além de serem interpretados por um elenco extraordinário (Laura Dern, Reese Witherspoon, Shailene Woodley, etc). Há também bastante humor, e um certo suspense na narrativa - desde o primeiro episódio já é apresentado um mistério de assassinato que ajuda a criar uma linha de interesse até o episódio final. Apesar da premissa poder soar desse jeito, a intenção da série não é a de desglamourizar a vida dos ricos de forma cínica e ressentida, mas simplesmente mostrar 3 mulheres lutando por suas felicidades, por uma vida mais equilibrada, algo que não é garantido apenas pelo fato delas terem dinheiro. Apesar delas terem uma série de problemas, as protagonistas são sempre mostradas com dignidade, estatura, fazendo seus dramas parecerem até atraentes e divertidos de certa forma.

A mesma dignidade já não é oferecida pros personagens masculinos, e essa atitude anti-homem é a única coisa moralmente suspeita na série. Nicole Kidman é uma dona de casa que sofre agressões físicas regularmente do marido. A filha pequena da Laura Dern sofre agressões físicas regularmente na escola de algum garoto. A Shailene Woodley foi estuprada no passado, e seu filho Ziggy (um ator mirim incrível chamado Iain Armitage) é fruto desse estupro. Isso não é feito de maneira totalmente caricata, irracional - nem todas as mulheres na história são santas e nem todos os homens são monstros. Ainda assim, há um senso de que os homens são a fonte de todos os problemas mais graves do universo. Isso fica ainda mais evidente no episódio final (SPOILERS a partir daqui). Quando Perry começa a agredir a Nicole Kidman e as amigas na festa, a cena é intercalada por imagens de ondas quebrando em rochas, trazendo toda uma noção de que a agressividade masculina é uma espécie de força da natureza, algo inevitável, e não uma característica desse homem em particular, resultado de seu caráter. Há uma sugestão constante também de que a violência masculina é transmitida geneticamente - que filhos de pais violentos também tendem a ser violentos. Outro detalhe que traz um elemento político suspeito pro episódio final, é o fato de Perry ser morto justamente pela Bonnie, a única mulher negra da história. No contexto da trama, faria sentido a Nicole Kidman ou a Shailene Woodley matarem Perry, mas jamais Bonnie. Bonnie cometer o ato só faz sentido se você enxergar a série como uma espécie de vingança simbólica das feministas/progressistas contra o machismo/conservadorismo. Daí sim - como Bonnie representa a mulher moderna (usa rastafari, faz yoga, só come comida natural, defende liberdade sexual - ou seja, é a mais hippie e esquerdista da série) meio que faz algum sentido ser ela que mata Perry. Mas é algo que foge da lógica da história e acaba parecendo forçado. Depois que Perry é morto, há toda uma cena numa praia belíssima, onde todas as mães estão felizes, reunidas com seus filhos, brincando na areia - e nenhum dos maridos está presente (nem mesmo os maridos bonzinhos). É uma nova versão do paraíso: um lugar onde há apenas mulheres e crianças, e o homem foi finalmente eliminado da face da Terra.

Mas isso é apenas um elemento ruim dentro de uma história que fala de questões mais amplas e tem diversas outras riquezas que merecem ser aproveitadas.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Gaga: Five Foot Two

Acho a Lady Gaga uma das artistas pop mais interessantes que surgiram desde a virada do século, muito por ela trazer de volta um pouco da diversão e da magia que havia no mundo da música nas décadas de 80 e 90. Esse documentário, no entanto, acaba sendo um pouco frustrante para os antigos fãs. Primeiro por ele focar apenas nessa nova fase dela (a "era Joanne"), onde ela se apresenta como uma artista mais madura, que deixou pra trás a Gaga escapista de Poker Face e Bad Romance que 99% de nós preferíamos (ela está agora flertando com o Naturalismo pra tentar provar que é uma artista respeitável). Acaba não sendo muito inspirador, pois esse é um momento menos empolgante e bem sucedido de sua carreira (é muito diferente de quando a Madonna gravou Na Cama com Madonna durante a turnê Blonde Ambition, um dos maiores auges de sua carreira - e de qualquer carreira).

Outro problema (e que está ligado a esse primeiro) é o foco excessivo do documentário no sofrimento de Gaga. Em vez de nos deixar admirados com o talento e o estilo de vida de uma das maiores super-estrelas da atualidade, toda a ênfase do documentário está no fato de que Gaga sofre - e muito. Descobrimos que ela sofre de dores crônicas, sofre com o machismo da indústria, que se apresentar em shows às vezes é uma grande tortura, que escrever música é um processo desgastante emocionalmente (ela compara a uma cirurgia de coração)... Ela tem incontáveis crises de choro ao longo do filme - uma hora chora por causa de sua vida amorosa (Joanne foi produzido durante o fim de um namoro, o que tornou tudo ainda mais doloroso), outra hora chora por receber uma ligação de uma amiga com câncer, ela chora quando se despede do Mark Ronson no último dia de estúdio, depois num encontro com uma fã, mais crises de dor, etc, etc.

Suspeito que esse foco no sofrimento não seja uma distorção do documentário, mas um reflexo real da atual fase de Gaga. O álbum Joanne é uma homenagem a uma tia de Gaga que era uma espécie de artista na família, mas que morreu de forma horrível quando ainda era jovem (a avó tinha a opção de salvar a vida de Joanne, lhe amputando as 2 mãos, ou deixá-la morrer - e escolheu a segunda). Gaga parece fascinada com esse "ideal" do artista trágico, cujo talento vem das profundezas de seu sofrimento. Um "artista feliz" pra ela deve ser uma contradição em termos. Dentro dessa lógica então, o documentário faz sentido: quanto mais ela sofre, mais ela prova pra si mesma e para o mundo o quão artista ela realmente é. 

Pouco se vê da alegria de cantar, dançar, ser jovem, livre, rica, famosa, usar roupas excêntricas, poder se expressar pro mundo inteiro, etc. Há um momento particularmente estranho quando, no meio de uma conversa, Gaga decide tirar a blusa e ficar com os seios totalmente de fora, apenas pra ficar mais à vontade. É como se nesse momento ela se esquecesse de seu atual personagem, e voltasse a incorporar a Madonna de Truth or Dare - por um momento errasse o "texto" e passasse sem querer a impressão de que astros pop são sim figuras fascinantes, livres de problemas mundanos, com vidas exóticas, personalidades maiores que a vida, etc. Mas a ação soa inautêntica, pois contradiz a Gaga de todo o resto do filme. Quando Madonna fazia esse tipo de coisa, você realmente acreditava que aquilo era normal tanto pra ela quanto pras pessoas ao redor. Aqui, fica um clima de constrangimento, como se ela tivesse subitamente incorporado um personagem que ninguém mais no ambiente conhecesse.

Outro momento de pouca autenticidade é quando Gaga vai apresentar a canção Joanne pra sua avó (a mãe da Joanne real). Você espera uma reação emocionante por parte da avó, mas no fim a única que se emociona de fato é a própria Gaga. A avó fica quase constrangida por não estar tão sensibilizada quanto deveria com a homenagem. Ela parece ter superado a morte da filha já há muitas décadas, como se isso nem fosse mais um grande drama em sua vida. E ela não parece particularmente próxima de Gaga, orgulhosa de sua música e carreira, o que torna o momento ainda mais broxante. Fica a sensação de que essa mitologia toda ao redor de Joanne é apenas uma "pira" da Gaga, e não uma grande cicatriz de fato na história da família. O documentário acaba destruindo um pouco essa ideia de que Gaga é uma mulher de fortes laços familiares, que coloca suas raízes acima da fama (a ponto de ter escrito um álbum tão pessoal). Seus pais aparecem de relance no começo do filme, mas depois desaparecem misteriosamente - não dão depoimentos, nada dizem a respeito de Joanne, não estão juntos na cena da avó, etc. Parece uma família desestruturada como qualquer outra.

O que há de melhor no documentário (além desse belíssimo pôster) são alguns momentos de bastidores (no estúdio com Mark Ronson, gravando o clipe de Perfect Illusion, nos preparativos para o Super Bowl, etc) que nos lembram que Gaga é de fato uma pessoa admirável, talentosa, profissional, que impactou o mundo da música e merece o sucesso que conquistou. Infelizmente, o filme parece fazer de tudo pra gente esquecer de sua grandeza, dando mais ênfase pra ideia que já fica estabelecida no título "Five Foot Two": Lady Gaga não passa de uma baixinha.

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Gaga: Five Foot Two / EUA / 2017 / Chris Moukarbel

NOTA: 5.5

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Mãe!

NOTAS DA SESSÃO:

- O filme começa intrigante por ser diferente, anti-convencional, por mostrar uma série de coisas misteriosas (O que é aquele cristal? Por que o incêndio no começo? Por que a Jennifer Lawrence sente coisas dentro da parede? O casal tem poderes sobrenaturais?). Mas já fica a impressão de que o filme busca a estranheza apenas pela estranheza em si. Pra tentar parecer cult. Não porque o autor de fato é excêntrico, tem uma visão autêntica, original, conteúdo inovador pra passar, nem porque deseja criar uma experiência prazerosa pro espectador.

- A ideia de filmar o rosto da Jennifer Lawrence apenas em close é uma dessas decisões arbitrárias que só servem pra chamar atenção pra direção, pra mostrar pros críticos que o diretor tem "técnica". Em geral é uma fotografia ruim, feia, sem noção de comunicação visual... Isso resume bem o filme: é pobre esteticamente, sem nada de muito talentoso, mas como há um "conceito" diferentão por trás, fica soando artístico pro espectador ingênuo.

- O mundo dessas pessoas sempre foi surreal? Ou a maluquice começou só agora por algum motivo? Não sabemos. É a mesma coisa que falei de Cisne Negro (também de Aronofsky). Esses não são personagens normais que de repente estão vivendo eventos extraordinários (nesse caso a gente ainda poderia se identificar). Desde a primeira cena já estávamos num universo absurdo sem nenhuma explicação. Não dá pra gente se identificar com eles, acreditar no que está acontecendo, se envolver em uma narrativa convincente, etc. O filme é apenas um joguinho que o diretor quer fazer com a plateia - mostrar um monte de coisa inexplicável pra gente tentar adivinhar qual a simbologia genial por trás da história.

- Não há realismo psicológico ou sutileza na construção dos personagens. Os diálogos são banais, sem profundidade. Ed Harris não convence como um fã obcecado, nem o Javier Bardem como um escritor famoso. Depois tem aquela família que invade a casa, o irmão que mata o outro e vem com uma psicologia barata pra se justificar: "ele sempre foi mais amado do que eu". Os personagens são apenas marionetes sem alma pro diretor apresentar seu "conceito". A sensação é de estar vendo um filme feito por alguém absolutamente convencional, de inteligência mediana (tem até o clichê do jump-scare na porta da geladeira) se esforçando pra parecer genial, alternativo.

- Depois de 1 hora nessa alucinação o filme começa a ficar chato. Não há um contraste entre fantasia e realidade pra tornar a experiência interessante. A gente simplesmente deixa de acreditar no que está acontecendo. Aceita que é tudo "simbólico", que pode ser tudo um sonho, uma "metáfora". Os personagens não têm objetivo, não temos ideia do que eles poderiam fazer pra sair desse pesadelo... A plateia fica apenas assistindo pessoas sofrendo, sendo cada vez mais perturbadas num universo maligno de onde não há escapatória (o cineasta é daqueles que acha uma virtude incomodar o espectador). É uma história focada no negativo, que glamouriza a dor - só aguentamos até o final porque queremos saber se o cineasta vai ou não revelar sua sacada, qual a "crítica" que ele quis fazer (como se uma crítica justificasse uma obra de arte). O problema é que, mesmo que seja algo brilhante, isso não vai anular as 2 horas de nonsense que tivemos que assistir. Seria muito melhor não ter nenhuma crítica, nenhum conceito brilhante no fim, mas ter sido brilhante no durante. (Pra uma discussão mais detalhada, leiam minha postagem Simbolismo e Filmes Interpretativos.)

- SPOILER: O final soa tolo, apenas um apelo pra violência, pro sensacionalismo, sem nada de positivo pra equilibrar nem de inteligente pra dizer. Tudo em nome de uma crítica ao homem, à "ganância masculina", que pelo visto sempre coloca a carreira acima da família, da vida, que oprime e violenta a pureza da mulher (da "mãe natureza" quem sabe), etc. Se for uma metáfora bíblica, o filme seria do tipo que depende de informações externas específicas pra funcionar, precisa de um "manual" pro espectador, não tenta funcionar de forma independente, o que viola um dos princípios que estabeleci na postagem Virtudes e Tipos de Filmes.

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CONCLUSÃO: Razoavelmente divertido por ser extremo, incomum, mas no fim é um filme tolo e pretensioso.

Mother! / EUA / 2017 / Darren Aronofsky

Postagens Relacionadas: Filmes Bem vs. Mal Intencionados / Alerta Vermelho / Virtudes e Tipos de Filmes / Simbolismo e Filmes Interpretativos

FILMES PARECIDOS: Cisne Negro (2010) / Ilha do Medo (2010) / Fonte da Vida (2006)

NOTA: 4.0

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Feito na América


O filme conta a história verídica de um piloto que trabalhou pra CIA nos anos 80 e que se aproveitou de seus acessos pra ganhar montanhas de dinheiro transportando drogas da América do Sul para os EUA. É uma coisa meio Prenda-me Se For Capaz - um desses filmes que contam histórias de personagens que fizeram fortunas de forma corrupta, tentando tornar meio cool a malandragem deles, o mundo do crime, meio que zombando do sonho americano, etc. Não sou muito fã de filmes com essa atitude, mas as qualidades de Feito na América são maiores que esse "porém" e me fizeram aproveitar a sessão. O roteiro é divertido, dinâmico, sempre fugindo do previsível, elevando a situação pra novos patamares, num minuto te convencendo de que tudo está resolvido pro personagem, no outro trazendo uma nova informação que coloca tudo em risco de novo, há momentos de ação tensos, o filme é bem dirigido, bem narrado, etc... E apesar de não ser o ator mais apropriado que poderíamos imaginar pra um personagem desses, é de certa forma agradável ver o Tom Cruise explorando tipos diferentes, que não sejam aquele herói ultra-eficaz, incorruptível e sedutor que ele já fez tantas vezes.

O grande "problema" do filme pra mim não é nenhum defeito na execução, nem mesmo no conteúdo, e sim a natureza pouco ambiciosa da produção em termos artísticos, no impacto que ela deseja causar no espectador. Primeiro pelo filme não trazer nada de muito novo ao gênero, e acabar se parecendo com muitos outros filmes que já vimos antes. Mas além disso, é um filme que chega pro espectador com uma atitude meio despretensiosa, do tipo: "veja que curiosa essa história real que eu tenho pra contar". É difícil um filme assim se tornar uma experiência arrebatadora, memorável, o filme da vida de alguém, por mais bem feito que seja. Ele não pretende lidar com os valores mais importantes pro espectador, não pretende criar grandes emoções, tocar sua alma, não pretende inovar, explorar todo o potencial criativo do cineasta - quer apenas contar uma história curiosa de maneira divertida e competente. Há um limite pro quão satisfeito eu consigo sair de uma sessão assim, mas dentro dessa proposta, é um filme bem feito.

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American Made / EUA / 2017 / Doug Liman

FILMES PARECIDOS: Cães de Guerra (2016) / O Conselheiro do Crime (2013) / Selvagens (2012) / Prenda-me Se For Capaz (2002)

NOTA: 7.0

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Polícia Federal - A Lei É Para Todos

NOTAS DA SESSÃO:

- O filme obviamente coloca sua função documental / jornalística / ideológica acima do propósito artístico. Não há nenhum tipo de sutileza - o filme não exige que o espectador interprete qualquer coisa, perceba qualquer coisa num nível mais profundo. Se comunica apenas no nível superficial das informações práticas. Esse narrador dizendo coisas como "Nossa história começa..." só contribui pro aspecto didático da produção.

- Quando o filme tenta sair do jornalismo e explorar a vida pessoal dos personagens, dar uma cara mais de "filme", nada funciona... Os personagens são unidimensionais, não têm personalidades convincentes... Eles soam tão autênticos quanto políticos em propagandas eleitorais, quando aparecem visitando comunidades carentes, expondo seus lados "humanos", etc.

- Pelo menos é melhor que Real - O Plano por Trás da História, pois além de ser muito mais esclarecedor em relação à história, aqui pelo existem personagens inocentes, lutando por uma boa causa (em Real não dava pra simpatizar nem pelo protagonista). Acaba sendo quase como uma versão mais simplória de Spotlight: Segredos Revelados - uma trama de sucesso sobre um grupo de investigadores revelando um grande escândalo nacional. Então a narrativa é razoavelmente envolvente, prazerosa, mas sem dúvida não é uma obra que se sustenta sozinha. Esse filme visto num outro país, numa outra época, certamente não terá o mesmo impacto do que visto no Brasil, por alguém familiarizado com os fatos (e que seja contra o PT, preferencialmente). Ele depende de várias informações externas pra funcionar.

- Apesar do filme se posicionar como imparcial, apenas uma crítica à corrupção, ele claramente enfatiza mais a corrupção do PT do que dos outros partidos (o que talvez seja justo, considerando os últimos anos). Mas intelectualmente acaba parecendo um filme tímido, politicamente correto, pois ele não ousa criticar o PT enquanto ideologia, sugere que a única coisa que ele tem contra o partido é a corrupção (quando na verdade o filme parece ter outras objeções além dessa). É um pouco como Spotlight também, que ataca a igreja Católica mas apenas no nível óbvio dos casos de pedofilia, algo que nenhum espectador iria questionar. Em nenhum momento ele faz uma crítica mais fundamental aos valores da igreja em si, etc.

- O Ary Fontoura está ótimo como o Lula. Tem o equilíbrio perfeito de deboche, carisma e dissimulação. Marcelo Serrado como Sérgio Moro também foi uma ótima escolha.

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CONCLUSÃO: Fraco como cinema, mas bem sucedido dentro da proposta do filme.

Polícia Federal - A Lei É Para Todos / Brasil / 2017 / Marcelo Antunez

FILMES PARECIDOS: Real - O Plano por Trás da História (2017) / Margin Call - O Dia Antes do Fim (2011)

NOTA: 6.0

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

It: A Coisa

NOTAS DA SESSÃO:

- Logo no início, na cena em que o Georgie desce até o porão pra pegar a cera, é um pouco inapropriado criar um longo momento de suspense, sendo que o filme ainda nem disse sobre o que será a história, nem sugeriu que algo sobrenatural possa existir, etc.

- A produção em geral é um acerto. Os atores que fazem os garotos são bons (exceto talvez o que faz o hipocondríaco, que soa forçado), o visual de filme dos anos 80 convence, a cidadezinha e as locações criam um clima nostálgico agradável, a trilha é boa, etc. E obviamente, o livro Stephen King é um ótimo material... Mas como ele já tem uma adaptação famosa, a tarefa desse filme aqui é mais difícil, pois ele tem que ter méritos maiores pra se justificar.

- A cena do bueiro é divertida. O grande problema é que depois da performance icônica do Tim Curry no filme de 1990, é praticamente impossível um novo palhaço não decepcionar. É como tentar fazer um remake de Esqueceram de Mim como um "novo Macaulay Culkin". É algo que não existe; a comparação vai sempre prejudicar o filme.

- É um pouco estranho esses outros monstros aparecerem logo no começo (a mulher que sai do quadro, etc.) enquanto o palhaço ainda nem foi estabelecido como o vilão principal. O conceito fica meio confuso. Além disso esses outros monstros não são tão bem feitos ou assustadores. O menino que desce a escada sem cabeça, por exemplo, e daí começa a correr loucamente, acaba parecendo meio ridículo da maneira como a cena foi executada. Muito do impacto do filme antigo vinha das cenas de terror acontecerem em ambientes inofensivos, cotidianos, envolvendo objetos inocentes, que subitamente se transformavam em algo assustador (como em A Hora do Pesadelo). Agora um quadro que já é assustador virar um monstro assustador num quarto assustador... não há contraste, é outro estilo de terror.

- Depois de 1 hora de aparições de monstros, o filme começa a ficar meio repetitivo. E é falso depois de tantas aparições as crianças não estarem apavoradas, continuarem com uma rotina normal, não contarem pra ninguém das visões que estão tendo, etc. O pior momento é quando todos os amigos ajudam a Beverly a limpar o banheiro sujo de sangue, como se aquilo fosse uma faxina comum. Certamente nesse ponto todos já deveriam estar em pânico e discutindo abertamente a situação - e não se divertindo, limpando litros de sangue sobrenatural ao som de uma trilha divertida!

- No antigo, o que dava medo no palhaço era a performance do Tim Curry - a personalidade carismática, expansiva, brincalhona, em contraste com a aparência medonha. Bastava apontar a câmera pra ele que já era algo assustador (em plena luz do dia, sem truques de edição, sem cortes, sem efeitos, etc). Aqui o filme fica tentando dar medo através de jump scares, técnicas de filme de terror barato - Pennywise surgindo subitamente atrás da bexiga, ou correndo em direção à câmera em fast forward com efeitos sonoros clichê, etc.

- Quando os amigos finalmente conversam sobre terem visto o palhaço, em vez disso gerar um clima assustador, a situação é logo quebrada por uma piadinha de um deles ("isso é coisa de virgem?"). O filme não sabe diferenciar entre alívio cômico e piadas que arruinam todo o clima do filme. Na cena da guerra de pedras, há novamente um uso extremamente inapropriado de humor. O que era pra ser um momento de heroísmo, superação, fica parecendo uma comédia besteirol (não dá nem pra dizer que o humor não foi intencional, por causa da música usada).

- SPOILER: Um jump scare que funcionou bem na minha opinião é quando eles estão assistindo os slides, e o palhaço pula da tela.

- Mesmo depois deles terem reconhecido a existência do palhaço, o comportamento dos garotos continua artificial. Por exemplo: eles todos toparem ir até a casa abandonada, entrarem fazendo piadinhas como se não estivessem nem aí... Daí, quando o filme precisa que algum personagem realmente entre em pânico, comece a gritar, isso não convence - é incoerente em relação à atitude de antes. No filme dos anos 90, o medo era algo intenso, as emoções dos personagens eram "maiores que a vida" (me vem à mente aquela cena do menino que fica com os cabelos brancos só de olhar pra Coisa, ou então o Stan, depois de adulto, que se suicida na banheira só por ficar sabendo que o palhaço voltou). Aqui nada é "maior que a vida" - em qualquer momento pode surgir uma piadinha pra quebrar o clima (por exemplo: quando o menino hipocondríaco vê o monstro leproso e desmaia de maneira cartunesca, ou depois quando ele confunde "placebo" com "gazebo" no meio de uma cena séria). Não chamaria isso nem de Romantismo Reprimido, e sim de Anti-Romantismo (vou discutir isso numa outra postagem).

- SPOILER: Depois que o palhaço dá uma trégua e todo mundo volta pra vida normal, há 2 sequências seguidas que são muito parecidas, e parecem fazer parte de um outro filme: quando 2 dos personagens secundários se vingam de seus pais abusivos (o bully que esfaqueia o próprio pai, depois a Beverly que ataca o pai no banheiro). Aliás, os pais nesse filme parecem monstros até piores que o Pennywise. Não fica muito claro também se essas vinganças foram espontâneas, ou controladas pelo Pennywise (afinal ele estava presente nas 2 cenas). Quer dizer que o palhaço "ajuda" também as crianças a fazerem certas coisas?

- Quando a Beverly é raptada pelo Pennywise e todos decidem se unir para salvá-la, eles não têm uma estratégia muito sólida pra matar o palhaço. Levam lanças, armas comuns... Mas não parece nada provável que um monstro extra-dimensional possa ser derrotado dessa forma.

- Ridículo o gordinho acordar a Beverly do transe com um beijo de "amor verdadeiro", parodiando A Bela Adormecida.

- SPOILER: A maneira como o Pennywise é derrotado é insatisfatória, pois não há muita consistência na ideia de que o medo das crianças é o que dá poder a ele... Ou seja, que quando as crianças não têm medo, o palhaço não consegue derrotá-las. Em vários momentos elas estavam com medo sim e mesmo assim o palhaço não conseguiu matá-las. E quando ele foi ferido pela lança da primeira vez, não ficou claro que o motivo foi porque elas não estavam com medo naquela hora. O filme é muito mais uma homenagem aos "losers", aos excluídos, do que um confronto empolgante contra uma força do mal.

- SPOILER: Que exagero esse pacto que os amigos fazem no final, dando as mãos cheias de sangue... Bizarro também a cena do beijo - a Beverly sujando o rosto do Billy com sangue. É pra sugerir que ela é a Coisa? Que o Pennywise também pode "possuir" pessoas? Nada disso foi pré-estabelecido, então fica apenas parecendo uma atitude sem-noção.

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CONCLUSÃO: Estimulante, bem feito em termos de produção, na aparência externa do filme, mas altamente falho na direção, no desenvolvimento da história, na construção do terror, no comportamento falso dos personagens, etc.

It / EUA / 2017 / Andy Muschietti

Postagens relacionadas: Romantismo Reprimido

FILMES PARECIDOS: Annabelle 2: A Criação do Mal (2017) / Stranger Things (2016) / Super 8 (2011)

NOTA: 4.5

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Como Nossos Pais

NOTAS DA SESSÃO:

- A cena inicial no almoço já resume bem o tom do filme: um grupo de pessoas se comportando de maneira forçada só pro filme provar que relacionamentos são difíceis, conflituosos, que a vida é complicada. Todos os personagens agem de maneira condenável - não há 1 pessoa admirável e inocente pra plateia se apoiar, e o filme também não diz que ninguém está errado. Apenas mostra "a vida como ela é".

- A filha (Rosa) é a personagem mais irritante de todas. Só sabe reclamar, é agressiva sem necessidade com os filhos, com o marido, com a mãe (dá até certo prazer quando a mãe cala a boca dela revelando que ela é filha de outro homem). Mas em seguida vem a frustração de descobrir que ela (Rosa) será a protagonista da história e teremos que aguenta-la o filme inteiro.

- Os diálogos às vezes parecem improvisados pra ganharem um ar de realismo, mas na prática acabam parecendo mal escritos, amadores, conscientizam ainda mais a gente de que estamos vendo um filme (e não "a vida como ela é").

- O filme é uma série de situações desagradáveis: a discussão com o pai fracassado que parou de pagar as mensalidades da escola da filha, o erro que a Rosa comete no trabalho e resulta em discussões com o chefe, depois ela chegando em casa e discutindo com o marido sobre dinheiro, sobre a relação, sobre quem se sacrifica mais pelo outro, tendo inúmeras discussões com as filhas, o detalhe do leite que ferve e suja o fogão, o pai que perde a hora da escola e tem que acordar as filhas correndo, etc. E não é como em filmes hollywoodianos onde no começo a vida da protagonista está um inferno, mas daí ela larga tudo e parte numa grande aventura. Não. Aqui a ideia é mostrar a "realidade" como um fim em si. Mostrar o lado falho do ser humano, mostrar que a cineasta é "madura", que pra ela cinema não é sobre entreter o público, sobre mostrar coisas incomuns, interessantes, pessoas virtuosas, dar soluções, e sim sobre encarar os aspectos mais desagradáveis do cotidiano.

- A Rosa tem ódio da mãe, mas daí a mãe revela que tem câncer e ela não pode mais ter ódio, pois tem que ter pena... Depois em casa ela está triste, mas daí tem que ler uma história pras filhas dormirem, então ela tem que fingir que está feliz... Depois ela tem que hospedar a meia-irmã adolescente em casa contra sua vontade, pois não pode dizer não pro pai, que é um pobre coitado maior que ela... O filme não tem uma história, um propósito positivo, quer apenas dizer pra plateia "vejam como a vida é dura (especialmente pra mulher moderna), como temos sempre que nos sacrificar uns pelos outros, como as relações humanas nunca são ideais, mas mesmo assim não podemos viver sem elas" - e fica jogando uma cena aleatória após a outra pra reforçar essa ideia.

- Pelo menos não é algo 100% Naturalista como alguns outros filmes nacionais recentes (Corpo Elétrico, por exemplo), pois no meio das banalidades do cotidiano, o filme cria 1 ou outro ponto de interesse na história: o encontro com o pai biológico, as traições no casamento, o futuro profissional de Rosa, a doença da mãe, etc. Então não é um registro totalmente cru de uma fatia da sociedade, sem nenhum tipo de drama ou senso de direção.

- O pai da Rosa é uma figura deprimente: o artista pseudo-intelectual, avoado, que não funciona no mundo prático, fala de maneira subjetiva, desestruturada, imprecisa, mas com "humanidade" e algum tipo de "sabedoria mística" (e o filme acha ele o máximo).

- Forçada a discussão da Rosa com as lésbicas no sofá. Ou depois a conversa da Rosa com o Pedro na praia. O filme tem umas cenas artificiais que só servem pra enfiar esses discursos feministas / progressistas no meio da história e expor a ideologia da cineasta.

- SPOILER: A maneira como a morte da mãe é mostrada é bonita (ela tocando piano e o enterro sendo mostrado paralelamente em flash-forward). Não precisou ficar apelando pro sofrimento, pra agonia no hospital, etc. A mãe não tinha medo da morte, então foi uma maneira elegante de dar fim à personagem, que era a mais interessante do filme.

- Toda essa ideia de que a vida é cíclica (Rosa regando as plantas como fazia a mãe, etc) é pra parecer poética, bonita, mas na realidade é deprimente, determinista... Quer dizer que nossas vidas não estão sob nosso controle, que não somos independentes, que nossos destinos não são determinados por nossas decisões, nossos valores, e sim por um destino já traçado, que iremos repetir aquilo que nossos pais fizeram, cometer os mesmos erros, viver as mesmas decepções, etc.

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CONCLUSÃO: A chatice "progressista" básica do cinema nacional.

Como Nossos Pais / Brasil / 2017 / Laís Bodanzky

Postagens relacionadas: Filmes Bem vs. Mal Intencionados / Senso de Vida / Naturalismo vs. Romantismo

FILMES PARECIDOS: Aquarius (2016) / Fala Comigo (2016) / Eu, Daniel Blake (2016)

NOTA: 3.5

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Atômica

NOTAS DA SESSÃO:

- Isso não é uma crítica ao filme em si, mas à versão brasileira: detesto quando eles refazem o logotipo do filme nos créditos iniciais pra traduzir o título pro português. Causa o mesmo estranhamento que a dublagem, só que num nível visual.

- O filme tem um visual chamativo, bem cuidado, mas já começa com uma atitude meio duvidosa: a tentativa de tornar a violência cool, ou a atitude mal humorada da Charlize Theron (que pelo visto era pra torná-la uma heroína mais atraente). Apesar da Charlize ser boa atriz, não acho que esse seja o papel ideal pra ela. Ela é uma atriz sofisticada, madura... E a Lorraine é pra ser uma personagem ousada, perigosa, sexy - combinaria mais com uma Scarlett Johansson, por exemplo.

- A trama começa mal. É um típico "filme de serviço" onde a protagonista recebe ordens e parte numa missão desinteressante, atrás de um McGuffin qualquer (o microfilme), sem nada que de fato envolva a plateia.

- O grande problema é que o filme está mais preocupado com estilo do que com história. Em vez de começar com um bom roteiro, e depois pensar na aparência, o cineasta parece ter começado com um look - com essa coisa anos 80, colorida, cheia de neons, femme fatales, músicas pop da época - e depois pegou uma trama genérica de espionagem qualquer só pra encher linguiça.

- Essa ideia de colocar músicas inadequadas de fundo (como "Father Figure" do George Michael) durante cenas de violência ainda soava original quando John Woo fez A Outra Face em 1997, mas já foi tão usado que hoje em dia parece um artifício barato (além de ser uma atitude cínica que não tem muito a dizer, apenas banaliza a violência, tira o drama da cena em favor do estilo).

- A cena de ação dentro do cinema também não tem a menor necessidade de existir. Eles só entraram aí pois o diretor achou que seria legal ter um tiroteio em frente a uma tela de cinema passando Tarkovsky. A personagem ter um romance lésbico também parece bem aleatório, só pro filme ficar mais "edgy" e estimular o público masculino.

- As cenas de luta / tiroteio / perseguição de carro não são das melhores. Até porque o filme está sendo contado em flashback, narrado por ela, então sabemos que ela não pode morrer em nenhum desses confrontos. E não há conflitos morais, carga dramática... Todo mundo é suspeito no filme, ninguém é confiável, então se alguém se revelar um traidor não será a menor surpresa (até porque em filmes de espionagem isso é o maior clichê).

- Bem, pelo menos há 1 sequência "show stopper" no filme - o tiroteio que começa na escadaria e depois termina na perseguição de carro. Os stunts são muito bem feitos (parece mesmo a Charlize Theron fazendo boa parte das lutas), há um realismo que torna tudo ainda mais aflitivo, há uns planos sequência impressionantes principalmente na fuga de carro... Parece uma cena dirigida por outra pessoa, e não pelo mesmo cara que estava dirigindo as cenas de ação até agora.

- SPOILER: Mais pro final a história fica um pouco melhor, ganha uma dimensão mais pessoal quando a Charlize descobre que foi enganada, começa a tramar a vingança contra o James McAvoy, etc. Embora nos últimos minutos a trama fique confusa demais - há um excesso de reviravoltas e já não se sabe direito quem estava enganando quem ao longo do filme (e como não há relações bem construídas no filme, essas revelações não chegam a empolgar a plateia).

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CONCLUSÃO: Visual marcante, 1 sequência memorável de ação, mas a trama é genérica e pouco envolvente.

Atomic Blonde / Alemanha, Suécia, EUA / 2017 / David Leitch

FILMES PARECIDOS: A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell (2017) / John Wick: Um Novo Dia Para Matar (2017) / Lucy (2014)

NOTA: 5.5

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Como a Cultura Encomenda Seus Ídolos

Você já se perguntou por que não temos um Mozart hoje em dia? Um Leonardo Da Vinci? Ou mesmo um Michael Jackson? Ou por que no Brasil não temos cineastas como vemos nos EUA? Com 7 bilhões de pessoas no mundo (200 milhões só no Brasil), certamente não pode ser um problema de falta de cérebros, de "matéria prima". E na era da internet, nem de falta de acesso à informação. Se hoje em dia temos mais gente, em condições melhores, com muito mais informações e ferramentas disponíveis do que em qualquer outra época, seria de se esperar que a cultura estivesse produzindo coisas muito mais admiráveis do que as que eram produzidas há várias décadas ou séculos atrás. No entanto, não é o que vemos por aí (pelo menos na área da cultura - em ciência e tecnologia ainda vemos bastante progresso). Isso ocorre, na minha opinião, porque cada cultura colhe aquilo que planta - e recebe os ídolos que encomenda.

Não estou querendo invalidar o poder que cada indivíduo tem de se desenvolver independentemente da cultura ao seu redor, estou apenas apontando o papel que a cultura exerce nesse processo: é como a relação entre uma criança e a casa em que ela cresce. Imagine uma criança com uma inclinação para as artes, mas que cresça em uma casa de médicos, que achem cultura algo superficial. Ou uma criança com uma inclinação para as ciências, mas que seja bombardeada de noções religiosas desde que comece a pensar. Se elas forem independentes o bastante, elas ainda podem crescer e desenvolver seus dons naturais, apesar das influências externas. Ainda assim, me pergunto o quão mais longe elas não poderiam ir caso crescessem num ambiente propício, que incentivasse esses dons desde os primeiros anos.

A cultura (de um país, de uma época) é como essa "casa", ou esses "pais", que podem incentivar ou inibir certas qualidades em seus filhos.

O Michael Jackson é um exemplo claro de um ídolo "produzido" por sua cultura. Não só a casa em que ele cresceu (literalmente) era o ambiente perfeito pra um cantor/dançarino descobrir e desenvolver seus talentos (sem querer defender os abusos do pai), como a cultura americana daquela época era também o solo mais fértil pra alguém com tais qualidades surgir. Era uma época em que talento e virtuosismo ainda eram recompensados (esperava-se que artistas fossem completos, multi-talentosos), onde entretenimento popular e inocente eram levados a sério, movimentavam uma indústria multi-milionária, era também um período em que mudanças sociais começavam a abrir portas para artistas negros. E assim, através das forças do mercado e de um processo de seleção natural, a cultura "colheu" nos anos 70/80 o ídolo que ela plantou.

Teria ele virado o Michael Jackson que conhecemos caso tivesse crescido numa cultura que, em vez de virtuosismo e ambição, achasse mais admirável a humildade, a moderação? Teria o pai Joseph Jackson ensaiado os filhos exaustivamente todos os dias pra se tornarem os melhores performers, se o público daquela época não desse muito crédito pra esse tipo de habilidade? Teria ele criado um grupo como os Jackson 5 numa cultura em que alegria e inocência fossem consideradas coisas ridículas, e o "sexy" fosse ser cínico, pessimista?

Claro que uma pessoa pode decidir ir contra todas as tendências culturais e se tornar excelente no que ela faz mesmo assim. Mas quase sempre, os astros de sua época não são essas flores solitárias que brotam no meio de um deserto, e sim o resultado de um longo processo de seleção natural, dentro de uma área onde existe um grande mercado e muitas pessoas de talento competindo pra se destacar.

Você não terá esse grande mercado e essa seleção natural acontecendo em áreas ignoradas ou desprezadas pela cultura. Em virtudes consideradas "fora de moda". Você só vai ter isso no que for considerado "quente" no momento, no que for "cool", popular, no que inspirar na população um real senso de possibilidade, de reconhecimento, de sucesso prático e comercial.

No Brasil, nós nunca tivemos, por exemplo, um solo fértil para o surgimento de um Stanley Kubrick, ou um Martin Scorsese no cinema. Agora pense no futebol: quantas crianças estão nesse momento praticando, competindo, com ídolos como Pelé e Neymar em mente, e que daqui a alguns anos poderão estar entre os melhores jogadores do mundo.

Pense também no "mercado" de drag queens, e no quanto ele deve ter crescido nos últimos anos simplesmente pelo fato da cultura ter tornado isso cool de uma hora pra outra. Um artista como Pabllo Vittar dificilmente surgiria fora de contexto, se a cultura não estivesse já preparada pra algo do gênero. Há 15 anos atrás, ele certamente não teria a mesma abertura pra aparecer na TV, tocar nas rádios, etc. E o importante não é nem a questão da abertura da mídia - o importante é entender que há 15 anos atrás, Pabllo Vittar provavelmente nem teria existido! Não haveria RuPaul's Drag Race na TV pra inspirar o jovem Pabllo, fazê-lo sonhar, mostrar que ele poderia ter uma carreira de sucesso como drag, e também não haveria um programa como Amor e Sexo na Globo, perfeito pra alavancar sua carreira.

Quando a cultura ao seu redor celebra aquilo que você tem a oferecer, isso te dá um incentivo único pra desenvolver suas habilidades. A possibilidade de sucesso se torna algo palpável, real. Você vê outras pessoas como você se destacando por aí, e isso te estimula, faz você querer praticar, se tornar melhor, além de te dar um referencial. Sua energia criativa está alinhada com a energia da cultura, e com isso o universo conspira ao seu favor.

Se aquilo que você tem a oferecer é desprezado pela cultura ao seu redor, se você só enxerga cinismo, desprezo e fracasso comercial pela frente, você dificilmente investirá o esforço necessário pra se tornar um mestre naquilo. Você pode tentar se adaptar, tentar fazer o que a cultura está exigindo, mas assim dificilmente será tão bom quanto seria se estivesse alinhado com seus dons naturais.

Um caso de adaptação "bem sucedida" é por exemplo o do Justin Bieber, que começou como uma espécie de menino prodígio, inocente, que cantava bem, tocava uma série de instrumentos, até que seu primeiro grande hit "Baby" foi também o vídeo com o maior número de dislikes da história do YouTube, e virou alvo de ridicularização, teve inúmeras paródias, etc. Nos anos seguintes, ele foi se adaptando, se conformando, até que conseguiu finalmente conquistar o grande público - não exibindo suas qualidades originais, mas adotando uma atitude rebelde, mudando totalmente sua identidade visual, e ficando mais em harmonia com o que é considerado admirável hoje em dia.

Aquilo que define o espírito de uma época nada mais é do que o espírito que a cultura decidiu ser "legal" em determinado momento. Pense na música dos anos 70, na Era Disco. As pessoas não eram mais felizes naquela época do que elas são hoje em dia. A realidade era tão real quanto sempre foi, igualmente complexa, havia a mesma quantidade de pessoas felizes, entediadas, otimistas, deprimidas, etc. A diferença é que durante aquela época, o "cool" se tornou ser alegre, hedonista. E então todo mundo saiu na corrida pra expressar esse tipo de coisa (honestamente, ou por puro pragmatismo, só porque era o que estava vendendo). Isso criou um mercado, um processo de seleção natural, e a partir daí surgiram vários artistas e bandas excelentes tocando esse tipo de música. Teriam os Bee Gees feito coisas tão boas se tivessem surgido no mercado nos anos 2000? Provavelmente não. O talento pra escrever algo como "Stayin' Alive" ainda estaria com eles. Mas a cultura estaria recompensando outro tipo de talento, incentivando outro tipo de atitude, e algo como "Stayin' Alive" provavelmente nem teria surgido.

Da mesma forma, hoje está todo mundo na corrida pra celebrar a diversidade, pra ser "socialmente relevante", se posicionar politicamente - não só as pessoas que de fato têm algo a dizer sobre o assunto, mas também pessoas que jamais tocariam nessas questões, e só o estão fazendo pois isso está vendendo.

Pense no que seria de Steven Spielberg se ele tivesse começando sua carreira nos dias de hoje. O que ele faria com seu talento natural pra criar otimismo, celebrar o espírito da infância - um dom que estava em demanda nos anos 80 mas não está mais atualmente? Ou pense no que seria de Christopher Nolan se ele tivesse começado sua carreira na época de Spielberg. O que ele faria com seu senso de vida trágico e sua inclinação pro subjetivismo, narrativas não-lineares, numa época em que nada disso estava em alta?

Poucos são aqueles que têm uma visão pessoal inabalável e estão dispostos a lutar contra todas as forças externas pra realizar essa visão. Olhe para os seus ídolos e se pergunte: quantos deles teriam ido em frente e desenvolvido os dons que desenvolveram, realizado as coisas que realizaram, mesmo que a cultura não estivesse "encomendando" algo do tipo?

Que o espírito de uma cultura tem esse poder de criar e nutrir seus ídolos é algo bastante compreensível. A pergunta que fica no ar é: e o que faz o espírito de uma cultura mudar? O que faz certos valores serem celebrados numa época e rejeitados em outra?

Isso provavelmente é resultado de uma série de fatores, impossíveis de serem todos rastreados. Desde eventos globais - como uma guerra, o 11 de Setembro, que mudam a percepção das pessoas sobre o mundo ou sobre uma determinada cultura; revoluções na ciência, na tecnologia, que mudam os hábitos das pessoas, como o surgimento das redes sociais, etc. Acontecimentos políticos, econômicos... E até a influência de indivíduos especiais - desses que conseguem ir contra a cultura e apresentar um novo jeito de agir, de pensar.

Outro fator relevante é a dinâmica que existe entre uma geração e a geração seguinte. Quase sempre uma nova geração irá rejeitar os valores da geração anterior, e o motivo disso talvez seja o fato de que a maioria das pessoas se torna desiludida na vida adulta - e tende a culpar a cultura de sua infância pelos seus problemas e frustrações. Por exemplo: se você cresceu numa época onde a cultura celebrava ambição e individualismo, e se torna uma pessoa infeliz na vida adulta, provavelmente você irá educar seus filhos de maneira diferente, suprimindo esses valores. E seus filhos, quando se tornarem adultos e desiludidos, irão rejeitar os valores sob os quais você os criou, e buscar algo ainda diferente. Essa dinâmica impede que os valores dominantes de uma cultura permaneçam no topo por muito tempo - mesmo quando são valores positivos.

Então por que não temos um Mozart nos dias de hoje? Simplesmente porque a cultura não está pedindo por um. Um garoto com um potencial equivalente para a música clássica hoje em dia não terá um senso de que, se ele desenvolver seus dons ao máximo, ele poderá "bombar" por aí, ser apreciado, se sustentar com suas composições - não existem outros "Mozarts" famosos em atividade pra poder inspirá-lo, criarem um senso de competição, músicos fazendo o que ele quer fazer e se dando bem.

Por onde andam os Michael Jacksons dos dias de hoje? Por que nunca mais fizeram um filme como Apertem os Cintos, O Piloto Sumiu (como questionou recentemente Judd Apatow)? Esses artistas estão todos por aí, tentando se adaptar à cultura atual (e realizando coisas piores do que poderiam realizar), ou então cruzando com você pelas ruas, indo pra trabalhos comuns, onde eles acham que serão melhores recompensados.

As sementes pra todo tipo de talento e habilidade existem em todos os momentos, em todas as épocas e regiões. Mas se a cultura não "regar" essas sementes, elas dificilmente terão estímulo pra crescer e atingir o máximo de seus potenciais.