sexta-feira, 23 de junho de 2017

O Círculo

NOTAS DA SESSÃO:

- É tudo meio esquisito desde o começo. A primeira cena é a Emma Watson num caiaque, daí ela olha o telefone não se sabe por que, depois conhecemos o trabalho dela, depois tem a cena em que o carro quebra e é introduzido um interesse romântico com o Mercer, daí surge o tema do pai doente... Tudo isso em menos de 10 minutos, e nem sabemos ainda sobre o que é o filme, o que é o Círculo, qual o objetivo da menina, etc.

- Boa a entrevista que ela dá quando chega no Círculo. Mostra uma garota sofisticada, inteligente, sensata.

- É interessante a maneira como O Círculo é apresentado. À primeira vista o lugar impressiona, a protagonista parece estar interessada, mas pra plateia já fica uma sensação de que há algo de errado com a filosofia da empresa (a nova câmera que eles inventaram, etc), o que cria um interesse central na história (queremos saber quando a Emma Watson irá descobrir que o lugar é "do mal", e quando tudo entrará em colapso).

- O tom do filme sempre parece um pouco errado. A relação da Emma com os pais não convence, a maneira forçada como ela aborda o rapaz negro na festa, a cena "cômica" onde os 2 funcionários abordam ela no trabalho e começam a fazê-la socializar mais, etc.

- Meio falso o John Boyega ser o tal do Ty Lafitte, alguém extremamente importante, e viver dentro do Círculo sem que ninguém saiba. Parece estranho também ele ter que convencer a Emma Watson de que a empresa está indo pelo mau caminho. Ela já deveria ter sacado isso por conta própria (tanto que achou um absurdo a ideia de implantar chips nos ossos de bebês, etc).

- A mesma coisa quando o Mercer vai até o Círculo conversar com ela: ele dá uma "dura" nela como se ela tivesse mudado de caráter, estivesse "possuída" pelo Círculo, mas pra plateia ela ainda parece perfeitamente normal. Não fez nada de estranho ao publicar a foto do trabalho dele.

- Péssima a cena do acidente de caiaque! Por que ela sai de caiaque no meio da noite? Invade o lugar? O acidente todo é muito mal filmado / dirigido.

- A personagem começa a perder toda a simpatia do público (e a verossimilhança) quando começa a se "vender" pro Tom Hanks, apoiar as ideias dele, faz aquele discurso ridículo no Círculo sobre "direitos humanos", etc. Uma personagem tão equilibrada como ela se mostrou no começo jamais mudaria assim de uma hora pra outra. A gente perde toda a conexão com a história.

- E a crítica do filme é mal feita. Essa ideia de acabar com a privacidade de todo mundo nunca seria aceita pelas pessoas normais. Já não está dando certo até dentro do Círculo, com apenas a Emma Watson expondo sua vida. Imagine isso aplicado à população inteira. Em Black Mirror há uma discussão parecida sobre privacidade, mas lá a situação assusta e parece possível, pois mostra como pessoas mal intencionadas poderiam usar a tecnologia moderna pra invadir sua vida... Mas não tenta criar um mundo fictício onde a própria população seria a favor do fim da privacidade.

- As pessoas ficam dizendo pra Emma Watson que ela é incrível, que ela está mudando o mundo. O que ela fez de tão revolucionário até agora? Expor a própria vida online como tanta gente já faz? Ter a ideia das eleições acontecerem através da conta do Círculo? Não vimos nada de genial até agora que justifique todo esse status.

- SPOILER: Divertido o Mercer morrer, embora seja forçada a maneira como todos saem correndo atrás dele - até parece que a Emma Watson (e a empresa) deixaria as coisas chegarem a esse ponto. E essa morte acaba criando um anticlímax... Já aconteceu o pior que poderia acontecer no filme e ainda falta meia hora pra acabar. Pra onde a história poderá ir depois disso?

- SPOILER: A gente espera que depois da morte do Mercer a Emma Watson finalmente "acorde" e faça algo pra destruir a empresa... e por um momento dá a impressão que é isso que ela está fazendo (quando parece estar desmascarando o Tom Hanks em público, etc). Mas depois é confuso... Em vez de desmascarar o Tom Hanks, fica a impressão de que ela estava de fato acreditando na ideia de que com o fim da privacidade as coisas irão melhorar, que continua apoiando O Círculo. É certamente um dos piores finais de filme que eu já vi.

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CONCLUSÃO: Começa com uma premissa interessante, mas o roteiro se perde completamente da metade pra frente.

The Circle / Emirados Árabes Unidos, EUA / 2017 / James Ponsoldt

FILMES PARECIDOS: A Cura (2016) / O Doador de Memórias (2014) / Ender's Game: O Jogo do Exterminador (2013) / A Hospedeira (2013)

NOTA: 3.5

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Colossal

NOTAS DA SESSÃO:

- Anne Hathaway fica sempre bem fazendo essas garotas meio losers, perdidas na vida (e ao mesmo tempo atraentes, divertidas).

- O filme começa com um tom excêntrico, uma mistura incomum de gêneros, diálogos e personagens divertidos. Prende a atenção simplesmente por ser absurdo - queremos saber a relação do monstro do prólogo com o resto da história, coisas que parecem completamente incompatíveis.

- Hilário a Anne vendo as notícias de Seul, e toda a sequência em que ela começa a descobrir sua relação com a criatura. A premissa é absurda, mas como a abordagem é cômica, acaba convencendo (lembra coisas do Spike Jonze). Só espero que haja um significado maior pra isso tudo, não seja apenas bizarrice pela bizarrice.

- Uma coisa estranha no filme é que ele tem uma linguagem absolutamente convencional. Nada no visual, nas performances, na fotografia, na direção, na trilha sonora sugerem um filme excêntrico. Apenas os acontecimentos do roteiro. Quando você vê um filme de um autor realmente excêntrico, mesmo que a história seja normal, essa característica acaba se revelando na obra em diversos elementos, pois tudo está sendo decidido por uma pessoa que realmente pensa de forma única e diferente. Aqui fica parecendo um cineasta cult "wannabe".

- A história é interessante até o momento em que a protagonista descobre que controla o monstro, conta pros amigos, etc. Depois disso o roteiro perde a força e não sabe muito bem o que fazer com essa premissa.

- O que alcoolismo tem a ver com isso tudo? A conexão entre os diversos temas do filme não é clara.

- Os conflitos que vão surgindo entre os personagens não são muito sólidos e convincentes. Eles estão no meio de um evento inexplicável, com a vida de milhares de pessoas nas mãos, e ficam se desentendendo por causa de álcool, drogas, fazendo chantagens sem sentido. Não fica claro qual o tema do filme, o que está sendo discutido, e como a ideia do monstro em Seul se encaixa nisso tudo.

- Aos poucos o filme vai mostrando que não tem um grande conteúdo por trás da maluquice. Que o cineasta está apenas brincando de ser excêntrico, como se isso fosse um valor em si. A cena em que o Oscar explode fogos de artifício dentro do bar, por exemplo, não tem o menor sentido, exceto o de provar pra plateia o quão "diferente" é o filme.

- Por que Oscar quando criança destrói o trabalho da amiga? Qual a motivação por trás dessa agressão? O que isso diz a respeito da relação entre os dois? Falta desenvolvimento de personagem. Por mais que a história do monstro seja absurda, o filme deveria ser claro pelo menos no que ele quer dizer num nível humano / emocional.

- SPOILER: O final é uma tolice (Anne viajar pra Seul e de lá conseguir ficar maior que o robô, porém invisível - só na mente do roteirista isso deve ter qualquer lógica).

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CONCLUSÃO: Interessante pela originalidade, mas a excentricidade do filme não parece fundada em real talento e conteúdo.

Colossal / EUA, Canadá, Espanha, Coréia do Sul / 2016 / Nacho Vigalondo

FILMES PARECIDOS: Sete Minutos Depois da Meia-Noite (2016) / O Lagosta (2015) / Quero Ser John Malkovich (1999)

NOTA: 5.5

quarta-feira, 14 de junho de 2017

A Múmia

NOTAS DA SESSÃO:

- O prólogo todo é meio clichê e desinteressante (os flashbacks explicando a maldição da Princesa Ahmanet, etc). Há algo de estranho no conceito do filme - histórias sobre múmias, faraós, não parecem combinar com um filme que se passa nos tempos atuais, na Inglaterra, em guerras no Oriente Médio, etc (é tudo pra tentar enfiar a história nesse "Dark Universe" que a Universal inventou). O filme também tenta forçar um tipo de humor / alívio cômico nos personagens que remetem a filmes escapistas do passado, o que também não combina com o ambiente em que ele se passa. Pra ficar tudo ainda mais estranho, Tom Cruise parece errado no papel, como se o personagem tivesse sido escrito pra um adolescente interpretar (algo meio Shia LaBeouf em Transformers), e na última hora ele tivesse assumido o papel.

- Por que militares pegam o sarcófago da múmia, colocam num avião, como se fosse uma operação de guerra? Dá a impressão que só inventaram isso pra ter a cena da queda do avião e o Tom Cruise poder fazer os "stunts" que ele adora. Mas não faz muito sentido.

- A química entre o Tom Cruise e a mocinha (Jenny) não funciona em nada. Ele parece estar tentando agir como um galã novinho, e ela com essa aparência não convence em nada como uma arqueóloga séria realizando o trabalho de sua vida.

- Tudo é meio falso. Tom Cruise sofre uma queda de avião, depois é surpreendentemente encontrado vivo no necrotério, e as pessoas reagem como se fosse uma questão de "sorte"? No dia seguinte ele está no bar com a Jenny tomando uns drinks de forma descontraída? Daí no local da queda de avião, a múmia é encontrada à noite por 2 policiais que passavam por ali... Cadê os bombeiros, os helicópteros, a mídia, etc?

- Coincidências ruins: por que a tumba na Inglaterra (nas escavações do metrô) é encontrada praticamente ao mesmo tempo em que a múmia no Iraque?

- Péssima a ideia de transformar o Vail numa espécie de fantasma / zumbi engraçado que aparece pro Tom Cruise no espelho, etc. De repente o filme parece ter virado uma comédia explícita. Há um sério problema de tom no filme (além do "tom do Tom").

- Odeio essa mistura de filme de monstro com filme de visões, alucinações. Tom Cruise de repente começa a viajar mentalmente de um lugar pro outro, não sabemos mais o que é real e o que é imaginação, o que só ele vê e o que as outras pessoas também podem ver.

- A múmia não é nada assustadora como vilã. Ridícula a cena em que ela faz cócegas no Tom Cruise, depois ele brinca que ela está tentando dar em cima dele.. O filme não sabe inserir humor nos momentos certos, sem comprometer a seriedade da história.

- SPOILER: Além de múmias, fantasmas, zumbis, alucinações, agora temos também O Médico e o Monstro???? Que bagunça!!!!

- Horrível essa cena em que a múmia grita e todos os vidros começam a explodir, de repente surge uma tempestade de areia em Londres, Cruise é ajudado pelo amigo zumbi/fantasma... É uma ideia ruim após a outra.

- No momento de maior "tensão", Cruise simplesmente tapeia a múmia com uma brincadeira infantil, faz umas piadinhas, e rouba a adaga da mão dela.

- SPOILER: Toda a conclusão é péssima. Cruise se sacrificar pra ressuscitar a mocinha, como se fosse um romance épico pelo qual a plateia se importasse. E no fim o deus Set era tão fraco que simplesmente por Cruise ser um "bom homem", ele não se torna a personificação do mal como deveria.

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CONCLUSÃO: Simplesmente errado.

The Mummy / EUA / 2017 / Alex Kurtzman

FILMES PARECIDOS: Êxodo: Deuses e Reis (2014) / O Cavaleiro Solitário (2013) / Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo (2010) / A Lenda do Tesouro Perdido (2004)

NOTA: 3.5

sábado, 3 de junho de 2017

Real - O Plano por Trás da História

O filme passa a estranha sensação de ser algo feito pra ser exibido em faculdades, telecursos ou algo do tipo (a direção, os atores - é tudo meio antiquado mas tentando parecer moderno). Outro fator que enfraquece o filme é a falta de valores positivos na história. O protagonista tem um caráter duvidoso, é retratado de maneira ambígua. Ao mesmo tempo em que o filme o glamouriza, ele faz uma crítica à sua ambição (enfatizando seus aspectos negativos) que me parece inadequada pro propósito da história. Ao longo do filme surgem várias questões que deixam o espectador na dúvida de se Gustavo Franco fez bem de fato para o país, ou se é uma espécie de anti-herói. Você não sente que ele é alguém com um sonho nobre fazendo de tudo para realizá-lo (como você sente num filme como Steve Jobs, por exemplo) - fica mais a impressão de um homem de baixa autoestima buscando poder a qualquer custo, querendo subir na vida pra conquistar mulheres, controlar os outros (ele é fã de Napoleão, etc). É como se os produtores quisessem ter dado um tom meio House of Cards pro filme pra torná-lo mais "cool", porém isso acaba deixando tudo com um tom moralmente duvidoso. A estrutura do roteiro também é insatisfatória... O Real já "dá certo" bem no meio do filme, e a partir daí não há muito mais o que esperar... O filme termina num bate boca inconclusivo entre Gustavo e um petista durante a CPI, e fica a cargo dos letreiros finais explicar o que aconteceu depois. Teria funcionado melhor como documentário pois as pessoas por trás da produção pareciam estar mais interessadas no aspecto político / econômico do filme do que em fatores cinematográficos (como ficção não funciona nem como um bom filme, e nem serve pra esclarecer o Plano Real termos econômicos pro público leigo).

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(Brasil / 2017 / Rodrigo Bittencourt)

FILMES PARECIDOS: Margin Call - O Dia Antes do Fim (2011)

NOTA: 4.0

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Mulher-Maravilha

NOTAS DA SESSÃO:

- Lindo todo o visual da ilha na primeira parte. Interessante a apresentação da personagem, o mistério a respeito de sua origem, Diana desde pequena querendo aprender a lutar, depois de grande começando a descobrir seus poderes especiais. Gal Gadot está simplesmente fenomenal.

- Ótima a sequência da batalha na praia. Visualmente atraente, dá uma dimensão real das forças e das fragilidades das Amazonas (elas podem ser mortas por balas, por exemplo - detalhes importantes de serem estabelecidos que quase todos os filmes de super-heróis ignoram).

- Chris Pine também está excelente como par da Gal Gadot. A história dele é interessante, bem introduzida (toda a mistura da guerra com esse elemento fantástico cria um contraste muito bem dosado).

- A Mulher-Maravilha em si não tem uma motivação muito interessante (como quase todos os super-heróis ela luta pois esse é o seu "dever"). Porém, como disse no vídeo Motivação de Personagem, o mais importante no fim não é a motivação do personagem, e sim a motivação da plateia. E aqui há vários elementos que geram curiosidade na história - a tensão romântica entre o casal, o desejo de ver a heroína explorar seu potencial (é tudo muito contido no começo), o fato dela esconder seus poderes dos humanos e ir revelando suas virtudes pros outros aos poucos, etc.

- Interessante quando a Gal Gadot flagra o Chris Pine pelado na banheira - há uma inversão de papeis divertida aqui: o homem sendo mais sexualizado, virando a figura mais vulnerável, e a mulher na posição de controle (como na cena do barco onde a Gal Gadot praticamente força o Chris a dormir junto com ela).

- Que alívio ver um super-herói que realmente honra a palavra "super". Quando ela escala a torre, pega a espada, começa a se preparar pra missão, a plateia realmente sente que não há limites pra força dela. Diferente da maioria dos filmes atuais do gênero que ficam se esforçando pra mostrar os defeitos do herói, acrescentar detalhes realistas pra tudo. Aqui, mesmo nas batalhas mais intensas, não temos a sensação de que a heroína está sendo danificada, perdendo sua força, ela brilha do começo ao fim.

- Princípio da Ascensão: O roteiro é muito bem estruturado. Estamos em 40 minutos de filme e a protagonista só agora vai pegar o barco e ir pro mundo real. Já aconteceu um monte de coisa interessante mas a sensação é que o melhor ainda nem começou. Em 1 hora de filme temos a primeira luta real dela sozinha no mundo real (na cena do beco).

- A relação entre o casal é ótima: a Gal Gadot sendo extremamente ingênua em relação a tudo e as reações divertidas do Chris Pine (ela falando da guerra como se tivesse indo à feira, as discussões sobre sexo, ela querendo tirar a roupa no meio da rua, etc). Amo a pureza da personagem, não há um pingo de malícia e cinismo nela. E ela parece estar se divertindo na história, não é desses heróis que agem como se a vida fosse trágica (e também não é dessas heroínas mulheres que precisam perder a feminilidade pra se provarem fortes).

- Algo atraente na produção é que a fotografia / direção de arte tem cara de cinema mesmo, e não de vídeo game.

- Outra coisa que gera interesse é a certeza dela de que o Ludendorff é Ares, o Deus da Guerra, algo que soa absurdo tanto pros outros personagens quanto pra plateia. Queremos descobrir se ela está certa.

- Fantástica a cena na guerra onde ela se "veste" pela primeira vez de Mulher-Maravilha e sai enfrentando os alemães (os detalhes lindos das faíscas em câmera lenta quando as balas atingem o traje dela).

- SPOILER: É divertida a sequência em que ela mata o Ludendorff com a espada (beira o politicamente incorreto), mas fica a sensação de que a balha foi muito simples, que ele não era páreo pra ela - frustração que é compensada logo na sequência, quando descobrimos que o vilão no fundo era outro. Agora sim ela parece ter um obstáculo à altura.

- Por sinal, a trilha sonora é ótima!

- O vilão é bom e a conversa que ele tem com ela é fascinante, faz o espectador pensar, questionar se ele está de fato errado, traz toda uma discussão filosófica sobre a natureza humana que aprofunda conflito. No meio disso Diana também aprende sobre suas origens, o que torna a personagem mais interessante, etc.

- SPOILER: Claro que não ia faltar a cena obrigatória de auto-sacrifício. Mas mesmo isso aqui é bem feito. Primeiro porque não é um auto-sacrifício fajuto, onde o personagem depois dá um jeito de sobreviver. Chris Pine decide morrer, e o faz sem hesitar e sem lamentar. Além disso, não foi uma morte inútil, só pra mostrar que o personagem é altruísta - na história, ela é fundamental pra vitória da Mulher-Maravilha, pois após esse ato, ela vê que as afirmações do vilão a respeito da raça humana não são verdadeiras - e assim consegue derrotá-lo. É um conflito de bem versus mal simples mas ao mesmo tempo muito bem elaborado e de certa forma inspirador.

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CONCLUSÃO: O melhor filme de super-herói de toda essa "era".

Wonder Woman / EUA / 2017 / Patty Jenkins

FILMES PARECIDOS: O Espetacular Homem-Aranha (2012) / Capitão América: O Primeiro Vingador (2011) / Supergirl (1984) / Superman: O Filme (1978)

NOTA: 8.5

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar

NOTAS DA SESSÃO:

- A história começa bem: os personagens principais são bem apresentados (o desejo do garotinho de salvar o pai), a entrada divertida do Johnny Depp no cofre (a cena de ação subsequente é meio falsa, mas é bem dirigida).

- O personagem do Brenton Thwaites é unidimensional, mas é um herói atraente. A mocinha não substitui a Keira Knightley, mas convence como uma garota inteligente, interessada em ciência, etc.

- É um pouco mal explicado como os 3 personagens principais se encontram na ilha - parece que foi uma grande coincidência eles estarem todos ali (Depp trocar sua bússola por uma bebida também pareceu um pontapé meio forçado na história).

- A direção é surpreendentemente boa (não conhecia essa dupla de diretores - eles fizeram Expedição Kon Tiki em 2012). Nada acontece na tela sem um propósito, tudo o que precisa ser comunicado em termos de ação é comunicado de maneira objetiva... Até nas ideias absurdas (a ação às vezes passa do ponto em termos de exagero, como por exemplo a cena da gilhotina) há um esforço admirável em ser claro visualmente (nos blockbusters em geral, é tudo uma grande bagunça, você nunca sabe o que está acontecendo, mesmo quando a ação é plausível). Independentemente do conteúdo, os bons filmes acabam proporcionando também esse prazer mais sutil que vem da apreciação da linguagem.

- Um aspecto duvidoso da história é que dá a impressão que o vilão (Javier Bardem) na verdade é inocente, afinal ele só estava querendo se defender de piratas, que na prática são os criminosos! A gente "torce" pro Johnny Depp não porque ele está certo moralmente, mas sim porque ele é mais divertido.

- Costumo reclamar que nos filmes de fantasia atuais os heróis nunca estão atrás de um tesouro interessante o bastante (é sempre um "orbe" ou um objeto estranho que nem sabemos direito pra que serve). Nesse ponto o filme acerta: não só o Tridente de Poseidon é um objeto atraente em si, como também sabemos o poder que ele tem e como isso impactará as vidas dos protagonistas.

- Bonita a ilha das estrelas, a sequência no fundo do mar... O filme tem alguns cenários divertidos (ao contrário de alguns episódios da série que ficavam sempre em ambientes sujos, chuvosos, porões escuros de navios, etc).

- SPOILER: Meio desnecessário o Geoffrey Rush se sacrificar. É confuso os vilões continuarem maus após a maldição ser quebrada. A gente não torce pra eles morrerem, como acaba acontecendo quando o mar se fecha.

- SPOILER: Bonito o final (o reencontro com o Orlando Bloom). E de quebra ainda temos uma participação da Keira! O comentário do Jack Sparrow ao ver os casais é ótimo.

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CONCLUSÃO: Nada de muito inovador em termos de história, mas um dos Piratas mais agradáveis até agora.

Pirates of the Caribbean: Dead Men Tell no Tales (EUA / 2017 / Joachim Ronning, Espen Sandberg)

FILMES PARECIDOS: X-Men: Apocalipse (2016) / Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros (2015) / Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas (2011)

NOTA: 7.3

terça-feira, 23 de maio de 2017

O Rastro

NOTAS DA SESSÃO:

- Legal a intenção de se fazer um filme de gênero, a cara internacional da produção (filmes brasileiros raramente prestam atenção em tratamento de cor, design de som, etc).

- Bom o diálogo da garotinha quando ela diz pro médico que ele não tem "cara de pai". Mas alguns jump scares nesse começo soam tolos (a garotinha agarrando subitamente o braço dele, depois o protagonista trombando com a mulher quando acaba a luz, etc).

- Uma coisa que incomoda na fotografia são os enquadramentos descentralizados, que colocam o foco da ação nos cantos da tela, chamando atenção pra técnica e tirando o espectador da história (em momentos em que deveríamos estar focados apenas no diálogo).

- Em A Autópsia (2016) reclamei da natureza intangível do "monstro", e aqui ocorre o mesmo problema. Não sabemos se o protagonista está tendo alucinações, se existe um fantasma real, se ele está possuído - fica apenas a sensação de que o hospital é um lugar meio assustador, mas não sabemos exatamente o que temer, qual a intenção da entidade por trás de tudo.

- Uma coisa que funciona bem no filme é o elenco. Alguns filmes nacionais de gênero acabam se sabotando ao darem um tom alternativo demais pras performances, o que tira o tom comercial da produção. Na minha visão, o "certo" pra esse tipo de filme seria vermos performances que falem a linguagem que o público está acostumado, como as que vemos em novelas da Globo, etc.

- O maior problema aqui é que a história simplesmente não é muito boa. Após 1 hora de filme, ainda não sabemos o que esperar, se há um vilão que quer prejudicar protagonista, se a garotinha morreu e ela está tentando se comunicar... Fica apenas um clima de mistério com alguns jump scares desnecessários.

- E é difícil se identificar com o protagonista também. Ele vai ficando cada vez mais perturbado, distante, a culpa que ele sente em relação à morte da menina não é muito compreensível...

- SPOILER: Muito esquisito matarem o protagonista "por telefone" sem uma cena memorável. E como não nos identificávamos tanto com ele, acaba nem sendo tão frustrante.

- SPOILER: A ideia de vilanizar políticos é interessante (nada mais convincente no Brasil), porém em termos de narrativa o final é bagunçado e não satisfaz as expectativas criadas na primeira hora de filme (até por terem matado o mocinho). A ideia do menino reconhecer o pai pelo coração também parece forçada e enfiada no roteiro sem preparo.

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CONCLUSÃO: Se fosse americano, seria apenas mais um filme de terror fraco cheio de problemas de roteiro. Por ser brasileiro, é possível ressaltar alguns méritos da produção.

O Rastro / Brasil, EUA / 2017 / J.C. Feyer

FILMES PARECIDOS: O Caseiro (2016) / Mama (2013)

NOTA: 5.0

quinta-feira, 18 de maio de 2017

O Dia do Atentado


NOTAS DA SESSÃO:

- Vai ser a mesma crítica que fiz de Horizonte Profundo (que aliás é do mesmo diretor desse aqui) Horas Decisivas, Sully, etc. História verídica mediana sobre um evento físico não especialmente épico que serve de pretexto pra celebrar valores republicanos, o heroísmo do trabalhador americano, a eficácia do governo, etc. Os personagens são todos superficiais, Mark Wahlberg está fazendo o mesmo papel que faz em todos os filmes, o personagem é um homem comum sem qualidades muito interessantes (sua grande "virtude" é cumprir seu dever direitinho e servir o povo americano).

- Os vilões são 2 garotos tolos sem grande poder, o que torna o conflito meio fraco. O filme é apenas sobre um evento físico, sem uma dimensão mais abstrata, psicológica, etc. Os mocinhos só querem consertar o problema criado, não buscam algo pessoal, emocional além disso. Nem há um protagonista claro... O protagonista é coletivo: o povo americano como um todo, versus a ameaça estrangeira. 

- Tecnicamente o filme é meio televisivo, não tem nada que de muito destaque. O propósito aqui é mais jornalístico do que artístico. Se a informação foi passada, o diretor está satisfeito - ele não se importa com o "como". Um cineasta ambicioso teria criado um momento cinematográfico memorável na cena da explosão. Aqui é tudo mostrado de forma direta, sem linguagem, sem invenção.

- O filme melhora um pouco depois do atentado, quando começam as buscas pelos terroristas. Nos outros filmes que citei (Horizonte Profundo, Sully, etc) não havia muito o que fazer após o acidente pra manter o roteiro interessante até o final. Acontecia o acidente, as pessoas sobreviviam, e daí a história acabava. Aqui já há essa perseguição que deixa a estrutura bem melhor.

- Os terroristas fazem coisas tão ilógicas (matar o policial, sequestrar o japonês e contar quem eles são) que a gente começa a questionar se isso foi o que de fato ocorreu. Esse tipo de filme muitas vezes me parece feito sob encomenda pro governo americano pra "acalmar" a população, dizer que está tudo sob controle, reforçar certas narrativas, etc. Eles até aproveitam pra falar do 11 de Setembro - dizer que quem duvida da narrativa oficial só pode estar do lado dos terroristas, etc.

- Bem tensa a cena em que os terroristas começam a jogar bombas nos carros da polícia, o atropelamento, etc.

- A interrogadora (Khandi Alexander) rouba totalmente a cena quando interroga a esposa do terrorista. Performance excelente!

- A captura no barco não é das mais empolgantes, mas ainda assim é um final aceitável considerando as limitações da história.

- Os depoimentos das pessoas reais no fim me parecem sempre inapropriados. Passa a ideia de que o filme só tem relevância por ser baseado em fatos reais.

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CONCLUSÃO: Bem feijão com arroz, mas não é dos piores.

Patriots Day / Hong Kong, EUA / 2016 / Peter Berg

FILMES PARECIDOS: Horizonte Profundo: Desastre no Golfo (2016) / Sully: O Herói do Rio Hudson (2016) / Horas Decisivas (2016) / Evereste (2015) / Capitão Phillips (2013)

NOTA: 6.0

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Alien: Covenant

NOTAS DA SESSÃO:

- Chatíssima a cena de introdução: David e Weiland com essa conversa pretensiosa, falando de música clássica nesse ambiente "chique". É um prólogo que não serve pra muita coisa, exceto pra tirar a gente totalmente do clima dos Aliens clássicos.

- A nave Covenant é bem elaborada e interessante em termos de tecnologia, design, etc. O acidente dá uma movimentada na história, embora não pareça tão essencial pra trama (só serviu pra acordar a tripulação convenientemente na hora em que eles recebem a transmissão de rádio).

- Sinto dizer, mas a Katherine Waterston simplesmente não convence como heroína de ação (claro que a sombra da Sigourney Weaver engole qualquer "concorrente", mas essa aqui é especialmente sem sal).

- A história deixa de convencer quando eles decidem mudar de rota. Até parece que com milhares de pessoas à bordo, uma viagem planejada por anos e anos, eles iam decidir em 5 minutos ir pra um outro planeta que acharam no meio do caminho! Fica óbvio que é só uma desculpa pra eles encontrarem os aliens. Teria que haver uma motivação melhor (eles podiam descobrir algum problema inesperado no destino original que colocasse a missão em risco, etc).

- Estranho esse planeta com árvores iguais às da Terra! Fica parecendo que faltou dinheiro na produção pra criar uma locação mais convincente.

- Não há originalidade nenhuma no roteiro. É o velho esquema: eles recebem um sinal misterioso, vão atrás, acabam infectados, daí paralelamente surge uma tempestade que atrapalha a comunicação, eles acham a nave dos aliens (que devem ser péssimos pilotos, pois elas sempre caem nos planetas em vez de pousar).

- Frustrante esse alien branco que parece o Gollum. Tem menos presença ainda que aquela "planta" do filme Vida. Aliás, toda a ambientação do filme é frustrante - essa coisa de civilizações antigas, o Michael Fassbender fazendo a linha Robinson Crusoé, as discussões filosóficas rasas sobre Deus, etc. Além de ruim, isso descaracteriza totalmente a franquia, que era sobre gente comum num ambiente high-tech fugindo de monstros.

- SPOILER: Os personagens são todos chatos, não tem ninguém carismático por quem você torça. O capitão é odioso (foi ele quem colocou a vida de todos em risco), e em vez de ser um dos antagonistas, a mocinha (Daniels) continua sendo amiga dele, o perdoa por tudo. Aliás, não há um vilão forte ao longo do filme. Os aliens são secundários na história, e o vilão de fato acaba sendo o David mais pro fim... mas que tem uma motivação chatíssima com a qual ninguém se identifica - ele simplesmente é meio sinistro, tem uma filosofia deturpada, é obcecado pela "perfeição" (vejam como ele é assustador: ele fala de filosofia, arte e tem tendências homossexuais!).

- Beira o ridículo o nascimento do primeiro Xenomorph (ele levantando os braços com aquela música emocionante). A aparição dele adulto também é casual, não gera nenhum clímax. É 1 cena errada após a outra - como esse filme pode ser do mesmo diretor de Alien, o Oitavo Passageiro?!

- SPOILER: Clichê o alien mais uma vez subir na nave bem na hora da decolagem. Essa cena de ação do lado de fora da nave é um pavor (a Daniels pendurada na corda tentando matar o bicho). No fim como ele morreu? Ele explode de um jeito que nem entendemos o que houve. E como se não bastassem os clichês, temos o robô que vira do mal, e mais um alien inesperado na nave que tem que ser ejetado pro espaço (péssima a cena da Daniels abaixando e o alien sendo empalado por aqueles ferros do caminhão que nem estavam vindo em alta velocidade). Final todo horrível.

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CONCLUSÃO: Tentativa deprimente de Ridley Scott de reviver seu clássico.

Alien: Covenant / EUA, Austrália, Nova Zelândia, Reino Unido / 2017 / Ridley Scott

NOTA: 4.5

domingo, 7 de maio de 2017

A Autópsia

NOTAS DA SESSÃO:

- Intrigante a cena do crime com o cadáver da "Jane Doe" intacto.

- Talvez o que mais chame atenção no começo seja o fato do filme não soar tolo como a maioria dos filmes do gênero. Há uma certa classe na direção, no visual, os personagens principais parecem pessoas inteligentes, o casting é decente, etc.

- Mas o que há de positivo na execução do filme, há de desagradável na ambientação, no conteúdo das imagens (um necrotério durante uma autópsia não é o lugar mais atraente pra você convidar o espectador pra passar 1 hora e meia!). Ainda mais quando a autópsia é mostrada em tantos detalhes.

- O fato dos protagonistas parecerem pessoas racionais, "pés no chão", na prática acaba agindo um pouco contra o filme. Não há tanta graça em ver homens como esses se surpreendendo com o sobrenatural, com a aparição de fantasmas, etc. Por algum motivo é muito mais gratificante ver pessoas burras e convencionais fugindo de monstros.

- Outro problema do filme é a natureza imaterial e intangível do vilão. Vultos aparecem de uma hora pra outra pra dar um susto nos personagens, mas logo depois desaparecem e a história continua como se nada tivesse acontecido (foi só pra ter um "jump scare" gratuito e quebrar a monotonia). A Jane Doe que seria o "monstro" principal é apenas um corpo imóvel que não sai do lugar o filme inteiro. Sem um vilão mais concreto fica difícil criar set pieces legais de terror. O filme fica apenas brincando com antecipação, com a ameaça de que algo assustador irá acontecer, mas daí foge sem satisfazer a expectativa.

- A namorada é um personagem desnecessário que só foi apresentado no começo pra viabilizar essa reviravolta arbitrária mais pra frente.

- SPOILER: Interessante a ideia da Jane ser uma das supostas bruxas de Salém. Foge um pouco do universo de clichês do gênero.

- SPOILER: O clímax é meio confuso (o Emile Hirsch matando o pai). Como eles já sabem das regras do mundo sobrenatural, do que precisa ser feito pra quebrar a maldição, etc? Pareceu tudo muito apressado.

- Há um momento bem sinistro mais pro final, quando chega o "resgate" e o Emile Hirsch está tentando abrir o alçapão.

- SPOILER: Apesar do final deprimente, há certa satisfação nesse final circular - a história terminando exatamente como começou.

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CONCLUSÃO: Não muito divertido, situado num ambiente desagradável, mas feito com mais sensatez que a média.

The Autopsy of Jane Doe / Reino Unido, EUA / 2016 / André Ovredal

FILMES PARECIDOS: Ouija: Origem do Mal (2016) / Livrai-nos do Mal (2014) / O Último Exorcismo (2010)

NOTA: 5.5

terça-feira, 2 de maio de 2017

Invasão Zumbi

NOTAS DA SESSÃO:

- Divertida a cena do veado ressuscitando após o atropelamento. O filme começa bem - apesar de alguns clichês (o pai que só trabalha e não dá atenção pra filha, etc) o filme consegue criar um universo convincente (a maneira como os primeiros ataques zumbis vão sendo mostrados nos noticiários, o clima de confusão, etc).

- O primeiro ataque no trem é divertido, bem dirigido. Os zumbis são impressionantes fisicamente, as reações dos passageiros são boas. Legal a ideia de cobrir a janela com jornais pra que eles não sejam vistos (a sacada de que os zumbis são estimulados pela visão apenas).

- Um dos problemas desse tipo de filme é a monotonia - depois do primeiro ataque, não há muito mais pra esperar, a história perde um pouco a energia. A gente sabe que daqui pra frente será apenas uma série de situações onde os mocinhos são quase pegos pelos zumbis, escapam, há um momento de descanso, e daí tudo acontece de novo (o fato do filme se passar quase todo no trem contribui também pra isso). A história não está caminhando pra algo maior, pra um confronto final que será mais interessante do que os que já vimos, não há um plano pra acabar com as infecções, etc.

- Algumas manobras do roteiro pra gerar ação são meio forçadas. Não faz muito sentido o pai se separar da filha e ela ir parar naquele banheiro num outro vagão. É só pra ele ter que ir resgatá-la e se redimir, provar que é um bom pai.

- Alguns valores irritantes: o filme promove altruísmo, auto-sacrifício. Por exemplo, quando a filha exige que o pai salve os outros passageiros, não pense apenas neles. O filme fica criando uma série de situações desagradáveis onde alguém precisa escolher entre se salvar, ou arriscar a própria vida pra salvar outra pessoa.

- Outro ponto fraco do filme é que não há protagonistas interessantes. O pai é meio patético, a menina também não tem muita personalidade. A história funciona mais na base da ação física.

- Falsa a ideia da senhora abrir a porta de propósito e deixar os zumbis entrarem.

- Esse culto ao auto-sacrifício vai tornando tudo uma chatice. E claro, onde há altruísmo e auto-sacrifício como valores, tem que haver também uma certa dose de anti-capitalismo: o filme sugere que o apocalipse zumbi no fim é tudo culpa de investidores, homens de negócios gananciosos, etc.

- SPOILER: No fim o pai é mordido e se sacrifica pra salvar a filha, provando de uma vez por todas que é uma "boa pessoa" (só que depois de 20 cenas de sacrifício, ninguém mais se impressiona).

- Meio pretensioso todo esse final (a menina chorando no túnel, como se fosse um filme sério de holocausto, etc).

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CONCLUSÃO: Algumas cenas de ação bem feitas, mas os personagens são desinteressantes e a história é uma competição tediosa pra ver quem se sacrifica mais pelo outro.

Train to Busan / Coréia do Sul / 2016 / Yeon Sang-ho

FILMES PARECIDOS: Guerra Mundial Z (2013) / O Hospedeiro (2006)

NOTA: 5.5

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Corra!

Uma ideia que teria sido mais apropriada pra um sketch do Saturday Night Live (exceto que não há tantas risadas quanto se poderia esperar), e que acabaram extendendo pra duração de um longa. O resultado é um filme de 1 "piada" só, uma sacada mais ou menos cômica (transformar o racismo no vilão de um filme de terror) mas que é absurda demais pro espectador embarcar na história de fato.

SPOILERS: Pra começar, a trama não faz muito sentido - por que o trabalho todo de seduzir o protagonista, construir uma relação ao longo de meses, se em outros casos eles simplesmente raptam as vítimas direto das ruas? E por que apenas negros, se o transplante não exige isso? Sem falar em detalhes como a ideia da mãe poder hipnotizar o protagonista à força, etc.

O objetivo do filme obviamente não é contar uma história inteligente, criar um universo crível, e sim exibir o cinismo do autor, sua superioridade moral, atacar a sociedade mostrando que, apesar do esforço, ela ainda é racista nos pequenos detalhes, ainda não trata os negros bem o bastante, etc. 

Por trás da fachada divertida fica sempre o senso de que o filme é motivado por sentimentos destrutivos, pelo desejo de dar o troco - quer se divertir sendo racista com os brancos da mesma forma que os brancos já foram (ou são) racistas com os negros. E é tudo extremamente auto-consciente - a crítica social se coloca acima da experiência cinematográfica, tornando os eventos todos forçados e artificiais.

Daniel Kaluuya está bem, o filme é razoavelmente bem dirigido, mas não é cômico o bastante pra funcionar como paródia, e nem sério o bastante pra funcionar como um verdadeiro thriller. É tudo apenas um pretexto pro cineasta fazer suas observações cínicas a respeito da sociedade.

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Get Out / EUA / 2017 / Jordan Peele

FILMES PARECIDOS: O Homem nas Trevas (2016) / Entre Abelhas (2015) / A Visita (2015) / Django Livre (2012)

NOTA: 5.0

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Guardiões da Galáxia Vol. 2

NOTAS DA SESSÃO:

- Sinais de Romantismo Reprimido / Herói Envergonhado desde as primeiras cenas: o visual ridículo do Kurt Russell jovem, que ao mesmo tempo homenageia e zomba dos anos 80, ou os Guardiões lutando contra o monstro enquanto a câmera foca no Baby Groot dançando - o que não faz o menor sentido, só serve pra mostrar pra plateia que o filme não leva heroísmo a sério, que essa história toda de salvar a galáxia é apenas um pano de fundo, um boneco de vodu que o filme monta pra depois ter o prazer de torturar.

- Chris Pratt é sempre uma graça em cena, e dessa vez o humor às custas dele não incomoda tanto quanto na parte 1.

- As cenas de ação são péssimas, confusas visualmente, mal dirigidas (por exemplo, a perseguição de naves quando a Ayesha está atrás das baterias / a queda da nave no planeta). É tudo extremamente exagerado, sem nenhum realismo, clareza ou respeito pelo bom senso (os filmes de ação atuais parecem ter prazer em romper cada vez mais com a realidade).

- A trama também é um pavor. Essa história deles estarem sendo perseguidos por causa do roubo de algumas baterias é um conflito banal demais (se essas baterias fossem tão vitais a ponto de iniciarem uma guerra intergaláctica, teria sido tão simples de um guaxinim roubá-las como se fossem balas num supermercado?). A sub-trama do cara azul (Yondu) e do Stallone é mal apresentada. Será que é algo que deveríamos lembrar do primeiro filme? Depois tem a trama do Taserface, do Rocket que é capturado, e tem também a história da irmã da Gamora que quer se vingar, e o Chris Pratt indo pro planeta do pai (essa turma parece que não está nem aí pra história das baterias). Quem é o vilão do filme? A mulher dourada? A irmã da Gamora? O Taserface? O Kurt Russell? Qual o rumo da história? O protagonista que é o Chris Pratt mal aparece, não faz nada de útil, ficamos perdendo tempo nessas sub-tramas desinteressantes. Há aquela sequência interminável do Rocket preso e o Baby Groot tentando pegar uma "crista" pra soltá-los. É um roteiro mal estruturado, irracional... Tentar consertá-lo mentalmente é tão inútil quanto ficar apontando erros de ortografia numa sopa de letrinhas - o propósito nunca foi ter ordem. O filme quer divertir apenas através do "humor", do carisma dos personagens (bem na linha Esquadrão Suicida).

- O filme fica fazendo piadas em momentos inapropriados, envolvendo vilões, personagens que não são cômicos, colocando músicas alegres em momentos aleatórios, só pra reforçar a "brand" da franquia que deu certo - e não porque o humor surgiu organicamente das cenas.

- A Zoe Saldana (Gamora) é extremamente antipática, está sempre emburrada. Será que era pra gente estar torcendo por um romance entre ela e o Chris Pratt?

- Detestável essa irmã da Gamora. Ela tem ódio da irmã pelo fato dela ser mais virtuosa, é uma invejosa assumida, e em vez do filme vilanizá-la, ele mostra ela com certa dignidade, como se fosse pro espectador se identificar e respeitar a figura do perdedor rancoroso.

- SPOILER: Mais pro final o filme finalmente ganha um conflito mais dramático e envolvente, quando o Kurt Russell se revela um vilão e quer usar o Chris Pratt pra ajudá-lo a expandir seu império. O problema é que a partir daí começam a ficar mais explícitos os valores malignos do filme - a atitude anti-autoestima, anti-razão (Alerta Vermelho). Pra começar o monstro do filme se chama "Ego". Ou seja, o ego, a ambição, o individualismo, é o grande vilão que ameaça toda a vida e precisa ser destruído. O Kurt Russell é uma energia criadora infinita, capaz de gerar planetas inteiros e coisas belíssimas com o poder de sua vontade - mas alguém assim, obviamente, só pode ser um assassino sanguinário que não liga pra outras pessoas, pra amigos, não tem empatia, e está pronto pra destruir qualquer um que entre em seu caminho. E o símbolo disso tudo o que é? O cérebro!!! É literalmente um cérebro gigante (a razão, a lógica, a inteligência) que os heróis precisam encontrar e explodir pro mundo ser do jeito que eles querem. Não me surpreende que um filme tão irracional, tão medíocre e sem talento queira viver em um mundo sem inteligência e sem ego.

- Toda a ação final é um caos tedioso que dá preguiça de comentar. É tudo tão falso fisicamente, as regras são tão arbitrárias... O Ego com um poder tão grandioso, do tamanho de um planeta, iria permitir que os heróis entrassem em seu núcleo? A Mantis iria fazê-lo dormir tão facilmente? (Nesses filmes não importa o tamanho do monstro, há sempre um ponto fraco que pode ser atingido sem esforço, destruindo a coisa toda de maneira tediosa).

- Fico chocado com algumas frases: "O Ego quer destruir o universo, precisamos impedi-lo!". É incrível que hoje em dia um vilão possa se chamar "Ego" sem que isso soe grotesco pra plateia. Que decadência desde os anos 80, onde a Xuxa lutava contra o "Baixo-Astral", e isso é o que era considerado uma ameaça à vida no senso comum.

- SPOILER: O Chris Pratt vence o vilão quando finalmente rejeita o Ego, e diz que não vê problemas em não ser excepcional, em ser igual a todo mundo. Daí o cérebro explode, o pai "perfeito" é destruído, e o Chris Pratt é salvo pelo pai imperfeito que é um criminoso e que o explorou a infância toda (claro que Yondu se mata, pois sem um ato de auto-sacrifício desnecessário no final o filme não estaria completo). O herói aprende que a perfeição não era o que ele imaginava (a noção de ideal dele era o David Hasselhoff!), e sim a banalidade que já estava ao seu lado. Ele perdoa o pai bandido e explorador, a Gamora faz as pazes com a irmã monstruosa e invejosa que tentou matá-la o filme inteiro, e o filme encerra com uma grande queima de fogos em celebração do imperfeito, do fraco, do medíocre.

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CONCLUSÃO: Medíocre em valores, mas principalmente em cinema.

Guardians of the Galaxy Vol. 2 / EUA / 2017 / James Gunn

FILMES PARECIDOS: Esquadrão Suicida (2016) / Homem-Formiga (2015) / Operação Big Hero (2014) / O Homem de Aço (2013) / Os Aventureiros do Bairro Proibido (1986)

NOTA: 2.5

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Paterson

NOTAS DA SESSÃO:

- Naturalismo: O filme é um retrato tedioso da rotina de pessoas comuns sem nada de especial - o protagonista é um motorista de ônibus numa cidadezinha esquecida que sonha em se tornar um poeta (e pelas coisas que ele escreve não fica claro que ele tem qualquer talento), a namorada vende cupcakes mas sonha em ser uma estrela da música country (quando obviamente não tem a menor vocação pra isso). É quase como se o filme tivesse tirando sarro das ambições dessas pessoas, ao mesmo tempo em que demonstra carinho por elas, por acreditar que essa é condição de toda a humanidade. O sentimento por trás do filme é o de que somos todos perdedores, pessoas medíocres com expectativas ilusórias em relação à vida que nunca iremos atingir.

- O filme não quer contar uma história, criar uma experiência positiva pro espectador, se contenta apenas em fazer pequenas observações a respeito do comportamento humano, pra mostrar a "sensibilidade" do cineasta. Mas repare que todas essas observações reforçam o tema de que o ser humano é um fracassado: os homens feios no ônibus tentando dar a impressão de que são desejados por mulheres, o colega de trabalho que não perde uma oportunidade pra falar de seus problemas, o cara no bar apaixonado por uma mulher que o rejeita, o bar decadente que coloca fotos de sub-celebridades na parede pra tentar ganhar certo glamour, etc. A "sensibilidade" do cineasta no fim consiste em sua habilidade de observar o lado patético do ser humano.

- A personagem mais medíocre de todas é a namorada. Paterson ainda parece ter a decência de saber que é um fracassado. Mas ela não - ela realmente acredita ser especial, acredita que suas receitas são deliciosas quando na verdade são horríveis, acredita ser criativa e "artística" quando na verdade tem péssimo gosto. E o que é mais repulsivo é a maneira como o filme a retrata: não como uma figura patética, exagerada, uma exceção digna do riso da plateia, e sim como alguém normal, uma garota bonita, de bom coração, que poderia ser uma de nós na plateia. É quase como se o cineasta estivesse ameaçando o espectador, dizendo "é melhor você não pensar que é especial ou qualquer coisa além do medíocre, pois eu estarei aqui com meu gosto requintado e minhas lentes especiais enxergando sua verdadeira essência".

- O filme fica criando uma série de padrões e coincidências aleatórias: o nome do protagonista é Paterson, a cidade se chama Paterson, na estante há um livro com o nome Paterson. A namorada sonha que tinha engravidado de gêmeos, e a partir daí o protagonista vê uma série de gêmeos na cidade. A garotinha fala em cachoeira, e no jantar há um quadro com uma cachoeira na parede. Isso é uma tolice só pra dar a sensação de que o filme tem estrutura, "rimas internas", como nas poesias - mas na prática é uma "forma" totalmente desconectada de propósitos narrativos, da experiência do espectador. É como um cara com TOC que acende a apaga a luz dezenas de vezes pra se dar uma falsa sensação de ordem, quando sua vida na verdade é uma zona.

- O cineasta não sabe que há um limite pra quantas vezes você pode mostrar planos de cachorro num mesmo filme pra tirar reações "fofinhas" da plateia.

- O relacionamento do casal é deprimente. Ele escreve poesias dizendo o quanto a namorada é vital pra ele, mas na prática não vemos essa admiração ou apego. Ele parece vê-la como a loser que ela é. Por exemplo, a reação dele quando ela diz que vai comprar um violão pra se tornar artista country, ou quando ele prova a torta que ela fez e acha horrível, mas não fala nada pra não magoá-la. O protagonista nunca diz o que pensa. Ri de piadas no bar quando não acha a menor graça. É um cara reprimido, frustrado, que vive na mediocridade e não faz nada pra sair dela.

- Qual o sentido do encontro com o oriental no banco? Mais coincidências, padrões aleatórios, pessoas tolas, momentos embaraçosos. E no fim a semana acaba, volta a ser segunda-feira, e a chatice toda irá recomeçar.

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CONCLUSÃO: História tediosa feita por alguém que despreza as pessoas, a vida e a plateia.

Paterson / EUA, França, Alemanha / 2016 / Jim Jarmusch

FILMES PARECIDOS: Flores Partidas (2005)

NOTA: 1.5

sábado, 22 de abril de 2017

Vida

NOTAS DA SESSÃO:

- A falta de originalidade tira um pouco da estatura do filme no começo. Não só pela premissa lembrar muito a de Alien, o Oitavo Passageiro, mas o plano-sequência inicial (são mais de 5 minutos sem cortes) parece querer imitar o início de Gravidade, outro filme do mesmo gênero.

- SPOILER: A cena da luva onde o "Calvin" ataca pela primeira vez é muito tensa e eficiente (a mão do cientista quebrando, etc). E logo na sequência há a morte chocante do Ryan Reynolds - que impressiona não só pelos detalhes gráficos (o sangue saindo da boca em gravidade zero), como também pelo fato do filme eliminar um de seus astros tão cedo na história, criando uma sensação meio Psicose de que qualquer um pode morrer daqui pra frente.

- Todas as cenas de ação são bem tensas: por exemplo a mulher do lado de fora da nave, não só tendo que lutar contra o alien, mas ao mesmo tempo se afogando e com dificuldades pra enxergar por causa da água no capacete.

- Só é forçado o alien conseguir entrar de volta na nave uma vez que ele estava lá fora. Se a nave é tão vedada que nem o ar de dentro consegue escapar, como ele iria entrar? Nem se ele fosse totalmente líquido teria como ele entrar por uma "fresta". Sem falar que mais pro final fica claro que o bicho não pode sobreviver sem muito oxigênio. Como ele ficou esse tempo todo lá fora no espaço?

- Uma coisa que enfraquece um pouco o filme (em comparação com Alien), é a ausência de personagens fortes e carismáticos. Os tripulantes não têm muita personalidade - não chega a ser um prazer ver essas pessoas lutando contra a criatura (como era um prazer ver a Sigourney Weaver, por exemplo). E não só os humanos não têm muita personalidade, como o alien também não tem muita personalidade. É quase como um conjunto de células, uma planta carnívora mal humorada, não é um ser com uma consciência, uma identidade forte, como era o Xenomorph. Ainda assim os personagens são decentes, e a direção é realista o bastante pra gente se envolver na situação.

- Alguns detalhes meio forçados, como o Calvin estar preso na perna do Hugh e ninguém ter percebido; ou então quando chega a nave de "resgate", e o Sho abre a comporta por engano e deixa o Calvin entrar e matar todo mundo (até parece que seria tão fácil assim abrir essas comportas em estações espaciais).

- SPOILER: Não funciona direito a cena em que o Jake Gyllenhaal e a Miranda, percebendo que são os últimos sobreviventes e que poderão morrer, começam a conversar sobre suas infâncias de maneira melancólica, etc. Os personagens não foram desenvolvidos o bastante pra um momento "intimista" como esse tocar a plateia. O filme funciona melhor quando é pura ação.

10 Tendências Irritantes em Hollywood #5 - claro que no final o mocinho teria que cometer um ato de auto-sacrifício pra se provar um herói.

- SPOILER: É divertido o conceito do final surpresa, porém ele não foi muito bem preparado - acaba parecendo forçado, enfiado no roteiro só porque o diretor se apegou à ideia. Não é bem explicado por que o Jake Gyllenhaal tinha que se sacrificar, escapar em uma cápsula, a Miranda em outra... A sequência é dirigida de maneira propositalmente confusa pra despistar a plateia, de forma que quando os pescadores se aproximam da cápsula no mar, o espectador mais experiente já sabe que quem está lá dentro não é a Miranda. E como o Calvin não é um monstro muito carismático (não é tipo um Xenomorph ou um Jason, por exemplo), não há aquele prazer em descobrir que o vilão ainda está vivo e pronto pra mais matança. É um choque (o que é bom pra um final), mas um meio deprimente.

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CONCLUSÃO: Premissa não muito original, com um final duvidoso, mas o filme é bem eficiente em seus momentos de suspense / terror.

Life / EUA / 2017 / Daniel Espinosa

FILMES PARECIDOS: Passageiros (2016) / Gravidade (2013) / Prometheus (2012)

NOTA: 6.5

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Velozes e Furiosos 8

NOTAS DA SESSÃO:

- Divertido o racha inicial (embora seja extremamente forçado). É meio clichê a ideia do mocinho ter que competir usando uma ferramenta pior que o rival, e vencer mesmo assim, provando de uma vez por todas sua superioridade. Só que aqui eles empurram esse conceito até os limites, dando um ar de fantasia pra tudo: Vin Diesel está com o carro mais podre de Cuba, e o rival está com o melhor e mais rápido - e mesmo assim Diesel vence!

- Interessante a ideia do Vin Diesel passar pro time dos "maus". Ficamos querendo descobrir o que foi que a Charlize Theron mostrou pra ele pra convencê-lo.

- O filme tem várias ideias divertidas de ação, mas sempre às custas da lógica: Diesel entrando de carro no avião, ou a bola de demolição destruindo vários carros, etc. A cena de luta na prisão é quase surrealista de tão exagerada. Pelo menos o filme mantém o tom leve e divertido, não foca na violência e em sentimentos de ódio como John Wick.

- Difícil lembrar do último filme pra saber se faz sentido o Vin Diesel ter um filho com essa ex ao mesmo tempo em que está num relacionamento estável com a Michelle Rodriguez. Pelo menos o sequestro justifica as atitudes do Vin Diesel e cria uma motivação mais ou menos eficaz (mais ou menos porque essa mulher e essa criança surgiram do nada na história, é um coelho tirado da cartola, não são personagens que fazem parte da narrativa pelos quais realmente nos importamos). Mas acaba prendendo a atenção, até pelo fato do Diesel estar "traindo" os amigos e eles ainda não saberem a razão.

- Falsa a cena em que o Vin Diesel finge parar pra consertar o carro e dá uma "fugidinha", bate o maior papo com a Helen Mirren, e a Charlize Theron não percebe nada pelas câmeras.

- Um exagero essa cena dos carros andando sozinhos em piloto automático. Tudo isso só pra capturar aquela limousine? Os roteiristas pensam assim: "não seria legal se tivesse uma cena onde acontecesse a ideia X envolvendo carros?". E daí eles dão um jeito de enfiar essa ideia na história sem nenhuma preocupação em justificá-la racionalmente.

- É engraçado como cada etapa da trama "exige" que os protagonistas apareçam com seus carros, estejam eles em aviões, na Rússia, no meio do gelo... É como se eles fossem uns Transformers: não há uma identidade pessoal que possa ser separada dos carros. Eles usam carros como se fossem peças de roupas.

- SPOILER: Mal explicada (e previsível) a "ressurreição" do Jason Statham.

- Tirando os absurdos envolvidos (por exemplo o fato do submarino estar navegando numa velocidade altíssima a ponto de alcançar os carros), essa sequência toda do submarino é muito divertida. O filme funciona pois ele é construído em torno de set pieces de ação espetaculares e feitos com muita energia. Infelizmente o desprezo do filme pela realidade destrói parte da magia. A admiração que sentimos pelos personagens fica no plano da fantasia. O filme acaba promovendo o tipo de autoestima e otimismo baseados em misticismo que eu descrevi na postagem Por Que a Esquerda É Mais Inteligente que a Direita.

- Esse é o 8º Velozes e Furiosos mas parece que é a vigésima vez que vejo esse final feliz morno com os amigos todos reunidos num "churrasco" comemorando.

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CONCLUSÃO: Roteiro pouco lógico que serve apenas pra justificar as cenas com carros, mas a premissa é razoavelmente envolvente e as sequências de ação garantem um bom entretenimento.

The Fate of the Furious / EUA / 2017 / F. Gary Gray

FILMES PARECIDOS: Missão: Impossível - Nação Secreta (2015) / Terremoto: A Falha de San Andreas (2015)

NOTA: 6.5

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Eu, Daniel Blake

NOTAS DA SESSÃO:

- Naturalismo: o filme é um retrato superficial de pessoas comuns, "vítimas" da sociedade, que não têm objetivos ou vidas interessantes. O protagonista é simpático, mas o filme quer apenas conscientizar o espectador a respeito da situação de certa parte da população - coloca a função social / jornalística do filme acima de valores artísticos, acima da experiência cinematográfica.

- Não há uma história interessante e bem contada, é apenas um relato de como é complicado pra um senhor de idade conseguir seguro desemprego - uma denúncia da burocracia, do péssimo "atendimento", etc. Mas mesmo que você assuma que é dever do governo cuidar da população (o que eu discordo), ainda é uma história tediosa de assistir.

- Tudo o que pode dar de errado pro protagonista, dá errado (ele não sabe usar computador, quando aprende, o site dá erro, etc). A mentalidade por trás do filme é a mesma de pessoas que gostam de se fazer de vítimas: falar o tempo todo dos próprios problemas e dizer que a culpa é dos outros.

- O protagonista é tão azarado que não apenas não pode trabalhar, não tem dinheiro guardado, não tem parentes e amigos para socorrê-lo, como não tem habilidade o bastante pra conseguir ajuda do governo, pois o processo é muito burocrático. E isso é mostrado como se Daniel Blake fosse um cidadão comum, não uma trágica exceção, tudo pra reforçar a ideia de que o ser humano é incapaz, que o governo é imprescindível, precisa crescer e se responsabilizar por todos.

- O filme não mostra por que esses personagens chegaram a essa situação. Se foi uma tragédia realmente imprevisível e não-merecida, ou se foi por falta de planejamento, esforço, responsabilidade ao longo da vida, etc. Por mais triste que seja, ainda não é um argumento a favor do socialismo. O único ponto válido do filme é que, já que o protagonista pagou impostos a vida toda, agora seria justo ele ter direito a certos benefícios. Isso sim. Mas o filme seria mais interessante se fosse um alerta contra o governo, por mostrar que mesmo nos países mais ricos ele é ineficaz quando tenta se responsabilizar pela população - mas não, apesar de tudo, ele parece exigir mais e mais governo.

- O filme glamouriza o auto-sacrifício: acha virtuoso que o protagonista, apesar de idoso, doente e numa situação terrível, doe seu tempo e esforço pra ajudar uma família necessitada; ou então que a mãe deixe de comer seu jantar pra alimentar um desconhecido, etc. Os protagonistas são todos admiráveis por serem altruístas, e o "sistema" fica parecendo injusto por recompensar as pessoas de acordo com mérito, e não de acordo com generosidade e benevolência.

- 1 hora de filme e ele ainda está tentando preencher formulários pro seguro desemprego! Essa é certamente uma das histórias mais chatas que alguém poderia ter pensado. Não surpreende ser o grande vencedor do Festival de Cannes.

- SPOILER: No fim, tudo é culpa dos outros. Como o governo não sustenta a população direito, a vida dos personagens se torna uma desgraça: a filha começa a sofrer bullying na escola por usar roupas velhas, a mãe é forçada a se prostituir, o protagonista morre, etc. O filme tem uma narrativa ascendente "bem sucedida", mas o "valor" que é satisfeito ao longo da história é o da vitimização: conforme a história progride, mais e mais os protagonistas sofrem nas mãos do governo, chegando ao clímax que é a morte. Nesse sentido, é uma narrativa "satisfatória", mas apenas para aqueles que enxergam a vitimização como algo atraente.

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CONCLUSÃO: Propaganda esquerdista tediosa.

I, Daniel Blake / Reino Unido, França, Bélgica / 2016 / Ken Loach

FILMES PARECIDOS: Dois Dias, Uma Noite (2014)

NOTA: 4.0