sábado, 22 de abril de 2017

Vida

NOTAS DA SESSÃO:

- A falta de originalidade tira um pouco da estatura do filme no começo. Não só pela premissa lembrar muito a de Alien, o Oitavo Passageiro, mas o plano-sequência inicial (são mais de 5 minutos sem cortes) parece querer imitar o início de Gravidade, outro filme do mesmo gênero.

- SPOILER: A cena da luva onde o "Calvin" ataca pela primeira vez é muito tensa e eficiente (a mão do cientista quebrando, etc). E logo na sequência há a morte chocante do Ryan Reynolds - que impressiona não só pelos detalhes gráficos (o sangue saindo da boca em gravidade zero), como também pelo fato do filme eliminar um de seus astros tão cedo na história, criando uma sensação meio Psicose de que qualquer um pode morrer daqui pra frente.

- Todas as cenas de ação são bem tensas: por exemplo a mulher do lado de fora da nave, não só tendo que lutar contra o alien, mas ao mesmo tempo se afogando e com dificuldades pra enxergar por causa da água no capacete.

- Só é forçado o alien conseguir entrar de volta na nave uma vez que ele estava lá fora. Se a nave é tão vedada que nem o ar de dentro consegue escapar, como ele iria entrar? Nem se ele fosse totalmente líquido teria como ele entrar por uma "fresta". Sem falar que mais pro final fica claro que o bicho não pode sobreviver sem muito oxigênio. Como ele ficou esse tempo todo lá fora no espaço?

- Uma coisa que enfraquece um pouco o filme (em comparação com Alien), é a ausência de personagens fortes e carismáticos. Os tripulantes não têm muita personalidade - não chega a ser um prazer ver essas pessoas lutando contra a criatura (como era um prazer ver a Sigourney Weaver, por exemplo). E não só os humanos não têm muita personalidade, como o alien também não tem muita personalidade. É quase como um conjunto de células, uma planta carnívora mal humorada, não é um ser com uma consciência, uma identidade forte, como era o Xenomorph. Ainda assim os personagens são decentes, e a direção é realista o bastante pra gente se envolver na situação.

- Alguns detalhes meio forçados, como o Calvin estar preso na perna do Hugh e ninguém ter percebido; ou então quando chega a nave de "resgate", e o Sho abre a comporta por engano e deixa o Calvin entrar e matar todo mundo (até parece que seria tão fácil assim abrir essas comportas em estações espaciais).

- SPOILER: Não funciona direito a cena em que o Jake Gyllenhaal e a Miranda, percebendo que são os últimos sobreviventes e que poderão morrer, começam a conversar sobre suas infâncias de maneira melancólica, etc. Os personagens não foram desenvolvidos o bastante pra um momento "intimista" como esse tocar a plateia. O filme funciona melhor quando é pura ação.

10 Tendências Irritantes em Hollywood #5 - claro que no final o mocinho teria que cometer um ato de auto-sacrifício pra se provar um herói.

- SPOILER: É divertido o conceito do final surpresa, porém ele não foi muito bem preparado - acaba parecendo forçado, enfiado no roteiro só porque o diretor se apegou à ideia. Não é bem explicado por que o Jake Gyllenhaal tinha que se sacrificar, escapar em uma cápsula, a Miranda em outra... A sequência é dirigida de maneira propositalmente confusa pra despistar a plateia, de forma que quando os pescadores se aproximam da cápsula no mar, o espectador mais experiente já sabe que quem está lá dentro não é a Miranda. E como o Calvin não é um monstro muito carismático (não é tipo um Xenomorph ou um Jason, por exemplo), não há aquele prazer em descobrir que o vilão ainda está vivo e pronto pra mais matança. É um choque (o que é bom pra um final), mas um meio deprimente.

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CONCLUSÃO: Premissa não muito original, com um final duvidoso, mas o filme é bem eficiente em seus momentos de suspense / terror.

Life / EUA / 2017 / Daniel Espinosa

FILMES PARECIDOS: Passageiros (2016) / Gravidade (2013) / Prometheus (2012)

NOTA: 6.5

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Velozes e Furiosos 8

NOTAS DA SESSÃO:

- Divertido o racha inicial (embora seja extremamente forçado). É meio clichê a ideia do mocinho ter que competir usando uma ferramenta pior que o rival, e vencer mesmo assim, provando de uma vez por todas sua superioridade. Só que aqui eles empurram esse conceito até os limites, dando um ar de fantasia pra tudo: Vin Diesel está com o carro mais podre de Cuba, e o rival está com o melhor e mais rápido - e mesmo assim Diesel vence!

- Interessante a ideia do Vin Diesel passar pro time dos "maus". Ficamos querendo descobrir o que foi que a Charlize Theron mostrou pra ele pra convencê-lo.

- O filme tem várias ideias divertidas de ação, mas sempre às custas da lógica: Diesel entrando de carro no avião, ou a bola de demolição destruindo vários carros, etc. A cena de luta na prisão é quase surrealista de tão exagerada. Pelo menos o filme mantém o tom leve e divertido, não foca na violência e em sentimentos de ódio como John Wick.

- Difícil lembrar do último filme pra saber se faz sentido o Vin Diesel ter um filho com essa ex ao mesmo tempo em que está num relacionamento estável com a Michelle Rodriguez. Pelo menos o sequestro justifica as atitudes do Vin Diesel e cria uma motivação mais ou menos eficaz (mais ou menos porque essa mulher e essa criança surgiram do nada na história, é um coelho tirado da cartola, não são personagens que fazem parte da narrativa pelos quais realmente nos importamos). Mas acaba prendendo a atenção, até pelo fato do Diesel estar "traindo" os amigos e eles ainda não saberem a razão.

- Falsa a cena em que o Vin Diesel finge parar pra consertar o carro e dá uma "fugidinha", bate o maior papo com a Helen Mirren, e a Charlize Theron não percebe nada pelas câmeras.

- Um exagero essa cena dos carros andando sozinhos em piloto automático. Tudo isso só pra capturar aquela limousine? Os roteiristas pensam assim: "não seria legal se tivesse uma cena onde acontecesse a ideia X envolvendo carros?". E daí eles dão um jeito de enfiar essa ideia na história sem nenhuma preocupação em justificá-la racionalmente.

- É engraçado como cada etapa da trama "exige" que os protagonistas apareçam com seus carros, estejam eles em aviões, na Rússia, no meio do gelo... É como se eles fossem uns Transformers: não há uma identidade pessoal que possa ser separada dos carros. Eles usam carros como se fossem peças de roupas.

- SPOILER: Mal explicada (e previsível) a "ressurreição" do Jason Statham.

- Tirando os absurdos envolvidos (por exemplo o fato do submarino estar navegando numa velocidade altíssima a ponto de alcançar os carros), essa sequência toda do submarino é muito divertida. O filme funciona pois ele é construído em torno de set pieces de ação espetaculares e feitos com muita energia. Infelizmente o desprezo do filme pela realidade destrói parte da magia. A admiração que sentimos pelos personagens fica no plano da fantasia. O filme acaba promovendo o tipo de autoestima e otimismo baseados em misticismo que eu descrevi na postagem Por Que a Esquerda É Mais Inteligente que a Direita.

- Esse é o 8º Velozes e Furiosos mas parece que é a vigésima vez que vejo esse final feliz morno com os amigos todos reunidos num "churrasco" comemorando.

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CONCLUSÃO: Roteiro pouco lógico que serve apenas pra justificar as cenas com carros, mas a premissa é razoavelmente envolvente e as sequências de ação garantem um bom entretenimento.

The Fate of the Furious / EUA / 2017 / F. Gary Gray

FILMES PARECIDOS: Missão: Impossível - Nação Secreta (2015) / Terremoto: A Falha de San Andreas (2015)

NOTA: 6.5

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Eu, Daniel Blake

NOTAS DA SESSÃO:

- Naturalismo: o filme é um retrato superficial de pessoas comuns, "vítimas" da sociedade, que não têm objetivos ou vidas interessantes. O protagonista é simpático, mas o filme quer apenas conscientizar o espectador a respeito da situação de certa parte da população - coloca a função social / jornalística do filme acima de valores artísticos, acima da experiência cinematográfica.

- Não há uma história interessante e bem contada, é apenas um relato de como é complicado pra um senhor de idade conseguir seguro desemprego - uma denúncia da burocracia, do péssimo "atendimento", etc. Mas mesmo que você assuma que é dever do governo cuidar da população (o que eu discordo), ainda é uma história tediosa de assistir.

- Tudo o que pode dar de errado pro protagonista, dá errado (ele não sabe usar computador, quando aprende, o site dá erro, etc). A mentalidade por trás do filme é a mesma de pessoas que gostam de se fazer de vítimas: falar o tempo todo dos próprios problemas e dizer que a culpa é dos outros.

- O protagonista é tão azarado que não apenas não pode trabalhar, não tem dinheiro guardado, não tem parentes e amigos para socorrê-lo, como não tem habilidade o bastante pra conseguir ajuda do governo, pois o processo é muito burocrático. E isso é mostrado como se Daniel Blake fosse um cidadão comum, não uma trágica exceção, tudo pra reforçar a ideia de que o ser humano é incapaz, que o governo é imprescindível, precisa crescer e se responsabilizar por todos.

- O filme não mostra por que esses personagens chegaram a essa situação. Se foi uma tragédia realmente imprevisível e não-merecida, ou se foi por falta de planejamento, esforço, responsabilidade ao longo da vida, etc. Por mais triste que seja, ainda não é um argumento a favor do socialismo. O único ponto válido do filme é que, já que o protagonista pagou impostos a vida toda, agora seria justo ele ter direito a certos benefícios. Isso sim. Mas o filme seria mais interessante se fosse um alerta contra o governo, por mostrar que mesmo nos países mais ricos ele é ineficaz quando tenta se responsabilizar pela população - mas não, apesar de tudo, ele parece exigir mais e mais governo.

- O filme glamouriza o auto-sacrifício: acha virtuoso que o protagonista, apesar de idoso, doente e numa situação terrível, doe seu tempo e esforço pra ajudar uma família necessitada; ou então que a mãe deixe de comer seu jantar pra alimentar um desconhecido, etc. Os protagonistas são todos admiráveis por serem altruístas, e o "sistema" fica parecendo injusto por recompensar as pessoas de acordo com mérito, e não de acordo com generosidade e benevolência.

- 1 hora de filme e ele ainda está tentando preencher formulários pro seguro desemprego! Essa é certamente uma das histórias mais chatas que alguém poderia ter pensado. Não surpreende ser o grande vencedor do Festival de Cannes.

- SPOILER: No fim, tudo é culpa dos outros. Como o governo não sustenta a população direito, a vida dos personagens se torna uma desgraça: a filha começa a sofrer bullying na escola por usar roupas velhas, a mãe é forçada a se prostituir, o protagonista morre, etc. O filme tem uma narrativa ascendente "bem sucedida", mas o "valor" que é satisfeito ao longo da história é o da vitimização: conforme a história progride, mais e mais os protagonistas sofrem nas mãos do governo, chegando ao clímax que é a morte. Nesse sentido, é uma narrativa "satisfatória", mas apenas para aqueles que enxergam a vitimização como algo atraente.

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CONCLUSÃO: Propaganda esquerdista tediosa.

I, Daniel Blake / Reino Unido, França, Bélgica / 2016 / Ken Loach

FILMES PARECIDOS: Dois Dias, Uma Noite (2014)

NOTA: 4.0

terça-feira, 11 de abril de 2017

Mulheres do Século 20


Um dos filmes mais pessoais e psicologicamente sensíveis que vi no último ano, provavelmente pelo fato do diretor Mike Mills ter baseado a história em sua infância, tornando os personagens extremamente convincentes. A personagem da Annette Bening é particularmente fascinante (certamente merecia uma indicação ao Oscar) - uma mulher madura e relativamente conservadora lutando pra se conectar com o próprio filho e entender (sem muito sucesso) a geração mais jovem, que nos anos 70 estava deslumbrada com feminismo, punk rock e coisas do gênero (há muitos paralelos com os dias de hoje).

A história tem uns toques Naturalistas, uma narrativa não muito direcionada, mas os personagens são tão bem escritos, os diálogos tão interessantes, que o filme se mantém vivo do começo ao fim.

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20th Century Women / EUA / 2016 / Mike Mills

FILMES PARECIDOS: Manchester À Beira-Mar (2016) / Álbum de Família (2013) / A Lula e a Baleia (2005) / Em Seu Lugar (2005) / Laços de Ternura (1983)

NOTA: 8.0

segunda-feira, 10 de abril de 2017

A Cabana

NOTAS DA SESSÃO:

- O filme começa bem - tem um visual bonito, o mistério da carta e o sumiço da filha prendem a atenção, o protagonista é gostável e dá abertura pro espectador não-religioso se identificar com ele (por mostrar que tem senso crítico, que tem questionamentos a respeito de Deus, etc).

- Meio forçado ele ser levado de helicóptero até a cabana pra ver a cena do crime. De qualquer forma, é uma cena forte que cria uma base sólida pra história.

- Todo o trecho da volta dele à cabana é bem interessante: a mudança no clima, a cabana restaurada, a ideia dos 3 personagens representarem o pai, o filho e o espírito santo, etc. E a reação do protagonista é convincente, faz a gente comprar a ideia do que está acontecendo.

- O problema é que daí pra frente o filme começa a entrar em questões mais "técnicas" da religião e vai perdendo a força. O Sam Worthington levanta um ponto interessante quando pergunta pra Octavia Spencer por que Deus permitiu que a filha dele morresse de forma tão cruel, etc. Daí ela faz cara de sábia, diz uma série de frases confusas, e não responde nada.

- Por se basear em religião, o filme também acaba promovendo algumas ideias nocivas intelectualmente: a de que não devemos julgar o que é certo ou errado, que Deus é a única autoridade em questões éticas, que precisamos do sobrenatural pra termos qualquer senso de otimismo, etc.

- Um absurdo a cena da caverna com a Alice Braga. O que ela diz basicamente é que ninguém é culpado de nada - se um homem comete um assassinato, é porque seus pais devem ter tratado ele mal na infância, e assim por diante.

- O que prova o desafio que ela coloca pro Sam Worthington, de ter que escolher entre os dois filhos? O filme fica criando uns "twists" mentais pra confundir o espectador e conseguir se safar sem responder as questões difíceis. No fim nada é esclarecido, ficamos apenas confusos, com a sensação de que o universo é complexo demais pra entendermos, portanto melhor confiar no que Deus fala e parar de raciocinar.

- A Octavia Spencer no fim diz que o mal existe porque é obra do demônio, não de Deus. Então Deus não é todo poderoso? Não pode proteger quem acredita nele? Então por que a ideia Deus deveria dar conforto pra qualquer pessoa, já que ele não pode parar as forças do mal?

- Toda essa conversa não ajudou em nada o protagonista a superar a morte da filha. Não foram os ensinamentos que ajudaram ele no final, e sim o fato de que ele teve o privilégio de falar pessoalmente com Deus, teve a prova de que existe vida após a morte, pôde VER a filha com os próprios olhos e saber que ela está feliz no paraíso, etc. Assim qualquer um ficaria curado do sofrimento. Mas e todo o resto da humanidade que nunca terá esse tipo de experiência? Outro problema é que isso reforça a ideia de que, sem o sobrenatural, a realidade seria trágica e não haveria como ser verdadeiramente feliz.

- Não fica claro qual o propósito do reencontro dele com o pai. O filme é sobre a morte da filha. Encontrar o espírito do pai não tem nada a ver com a história - é só pra ter mais um momento de catarse e dar a impressão que a experiência na cabana foi ainda mais transformadora.

- Um absurdo ele ter que perdoar o assassino da filha. Não sentimos que houve uma real compreensão aqui da parte dele. Ele só perdoou o cara porque foi pressionado por Deus, mas foram palavras vazias.

- SPOILER: Como narrativa é interessante esse final meio Contato mostrando que ele nem chegou a voltar à cabana - que ele sofreu um acidente no caminho e tudo o que rolou aconteceu na cabeça dele. Ainda assim, é o velho apelo pro subjetivismo - Deus não pode ser provado, é tudo uma experiência pessoal, se a fé curou sua tristeza isso já prova que ela é real, etc. Saímos do cinema com as mesmas dúvidas que entramos.

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CONCLUSÃO: Bem realizado e com um começo envolvente, mas perde a força quando começa a querer justificar a religião racionalmente e a dar lições de autoajuda.

The Shack / EUA / 2017 / Stuart Hazeldine

FILMES PARECIDOS: Além da Vida (2010) / Um Olhar do Paraíso (2009) / Amor Além da Vida (1998)

NOTA: 5.5

sábado, 8 de abril de 2017

Princípio da Ascensão

O Princípio da Ascensão é o princípio estético que diz que uma obra deve evoluir ao longo do tempo - que o nível de satisfação do espectador deve ir aumentando conforme a obra caminha em direção ao fim. Claro, isso vale apenas pras artes temporais como o cinema, a música, o teatro e a literatura - e não para a pintura ou a escultura, por exemplo, que são são artes estáticas.

"O primeiro mandamento de toda arte temporal é: Guarde o melhor para o final." - Robert McKee

De onde vem esse princípio?

O ser humano é naturalmente atraído por narrativas ascendentes: por coisas que evoluem e parecem estar caminhando para um futuro melhor do que o presente e o passado - como uma flor se desabrochando ou uma criança nos primeiros anos de vida. Pense em algo que acontece na vida real: até os 20 e tantos anos, a natureza garante uma espécie de narrativa ascendente pro ser humano, pois seu corpo e seu intelecto estão num processo automático de evolução (na maioria dos casos). É por isso que celebrações de aniversários de crianças costumam ser muito mais cheias de otimismo do que as de alguém na meia-idade. Após essa fase da juventude, a natureza não nos garante mais uma narrativa ascendente automática num nível biológico: é responsabilidade do adulto continuar se desenvolvendo de outras formas se ele quiser preservar algum entusiasmo ao seu redor (desenvolvendo seu caráter, sua mente, produzindo coisas mais importantes, se tornando mais bem sucedido, etc).

Coisas que ficam estagnadas ou perdem energia e se deterioram ao longo do tempo são naturalmente deprimentes para o ser humano, pois nos remetem ao processo de morte. Uma narrativa ascendente representa pro subconsciente uma espécie de vitória momentânea sobre a morte - é como se durante aquela experiência, a ordem natural das coisas tivesse magicamente sido invertida. Em vez de o tempo avançar em direção ao tédio e à tristeza, ele avançou em direção à alegria e à vida.

Vamos pensar no sexo: se o orgasmo fosse a primeira coisa que acontecesse no contato entre 2 pessoas e daí pra frente a experiência se tornasse menos e menos prazerosa, não haveria um incentivo pras pessoas continuarem o ato por muito mais tempo. É justamente o fato do sexo ser uma narrativa ascendente em direção a um clímax que o torna um "entretenimento" atraente pra tantas pessoas (num nível puramente físico). É por isso também que, em uma refeição, tendemos a comer a salada primeiro e a sobremesa por último, e que os fogos de artifício tendem a acontecer no final de um evento.

Já numa obra de arte, temos que ir além do nível sensorial. Precisamos caminhar em direção a emoções mais satisfatórias e a significados mais satisfatórios. Se você começa um filme com uma cena de ação onde o herói enfrenta meia dúzia de bandidos, e ao longo do filme vai colocando mais e mais bandidos pra lutar contra o herói, terminando numa grande batalha com centenas de pessoas, isso NÃO é uma narrativa ascendente. Se a ação estiver divorciada de valores e emoções, após 2 ou 3 cenas de luta o filme cairá na monotonia independente do número de pessoas na tela. Nesses casos há também o problema da repetição:

"A lei dos Rendimentos Decrescentes diz o seguinte: Quanto mais vivenciamos algo, menos efeito aquilo tem. Uma experiência emocional não pode ser repetida muitas vezes seguidas com o mesmo efeito. O primeiro sorvete de casquinha é uma delícia. O segundo não é mau. O terceiro te deixa enjoado." - Robert McKee

Pra garantir uma experiência satisfatória, o artista não só precisa entender os diversos tipos de desejos do espectador, mas também saber dosar e orquestrar a satisfação desses desejos criando uma narrativa ascendente.

Não adianta ter uma narrativa monótona, entediar o espectador por horas, e no final vir com um momento surpreendente que arrebate a plateia. Desde o começo já deve haver a promessa de algo desejável no horizonte. Uma isca - ou diversas iscas - que provoquem determinadas vontades no espectador, que serão satisfeitas aos poucos pelo artista.

"Uma composição musical requer que você mantenha sua plateia mais interessada no que irá acontecer do que naquilo que está acontecendo agora. Mesmo quando um momento maravilhoso está ocorrendo numa canção, os ouvintes estão subconscientemente aguardando o próximo "momento". É isso que significa construir energia ao longo de uma música, e é isso o que chamamos de forma. É indicar sutilmente que algo de bom irá ocorrer. Esse senso constante de antecipação é crucial. Seja na letra, na instrumentação, na dinâmica ou em outro aspecto da composição." - Gary Ewer

O Princípio da Ascensão não se aplica apenas à estrutura da obra como um todo, mas também a segmentos menores da estrutura. Nos melhores filmes, cada cena é construída de forma a criar uma pequena narrativa ascendente com um pequeno clímax, assim como cada ato da história. Não apenas o livro como um todo pode ter uma estrutura ascendente satisfatória, mas também cada capítulo e cada parágrafo. Esses picos ao longo da narrativa devem ser seguidos de momentos mais calmos onde a energia volta a cair, pra que um novo ciclo se inicie buscando picos mais altos, culminando no clímax. Nós sempre precisamos de recompensas a curto e a médio prazo se quisermos ter energia pra perseguir objetivos a longo prazo.

A (quase) exceção que às vezes encontro pra essa "lei" da ascensão é no caso de obras que pretendem ser um grande êxtase do começo ao fim: em vez de começarem num nível baixo de energia e irem crescendo aos poucos, elas já começam numa grande explosão e tentam apenas manter o nível até o final (afinal, antes do Princípio da Ascensão vem o Princípio do Prazer, que é ainda mais fundamental). Mesmo nesses casos, alguma dinâmica ainda é necessária pra que o tédio eventualmente não tome conta - só que em vez dessas obras representarem uma curva inclinada para cima, a "linha" está o tempo todo no alto, com apenas alguns picos surgindo de vez em quando pra não deixar o interesse cair (isso é mais comum em músicas do que em filmes, afinal é impossível manter alguém em êxtase por 2 horas).

Não estou sugerindo aqui que toda obra de arte deva buscar um grande êxtase, que essa curva ascendente deva sempre ser dramática e atingir os picos mais altos. Uma obra pode ser perfeitamente bem sucedida com uma ascensão sutil, sem atingir os extremos. O importante é manter o senso de que a curva está indo para cima e não para baixo - de que se o espectador acompanhar a obra até o final, algo que ele deseja mais do que ele tem agora irá acontecer (o que tem muito a ver com o vídeo que fiz sobre motivação de personagem).

"Seres humanos são organismos caçadores de objetivos. Não estamos felizes a não ser que estejamos caminhando para atingir algo que queremos" - Brian Tracy

Esse princípio é um dos mais fundamentais e universais no mundo da arte e do entretenimento, e é um que parece estar sendo cada vez mais ignorado na cultura popular. Até algumas décadas atrás, era parte do senso comum que uma obra deveria buscar uma curva ascendente - crescer em intensidade, em complexidade, em significado, em estímulo, em emoção, em beleza. O propósito da arte em geral costumava ser o de entreter, sem medo de alimentar os prazeres naturais e instintivos do espectador. Até obras comerciais medianas e sem grande valor artístico muitas vezes funcionavam, pois estavam seguindo fórmulas e clichês que respeitavam esses princípios básicos. O Princípio da Ascensão nunca foi uma técnica avançada, um segredo dos grandes gênios, e sim algo tão óbvio e intuitivo que nem precisava ser explicado de maneira teórica.

Algo parece ter mudado no senso comum dos artistas, e esse princípio hoje em dia existe mais como uma convenção antiga que as pessoas às vezes seguem sem saber por que. Pegue por exemplo a noção de que uma canção deve ser divida em versos e refrões - e que o refrão deve ser mais prazeroso que o verso. Isso já garante algum nível de ascensão na maioria das composições, mas alienados dos prazeres do espectador e sem entender o Princípio da Ascensão, os músicos atuais param por aí. Se você ouve uma música até o primeiro refrão hoje em dia, você provavelmente já ouviu tudo o que ela tem a oferecer em termos de evolução. Os próximos versos e refrões serão parecidos e não apresentarão nada de muito mais satisfatório musicalmente. Nos sucessos do passado, era comum você ter que esperar até a ponte ou o último refrão pra ouvir seu trecho favorito da música - o momento mais virtuoso do vocalista, a variação mais bonita da melodia ou do arranjo. A música estava sempre evoluindo - às vezes até durante o fade out, se você aumentasse o volume, era possível ouvir um último "momento".

Ao contrário de uma regra artificial, o Princípio da Ascensão libera o artista pra ser mais criativo, mais expressivo e inovador. Entendendo essa lei básica, Hitchcock por exemplo se sentiu livre pra assassinar sua protagonista no meio de Psicose - algo que jamais seria recomendado num livro de técnicas e fórmulas de roteiro, que tendem a engessar o artista. Ele sabia que desde que ele conseguisse criar uma nova narrativa ascendente após a morte de Marion Crane, e fazer o espectador continuar buscando algo na narrativa além do que ele já teve, o filme não perderia a força. Ou então Kubrick em 2001: Uma Odisséia no Espaço, que foi muito além ao quebrar com regras narrativas, criando uma história sem protagonistas - ou melhor, onde o protagonista é a humanidade em si. Ele sabia que enquanto a plateia estivesse intrigada com o monolito e caminhando em direção à solução de um mistério cósmico, ele poderia trocar de protagonistas, fazer saltos dramáticos no tempo, que o espectador continuaria interessado.

Assim como o uso de acordes maiores foi diminuindo no mundo da música ao longo das últimas décadas (como apontei na postagem Acordes e Senso de Vida), a estrutura ascendente também foi deixando de ser um objetivo primário na arte popular. Muitas dessas tendências culturais apontam pra uma mesma direção - indicam uma certa rejeição ou alienação tanto dos artistas quanto dos espectadores de seus prazeres mais primários. No lugar disso, mais atenção vem sendo dada à satisfação de desejos mais superficiais e de curto alcance - necessidades sociais imediatas como a de fazer parte das tendências do momento, ou a de levantar as bandeiras ideológicas que estão em alta.

Quando você baseia um trabalho em necessidades desse tipo, ele pode até fazer sucesso, mas atingirá o espectador de forma mais rasa e terá vida curta. Quando um bom trabalho é fundado em necessidades humanas sólidas, como o desejo por evolução, por exemplo, ele atingirá o espectador num nível mais profundo, será mais universal e resistirá ao teste do tempo.

Quanto mais cínica e desiludida uma cultura está, mais a arte que ela produz se distancia dessas formas puras de satisfação. Quando estamos doentes, geralmente não temos energia pra pensar em prazer. A felicidade parece algo distante e irreal - todo nosso foco se volta pra diminuição da dor e pra cura de nossas feridas. Apenas quando estamos num estado saudável e os problemas básicos parecem já ter sido superados é que passamos a nos preocupar com o positivo - em como buscar mais satisfação e aproveitar melhor a vida. O mesmo acontece com a cultura e a arte que ela produz.


segunda-feira, 3 de abril de 2017

A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell

NOTAS DA SESSÃO:

- Muito bonita a sequência inicial com a montagem do robô. Scarlett Johansson foi uma boa escolha pro papel, o visual e os efeitos são ótimos. A produção tem mais nível que a média (os diálogos têm certa inteligência, o elenco coadjuvante é interessante, etc).

- Apesar da visão pessimista meio clichê de futuro (que lembra Blade Runner, Robocop), o filme contrói um universo interessante - há várias ideias bem pensadas de design, tecnologia, etc.

- A trama envolvendo terrorismo é pouco interessante (cai na categoria "filme de serviço"). O que acaba envolvendo mais o espectador é o lado emocional da protagonista, a busca dela por um senso de conexão, e também as falhas no sistema que dão a ideia de que há alguma mentira por trás da realidade que estamos vendo.

- SPOILER: Depois que descobrimos que Scarlett e Kuze na verdade são vítimas da companhia, a trama fica mais interessante (os toques anti-capitalistas não chegam a acionar meu Alerta Vermelho). A protagonista ganha um propósito, um inimigo que ela queira derrotar não apenas por ser seu trabalho, mas por razões pessoais.

- Chega a ser um alívio ver um filme do gênero onde a ação não parece totalmente absurda, onde se tenta minimamente respeitar as leis da física. Não há aquelas cenas onde a heroína luta contra 200 inimigos ao mesmo tempo parecendo um videogame. Sentimos que estamos num universo crível onde há vulnerabilidades e limites para o que ela pode fazer.

- SPOILER: Legal a cena em que a Juliette Binoche muda de ideia e decide ajudar a Scarlett Johansson a escapar. Por um instante acreditamos que ela iria matá-la, o que torna a reviravolta satisfatória.

- SPOILER: A sequência de ação final contra a aranha é fraca - uma máquina grande e lenta assim não parece tão ameaçadora, sem falar que é só um robô - falta a presença do vilão real ali. Scarlett acaba derrotando Cutter à distância depois, numa cena pouco memorável. Outra coisa que enfraquece a história é a ideia de que todo o mal foi causado apenas por 1 diretor corrupto da empresa... Não sentimos que há uma organização realmente maligna ameaçando o mundo, tanto que no fim ela volta a trabalhar na Section 9. Fica a sensação de que foi apenas um problema localizado, um conflito menos épico do que poderia ter sido.

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CONCLUSÃO: Ficção feita com bom gosto e inteligência, embora a história não seja das mais empolgantes e o final deixe um pouco a desejar.

Ghost in the Shell / EUA / 2017 / Rupert Sanders

FILMES PARECIDOS: RoboCop (2014) / Lucy (2014) / No Limite do Amanhã (2014) / Sem Limites (2011) / Matrix (1999)

NOTA: 6.8

sexta-feira, 31 de março de 2017

T2 Trainspotting

NOTAS DA SESSÃO:

- Difícil simpatizar pelos personagens e pelo universo do filme. Somos apresentados a uma série de criminosos, pessoas decadentes, e o filme parece achar graça nisso - retrata os personagens como se eles fossem pessoas divertidas e do bem.

- Danny Boyle chama muita atenção pro próprio estilo, mas não é um estilo que favorece a narrativa ou demonstra domínio da linguagem - é apenas uma maneira de reafirmar o arquétipo rebelde que o filme vende: o desejo de quebrar as regras apenas pelo prazer de ser "do contra", rebeldia pela rebeldia, sem oferecer algo de positivo em troca. Sem falar que o tipo de rebeldia estética que vemos aqui hoje em dia já soa ultrapassada, quase mainstream, pois o que era ousado nos anos 90 já não é mais surpresa.

- Não é muito claro o objetivo do protagonista. Ewan McGregor volta pra cidade aparentemente pra consertar o passado, com a atitude de quem quer se desintoxicar, tirar os amigos do buraco. Mas logo em seguida já está cometendo crimes, roubando carteiras, etc. O filme quer apenas fazer um retrato positivo de delinquentes, mostrar os amigos se reunindo pra mais uma aventura em homenagem aos "velhos tempos" - é como se fosse um Laranja Mecânica, mas sem o conteúdo intelectual nem o valor estético do filme do Kubrick.

- O discurso "Choose Life" é uma chatice. De uma hora pra outra o Ewan McGregor vira um filósofo de boteco pretensioso que critica o mundo moderno, sendo que em nenhum outro momento o personagem demonstrou ter esse tipo intelecto e lucidez.

- Divertido o encontro acidental entre o Ewan McGregor e o Begbie no banheiro. A partir daí o filme ganha certa energia pois se transforma numa grande perseguição - Ewan está correndo risco de ser morto e nesse contexto é possível torcer por ele.

- Mas as negociações entre os amigos, a sauna que eles querem abrir, etc, isso pouco interessa. Sabemos que um está querendo passar a perna no outro; são todos tão assumidamente imorais que nenhuma traição será surpresa pro espectador. Não há uma amizade real entre ninguém no filme.

- Divertida a cena em que o Begbie descobre as anotações do Spud sobre o passado deles.

- Interessante a luta final entre Mark e Begbie. As luzes do trem passando dão um ar meio fantástico pra sequência e nos lembram do título "Trainspotting", apesar de eu não ter a menor ideia do que trens têm a ver com isso tudo (só vi o primeiro filme 1 vez quando foi lançado).

- SPOILER: Begbie sendo preso, Spud virando escritor, Mark voltando pra casa do pai - isso tudo faz o filme terminar numa nota positiva e tira parte da impressão de que ele estava celebrando a delinquência.

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CONCLUSÃO: Feito com energia, com alguns momentos divertidos, embora seja difícil de simpatizar totalmente pelos personagens e o filme soe um pouco datado em sua forma de quebrar as regras.

T2 Trainspotting / Reino Unido / 2017 / Danny Boyle

FILMES PARECIDOS: Os Oito Odiados (2015) / Em Transe (2013) / Clube da Luta (1999)

NOTA: 5.5

quarta-feira, 29 de março de 2017

Fragmentado

NOTAS DA SESSÃO:

- A cena inicial do sequestro no estacionamento não chega a ser um grande prólogo, mas prende a atenção. Incomoda um pouco o comportamento artificial dos personagens - Shyamalan às vezes dirige as cenas de forma um pouco forçada pra torná-las mais "cinemáticas". A intenção é boa, mas às vezes destrói o realismo do que está acontecendo.

- A personagem / atriz principal (Casey) não é das melhores. Faltam aspectos positivos e atraentes nela, além do fato dela ser meio perturbada e "pronta pra guerra". A personagem da Dra. Karen é mais gostável, embora ela pareça só estar no filme como um mecanismo de exposição meio preguiçoso (explicar pra plateia as teorias por trás das personalidades, etc). O show mesmo é do James McAvoy. Nosso interesse na trama nem é tanto o de saber se a mocinha vai escapar ou não, e sim o de descobrir as diversas personalidades do Kevin e ver o que ele é capaz de fazer.

- A Casey tem uma sacadas muito forçadas às vezes. Por exemplo quando ela manda a amiga fazer xixi na calça pra não ser estuprada. Ou quando tenta manipular o Hedwig dizendo que a "fera" está vindo pra pegar ele. Ou quando as meninas descobrem a saída secreta pelo teto do quarto. É boa a intenção do filme de criar essas pequenas reviravoltas pra tornar a trama mais movimentada, porém as ideias quase nunca são muito inteligentes ou plausíveis. Não faz sentido por exemplo o cara levar as 2 meninas pra comer na cozinha. Óbvio que elas tentariam atacá-lo, fugir ou algo do tipo.

- De qualquer forma o filme prende a atenção, principalmente por anunciar a existência de um "monstro". Os flashbacks mostrando a infância da Casey também dão uma sensação de que há algo importante ainda a ser revelado.

- A premissa não é muito bem explorada. A ideia de 3 meninas raptadas por um cara com 23 personalidades poderia ter rendido um roteiro muito mais engenhoso que esse. A única coisa que a protagonista faz é tentar se aproveitar quando o Kevin vira criança e se torna uma personalidade mais vulnerável. Mas essa sacada é repetida várias vezes ao longo do filme. A gente fica imaginando as dezenas de outras possibilidades que foram desperdiçadas.

- Bons os momentos do James McAvoy quando ele muda de expressão e se torna uma outra personalidade.

- Essas diversas sessões de terapia não fazem muito sentido (como disse, é apenas um mecanismo de exposição do roteiro). Se as outras personalidades do Kevin estão pedindo socorro pra doutora, por que elas não dizem no e-mail qual é o problema? Ou ligam pra polícia de uma vez?

- Forçado a doutora ir até a casa do Kevin no meio da noite - e ainda por cima ele deixá-la entrar, sabendo que as meninas estão lá sequestradas, etc. Por que ela coloca aquele lenço branco na porta?!

- As outras 2 meninas raptadas parecem não servir pra nada no filme. Ridícula a cena delas tentando destravar a porta com um cabide! Como o arame entortou pra baixo depois que passou pela fresta? A Casey também consegue destravar a porta facilmente com um prego, daí acha um computador que convenientemente está sem internet, daí acha um molho de chaves que convenientemente permite que ela fuja... É essa falta generalizada de inteligência que vai tornando o filme frustrante.

- Quando a doutora desmaia, por que o Kevin sai da casa, vai até o metrô, se transforma na fera e depois volta? Parece só pra dar tempo da doutora acordar e deixa aquele recado no papel pra Casey que também não faz o menor sentido.

- Shyamalan parece funcionar de maneira puramente emocional. Tem ideias pra cenas que ele acha interessantes e as coloca no roteiro sem se perguntar se aquilo faz qualquer sentido. Por que a fera sobe pelas paredes, por exemplo? Por que o Shyamalan achou que seria uma imagem meio assustadora. Por que a técnica de chamar o Kevin pelo nome pra fazê-lo "acordar" só funciona 1 vez? Porque o Shyamalan não queria que o filme acabasse tão cedo, etc.

- SPOILER: Os flashbacks da Casey dão a sensação pra plateia de que a personagem passou por uma espécie de "arco" ao longo do filme. Mas na prática isso não ocorreu. Ela começou e acabou o filme do mesmo jeito, a única diferença é que a plateia ficou sabendo sobre seus traumas do passado. E no fim não foi nem ela que se salvou ou fez algo que mostrasse superação - o Kevin apenas descobriu que ela era uma sofredora como ele e resolveu poupá-la. Nem dos abusos do tio fica claro que ela irá se livrar após essa experiência.

- SPOILER: Divertido o final com o Bruce Willis. O conceito de um final supresa envolvendo a própria filmografia do Shyamalan é excelente - só que foi mal executado. Não fica clara qual a conexão do Kevin com os personagens de Corpo Fechado. Por que a mulher no balcão associou as múltiplas personalidades do Kevin com o personagem do Samuel L. Jackson?

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CONCLUSÃO: História divertida, com um bom senso de entretenimento, uma ótima performance do James McAvoy - mas o roteiro é sub-aproveitado e pouco inteligente.

Split / EUA / 2016 / M. Night Shyamalan

FILMES PARECIDOS: O Homem nas Trevas (2016) / Rua Cloverfield, 10 (2016) / A Visita (2015)

NOTA: 6.0

terça-feira, 28 de março de 2017

Power Rangers

Assim como a série da TV, esse é um típico caso de "guilty pleasure" - aquelas coisas que a gente sabe que são ruins mas a gente gosta mesmo assim. Se eu postasse as anotações que fiz no cinema aqui, 90% delas seriam reclamando da má qualidade do filme - da maneira tola como os personagens se conhecem e vão se transformando em heróis, de como o filme é mal dirigido e cenas importantes são mal encenadas, etc. Mas por baixo disso tudo havia um espectador entretido, se divertindo com as caras da Rita Repulsa (Elizabeth Banks está ótima e parece ter a melhor arcada dentária pra risadas maléficas) e aguardando com interesse o momento em que aqueles 5 adolescentes se transformariam nos Power Rangers e lutariam contra algum tipo de monstro gigante. Demora quase 1 hora e meia pra isso acontecer, mas o filme entrega o prometido na sequência final, com direito a Megazord e tudo mais. 

Essa aliás é uma das virtudes do filme que provavelmente a maioria dos críticos ignoraria - ele respeita perfeitamente o Princípio da Ascensão (uma das postagens mais importantes que eu ainda não fiz aqui no blog, mas que basicamente diz que os bons filmes reservam o melhor pro final; criam uma linha ascendente onde a energia vai se acumulando ao longo da narrativa, em vez de se manter igual ou ir decaindo como de costume).

Outro ponto positivo é a natureza idealista da transformação dos personagens. Todos os filmes de super-heróis de certa forma falam com esse nosso lado que deseja força, auto-aperfeiçoamento (e magia, é claro), porém hoje em dia a tendência é sempre focar nas fragilidades dos heróis - a armadura do Homem de Ferro tem que ter problemas técnicos, as garras do Wolverine enguiçam e têm que ser puxadas à mão, etc - e isso rouba do espectador a satisfação de ver aquele momento "Popeye pós-espinafre" onde o herói finalmente atinge seu estado de excelência e parece imbatível. 

Claro, o filme não está totalmente livre dos valores irritantes da atualidade: o momento-chave do treinamento que leva os adolescentes a finalmente se transformarem em Power Rangers é uma grande ode ao coletivismo, ao auto-sacrifício - um momento de negação do ego que contradiz a experiência que o filme está tentando provocar no espectador. Ainda assim, há o bastante pra se divertir depois. É um entretenimento bem intencionado, mas que precisaria de mais cérebro pra tirar o "guilty" tão frequentemente associado aos melhores "pleasures".

Power Rangers / Canadá, EUA / 2017 / Dean Israelite

FILMES PARECIDOS: As Tartarugas Ninja: Fora das Sombras (2016) / G.I. Joe - Retaliação (2013)

NOTA: 6.5

quarta-feira, 22 de março de 2017

Horizonte Profundo: Desastre no Golfo

NOTAS DA SESSÃO:

- A apresentação dos personagens tem alguns detalhes interessantes de caracterização - é um pouco menos genérica do que se espera pra esse tipo de filme. Legal a ideia da latinha de Coca-Cola em "erupção" anunciando o que está por vir.

- O maior problema do filme é a falta de uma história humana forte por trás do desastre. O fato de um grande acidente ter ocorrido não é razão o bastante pra se fazer um filme. Se não vira apenas uma reconstituição de telejornal mega-produzida, como se o prazer de ver um acidente em detalhes fosse um fim em si. Quando James Cameron fez o famoso "pitch" pra vender seu conceito de um filme sobre o Titanic pros produtores, ele não disse: "Titanic afunda". Ele disse "Romeu e Julieta no Titanic".

- Visualmente o filme é muito bem feito; as imagens da plataforma são bonitas, os efeitos especiais são ótimos, realmente acreditamos estar nesse lugar testemunhando cada detalhe do evento.

- Apesar da narrativa não ser muito interessante na primeira metade do filme, dos conflitos serem clichês (o empresário ganancioso vilão que coloca dinheiro acima de segurança, etc), o filme não se torna tedioso pois sabemos que os personagens estão sentados em cima de uma bomba que pode explodir a qualquer momento.

- A sequência toda da erupção é bastante tensa e bem feita. Detalhes como o Mark Wahlberg conversando com a mulher pelo computador dão um senso de realismo pro momento, e os efeitos especiais, o som, dão uma dimensão da violência física do que está pra acontecer.

- Outro clichê cansativo é esse da esposa que fica em casa preocupada com o marido e não serve pra mais nada na história. O filme tem os mesmos problemas de Horas Decisivas, aliás parece um remake do mesmo filme (um pouco melhorado).

- Outra coisa que dá preguiça é esse foco no altruísmo do Mark Wahlberg; a ideia de que um verdadeiro herói sempre estará disposto a se sacrificar pra salvar o "próximo" (não alguém que ele ame pessoalmente, mas qualquer um que precise de ajuda). Acho sempre engraçado o fato desses elementos (altruísmo, ataque a empresários gananciosos) estarem presentes em muitos filmes com valores conservadores / republicanos - é como se fosse resultado de culpa, vinda do lado cristão deles.

- O filme termina de forma previsível e continua com a sensação de que foi uma história vazia, apenas um pretexto pra filmar ação.

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CONCLUSÃO: Bem realizado e com alguns momentos tensos, mas sem uma história interessante por trás da ação que dê um sentido maior ao filme.

Deepwater Horizon / Hong Kong, EUA / 2016 / Peter Berg

FILMES PARECIDOS: Sully: O Herói do Rio Hudson (2016) / Horas Decisivas (2016) / Evereste (2015) / Capitão Phillips (2013)

NOTA: 6.0

segunda-feira, 20 de março de 2017

Destino Especial

NOTAS DA SESSÃO:

- O filme estranhamente começa já no segundo ato. Só depois de uns 20 minutos é que o espectador entende o que está acontecendo. Mas pelo menos é um começo intrigante: queremos entender por que os 2 homens raptaram o menino, por que o garoto age como se eles fossem conhecidos, o que ele tem de especial pro governo estar atrás dele, etc.

- A premissa é divertida - a narrativa lembra Contatos Imediatos do Terceiro Grau, porém numa versão "romantismo reprimido". O filme flerta com esse universo Spielbergiano do cinema, porém nega pra plateia alguns dos prazeres mais elementares que esse tipo de filme proporciona (jogou fora todas as surpresas que teríamos tido no primeiro ato, não tenta criar um senso de encantamento pelo sobrenatural, não apresenta heróis muito atraentes e sim personalidades mais comuns, etc). Romantismo Reprimido às vezes funciona mais ou menos como uma pessoa que não sabe contar a piada, mas gosta tanto da piada que decide apenas explicar a sacada pros ouvintes de maneira fria e casual, sem tentar fazer ninguém gargalhar de fato.

- Ainda assim a história é envolvente e consegue entreter moderadamente (há toda uma expectativa pelo "dia do julgamento", a jornada até o local é cheia de ação e momentos interessantes como a queda do satélite, etc), não é como A Chegada que vai mais longe na tentativa de subverter o gênero.

- O personagem do Adam Driver é interessante. Como ele está de fora da situação, nós nos identificamos mais com ele do que com os protagonistas que já estão por dentro de todo o mistério.

- Legal a reviravolta quando o menino é raptado pelo governo. Cria mais tensão na história, justifica a presença do Adam Driver na trama - embora pareça um pouco fácil / rápida demais a maneira como eles escapam do prédio sem ninguém impedi-los.

- SPOILER: O final é movimentado, o filme não foge de cenas de ação, efeitos especiais, etc. Só não é tão satisfatório pois nós não nos identificamos de fato com os protagonistas, talvez pelo filme ter começado da metade sem nos apresentar direito os personagens, suas motivações, conflitos, sonhos, etc. Eles atingem o objetivo, o menino consegue ir embora, mas isso não resulta num grande impacto emocional pro espectador. Ainda assim, há certa satisfação em poder ver o "lado de lá", solucionar o mistério, etc.

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CONCLUSÃO: Tentativa interessante de fazer uma aventura oitentista. Só é um pouco frustrante porque, em comparação com os filmes da época, esse acaba parecendo tímido demais na tentativa de emocionar e entreter a plateia.

Midnight Special / EUA, Grécia / 2016 / Jeff Nichols

FILMES PARECIDOS: A Chegada (2016) / Stranger Things (TV) (2016) / Corrente do Mal (2014) / Super 8 (2011)

NOTA: 6.5

Fome de Poder

NOTAS DA SESSÃO:

- O filme é bem narrado, envolvente, até por contar uma história de sucesso tão extrema e sobre algo tão familiar pra todos nós. Curioso o filme focar na história do Ray Kroc e não na dos irmãos McDonald que realmente criaram o restaurante. Mas os flashbacks mostrando como eles desenvolveram o conceito do McDonald's são fascinantes (a cena na quadra de tênis, etc)! Eles eram verdadeiros cientistas, inventores, inovadores.

- A comparação que o Michael Keaton faz entre o McDonald's e as igrejas é ótima. Apesar dele ser um personagem meio vulgar, ele realmente tem talento pro marketing. Ótima a sequência em que ele está indo atrás de financiamento, e todos se lembram dele da época em que ele estava vendendo produtos medíocres (o que tira toda sua credibilidade).

- Interessante o conflito entre os irmãos McDonald e o Ray Kroc. Os irmãos eram quase artistas, estavam preocupados com qualidade, valores, integridade, não queriam colocar propaganda nos menus, etc. E o Ray Kroc só pensando em expandir o negócio, mesmo às custas da qualidade. É um conflito entre 2 extremos - talvez nenhum dos 2 lados esteja 100% certo sozinho, mas o equilíbrio que surgiu dessa tensão foi o que permitiu o sucesso estrondoso da rede.

- Não fica muito claro como o Ray resolveu o problema do controle de qualidade quando começaram a surgir novos restaurantes. No começo ele estava selecionando os franqueados a dedo, mas e depois?

- O roteiro é bem estruturado. Mantém o interesse mesmo depois do sucesso dos restaurantes, pois o Ray ainda está com problemas financeiros, tem conflitos com os irmãos McDonald, ainda não teve a sacada do mercado imobiliário, etc. É uma aula de empreendedorismo.

- SPOILER: Odioso o Michael Keaton passar a perna nos sócios e colocar o sorvete instantâneo, quebrando o contrato. O personagem vai ficando cada vez mais desprezível e assustador. O filme acaba confirmando a noção que as pessoas têm de que o capitalismo desperta o pior nas pessoas, recompensa a desonestidade, a ganância, a falta de escrúpulos, etc. Isso só não prejudica o filme porque o personagem não é retratado como se fosse um herói; a performance do Michael Keaton não tenta romantizá-lo, etc (mas acho que o filme peca por não exaltar o bastante os irmãos McDonald - eles acabam parecendo meio que 2 losers).

- Legal a noção de que o nome "McDonald's" foi um fator importante pro sucesso do negócio. Mas uma coisa ainda mais básica que o filme não explica é em relação às receitas e ao sabor dos lanches. Dá a impressão que o McDonald's fez sucesso simplesmente pela velocidade do atendimento, pelo novo conceito de fast-food, por ter um nome catchy, etc. Mas e a comida? Eu sempre achei que o grande diferencial do Mc é que eles realmente têm um sabor único, um ingrediente secreto que atrai as pessoas que nem formiga ao açúcar.

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CONCLUSÃO: História de sucesso interessante e bem contada, embora o protagonista seja um tanto desprezível.

The Founder / EUA / 2016 / John Lee Hancock

FILMES PARECIDOS: Joy: O Nome do Sucesso (2015) / Walt nos Bastidores de Mary Poppins (2013) / Jobs (2013) / A Rede Social (2010)

NOTA: 7.3

quinta-feira, 16 de março de 2017

A Bela e a Fera

NOTAS DA SESSÃO:

- A produção é magnífica e me lembra algo que o Walt Disney disse na época em que estava idealizando seus parques - algo que ilustra bem o respeito que ele tinha pelo entretenimento e pelo espectador de todas as idades e classes: "Eu quero que o convidado entre num prédio de 1 milhão de dólares e possa comer um hambúrguer de 1 dólar".

- A sequência musical inicial no vilarejo é ótima, faz a gente lembrar de como eram os musicais de verdade. 

- O elenco está impecável. Emma Watson como Bela foi um acerto total do casting. Ela tem aquela mistura perfeita de beleza, inocência, força e sofisticação que não se vê mais nos personagens Disney. Não vejo 1 toque do que chamo de herói envergonhado ou das outras tendências que vêm contaminando o entretenimento atual. Pra mim é a experiência rara de entrar num filme onde todos os problemas básicos parecem já ter sido tirados do caminho - os problemas de narrativa, de identificação com os personagens, dos valores malignos que se revelam nas entrelinhas - e eu simplesmente pudesse tirar a "armadura" de crítico e deixar ser tocado pela beleza do que está na tela de forma puramente sensorial.

- O romance é interessante e convincente. A gente entende o valor que um traz pra vida do outro, por que eles formam um bom par, e ao mesmo tempo entendemos os obstáculos. 

- A Fera está muito bem... Há uma seriedade genuína e meio assustadora na performance que faz a gente até esquecer que esse é um filme "pra criança". A própria ideia do casal se aproximar por causa de afinidades intelectuais já é um elemento que torna esse conto mais adulto que o normal.

- Eu sempre sinto uma certa "barriga" no roteiro na porção central - algo que já vinha do desenho e do musical. A narrativa dá uma estacionada e a gente apenas tem apenas que ficar esperando os 2 se apaixonarem, o único obstáculo sendo o fato da Fera ainda não ser um homem. Os conflitos criados pra manter a história movimentada não são dos mais envolventes (Gaston amarrar o pai da Bela na floresta, etc).

- Mas isso tudo deixa de importar na cena do baile, que é uma das coisas mais lindas que vi nos últimos anos!

- O Gaston era tão divertido e charmoso no começo do filme. A transformação dele em vilão não é das mais convincentes. Ele não parece o tipo de homem com um complexo de inferioridade tão grande que o faria virar um monstro assassino só por causa de uma rejeição amorosa já esperada.

- SPOILER: O final é lindo (a quase morte da Fera e dos outros personagens, e depois a restauração de tudo). Já sabemos o que vai acontecer, mas o filme cria uma experiência visual tão bonita que queremos saber como irá acontecer. E há detalhes novos o bastante pra dar a sensação de estarmos vendo algo novo (a presença da feiticeira, o "piano" ganhar a forma humana sem dentes por ter cuspido as teclas, as brincadeiras com os personagens gays, etc).

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CONCLUSÃO: Um acerto da Disney e de Bill Condon que dá vida ao desenho de forma exuberante, mantendo o mesmo espírito da produção original.

Beauty and the Beast / EUA / 2017 / Bill Condon

FILMES PARECIDOS: Mogli: O Menino Lobo (2016) / Cinderela (2015)

NOTA: 8.5

segunda-feira, 13 de março de 2017

Silêncio

NOTAS DA SESSÃO:

- Como já se espera do Scorsese, o filme é muito bem realizado tecnicamente, a fotografia e as locações são muito bonitas, os atores estão bem, porém a história não é das mais interessantes. O grande problema aqui é que o filme assume que o espectador se importa por fé, religião, em particular pelo cristianismo, e portanto pelos dramas dos protagonistas. Mas pra quem não é religioso, o filme é sobre um conflito sem sentido e tedioso. A história não é contada de maneira universal, para todo tipo de público.

- O protagonista não tem nada de admirável além da fidelidade dele aos valores cristãos - mas fidelidade não é uma virtude em si, ela depende da pergunta "fidelidade a que?". O Andrew Garfield só vai ser admirável pro espectador cristão - os outros ficarão o filme todo querendo que ele deixe de ser fiel e salve a própria vida. Será difícil pro espectador não religioso simpatizar por uma crença que glamourize o martírio, a fé cega, o sofrimento, que diga que auto-sacrifício é uma virtude - e uma virtude maior ainda se for auto-sacrifício em nome dos miseráveis e corruptos, etc.

- A discussão ética parece tola pra quem está de fora. Por exemplo: o personagem se sente culpado por não conseguir amar os torturadores (assim como Jesus manda). Pra qualquer não religioso, é claro que ele não deveria amá-los! E qual o problema de pisar na imagem de Jesus? É apenas um pedaço de matéria. Seria apenas um ato físico sem verdadeiro significado. Os vilões estão forçando eles a fazerem isso. Se eles não pisarem, serão mortos! Será que o cristianismo diz que, numa situação dessa, o correto é desobedecer os criminosos e ser assassinado? Só isso já deveria ser motivo o bastante pra eles questionarem a religião.

- A narrativa é monótona e pouco prazerosa. O filme tem 2h40 e basicamente é a repetição de uma mesma cena: um cristão em conflito entre "renunciar" sua fé ou ser morto pelos japoneses. Os protagonistas não têm nenhum objetivo interessante, nenhum plano, são apenas vítimas que ficam sofrendo e sendo agredidas pelos vilões.

- Intelectualmente o filme é raso. Os debates que tentam provar a superioridade do cristianismo não são muito lógicos ou bem argumentados.

- É bem questionável o desejo dos protagonistas de disseminarem sua fé num outro país que não os quer lá. Claro que os japoneses estão errados em matar os cristãos, mas também não dá pra simpatizar muito pelos "mocinhos". O filme mostra um conflito entre 2 grupos duvidoso - você não pode defender nenhum dos lados 100%.

- SPOILER: O final é uma celebração da fé cega. Apesar do Andrew Garfield nunca ter tido 1 sinal de Deus, de ter vivido uma vida miserável, de saber das incoerências da religião e da impraticabilidade de muitos de seus ideais, o filme parece achar nobre o fato dele ignorar isso tudo e morrer agarrado ao crucifixo.

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CONCLUSÃO: Produção bem feita, mas com uma narrativa chata que não se esforça pra se comunicar com os não religiosos.

Silence / EUA, Taiwan, México / 2016 / Martin Scorsese

FILMES PARECIDOS: Até o Último Homem (2016) / Invencível (2014) / 12 Anos de Escravidão (2013) / A Conquista da Honra (2006) / Além da Linha Vermelha (1998)

NOTA: 5.0