sábado, 16 de dezembro de 2017

Novos Termos

Daqui pra frente pretendo parar de usar termos criados pela Ayn Rand como "Romantismo", "Naturalismo" ou "Universo Malevolente" pra descrever os filmes, e tentar usar expressões mais universais ou até criar minha própria terminologia. O que eu chamava de Romantismo, por exemplo, passarei a chamar de Idealismo (a postagem Romantismo vs. Naturalismo agora virou Idealismo vs. Realismo, e Romantismo Reprimido virou Idealismo Reprimido).

De modo geral minhas ideias são compatíveis com as de Rand, porém existem diferenças o suficiente pra que se torne problemático e limitador pra mim usar os termos dela, além disso poder gerar certas confusões em quem lê. Eu não quero a cada nova postagem ter que ficar relembrando as pessoas de que, apesar de eu estar usando termos de Rand, minhas ideias não representam necessariamente o que ela pensava. É mais fácil eu usar termos diferentes, e apenas dar um crédito geral pra ela como uma de minhas inspirações.

A principal diferença entre a minha "arte ideal" e a de Rand talvez seja o fato do meu foco aqui ser muito mais em entretenimento do que naquilo que Rand chamava de "arte séria". Embora ela tivesse simpatia por coisas como James Bond, etc, ela considerava arte popular uma forma inferior de arte, algo menos importante. Pra ela, as grandes obras de arte precisavam ser mais filosóficas, intelectuais, ter algo explícito a dizer sobre ética, natureza humana, política, etc. Ela não tinha grande respeito por humor, por exemplo, não considerava música contemporânea "música" de fato, não simpatizava por fantasia, abominava o gênero horror. E eu já adoro todas essas coisas, então não é certo eu falar que o meu referencial é o mesmo que o dela.

Ainda não decidi o que vai passar a chamar o que (nem são tantas coisas assim além dessas que citei), mas o importante é deixar mais claro que o que eu falo aqui não é sinônimo da filosofia de Rand e não deve ser avaliado em termos do quão fiel é ao que ela disse.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Extraordinário / Logan Lucky / Saving Capitalism

Extraordinário (Wonder / EUA, Hong Kong / 2017 / Stephen Chbosky)

É o "feel-good movie" do ano até agora. Pensei que pudesse cair na categoria Herói Envergonhado, mas o personagem de Jacob Tremblay (em mais uma performance fantástica) é altamente carismático, admirável, e a intenção do filme é simplesmente mostrar que caráter e competência no fim das contas falam mais alto que aparências (assim como Estrelas Além do Tempo fez ano passado). Julia Roberts está em um de seus melhores momentos dos últimos 15 anos.

NOTA: 8.0


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Logan Lucky: Roubo em Família (Logan Lucky / EUA / 2017 / Steven Soderbergh)

Filme de assalto onde devemos torcer pelos bandidos sem que o filme dê nenhuma justificativa pra isso (exceto o fato dos atores serem simpáticos e as vítimas terem "dinheiro demais"). Não é bem uma comédia, e sim um "thriller cínico", do tipo que tenta nos envolver usando os recursos clássicos dos heist movies (celebrar a engenhosidade dos "heróis", criar suspense), ao mesmo tempo em que diz que nada deve ser levado a sério, pois os protagonistas são ridículos, imorais, etc. É um exemplo de Idealismo Reprimido, e o tipo de filme que fica sempre vários passos à nossa frente, jogando surpresa após surpresa pra tentar parecer mais esperto que o espectador.

NOTA: 4.5


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Saving Capitalism (EUA / 2017 / Jacob Kornbluth)

Mais um documentário anti-capitalista da Netflix (mas que não se anuncia como anti-capitalista explicitamente, se diz ser apenas a favor de um capitalismo modificado, mais regulado, etc). O filme até expõe algumas coisas interessantes - a ideia de que a esquerda e a direita no fundo têm o mesmo inimigo (os poderosos que saqueiam a população inteira através do governo, etc). Mas daí, em vez de concluir que o governo não deveria controlar a economia, a conclusão é que ele deve crescer ainda mais e apenas fiscalizar melhor esse parasitismo.

NOTA: 3.5

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Pessimismo


Um artista pessimista ou com um visão de mundo maligna é aquele que transmite em suas obras as crenças de que o universo é hostil à vida humana, de que somos impotentes, não temos como conquistar aquilo que desejamos na Terra, que a felicidade é inatingível, que o homem é mau por natureza, que ele é determinado por forças externas e não tem livre arbítrio, que a essência da vida é sofrimento, conflito, desentendimento, frustração, sacrifício, etc.

Já disse aqui em diversas postagens por que eu prefiro artistas com uma visão de mundo positiva, mas ainda não tentei argumentar por que eu acho que a ideia de "universo trágico" está de fato errada e deve ser rejeitada na arte.

Pra começar, é preciso constatar que o universo não é alguém e não tem uma intenção própria; ele não é nem maligno nem bondoso, e sim indiferente à vida. Se você cresceu acreditando num Deus benevolente que está o tempo todo cuidando dos seus interesses, a noção de que o universo na verdade é indiferente ao homem pode soar como pessimista, mas não deveria, pois a expectativa original é que deveria ser questionada. A pergunta a ser feita na verdade é: o homem é equipado para viver na Terra e ser feliz? E aqui podemos começar a discutir a questão.

Meu primeiro argumento contra os pessimistas é a constatação de que, se o universo fosse de fato hostil à vida, ela simplesmente não existiria aqui. Se a vida surgiu na Terra há bilhões de anos e persistiu até hoje, isso já é uma indicação de que o planeta é favorável a esse tipo de fenômeno. Claro, nos primeiros estágios, a vida na Terra não deveria ser nada "fácil", pois os organismos ainda não tinham tido tempo pra se adaptar perfeitamente às condições do planeta. Por outro lado, eles também não tinham uma consciência desenvolvida nem a capacidade de sofrer além daquilo que podiam suportar, então mesmo nesse estágio a vida não deveria ser "trágica".

O que nos leva ao argumento da evolução: depois de bilhões de anos vivendo nesse planeta e nos moldando a ele, hoje em dia podemos dizer que já somos altamente compatíveis com o mundo ao nosso redor. Pra perceber isso, basta começar a refletir sobre coisas triviais... Por que, por exemplo, o Sol não é 5 vezes mais brilhante, a ponto de nos deixar cegos se saíssemos de casa durante o dia? Bem, porque nossa visão se desenvolveu levando em conta a existência do Sol, portanto se ele fosse 5 vezes mais brilhante, nós teríamos hoje em dia um órgão diferente, que toleraria a luz do dia sem dificuldades. Isso pode ser aplicado a todos os aspectos da vida. Claro, você pode se perguntar: por que parir um filho é tão doloroso? Por que existem doenças? Seriam essas dificuldades necessárias? A resposta é que existem sim dificuldades e aspectos em que a vida poderia ser melhor para nós, mas apenas dentro de um certo limite. Todos esses incômodos precisam ser relativamente pequenos - os aspectos positivos da vida precisam necessariamente compensar os negativos na maioria dos casos, pra explicar o fato de que, apesar de tudo, ainda estamos aqui.

Há também o argumento do livre arbítrio: a partir do momento que o homem desenvolveu uma faculdade racional, passou a ter controle sobre seus atos, procriar deixou de ser um instinto incontrolável, e sim uma decisão baseada em seus desejos, convicções, planos de vida, etc. Portanto, se a felicidade fosse de fato inatingível, se tudo o que víssemos ao nosso redor fosse miséria, dor, seria lógico concluir que colocar uma nova vida no mundo seria visto como um ato de crueldade. O simples fato de estarmos aqui até hoje é uma prova de que, ao longo dos milênios, a vida foi positiva o bastante para os nossos ancestrais pra que as eles achassem que gerar filhos fosse algo bonito, justo, trouxesse esperança, felicidade, etc.

Mais uma observação sobre a evolução: imagine 2 raças de primatas há milhões de anos atrás... Uma biologicamente condenada a sofrer, a ter uma existência terrível, a ter diversos tipos de dores insuportáveis, a viver em terror, etc... E uma outra raça que vive mais em harmonia com o mundo e tem uma relação positiva com a vida. Qual das 2 teria mais probabilidade de se procriar, florescer e estar aqui até hoje?

Claro, apesar de tudo, ainda existem inúmeros indivíduos infelizes, casos trágicos, pessoas para as quais a vida parece não valer a pena. A questão a ser levantada aqui é: o que essas pessoas desejam ao produzir arte? E o que os espectadores desejam ao consumir esse tipo de arte?

O que me leva ao argumento final, que é o da contradição.

Como disse na postagem O Que Nos Atrai à Arte?, a arte é importante para o homem porque ela "nos oferece um escape pare um universo compreensível, seguro, benevolente e com significado; um universo adaptado para o nosso bem estar e nossa felicidade. Não digo "escape" no sentido de covardia, auto-enganação. Mas no mesmo sentido de que uma casa é um "escape" do frio, do desconforto, de predadores e ameaças externas - algo que nos dá uma estrutura favorável à vida (que não é automaticamente garantida pela natureza)."

Sim, a vida é feita de positivos e negativos, e existe sempre a possibilidade de dor, perda, morte, etc. De fato, se não existisse o negativo, conceitos como felicidade perderiam totalmente o sentido. Isso não significa que a vida é trágica, e nem que nós devemos vivenciar uma dose equivalente de positivos e negativos no nosso dia a dia pra podermos valorizar o positivo. Basta o conhecimento inevitável de que o negativo é uma possibilidade para que possamos desejar e aproveitar o positivo. Naturalmente, o ser humano deseja ficar no lado positivo da vida o máximo que ele puder - e a arte é uma das ferramentas mais poderosas pra gerar essa experiência de viver um universo positivo, favorável à vida.

Do ponto de vista do artista, a contradição é outra. Como disse na postagem Filmes Bem vs. Mal Intencionados, "todo artista que realiza uma obra e a expõe para o público está, admitindo ele ou não, querendo expressar seu próprio valor, e ao mesmo tempo querendo a aprovação do espectador; agradar algum público."

Ou seja, tanto ao criar arte quanto ao consumi-la, nós já estamos automaticamente rejeitando a premissa do "universo trágico" em algum nível. O artista por estar exercitando suas virtudes, produzindo algo, desejando se expressar, se comunicar com o público, ser reconhecido e valorizado, ter sucesso, o que é uma confissão de que ele tem esperança de extrair algo de positivo desse universo. E o espectador por estar admitindo que ele acha prazeroso contemplar uma realidade simplificada, reorganizada de acordo com os valores de outra pessoa, que ele deseja fugir da monotonia de sua rotina pra vivenciar algo estimulante criado por um artista, o que também prova que ele espera extrair algo do universo e de sua existência.

Se alguém estivesse 100% comprometido com a ideia de um universo maligno, hostil à vida, ele cometeria suicídio muito antes de realizar uma obra de arte. E mesmo que realizasse, sua completa falta de desejo de se comunicar, de exercitar suas virtudes, de ser reconhecido, de criar beleza, produziria algo tão repulsivo e sem valor que nem os espectadores mais pessimistas iriam querer consumir. Os pessimistas autênticos são aqueles que já pararam de buscar valores na vida, de criar qualquer coisa, e estão muito longe das galerias de arte e dos tapetes vermelhos.

Portanto obras pessimistas, com uma visão de mundo trágica, só costumam existir na medida em que elas são contraditórias, inconsistentes. Pois por um lado, o artista está te dizendo que a vida não vale a pena, que o ser humano é imoral, medíocre, impotente, etc. Por outro, ele está perseguindo seu sucesso pessoal ao criar a obra, espera que o espectador o admire, seja tocado e inspirado pelo que ele criou, etc. E o espectador que diz gostar desse tipo de obra, só a consome porque ele extrai algum tipo de prazer distorcido dela. Enquanto a mensagem da obra pode ser que a vida é uma tragédia, tem que haver algo na obra que na prática esteja provocando sentimentos positivos no espectador - ele está apenas fingindo aceitar a noção de que o universo é maligno, enquanto na realidade está tendo seu tipo particular de otimismo reafirmado (a ideia de que a vida é trágica pode trazer pra ele um senso momentâneo de conforto, por exemplo, por sugerir que ele não tem culpa por suas frustrações pessoais, que ele é apenas vítima de uma realidade injusta, etc - o que eu não considero uma função saudável da arte).

Ou então a pessoa pode associar pessimismo a virtude, e buscar numa visão trágica de existência um falso senso de autoestima (por achar que pessimismo é sinônimo de sofisticação, intelectualidade, maturidade, masculinidade, etc) - como alguém que enche o corpo de piercings, tatuagens horríveis, afia os dentes, tenta se parecer com um verdadeiro monstro, mas que na realidade é tão vaidoso e desejoso de aceitação quanto alguém que se enche de plásticas pra ficar sexy - apenas menos honesto.

Ou então a pessoa está apenas buscando atenção, como a criança que força o choro pois sabe que assim conseguirá o carinho dos pais.

Quer o artista seja realmente pessimista ou seja apenas um farsante buscando prestígio, atenção, tentando parecer cool, o fato é que uma obra de arte pessimista só pode cair nessas 2 categorias: ou ela é parcialmente desonesta, imatura, inconsistente e está no fundo querendo inspirar algo de positivo no espectador (o que é a grande maioria dos casos), ou ela é de fato maligna, incompatível com a felicidade humana, e não deve ser consumida.

Já com uma visão de mundo positiva, não precisa haver contradição alguma. A obra pode estar em plena harmonia com as verdadeiras intenções do artista e com as necessidades do público.

Isso quer dizer que só há lugar pra unicórnios e arco-íris na arte? Óbvio que não. Muitos artistas abordam temas negativos mas de maneira honesta, bem intencionada, extraindo algo de positivo do material, sem negar suas reais intenções nem serem mal intencionados em relação ao espectador. Você pode mostrar indivíduos maus sem glamourizar o mal em si, nem sugerir que o homem é perverso por natureza. Pode mostrar tragédias específicas sem sugerir que a vida como um todo é uma tragédia, que a felicidade é inalcançável. Pode criticar um aspecto da cultura, uma parcela da população, mostrar uma sociedade decadente, mas sem sugerir que não há nada que se possa fazer a respeito disso. Pode retratar o negativo, mas sugerir uma saída, uma alternativa, proporcionando uma experiência enriquecedora para o público.

Você pode até dizer certas coisas pessimistas de forma explícita e mesmo assim "se safar", desde que em sua atitude você esteja comunicando o oposto (já disse aqui algumas vezes que cineastas como Woody Allen e Lars von Trier às vezes caem nessa categoria - o pessimismo declarado deles acaba sendo anulado pelo fato de que eles criaram um enorme entretenimento para o público, produziram uma obra de grande beleza estética, vitalidade, etc - entre o que uma pessoa diz e o que ela de fato faz, sempre dê mais atenção para o que ela faz).

Você pode estar se perguntando "se eu não acho que nem o Lars von Trier transmite uma visão de mundo trágica de fato, quem então poderá transmitir?". Descobrir as verdadeiras intenções por trás de uma obra nem sempre é tão simples e óbvio. Todo o contexto tem que ser levado em conta. Um toque pessimista num filme da Disney, por exemplo, pode ser muito mais deprimente e destrutivo do que 2 horas do Woody Allen tendo crises existenciais. Se um motorista estressado te mostra o dedo do meio na rua, esse ato tem um peso. Agora se você está no Magic Kingdom e o Mickey faz isso, a mesma atitude tem um outro impacto. No mundo da música isso é ainda mais sutil - eu diria que a Adele, por exemplo, tem uma visão de mundo mais positiva do que a P!nk, embora ambas costumem falar sobre problemas amorosos, desilusões, etc. Enquanto a Adele mantém certa inocência em sua desilusão, a expectativa de ainda viver uma relação harmoniosa no futuro, ser plenamente feliz (você poderia imaginá-la numa comédia romântica onde ela sofre o filme todo mas no fim encontra o príncipe encantado), a P!nk já parece ter abandonado qualquer expectativa de uma vida feliz, e se conformado com o fato de que relacionamentos são feitos de conflitos, desentendimentos, e não há muito o que possamos fazer a respeito disso (o que não significa que você não possa admirá-la como performer, etc).

Não há nada cool, inteligente ou maduro em exibir um pessimismo autêntico na arte. Em geral, isso prova apenas a imaturidade do artista, falta de auto-conhecimento, desonestidade sobre suas reais intenções, ou então revela um espírito machucado, deprimido, que deveria ser remediado em vez de emoldurado e celebrado.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Assassinato no Expresso do Oriente

NOTAS DA SESSÃO

- A melhor coisa do filme é a introdução do personagem do Poirot, antes da viagem de trem - a maneira como sua personalidade vai sendo revelada, seus valores (a noção de que ele desvenda os crimes melhor que qualquer pessoa por ser extremamente idealista, portanto imperfeições e incoerências aparecem pra ele de forma mais gritante do que pros outros, etc).

- Os diálogos têm um brilho e uma inteligência que não se vê em textos modernos - o que provavelmente é um mérito da Agatha Christie (eu nunca li o livro).

- Toda a produção é de ótimo nível: a trilha sonora, a fotografia, o elenco, etc.

- Excelente o diálogo quando o Poirot se recusa a trabalhar para o Johnny Depp. Demonstra a integridade do protagonista de maneira inesperada e divertida.

- O ambiente em que o filme se passa é bastante agradável e o "set up" da história é muito bom (todo o conceito de um mistério de assassinato num trem luxuoso, etc).

- O grande problema do filme é o problema da maioria dos "whodunits" - algo que Hitchcock apontou: todo o interesse do filme se concentra no final. Depois da introdução, a única coisa que nos interessa é descobrir quem é o assassino (e se você já sabe o final por conhecer a história, o filme se torna um tanto chato). O filme não é sobre a jornada, sobre o processo, mas sobre a revelação final. A investigação em si não é prazerosa. Os melhores filmes, mesmo que você já saiba o final, ainda são um prazer de ver e rever. Esse aqui é apenas um quebra-cabeça, mas um não muito envolvente, pois nós não conseguimos acompanhar a lógica do Poirot, afinal ele tem uma inteligência sobrenatural que não está ao nosso alcance. Ele vai desvendando o crime através de associações absurdas que a plateia tem que aceitar passivamente. Então nós não temos o prazer de ir ligando os pontos, antecipando os eventos, confirmando os fatos, entendendo tudo com clareza, etc.

- Há outros problemas também relacionados ao Poirot. Além dele ter virtudes muito inacreditáveis, há o fato dele ser apresentado como uma figura caricata, quase cômica, o que o impede se se tornar um herói realmente admirável pro público. Além disso, há o detalhe de que, nessa história em particular (SPOILER) ele está sendo feito de bobo pelos passageiros, o que também diminui sua estatura (tornando os criminosos os mais espertos).

- SPOILER: Mesmo pra quem não conhece a história da Agatha Christie, em certo momento já começa a ficar óbvio que todos os passageiros estão por trás do assassinato. É até falso o Poirot não perceber isso antes (considerando a inteligência dele)... Afinal, seria uma coincidência absurda TODAS as pessoas ali terem algum motivo pra matar o Johnny Depp (ou sequer saber quem ele é). Uma coisa é uma história como O Caso dos 10 Negrinhos, onde são vários conhecidos numa casa e 1 pessoa morre. Aí faz sentido todo mundo ter algum tipo de relação com a vítima. Agora num trem, onde deveriam ser todos estranhos... O simples fato de todo mundo ter algum motivo pra matar o Johnny Depp já deveria fazer o Poirot matar a charada.

- SPOILER: A cena em que o Poirot soluciona o mistério é chatíssima. Ele apenas para em frente a todos e fala qual a explicação. Não é algo revelado de maneira dramática, visual, que surpreende o público. E a única graça é a "curiosidade" de que não era 1 assassino, e sim 12. Mas o conteúdo em si do crime não é dramático... Não há uma revelação surpreendente sobre a motivação por trás do crime, etc. Me parece até compreensível eles terem se vingado de um cara que cometeu um crime tão horrendo. Nem o Poirot nem nós ficamos espantados com a atitude dos envolvidos.

- Depois que o mistério é solucionado o filme demora demais pra acabar, começa a criar um tom épico de despedida, o problema é que a história não tinha esse tipo de carga dramática, então fica soando pretensioso (a própria canção dos créditos finais é extremamente inadequada).

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CONCLUSÃO: Muito bem produzido, com um ótimo começo, mas a história perde a força depois que começa a investigação.

Murder on the Orient Express / EUA, Malta / 2017 / Kenneth Branagh

FILMES PARECIDOS: Aliados (2016) / Ponte dos Espiões (2015)

NOTA: 6.5

domingo, 26 de novembro de 2017

Boneco de Neve / O Livro de Henry

Sempre que um filme que tem tudo pra ser um sucesso subitamente recebe péssimas críticas e é mal recebido pelo público, eu fico ainda mais interessado em assistí-lo pra entender o que é que deu errado. Nesses casos, se o filme vai bem até a primeira meia hora, eu já sei que o problema estará em eventos específicos na história: um final frustrante, uma morte indesejada, uma reviravolta não convincente, etc. Será um problema de conteúdo. Mas no caso de Boneco de Neve, em 2 minutos de filme você já consegue perceber o que há de errado. Não é nada relativo à história, a algum acontecimento - e sim à maneira como a história é contada, à estética do filme como um todo - é um problema de estilo. Não estou dizendo que a história em si é excelente, e só foi arruinada pela direção... Se o filme tivesse sido dirigido de uma maneira mais convencional, ainda seria uma história de serial-killer tola, cheia de psicologia barata, reviravoltas forçadas, uma narrativa confusa, etc. Mas ainda estaria dentro de algo aceitável e familiar pro público (Garota Exemplar também tinha coisas forçadas, mas funcionava como entretenimento e foi um sucesso mesmo assim). Mas aqui, o cineasta estava tão preocupado em provar o quanto ele é autoral, o quanto estilo próprio ele tem, que ele acabou destruindo o filme... Tudo é forçado pra parecer bizarro, subversivo, onírico: todos os personagens agem de maneira estranha, irracional, a edição é imprevisível, a trilha sonora é inadequada - e isso dentro de uma história e um gênero de filme que não pedem bizarrices... Pelo contrário... O elenco estelar, a fotografia bonita, a trama policial, tudo sugere um suspense tradicional, elegante, uma narrativa clara... Mas eles entregaram o filme nas mãos de alguém que aparentemente odeia esse tipo de história, e aceitou o trabalho apenas como uma oportunidade pra subverter o material, inserindo seus toques niilistas na produção (é um daqueles casos onde eles deram uma produção Hollywoodiana pra um estrangeiro alternativo dirigir, na expectativa de tornar o filme mais "artístico"). O espectador compra o ingresso esperando um tipo de experiência, mas quando começa o filme, ele percebe que foi enganado pelos pôsteres, trailers, etc. Eu gosto de cineastas diferentes, com estilo próprio, mas apenas quando isso não arruina os pilares que sustentam história: quando ainda é possível simpatizar e se identificar com os protagonistas, quando há uma trama envolvente, compreensível, etc. No caso de Boneco de Neve, o cineasta coloca o estilo acima disso tudo, não se importando se a plateia irá conseguir se importar por alguém na tela, se o universo do filme será convincente, atraente, etc.

O Livro de Henry já é um caso diferente. Não foi o diretor que arruinou o filme, e sim o material original que já era bizarro (quando o filme saiu, muitos ficaram preocupados com o fato do diretor Colin Trevorrow ter sido o escolhido pra dirigir o próximo Star Wars, e não duvido nada que o fato dele ter sido demitido tenha a ver com o fracasso de O Livro de Henry). Mas não acho que Trevorrow seja um mau diretor - se fosse uma história minimamente sensata, ele teria feito um ótimo trabalho: o elenco é muito bem dirigido, a produção é bem feita, caprichada em diversos aspectos, a narrativa é clara - superficialmente parece um filme digno de prêmios. O problema é que, após um começo promissor, a história começa a apresentar uma série de reviravoltas insanas - a pior delas sendo a morte de um personagem central no meio do filme, deixando o espectador simplesmente estarrecido, sem saber mais o que desejar daí pra frente. O artista pretensioso nesse caso foi o roteirista, não o diretor. Me parece um erro mais inocente que o de Boneco de Neve, onde havia uma atitude destrutiva, uma intenção de corromper o gênero... Aqui, parece mais uma combinação de ambição exagerada com imaturidade e falta de experiência (o roteirista é estreante e escreveu o filme há 20 anos - então tem cara de ser um daqueles "passion projects" fadados ao fracasso). Ele quis inserir tanto no filme, ser tão impactante, misturar tantos conceitos, ser tão diferente de tudo já feito, que acabou criando uma aberração.

O elemento em comum nos 2 casos é uma falta de respeito pelos fundamentos do cinema... Um desejo tão grande de inovar, de fugir do convencional, que o artista acaba jogando fora não só os clichês e as regras superficiais do gênero, como também os ingredientes básicos que fazem um filme funcionar.

Ainda assim, acho preferível ver desastres cinematográficos como esses, causados por excesso de ambição e energia criativa, do que coisas como continuações de Transformers, onde o problema é apenas convencionalidade, falta de talento, etc.

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Boneco de Neve (The Snowman / Reino Unido, EUA, Suécia / 2017 / Tomas Alfredson)
NOTA: 2.0

O Livro de Henry (The Book of Henry / EUA / 2017 / Colin Trevorrow)
NOTA: 3.5

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Liga da Justiça

NOTAS DA SESSÃO:

- Embora não seja tão estiloso quanto outros filmes do Zack Snyder, há algumas imagens chamativas que tornam o filme menos chato visualmente do que de costume (o que não é equivalente a uma "boa fotografia").

- A narrativa é um pouco dispersa no começo, fica pulando de um núcleo pro outro sem parecer estar desenvolvendo uma história única, bem costurada (temos uma cena de ação individual do Batman, depois uma da Mulher Maravilha, do Aquaman, etc). A ausência de um protagonista com um objetivo pessoal também torna a história menos interessante (essa coisa anti-individualista de um trabalho em equipe em prol do bem da humanidade, etc). Vai ser a velha estrutura de um time de heróis sendo formado pra um grande duelo final contra um vilão genérico que quer destruir o mundo. Pra mim o que mais prende a atenção no filme não é nada disso, e sim a impressão de que o Superman (dado como morto) irá ressurgir em algum momento.


- A ação, como sempre, é totalmente divorciada de realismo, objetividade. São poderes indefiníveis lutando contra outros poderes indefiníveis, de forma que nunca sabemos quais são os riscos, nem o que é preciso pra derrotar o vilão... Por que 6 heróis? Por que não 85? Será que 2 não dariam conta? Se o Batman é humano, como ele pode lutar num nível parecido de seres sobre-humanos? Por que a Mulher Maravilha consegue se mover mais rápido do que balas, mas ao mesmo tempo não consegue pegar aquela espada caindo em velocidade normal, e precisa da ajuda do The Flash pra alcançá-la antes de atingir o chão?

- O vilão já tinha 2 das 3 caixas com ele. Os heróis se dão conta de que 1 ainda está perdida. Você imaginaria que um trecho importante do roteiro seria dedicado à busca por esse último artefato, mas o filme resolve o problema da maneira mais preguiçosa possível, mostrando o Victor caindo do céu já com ela na mão no segundo seguinte: "Aqui está a caixa que faltava!".

- SPOILER: A técnica pra ressuscitar o Superman é meio boba - mergulhar ele num líquido estranho e dar um super-choque, etc.

- SPOILER: O reencontro do Clark com a mãe depois é um instante bonito.

- Falta uma referência maior do mundo real no filme. Tudo o que os heróis querem é proteger a Terra, os humanos, mas o filme mostra muito pouco da cidade, das pessoas normais como o espectador, pra gente ter uma dimensão do que está em jogo. Aquela cena de ação próxima à usina, por exemplo, há tantos efeitos especiais, a imagem é tão artificial, que eles poderiam muito bem estar num outro planeta.

- SPOILER: Continuo achando que a única coisa que torna a narrativa minimamente interessante é a "carta na manga" do Superman. O filme sabe que o espectador deseja vê-lo em ação, e fica segurando isso até o último momento, quando ele aparece pra derrotar o vilão (o que é um recurso válido). O problema é que todo o resto da história é bem fraco.

- SPOILER: A vitória no fim acaba parecendo fácil, pouco triunfante (até porque o vilão é totalmente caricato, sem personalidade). O Superman congela o machado dele, assim eles conseguem estilhaçá-lo (por que não fazer isso com o próprio monstro de uma vez?), e daí ele é devorado pelos próprios "capangas" (a ideia de que eles são bichos irracionais que devoram qualquer coisa que sinta medo, inclusive o próprio chefe, não é muito bem estabelecida).

- SPOILER: No fim o filme tenta colocar a Amy Adams pra fazer uma narração épica, mas o texto não é muito bom, e termina num tom inconclusivo. No começo, o filme mostra o mundo em luto com a morte do Superman, e isso cria a expectativa pelo momento em que ele se apresentará vivo (o que seria um final satisfatório), mas isso não acontece.

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CONCLUSÃO: Mais um passatempo mediano lucrando em cima do apelo popular automático dos heróis - mas pelo menos é um filme bem intencionado, que não tenta subverter a imagem dos heróis, não usa humor de forma inapropriada como outros filmes, etc.

Justice League / EUA / 2017 / Zack Snyder

FILMES PARECIDOS: Thor: Ragnarok (2017) / Batman vs Superman: A Origem da Justiça (2016)

NOTA: 5.0

domingo, 12 de novembro de 2017

Lady Macbeth

NOTAS DA SESSÃO:

- O filme não apresenta direito a protagonista. Não sabemos nada sobre ela. No começo ela serve apenas pra posar de vítima e expor a maldade dos homens, agradar o público "feminista", etc. E o retrato dos homens é caricato, exagerado. Não há um esforço pra incluir homens bons na história em contraste com os maus, ou explicar o que motiva cada personagem em particular a ser cruel. É como se eles fossem maus simplesmente por serem do sexo masculino.

- A protagonista é maliciosa, cheia de ódio e ressentimento por trás dessa aparência plácida, o que torna a situação ainda mais desagradável (pois temos que torcer por ela apesar de ser uma figura extremamente antipática).

- A narrativa tem um toque meio naturalista, não-objetivo - cenas começam pela metade, terminam antes do fim, há trechos silenciosos onde nada acontece... O cineasta não se esforça pra criar uma narrativa estruturada, lógica - fica apenas mostrando cenas aleatórias onde mulheres são vítimas de homens. A mensagem política é colocada acima de considerações cinematográficas.

- É tudo muito artificial quando a Katherine é estuprada pelo empregado. Ele tinha um desejo tão incontrolável assim por ela? Correria o risco todo de ser pego? E a reação dela também é totalmente artificial, além de torná-la mais antipática. Não entendemos por que ela gostou de ser estuprada. Não há contexto algum pra esse comportamento. Por que ser abusada sexualmente pelo marido era horrível, mas ser estuprada pelo empregado é bom? E isso bagunça o tema inicial do filme que era a opressão das mulheres... A partir de agora não vemos mais a Katherine como vítima. Qual o propósito da história então?

- Katherine se torna uma pessoa completamente imoral. Não só por estar se relacionando com um estuprador, mas também pelo caráter que ela demonstra quando, por exemplo, deixa a empregada levar a culpa pela bebida desaparecida (quando foi ela que bebeu tudo), ser humilhada pelo velho, etc.

- SPOILER: Além do conteúdo da história ser ruim, é tudo meio mal contado. Como o velho descobriu que a Katherine está tendo um caso com o empregado? Como a Katherine mata o velho depois? Ela o envenenou? Já tinha planejado tudo? Não vimos nada disso! Ela o matou simplesmente por ele ter prendido o estuprador? Ela vai correr o risco do marido descobrir que ela assassinou o pai dele (afinal a empregada viu tudo)? O diretor parece querer apenas chocar, mostrar a protagonista fazendo coisas monstruosas, como se isso em si fosse cool, sem nenhuma preocupação por coerência, clareza, realismo psicológico, etc.

- SPOILER: Os personagens são todos irreais, inconsistentes. Katherine diz que não pode mais viver sem o amante, quando não vimos os dois fazendo nada além de sexo algumas vezes. Depois quando o marido volta de viagem, não faz o menor sentido ela começar a rir, tirar o amante do armário, zombar da situação na cara dele. Ninguém age assim quando sua vida está em risco. Não faz sentido também o empregado ficar perturbado/culpado quando morre o marido... Primeiro porque foi em auto-defesa. E além disso, esse empregado desde o começo é um estuprador violento sem nenhum senso de ética. De onde surgiram esses valores agora? O filme é apenas um conflito mal elaborado entre pessoas odiosas (depois chega aquela mulher detestável também pra morar na casa com a criança, trazer mais conflito, etc).

- SPOILER: O final todo é uma bobagem. Ela assassinar o garotinho sufocado (ninguém percebe que ela já matou 3 pessoas na casa?). Ela e o amante não podiam simplesmente fugir, irem viver num outro lugar? Ela precisa tanto assim do dinheiro? Não fica claro o tamanho da ameaça, qual a motivação por trás de tudo - então essa matança parece sem sentido, forçada, só porque o cineasta gosta de glamourizar a maldade. E Katherine não é uma vilã carismática como nos filmes da Bette Davis, ou vilãs de novela, etc... Nesses casos, as vilãs eram glamourosas, inteligentes, mas tinham uma "falha trágica" bem estabelecida (ganância, etc). Tínhamos um senso de que o filme era explicitamente contra os valores da vilã (apesar dela ter elementos atraentes), e a favor dos valores dos personagens inocentes. Mas aqui, nem existem esses personagens inocentes pra termos um referencial do positivo. São todos imorais... E o fato da Katherine começar a história como mocinha, vítima, deixa meio ambíguo se devemos compreendê-la ou condená-la. A linha entre bem e mal fica borrada, algo que não acontece nos exemplos que citei.

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CONCLUSÃO: O elemento sensacionalista torna o filme ligeiramente divertido de assistir, mas no fim é uma história malevolente e mal escrita (tanto o diretor quanto a roteirista são estreantes em longa, o que é geralmente um mau presságio).

Lady Macbeth / Reino Unido / 2016 / William Oldroyd

FILMES PARECIDOS: The Handmaid's Tale (Série de TV, 2017) / Grave (2016)

NOTA: 4.0

sábado, 11 de novembro de 2017

Terra Selvagem

NOTAS DA SESSÃO:

- A história começa um pouco morna. O protagonista é respeitável (parece habilidoso, ter um bom caráter) mas nada extraordinário; e a descoberta do cadáver não gera um grande conflito pessoal pra ele - ele parte na investigação como uma espécie de favor, sem uma motivação pessoal.

- A ambientação torna o filme mais agradável de assistir... As locações bonitas na neve, o uso dos snowmobiles, etc.

- Mais pra frente quando o Jeremy Renner conversa com o pai da vítima (o índio) e descobrimos que havia uma relação mais próxima entre ele e a garota que morreu, a investigação se torna um pouco mais envolvente - passa a ser quase uma questão de honra achar o assassino.

- Surpreendente a cena onde eles vão até o trailer dos garotos drogados e são atacados. Quebra um pouco a expectativa inicial de que seria um filme mais parado, sem acontecimentos dramáticos.

- Os diálogos são um pouco cafonas - os personagens são americanos comuns, deveriam falar de maneira simples, mas o roteirista fica sempre colocando umas frases poéticas forçadas na boca deles pra tentar dar mais profundidade à história.

- Algumas questões ficam um pouco confusas... No começo não fica claro se o namorado da Natalie morreu também... Nem se a morte da Natalie tem algo a ver com a morte da filha do Jeremy Renner... Não é a narrativa mais precisa do mundo, mas não deixa de prender a atenção.

- A agente do FBI (Elizabeth Olsen) começa um pouco antipática e distante, mas depois da cena em que ela e o Jeremy Renner conversam sobre a morte da filha dele, a relação entre os dois fica mais sólida e positiva.

- SPOILER: Outra coisa confusa é essa rivalidade que começa a surgir entre a Elizabeth Olsen, os policiais amigos dela, e o outro time de policiais locais. Os policiais locais estão tentando proteger os criminosos? Eles são vilões também? Não fica claro qual o motivo da confusão. Ainda assim, a cena do tiroteiro é excelente. A chegada inesperada do Jeremy Renner também é ótima, embora não fique muito claro como ele descobriu que iria acontecer o ataque e desceu da montanha a tempo pra salvar a mocinha.

- SPOILER: A vingança do Jeremy Renner contra o último vilão no alto montanha é legal. Depois disso o filme demora tempo demais pra acabar, gerando um anticlímax. Como não acaba logo depois da morte dos bandidos, ficamos com a impressão de que uma nova reviravolta irá acontecer, afinal há várias perguntas no ar (A morte da filha do Jeremy Renner tinha algo a ver com isso tudo? A polícia local está por trás de alguma organização criminosa?). Mas daí não acontece nada e o filme acaba mesmo.

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CONCLUSÃO: O roteiro é imperfeito, mas a história tem momentos empolgantes e funciona como uma espécie de western moderno.

Wind River / Reino Unido, Canadá, EUA / 2017 / Taylor Sheridan

FILMES PARECIDOS: A Qualquer Custo (2016) / Tudo por Justiça (2013) / Os Infratores (2012) / Inverno da Alma (2010)

NOTA: 7.0

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

O Poderoso Chefinho

Acabei vendo só agora na TV essa que foi uma das animações de maior sucesso do ano. É uma animação mais leve que a média, cujo maior mérito é a maneira criativa e às vezes sensível com que ela retrata os exageros da mente de uma criança de 7 anos, um garoto que imagina uma rivalidade épica entre ele e o irmão recém-nascido que chega pra atrapalhar seu "reinado".

Mas há 1 falha central na história que acaba comprometendo o aproveitamento do filme: desde o início, fica claro que tudo o que está acontecendo não passa de um devaneio do protagonista de 7 anos, que sempre teve uma imaginação fértil. Então o próprio filme nos anuncia que não existe nenhum bebê de terno, nenhum CEO com planos malignos, e que tudo isso que estamos vendo é de mentirinha. Isso transforma a história toda numa brincadeirinha tola de criança que não deve ser levada a sério. Tira todo o peso dos eventos. Daí dentro desse contexto, o filme tenta nos mostrar uma história de heroísmo, amizade, superação... Mas como devemos nos divertir com a aventura, se o próprio filme está dizendo que nada disso está acontecendo de fato na história? É mais um exemplo daquilo que falei recentemente em Thor: Ragnarok -- o Romantismo Reprimido de filmes que tentam projetar valores positivos, ao mesmo tempo em que pedem desculpas e admitem que nada daquilo deve ser levado a sério.

O rompimento com a realidade aqui é tão grande que o filme chega ao cúmulo de incluir sequências de fantasia DENTRO da trama principal, que já é uma sequência de fantasia. Quando o vilão é derrotado (jogado dentro do tanque), por exemplo, isso acontece porque os 2 irmãos usam o poder da imaginação e se transformam subitamente em piratas. Ou seja, não bastava a história toda já ser uma fantasia assumida. Pra você projetar um ato virtuoso, Autoestima, felicidade, sentimentos realmente positivos, você precisa ir num nível extra de irrealidade, criar uma fantasia dentro da fantasia, pra deixar claro pra plateia que essas coisas não devem ser levadas a sério, são apenas devaneios imaturos da infância.

The Boss Baby / EUA / 2017 / Tom McGrath

FILMES PARECIDOS: Meu Malvado Favorito 3 (2017)

NOTA: 5.0

sábado, 4 de novembro de 2017

O Estado das Coisas

NOTAS DA SESSÃO:

- Ben Stiller é especialista em representar losers dessa forma cômica, então o personagem soa familiar e funciona desde o primeiro minuto. Não só por ele, mas também por mérito do filme, pois logo na primeira cena já fica estabelecido o conflito central do personagem (ele acordado na cama refletindo sobre a vida), dando um senso imediato de que já entendemos o personagem, sabemos o que ele busca, etc.

- A cena no aeroporto (ele tentando fazer um upgrade pra classe executiva) além de ser um bom momento cômico, é uma ótima forma de concretizar a ideia de que ele se sente um fracassado, excluído do mundo dos bem sucedidos (há vários detalhes divertidos assim no filme que reforçam essa ideia - a festa que ele não é convidado, a mesa ruim que dão pra ele no restaurante, a maneira como ele idealiza a vida dos amigos de forma exagerada, etc).

- Os pensamentos do personagem são fascinantes num nível psicológico. Por exemplo: quando ele começa a imaginar se a passividade da esposa é a razão de seu fracasso, ou o súbito otimismo quando ele percebe que o filho pode ter um futuro promissor se entrar em Harvard - ao mesmo tempo em que surge o medo do filho superá-lo e expor ainda mais o seu fracasso, etc. O roteirista tem uma habilidade incrível de observar os próprios pensamentos, registrar o processo de introspecção e colocá-lo no papel (lembra um pouco o que Rand fez em A Coisa Mais Simples do Mundo).

- A situação dele ter que pedir um favor justamente pro Craig Fisher (o cara que ele mais inveja) é ótima. É plausível e coloca o personagem na situação mais embaraçosa possível, considerando o tema do filme.

- O personagem do filho é uma graça e a relação positiva entre os dois é surpreendente. Estou sempre falando aqui da tendência atual dos filmes de forçarem relacionamentos conflituosos sem necessidade. Esse aqui foge à regra e opta por uma atitude mais benevolente. Mesmo quando os 2 se desentendem, é de maneira afetuosa e não agressiva.

- O personagem é tão patético que às vezes é doloroso de assistir (quando ele começa a dar em cima da amiga do filho, por exemplo). Mas a atitude do filme é positiva - o filme não está glamourizando / perdoando as falhas do personagem, e sim tirando sarro, mostrando como não devemos agir na vida.

- É quase um filme de terror onde o "monstro" é a baixa autoestima do protagonista. Um retrato dos efeitos destrutivos da psicologia de uma pessoa atormentada por um senso crônico de inferioridade, que iguala autoestima a status social. E o pior é que o personagem parece merecer esse senso de inferioridade - o problema aqui não é simplesmente o fato dele se comparar demais com os outros, dele estar rodeado de amigos milionários, e sim o fato dele realmente não ter muito do que se orgulhar na própria vida. Não tem grandes conquistas pessoais ou materiais onde se apoiar.

- SPOILER: O final é sutilmente arrasador, se é que isso faz sentido (superficialmente parece um final positivo, mas se você parar pra analisar, é totalmente trágico). O Ben Stiller consegue se constranger da pior forma possível no jantar com o Craig Fisher. Depois disso, achamos que ele já atingiu o fundo do poço e terá uma espécie de superação, mas não é o que acontece. Ele termina totalmente sem esperança, tendo que se contentar com a admiração - ou melhor, com o amor - do filho e tentando achar conforto no simples fato de estar vivo, de ainda poder "amar o mundo mesmo sem poder tê-lo" (!).

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CONCLUSÃO: Ótima comédia que consegue mesclar um humor mais óbvio e acessível com reflexões interessantes sobre a relação entre autoestima, carreira e vida social.

Brad's Status / EUA / 2017 / Mike White

FILMES PARECIDOS: Enquanto Somos Jovens (2014) / Mesmo Se Nada Der Certo (2013) / O Verão da Minha Vida (2013) / Maridos e Esposas (1992)

NOTA: 7.5

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Stranger Things 2

Isso não é uma crítica completa à segunda temporada, apenas uma observação que acho importante fazer. A série obviamente se apresenta como uma homenagem a filmes dos anos 80, e se inspira particularmente em produções de Steven Spielberg e James Cameron como E.T. - O Extraterrestre, Aliens - O Resgate, Poltergeist - O Fenômeno, Os Goonies, O Exterminador do Futuro, Contatos Imediatos do Terceiro Grau, etc. Como já disse aqui várias vezes, Steven Spielberg e James Cameron são 2 dos meus cineastas favoritos e a maioria dos filmes citados estão no meu "top 100". E como um fã e estudante desse estilo de cinema, me sinto na obrigação de vir aqui lembrá-los que Stranger Things não tem nada a ver com esses filmes.

Stranger Things é uma "homenagem" aos filmes dos anos 80 na mesma medida em que La La Land é uma "homenagem" aos musicais clássicos. Nos 2 casos as produções soam inautênticas, pois não só não têm o mesmo compromisso com qualidade técnica, como não têm o mesmo espírito e os mesmos valores dos filmes que tentam homenagear. Elas fingem que estão resgatando o espírito do passado (um período considerado mais feliz, divertido e inocente do que o atual - e que justamente por isso provoca nostalgia nas pessoas), mas na prática fazem isso apenas no nível da superfície: através do visual, do estilo da trilha sonora, dos figurinos, de referências explícitas a outros filmes, etc. Naquilo que realmente importa, nos valores essenciais transmitidos através da história, dos personagens, são produtos totalmente "2017", que estão em plena harmonia com o espírito da atualidade - que é bem diferente do da época e em muitos aspectos é hostil ao espírito da época.

Portanto não - Stranger Things não é um bom exemplo do tipo de entretenimento que eu costumo defender aqui (eu tinha gostado até da primeira temporada, apesar de algumas ressalvas, mas agora na segunda vendo os defeitos da série de forma mais exagerada, já não fico tão entusiasmado em recomendá-la).

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Thor: Ragnarok

NOTAS DA SESSÃO:

- Fraca a sequência inicial onde o Thor enfrenta aquele demônio gigante (Surtur). Obviamente o filme está pesando a mão no humor pra imitar Guardiões da Galáxia, mas isso acaba diminuindo a estatura do herói (e do vilão), e deixando tudo com cara de uma brincadeira inconsequente. Não chega a ser um humor mal intencionado como o de Guardiões, feito intencionalmente pra destruir o romantismo da história (o filme está apenas seguindo tendências) mas ainda assim passa do ponto.

- O filme tem um desprezo completo pela realidade (algo cada vez mais comum nos filmes comerciais atuais) que nos impede de acreditar em qualquer coisa que esteja acontecendo (na verdade o público atual não precisa de realidade pra sentir qualquer coisa, mas isso é assunto pra uma outra postagem). Em vez de tentar criar um universo crível, consistente, fazer a gente acreditar nesse mundo e nesses personagens, o filme parece querer enfatizar o fato de que é tudo uma ilusão. Tudo pode acontecer - portais estão constantemente abrindo e jogando os personagens de um lugar pro outro, personagens às vezes são sólidos, às vezes são hologramas, às vezes são outros personagens disfarçados (Loki pode se transformar em quem quiser a qualquer momento), os mortos podem ressuscitar, o Anthony Hopkins uma hora evapora e não sabemos imediatamente se ele morreu, se foi pra outra dimensão, sem falar na ação do filme: a força dos personagens é sempre ilimitada, aleatória, não temos a menor noção do que eles podem ou não fazer, Thor pode receber golpes inimagináveis sem sofrer 1 arranhão, mas ao mesmo tempo pode ser derrotado por um pequeno aparelho que dá choque, etc.

- Cate Blanchett está divertida de vilã, mas é um personagem extremamente caricato - até a Madrasta Má tinha uma motivação mais elaborada que essa.

- No meio da luta com a Cate Blanchett, o Thor acidentalmente cai pra fora do portal e vai parar num outro planeta, onde ele fica praticamente o resto do filme inteiro. Qual a relevância dessa reviravolta pra trama? É algo totalmente acidental, desnecessário, que só serve pra encher linguiça até o Thor conseguir escapar de lá, e se reencontrar com a Cate Blanchett no final pra mais uma batalha. Tudo que acontece aí parece desimportante: os conflitos com o Jeff Goldblum ou com o Loki, a luta de gladiador contra o Hulk, a amizade com a Valquíria, etc. Não são peças formando um quebra-cabeça maior, desenvolvendo um tema central, e sim eventos jogados pra distrair o espectador até o fim. É a velha ideia de um time de heróis sendo formado pra uma batalha final. Mas não fica claro que o Thor precisa dessas pessoas de fato pra derrotar a vilã (3 poderes incalculáveis somados são mais fortes do que 1 poder incalculável?!). No fim ele sempre tem uma carta na manga que resolve o problema. E de qualquer forma, uma "batalha final" não é algo interessante o bastante pra sustentar o interesse da plateia. O herói não está buscando nada de positivo, atraente, só quer impedir a vilã de agir.

- Como previsto, o final é apenas mais uma luta absurda sem nenhuma noção de realismo, onde a vilã é derrotada por uma "carta na manga" que não causa grande surpresa ou admiração pelo protagonista.

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CONCLUSÃO: Tem um clima divertido, Chris Hemsworth é sempre simpático, mas é extremamente fútil como cinema e entretenimento.

Thor: Ragnarok / EUA / 2017 / Taika Waititi

FILMES PARECIDOS: Valerian e a Cidade dos Mil Planetas (2017) / Vingadores: Era de Ultron (2015) / Guardiões da Galáxia (2014)

NOTA: 4.0

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

A Guerra dos Sexos

NOTAS DA SESSÃO:

- O filme não se esforça pra fazer a gente simpatizar pela causa da Billie Jean. Não diz se ela está com problemas financeiros, não ilustra se ela atrai um público grande pros jogos de tênis (e por isso mereceria um salário maior), não mostra ela se esforçando pra receber mais, lutando honestamente, com humildade, e mesmo assim sendo recusada. Da maneira como é mostrado, é apenas uma feminista que de um dia pro outro exige um salário igual ao dos homens, simplesmente porque ela resolveu que sim. Não é uma boa maneira de fazer a gente se importar pela personagem.

- O romance é introduzido de maneira igualmente superficial, pouco dramática. Não sabemos nada sobre a vida pessoal/íntima da Billie... Que tipo de coisa ela valoriza, se ela deseja viver um grande romance ou não, se ela tem alguma insegurança, algum conflito pessoal... O filme parece achar que o simples fato dele ter uma agenda política "progressista" já é o bastante pra fazer o espectador se envolver pela história: como Billie Jean é feminista, lésbica, todos na plateia devem automaticamente torcer por ela, independentemente da história ser bem contada.

- Toda a premissa do filme é fraca, sem muito drama, energia. O vilão (Bill Pullman) é um cara meio idiota, mas não é tão odioso assim a ponto de gerar um conflito sério e pessoal entre os dois, que sustente o filme inteiro. Bobby Riggs (Steve Carell), que seria um segundo "vilão", também não tem um conflito significativo com a protagonista. Toda essa ideia de uma partida de tênis entre os 2 pra provar que as mulheres são equivalentes aos homens é uma tolice. Seria apenas um evento simbólico, midiático, mas que não provaria nada na prática. Não provaria nem que mulheres e homens são igualmente bons no esporte, e nem que Billie merece um salário igual ao dos homens simplesmente por ser igualmente habilidosa, independentemente das forças do mercado.

- O filme fica tentando criar um clima épico em cima da partida entre Billie e Bobby, mas simplesmente não existe esse drama todo. Billie já começou o filme como a melhor jogadora do mundo. Não é como nesses filmes de esporte onde o protagonista começa totalmente despreparado, vai crescendo ao longo do filme, até um partida final desafiadora que irá decidir sua carreira. A carreira da Billie não está em jogo aqui. E Bobby é um cara muito mais velho que ela. Ela não está jogando contra alguém que pareça de fato ameaçador. Nem mesmo o movimento feminista está em jogo nessa partida. Mesmo que ela perca, a luta das mulheres não irá parar. É apenas uma brincadeirinha boba sem grandes consequências pra vida pessoal de Billie.

- O romance lésbico entre Billie e Marilyn acaba tendo mais potencial dramático do que a partida de tênis em si. Mas é uma trama que acaba não sendo muito bem explorada (o marido aceita tudo numa boa, Billie não chega a sofrer grandes consequências por causa do romance, não tem que tomar nenhuma decisão até o fim do filme, etc).

- Um dos motivos da história ser fraca é que toda essa rivalidade entre homens e mulheres no fundo é meio boba. Os homens em geral (mesmo os machistas) não odeiam as mulheres (todos têm mães, esposas, filhas, etc). Não é como num filme sobre o racismo, por exemplo, onde realmente pode existir um clima agressivo entre os 2 lados, um conflito moral sério. Aqui, se as mulheres vencerem o jogo, nenhum homem vai ficar de fato revoltado, ofendido. Vai todo mundo se divertir e no dia seguinte continuarão todos convivendo sem problemas.

- A partida final de tênis é filmada de maneira pouco inventiva em termos de fotografia, edição - mas funciona, pois acompanhamos o jogo como se fosse uma partida real transmitida pela TV, onde podemos acompanhar cada jogada com clareza - há certo realismo, temos a impressão que os atores estão realmente ali na quadra em uma partida, etc.

- SPOILER: Como era de se esperar, o final é meio previsível, pouco emocionante. E é meio anticlimático ela vencer a partida, daí ter aquela pausa onde ela vai chorar no banheiro, depois ela voltar pra quadra, comemorar de novo, e daí sim o filme acabar sem que nada novo tenha acontecido - não é resolvido o conflito romântico, não há um encontro final de Billie com os "vilões" (a Margaret, o Bill Pullman, etc).

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CONCLUSÃO: Realizado com competência, com bons atores, mas os conflitos são fracos demais pra tornarem a história interessante.

Battle of the Sexes / Reino Unido, EUA / 2017 / Jonathan Dayton, Valerie Faris

FILMES PARECIDOS: Estrelas Além do Tempo (2016) / Carol (2015) / Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo (2014) / O Homem que Mudou o Jogo (2011)

NOTA: 6.0

domingo, 22 de outubro de 2017

Doentes de Amor

NOTAS DA SESSÃO:

- Kumail não é um protagonista muito atraente. O personagem não tem talento como comediante, não é muito engraçado (os coadjuvantes que fazem stand-up com ele têm momentos bem melhores), nem bonito como par romântico, nem especialmente inteligente. No máximo fofo e realista (o que não é uma grande virtude).

- O filme tem certa sensibilidade ao retratar pessoas, relacionamentos, mas ainda dentro da premissa naturalista de que realismo é mais importante que talento, imaginação, diversão, etc. Pegue por exemplo o início do romance entre Kumail e Emily: ele vai mostrar o filme favorito dele pra ela, e ela começa a achar um tédio, então eles desistem e resolvem fazer sexo. Certamente é algo que acontece na vida real, mas não é algo que torna o romance mais atraente pro espectador. Pelo contrário - sugere que eles não são tão compatíveis quanto gostariam, que ela não respeita o gosto dele o bastante nem pra assistir o filme até o final... E mesmo assim a relação segue em frente, pois "nada é perfeito", "a vida requer sacrifícios", etc.

- Constrangedor o show do Kumail sobre a vida dele no Paquistão! E é horrível de propósito - o filme parece achar legal o fato do protagonista ser um completo loser, um artista sem a menor vocação pro que está fazendo. Se o show fosse de um personagem coadjuvante sem importância, seria uma cena divertida, mas não há graça em ver o protagonista se humilhando dessa forma. É outro desses toques realistas que o filme acha que o tornam mais "maduro".

- De mau gosto a cena em que a Emily precisa ir ao banheiro no meio da noite. É mais realismo desnecessário que só serve pra desglamourizar o romance. Referências a fezes são aceitáveis em comédias escatológicas, em certos filmes cult feitos para chocar... Mas não num filme onde devemos admirar os personagens. É uma regra universal: heróis simplesmente não defecam. Eu já tive um mau pressentimento em relação a esse filme desde que li o título (jamais colocaria "Sick" num título, fazendo uma referência literal a doença num espaço tão precioso).

- A história da doença de Emily surge apenas em 1 hora de filme, e é uma reviravolta desnecessária que não ajuda a desenvolver em nada o conflito central do filme (as diferenças pessoais e culturais entre o casal). Não é como em Enquanto Você Dormia, onde o fato do cara estar em coma era um elemento indispensável pra trama. A partir desse ponto, o filme abandona a história central do romance e foca na relação entre Kumail e os pais da Emily, o que não desenvolve em nada a história (há várias cenas aleatórias, como a briga da Holly Hunter no bar, etc). O conflito principal do filme era o fato do Kumail ser paquistanês e que sua família não permitiria que ele se casasse com Emily, uma americana. Dentro desse contexto, seria muito melhor pra história que o Kumail ficasse internado, forçando a Emily (a americana) a conviver com os pais paquistaneses dele - e aos poucos ir quebrando o preconceito da família. Isso serviria bem à trama. Agora o Kumail conviver com os pais da Emily não ajuda em nada o desenvolvimento da história. Os pais dela não eram um grande obstáculo pro romance, então tanto faz Kumail se tornar amigo deles ou não (pelo menos a Holly Hunter e o Ray Romano são presenças agradáveis no filme).

- O grande problema do filme é que ele é baseado numa história real, e escrito/atuado por pessoas reais que viveram a história. Eles estão partindo do princípio de que, como essa história realmente aconteceu, ela merece ser contada para o público, com todos os detalhes irrelevantes incluídos. Mas o público não está nem aí pra vida pessoal dos cineastas - a não ser que esses eventos sejam lapidados até formarem uma história envolvente e agradável de assistir, o que não é o caso.

- A paquistanesa bonita do casamento arranjado acaba parecendo mais interessante pro Kumail do que a Emily - que nem sabemos se gosta mais dele. Parece um desperdício ele rejeitar essa menina. O romance com a Emily não era tão especial assim pra gente torcer incondicionalmente pelo casal.

- A Emily vai ficar doente o filme inteiro? Qual o propósito dessa doença no filme? Pra que eu quero ficar horas vendo um loser num hospital esperando a "namorada" acordar do coma, pra daí talvez eles darem continuidade a um romance que já era bem meia-boca? Se fosse uma relação única, inesquecível, um casal fascinante, o espectador estaria envolvido, torcendo pro retorno dos dois. Mas não era! Essa sequência do hospital deveria ser uns 10 minutos de filme, uma breve crise no meio da história, e não o filme inteiro praticamente.

- Kumail tem uma série de atitudes tolas que vão tornando o personagem cada vez menos admirável. A forma como ele mente pra própria família, ou então a tolice de tentar impedir a mudança de hospital da Emily, como se ele tivesse direito de interferir na decisão dos pais dela. Ou então quando ele fica histérico no drive-thru e maltrata o funcionário do restaurante. Ou cena em que ele dá vexame no show de stand-up - ele destrói toda a diversão da plateia do show pra falar de seus dramas pessoais. Kumail parece achar um mérito entediar a plateia pra enfiar suas histórias pessoais goela dos outros abaixo... Lembra do "one man show" dele sobre sua vida no Paquistão? Bem, pense que o cara que criou aquele show horrível, não é apenas Kumail o personagem do filme, mas também Kumail, o ator/produtor/roteirista desse filme Doentes de Amor que estamos vendo agora!

- Quando Emily acorda do coma, ela não tem nenhuma vontade de ver Kumail ou de voltar a se relacionar com ele... Mas o filme acha que como Kumail se sacrificou tanto por ela enquanto ela estava no hospital, foi tão atencioso, que agora ele "merece" tê-la de volta, que a plateia estará automaticamente torcendo pelos dois. Eu não estou!

- Kumail mostra pra Emily tudo que ele fez enquanto ela estava em coma na tentativa de ganhá-la de volta (os cartões de visitante do hospital, etc). É uma atitude medíocre. Ele está dizendo "veja como eu gosto de você, como isso prova que eu me esforcei". Ele quer que Emily fique com ele não por ele ser um homem interessante, admirável, por ter um ótimo caráter, por ser honesto, por ela estar de fato interessada - mas simplesmente por ele desejá-la intensamente. Ele quer que ela se sacrifique, faça algo que não quer apenas em nome do sentimento dele - fique com ele por um ato de caridade, não por uma paixão pessoal autêntica.

- SPOILER: O filme tem uma atitude em relação ao amor que é anti-autoestima, anti-felicidade, baseada em altruísmo. Eles eram um casal comum, sem grandes compatibilidades, sem grande paixão... Daí, a menina ficou em coma, e por algum motivo, o fato dela ter adoecido fez com que Kumail se apaixonasse ainda mais por ela. Não virtudes novas que ele descobriu, mas o fato em si dela ter sofrido no hospital. Daí, depois que Emily acorda do coma, ela não está nem um pouco interessada em Kumail. Só que daí ela entra no YouTube e vê a apresentação horrível que ele fez no show de stand-up e que arruinou sua carreira... Agora, sensibilizada pela fraqueza, pela derrota e humilhação dele (não por novas virtudes que ela tenha descoberto), ela se apaixona de volta por Kumail e corre atrás dele!

- SPOILER: O reencontro final (quando Emily aparece no show dele em Nova York) soa falso. O filme todo era realista, enquanto isso já parece uma cena tirada de uma comédia romântica mais leve, escapista. Não combina com o relacionamento que tínhamos visto antes. A mudança de atitude dela foi muito rápida, sem fundamento (apenas viu um vídeo no YouTube). E eu como espectador não me emocionei, pois não tinha grandes motivos pra torcer por esse retorno.

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CONCLUSÃO: Tem bons atores e certa sensibilidade em termos de caracterizações, mas é uma história mal estruturada, mal desenvolvida, sobre um romance pouco empolgante.

The Big Sick / EUA / 2017 / Michael Showalter

FILMES PARECIDOS: O Bebê de Briget Jones (2016) / Ligeiramente Grávidos (2007) / Casamento Grego (2002)

NOTA: 5.0

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe

NOTAS DA SESSÃO:

- A riqueza dos personagens e dos diálogos nos filmes do Noah Baumbach é sempre algo impressionante. Em 10 minutos ele já extrai mais conteúdo dos personagens do que a maioria dos filmes consegue em 2 horas. Apesar de não haver uma narrativa envolvente, o filme tem um ritmo ágil que o mantém interessante... Há sempre algo criativo e inesperado acontecendo na tela: detalhes como as refeições horríveis da Emma Thompson, a entrelinha constante de que o Ben Stiller é o filho favorito do Dustin Hoffman, a música que o Adam Sandler toca no piano com a filha que eles compuseram quando ela era pequena... É tudo extremamente autêntico e revela a capacidade de observação admirável do diretor. Ele parece realmente ter nascido numa família de artistas como essa, e fala como alguém relatando algo em primeira mão.

- Hilária a cena em que eles vão assistir ao primeiro "filme" da filha do Adam Sandler. E depois a participação da Sigourney Weaver como ela mesma. O filme é sempre inesperado e original. E o elenco é impressionante.

- Costumo comparar Baumbach ao Woody Allen, mas apenas por eles fazerem filmes sobre pessoas, em geral artistas, intelectuais, e terem esse dom pra diálogo e caracterização. O que me impede de gostar mais do Baumbach é que há uma frieza em seus filmes que eu não vejo nos filmes de Allen. Ele não parece ter empatia real por nenhum dos personagens. Eles estão ali apenas ilustrar o cinismo que o cineasta sente em relação à humanidade, e pra dizer as frases inteligentes que ele escreveu no roteiro. Os diálogos às vezes são tão rápidos que mal conseguimos acompanhar... Uma pessoa está sempre interrompendo a outra, mudando o assunto do nada, e isso acontece o tempo todo... É algo que chama atenção pro fato de que o filme é "bem escrito", mas tira todo o nosso envolvimento do conteúdo da conversa.

- Até quando o pai está em coma no hospital o filme insiste nesses diálogos rápidos cômicos, tentando gerar humor num momento triste, onde ninguém deveria estar tão agitado assim.

- Os personagens são todos meio losers, deprimidos, e os relacionamentos entre eles não são nada atraentes - não sentimos uma ligação emocional positiva entre ninguém (no máximo entre o Adam Sandler e a filha). Você não gostaria estar na pele de nenhuma dessas pessoas, e essa não é uma família da qual você gostaria de fazer parte. O Woody Allen conseguia em suas comédias falar de depressão, vazio existencial, divórcio, fracasso profissional, de uma forma que você ficava encantado pelos personagens, gostaria de fazer parte daquele mundo. Era tudo romantizado, divertido, os personagens eram admiráveis, a cidade era glamourosa... Na minha postagem O Que Nos Atrai à Arte? eu discuto como os bons filmes nos transportam pra um universo benevolente, com significado, mesmo quando discutem temas graves. Aqui, o que Baumbach consegue é o oposto - é revelar o vazio e a frieza por trás das relações, das carreiras dos personagens, da vida em si, etc. E o que torna tudo ainda mais deprimente é o fato de Baumbach achar que está fazendo uma comédia, divertindo o espectador. Pegue a cena da briga entre os irmãos do lado de fora do hospital... Você tem Ben Stiller, Adam Sandler se estapeando em público, numa óbvia tentativa de criar um humor mais pastelão, mas não há graça na cena, pois não se trata de uma briga superficial entre 2 pessoas que no fundo se gostam, algo digno de riso como nas comédias comuns, e sim de um desentendimento profundo entre irmãos, uma discussão pesada que impede qualquer leveza no momento, ainda mais considerando o contexto do pai morrendo no hospital.

- O filme acaba abruptamente no meio de uma cena meio nada a ver, enfatizando o desprezo de Baumbach por ordem, conclusões, sentido, etc.

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CONCLUSÃO: Extremamente rico em personagens, diálogos, mas frio e deprimente demais pra se portar como uma comédia.

The Meyerowitz Stories (New and Selected) / EUA / 2017 / Noah Baumbach

FILMES PARECIDOS:

NOTA: 6.5

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

A Morte Te Dá Parabéns!

NOTAS DA SESSÃO:

- Demora um pouco até a gente simpatizar pela protagonista. No começo ela fica parecendo extremamente antipática, mas mais pra frente, entendemos que o filme fez isso de propósito, pra que ela pudesse evoluir ao longo da história.

- O filme tem um clima de entretenimento sem culpa incomum pros tempos de hoje - parece algo feito nos anos 90.

- Depois que a Tree já morreu a primeira vez e já percebeu que está vivendo o mesmo dia de novo, é meio forçado ela voltar no lugar em que foi morta, se surpreender com a caixinha de música, etc.

- Meio ridícula a sequência em que ela vai pro quarto do garoto, daí ele transforma o quarto numa espécie de balada, depois o assassino aparece lá dentro, mata ele, mas a Tree não ouve pois a música está alta... É tudo muito absurdo - a gente não sabe mais se o cineasta está se inspirando em Pânico ou em Todo Mundo em Pânico.

- A passagem de tempo com a música Confident (da Demi Lovato) é divertida mas fica parecendo deslocada no filme (Tree andando sem roupa no meio da faculdade, etc). É como se, agora que a Tree está presa num mesmo dia, ela estivesse aprendendo a se soltar, a ter mais confiança... Mas isso não tem nada a ver com o tema do filme. O problema da Tree não era falta de confiança, ou que ela não sabia se divertir - e sim que ela era "confiante demais", a ponto de maltratar os outros, etc.

- O filme é bem intencionado, não tem medo de brincar com a plateia, a atriz tem personalidade... Mas muitas vezes isso vem às custas da qualidade, da lógica da história, etc. Tudo que envolve a trama do assassinato é muito mal feito. Já passou 1 hora de filme e a gente ainda não sabe por que alguém poderia ter qualquer motivo para matá-la. Parece que o diretor no fundo só queria fazer um filme sobre uma garota se divertindo, aprendendo a ser uma pessoa melhor na faculdade... e enfiou uma trama genérica de terror "slasher" no meio só pra apimentar as coisas.

- Como ela conclui que o tal do Joseph Tombs que está sendo mantido no hospital só pode ser o cara que a matou? Ele teria alguma motivação? Ela viu algo no mascarado que associou depois ao Tombs quando o viu na TV? As coisas vão ficando cada vez mais confusas.

- Divertido o dia em que ela resolve ser legal com todo mundo - come comida calórica pra defender a garota do bullying, beija o menino na frente de todos, etc. É nessa zona que o filme funciona melhor.

- Pra acabar com a "maldição" do dia sempre se repetir, a Tree precisa apenas matar o assassino? Ou precisa corrigir seus erros, deixar de ser uma pessoa má com as outros? O filme não explica a relação entre essas 2 coisas - o que foi que provocou esse "loop" no tempo, por que isso aconteceu justamente com a Tree, etc. É simplesmente por ser o aniversário dela? O fato dela fazer aniversário no mesmo dia da mãe tem alguma relevância? O roteirista juntou a ideia do Feitiço do Tempo com o tema da "menina malvada" se redimindo e ainda por cima acrescentou uma trama de serial killer - sem sentar nem meia hora pra tentar amarrar tudo isso de maneira convincente. Uma "mean girl" presa eternamente num mesmo dia da faculdade até aprender a ser uma boa pessoa, isso faz sentido e já seria o bastante pra um filme satisfatório. Mas um assassino mascarado em cima disso tudo é simplesmente confuso.

- SPOILER: A reviravolta final é ridícula (Tree sacar que morreu durante o sono, pois comeu o cupcake pela primeira vez, etc). Não faz o menor sentido essa roommate ser a assassina.

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CONCLUSÃO: O filme diverte e funciona bem quando foca na transformação pessoal da Tree, mas o lado suspense / terror é muito mal desenvolvido.

Happy Death Day / EUA / 2017 / Christopher Landon

FILMES PARECIDOS: Fragmentado (2016) / A Visita (2015) / Premonição (2000) / Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado (1997) / Pânico (1996)

NOTA: 6.0

sábado, 14 de outubro de 2017

Detroit em Rebelião

NOTAS DA SESSÃO:

- Esse tema da violência policial contra os negros é delicado, mas felizmente o filme deixa claro que não irá simplificar a história de maneira falsa e tendenciosa, só pra provar seu argumento. Ele mostra que tanto do lado dos policiais quanto do lado dos negros existiam pessoas boas e más, o que dá mais credibilidade pra discussão (se o filme tivesse sido feito por um ativista desses fanáticos, ele não conseguiria retratar nenhum dos policiais positivamente).

- O filme gasta um bom tempo pra apresentar cada personagem, criar empatia (ou antipatia), fazer a gente entender o caráter de cada um, tanto do lado da polícia quanto do lado dos suspeitos, antes de juntar todo mundo na sequência central do motel, o que torna tudo mais envolvente, como se estivéssemos realmente participando da situação, entendendo o ponto de vista de todos os envolvidos.

- É interessante que o problema todo só ocorre porque existiam indivíduos malignos dos 2 lados. Primeiro o Carl, que sem motivo algum resolveu atirar pela janela contra a polícia. E depois o Krauss, que estava disposto a revidar com mais violência ainda. Se qualquer um dos 2 fosse menos violento, nada teria acontecido... Mas junta um idiota de um lado contra outro idiota do outro, o sangue começa a jorrar.

- SPOILER: Por que ninguém fala pra polícia que o Carl estava com a arma de brinquedo e atirou pela janela? Ele já está morto! Que mal faria agora dizer a verdade? Fica a impressão que eles só estão nesse interrogatório por que querem. É a única coisa um pouco mal explicada no filme.

- As táticas de interrogatório são assustadoras! A situação é muito tensa e bem feita. Um absurdo a atitude dos policiais. Faz a gente pensar até que ponto é correto maltratar civis pra tentar encontrar o inimigo - algo que muitos filmes de guerra discutiram recentemente (mas diria que são 2 casos diferentes; que numa situação de guerra, onde uma nação inteira está sendo ameaçada, é bem mais justificável do que o que está acontecendo aqui).

- Na minha última crítica (First They Killed My Father) eu disse que não gosto de filmes onde os protagonistas apenas sofrem nas mãos dos inimigos, sem ter muito o que fazer. O que torna esse filme melhor, além do fato dos personagens serem muito mais interessantes e terem personalidade, é que há tensão narrativa: há a possibilidade de fuga, as vítimas muitas vezes tentam reagir, nós queremos saber se eles sairão vivos ou não, se contarão a verdade, se o policial será julgado, etc. E a caracterização do mal é tão boa que acaba gerando certo fascínio, assim como uma Nurse Ratched de Um Estranho no Ninho. O policial Krauss é um dos vilões mais memoráveis dos últimos tempos.

- Incrível toda essa sequência no motel. É quase um mini-filme dentro do filme. Nem sei quanto tempo durou, mas parece que ficamos mais de 1 hora ali sem que a energia diminuísse em nenhum momento.

- Por que o John Boyega mente pra polícia que só chegou no motel depois de tudo? Irrita o fato de que as pessoas inocentes do filme não agem corretamente. Acabam contribuindo pra confusão. Mas pelo menos não vira um daqueles filmes onde os 2 lados do conflito são imorais, e ficamos apenas vendo um monte de gente odiosa brigando entre si. Aqui fica bem claro que Krauss é o grande vilão... As vítimas podem não ser perfeitas, mas são inocentes naquilo que estão sendo acusadas.

- Ótimo o momento em que o Krauss pede pro outro policial mentir no depoimento: "Algo que levou 1 minuto pra acontecer não pode definir sua vida inteira". É exatamente assim que um criminoso pensaria. São por esses detalhes que o personagem se torna convincente e assustador.

- A parte do tribunal também é bem tensa, pois entendemos como os policiais podem sair impunes, apesar de todos os absurdos cometidos. O filme obviamente tem essa intenção de alertar a população pra uma questão social (algo que não costumo elogiar aqui), mas esse filme consegue fazer isso através de uma história bem contada, com bons personagens, suspense, então se torna algo válido - ele não coloca a mensagem social acima da experiência cinematográfica; mas junta as 2 coisas de forma bem feita.

- SPOILER: Até o "racismo inverso" do Larry no final é compreensível. O público da Motown era predominantemente branco, a música representava uma quebra de barreiras raciais, passava um senso de união no país... Dá pra entender por que pro Larry, alguém que acabou de viver uma experiência tão horrível envolvendo racismo, não iria suportar fazer parte dessa gravadora.

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CONCLUSÃO: Filme forte que aborda um tema social complicado, mas o faz de forma inteligente, equilibrada, e sem desprezar a experiência narrativa da plateia.

Detroit / EUA / 2017 / Kathryn Bigelow

FILMES PARECIDOS: Selma: Uma Luta Pela Igualdade (2014) / A Hora Mais Escura (2012) / Dia de Treinamento (2001)

NOTA: 8.0