quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Malasartes e o Duelo com a Morte

NOTAS DA SESSÃO:

- São sempre um pouco frustrantes esses filmes brasileiros que tentam imitar superproduções hollywoodianas. Sempre deixam a desejar em termos técnicos: os efeitos especiais nunca são tão bons quanto os americanos, as locações nunca são tão espetaculares, a direção de arte nunca é tão rica, etc. Ainda assim é uma tentativa nobre de se fazer cinema de entretenimento no Brasil (que não sejam comédias trash da Globo, etc). Pros padrões nacionais o filme se destaca.

- O elenco é ótimo. Jesuíta Barbosa está excelente, Ísis Valverde e Milhem Cortaz funcionam muito bem. Não sou muito fã do Malasartes por ser um personagem caricato, difícil de se identificar, e também pela atitude cínica do filme de celebrar a malandragem brasileira, achar divertido o personagem trapacear, enganar a namorada, etc. Mas a performance de Jesuíta consegue tornar o personagem razoavelmente gostável.

- A história é bem contada, embora o determinismo estrague um pouco do envolvimento ao longo do filme: Malasartes e todos os personagens são apenas marionetes do destino - estão sendo controlados por deuses numa outra dimensão, dependendo de milagres, coincidências, e não das próprias escolhas e ações.

- O lado fantasia do filme é um pouco arbitrário e desconectado da realidade... Toda essa ideia das velas amarradas em fios que sobem e descem e ajudam no transporte das pessoas, a ideia de amarrar as 2 velas e isso provocar alteração nas personalidades dos humanos, etc. É o tipo de "excesso de fantasia" que costuma me incomodar por não dizer nada a respeito de valores humanos, questões que vivemos no dia a dia, etc. É apenas um joguinho de ideias. E além disso as regras são mal estabelecidas... Não sabemos o que pode ou não pode acontecer no mundo de lá... A Morte pode matar algum personagem, mas depois a Vera Holtz pode ir lá e trazer a pessoa de volta sem muita explicação... Tudo pode acontecer, então ficamos apenas assistindo o destino dos personagens serem decididos por forças do além.

- Embora não dê pra torcer muito pelo romance (Malasartes não parece de fato apaixonado pela garota e nunca será um bom marido) no final o filme fica mais envolvente, pois queremos saber se ele e Áurea ficarão juntos (e vivos), como será resolvido o conflito com o irmão, como enganarão a Morte depois que os poderes acabarem, etc.

- SPOILER: Como as regras tinham sido mal estabelecidas, acaba não sendo tão satisfatória a maneira como Malasartes derrota a Morte. Como tudo pode acontecer, não chega a ser uma grande surpresa o que ele faz com as velas.

- SPOILER: No fim Malasartes se redime um pouco ao assumir a relação com a Áurea - e como ele consegue mudar o próprio destino, a ideia de determinismo que o filme estava transmitindo fica mais leve. Ainda assim, não dá pra dizer que é um filme com valores muito positivos. A mensagem aqui é a de que a vida é uma grande fuga da morte, e que pra termos sucesso temos que ser malandros.

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CONCLUSÃO: Honesto, bem realizado, mas ainda não é o filme que achou a linguagem do "blockbuster nacional".

Malasartes e o Duelo com a Morte / Brasil / 2017 / Paulo Morelli

FILMES PARECIDOS: O Homem do Futuro (2011) / Romance (2008) / O Auto da Compadecida (2000)

NOTA: 6.0

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

O Estranho que Nós Amamos

NOTAS DA SESSÃO:

- Visualmente o filme é lindo (fotografia, locações, figurinos, etc). Parece uma pintura de época. A luz natural lembra a estética de Barry Lyndon.

- O elenco é muito bom (apesar do roteiro não ter grandes momentos para os atores). Kirsten Dunst continua acertando desde que assumiu essa identidade mais madura como atriz.

- Boa a maneira como o filme vai revelando as mudanças de comportamento nas mulheres com a chegada do Colin Farrell: o banho que a Nicole Kidman dá nele na cama, a Kirsten Dunst passando a usar roupas mais atraentes, etc. É tudo mostrado através de ações.

- Apesar de ser um filme de emoções contidas e não muita coisa acontecer no começo (falta um pouco de intensidade), é uma história interessante, que envolve a plateia por falar de vaidade, comportamento humano, coisas com que todos podem se relacionar. Emocionalmente é um dos filmes mais honestos da Sofia Coppola - que raramente sai da pose de "cineasta cult" pra se comunicar de maneira mais direta com a plateia.

- Há certo suspense pois não sabemos direito o que pode acontecer. Colin Farrell parece interessado na Kirsten Dunst, mas a Elle Fanning é mais atraente e está mais determinada a conquistá-lo, e ao mesmo tempo a dureza artificial da Nicole Kidman dá a impressão de que a qualquer momento algo pode acontecer entre os dois.

- Gosto do humor sutil por trás da história (a maneira como o filme expõe o comportamento ridículo das mulheres). É quase como uma versão séria do Castelo Anthrax de Monty Python em Busca do Cálice Sagrado.

- Seria mais interessante se a situação fosse mais contrastada. Se o Colin Farrell fosse um cara totalmente decente, e as mulheres fossem se mostrando extremamente desequilibradas (uma coisa meio Louca Obsessão). Mas no fim elas não têm atitudes tão insanas... Parecem mulheres normais... E ele por outro lado é manipulador, fica seduzindo todas, etc. Então não fica muito clara a mensagem da história, que crítica ele está fazendo a que, o que a situação simboliza, etc.

- SPOILER: Chocante o acidente na escada e as consequências pro Colin Farrell. Finalmente algo mais dramático acontece no filme. Mas depois disso a situação começa a ficar um pouco falsa. As mulheres não brigam entre si como deveriam. O Colin Farrell começa a ficar com um comportamento descontrolado que não combina com o personagem de antes. E não temos a impressão que a Nicole Kidman amputaria a perna dele por vingança, então a revolta dele parece forçada, uma reação sem fundamento.

- SPOILER: Algumas cenas mais pro final parecem falsas, como a que a menina vai até o portão amarrar o pano azul e o Colin Farrell consegue correr atrás dela de muleta, etc. Ou ele fazer sexo com a Kirsten Dunst num momento onde não há o menor clima pra isso.

- SPOILER: Divertida a ideia de matá-lo com os cogumelos (o filme começa com cogumelos, então terminar com cogumelos dá um senso de ordem interessante pra narrativa). Mas ainda acho que foi um pouco mal construída essa transformação dos personagens. Eles não pareciam tão desequilibrados a ponto de levarem a situação a esse extremo (especialmente a Nicole Kidman).

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CONCLUSÃO: Alguns problemas no desenvolvimento dos personagens, mas em geral um drama interessante, com bons atores e bonito esteticamente.

The Beguiled / EUA / 2017 / Sofia Coppola

FILMES PARECIDOS: Dúvida (2008) / Desejo e Reparação (2007)

NOTA: 7.0

domingo, 13 de agosto de 2017

Valerian e a Cidade dos Mil Planetas

Me lembrou o que falei de Percy Jackson e o Mar de Monstros pois o filme também parece uma longa exposição de ideias fracas. Sem dúvida muita imaginação foi gasta na concepção do universo desse filme (as criaturas, tecnologias, figurinos, naves, armas, planetas, etc) mas por alguém sem tanto talento e que não tinha nenhum tipo de filtro criativo: qualquer ideia estava valendo, desde que não tivesse nenhuma relação com a nossa realidade e com a ciência. Daí em vez de uma fantasia com conceitos inovadores, inteligentes, designs atraentes (como uma arma que é um sabre de luz, ou um alien que tem ácido como sangue, ou uma floresta que se torna fluorescente à noite) você tem um filme cheio de ideias tolas e confusas, designs feios, como uma água viva gigante que quando enfiada na cabeça te permite ter visões paranormais... ou uma caixa que você coloca o braço e aparentemente seu braço vai parar numa outra dimensão, porém o resto do corpo não, ou talvez sim... ou um porquinho que engole uma pérola e defeca centenas em seguida... É como se o autor pensasse: "Star Wars é tão legal, tem um universo tão bem elaborado, tantas criaturas diferentes - e é por isso que o filme é bom; portanto se eu conseguir inventar um número equivalente de coisas malucas pra compor o universo de Valerian, ele será tão bom quanto Star Wars" (ignorando as técnicas milenares de narrativa respeitadas por George Lucas, que no fim é o que faz o filme funcionar).

Mais uma vez, a história aqui é a principal falha do filme. Personagens mal desenvolvidos, sem química, sem motivações pessoais ("filme de serviço") apenas cumprindo seus deveres numa missão chata que só depois de 2 horas vamos entender do que se trata. E pra piorar, no fim o filme vem com o clichê da mensagem ecológica, "salvem os índios", dizendo que a natureza está em perigo, que o homem civilizado é mau e ganancioso e destruirá as culturas mais fracas em nome do progresso, da economia (mas no fundo ele é apenas sádico), que devemos ter "mais amor", etc.

Mas não é só a história que é ruim. A execução também não é das melhores. Desde o tom errado, o humor fraco, até o mau gosto na direção de arte, as cenas de ação, o casting infeliz, a trilha sonora genérica, os diálogos, o título do filme - o que só aumenta a minha impressão de que europeu não serve pra fazer esse tipo de entretenimento (além de dirigido por Luc Besson, o filme foi baseado numa série de quadrinhos francesa).

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Valerian and the City of a Thousand Planets / França / 2017 / Luc Besson

FILMES PARECIDOS: Guardiões da Galáxia Vol. 2 (2017) / O Destino de Júpiter (2015) / Percy Jackson e o Mar de Monstros (2013) / Ender's Game: O Jogo do Exterminador (2013) / O Quinto Elemento (1997)


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NOTA: 3.0

sábado, 5 de agosto de 2017

O Filme da Minha Vida

Novo filme dirigido por Selton Mello, baseado num livro do autor chileno Antonio Skármeta (o mesmo de O Carteiro e o Poeta) sobre a vida de um garoto numa cidade do interior (nos anos 60?!), que sente falta de seu pai francês (que abandonou a família sem muita explicação) e vive uma série de situações típicas da juventude em sua cidade natal (a primeira vez num bordel, a primeira namorada, etc).

Assistir ao filme é mais ou menos como a experiência tediosa de ficar ao lado de um estranho enquanto ele te mostra álbuns de família, narra histórias de sua juventude num tom envaidecido, na expectativa de que você ache a vida dele tão fascinante quanto ele mesmo acha. Apesar da bela fotografia de Walter Carvalho, da direção de arte caprichada, das referências a clássicos do cinema (que dão a impressão de que o filme pretendia se distanciar da estética padrão do cinema nacional em direção a algo mais hollywoodiano) o filme no fim das contas é nacional até a raiz, pois em sua essência não ousa abandonar as premissas básicas do Naturalismo.

Não é nem uma boa história que se sustente sozinha (o protagonista é genérico demais, sem características interessantes, sem grandes objetivos, conflitos, o texto é raso), e a execução do filme também não é das mais bem sucedidas. Apesar do visual bonito, os diálogos muitas vezes soam forçados, os alívios cômicos não funcionam, o estilo da direção muitas vezes atropela o conteúdo só pra deixar o filme com um tom mais "cool", etc.

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O Filme da Minha Vida / Brasil / 2017 / Selton Mello

FILMES PARECIDOS: O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias (2006) / Cinema, Aspirinas e Urubus (2005)

NOTA: 4.0

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Planeta dos Macacos: A Guerra

NOTAS DA SESSÃO:

- Assim como na parte 2, os efeitos especiais estão entre os melhores já vistos no cinema. Visualmente o filme todo é muito bem cuidado - as locações, a direção de arte, a fotografia, etc. A trilha sonora também é ótima - tem temas musicais identificáveis, bem desenvolvidos, etc.

- Continuo não achando o Caesar um protagonista muito gostável, porém aqui ele parece mais "do bem", menos ambíguo moralmente do que nos outros filmes. Ele quer paz com os humanos, só quer ser deixado livre na floresta, e são os humanos (em particular o Woody Harrelson) que forçam ele a entrar em guerra. O filme parece mais sobre uma vingança pessoal, e não um conflito político do tipo "nós vs. eles". Além disso, vemos um lado mais sensível de Caesar nesse filme (por ele perder alguns membros da família) que ajuda a criar mais empatia pelo personagem.

- É ótima a presença da garotinha loira entre os macacos, reforçando a ideia de que eles não são "racistas". Há uns momentos bonitos entre ela e os macacos que dão um clima mais benevolente pra essa história, que parece menos focada em ódio e conflito que os outros filmes.

- Não dá pra entender direito por que o Woody Harrelson não mata o Caesar quando ele é capturado (sendo que antes ele tinha se deslocado até o acampamento dos macacos apenas pra matar o Caesar). Tinha que ter uma motivação melhor pra ele correr o risco de mantê-lo vivo.

- Engraçada a crítica que o filme faz ao Trump, ao muro, ao medo de estrangeiros, ao patriotismo distorcido da extrema direita, etc (se não foi intencional, é uma coincidência bem curiosa). Embora não fique claro pra que o Woody Harrelson precisa construir esse muro (o muro do Trump também não faz muito sentido, mas não é por isso que o roteirista precisa deixar a história mal explicada).

- Há uma conversa interessantíssima entre o Caesar e o Woody Harrelson mais pro final. Em vez de um vilão caricato, com motivações totalmente insanas, o filme consegue mostrar de maneira bem convincente os 2 lados do conflito. Os macacos estão simplesmente lutando em auto-defesa... Mas os humanos também têm uma motivação válida pra atacar os macacos, pois eles têm um vírus que pode (ou não) acabar com toda a raça humana. E esse é o "x" da questão. Se fosse certeza que a medicina não poderia resolver o problema do vírus, daí o Woody Harrelson teria toda a razão em querer exterminar os macacos. Ele deixaria de ser um vilão na história, e os 2 lados seriam moralmente equivalentes. Como essa questão do vírus não é muito bem esclarecida, a gente dá um crédito pros macacos e continua achando que o Woody Harrelson é o vilão (até por seu comportamento detestável). Mas já não é um conflito tão simples de bem vs. mal.

- Legal que a garotinha loira leva água e comida pro Caesar quando ele está preso. Ela não é um elemento irrelevante pra trama. Isso mostra uma preocupação do roteiro em integrar bem os elementos da história, não ter peças sobressalentes, etc.

- SPOILER: A fuga dos macacos não é das mais memoráveis ou inteligentes. O fato de já ter um túnel cavado embaixo da prisão torna tudo muito fácil (ou tanques com líquidos inflamáveis estrategicamente posicionados, etc). Além disso, é meio forçado o guarda entrar sozinho dentro da "jaula"... Óbvio que os macacos iriam atacá-lo e pegar as chaves. Onde estão os outros guardas?

- Outro detalhe que torna o Caesar mais gostável nesse filme é no final, quando ele admite que é como o Koba - que é motivado por ódio, vingança (e não se orgulha disso). Nos outros filmes eu não gostava muito dele justamente por esse motivo. Parecia extremamente rancoroso o tempo todo. Aqui, como ele admite que isso é um defeito, ele acaba parecendo mais decente.

- SPOILER: Meio perturbadora a morte do Woody Harrelson. Não só pelo suicídio, mas também porque fica a ideia de que ele estava certo o tempo todo. Que o vírus dos macacos de fato é uma ameaça à raça humana e eles precisam ser exterminados.

- SPOILER: O final não é dos mais satisfatórios. Primeiro tem aquela avalanche que é um "deus ex machina" um pouco preguiçoso. Depois tem a maneira improvável de como o Caesar morre. Ele foi ferido pela flecha há horas... Depois disso ainda sobreviveu a explosões, avalanches, caminhou durante dias... Por que ele vai morrer só depois de um tempão quando estão todos a salvo? É só pra dar aquela ideia do mártir que se sacrificou em nome do bem comum e precisa morrer no fim. Sem falar que o conflito entre humanos vs. macacos fica meio "no ar", sem conclusão.

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CONCLUSÃO: Nada de muito memorável ou inspirado, mas é um filme feito com muito mais habilidade, capricho e respeito pela plateia do que a maioria dos blockbusters hoje em dia.

War for the Planet of the Apes / EUA, Canadá, Nova Zelândia / 2017 / Matt Reeves

FILMES PARECIDOS: Star Trek: Sem Fronteiras (2016) / Planeta dos Macacos: O Confronto (2014) / Guerra Mundial Z (2013) / Oblivion (2013)

NOTA: 7.3

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Dunkirk

NOTAS DA SESSÃO:

- Produção excelente. A imersão audio-visual que o filme proporciona é incrível. Parece que estamos num simulador da Disney (especialmente em IMAX).

- A trilha sonora é uma das piores que já ouvi. Em vez de uma composição musical com melodia, estrutura, diversos climas que acompanham a narrativa e se integram à imagem, temos apenas um zumbido constante dando um clima de gravidade, e eventualmente barulhos pulsantes irritantes que soam como um alarme pra deixar a plateia tensa.

- A ideia do filme se passar em 3 tempos (1 semana, 1 dia, 1 hora) é um mecanismo tolo. Não cria nenhum tipo de ordem na cabeça do espectador, não acrescenta nada à história, não vemos nenhuma conexão especial entre as 3 histórias. É apenas um daqueles truques de Nolan pra narrativa parecer mais elaborada do que é (o "sonho dentro do sonho", etc).

- Um pouco mal explicada a ideia do Mark Rylance partir de barco sozinho pra Dunkirk, arriscar a vida de seus filhos junto. Falta uma motivação melhor, uma explicação mais convincente.

- O filme não tem nenhum desenvolvimento de personagem, não tem protagonista, não estabelece a motivação de ninguém, não cria empatia por ninguém. Fica apenas mostrando homens em situações de perigo, esperando o resgate sem ter muito o que fazer, intercalando eventuais ataques aéreos com outras situações menores de tensão do tipo: soldado quase é esmagado, soldado quase morre afogado, soldado quase é baleado, soldado quase pega fogo, soldado quase explode, etc. Literalmente não há nenhuma história ou conteúdo no filme. É apenas um simulador de parque de diversões como disse acima, pra gente sentir como é estar no meio da guerra...

- O garoto tropeça dentro do barco e fica cego? É um incidente totalmente desnecessário pra história. E de repente ele começa a falar em tom poético, como se tivesse vivendo um drama grandioso, sendo que ele só teve um acidente idiota! O cineasta busca qualquer oportunidade pra mostrar tragédia, personagens "contemplativos" diante da morte, glamourizando o sofrimento humano (não em contraste com valores positivos na história, mas como um fim em si mesmo). Há uma série de acidentes banais (portas que emperram, trens de pouso que enguiçam, etc) só pra mostrar atores com expressões de desespero. (Minha postagem Emoções Irracionais resume bem o filme.)

- Não temos a menor noção de onde estão os inimigos, de quanto tempo falta pra eles chegarem, em quantos eles estão, por onde chegarão, etc... Imagina assistir Titanic sem ter uma ideia de quanto tempo demora pro navio afundar, quanto tempo falta pro resgate chegar, o quão letal é a temperatura da água, etc.

- Todo esse "respeito" que Nolan tenta demonstrar pelo cinema, pela tradição, no fim parece uma grande farsa. Ele grava o filme em 70mm, se apresenta como um defensor da verdadeira experiência cinematográfica, se coloca contra Netflix, ver filme em telas pequenas, etc, mas ao mesmo tempo ele joga no lixo aquilo que é o principal de tudo: a arte de contar histórias. Ele só quer que as pessoas vejam o filme dele em IMAX porque ele sabe que ele não tem nada a oferecer além de imagens e sons impactantes. Se você vê um filme do Kubrick em casa numa VHS velha, ainda é um ótimo filme. O que sobraria de Dunkirk? As pessoas acham que Nolan é o diretor que trouxe de volta a inteligência pros blockbusters, que ele representa uma união entre o cinema comercial e o cinema de arte, entre "corpo e mente", mas no fundo ele é apenas "corpo". Apenas experiência sensorial, sem conteúdo. Não é muito diferente de um Transformers, uma experiência audio-visual desmiolada - a diferença é que Transformers não finge ser algo mais sofisticado do que é.

- Toda essa sub-trama dos soldados escondidos no casco do barco é muito mal desenvolvida: os inimigos praticando tiro ao alvo justo onde eles estão, a ideia deles esperarem a maré subir pra poderem fugir, depois tentando tampar os buracos de bala com as mão pra água não entrar - é tudo muito forçado e mal conduzido. O diretor inventou que não pode mostrar nenhum inimigo no filme, mas isso acaba tornando cenas como essa confusas e irreais.

- SPOILER: Quando chegam os barcos no fim pra resgatar os soldados, eles surgem como um milagre. Não é um "pay-off" pra algo que já estava sendo desenvolvido na trama, é apenas uma solução mágica que cai no colo deles. Não é um resultado satisfatório pra decisões tomadas pelos protagonistas ao longo do filme. E esses barquinhos vão conseguir resgatar 400.000 homens?!

- Mal dirigida a sequência do avião sem combustível no fim que consegue abater o outro avião. E por que todo mundo começa a aplaudir, a musica fica épica? O filme quer dar a sensação de que esse foi o "ataque final", o mais perigoso do filme, e que agora todos estão a salvo e o filme pode acabar. Mas na realidade foi apenas mais 1 ataque como dezenas de outros que ocorreram. Não há nenhuma dinâmica, nenhuma construção ao longo do filme... Ele começa mostrando soldados sendo atacados, e 1 hora e meia depois ainda está mostrando soldados sendo atacados nas mesmas condições. Não houve uma "vitória" especial agora, um senso real de desfecho.

- Péssima toda essa música triunfante no fim, o discurso emotivo, tentando criar uma emoção artificial no espectador, sendo que o filme não se importou em fazer a gente se envolver com ninguém desde o início.

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CONCLUSÃO: O nada mais grandioso do ano.

Dunkirk / Reino Unido, Países Baixos, França, EUA / 2017 / Christopher Nolan

FILMES PARECIDOS: O Regresso (2015) / Interestelar (2014) / Gravidade (2013) / A Árvore da Vida (2011)

NOTA: 3.5

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Emoções Irracionais

Na postagem Os 4 Pilares do Entretenimento, eu disse que Objetividade é uma das qualidades fundamentais dos bons filmes, e que em geral os filmes comerciais respeitam esse princípio, que é mais desafiado por filmes alternativos, abstratos, pós-modernistas, etc.

Mas existem formas em que até os filmes comerciais podem trair esse princípio - não por um desejo consciente de tornar a experiência subjetiva, e sim por uma falta de habilidade dos próprios criadores.

Vou especificar aqui uma maneira particular em que os filmes podem trair esse princípio da Objetividade:

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Os filmes podem tentar provocar emoções / reações / impressões de forma racional ou irracional no espectador.

Uma "emoção racional" é quando o filme apresenta fatos, eventos, e espera que o espectador reaja / se emocione com base nesses fatos, após assimilar aquilo que viu, e julgar de acordo com seus valores.

Uma "emoção irracional" é quando o filme tenta provocar emoções de maneira direta, "analógica", apelando para os instintos primários do espectador - por exemplo, usando música, fazendo o atores emularem certas emoções na tela e esperando que a mesma emoção surja no espectador por "osmose", driblando a mente e apelando diretamente para o lado mais emotivo da plateia.

Não estou sugerindo aqui que esses recursos (trilha sonora, interpretação) sejam maus - apenas que eles não devem tentar substituir os fatos e o conteúdo da história. Nos bons filmes, as 2 coisas acontecem em conjunto: a história te conduz a uma certa emoção, e daí o cineasta utiliza todos os "truques" cinematográficos junto com os atores pra tornar aquela emoção mais vívida, intensa, real.

Os bons cineastas pressupõem sempre que o espectador seja racional e não esteja sujeito a manipulações baratas. Infelizmente, a verdade é que a maior parte da plateia está sim sujeita a essas manipulações, e responde prontamente a impressões superficiais, aparências, sensações, reações, como se fossem equivalentes a fatos.

Por causa dessa deficiência, alguns filmes e cineastas conseguem se tornar extremamente populares, apenas por saberem apertar esses "botões" e apelarem para o lado irracional dos espectadores (assim como um político pode chegar à presidência de um país sem ter nada de coerente para dizer, sem explicar claramente seus planos, apenas conseguindo criar certas emoções em seus discursos, sendo um bom show-man, desenvolvendo seu carisma e sua imagem pessoal, passando um "ar" de poder e respeitabilidade que não estão fundados na realidade).

Pra ilustrar o que seriam emoções racionais, vamos pegar como exemplo o filme E.T. - O Extraterrestre (1982). Certamente a performance de Henry Thomas, os efeitos especiais, a música de John Williams contribuem muito para o impacto emocional do filme. Mas se o espectador se emociona no final, na sequência de despedida, por exemplo, não é apenas porque os personagens estão chorando em sua frente e a orquestra está tocando uma música bonita - e sim porque os eventos da história o prepararam para aquele estado (talvez para o espectador puramente emocional, bastassem as lágrimas, as reações e a música fora de contexto, mas um bom filme sempre tentará atingir o espectador consciente).

Por que a plateia está correta em ficar triste com o fato de E.T. ir embora? Porque o filme estabeleceu, cena após cena, ao longo do filme inteiro, que E.T. é um valor importante para o protagonista. Nós primeiro vimos como era a vida de Elliott antes da chegada de E.T. (uma criança que ninguém levava a sério, levando uma vida comum, tentando fazer parte da turma sem sucesso, sendo perturbado pelos colegas da escola, pelo irmão mais velho, etc), e depois vimos como E.T. transformou tudo isso para melhor. Como ele fez de Elliott um garoto mais forte, responsável, respeitado, tornou sua vida mais excitante, grandiosa, etc. E tão importante (ou mais) que E.T. ser um valor para Elliott, é o fato de E.T. ser um valor pra plateia - pelo personagem ter tornado a experiência do espectador mais agradável. Ao longo do filme, E.T. foi o causador de uma série de emoções prazerosas na plateia. O espectador riu com seu jeito atrapalhado, se encantou com seus poderes mágicos, etc. Então quando E.T. vai embora, a plateia não se comove apenas por consideração a Elliott, mas também por interesse próprio, porque o espectador também sentirá falta do personagem e das emoções positivas associadas a ele:

https://www.youtube.com/watch?v=gTVoFCP1BLg

Ou seja, o espectador tem razões palpáveis pra se emocionar no final. De maneira simplificada, podemos colocar dessa forma: o espectador fica feliz quando um personagem que foi estabelecido como uma boa pessoa conquista algo que foi estabelecido como desejável e de primeira importância pra ele (especialmente quando isso também é essencial pra felicidade / prazer do espectador na história). E o espectador fica triste quando um personagem que foi estabelecido como uma boa pessoa perde algo que foi estabelecido como desejável e de primeira importância pra ele (especialmente quando isso também era essencial pra felicidade / prazer do espectador na história).

Não adianta mostrar uma mãe perdendo um filho, filmar uma cena trágica de guerra, e achar que isso automaticamente comoverá o espectador por serem coisas "intrinsecamente" tristes. Isso não irá convencer o espectador consciente, que tem controle sobre suas emoções. Mas se a abordagem do cineasta for correta, ele poderá comover o espectador até com a "morte" de objetos inanimados, como por exemplo a bola de vôlei do filme Náufrago (2000).

https://www.youtube.com/watch?v=LHtgKIFoQfE

Estou focando aqui na emoção de tristeza, mas isso vale pra todas as emoções e reações que um filme pode causar: um senso de vitória, a surpresa de uma reviravolta na trama, um sentimento romântico, etc. Há sempre a maneira racional de provocar essas emoções, e a maneira falsa, desonesta, que apela pra impressões, aparências, clichês, etc.

Imagine por exemplo um filme de esporte onde os heróis precisam vencer a disputa final. Pro espectador ficar feliz com a vitória, algumas coisas teriam que ser estabelecidas antes. Primeiro, os protagonistas têm que ser pessoas boas pelas quais vale a pena torcer. Depois temos que ter uma noção da importância da vitória pra eles. O que aquilo significará, que mudança irá trazer... E temos que saber do lado negativo também. O que de ruim pode acontecer caso eles não conquistem esse objetivo, e também por que os adversários não merecem a vitória. O espectador tem que ter também um "gostinho" das emoções negativas de desilusão, derrota, vergonha ao longo da história, pra que daí sim, quando ocorrer a vitória, ele tenha uma base pra ficar feliz. Essa seria a forma de criar uma emoção racional.

Ainda assim, através do poder do cinema, é possível provocar arrepios e reações superficiais no espectador simplesmente através da técnica, da manipulação, do uso da música, apelando pro subconsciente, etc. E muitas vezes, mesmo o espectador racional pode se ver "caindo" nessa manipulação - se arrepiando contra sua vontade, com um misto de prazer e ressentimento... mas serão sempre emoções descartáveis se sua mente não estiver igualmente comprometida com a história.

Alguns dos mestres das emoções irracionais atualmente são cineastas como Christopher Nolan e M. Night Shyamalan, provavelmente por serem ótimos diretores mas não tão brilhantes como roteiristas.

Peguem por exemplo a cena do filme Interestelar (2014) onde o personagem do Matthew McConaughey, que está há anos numa missão espacial, abre mensagens de vídeo de seus filhos na Terra e começa a chorar:

https://www.youtube.com/watch?v=MoLkabPK3YU

Se nos emocionamos com essa cena, não podemos dizer que é pelo apego que tínhamos em relação aos personagens dos filhos, pela importância que o protagonista atribui à paternidade, etc. A emoção vem fora de contexto, simplesmente por causa da performance do ator, da música, da edição, e por causa da vaga noção de que é triste estar separado de seus filhos. Nada que tenha de fato sido estabelecido como um valor dentro do contexto da história. Se Interestelar fosse um livro e lêssemos essa cena no papel, ela dificilmente teria um grande impacto emocional, pois estaríamos apenas lidando com os fatos da história, sem o poder do cinema de forjar certas sensações.

Em muitos de seus filmes, Nolan usa métodos parecidos pra provocar a impressão de profundidade e inteligência. Em vez de apresentar uma série de fatos e eventos palpáveis, e esperar que a plateia enxergue sozinha a inteligência naquelas associações, e com isso ficar inspirada, Nolan apela para o irracional: confunde o espectador com tramas obscuras, impedindo que ele tenha uma medida exata daquilo que está sendo afirmado, toca em temas técnicos e confusos como viagem no tempo, física quântica, o funcionamento do cérebro, etc, deixando o espectador "desarmado", sem o poder de julgar os fatos com clareza, e em cima disso, usa sua habilidade de causar emoções pra criar a impressão de um acontecimento profundo, arrebatador, com atores fazendo expressões de espanto, uma música épica tocando, etc.

Shyamalan é outro que apenas ocasionalmente consegue provocar emoções de maneira racional. SPOILER: Em seu último filme Fragmentado (2016), há um momento no final onde aparece o personagem do Bruce Willis, que conecta o filme com o universo de Corpo Fechado (2000):

https://www.youtube.com/watch?v=T4drX5Xzo5o

A revelação só parece impactante por causa da maneira como a cena é dirigida: a música edificante, a câmera se aproximando lentamente, a aparição inesperada de Bruce Willis, etc. Mas é uma reviravolta que não tem qualquer consequência pra história que acabamos de assistir, pros destinos dos personagens que estávamos acompanhando, e a conexão com o filme Corpo Fechado não parece especialmente lógica ou engenhosa a ponto de ficarmos admirados pelo roteiro. O filme simula muito bem a emoção de uma surpresa arrebatadora, mas não consegue suportar essa emoção com fatos. Algo bem diferente do final de O Sexto Sentido (1999), onde de fato tínhamos razões para ficarmos espantados.

Ou seja, estou apenas diferenciando o método que diferentes cineastas usam pra provocar impressões na plateia, e não o conteúdo dessas impressões. Um filme pode utilizar do método certo, e ainda assim desagradar o "espectador racional", caso ele esteja projetando valores que vão contra os seus.

No filme recente Okja (2016), eu critiquei a tentativa do filme de criar empatia pelo animal mostrando que ele morreria pela garotinha (o ideal do auto-sacrifício), dando ênfase em suas fezes em tom de humor, etc. Minha crítica aqui não é em relação ao método (racional ou irracional). O método está certo: o filme tenta criar uma emoção de afeto mostrando a relação entre o animal e a garotinha, apresentando as qualidades do bicho através de ações, cenas, etc. Minha objeção aqui é em relação ao conteúdo, pois não acho que as qualidades demonstradas pela criatura sejam de fato atraentes.

domingo, 23 de julho de 2017

Em Ritmo de Fuga

NOTAS DA SESSÃO:

- Horrível esse começo com o Ansel Elgort dançando no carro enquanto os amigos cometem o assalto (isso nem combina com o personagem, que é tão introvertido que mal abre a boca). O que há de engraçado no fato deles serem criminosos? Não há nenhum contexto que justifique esse humor por enquanto - exceto a noção de que, no cinema, bandidos são automaticamente "cool" por algum motivo.

- A perseguição de carro em seguida é muito bem feita. Ao longo do filme o diretor demonstra bastante estilo, domínio técnico - capricho na edição, nos movimentos de câmera, na integração entre música e imagem, etc. A direção parece o grande destaque do filme.

- Todo o cinismo tira um pouco da minha boa vontade (compromete o pilar da Benevolência). Primeiro o fato do filme glamourizar bandidos. Depois tem o lance da trilha sonora - o uso de músicas antigas alegres em tom sarcástico (como fazem em Guardiões da Galáxia, Perdido em Marte, etc).

- O romance do Baby com a garçonete (Lily James) é bem superficial, não chega a criar um novo interesse dramático. Os personagens não são muito bem desenvolvidos.

- Falta certo conflito na história. Baby está meio que sendo "forçado" a participar dos assaltos, mas ele não parece resistir à situação de nenhuma forma. Não parece ter um grande conflito moral (está até fazendo dinheiro com isso), ou um plano pra se vingar do Kevin Spacey, etc. Ele não tem um objetivo muito forte, apenas obedece o grupo. A história não é motivada por ele. As coisas que acontecem ao longo do filme (toda a trama dos assaltos) não são interessantes pra plateia, pois são apenas um serviço que o protagonista faz de forma apática, não por um desejo pessoal.

- Pelo menos mais pro final do filme ele começa a planejar escapar, o que cria um conflito mais interessante entre ele e os outros do grupo.

- SPOILER: Mas a maneira como ele é "desmascarado" é muito forçada (a história dele estar usando o gravador; depois associarem magicamente que a Debora da fita é a mesma Debora da lanchonete, etc).

- SPOILER: Forçado também o Jon Hamm ser baleado na lanchonete, não morrer, ainda conseguir alcançar o Baby, depois escapar do carro quando cai do prédio... E ele nem era o vilão do filme. Nem havia uma rivalidade pessoal entre ele e o Baby que dê intensidade e sentido pra esse confronto épico no fim (o Jamie Foxx e o Kevin Spacey eram muito mais inimigos do que ele).

- SPOILER: Baby rouba uma série de carros, assassina o Jamie Foxx, destrói um monte de propriedade... E ainda é pra acharmos que ele é um cara inocente que apenas se meteu numa confusão sem querer. Que bom que pelo menos ele vai preso no fim pra dar uma equilibrada na ética do filme.

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CONCLUSÃO: Filme ágil, bem editado, filmado, etc, mas que está mais preocupado em parecer "cool" do que em provocar emoções verdadeiras ou contar uma história interessante.

Baby Driver / Reino Unido, EUA / 2017 / Edgar Wright

FILMES PARECIDOS: Dois Cara Legais (2016) / Scott Pilgrim Contra o Mundo (2010) / Beijos e Tiros (2005) / Pulp Fiction: Tempo de Violência (1994)

NOTA: 6.0

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Carros 3

NOTAS DA SESSÃO:

- As cenas de corrida no início não empolgam. O filme não consegue mostrar as qualidades que tornam McQueen o melhor corredor. Ele apenas faz "cara de força" e ultrapassa os outros carros facilmente. Em termos de ação as cenas também são chatas (até por esse ser um esporte meio monótono e previsível, tirando os acidentes).

- O filme insiste nessa ideia tradicionalista de que as técnicas do passado eram melhores, mas não explica por que, nem qual o problema com as técnicas atuais.

- Toda a história de superação do McQueen não funciona direito. Ele não tem uma motivação pessoal interessante, um desejo de realizar algo admirável que a plateia ainda não tenha visto (o personagem é desinteressante, comum, assim como os coadjuvantes). Quer apenas vencer por vencer, pra derrotar o adversário que é metido e agora passou na frente dele. É uma meta subjetiva, baseada numa rivalidade tola, sem carga emocional. E já vimos ele vencendo diversas vezes no começo do filme. Vê-lo fazendo cara de força mais uma vez no final e vencendo mais um adversário não é uma boa motivação pra plateia.

- O filme quer passar a ideia de que, pra vencer, você precisa praticar, treinar, se exercitar, buscar técnicas diferentes das do adversário. Mas não mostra nada que pareça minimamente plausível ou inteligente a partir disso. O espectador não absorve nenhum conceito ou informação que pareça ter qualquer utilidade na vida real. A única "sacada" é a velha ideia de que as técnicas tradicionais são as melhores. Que treinar com equipamentos high-tech não adianta: é preciso se sujar, correr na areia, na lama, na terra, ser "old school". Além disso não ser nenhuma novidade pro McQueen (ele já corria na terra na parte 2), é uma ideia sem sentido. Se ele quer ser o melhor em uma pista de asfalto, ainda mais num esporte tão tecnológico onde tudo é tão milimétrico e cada detalhe é tão decisivo, por que faz sentido ele correr em todo tipo de lugar exceto em pistas como as que acontecem a corrida? Não há muita inteligência na história.

- Meio falso a Cruz Ramirez ser a melhor treinadora do mundo sendo tão jovem e sem nunca ter competido 1 única vez na vida. Pelo menos é um drama mais forte que o do McQueen - dá pra torcer pra que ela explore mais o seu potencial, deixe de ser reprimida, etc.

- Filmes da Pixar mesmo quando são fracos costumam ser ter muitas ideias criativas na composição do universo dos personagens (por exemplo, como funciona o cérebro em Divertida Mente, etc). Esse aqui é bem baixo em criatividade, e o humor também é fraco.

- Frustrante a treinadora ganhar do McQueen nos exercícios. Quer dizer que mesmo com as melhores técnicas do mundo, McQueen não conseguirá se superar?

- SPOILER: Revoltante o McQueen se sacrificar no final e deixar a treinadora competir no lugar dele. Finalmente entendemos porque a história estava tão chata, pouco convincente: é que a intenção do filme nada tinha a ver com mensagens inspiradoras, com o desejo de estimular a autoestima das crianças, etc. No fundo é apenas mais uma animação infantil promovendo coletivismo, altruísmo, que estava apenas disfarçada de história motivacional. Por isso pouco importava o que McQueen fazia nos treinos, se eram coisas plausíveis ou não, pouco importava fazer o espectador torcer por ele. Toda essa pseudo-trama seria jogada fora no fim pra celebrar a Cruz Ramirez. No fim, o grande herói americano cede espaço para a mulher latina (Disney e suas agendas políticas "sutis")! É um insulto à inteligência da plateia dizer que uma novata que NUNCA competiu na vida entraria pela primeira vez numa corrida de verdade e venceria o adversário que nem o melhor do mundo conseguia superar.

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CONCLUSÃO: Uma das produções mais esquecíveis e desnecessárias da Disney / Pixar.

Cars 3 / EUA / 2017 / Brian Fee

FILMES PARECIDOS: O Bom Dinossauro (2015) / Detona Ralph (2012) / Turbo (2013)

NOTA: 4.0

quarta-feira, 19 de julho de 2017

A Coisa Mais Simples do Mundo

Pessoal, o curta-metragem que fiz ano passado já está disponível no YouTube. A história foi adaptada do conto The Simplest Thing In the World da Ayn Rand, que aparece no livro The Romantic Manifesto. Se curtirem, ajudem a divulgar - e quem tiver conta no IMDb passa lá depois, agora quem define a NOTA são vocês ;)

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt6352292/


sexta-feira, 14 de julho de 2017

Fala Comigo

Longa de estreia do brasileiro Felipe Sholl sobre um garoto de 17 anos que se envolve com uma das pacientes de sua mãe (psicóloga) que tem mais do dobro de sua idade. O filme tem algumas boas performances e um enredo simples mas que se mantém estimulante do começo ao fim. Meu maior problema com a história (além de algumas manobras improváveis da trama) foi aceitar e torcer pelo romance entre os dois, que acaba de fato parecendo desequilibrado, imaturo, e me deixou torcendo mais pela mãe do garoto (Denise Fraga), que tenta impedir a relação, do que pelos desejos do casal. Desde o começo fica claro que o garoto apenas tem uma tara por mulheres mais velhas - ele não se apaixona especificamente pela personagem da Karine Teles por suas qualidades pessoais, por uma compatibilidade especial entre os dois que seja compreensível pra plateia. Fica difícil entender o que um garoto como ele veria numa mulher como ela. Em filmes sobre relações improváveis como essa, como A Primeira Noite de um Homem ou O Medo Consome a Alma, o parceiro tem sempre uma "virtude compensatória" que acaba ofuscando as diferenças, o que não vemos direito aqui. Ela, por outro lado, já se mostra uma mulher dependente, psicologicamente instável, que mergulha nessa nova relação de forma irresponsável simplesmente pra fugir da depressão e esquecer o ex-marido. Ou seja, se a intenção do filme era a de quebrar tabus, mostrar que toda forma de amor é bonita e válida, ele acaba não funcionando muito bem (pelo contrário, alguns detalhes sexuais acabam até beirando o repulsivo). Ainda assim é um filme que, com um mínimo de recursos, consegue tirar algumas boas reações da plateia.

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Fala Comigo / Brasil / 2017 / Felipe Sholl

FILMES PARECIDOS: Que Horas Ela Volta (2015) / Casa Grande (2014)

NOTA: 5.5 

sábado, 8 de julho de 2017

Homem-Aranha: De Volta ao Lar

NOTAS DA SESSÃO:

- Interessante a introdução - mostrar os trabalhadores que limparam os destroços em Nova York depois da batalha dos Vingadores, etc. Dá um toque realista que torna todo o universo Marvel mais convincente.

- Tom Holland convence no papel, é simpático, mas o personagem em si não é dos mais empolgantes (há alguns sinais do Herói Envergonhado). O maior esforço aqui está em mostrar como ele é comum, desastrado, um garoto como qualquer outro da plateia, e não alguém excepcional.

- Outro sinal de que o filme está querendo agradar os politicamente corretos são esses personagens coadjuvantes (como Ned) que parecem ter sido escalados só pra dar um ar "multicultural" pra produção - e não porque eles são particularmente carismáticos e convencem no papel.

- Referência a Curtindo a Vida Adoidado: se a ideia era que Peter Parker lembrasse Ferris Bueller, os produtores realmente não devem ter assistido ao clássico.

- Michael Keaton é sempre bom ator, mas o vilão em si é fraco. Por que ele vira do mal se era um cara normal no começo? Excesso de poder? Qual sua motivação? Não sabemos que perigo o Homem-Aranha corre. Parece um vilão de segunda-linha, e não uma grande ameaça pra cidade. E também não fica claro o que Peter Parker irá ganhar se derrotá-lo. Se irá de fato ser "promovido" a Vingador pelo Stark ou não, etc.

- O romance também é um tédio. A relação entre os dois não tem nenhum drama, não faz o espectador torcer, não acreditamos que Peter está de fato apaixonado por ela. Tudo que acontece no filme parece mecânico: Peter lutar contra criminosos, se apaixonar... Nada parece vir de dentro dele, de suas convicções, emoções, desejos...

- O traje do Homem-Aranha desenvolvido pelo Stark é ótimo. Divertido ele tentando usar a roupa no "modo avançado" e se confundindo com os novos comandos.

- Desnecessária e sem propósito toda essa sequência em que ele fica preso dentro do galpão. E a cena depois no obelisco é bem tensa e vertiginosa, porém é motivada por um acidente banal, desnecessário (não foi um evento provocado pelo vilão, algo necessário pra trama, etc).

- Fraca a cena de ação na balsa de Staten Island. Dá a impressão que quando o Homem-Aranha tenta ajudar, muito mais desgraça acaba acontecendo. Se o vilão fosse deixado em paz, ele simplesmente estaria traficando algumas armas. Mas quando entra o Homem-Aranha em ação, a cidade começa a ser destruída, a população entra em risco, etc. Sem falar que a ideia da balsa ser partida ao meio e depois remendada sem afundar beira o ridículo.

- Peter ser despedido do "estágio" pelo Stark é legal... Cria uma nova motivação, agora ele precisa se provar e tem a desvantagem de não ter mais o traje.

- SPOILER: Não faz o menor sentido o vilão ser justamente o pai da garota que ele está a fim. É uma coincidência totalmente aleatória que demonstra displicência dos roteiristas (a intenção de integrar o vilão com a vida pessoal de Peter é positiva, mas foi tudo muito mal feito). A maneira como o Michael Keaton descobre que Peter é o Homem-Aranha (na cena do carro) também é bem forçada.

- Que chatice Peter estar sempre decepcionando a menina que ele gosta, largar ela no baile sozinha, etc. Nem faz sentido ele descobrir algo no meio do baile e ter que sair, e daí ser atacado pelo Shocker.. Como o Shocker sabia o que ele iria fazer, etc?

- Não convence também que agora sem o traje, Peter iria conseguir vencer essas pessoas todas que nem antes ele conseguia derrotar. Que chances ele teria contra o Michael Keaton sem o traje? Por que ele vai ao encontro dele naquele galpão então? Óbvio que iria dar errado (como dá). É meio tolo também aquela roupa do Vulture (com tecnologia alienígena) não ter poder pra derrotar o Homem-Aranha, e ser mais prático derrubar o teto do galpão na cabeça dele (!).

- Confusa visualmente (e forçada) toda a sequência de ação no avião. Mais uma vez o Homem-Aranha provoca um desastre muito maior do que seria necessário pra combater o tráfico das armas. Sem ele o avião não teria caído.

- SPOILER: No fim o Michael Keaton não é pego por mérito do Homem-Aranha, e sim porque o traje dele dá um defeito inesperado.

- Parece que matar o vilão hoje em dia é muito cruel, então o Homem-Aranha tem que mostrar compaixão, tentar salvar sua vida, etc.

- SPOILER: O final é uma chatice. Não só o "romance" termina num tom desagradável, a menina sem entender porque Peter a tratou mal o filme inteiro... Como depois ele é promovido a Vingador pelo Stark, recebe tudo o que sonhava, mas daí rejeita o convite!!!!!! É patético. O filme quer mostrar que o herói é "maduro" por abrir mão do sucesso, por sacrificar sua glória em nome de "metas pessoais" mais nobres que nem entendemos direito quais são.

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CONCLUSÃO: "Padrãozinho" da Marvel prejudicado por alguns descuidos de roteiro e algumas das tendências ruins da atualidade.

Spider-Man: Homecoming / EUA / 2017 / Jon Watts

FILMES PARECIDOS: Capitão América: Guerra Civil (2016) / Homem-Formiga (2015)




NOTA: 5.5 

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Os 4 Pilares do Entretenimento

Na minha filosofia de entretenimento, os grandes filmes (e isso vale pra qualquer arte) são aqueles que melhor satisfazem esses 4 desejos:

1. O desejo por Objetividade
2. O desejo por Autoestima
3. O desejo por Benevolência
4. O desejo por Diversão

Vou expandir um pouco cada um desses termos pra gente compreendê-los melhor.

(Para mais ilustrações e exemplos relacionados a esse tópico, recomendo que vejam também minhas postagens: O Que Nos Atrai à Arte?, Senso de VidaVirtudes e Tipos de Filmes e O Que o Cinema Pode Aprender com o Futebol)

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1. OBJETIVIDADE

É o desejo de entender o mundo, de ver ordem no universo, de ter confiança em nossas capacidades cognitivas, de saber da verdade por trás das coisas. Uma obra de arte pode satisfazer esse desejo através de seu conteúdo, mostrando uma trama inteligente, expondo as motivações por trás das ações dos personagens, por exemplo, mas principalmente através de seu estilo, na maneira como o artista comunica suas ideias, conduz a atenção do espectador, demonstra seu talento, apresenta conceitos em sua obra, nas técnicas que ele usa pra expressar valores e criar emoções, na maneira como ele retrata a realidade, o ser humano, tornando claro e compreensível aquilo que muitas vezes é caótico e confuso na vida real.

Esse conceito de Objetividade é muitas vezes uma pré-condição pra expressão de todos os outros valores nessa lista, e costuma ser naturalmente respeitado por obras que têm algum tipo de pretensão comercial, sendo desafiado apenas por artistas mais alternativos ou experimentais (ou por aqueles que simplesmente não têm habilidade de se comunicarem objetivamente / ou por aqueles que querem de propósito dar um toque experimental em obras comerciais por acharem que isso as tornará mais sofisticadas).

É por isso que eu valorizo tanto a clareza na direção cinematográfica, na condução da trama, e por isso sou crítico em relação a filmes Naturalistas, pós-modernos, que pretendem retratar a realidade de maneira ambígua, superficial, ou pior, criar um estado de confusão ainda maior do que o que temos num estado normal de consciência, diminuindo (em vez de aumentar) a confiança do espectador no poder de sua mente.


2. AUTOESTIMA

É o desejo humano de se sentir importante, especial, capaz, orgulhoso, de obter respeito e ser reconhecido por suas virtudes, de ser o melhor em algo, de acreditar no seu potencial individual, de acreditar a vida pode ser grandiosa. Uma obra de arte não consegue de fato dar autoestima a uma pessoa, mas pode simular / incentivar essa emoção, e lhe dar estímulo e confiança para conquistá-la em sua vida pessoal. Como sempre, a obra pode satisfazer esse desejo através do conteúdo (retratando um herói admirável, contando uma história de superação, com eventos grandiosos, por exemplo), mas principalmente através do estilo - das virtudes demonstradas pelo artista na realização da obra em si (virtudes como domínio técnico, originalidade, inteligência, profundidade, etc), provocando a admiração do espectador pelo trabalho em sua frente (ou seja, mesmo uma obra que retrate personagens maus pode ser inspiradora nesse sentido).

É por isso que sou crítico em relação a filmes Naturalistas, que não só costumam retratar personagens comuns, sem grandes virtudes, com vidas simples, como também não demonstram grandes virtudes técnicas por parte do cineasta, que estão mais focados no retrato da realidade, na mensagem social, etc. E é por isso também que eu critico certas tendências atuais que vão contra a autoestima, como o fenômeno do Herói Envergonhado ou Romantismo Reprimido.


3. BENEVOLÊNCIA

É o desejo de acreditar que o universo é um lugar receptivo para o ser humano, harmonioso, onde a felicidade é possível e nossos valores podem ser atingidos. Que os homens podem ser perfeitamente morais, felizes, e que seus interesses não precisam estar em conflito. Que conflitos, a dor e o mal não são o estado natural da vida, e sim coisas para serem superadas. É um certo respeito pela inocência da infância, pela visão daquilo que o mundo poderia e deveria ser (mesmo um filme com final trágico ou um filme sobre um personagem decadente pode ter o valor da Benevolência, desde que ele culpe os resultados trágicos nas irracionalidades dos personagens, e não na vida em si, na natureza humana, etc). Isso pode ser visto no conteúdo - em histórias onde o bem é retratado positivamente e o mal negativamente, onde os personagens têm livre arbítrio e o poder de atingirem seus objetivos, mas também na forma, na atitude geral do artista em relação ao público: na escolha de mostrar beleza, de se comunicar com o espectador, falar de assuntos que lhe interessam, mostrar relacionamentos atraentes entre os personagens, no desejo de provocar emoções prazerosas e inspiradoras no espectador, agradar seus sentidos, se adequar às suas necessidades, etc.

É por isso que sou crítico em relação a filmes com um Senso de Vida malevolente, valores destrutivos, filmes que cultuam a violência de forma inapropriada, glamourizam o sofrimento, que focam apenas em relacionamentos negativos, que enaltecem personagens cínicos e imorais, que dizem que o ser humano é fraco e impotente, que são feitos pra expressar os sentimentos agressivos do artista em relação à plateia, etc.


4. DIVERSÃO

É o desejo por estímulo, excitação, prazer, emoções intensas, o desejo de fugir do tédio, da monotonia do dia a dia e dos estados normais de consciência, das regras e dos deveres chatos impostos pelos outros e pela sociedade. É o desejo de tornar a vida interessante e prazerosa. É o que nos faz buscar risada, aventura, catarse, magia, êxtase, adrenalina, terror, lágrimas, surpresas, etc. Isso pode ser visto no conteúdo de uma obra - por exemplo, em filmes onde os personagens passam por grandes aventuras, situações cômicas, vivem momentos de tensão, etc, mas principalmente no estilo, no método em que a história é contada: se há suspense, envolvimento, surpresas, emoções intensas, se o ritmo é estimulante, se os eventos apresentados são incomuns, etc (ou seja, mesmo um filme sobre uma história trágica ou um monólogo podem ser "divertidos" nesse sentido).

É por causa do pilar da Diversão que enfatizo tanto a questão da narrativa, do envolvimento na história, do clímax, o Princípio da Ascensão, os Set Pieces, e é por isso também que critico filmes Naturalistas, sem trama, ou filmes que colocam a função social / educativa / jornalística da obra acima da experiência da plateia.

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Ou seja, todo filme que eu avalio negativamente aqui no blog, é porque de alguma forma ele desrespeitou ou não foi bem sucedido em erguer esses 4 pilares, todos eles indispensáveis em algum nível.

Notem que em muitos pontos essas ideias começam a se sobrepor, e que é impossível expressar 1 desses valores sem começar a expressar alguns dos outros também. Por exemplo: pra demonstrar virtudes e inspirar Autoestima no espectador, é preciso primeiro que exista o valor da Objetividade em algum nível. E ao estimular esse sentimento de Autoestima na plateia, haverá também um senso de Benevolência envolvido na experiência.

Em postagens futuras posso explorar melhor algumas questões que possam surgir a partir daqui, como por exemplo o princípio do contraste. Pensem comigo: pra expressar o senso de Benevolência de maneira satisfatória, é preciso incluir uma certa dose do oposto disso na obra (medo, pessimismo, rejeição, etc), pois a mente percebe valores através de contrastes e comparações. Ou seja: pra ficarmos felizes que o casal fica junto no final, é preciso antes sentir o medo da perda. Pra ficarmos admirados com a superação do herói, é preciso antes sabermos de suas vulnerabilidades e temermos uma possível derrota.

Outra questão importante pra ser discutida é a do relativismo moral. Por exemplo: se uma pessoa acha que a razão é algo destrutivo e opressor, e sente um grande prazer vendo uma obra niilista pós-moderna, isso significa que a obra gerou Benevolência? Se uma pessoa frustrada com a própria vida sente satisfação ao ver o infortúnio de pessoas virtuosas, isso torna a obra Benevolente? Ou se um artista pouco confiante vê uma obra mediana e sente um certo alívio, isso gerou Autoestima? Se uma pessoa fuma crack diariamente e está a caminho da morte, o crack gera Diversão?

Minha resposta é não, pois acredito numa moralidade objetiva - ou seja, que aquilo que é bom, é bom porque de fato promove a vida, torna o ser humano mais apto a lidar com a realidade, viver uma vida saudável, bem sucedida, feliz, sem contradições, e portanto não pode ser considerado mau por outra pessoa, e vice versa.

Claro que no meio disso tudo há muito espaço para discussão, gostos individuais, diferenças perfeitamente aceitáveis entre as pessoas, o que não invalida a objetividade de certos princípios morais básicos.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Meu Malvado Favorito 3

NOTAS DA SESSÃO:

- Logo de cara fica clara a baixa pretensão artística / criativa do filme. Ideias fracas como a do chiclete gigante que faz levitar o navio; o desenvolvimento tolo da trama (a maneira como o vilão rouba o diamante); músicas pop ou cenas de dança que surgem aleatoriamente só pra manter um clima animado, etc.

- A produção é vazia de valores de entretenimento. Nem os Minions que são divertidos têm grandes momentos de humor, piadas bem elaboradas. E o filme é todo meio contaminado pelas tendências culturais atuais que são adversas ao romantismo. Eles tentam criar um entretenimento inteiro evitando justamente as emoções que são a alma do entretenimento, e que são consideradas tabu por certos grupos, como a ideia de autoestima. É mais ou menos o que digo nos textos Herói Envergonhado ou Romantismo Reprimido. Mas aqui me parece mais uma espécie de Veganismo Cultural (ideia pra um futuro post). Uma tentativa de alimentar o espírito das crianças mas proibindo as substâncias que realmente proporcionariam prazer e satisfação. "As crianças não devem se sentir especiais ou importantes, e elas também não devem ter ambição nem sonhar muito alto, então vamos garantir que não haja nenhum personagem atraente no filme, e que as crianças em particular sejam fisicamente feias na história, e que ninguém tenha um humor inteligente demais, e que o heroísmo retratado na aventura não seja convincente nem inspirador, apenas uma ação tola e irreal, e vamos inserir uma sequência que nada tem a ver com o filme onde a filha do Gru aprende que unicórnios não existem, só pro público infantil já ir se acostumando com desilusões e a reprimir seus desejos."

- Claro que os anos 80 têm que ser retratados de maneira cínica pelo filme (afinal, nada mais oposto ao "veganismo cultural" que eles propõem do que os anos 80) - tudo ligado à época parece meio patético e está associado ao vilão. O lado bom é que acabam tocando algumas músicas boas no filme (embora sob uma luz feia).

- Falta um mínimo de bom senso e plausibilidade na história. Que história é essa de ter que escalar a torre até um cubo mágico gigante no meio do mar? Depois que eles fogem com o diamante, como é que o vilão escapa do chiclete, coloca a máscara da Lucy, pega um helicóptero e consegue enganar o Gru em tão pouco tempo? É um tipo de niilismo que só pode fazer mal pro cérebro de uma criança.

- No final temos os anos 80 na forma de um grande monstro que volta pra aterrorizar Hollywood, jogando chiclete em tudo que é lugar e querendo mandar a cidade pro espaço (chiclete é tão doce e divertido que só pode ser obra do demônio).

- Qual o sentido dessa "dance fight" no final? Não tem o menor sentido o Gru propor uma dança na hora do confronto - é só mais uma oportunidade de colocar dancinhas e músicas divertidas no filme pra prender a atenção do público de forma imediatista e vulgar, já que não há emoções mais sólidas sustentando a história.

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CONCLUSÃO: Mais um caça-níqueis esquecível da Illumination Entertainment.

Despicable Me 3 / EUA / 2017 / Kyle Balda, Pierre Coffin

FILMES PARECIDOS: A Era do Gelo: O Big Bang (2016) / Angry Birds: O Filme (2016) / Minions (2015) / Meu Malvado Favorito 2 (2013)

NOTA: 4.0

sexta-feira, 30 de junho de 2017

O Jardim das Aflições

NOTAS DA SESSÃO:

- O documentário tem algumas boas imagens, e o fato de se passar nos EUA dá um ar mais sofisticado pra produção.

- Discordo: que o trajeto natural da humanidade seja o de querer abandonar o mundo real e viver num mundo falso de pensamento. Que viver no meio do mato seja viver no mundo real e viver na cidade seja viver num mundo irreal. Quer dizer que pra vida ser real as pessoas não devem usar a inteligência? Não devem interferir na natureza ao redor delas pra terem uma vida melhor?

- Discordo: que a liberdade tenha diminuído no mundo por causa da tecnologia, pois agora podemos ser vigiados à distância pelo governo, etc. Ele devia falar sobre direitos individuais, liberdade econômica, como cada governo tem agido em relação a isso, etc, e não focar em paranóias, culpar a tecnologia pelos problemas da atualidade.

- Olavo é contra o crescimento do estado, o que eu acho bom. Mas não gosto como ele diz que esse crescimento é inevitável, como se fosse um fato irreversível da natureza. Ele não incentiva ação, mudança. Como é que alguns países então são mais livres hoje do que eram há 100, 200 anos?

- Discordo: que seja mais importante saber a origem de nossas ideias do que os fatos que a suportam. Que a gente precise saber de onde um pensamento veio, se não estaremos sendo controlados por movimentos culturais. O que torna uma ideia válida ou não é sua relação com a realidade... Não importa quando ou por quem ela foi concebida.

- Há um senso de medo e perseguição por trás de tudo o que ele fala.

- Outro problema de Olavo é que ele não é claro e lógico em seu raciocínio. Vai apenas divagando sobre uma série de assuntos, se apoiando em sua enorme biblioteca pra parecer uma autoridade no que fala, mas sem explicar suas ideias racionalmente, sem estruturá-las ou organizá-las dentro de um propósito, etc. Por exemplo: ele começa a falar sobre hereditariedade, sobre o fato de nascermos com certas características que não podemos mudar. Qual o propósito dessa observação? Ele está falando sobre livre arbítrio? Sobre a felicidade humana e o que podemos fazer para atingi-la? Ele acredita que a felicidade seja o propósito da vida? Não sabemos... Não há um contexto claro, um propósito, são apenas "verdades" que ele vai jogando pros espectadores. Mesmo as coisas que eu concordo com ele, não tenho como saber se eu concordo pelos mesmos motivos, qual a razão dele acreditar naquilo, etc. Ele é contra o estado por que? Ele acredita na liberdade? Nos direitos individuais? É a favor do livre mercado? Ele nem toca nesses termos. Só sabemos que ele é contra a esquerda por algum motivo.

- Divertida a passagem onde ele diz que costuma atrair malucos (fato que não me surpreende) - mostra um lado mais leve e pessoal dele com o qual acho mais fácil de me identificar.

- Um absurdo ele, como um homem que se diz interessado no conhecimento, na realidade, dizer que o cristianismo é baseado em fatos, que não há dúvidas que Jesus existiu, ressuscitou, que milagres existem, etc. Não há nenhum esforço da parte dele de argumentar a favor disso, dar exemplos convincentes pra persuadir a plateia de forma honesta. Ele simplesmente afirma as coisas... diz "evidentemente", como se tudo fosse óbvio... O cristianismo está certo, a esquerda está errada, e Olavo só pode estar certo pois leu muito mais livros que você então ele "sabe das coisa".

- Outro absurdo é o trecho em que ele diz que ideias são como tábuas de salvação que os náufragos se agarram pra não afundarem. Que as ideias mais verdadeiras e importantes são aquelas que permanecerão com a gente até no momento da morte. Isso é puro subjetivismo. O fato de uma ideia te confortar no momento da morte não a torna real. Isso é uma tentativa de validar a religião. Ou seja: como na hora da morte ele precisará da religião pra amenizar seu medo (mais uma vez o medo parece estar ditando as crenças de Olavo), então a religião pode ser considerada a ideia mais verdadeira de todas! Não porque ela corresponde aos fatos e porque é necessária para a vida... Mas sim porque ela é necessária na hora da morte! A vida é como se fosse um grande preparo pra morte.

- Todo esse papo sobre a imortalidade também não faz o menor sentido. A ideia de que se uma folha balança numa árvore, isso é um fato eterno que nunca poderá ser desfeito... Isso significa que a eternidade existe? Que eu sou "imortal" só pelo fato de existir? O fato de que eu existo agora certamente nunca deixará de ser um fato. Mas como essa ideia poderia me confortar? Vai me alimentar? Me trazer felicidade? Sucesso? Impedir que eu adoeça, morra? Não... Mas talvez diminua um pouco meu medo na hora da morte, e pra ele isso já é o suficiente.

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CONCLUSÃO: Não acho Olavo de Carvalho mal intencionado, e em sua vida privada ele parece ser uma boa pessoa, mas como filósofo / pensador, não consigo levá-lo a sério (julgando por esse documentário e alguns vídeos que vi no YouTube).

O Jardim das Aflições / Brasil / 2017 / Josias Teófilo

FILMES PARECIDOS: Real - O Plano por Trás da História (2017)

NOTA: 4.0

Okja

NOTAS DA SESSÃO:

- Alerta Vermelho: o discurso inicial da Tilda Swinton passa a ideia de que a indústria e empresários em geral são maus.

- Fofa a Okja, bonitos os efeitos especiais e as locações no começo do filme.

- Mas péssima a tentativa de tornar a criatura simpática dando um close em seu ânus e mostrando fezes saindo por todos os lados (a ideia do filme de "humanizar" um personagem).

- Auto-sacrifício: o filme acha positivo o fato da Okja se jogar do penhasco pra salvar a Mija, como se isso a tornasse um ser melhor (fezes, auto-sacrifício - observem as estratégias que o filme está usando pra tornar Okja uma criatura gostável).

- Performance mais ridícula da carreira de Jake Gyllenhaal. Só o fato do filme escalar um ator tão charmoso quanto ele pra agir de forma constrangedora em frente às câmeras já diz algo a respeito da atitude da produção.

- Por mais triste que seja separar a garotinha de Okja, não dá pra torcer pra que ela invada a empresa, resgate o animal, pois ela estaria cometendo um crime. Okja não é dela, apesar do apego emocional. Se ela tivesse propondo uma negociação amigável, tudo bem, mas ela já chega estilhaçando o vidro da empresa, fazendo vandalismo, etc.

- Todo o conflito é forçado, feito pra gerar confusão, só pra tentar provar a mensagem mal intencionada do filme. Se Okja estava sendo criada pra ser um animal especial, que iria participar de concursos de beleza, etc, ela teria sido criada de fato no meio do mato, sem cuidados especiais? Num lugar que seus "donos" criariam apego por ela ao longo dos anos? E Okja viraria comida assim como os outros super-porcos comuns? O simples fato de Okja ser uma "celebridade" já não impediria a empresa de abatê-la?

- Esses ativistas da Liberação dos Animais são criminosos e o filme os retrata de maneira positiva, como se eles fossem os mocinhos. Eles batem no caminhão da Mirando, causam acidentes, apontam armas contra pessoas inocentes, roubam a propriedade da empresa - mas tudo é válido pois é por uma "boa causa". A narrativa não funciona pois não dá pra torcer nem por eles, nem pela garotinha (a mensagem social do filme está acima da experiência artística, o que é um defeito segundo meus critérios).

- A empresa coloca Okja pra cruzar com outro super-porco, e a cena é mostrada como se Okja estivesse literalmente sendo estuprada!!! Uma prova de que a empresa abusa dos animais (e uma crítica ao machismo talvez??)! Ridículo.

- Paul Dano (o ativista) se mostra uma "ótima" pessoa quando espanca violentamente o amigo por ter traduzido errado o que a garotinha falou. E por que o Paul Dano dá todo esse poder pra Mija de decidir qual o destino de Okja? Se o animal não é da empresa (segundo ele), então teoricamente Okja deveria ser do pai da Mija, e não da Mija que é uma criança - e o pai autorizou que Okja fosse devolvida pra empresa.

- A empresa corta pedacinhos de Okja pra eles provarem sua carne? Antes do concurso de beleza? E as cicatrizes? Obviamente isso não aconteceria (existem milhares de outros super-porcos, e a carne já está sendo produzida em grande escala) - mas claro, o filme precisa provar seu argumento de que os empresários e cientistas são malignos e gostam de torturar criaturas fofas! Como se o fato da humanidade comer carne fosse culpa da indústria, do "consumismo", e não algo que sempre ocorreu em todas as culturas por toda a história.

- Os ativistas são tão "benevolentes" que quando eles invadem a propriedade da empresa e estrangulam os guardas, um deles diz pro guarda: "Eu sinto muito por isso, esse não é um estrangulamento letal"!!!! (Não, isso não é uma piada.)

- SPOILER: No fim Mija consegue comprar de volta a Okja oferecendo ouro pra Tilda Swinton? Por que venderam pra ela agora e não pro pai no começo do filme, que tentou a mesma coisa? E isso é um final "feliz"? Ou o "mal" (a empresa) venceu? Okja voltou pra casa, mas os ativistas não conseguiram parar o consumo de super-porcos. Os outros todos serão mortos. Se o filme fosse apenas sobre a amizade entre Mija e Okja, bastaria as duas ficarem juntas no fim pra haver um final feliz. Mas claramente o filme queria passar uma mensagem maior, pró-vegetarianismo, direitos dos animais, etc. Então esse "final feliz" onde Okja é salva porém milhares de outros super-porcos são mortos acaba tendo um tom inapropriado e inconclusivo.

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CONCLUSÃO: Uma história tola pra te dizer que, se você come carne, você é imoral e inferior aos realizadores do filme (apenas carne vermelha - peixe aparentemente está liberado pois a protagonista pesca no começo do filme e não é retratada negativamente por isso).

Okja / Coréia do Sul, EUA / 2017 / Bong Joon-ho

FILMES PARECIDOS: Zootopia (2016) / Expresso do Amanhã (2013) / Como Treinar o Seu Dragão (2010)

NOTA: 2.5

terça-feira, 27 de junho de 2017

Twin Peaks - Episódio 8

Não é longa mas foi uma das melhores coisas que vi nos últimos anos. David Lynch certamente não é pra todos os gostos, e essa nova temporada de Twin Peaks até agora estava dividindo um pouco as opiniões dos fãs, mas quem curte seu estilo não pode deixar de chegar até (pelo menos) esse 8º Episódio, que é possivelmente uma das horas mais inspiradas de sua carreira.

Não importa a arte, o gênero, o estilo... Ver um artista se superando (ainda mais aos 71 anos de idade) e criando algo realmente extraordinário como Lynch faz aqui é algo que sempre me tira o fôlego.

domingo, 25 de junho de 2017

Ao Cair da Noite

NOTAS DA SESSÃO:

- Fortíssima a sequência inicial (eles tendo que sacrificar o pai da Sarah). Pra quem ainda não sabe sobre o que é a história (como eu), é um início intrigante que levanta uma série de perguntas e gera curiosidade.

- Tudo no filme soa bastante autêntico, autoral, a direção soa "simples" e (talvez por isso) diferente da maioria dos filmes atuais. A fotografia é ótima - os planos mais abertos, sem muitos cortes - há uma qualidade orgânica na imagem que dá a impressão que o filme foi rodado em 35mm (o que eu duvido), e que acaba remetendo a produções dos anos 70/80 (a locação na floresta ajuda também).

- O protagonista (Joe Edgerton) não é um personagem muito gostável - a atitude dele em relação ao invasor (Will) é excessivamente violenta, e mesmo a relação dele com a própria família é meio dura e desagradável.

- Depois que as 2 famílias se juntam na casa e começam a conviver, a história dá uma estacionada. Falta uma ameaça mais específica, algo pro espectador temer, pros personagens buscarem. Dá a impressão que nem monstro vai ter no filme. Que vai ser apenas um filme sobre pessoas confinadas numa casa (tipo Rua Cloverfield, 10). O problema é que nenhum dos personagens é muito gostável e não há nada de divertido pra aguardar na história. O filme é totalmente focado em relações conflituosas. Um grupo não confia no outro, todos são ameaças em potencial, o filme insiste o tempo todo em criar situações desagradáveis entre os personagens: o filho adolescente sendo inconveniente ao dar em cima da mulher do Will, ou então quando ele corre pra floresta atrás do cachorro e leva uma dura do pai, ou quando os 2 homens vão tomar um drink (e quase surge um clima de amizade), mas tudo é arruinado com a mentira que o Will conta a respeito do "irmão", ou a porta vermelha que aparece aberta e cria um clima de medo e desconfiança entre todos. Ninguém vivencia nada de positivo na história do começo ao fim. É só um retrato de gente paranóica, obcecada por segurança, vivendo numa situação horrível pra não serem infectadas por algo que nem sabemos o que é.

- Se formos pensar, a premissa não é muito realista e parece ter sido criada só pelos problemas que iria causar (juntar as 2 famílias na mesma casa, etc). No começo do filme, o Will invadiu a casa pois achou que ela estava vazia. Mas o cachorro latiu dentro da casa enquanto ele tentava arrombar a porta. Como ele achou que ela estava vazia? Por que ele invadiu a casa então se sabia que tinha gente dentro e estava correndo perigo?

- SPOILER: Quando eles começam desconfiar que o filho pequeno do Will pode estar infectado, eles deviam simplesmente expulsar a família da casa, e assim ficaria tudo bem. Mas não: eles decidem permanecer juntos, e claro que não dá certo. O final todo é apenas uma desculpa pra mostrar violência. Não faz nenhum sentido toda essa matança, é um conflito forçado que só serve pra expressar o senso de vida negativo do cineasta - como se tragédia e brutalidade em si fossem sinal de sofisticação, maturidade artística.

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CONCLUSÃO: Bem dirigido, autêntico, bonito visualmente, mas a história é pouco divertida e excessivamente focada no negativo.

It Comes at Night / EUA / 2017 / Trey Edward Shults

FILMES PARECIDOS: O Homem nas Trevas (2016) / Rua Cloverfield, 10 (2016) / A Bruxa (2015) / Ex_Machina: Instinto Artificial (2014)

NOTA: 5.5