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sábado, 12 de janeiro de 2013

O Som ao Redor

Premiado em festivais dentro e fora do Brasil (chegou até à lista dos 10 melhores do ano do A.O. Scott, crítico do New York Times), esse é o primeiro longa de ficção do crítico Kleber Mendonça Filho. O filme se passa num bairro de classe média na zona sul de Recife, onde acompanhamos a rotina dos moradores da região (destacando 2 personagens principais: um corretor de imóveis e uma dona de casa com hábitos peculiares), além dos novos seguranças que passam a tomar conta da rua.

É um desses filmes obscuros onde o diretor não quer contar uma história - apenas usa o cinema como meio pra expressar certas teorias. Ele parece pensar assim: eu tenho uma crítica a ser feita a respeito da sociedade, mas não vou ser explícito - vou montar uma espécie de charada pra que apenas alguns espectadores consigam decifrar essas minhas ideias (brasileiro deve ter herdado isso da época da ditadura, onde se comunicar pelas entrelinhas era sinônimo de sofisticação).


Se você procurar críticas do filme vai ver gente dizendo que ele faz uma complexa análise social, mostrando o atrito entre as classes, expondo algo de indesejável na sociedade que ecoa da história do país... Mas essa discussão ficou muito mais na cabeça do cineasta do que na tela (não basta sugerir algo - uma boa análise deve desenvolver suas ideias, ter argumentos, fazer comparações, chegar a alguma conclusão, etc...).

O filme tem cenas marcantes, chama atenção pela direção cheia de movimentos de câmera precisos e zooms à la Kubrick, mas falta uma história pra integrar esses elementos todos numa estrutura satisfatória.

O Som ao Redor (BRA / 2013 / 131 min / Kleber Mendonça Filho)

INDICAÇÃO: Pra quem gostou de A Casa de Alice, Entre os Muros da Escola, O Pântano, etc. 

NOTA: 3.0

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O Que Esperar Quando Você Está Esperando

Comédia sobre a gravidez (baseado no bestseller de Heidi Murkoff) que conta 5 histórias paralelas na cidade de Atlanta (na linha de Simplesmente Amor e Idas e Vindas do Amor) mostrando as infelicidades do período de gestação. No elenco estão Cameron Diaz, Jennifer Lopez, Elizabeth Banks, Rodrigo Santoro e Chris Rock, entre outros.

O filme tem o clima e a profundidade de uma revista de fofoca - vários famosos, corpos malhados jogados na tela gratuitamente, referências a atualidades como YouTube, programas de dieta na TV, "dança dos famosos", além do tom superficial e das frases de "sabedoria" convencionais que soam mais como tentativas de fazer o espectador se sentir menos culpado por suas irresponsabilidades. Por exemplo, na mensagem de que nunca se está preparado para ter um filho (emocionalmente e financeiramente) - que engravidar é "pular num trem em movimento e torcer para não morrer".


O humor é baixo e envolve muito vômito e todo tipo de piada de banheiro. A atitude geral é: a vida é dura, relacionamentos são complicados, engravidar é uma tortura, então vamos rir da nossa própria desgraça que no fim dá tudo certo. O filme foca nos aspectos concretos e desagradáveis da gravidez e não consegue projetar o lado positivo - a beleza de se gerar uma nova vida (exceto por 1 ou 2 instantes no final - graças mais ao elenco do que ao roteiro) e acaba dando à gravidez a dimensão espiritual de uma grande prisão de ventre.

What to Expect When You're Expecting (EUA / 2012 / 110 min / Kirk Jones)

INDICAÇÃO: Noite de Ano Novo, Coincidências do Amor, Idas e Vindas do Amor, Ligeiramente Grávidos, etc.

NOTA: 5.0

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Weekend

Romance britânico de temática gay que conta a história de 2 rapazes que se conhecem numa balada sexta à noite e acabam vivendo um relacionamento íntimo que dura apenas 1 fim de semana. O filme independente custou apenas 120 mil libras, foi aclamado pela crítica e premiado em vários festivais.

Não gosto do filme porque ele é em grande parte Naturalista - um retrato passivo de diálogos e atividades aleatórias desses personagens. A cena final é interessante e dá uma sensação de desfecho, mas isso não chega a fornecer ao resto do filme um enredo, tornando tudo muito arrastado. O autor parece estar apenas interessado em reproduzir de forma realista pessoas e situações que ele observou na vida real.

Os atores estão convincentes, mas pessoalmente não simpatizo por eles (que ficam usando drogas o tempo todo, frustrados e sem rumo) nem por esse tipo de relacionamento, que não é baseado em admiração, mas em decepções mútuas, consolo, onde um age como se fosse o psicólogo do outro - e o que os une parece ser o fato do parceiro parecer enxergar e aceitar seus traumas pessoais.


O filme passa a impressão de ser um estudo íntimo dos personagens, mas não porque há uma abordagem psicológica interessante, e sim porque ele é fisicamente realista (há cenas bem invasivas de nudez e diálogos envolvendo detalhes corporais desagradáveis). É uma visão materialista das coisas; o diretor imagina que ao revelar fisicamente os personagens ele estará fazendo uma caracterização mais aprofundada deles.

Weekend (Reino Unido / 2011 / 97 min / Andrew Haigh)

INDICAÇÃO: Quem gostou de Paraísos Artificiais, Shame, Canções de Amor, Delicada Relação, Antes do Amanhecer.

NOTA: 4.0

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O Mágico


Animação francesa indicada ao Oscar, do mesmo diretor de As Bicicletas de Belleville. O roteiro quem escreveu foi Jacques Tati, o famoso diretor/ator/roteirista/mímico francês que, pra quem não conhece, é mais lembrado pelo personagem do Sr. Hulot - um senhor polido e atrapalhado que parece uma mistura de Chaplin com Mr. Bean (quase nunca falava), mas muito único e excêntrico - eu pessoalmente não acho graça no humor dele, mas reconheço a originalidade e a criatividade dos filmes.

Tati escreveu mas nunca conseguiu produzir o filme em vida, que conta a história de um ilusionista que pertence a uma classe decadente de artistas de palco, que nos anos 60 perdiam espaço pra bandas de rock e um tipo de entretenimento mais histérico. Ou seja, há todo um tom melancólico de nostalgia misturado com crítica social. No meio disso tudo há uma história de amor, mas também meio amarga pois não se sabe direito a natureza da atração dos dois e além disso a mocinha é extremamente interesseira.

Não há muito o que destacar aqui em termos de história. Acho que o melhor do filme é mesmo a qualidade da animação, que torna cada imagem interessante de se ver. Mas o tom pessimista é constante o filme todo: os personagens são todos caricatos e o desenhista parece zombar da raça humana ao exagerar certos traços e gestos, tornando todo mundo meio patético. Se você tem dinheiro, você é um explorador sem alma. Se você está apaixonado, você tem segundas intenções. Se você está num palco cantando rock, você é um demente efeminado. Se você quer comprar uma roupa bonita, você é fútil. Tudo isso é transmitido através da animação, o que não deixa de ser um grande mérito (há tão poucos diálogos que nem se incomodaram em legendar o filme).

Mas acho que eu teria gostado mais da história original de Tati. Acontece que o roteiro foi todo alterado pelo cineasta Sylvain Chomet, causando um sério desentendimento com a família Tatischeff (o neto de Jacques Tati chegou a escrever uma e-mail para o crítico Roger Ebert, explicando o motivo da revolta - leia o e-mail aqui). O roteiro original era muito pessoal, e foi escrito como um pedido de desculpas de Tati à filha que ele abandonou. Na história, o ilusionista fazia amizade com uma jovem fã de uma cidade do interior, que achava que ele era de fato um mágico. Eventualmente, eles vão juntos pra cidade grande e ele acaba sustentando a mentira, com medo de perder a garota pros encantos da cidade, uma vez que seus truques tenham sido revelados. O próprio Tati dizia que o Sr. Hulot era apenas um personagem que tinha criado, mas que na vida real ele era extremamente diferente. Ou seja, esse sentimento de farsa estava no centro da relação de Tati com a filha, que formou a imagem do pai através dos filmes que via quando criança.

O Mágico
L'Illusionniste (ING/FRA, 2010, Sylvain Chomet)

Orçamento: US$ 17 milhões
Bilheteria atual: US$ 3 milhões
Nota do público (IMDb): 7.8
Nota da crítica (Metacritic): 8.4
Assista o trailer

INDICAÇÃO: Quem gostou de As Bicicletas de Belleville, filmes do Hayao Miyazaki como Ponyo, O Castelo Animado, etc.

NOTA: 6.0

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O Primeiro que Disse


Dramédia italiana sobre um rapaz gay que resolve contar tudo pros pais durante um almoço - só que o irmão mais velho passa na frente e anuncia primeiro que também é gay (pra surpresa do irmão, dos pais e também da platéia). O pai expulsa o filho de casa, sofre um ataque do coração, deixando o outro numa situação complicada, sem poder falar a verdade, com receio de matar o pai de vez.

É um filme pessoal (daqueles que o autor coloca dedicatória no final) sobre pessoas comuns vivendo conflitos humanos, e que aborda esse tema da homossexualidade, mas superficialmente, sem grandes reflexões (longe da sensibilidade de um C.R.A.Z.Y. - Loucos de Amor, por exemplo). Certamente não é a minha praia. O melhor que esse tipo de filme tem a oferecer é alguma espécie de observação psicológica mais aguçada, um estudo de personagens interessante, mas os personagens aqui são bem genéricos, às vezes até caricatos (como os amigos gays de Tommaso - até duvidei que o diretor fosse gay, pois um gay não retrataria outro de maneira tão constrangedora - mas ele é sim; inclusive dirigiu A Janela da Frente e vários outros filmes com essa temática).

É tudo bem simpatiquinho, legalzinho - mas dentro daquele espírito europeu semi-depressivo (não muito diferente do latino); os personagens principais têm um olhar distante, "poético", e dizem coisas do tipo "Ela me ensinou a coisa mais importante, que é sorrir quando estamos tristes, quando estamos morrendo por dentro". Esse é o clima do filme - uma comédia despretensiosa, mas que não foi feita pra fazer rir, e sim pra amenizar a depressão.

O Primeiro que Disse
Mine Vaganti (ITA, 2010, Ferzan Ozpetek)

Nota do público (IMDb): 7.0
Assista o trailer

INDICAÇÃO: Quem gostou de Canções de Amor, De Repente Califórnia, A Janela da Frente, etc.

NOTA: 4.5