terça-feira, 15 de julho de 2014

O Enigma Chinês (anotações)

- Interessante o monólogo inicial sobre o personagem não ter propósito na vida (ponto A, ponto B, etc). Faz a gente entender a situação dele e introduz uma discussão sobre felicidade com a qual a plateia pode se relacionar.

- Um pouco forçada a cena no banco de sêmen. Feita pra tirar risadas baratas do público.

- Naturalismo. Personagem é muito comum, sem nada de muito interessante.

- Ele não é escritor? Isso não é um propósito em sua vida? Ele não é pai e deseja criar os filhos? A vida dele não parece ser tão sem rumo assim quanto ele afirma.

- Audrey Tautou é carismática e traz alguns dos melhores momentos do filme.

- Comparação do bordado do Schopenhauer (de que a vida se passa metade do lado certo do bordado e metade do lado de trás) pode até ser válida pra vida, mas na arte, não há por que mostrar o lado de trás. Esse filme é como o bordado do lado errado: só vemos o aspecto bagunçado e pouco atraente das coisas. O interessante é que o protagonista acha reconfortante essa ideia do Schopenhauer - pois isso parece justificar o fato da vida dele ser uma bagunça. Ligando os pontos - assistir a um filme como esse pode ser reconfortante pro espectador que leva uma vida frustrante.

- Xavier acha que a glória da cidade de Nova York é diminuída pelo fato de haver um cruzamento desorganizado em um ponto da cidade - e ele sente prazer nessa pequena descoberta. Ele se sentiria inseguro diante de algo muito grandioso (mesmo uma cidade), portanto ele sente prazer em procurar falhas nas coisas ("se até Nova York é imperfeita, então eu posso ter minhas falhas também").

- Ele acha que o ato banal de cruzar a rua com os filhos é um momento digno de atenção, pois isso também faz parte da infância delas. Ou seja, o filme quer que um momento não-especial seja especial. Quer que uma cidade especial seja não-especial. Quer que o lado errado do bordado tenha tanta relevância quanto o lado certo (!).

- Depois de 1 hora a história começa a cansar (falta um "ponto B" pra trama também, não só pra vida do Xavier). Filme começa a focar em sub-tramas desinteressantes (como a traição da amiga lésbica) que não parecem ter muita relevância (exceto pra mostrar como "a vida é complicada").

- A reação da Audrey quando termina de ler o livro é mais ou menos a minha reação em relação ao filme: a vida do cara não é tão complicada assim. É apenas comum. Ele é que foca nos problemas.

- SPOILER: Não vejo graça na correria no final pra não deixar a amiga ser pega traindo a namorada. Seria melhor que as duas fossem pegas em flagrante! O Xavier está ajudando elas a mentirem.

- SPOILER: Xavier dizia que pra namorar era preciso haver uma "chama" especial - mas no fim, ele decide ficar com a Audrey (por quem ele não parecia sentir essa chama). Outra vez, o filme quer tornar especial o não-especial.

CONCLUSÃO: O filme tem alguns personagens simpáticos e serve como uma reflexão leve sobre a felicidade, mas eu pessoalmente não me identifico com os valores por trás da história.

(Casse-tête chinois / França, EUA, Bélgica / 2013 / Cédric Klapisch)

FILMES PARECIDOS: Bonecas Russas.

NOTA: 5.0

sábado, 12 de julho de 2014

O Teorema Zero

ANOTAÇÕES:

- O filme é muito estilizado visualmente, mas não dá pra dizer que é um visual bonito (ou que ele tem uma boa fotografia de fato).

- O personagem central é tão excêntrico e distante que fica difícil se identificar com ele ou mesmo entendê-lo.

- É o tipo de filme que faz as pessoas levantarem e irem embora do cinema no meio da sessão. Ele quer ser excêntrico, bizarro, mas não há nada de envolvente na história. O que importa pra plateia a solução do teorema? Isso nem é de grande importância pro personagem - ele foi só contratado pra trabalhar no problema, mas não é algo pelo qual ele se importa pessoalmente. O filme não comunica nada palpável num nível intelectual. Por que o protagonista se chama de "nós"?

- A atriz que faz Bainsley é linda e tem muita personalidade. Pelo menos há 1 personagem mais humano no filme, com reações naturais, compreensíveis (Bob também traz um pouco de vida pra história).

- O cineasta sem dúvida quer fazer grandes afirmações a respeito do homem e da existência, o problema é que ele não consegue (ou não quer) comunicar essas ideias pra plateia com clareza. Tudo é muito bagunçado, subjetivo, desintegrado - parece a mente de uma pessoa louca mesmo (algumas cenas são tão lunáticas que parecem as animações que o diretor fazia no Monty Python, só que sem o humor). Pelo menos ele é um "louco" criativo, original, o que torna o filme no mínimo curioso de ver (não é um desses cineastas que apenas imitam o estilo excêntrico de outros, mas não são de fato originais).

CONCLUSÃO: O filme coloca a própria loucura e excentricidade acima das ideias que quer comunicar, alienando o espectador.

(The Zero Theorem / EUA, Romênia, Reino Unido, França / 2013 / Terry Gilliam)

FILMES PARECIDOS: O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus, Brazil: O Filme.

NOTA: 4.5

quinta-feira, 10 de julho de 2014

O Espelho (anotações)

- Não gosto quando o espírito existe pra trazer conflitos banais pras pessoas, gerar desentendimentos, brigas entre marido e mulher, tornar a rotina desagradável. Prefiro espíritos quando eles vêm pra trazer espanto, ação, surpresa - unir os personagens (e a plateia) numa aventura divertida (ainda que assustadora).

- Os personagens são sofredores, vítimas do universo - há todo um tom sério de drama psicológico que me soa inapropriado (num filme que não tem uma premissa séria).

- Nada de notável em termos de direção, música, elenco, diálogos, etc. Produção é bastante comum.

- Muitos clichês: o cachorro que percebe os espíritos, o cético teimoso, etc. Pouca originalidade.

- Gostei até dos atores, a única coisa que não convence muito é a menina ter armado esse circo todo sozinha (amarrado uma âncora no teto, etc).

- Um espelho é um vilão muito fraco e pouco assustador. Como derrotá-lo também não fica muito claro.

- Nunca sabemos se o que estamos vendo é real ou se é o espelho brincando com a mente dos personagens. Filmes com alucinações precisam tomar muito cuidado, pois essa dúvida constante torna o filme entediante. Mais pro fim, além de não sabermos o que é real ou imaginação, também não sabemos direito o que é presente ou passado, pois o filme começa a misturar flashbacks com cenas reais!

CONCLUSÃO: Filme comum sobre espíritos com cenas e vilões menos assustadores que a média.

(Oculus / EUA / 2013 / Mike Flanagan)

FILMES PARECIDOS: Mama, Os Escolhidos, A Entidade, A Mulher de Preto, etc.

NOTA: 4.0

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Vizinhos (anotações)

- Pessoalmente, não sou fã do humor vulgar (excesso de piadas sexuais, etc). Elas meio que ofendem os protagonistas, que são boas pessoas (não tenho problemas com piadas vulgares num filme como Pink Flamingos, onde os protagonistas são aberrações sem nenhuma dignidade pra ser manchada).

- Elenco bom e com ótima química. Muito boa a Rose Byrne que faz a esposa.

- Premissa divertida mas um pouco irreal. Não acredito que essa situação com os vizinhos escalaria pra esse nível. Não parece algo tão sério (a polícia provavelmente resolveria esse problema).

- SPOILERS: Nível das piadas é um pouco irregular. Não chega ao nível trash das comédias do Adam Sandler, mas ainda assim há muitas piadas forçadas que destoam do resto do filme (como a do roubo dos air-bags ou mesmo a do Seth Rogen ordenhando a mulher).

- Acho que o maior problema do filme é o fato da situação não ser tão urgente assim. Por mais que seja uma comédia, precisa haver envolvimento com a história... Coisas sérias em jogo, com que a plateia se identifique. Vizinhos barulhentos são péssimos, mas não algo a ponto de arruinar a vida de uma família. Depois de 1 hora a história começa a cansar um pouco. Seria melhor se houvesse uma rivalidade pessoal mais forte entre o casal e o personagem do Zac Efron (se eles fossem rivais no emprego, por exemplo, ou ex-amigos que brigaram - algo que tornasse mais interessante esse duelo entre eles, que fizesse eles passarem por uma transformação pessoal, etc).

CONCLUSÃO: Atores divertidos e boas piadas fazem valer o ingresso, apesar de alguns momentos mais apelativos ou forçados.

(Neighbors / EUA / 2014 / Nicholas Stoller)

FILMES PARECIDOS: É o Fim, Missão Madrinha de Casamento, Se Beber, Não Case!, As Loucuras de Dick & Jane

NOTA: 6.5

domingo, 6 de julho de 2014

Transformers: A Era da Extinção (anotações)

- EXPECTATIVA: Muito baixa, pois não gostei nada dos 2 últimos filmes da série (o primeiro ainda achei divertido).

- "Filmes de hoje é que são o problema: sequências, remakes..." - engraçado o filme brincar consigo mesmo.

- Fotografia e direção de arte muito bonitas (cores vivas, contraste alto, reflexos na lente, faíscas, cenários cheios de objetos, bandeiras dos EUA - Michael Bay tem uma identidade visual muito forte). Fato do filme ter sido filmado em 3D (e não apenas convertido na pós-produção) também dá pra notar (esse foi o primeiro filme rodado com uma câmera IMAX 3D digital).

- Cadê os personagens dos outros filmes?!? Estranho fazer um "reboot" da série, sendo que a equipe continua a mesma - diretor, roteirista, etc). Só mostra o quão insignificantes são os personagens pra história; que o foco mesmo são os efeitos especiais.

- Filme até que não começa mal. Gosto dessa primeira parte mais "simples" que se passa no interior, etc. Personagem do Mark Wahlberg tem conflitos com a filha, suas invenções não funcionam direito - tudo isso é um bom preparo pra descoberta do Optimus Prime.

- Por que inserir a extinção dos dinossauros nessa trama? Parece tão tolo e fora de contexto. Aliás, todo o filme tem um clima tolo... Desde a premissa, até o comportamento dos personagens, dos Transformers, os diálogos... Sinto falta de pelo menos 1 personagem central mais sério e admirável (filme não tem um interesse humano forte - relação entre Wahlberg, filha e namorado da filha é muito monótona e banal).

- Objetivo dos personagens na história é vago e mal explicado. No meio das cenas de ação fico tentando lembrar: "mas o que eles precisam fazer mesmo?".

- Atores no fundo são coadjuvantes pros robôs e pros efeitos especiais. É incrível o quão pouco vemos os ROSTOS dos atores. 2% das imagens do filme devem ser de rostos de pessoas.. 98% são de robôs, efeitos especiais, planos gerais, imagens de cidades sendo destruídas, etc. Diretor parece evitar ao máximo a situação de estar com a câmera apontada para os personagens e ter que fazer uma cena interessante apenas com isso. Ele não sabe nada sobre drama, caracterização, relacionamentos, etc.

- Lembra um pouco Velozes e Furiosos - um filme com zero de intelecto, feito pra quem fica satisfeito apenas em olhar máquinas incríveis e mulheres atraentes.

- Algumas cenas de ação são tão sem sentido que são um insulto pra nossa inteligência. Por que existem esses cabos amarrados entre os prédios? E quem teria a ideia de atravessar de um prédio pro outro por ali?

- Depois de 1 hora e pouco o filme se torna inassistível! 80 minutos disso ainda daria pra aguentar, mas 2 horas e 45???? Filme não tem envolvimento emocional pra durar isso tudo... Não há nem uma curiosidade pela história. Diretor claramente não se importa por narrativa, e não se esforça nem um pouco pra fazer a gente entender a trama (ou pra criar uma interessante).

- Apesar do visual impecável, o filme tem uma falha grave: a câmera sempre tremendo e os cortes rápidos vão te dando dor de cabeça depois de 1 hora e meia. E olha que eu sou forte pra essas coisas!!

- Meu Deus... O ser alienígena robô que se transforma em carros agora virou um robô-Tiranossauro!!! E ainda entra uma música emocionante como se isso fosse levar o público ao delírio! É uma mentalidade meio Sharknado: "Ah, aliens são maneiros, robôs são maneiros, dinossauros são maneiros... Por que não juntar isso tudo numa coisa só?".

- Lembrei por que odiei tanto os outros filmes! Estou há 1 hora vendo efeitos especiais sem um enredo envolvente, sem interesse pelos personagens, sem ideias inteligentes... E ainda com a vista doendo. É como entrar numa câmara de tortura!! E por que essa obsessão atual por destruir PRÉDIOS em tudo que é filme?

CONCLUSÃO: Não tenho nada contra a aparente intenção do filme (assim como a de outros filmes do Michael Bay), o problema é que ele é feito por pessoas tão insensíveis, tão sem-noção do que é que emociona e diverte uma plateia, que você começa a questionar se essa era realmente a intenção delas.

(Transformers: Age of Extinction / EUA / 2014 / Michael Bay)

FILMES PARECIDOS: Transformers: O Lado Oculto da Lua, Velozes e Furiosos, Pearl Harbor, Armageddon.

NOTA: 2.0

domingo, 29 de junho de 2014

O Grande Hotel Budapeste (anotações)

- Direção de arte espetacular (como em muitos filmes do Wes Anderson)!

- Imagens sempre simétricas chamam atenção demais pro estilo e distraem a gente do conteúdo do filme. Anderson deve ser fã do estilo de fotografia do Kubrick (imagens simétricas, zooms rápidos e repentinos, formato 4:3 - sem falar que o Hotel Budapeste remete ao Hotel Overlook de O Iluminado). Mas Kubrick não usava imagens simétricas o tempo todo. Seu foco era sempre a história, o conteúdo, e o estilo vinha pra servir à história - a forma estava em harmonia com o propósito das cenas. Aqui, a forma tem uma vida própria e passa por cima do conteúdo. O diretor usa zooms, movimentos bruscos de câmera, etc, tudo aleatoriamente, apenas pra ser "estiloso".

- História é Naturalista e pouco envolvente. Por que é importante pro personagem principal (e pra plateia) ouvir a história de vida do dono do hotel? Não há uma grande motivação. Além disso, a história que ele conta não é tão fantástica assim. São apenas episódios curiosos da juventude dele, mas sem uma grande mensagem por trás ou uma ideia importante.

- Filme retrata praticamente todos os personagens de maneira caricata, cínica, tornando eles distantes e levemente ridículos (os figurinos, os enquadramentos simétricos, os inúmeros bigodes engraçadinhos, a mancha no formato do México no rosto da menina - tudo trabalha pra diminuir a estatura dos personagens).

- Ausência de emoção parece ser uma meta do filme. A história não tem conflitos sérios, momentos dramáticos, surpresas, envolvimento, etc. Intelectualmente o filme também não tem muito a dizer. A experiência se resume a dar pequenas risadinhas enquanto vemos cenários bonitos. Também não chega a ser uma comédia (as risadas do público geralmente vêm de atitudes inapropriadas, que revelam que o filme e os personagens não se levam a sério).

CONCLUSÃO: Às vezes não me incomoda um filme ser pouco emocionante quando ele é muito inteligente (ou um filme ser pouco inteligente quando ele é muito emocionante). Mas não vejo muita graça num filme que não pretende nem ser emocionante, nem ser inteligente, e tem estilo como o seu maior objetivo.

(The Grand Budapest Hotel / EUA, Alemanha / 2014 / Wes Anderson)

FILMES PARECIDOS: Moonrise Kingdom, Viagem a Darjeeling, etc.

NOTA: 4.0

sábado, 28 de junho de 2014

O Homem Duplicado (anotações)

- Começo muito intrigante (cena da aranha, etc). Trilha e direção muito boas.

- Diretor tem uma capacidade parecida com a do David Lynch de pegar um lugar comum (cidade) ou uma situação comum, e fazer tudo parecer um sonho.

- Situação de encontrar o seu "doppelgänger" num filme é divertida. Mas não é tão intrigante assim, pois a primeira coisa que o espectador pensa é: eles são gêmeos e foram separados ao nascer. Não se trata (a princípio) de algo inexplicável como num episódio do Twilight Zone.

- As coisas que o Adam diz na sala de aula (sobre governos, etc) parecem o filme sugerindo que a história é uma alegoria ou algo do tipo, mas até agora a ela é apenas sobre um homem que descobre alguém igual a ele fisicamente (e como isso abala sua vida).

- Por que Adam reage com medo? Parece falso criar esse drama todo (não só ele como a mulher). Eu acharia fantástico encontrar alguém igual a mim - exceto se o cara fosse meu irmão e isso significasse que minha mãe mentiu pra mim a vida toda. Mas mesmo assim, ninguém reagiria como se fosse o fim do mundo!

- SPOILER: Mulher com cabeça de aranha: agora o filme deixou óbvio de que a história é mais do que aparenta (ou pretende ser mais do que aparenta). O filme se transforma num jogo de adivinhação, onde o espectador tem que descobrir qual o tema da história. Acho legal, desde que isso seja exposto até o final.

- De qualquer forma, o filme não é tão criativo ou fascinante quanto um filme do David Lynch. Lynch tem uma vantagem que, mesmo quando você não entende a lógica da trama, o filme faz sentido emocionalmente - é divertido de acompanhar mesmo sem entender o "todo" (tem grandes cenas, atuações, diálogos, expressa valores, etc).

- Filme vai perdendo a credibilidade. As reações de Adam e Anthony ao se encontrarem pela primeira vez não faz muito sentido.

- Participação especial de Isabella Rossellini: outra referência a Lynch?

- SPOILER: Adam não transou com a namorada de Anthony (ou pelo menos não sabemos disso)! Por que ele deixaria então o Anthony dormir com a sua namorada? Não faz sentido ele agir assim.

- SPOILER: Esposa do Anthony ficaria imediatamente desconfiada de que aquele não é o marido dela. Afinal, ela já sabia que havia um sósia. Será que ela percebeu e está fingindo? Não faria sentido em termos de caracterização. Já a namorada de Adam não teria por que desconfiar, no entanto ela é a que acaba percebendo só por causa da marca do anel. O filme aqui perde a coerência: por um lado ele quer que a gente aceite que os 2 são idênticos: têm a barba do mesmo tamanho, o corte de cabelo igual, o mesmo peso, o mesmo jeito de falar, etc. Mas na hora que convém pra trama, ele quer ser realista e dizer que existem diferenças entre os dois, como marcas de alianças, etc.

- Por que a chave UNICA? Apenas uma referência a Hitchcock? (No filme Interlúdio, uma chave com a palavra UNICA é uma peça central da trama). Aliás, essa é a 2ª referência a Hitchcock no filme, se você contar o poster de Um Corpo que Cai na locadora (um filme também sobre "sósias", problemas de identidade, etc).

- SPOILER: Um dos finais mais bizarros e ridículos que já vi! Autor acha que o que não se entende é automaticamente genial (me lembra a frase do Nietzsche: "Eles tornam suas águas turvas para que pareçam profundas").

CONCLUSÃO: Filme é bem dirigido e tem uma premissa curiosa, mas se torna vazio ao não comunicar o seu tema (e não é satisfatório apenas como filme de suspense, pois a trama e os personagens vão se tornando cada vez mais artificiais).

FILMES PARECIDOS: Ensaio Sobre a Cegueira, O Nevoeiro, Possuídos, etc.

(Enemy / Canadá, Espanha / 2013 / Denis Villeneuve)

NOTA: 4.0

domingo, 22 de junho de 2014

Como Treinar o Seu Dragão 2 (anotações)

- EXPECTATIVA: Não gostei muito do primeiro portanto não espero gostar muito deste (achei OK como cinema, mas tive problemas com os valores da história - a questão do herói envergonhado, etc) .

- Animação bem feita, embora ache as imagens pouco atraentes (cores feias, sem vida).

- História é menos interessante que a do primeiro filme. No primeiro, além da descoberta do Night Fury, o menino era um desajeitado e precisava se provar. Aqui, ele já superou quase todo esse problema, então ele começa sem conflitos fortes (ele discorda do pai, mas numa questão superficial, de opinião, não se trata de um conflito entre valores importantes). Meta de proteger dragões do inimigo também não é tão interessante (o filme não cria muita empatia pelos dragões enquanto espécie - nem pelo "Banguela", que age mais como um cachorro coadjuvante do que como um personagem).

- SPOILER: Personagem da mãe não é gostável. Motivo que ela dá pra ter abandonado o marido e o filho por 20 anos não é convincente, e o fato do pai aceitá-la de volta sem nenhum questionamento também gera estranhamento pela situação e torna tudo meio artificial.

- SPOILER: Isso é uma implicância pessoal, mas o filme tem vários toques estranhos e desagradáveis -
Banguela comendo vômito de outro dragão, as piadas envolvendo a menina feia, ou mesmo aquelas coisas nojentas que brotam das costas do Banguela. Além de decisões estranhas de roteiro: pra que apresentar algo tão marcante quanto o dragão Alpha pra logo depois matá-lo? E pra que tornar Banguela num zumbi e fazê-lo matar o pai de Soluço? Que relevância pra história tem a morte do pai? Parece algo aleatório inventado pra tentar dar drama pra história.

- Herói Envergonhado (de novo meu maior problema com o filme). História finge promover valores como auto-estima, coragem, habilidade, quando na verdade é anti auto-estima. O filme não está tentando tornar Soluço (ou Banguela) de fato figuras admiráveis. O dom mais impressionante que Soluço mostra é saber ser carinhoso com Banguela e tirá-lo do domínio do dragão (algo muito vago e que parece simples). Banguela destruir o dragão no final também não é convincente (com poderes mágicos que surgem do nada, qualquer um faria isso).

CONCLUSÃO: Tecnicamente bem feito, mas mediano como cinema, roteiro, personagens, etc. Pessoalmente, não gosto por causa dos conflitos de valores.

FILMES PARECIDOS: Rio 2, Os Croods, A Era do Gelo 4, Como Treinar o Seu Dragão, etc.

NOTA: 4.0

Riocorrente (anotações)

- EXPECTATIVA: Entrando na sessão com um pé atrás depois que li que o diretor deseja que o público saia do cinema "com raiva". Não acho essa uma boa postura. Por mais negativo ou provocativo que seja um filme, quando ele é de fato bom, você acaba saindo empolgado, admirado, e não com raiva.

- Naturalismo. Filme não tem história, personagens não são bem apresentados, não sabemos direito quais suas ideias, conflitos, metas, qual a relação entre eles. Filme mostra pessoas problemáticas e relacionamentos problemáticos sem um propósito aparente (e também não parece condenar o fato desses personagens serem criminosos, mentirosos, o que é suspeito).

- Subjetivismo. Diretor dá atenção exagerada a coisas aleatórias e sem relevância pro filme (a banda logo no começo, o garotinho jogando sinuca, as contas de multiplicação, a corrida de cavalos, o garoto vendo o incêndio na TV, o vizinho que se suicida, a entrevista com o artista, a cena no cinema, etc), isso desorienta a plateia e faz ela sentir que há um significado misterioso por trás do filme que ela não consegue entender ("não estou entendendo nada, então deve ser genial").

- Embora as cenas do filme não sigam uma sequência lógica, elas acabam tendo uma coerência, no sentido de que são frequentemente negativas, violentas. O diretor não colocaria uma cena igualmente irrelevante, mas que expressasse algo leve - um casal correndo na praia, um atleta ganhando uma medalha, etc. Isso não combinaria com o "Senso de Vida" dele, que parece ser a única coisa que interliga os eventos do filme. Os discursos intelectuais jogados no meio da história também são vagos e tendem ao subjetivismo, ao experimentalismo, etc.

- Não apresentar direito os personagens é uma maneira desonesta de manter o interesse. A gente acompanha o filme com certa curiosidade não por que há uma história envolvente, personagens fascinantes, valores em jogo, mas porque a gente não está entendendo nada: Quem são essas pessoas? Com o que elas trabalham? Essa criança é filha de quem? O que houve com os pais dela? Será que em algum momento algo irá acontecer?

- Ratos roendo o jornal / menino arrancando o dente / leões / briga de cães / motos no globo da morte / pessoa andando sob a brasa / arremesso de facas, etc. Diretor acha que o público é vidente e entenderá esses "símbolos" de alguma forma. Símbolos, pra terem algum sentido, precisam ser definidos no próprio filme de maneira compreensível (exceto símbolos muito universais talvez, como uma cruz, um arco-íris, etc).

- Ou talvez essas cenas "simbólicas" nem sejam pra ter um significado intelectual mesmo... O diretor só as coloca pela sensação que elas causam. Por exemplo: ele quer que o público sinta aflição, então ele joga na tela uma imagem de um olho sendo arrancado (!). Pra ver o quão absurdo é isso, imagine a mesma técnica empregada numa outra situação: o diretor quer causar sensação de carinho e empatia pelo casal central... Então, durante um encontro romântico, ele insere na edição algumas imagens de gatinhos e cachorrinhos que nada têm a ver com o resto do filme.

- Por que a mulher chora de emoção ao ver uma performance tão péssima quanto a do homem no piano? Será que esse é o desejo do cineasta? Apresentar algo horrível e mesmo assim obter uma reação emocionada do público?

CONCLUSÃO: Filme altamente subjetivo que acaba sendo interessante de ver mais pelos erros do que pelos acertos.

(Riocorrente / BRA / 2014 / Paulo Sacramento)

FILMES PARECIDOS: O Som ao Redor, Holy Motors.

NOTA: 2.0

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Oldboy - Dias de Vingança (anotações)

- Filme de cara já me soa um projeto desnecessário, pois é um remake de um filme recente, bem feito (dentro de sua proposta) e extremamente conhecido pelos cinéfilos (está até no Top 250 do IMDb).

- Direção do filme é interessante, não clichê ou convencional. E a premissa também é envolvente (o que é mérito do outro filme). Apesar do protagonista ser antipático, a situação em que ele se encontra é tão extrema e inexplicável que é inevitável a gente querer acompanhar a história até o fim pra descobrir a razão dele ter sido preso por 20 anos.

- SPOILER: Trama é divertida de acompanhar, embora faça pouco sentido. Por exemplo - a ideia dele provar a comida de vários restaurantes chineses da cidade até descobrir qual foi o que serviu ele durante todos os anos preso é uma sacada interessante de roteiro. Mas ela é baseada num furo - afinal, seria impossível ele não lembrar do nome do restaurante, pois isso vinha escrito na embalagem da comida todo santo dia.

- Filme tem alguns problemas de tom. Não faz o menor sentido Joe conseguir lutar contra tantas pessoas ao mesmo tempo. Desde quando ele tem essas habilidades? De uma hora pra outra o filme se torna cômico, surreal, como se fosse uma paródia no estilo Tarantino, mas é um recurso que simplesmente não funciona nesse contexto, nessa história, com esse personagem.

- Depois que Joe sai da prisão tudo começa a soar irreal na trama. A relação dele com Marie e com o outro amigo é muito anti-natural e mal estabelecida (se ele é um assassino famoso e procurado há décadas, o normal seria alguém querer entregá-lo pra polícia, mas isso nem ocorre pros personagens). A cena em que ele entra escondido na casa da diretora da escola também soa forçada.

- SPOILER: Seria melhor se o motivo pelo qual ele foi preso fosse um fato já apresentado pro espectador de alguma forma. Não tem graça chegar no final e explicar - "veja, quando o protagonista era jovem, ele fez tal e tal coisa e irritou tal pessoa...". Não é algo integrado à história e ao tema do filme, mas um fato tirado da cartola pelo roteirista sem nenhuma conexão com mais nada.

- SPOILER: Vilão é muito ruim, com motivações pouco convincentes. E a vingança dele é extremamente patética. Ele acha que arruinará a vida de Joe por tê-lo feito ir pra cama com a filha. Mas é ridículo achar que isso seria um ato imoral, sendo que os 2 não se conheciam nem sabiam o que estavam fazendo.

- SPOILER: Fiquei desde o começo tentando entender quem era a mulher de guarda-chuva, por que ela continuava de guarda-chuva 20 anos depois, mesmo sem estar chovendo, e o filme simplesmente não explica. Diretor deve ter inserido esse detalhe pois achou "estiloso", mesmo sem fazer sentido.

CONCLUSÃO: História interessante e dirigida com vigor, mas que se perde pela falta de sentido e realismo psicológico, além do fato do protagonista ser pouco gostável.

(Oldboy / EUA / 2013 / Spike Lee)

FILMES PARECIDOS: Kick-Ass, Machete, Lady Vingança, Vanilla Sky, Oldboy.

NOTA: 5.0