terça-feira, 2 de setembro de 2014

Magia ao Luar (anotações)

- Muito bom o personagem do mágico! Trama interessante, apresentada logo de cara e com clareza.

- Ótima produção (direção, elenco, diálogos, fotografia, figurinos, locações, etc).

- A história é um duelo entre razão (Stanley) e misticismo (Sophie), e o diretor se safa adotando uma posição cética: nenhum dos dois lados parece estar muito certo. Nem Stanley nem Sophie são apresentados como heróis - é como se o diretor se colocasse "acima" dessa discussão e tirasse um pouco de sarro de tudo.

- Típica abordagem cética: não se pode ter certeza de nada, a mente é ineficaz, etc. Aos poucos o filme parece estar ridicularizando mais o lado racional e deixando a mística parecer mais atraente.

- O filme não é extremamente engraçado ou emocionante, mas envolve por ser inteligente (além da produção ser muito bonita, etc).

- Woody Allen acredita que a vida é trágica e sem sentido, mas que se existisse o sobrenatural, por algum motivo isso mudaria as coisas. Aliás, o filme tem várias crenças "suspeitas" que contribuem pro senso de vida malevolente (como eu disse na postagem Senso de Vida). Há também claramente a ideia de que inteligência leva à tristeza, e que a felicidade só é possível quando nos iludimos. Por isso os personagens do Woody Allen (intelectuais) estão sempre querendo abandonar suas mulheres (também intelectuais) pra viver romances com mulheres menos cultas porém felizes. É como se só tivessem 2 alternativas: ou você é culto e deprimido, ou você é ignorante e feliz (infelizmente na maioria dos casos isso é verdade). Obviamente eu não penso dessa forma, mas não deixa de ser uma ilustração brilhante desse tipo de mentalidade.

- SPOILER: Muito boa a reviravolta!!! No fim era o amigo dele que estava armando tudo. Faz total sentido!

- SPOILER: Depois que a Sophie se revela uma impostora, a ideia de um romance entre os dois começa a ficar mais interessante e palpável. Vai ser frustrante se ela ficar com o milionário, embora faria sentido também.

- GENIAL a cena final das "batidas"!!! Palmas pra Woody!!!

CONCLUSÃO: História simples, muito bem contada, com ótima produção, elenco, diálogos. O que o filme tem de negativo em termos de crenças, ele compensa com um senso estético bem acima da média.

(Magic in the Moonlight / EUA / 2014 / Woody Allen)

FILMES PARECIDOS: Meia-Noite em Paris / Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos

NOTA: 8.0

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Lucy (anotações)

- Divertidíssimo e envolvente desde o começo. Muito boa toda a sequência em que ela é raptada, apanha, tem que abrir a maleta, etc. Gosto também dessa performance teatral da Scarlett Johansson.

- Interessante as discussões sobre evolução, etc. Mas as imagens comparando homens com animais são nojentas.

- Não acredito nada na ideia mística de que o cérebro tem um potencial ilimitado - que se usássemos mais do que 10% poderíamos ler pensamentos, mover objetos, etc. A própria ideia de que nós só usamos 10% já é errada. Mas, se você não olhar pelo lado sobrenatural, acho que o filme passa algo de positivo - a ideia de que nossa mente é poderosa e que podemos fazer coisas incríveis com ela quando a usamos direito. Que a ignorância é o que nos trás problemas, não o conhecimento, etc.

- Não gosto da ideia de que uma pessoa altamente inteligente seria consequentemente "fria" - iria atropelar as pessoas na rua, não daria valor pra vida dos outros, etc!

- "Contagem progressiva" até 100% do uso do cérebro dá uma estrutura ótima pro filme que deixa a gente interessado até o final.

- SPOILER: Demais ver a Scarlett Johansson poderosa, derrubando os tiras com a mente! Ela está dando de 10 em todos esses super-heróis recentes. Uma coisa legal é que o filme tentar parecer "científico", como se tudo isso fosse algo possível. As teorias são absurdas, claro, mesmo assim ele se leva a sério, não é uma fantasia assumida.

- Por mais que seja baseado em ideias tolas, adoro a ambição da história e as proporções épicas que o filme vai tomando mais pro final. Pena que em termos de estilo o filme é um pouco comum. Um tema ambicioso como esse merecia um estilo menos convencional (imagine 2001 se fosse dirigido de uma maneira rotineira).

- SPOILER: Não entendi a mensagem no final: "agora você sabe o que fazer com a vida".

CONCLUSÃO: Thriller divertido, com cenas empolgantes e uma personagem forte - só não leve muito a sério as ideias por trás da história.

(Lucy / França / 2014 / Luc Besson)

FILMES PARECIDOS: No Limite do Amanhã, Sem Limites, Busca Implacável, A Caixa.

NOTA: 7.5

Os Mercenários 3 (anotações)

- Não dá muito tempo de entender as motivações de cada lado. A "graça" do filme é apenas ver os personagens entrando num ambiente e matando todo mundo (e eu não entendo muito bem qual a graça desse tipo de cena - não são cenas de ação particularmente criativas ou dramáticas, é apenas uma série de imagens de pessoas matando outras).


- Conflitos não muito envolventes. Stallone resolve separar os "mercenários" (obviamente pra ter uma reunião triunfante no final), mas não dá um motivo forte o bastante pra isso. Assim como ele decidiu, pode mudar de ideia a qualquer momento e chamar os amigos de volta. Se houvesse uma briga entre os integrantes, algo convincente, o reencontro depois seria mais satisfatório.

- Os inimigos na batalha final se fazem de alvos fáceis, não dá pra gente ter uma referência do quão bons de fato são os mercenários.

- SPOILER: Divertida a cena do prédio explodindo com Stallone no topo!

CONCLUSÃO: Sempre divertido ver todo esse elenco reunido, mas o roteiro não é dos mais fortes e as cenas de ação não chegam a ser tão memoráveis quanto as dos últimos Velozes e Furiosos, por exemplo.

(The Expendables 3 / EUA, França / 2014 / Patrick Hughes)

FILMES PARECIDOS: séries Os Mercenários, Velozes e Furiosos, Red, Duro de Matar, etc.

NOTA: 5.0

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Não Pare na Pista - A Melhor História de Paulo Coelho (anotações)

- Bom o ator que faz o Paulo Coelho adolescente!

- Merchandising da Cavalera muito grosseiro!! Quebra o clima da história.

- Irritantes os saltos no tempo. Não parecem ter uma lógica; servem apenas pra dar uma cara "moderna" pro filme, mas acabam sendo um anticlímax. Enquanto estamos acompanhando o desenvolvimento de Paulo (aguardando o momento em que ele se tornará um grande escritor), já vemos clipes dele na maturidade, depois do sucesso, roubando carros e vendo que ele se tornou um senhor desequilibrado.

- Paulo é irresponsável e abusa do pai! O filme parece querer que eu fique fique do lado dele, mas eu não estou achando o pai tão errado assim!

- Filme é monossilábico e tem uma estrutura fragmentada. Me sinto conversando com um esquizofrênico. Já foi mais de 1 hora de filme e nem vimos ainda a parceria dele com o Raul Seixas, algo que teria acontecido no COMEÇO da carreira dele, bem antes dele fazer sucesso como escritor.

- Ele é delinquente, irresponsável, drogado - e o filme mostra isso tudo de uma maneira meio glamourosa, como se fosse uma tentativa de tornar o Paulo Coelho uma figura "cool" como os astros de rock, mas eu estou achando ele apenas tolo.

- Pra alguém considerado um pensador, Paulo parece altamente confuso, sem ideias firmes - alguém que pula de uma crença pra outra de maneira inconsistente, dando tiro pra todo lado - uma hora acredita no I Ching, depois segue a filosofia de Star Trek, depois faz o caminho de Santiago de Compostela, etc. Está perdendo a credibilidade pra mim.

- A trajetória dele é tão ridícula que eu não sei mais se o filme se leva a sério ou se está criticando o Paulo Coelho e tirando um sarro dele. Pra piorar ainda mostra ele traindo a mulher?

- O filme tem a velha noção de que a arte vem da "loucura" e do "sofrimento", por isso não hesita em mostrar o lado podre do autor.

- No final, parece totalmente incompreensível que um homem como o que foi apresentado ao longo do filme tenha se tornado um escritor comercial de histórias inspiradoras que flertam com a autoajuda. Psicologicamente não faz nenhum sentido!!

- SPOILER: Pra um cara que fez tanto sucesso, é totalmente frustrante o filme acabar com ele ainda no fracasso, e apenas informar à plateia, através de textos na tela, que no fim O Alquimista vendeu bem, etc.

CONCLUSÃO: Produção decente, mas que faz um desserviço ao Paulo Coelho mostrando ele como um personagem de caráter duvidoso e intelectualmente despreparado.

FILMES PARECIDOS: Somos Tão Jovens.

NOTA: 4.5

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

As Tartarugas Ninja (anotações)


- Que saudades da Whoopi Goldberg!

- Boa ideia contar a história pelo ponto de vista da repórter e fazê-la descobrir as Tartarugas aos poucos (em vez de já começar com as Tartarugas, o que causaria certo estranhamento pela natureza bizarra dos personagens). É legal também o filme reconhecer que o conceito de "tartarugas mutantes ninja adolescentes" é absurdo, e usar isso a favor do filme (é sempre cômico quando a Megan Fox tenta explicar pra personagens céticos o que foi que ela viu, etc).

- SPOILER: Coincidência muito forçada as Tartarugas terem sido desenvolvidas justamente pelo pai da Megan Fox!

- Se o filme fosse só sobre as Tartarugas, seria um filme sobre um grupo de "alívios cômicos" e faltaria um personagem central mais sério pra gente se identificar.. Essa é outra vantagem de contar a história pelo ponto de vista da repórter. 

- Trama bastante clichê e previsível de bem vs. mal, com personagens "pré-fabricados" - lembra dezenas de outros filmes de super-heróis, principalmente os Homem-Aranha. Mas pelo menos é bem melhor que os últimos Transformers

- Faltam momentos memoráveis e boas cenas de ação... A mais marcante talvez seja a do caminhão na neve, mas é tão irreal fisicamente que perde a credibilidade.

CONCLUSÃO: Bem produzido e razoavelmente divertido, mas apesar dos heróis exóticos, fica aquela sensação de "já assisti isso 20x antes".

(Teenage Mutant Ninja Turtles / EUA / 2014 / Jonathan Liebesman)

FILMES PARECIDOS: G.I. Joe: Retaliação, Transformers, Homem-Aranha (2002). 

NOTA: 4.5

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

No Olho do Tornado (anotações)

- Cena de abertura de "terror" / história sobre caçadores de tornado durante uma temporada de grandes tempestades - tudo parece uma imitação descarada de Twister.

- Produção meio barata e sem classe - parece que estamos vendo um programa de TV. Não há nenhum capricho em termos de direção, elenco, fotografia, música, direção de arte, etc. Só os efeitos dos tornados que são interessantes.

- Personagens superficiais e não muito carismáticos.

- Carro "à prova de tornados" muito legal! Melhor ideia do filme.

- Histórias paralelas não se integram direito e parecem parte de filmes diferentes (adolescentes fazendo vídeos pra "cápsula do tempo", etc - o que isso tem a ver com o filme?).

- Momentos dramáticos não funcionam. O filme não tem história / personagens / atores / diálogos bons o bastante pra conseguir criar momentos tocantes.

- SPOILER: Estrutura igual a do Twister: começa com um tornado simples, depois tem tornados múltiplos, e no fim tem um F5 gigante. Falta de originalidade.

- SPOILER: Final cheio de momentos forçados e não muito bons: tornado levando o carro acima das nuvens / centro do tornado ser totalmente calmo e sem vento / carro ficar preso apenas por um cabo de aço (Twister também tinha ideias forçadas, mas eram ideias boas e divertidas, como a da vaca, etc).

- E os vídeos gravados no centro do tornado, foram ou não recuperados???

- Discursos no final muito fracos. Como disse, o filme não devia tentar ser emocionante ou inspirador. Podia focar só na ação mesmo.

CONCLUSÃO: Cópia bastante piorada de Twister que apenas tenta atualizar os efeitos especiais.

(Into the Storm / EUA / 2014 / Steven Quale)

FILMES PARECIDOS: Invasão do Mundo: Batalha de Los Angeles, Skyline - A Invasão, Poseidon (2006).

NOTA: 4.0

domingo, 3 de agosto de 2014

Guardiões da Galáxia (anotações)


(Esta crítica está no formato de anotações - em vez de uma crítica convencional, os comentários a seguir foram baseados nas notas que fiz durante a sessão - um método que adotei para passar minhas impressões de forma mais objetiva.)

- Não esperava esse começo nos anos 80! Gosto do contraste do futurista com o retrô. Boa a cena inicial da morte da mãe (embora isso pareça meio desconectado da história que vem a seguir).

- Produção incrível. Boa fotografia, cenários fantásticos (adorei o planeta cheio de gêiseres).

- Herói envergonhado -  não gosto da maneira cômica em que é retratado o protagonista (a cena inicial dele chutando os bichos e cantando, a piada com o nome "Star Lord", etc). Resto do time também não é muito admirável.

- Narrativa fraca. Herói não tem uma motivação pessoal muito forte (ele age mais por um senso de "dever" de ter que salvar o universo), trama envolvendo o orbe é genérica e não muito interessante (não há também um obstáculo ou um vilão muito forte), romance não empolga.

- Todos as cenas mais sérias e românticas do filme são quebradas por alguma piada que destrói a seriedade do momento (cena em que Quill salva Gamora do espaço, etc). Isso tudo está ligado à questão do "herói envergonhado".

- SPOILER: Filme confunde heroísmo com auto-sacrifício (Quill se lançando no espaço por Gamora, o grupo prometendo morrer junto pela missão, Groot se sacrificando no final, o que aliás não faz muito sentido - por que os ninho que ele constrói salvaria os Guardiões do impacto da nave?).

- SPOILER: Desnecessária a lembrança da mãe morrendo no final, quando Gamora pede pra Quill segurar a mão dela. Tentativa frustrada de dar mais profundidade psicológica pro filme.

CONCLUSÃO: Bem produzido e com certo apelo "pop", mas o roteiro não é muito forte e a questão do "herói envergonhado" estraga a experiência pra mim.

(Guardians of the Galaxy / EUA / 2014 / James Gunn)

FILMES PARECIDOS: Thor: O Mundo Sombrio, Homem de Ferro.


NOTA: 5.5

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Senso de Vida e preferências artísticas

(Capítulo 4 do livro Idealismo: Os Princípios Esquecidos do Cinema Americano)

Embora a maioria das pessoas não tenha uma filosofia formada e consciente, todos nós carregamos uma série de valores e julgamentos filosóficos de maneira subconsciente, que formam aquilo que Ayn Rand chamava de “Senso de Vida”.

Essa é uma ferramenta valiosa que ela criou e que vou pegar emprestada aqui para explicar melhor por que as pessoas têm preferências tão diferentes no campo da arte.

Senso de Vida é a soma dos valores fundamentais de um homem, que resulta numa maneira particular de encarar o mundo. É uma avaliação subconsciente que fazemos do ser humano e da existência e que estabelece a natureza das nossas reações emocionais e a “lente” pela qual enxergamos o mundo. Nosso Senso de Vida não vem primeiramente de nossas convicções explícitas, intelectuais; é algo formado subconscientemente, baseado em experiências e julgamentos que acumulamos desde a infância, e que pode estar ou não em harmonia com nossas opiniões conscientes.
Mesmo sem entender nada a respeito de filosofia, ao longo da vida um homem tem que fazer escolhas, formar uma opinião a respeito dele próprio e do mundo ao seu redor, e, dependendo de suas conclusões, ele chegará a um sentimento generalizado em relação à existência — uma emoção básica que estará por baixo de todas as suas experiências.

A importância de entender o que é Senso de Vida é que ele é a principal ferramenta de avaliação das pessoas nas questões do dia a dia. É com base em nosso Senso de Vida que nós escolhemos os nossos amigos, nossos pares românticos, nossas músicas e filmes favoritos. Nós nos sentimos atraídos por coisas que estão em harmonia com nosso Senso de Vida, e repelidos pelas que não estão.

Na medida em que uma pessoa tem controle sobre sua mente, seu Senso de Vida pode ser moldado por ela própria ao longo de sua formação, e chegar à vida adulta em harmonia com suas convicções conscientes. Mas, na maior parte dos casos, o Senso de Vida de uma pessoa é formado por influências aleatórias, osmose cultural, é cheio de contradições e frequentemente está em conflito com suas ideias explícitas. De qualquer forma, ninguém pode evitar de formar um Senso de Vida.

Alguns exemplos de perguntas filosóficas que são essenciais na formação de um Senso de Vida:

— O universo é um lugar governado por leis naturais, estável, lógico, ou é um caos incompreensível para o homem?

— Nossa mente é capaz de compreender a realidade, ou a razão é impotente?

— O homem tem livre-arbítrio, ou suas escolhas e seu caráter são determinados por outros fatores (cultura, genética, classe social, instintos)?

— O homem é capaz de atingir sucesso, felicidade, ou a vida é feita de dor e de tragédia?

— O homem é essencialmente bom, admirável, ou ele é mau e desprezível por natureza?

— As pessoas podem conviver em plena harmonia, ou seus interesses estão necessariamente em conflito?

— Buscar a felicidade é importante, ou evitar a dor é o que realmente importa?

— Um homem deve buscar seus objetivos pessoais e ser feliz, ou deve se sacrificar pelo bem dos outros?

— O homem deve ter ambição, autoestima, sonhar alto, ou não deve se sobressair?

Respostas diferentes às perguntas acima resultarão em pessoas com Sensos de Vida diferentes e irão interferir diretamente em todas as suas escolhas, preferências — incluindo suas preferências artísticas. É importante lembrar que, de um extremo a outro, existem posicionamentos intermediários entre todas essas respostas. Por exemplo, uma pessoa pode sentir que: 1) A felicidade é o estado natural do homem e que conflitos são a exceção; 2) Que a vida é feita de conflitos, mas que eles podem ser superados com grande esforço; 3) Que conflitos não são totalmente superáveis e que a felicidade só pode ser atingida em moderação; 4) Que a vida é trágica por natureza e a felicidade é uma utopia.

Nosso Senso de Vida classifica as coisas de acordo com as emoções que elas evocam. No livro The Romantic Manifesto, Rand cita uma série de exemplos concretos e imagina quais emoções esses exemplos iriam provocar em pessoas com diferentes Sensos de Vida. Por exemplo: “uma nova descoberta, triunfo, um homem heroico, o horizonte de Nova York, cores puras, música extasiante”, ou “as pessoas da casa ao lado, uma rotina familiar, um homem humilde, um vilarejo antigo, uma paisagem nebulosa, cores turvas, música folk”. Para uma pessoa com uma visão mais positiva da vida e do ser humano, os exemplos do primeiro grupo devem provocar admiração, exaltação, um senso de desafio. Os exemplos do segundo grupo devem provocar tédio, desinteresse ou repulsa. Já para uma pessoa com uma visão de mundo mais negativa, as emoções sentidas com os exemplos do primeiro grupo devem ser de medo, culpa, ressentimento. As emoções sentidas com os exemplos do segundo grupo devem ser de alívio, conforto; a segurança de viver em um universo não muito exigente.

O Senso de Vida de uma pessoa é algo que percebemos quase instantaneamente quando entramos em contato com ela, pois envolve tudo a seu respeito: cada pensamento, emoção, gesto, postura, tom de voz, expressão facial, a maneira de se vestir. Numa obra de arte, o Senso de Vida de um artista se expressa através de seu conteúdo e de seu estilo (o que ele decide retratar, e a maneira como ele o retrata). Esses dois aspectos — conteúdo e estilo — podem estar em harmonia ou podem estar em conflito um com o outro, assim como os valores conscientes e subconscientes de uma pessoa podem estar em harmonia ou em conflito.

O conteúdo reflete os valores mais conscientes do artista. Que tipo de mensagem a obra transmite? Que tipo de eventos e pessoas o artista decide retratar? Heróis buscando objetivos nobres? Pessoas comuns sem grandes virtudes? Ou pessoas decadentes e imorais? Essas pessoas são retratadas positivamente (sendo eficazes, vitoriosas) ou negativamente (sendo ineficazes, derrotadas)? Um herói retratado positivamente indica um artista com um Senso de Vida benevolente. Um personagem imoral retratado negativamente também pode indicar um Senso de Vida benevolente, como já foi dito antes. Porém, um herói retratado negativamente ou um personagem imoral retratado com simpatia já sinalizam um Senso de Vida malevolente.

O estilo reflete os valores mais subconscientes (e geralmente mais reveladores e verdadeiros) da obra. Por exemplo: o artista comunica suas ideias de maneira clara, precisa, compreensível? Ou de maneira nebulosa, turva, caótica? A história é dramática, excitante, estruturada? Tem uma direção clara, propósito, clímax? Ou ela é monótona, os eventos são episódicos e não caminham para nenhuma resolução? O artista retrata pessoas admiráveis, atraentes? Ou coloca figuras comuns na tela?

Sensos de Vida são formados pela combinação de inúmeras percepções a respeito da vida, e podem ser extremamente diversificados. Ainda assim, é possível classificar, grosso modo, Sensos de Vida como mais malevolentes e mais benevolentes. Um Senso de Vida malevolente é dominado pelas respostas negativas às questões filosóficas mais fundamentais: a vida é trágica, o universo é caótico, a razão é impotente, o homem é desprezível e está condenado ao sofrimento, nossos interesses estão em conflito etc. Um Senso de Vida benevolente é dominado pelas respostas positivas: a vida é essencialmente boa, o universo é compreensível, o homem é admirável e capaz de atingir seus objetivos, seus interesses não precisam estar em conflito. Como já deve estar claro a esta altura, o Idealismo é essencialmente baseado em um Senso de Vida benevolente.

Qualificar o Senso de Vida não é suficiente para dizer se uma obra de arte é boa ou ruim, mas ao mesmo tempo não há como chegar a critérios estéticos absolutos que não estejam ligados a um Senso de Vida, a certos pré-julgamentos filosóficos. Por exemplo: mesmo méritos como “clareza” ou “coerência”, que parecem qualidades estéticas inquestionáveis, desejáveis em qualquer obra, na verdade já são expressão de um Senso de Vida benevolente: refletem alguém que acredita que o universo é inteligível, que a razão é eficaz, que uma comunicação objetiva entre artista e espectador é possível, que mostrar algo harmonioso e agradável ao espectador é algo desejável. Seria impossível um artista com um Senso de Vida totalmente malevolente, tanto em conteúdo quanto em estilo, realizar uma grande obra de arte, pois se ele realmente acreditasse que o homem é desprezível (o que incluiria ele próprio e também os espectadores), incapaz de atingir seus objetivos, que a comunicação é uma ilusão, ele não teria nem a motivação nem a capacidade para realizar uma obra de arte de valor. Portanto, apenas na medida em que um artista possui um Senso de Vida benevolente, mesmo que de forma inconsciente, é que ele consegue realizar algo de qualidade e valor estético.

Embora o Senso de Vida seja um elemento crucial, outros elementos podem contribuir para determinar as preferências artísticas de uma pessoa — questões como temperamento, contexto cultural. Por exemplo: duas pessoas podem ter Sensos de Vida parecidos, mas operarem intelectualmente em níveis diferentes. Uma pode ter uma capacidade de abstração maior do que a outra, uma inteligência maior do que a outra, uma capacidade maior de atenção, e isso a atrairá a obras mais complexas, que estejam mais em harmonia com seu tipo de funcionamento mental.

A seguir, um exemplo concreto de como um Senso de Vida interfere em nossas preferências artísticas:

POR QUE NÃO GOSTO DE GAME OF THRONES

Game of Thrones, do meu ponto de vista, tem uma visão de mundo conflituosa baseada na ideia de escassez, de que vivemos num universo de poucos recursos e, portanto, que a vida é uma grande batalha entre os homens para ver quem conseguirá o controle desses recursos. É uma ideia bastante defendida tanto pela esquerda quanto pela direita no mundo da política, mas enquanto a esquerda foca o que deve ser feito em relação aos fracos nesse contexto — em como eles tirarão os recursos dos fortes para garantir um mínimo necessário aos menos favorecidos —, aqueles que acreditam ser os fortes (como os personagens de Game of Thrones), já estão mais focados no ato de obter esses recursos e em como irão imperar sobre os fracos quando forem vitoriosos (são pessoas em geral bastante interessadas em táticas de guerra, estratégias etc.). Os dois lados no fim têm a mesma visão conflituosa e pessimista de mundo segundo a qual apenas alguns podem ter sucesso, e por isso os outros deverão ser inevitavelmente sacrificados no processo.

Outra coisa que rejeito aqui é a visão relativista de virtude que costuma acompanhar esse tipo de mentalidade: ser poderoso e vitorioso nesse contexto está totalmente relacionado a superar os outros, derrotar adversários. Essas pessoas são incapazes de pensar em autoestima e virtude de maneira objetiva, independente, baseadas na nossa capacidade de lidarmos com a realidade, de sermos eficazes, produtivos, atingirmos nossa felicidade pessoal. É apenas a derrota do outro que prova sua virtude — a capacidade de dominar, de superar, de ser relativamente melhor no campo de batalha (arrogância e agressividade acabam sendo traços de caráter atraentes para quem pensa assim).

É uma mentalidade que reflete um desejo do imerecido, o desejo de obter valores à custa dos outros, contra a vontade dos outros. Enquanto os fracos (dentro dessa perspectiva) buscam o imerecido motivados por ideias altruístas, dizendo que eles devem ter aquilo que desejam justamente por serem fracos e incapazes, e que sem o sacrifício dos fortes eles não teriam chance — ou seja, os fortes devem dar a eles o que eles querem, mesmo que não queiram fazer isso, pois é uma necessidade —, os fortes já querem que os fracos deem a eles o que querem por terem poder. Como eles são fortes, ricos, têm as melhores táticas, as armas mais potentes, os maiores exércitos, e os fracos dependem deles para sobreviver, então estes devem fazer o que aqueles querem, devem obedecê-los, servi-los, amá-los, respeitá-los, mesmo que não queiram fazer isso.

É a ética da mãe vs. a ética do pai numa dinâmica familiar arcaica: a mãe que quer que o filho faça o que ela quer por um senso de culpa, de dever, por ela ser frágil, desamparada, e que ele o faça mesmo contra sua vontade. E o pai que quer que o filho faça o que ele quer por obediência, por medo, “respeito”, também contra sua vontade.

O maior medo dessas pessoas no fim é o de descobrir o que os outros de fato gostariam de fazer se tivessem opção — medo de lidar com pessoas em plena liberdade, agindo voluntariamente, baseadas em seus reais valores e desejos, pessoas que estão buscando felicidade e não apenas a mera sobrevivência física. Isso ocorre, pois elas sentem no fundo que se todos fossem independentes, livres, e pudessem escolher com quem compartilhar suas riquezas (materiais ou espirituais), elas não teriam a menor chance de obtê-las. Então elas se sentem atraídas por essa visão problemática de mundo segundo a qual os sacrifícios são necessários, as pessoas são dependentes umas das outras e os recursos são escassos: é a única forma de elas sentirem que terão algum poder, que serão vitoriosas, que terão aquilo que elas querem das outras pessoas, pois as vontades reais dos outros não representarão mais uma ameaça, não farão mais parte da equação.

Apenas como um exemplo de como essa visão de mundo é transmitida pela série, observe como é natural no universo de Game of Thrones vermos mulheres que demonstram desprezo por certos homens, não parecem sentir um desejo real, mas ainda assim acabam indo para a cama com eles (só no 1º episódio da 8ª Temporada já me lembro da cena em que Euron consegue persuadir Cersei a fazer sexo com ele, e uma outra cena em que Bronn está na cama com 3 mulheres ao mesmo tempo, aparentemente prostitutas). São cenas comuns essas — personagens que são desprezados no fundo, mas que mesmo assim conseguem fazer os outros agirem da maneira desejada, pois eles têm o poder, e neste universo de conflitos e sacrifícios, as pessoas não têm alternativa a não ser servi-los.

Não quero dizer que todo mundo que gosta da série o faz por esse motivo, ou por compartilhar desses valores, nem estou dizendo que a série é ruim artisticamente só por ter essa característica, mas é por essa lente que Game of Thrones me faz enxergar o mundo toda vez que paro para assistir a um episódio, essa visão da realidade em que o poder acaba sendo o valor mais importante e desejado — poder sobre os outros, poder de coerção —, e esse é o principal motivo para eu não me sentir atraído por ela.


quinta-feira, 24 de julho de 2014

Juntos e Misturados (anotações)

- Drew é sempre carismática, Sandler também é simpático... Elenco tem boa química.

- Piadas são irregulares e não muito inteligentes (como em todo filme do Adam Sandler). Roteiro parece ter sido escrito às pressas, sem nenhuma sutileza ou capricho.

- Divertido o contexto da história (viagem pra África, o fato dos 2 serem perfeitos um pro outro, etc). O grande problema é que não há nenhum conflito forte - nada de sério que impeça os 2 de ficarem juntos imediatamente - nenhuma decisão importante a ser tomada, etc, então a resistência deles acaba parecendo artificial e o romance perde força.

CONCLUSÃO: Comédia familiar bem intencionada, porém muito comum, previsível e com piadas meio óbvias e nada sofisticadas.

(Blended / EUA / 2014 / Frank Coraci)

FILMES PARECIDOS: Gente Grande, Separados pelo Casamento, Como Se Fosse a Primeira Vez.

NOTA: 4.0

domingo, 20 de julho de 2014

Planeta dos Macacos: O Confronto (anotações)

- Linda a fotografia e a direção de arte. Visualmente o filme é impecável, e os efeitos especiais estão entre os mais perfeitos que já vi!

- Filme começa bem. A introdução antes do título é boa pra apresentar a situação, e a primeira cena da caça sem diálogos é ótima também e super bem dirigida.

- De novo a trilha sonora do 2001: Uma Odisséia no Espaço (que também usaram em Godzilla)? Aqui pelo menos faz mais sentido (lembramos dos macacos do 2001, etc).

- Não simpatizo pelo macaco principal (Caesar), sempre com essa cara de revoltado / injustiçado. O filme parece querer dar mais dignidade a ele do que aos humanos.

- Gosto da trilha sonora. É bem integrada à imagem e enfatiza momentos específicos das cenas, ajudando a narrar o filme.

- Direção também é muito boa. Adoro que não há tantos cortes e que temos tempo de nos sentir dentro de cada ambiente.

- Não concordo com o diálogo de que os macacos são superiores por não precisarem de tecnologia, armas, etc. Talvez os macacos comuns não precisem mesmo, mas esses do filme (que são inteligentes) já usam fogo, derrubam árvores pra construir suas casas, então eles precisam sim de ciência, tecnologia, etc - só estão uns estágios mais atrasados que nós.

- Personagens humanos do filme são distantes e pouco cativantes. No Planeta dos Macacos antigos, Charlton Heston era claramente o herói, e a gente vibrava toda vez que ele demonstrava sua inteligência (os macacos achavam que ele era um animal inferior).

- Um ponto fraco é que não torcemos nem pra um lado nem pro outro direito. Tanto os macacos quanto os humanos têm suas razões, mas nenhum dos lados é extremamente gostável. O filme acaba sendo um conflito sem solução entre 2 grupos distantes.

- SPOILER: Discussão ética do filme é um pouco superficial (a mensagem de que não devemos brigar, de que a guerra é sempre ruim, etc). Mas é legal a mensagem anti-racismo, quando o filme mostra que o que separa as pessoas não é a raça delas, e sim seus valores (Caesar e Malcolm no fim têm muito mais em comum do que Caesar e Koba, que são ambos macacos).

- SPOILER: História fica mais envolvente no final (Malcolm contra o personagem do Gary Oldman, que quer explodir a torre, e a luta entre Caesar e Koba acontecendo ao mesmo tempo). Agora Malcolm e Caesar parecem estar no mesmo time, pois ambos lutam pela paz entre humanos e macacos - no outro time estão Koba e o Gary Oldman, que apesar de lutarem entre si, concordam com a ideia de que humanos e macacos devem entrar em guerra).

CONCLUSÃO: Filme incrivelmente bem realizado, que poderia ter sido melhor se tivesse personagens mais cativantes e se o conflito real (que não é entre humanos e macacos e sim entre pessoas civilizadas e selvagens) tivesse sido estabelecido mais cedo.

(Dawn of the Planet of the Apes / EUA / 2014 / Matt Reeves)

FILMES PARECIDOS: Godzilla (2014), Guerra Mundial Z, Oblivion, Planeta dos Macacos: A Origem.

NOTA: 7.0