NOTAS DA SESSÃO:- Muito interessante a ideia do OASIS e a metáfora que o Spielberg parece querer criar em relação ao escapismo de seus filmes, embora nesse contexto do OASIS, a ideia de "escapismo" seja um tanto deprimente, pois mostra o ser humano abandonando totalmente a realidade pra buscar felicidade num mundo artificial (não diria que isso é igual à arte ou aos filmes do Spielberg, pois pra mim a arte serve como inspiração pra que a gente seja melhor na vida real, e não apenas como uma fuga, um momento de escape de uma realidade trágica, que continuará trágica após esse breve "descanso").
- Pelo menos fica estabelecido que, se a pessoa morrer ou perder moedas no OASIS, isso representa de fato uma perda de valor no mundo real, não é apenas um jogo inconsequente (embora a gente não saiba exatamente o que o protagonista tem a perder, o que de ruim aconteceria em sua vida pessoal caso ele perca no jogo, etc).
- O objetivo de encontrar o Easter Egg também é bem estabelecido, mas não há um grande envolvimento do espectador, pois a motivação do personagem é mal fundada, superficial. Ele não parece ter um grande sonho de ser dono do OASIS, não parece estar precisando desesperadamente do dinheiro ou algo do tipo, então a corrida não tem carga dramática, um significado emocional pra ele. É apenas um joguinho com um prêmio atraente no fim, mas se ele não ganhar, tudo bem também. A garota Art3mis até tem uma motivação mais sólida, ideológica (meio esquerdista), mas que não parece ser vital pro Wade de fato.
- Divertidas as milhares de referências à cultura pop. Embora o filme dê tiro pra todo lado, tentando agradar públicos opostos (acho legal quando são referências a coisas compatíveis com o mundo do Spielberg - De Volta para o Futuro, etc - mas quando ele começa a homenagear coisas mais underground, indie, me parece inautêntico - assim como o vilão do filme na cena em que ele tenta ganhar a simpatia do Wade mencionando John Hughes, Duran Duran, quando na realidade é um homem de negócios que não entende de nada disso).- Seria muito mais inspiradora a história se o Halliday tivesse escondido as chaves de forma que apenas uma pessoa com grandes qualidades de caráter pudesse encontrar. Alguém com as mesmas virtudes dele, e que cada chave provasse que o jogador tem alguma qualidade específica, tornando-o digno de comandar o OASIS. Mas na prática pra encontrar as chaves aqui você só precisa desvendar enigmas comuns - qualquer pessoa inteligente que pesquise bem a vida de Halliday poderia encontrá-las.
- As maneiras como o herói descobre as chaves também não são muito legais. Por exemplo, quando ele descobre que tem que dar ré na corrida de carro - é uma associação tão distante que o espectador não tem como entender como foi feita. A gente não participa da brincadeira, não entende a lógica por trás das descobertas, apenas assiste passivamente o herói tendo sacadas mirabolantes que não sabemos de onde vieram. Nos melhores filmes, o espectador consegue entender como o herói teve o insight, sente que ele também teria tido a sacada se estivesse na mesma situação. A diversão do espectador não está em descobrir que o herói é mais esperto que ele, e sim no prazer de ver uma revelação incrível com seus próprios olhos - o que costumava ser a abordagem do Spielberg no passado: vejam por exemplo essa cena de Contatos Imediatos do Terceiro Grau, onde o Richard Dreyfuss finalmente descobre o que significa a montanha que aparece em suas visões, após dias tentando decifrar o enigma dos aliens:
- Meio confusa essa história das 3 chaves - o fato de todo mundo poder pegar a chave também depois que o 1º revela o segredo. Isso não vai "filtrando" as pessoas, de forma que só os melhores jogadores se aproximem da 3ª chave.
- O romance não funciona. A menina é antipática, não há sintonia entre eles, ele diz que está apaixonado por ela, mas não vimos 1 momento de real intimidade, não vimos ele demonstrar em nenhum momento que estava envolvido emocionalmente - e eles nem se conhecem na vida real (a ideia tola de que você deve se apaixonar por uma pessoa apenas por sua consciência, e ignorar totalmente a dimensão física).
- Meio desnecessário todo o trecho na balada, a disputa de dança ao som de Bee Gees, etc. Só serve pra fazer mais referências à cultura pop, mas soa forçado, até porque a segunda chave não está aí.
- O vilão também é fraco. É um empresário ganancioso que quer virar o dono do OASIS, mas não tem uma motivação realmente destrutiva, maligna, nem tem nada contra o herói pessoalmente (os dois mal se conhecem, então não há muito drama).
- O filme entrar dentro de O Iluminado é uma ideia maravilhosa e tecnicamente é muito bem feito - mas ainda acho que o filme depende demais dessas referências pop pra agradar o público, porque se dependesse só da história e dos personagens, seria pouco interessante.
- Confuso quando o Wade começa a conhecer os amigos na vida real. Os amigos eram secundários demais no OASIS, e lá todo mundo vive mudando de disfarces, então nem sei mais quem é quem agora. São pessoas que não parecem ter nada em comum e não criam uma equipe atraente.
- Não é claro como descobrem que a 3ª chave está no Atari.
- O filme cria um enorme suspense em cima daquele orbe, como se fosse uma arma altamente perigosa, quando é apenas um escudo pra impedir os competidores de chegarem no Atari enquanto os vilões jogam.
- O final vai ficando cada vez pior e mais caótico. É péssimo todo esse trecho onde a Art3mis é presa, mas daí consegue escapar e facilmente subir até a sala do vilão, tudo pra desativar o orbe e liberar o Atari, que nem sabemos se é mesmo a 3ª chave. A sequência de batalha é poluída visualmente, não dá pra entender qual o objetivo físico, se esses milhares de pessoas estão aí pra tentar jogar o Atari...
- O herói faz aquele discurso pra multidão, como se tivesse numa batalha épica pra salvar o planeta... Não cola, pois foi o que disse no começo: Wade não tem uma motivação pessoal forte na história, e o vilão não tem de fato um plano de destruir o mundo, etc. Não são como os rebeldes em Star Wars. É uma história bem mais simples, sem essa carga política toda.
- Não fica claro por que o Wade atira na Art3mis. É um ato extremamente dramático, mas que não parece ter necessidade alguma, acontece de maneira rápida, casual. Só aumenta a impressão de que morrer no jogo não é tão sério assim no fim das contas.
- SPOILER: O herói não faz nada de admirável o filme todo. No fim sobrevive porque ganhou uma moeda mágica de presente que nem sabia que tinha. E acha o Easter Egg não por ter virtudes relevantes, mas porque é um pouco mais nerd que os outros jogadores e deve passar o dia todo lendo trivia de video game.
- Nada a ver a cena em que ele se recusa a assinar o contrato. Ele nem leu o que estava escrito. É como se contratos fossem intrinsecamente maus, coisas de "homens corporativos" que só podem ser maléficos.
- Herói Envergonhado: a ausência de foco nas virtudes de Wade; toda a ênfase no trabalho de equipe; a decisão de Wade de dividir o prêmio com os amigos, etc.
- Detalhes confusos, mal escritos: por que Wade desconfia que o Halliday não é um avatar, sugerindo que ele possa ser uma consciência real ou algo do tipo? De onde veio essa ideia? Ou depois o diálogo com o Ogden Morrow onde é "revelado" que ele é que era a chave de Halliday, e não a Kira. Como assim? A Kira foi sim a 2ª chave. Ogden foi citado no desafio do contrato, mas isso o Wade já sabia. O que há de revelador nessa cena agora? O filme só fica tentando confundir o espectador, dar a sensação de que houve várias revelações surpreendentes agora no clímax, pra ele sair com a vaga impressão de que viu uma grande história, embora não tenha entendido muito bem.
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CONCLUSÃO: As referências culturais divertem e é legal ver o Spielberg tentando se reconectar com o público jovem, mas o roteiro por baixo não se sustenta.
Ready Player One / EUA / 2018 / Steven Spielberg
FILMES PARECIDOS: Ender's Game: O Jogo do Exterminador (2013) / Minority Report - A Nova Lei (2002)NOTA: 5.0



















