(Esta crítica está no formato de anotações - em vez de uma crítica convencional, os comentários a seguir foram baseados nas notas que fiz durante a sessão.)
ANOTAÇÕES:
- Como o filme foi o grande vencedor de Cannes, já imagino que a história será em grande parte
Naturalista e motivada por uma ideologia de esquerda, mas pelo menos no começo, o filme tem elementos narrativos o bastante pra prender o espectador "normal": o ritmo é estimulante, a direção guia a atenção da plateia a todo momento, se comunica objetivamente, os personagens apesar de não serem admiráveis são divertidos pois são mostrados sob uma lente de humor (é pra rirmos deles e não sentirmos pena), a situação é envolvente pois o protagonista está mentindo no trabalho, o que gera certo suspense (a história é sobre uma situação incomum, tem um gancho narrativo, não é um retrato social monótono como de costume, etc).
- Em geral nesse tipo de filme os ricos são os vilões e os empregados são retratados como vítimas. Aqui o filme surpreende, pois deixa claro que o que os empregados estão fazendo é imoral. Ele também não vilaniza os patrões só por serem ricos. O grande problema é que o filme trata as atitudes dos empregados de maneira leve, como se fosse algo cômico, uma desonestidade perdoável, quando na verdade é algo odioso.

- A situação é um pouco artificial. Se os empregados fossem tão competentes assim a ponto de trabalharem pra uma família de padrão elevado e impressioná-los com seus serviços, será que eles seriam tão pobres de fato? Será que teriam que apelar pra algo tão desonesto e radical pra conseguirem trabalhar? Não conseguiriam um emprego honestamente? E se os ricos fossem tão ingênuos assim, sem o menor senso de julgamento, será que eles seriam ricos?
- O roteiro é criativo, bem escrito. A maneira como eles vão conseguindo se livrar dos antigos empregados é muito imaginativa (e revoltante). Ou pequenos toques como o filho estranhar que todos têm o mesmo cheiro (e colocar a mentira em risco).
- Vai ficando cada vez mais incômodo o fato do filme não condenar as atitudes dos empregados (a maldade que eles fazem com os outros funcionários, eles usufruindo da casa enquanto os patrões viajam, etc). O filme não responsabiliza totalmente os personagens pois parece acreditar que isso tudo é culpa do "sistema", da "desigualdade", e portanto eles não são pessoas tão condenáveis assim - a noção de que o pobre não tem opção a não ser agir imoralmente numa sociedade capitalista (a mãe sugere isso quando diz que, se fosse rica, ela seria uma boa pessoa também, assim como a patroa).
- SPOILER: Divertida a reviravolta envolvendo a antiga empregada e o marido dela no subsolo. E também os patrões resolverem voltar mais cedo de viagem. A situação vai ficando cada vez mais tensa e absurda.
- É genial a maneira como o filme cria a metáfora dos pobres como "parasitas". Claro que o filme não acredita que eles sejam parasitas de fato (é mais provável o diretor acreditar que os ricos é que são os parasitas), mas a narrativa sugere que os pobres se tornam parasitas ou acabam tendo que agir como parasitas na sociedade atual - se escondendo debaixo de móveis e se arrastando (literalmente) pelo chão feito baratas, ou mais tarde na cena da tempestade onde eles parecem ratos nadando em esgotos. Discordo totalmente da análise social que o filme faz, mas a maneira como ele apresenta o tema é inteligente.
- O senso de humilhação do pobre (por causa da desigualdade) também é muito bem retratado (as observações casuais do patrão sobre o cheiro do motorista, etc). Leva a discussão da desigualdade além da questão financeira, mais pra um lado pessoal.
- O filme deveria ser sobre o mal da desonestidade - nada disso teria acontecido se os protagonistas fossem honestos, minimamente decentes. Mas o filme quer fazer parecer que isso não é culpa deles totalmente, que o problema no fundo é a desigualdade. Começa a querer que a gente sinta pena deles, os veja como vítimas.
- A cena da tempestade parece não ter muita função na trama - só serve pra enfatizar como é difícil a vida do pobre, que tem que lidar com tragédias pessoais todo dia e ainda manter uma aparência civilizada no trabalho pra cuidar das futilidades dos ricos (o motorista tendo que se fantasiar de índio na festinha infantil, etc).
- SPOILER: Outra metáfora bem feita é a da pedra que simboliza a riqueza, a boa sorte, o desejo de se tornar rico - e como no final ela se torna uma arma, um instrumento para o mal. Também discordo da crítica (da ideia de que o capitalismo é um sistema perverso), mas acho válida a maneira como o filme faz uso do simbolismo.
- SPOILER: Claro que no fim isso tudo resultaria nos pobres se revoltando e assassinando os ricos (curioso que o que dispara o gatilho do pai no fim antes dele matar o patrão é o detalhe do cheiro - a desigualdade de autoestima, de valor próprio, e nem tanto econômica).
- SPOILER: Sintomático dos tempos atuais que, assim como
Bacurau, este é mais um filme aclamado em Cannes que mostra uma vingança brutal dos "excluídos da sociedade" contra os ricos.
- Meio forçada essa ideia da mensagem via código morse (mas é interessante e simbólica a ideia do pai decidir viver escondido no subsolo da mansão).
CONCLUSÃO: Acho a discussão equivocada, as ideias do filme totalmente falsas, imorais - mas a maneira como ele desenvolve o tema é inteligente e rica cinematograficamente.
(Parasite / Coreia do Sul / 2019 / Bong Joon Ho)
NOTA: 7.5