quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

O Sacrifício do Cervo Sagrado


(Esta crítica está no formato de anotações - em vez de uma crítica convencional, os comentários a seguir foram baseados nas notas que fiz durante a sessão.)

ANOTAÇÕES:

- O close inicial na cirurgia é grotesco, feito apenas pra chocar, incomodar. Mas pelo menos tem a ver com a história, não é algo totalmente aleatório.

- Todo o começo é um exercício em estranheza, em não-convencionalidade. O sexo esquisito entre o Colin Farrell e a Nicole Kidman, os encontros bizarros entre o Colin e o garoto (Martin), o comportamento estranho dos personagens em geral, as conversas aleatórias sobre pulseiras de relógios, a trilha sonora dissonante, as lentes grande angulares extremas que distorcem o ambiente... É o que falo na postagem Experimentalismo e Filmes de Arte: é estranheza pela estranheza, o filme tem prazer em quebrar as regras simplesmente pra ser diferente, coloca estilo acima de conteúdo, etc. Mas pelo menos faz isso de maneira razoavelmente divertida, sem a intenção de promover valores negativos.

- Quando Martin revela a maldição pro Colin Farrell (lá pelos 50 minutos), o filme começa a se distanciar do Subjetivismo inicial e a apresentar uma história mais sólida; vai tornando a situação um pouco menos nonsense (Nicole questiona a amizade entre o Colin e o garoto, e isso é mais ou menos justificado, etc).

- A Nicole Kidman acaba se tornando um ponto de identificação para o espectador, pois ela age de maneira mais humana e sensata que o Colin Farrell e mesmo os filhos (vai atrás do Martin pra tentar fazê-lo retirar a maldição, procura o anestesista pra saber o que houve na cirurgia e entender a motivação do menino, etc).

- O cineasta certamente rouba muito do estilo de Stanley Kubrick: o uso de música clássica, os zoom-in/zoom-out longos em incontáveis cenas, o uso de iluminação prática (abajures com lâmpadas fortíssimas que já servem pra iluminar o ambiente sem a necessidade de outros refletores), os passeios pelos corredores do hospital que lembram O Iluminado, o uso de grande angulares, o casting da Nicole Kidman (de De Olhos Bem Fechados), aqueles pizzicatos na trilha que lembram O Iluminado também, etc. A grande diferença (e que talvez seja o maior problema do filme) é que Kubrick tinha um ótimo senso de drama, apresentava conflitos morais difíceis, discutia questões sociais / psicológicas sérias, etc. Aqui é simplesmente uma situação trágica: Colin Farrell cometeu um erro médico, sem querer o pai do Martin morreu, e agora Martin resolveu se vingar, fazendo sua família pagar o preço. É apenas um garoto perturbado ameaçando uma família, e não uma história sobre questões mais profundas como tenta parecer (referências à mitologia grega não tornam um filme mais profundo automaticamente).

- SPOILER: O final é insatisfatório. Os finais do Kubrick eram quase sempre irônicos, intrigantes, faziam a gente refletir. Aqui não houve nada de surpreendente: o Colin Farrell apenas pagou pelo seu erro, que era exatamente o desejo do vilão. Não houve um desfecho inesperado, uma transformação de personagem, uma grande lição, etc. A cena do restaurante não diz muita coisa, apesar da trilha épica.

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CONCLUSÃO: Exercício de estilo interessante com uma premissa curiosa, mas a discussão moral não é tão forte quanto poderia ser, e o final deixa um pouco a desejar.

The Killing of a Sacred Deer / Reino Unido, Irlanda, EUA / 2017 / Yorgos Lanthimos

FILMES PARECIDOS: O Estranho que Nós Amamos (2017) / Grave (2016) / O Lagosta (2015) / O Presente (2015)

NOTA: 5.0

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Respondendo às Perguntas

Foram poucas mas boas!

Lady Bird: A Hora de Voar

Greta Gerwig me parece cair naquela categoria de pessoa criativa que é quase boa atriz o bastante pra estar na frente das câmeras, mas que de fato explora melhor seu potencial quando está por trás. Lady Bird (sua grande estreia na direção) apenas reforça essa impressão. O filme tem tudo aquilo que costumo gostar nos filmes do Noah Baumbach: a torrente de diálogos inteligentes que faz você querer anotar várias frases, personagens divertidos e bem escritos, a perspicácia psicológica - e menos aquilo que costuma me incomodar nos filmes de Baumbach: a visão de mundo deprimida.

É o tipo de filme que fica no meio do caminho entre o Naturalismo e o Idealismo. Lady Bird é uma típica adolescente americana, sem grandes virtudes além de sua personalidade adorável, os dramas que ela vive são dramas típicos de garotas de sua idade, nada de muito épico acontece no filme... Mas o roteiro não é escrito de maneira realista - a história não é um simples retrato passivo de sua realidade, e sim um entretenimento cuidadosamente planejado, onde não se encontram nem 10 segundos de "tempo morto", sem nada de interessante ou surpreendente acontecendo na tela.

Pegue por exemplo os momentos após a apresentação da peça na escola: temos a cena da amiga gordinha indo conversar com o professor (por quem ela é secretamente apaixonada), daí corta pro professor de teatro deprimido porque ninguém "entendeu" sua obra, daí corta pra Saoirse indo no banheiro masculino e pegando os 2 garotos aos beijos, depois corta pra cena no carro com as 2 amigas chorando ouvindo música... São 4 ótimos momentos, cômicos por razões diferentes, que são metralhados na plateia um após o outro deixando a gente quase sem piscar.

Saoirse Ronan está perfeita no papel, transmite todas as nuances da personagem, se sai bem nos momentos cômicos, nos momentos dramáticos, e tem até uma cena "musical" onde ela consegue ser péssima e maravilhosa ao mesmo tempo - é possivelmente minha performance feminina favorita de 2017.

Outros momentos que gostei do filme: o bate boca entre Saoirse e a mãe no carro na cena de abertura, os comentários "wtf" do Timothée Chalamet, a aula de teatro com o professor substituto, o momento em que o Lucas Hedges e a Saoirse fazem as pazes, o confronto no colégio com a mulher anti-aborto, Saoirse perguntando se a mãe gosta dela (não se ela a ama), ela fazendo 18 anos e indo comprar coisas "proibidas" na loja de conveniência... Não é um filme incrivelmente ambicioso, inovador, mas dentro de sua proposta, é extremamente bem sucedido.

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Lady Bird / EUA / 2017 / Greta Gerwig

FILMES PARECIDOS: O Estado das Coisas (2017) / Sing Street: Música e Sonho (2016) / Mistress America (2015) / Enquanto Somos Jovens (2014) / A Garota de Rosa-Shocking (1986)

NOTA: 8.0

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Três Anúncios Para um Crime

NOTAS DA SESSÃO:

- A premissa é curiosa mas um pouco morna. É como se pegássemos a história do meio - víssemos apenas um trecho de um filme maior, um que contasse a história completa desde o assassinato, explorasse todo o drama da personagem, etc.

- O filme assume que de cara estaremos torcendo pra Frances McDormand, mas não nos dá motivo pra isso. Não mostra como era a relação dela com a filha, nem que medidas a polícia já tomou. A polícia está de fato agindo de má vontade? Poderiam fazer algo específico que não estão fazendo pra pegar o assassino? O quanto a Frances já insistiu até tomar essa decisão drásticas dos outdoors?

- Depois de umas cenas fica claro que ela é totalmente insensata (exigindo que colham o sangue da população inteira pra testes de DNA, etc). Ainda assim, o filme a retrata como se ela fosse heróica e o policial fosse o vilão, só por não poder solucionar o caso.

- Ridículo o discurso dela pro padre - acusando ele de pedofilia só por ser membro da igreja, mesmo que ele pessoalmente nunca tenha feito nada (a comparação que ela faz com ser membro de uma gangue não tem nenhum sentido). O padre só foi lá dar um conselho bastante razoável sobre os outdoors, e ela vem com uma atitude incivilizada, baixo nível (e o filme acha que ela arrasou na resposta).

- Que absurdo ela agredir o dentista, cuspir na cara dele! Essa personagem é desumana, irracional, cheia de ódio... O filme é simplesmente uma série de situações onde a Frances McDormand chega e humilha algum opositor de forma grosseira e solta uma frase de efeito no fim (a repórter na beira da estrada, etc). O filme não está preocupado em nos envolver numa narrativa interessante, criar empatia pelos personagens, criar suspense, fazer a gente torcer por justiça, simpatizar pela menina que morreu, etc. É apenas política. O filme tem uma mentalidade de tribo, de torcedor de futebol... Não conta uma história universal, não deseja unir a plateia... É feito pra uma tribo específica de esquerda, cujo prazer vem exclusivamente de humilhar e atacar a tribo inimiga. Todos os homens praticamente são maus... A polícia é corrupta, violenta, espanca negros, gays, deixa mulheres serem estupradas, o padre é pedófilo, o dentista é mau, o ex-marido da Frances é um espancador de esposas, etc. As únicas pessoas boas no filme parecem ser as minorias - o casal de negros, o gay, o anão interpretado pelo Peter Dinklage, etc.

- Ridículo ela negar que agrediu o dentista, quando de fato agrediu... Toda essa situação do dentista foi totalmente forçada, e agora entendemos por que - é só pro filme poder fazer um discurso sobre vítimas de estupro, pra Frances dar uma lição de moral na polícia, que se nega a acreditar em mulheres que são violentadas, mas acredita em homens quando estes são agredidos. É um diálogo totalmente desnecessário, que não tem nada a ver com a história... A polícia não está negando que a filha dela foi estuprada.

- A narrativa é fraca, sem conflito. A personagem da Frances não tem um grande obstáculo, algo importante a perder (a filha já está morta), os outdoors não são garantia alguma de que o assassino será encontrado. Os "vilões" (que seriam os policiais) são fracos... Eles no máximo parecem incompetentes, idiotas, mas não representam uma ameaça a ela - não há um conflito moral interessante movendo a história. Se você quer apenas ver uma boa história sobre uma mãe buscando justiça (e não está interessado em discursos políticos camuflados) é um roteiro tedioso. Terra Selvagem desse ano tem uma temática e uma ambientação parecida e é bem melhor (só que é cinema, não política, então os críticos não se empolgam tanto).

- Quando a Frances fica sem dinheiro pra pagar os outdoors (e achamos que surgirá algum conflito pelo menos), entra uma mulher do nada no escritório e entrega um envelope com 5 mil reais de presente pra cobrir as despesas. Conflito resolvido em 1 minuto sem esforço algum.

- Os diálogos têm momentos horrorosos. Por exemplo a Frances conversando com o cervo naquele momento poético, e de repente fazendo comentários sobre "Doritos pontudos"... Ou o pior de todos que é o do Woody Harrelson com a esposa na cama. Ele dá um beijo nela (tudo num clima romântico) e diz com uma voz sexy:

Woody: Você não está com cheiro de vômito, o que é bom.
Esposa: Aquafresh. Um truque que aprendi.
Woody: Ainda é sua vez de limpar a bosta dos cavalos no estábulo, sabia?
Esposa: Esses cavalos fodidos. Eles são seus cavalos fodidos. Eu vou mandar alguém matar esses cavalos fodidos.
Woody: Deixa que eu faço. Sua vadia preguiçosa.
Esposa: Obrigado, papa. Foi muito legal hoje. Foi uma foda muito legal. Você tem um pau muito bonito, Sr. Willoughby.
Woody: Isso é de alguma peça? "Você tem um pau muito bonito Sr. Willoughby", acho que ouvi isso numa peça do Shakespeare uma vez.
Esposa: Seu bobo. É do Oscar Wilde.

- Toda essa história do Woody Harrelson ter câncer não tem relevância pra história. Ele deveria ser o obstáculo central do filme, mas daí ele morre antes de fazer qualquer coisa de útil.

- Por que o Sam Rockwell espanca o gay quando ouve da morte do Woody Harrelson? Ele não sabia que o Woody tinha câncer? Achou que se matou por causa dos outdoors? Mas daí a culpada não seria a Frances? O filme não está nem aí... Simplesmente joga uma cena aleatória de um policial espancando um gay, afinal esse tipo de coisa nunca é demais.

- Nada a ver o policial falar pro Sam Rockwell ir na delegacia à noite sozinho (sendo que ele não trabalha mais lá) só pra pegar a carta que o Woody Harrelson deixou. Quem entra numa delegacia assim? Não parece plausível. É só porque o roteirista precisava de uma desculpa pra ele estar lá na hora que a Frances incendeia o prédio. E é puro nonsense a Frances McDormand incendiar a delegacia. Por que ela faz isso? Ela concluiu que foram os policiais que destruiram os outdoors? E se acha na razão de ir lá e por fogo no lugar sem prova alguma? A cidade inteira está contra os outdoors! Qualquer um poderia ter feito isso (e de fato foi o ex-marido dela que fez, não os policiais!).

- O gay que foi brutalmente espancado pelo policial resolve perdoá-lo e serve suco de laranja pra ele no hospital?!! Isso é totalmente irreal, só pra mostrar como os "oprimidos" são dóceis e humanos em comparação com os "opressores" (exceto a Frances, que pode usar violência pra tudo).

- Outro conflito resolvido de maneira preguiçosa: os outdoors pegam fogo, mas daí alguém bate na porta da Frances com uma cópia de tudo! E vão todos lá felizes colar os outdoors de novo: Frances, os 2 negros e o anão - as minorias contra a polícia má.

- SPOILER: Trama tola, mal escrita: no fim os outdoors não serviram pra nada, o Sam Rockwell simplesmente vai num bar e ouve o estuprador confessando o crime em voz alta, por pura coincidência. E em vez de chamar a polícia, ele resolve arranhar o rosto do cara pra colher o DNA com suas unhas! Essa bobagem estar indicada ao Oscar de Melhor Roteiro é uma piada.

- Assim como o Woody Harrelson se "redime" depois de ter câncer e se suicidar (manda a carta pra Frances, etc), agora o Sam Rockwell, que era totalmente imoral, vira do "bem" na história, afinal ele perdeu o emprego na polícia, foi espancado, teve o rosto deformado por queimaduras. Então agora ele resolve ajudar a Frances (virou um "oprimido" também) e ela fica amiga dele, esquecendo que poucos dias antes ele estava espancando pessoas na rua sem razão alguma. Se você é uma vítima, Frances te apoiará, independentemente do seu caráter; a única coisa realmente impoerdoável é alguém numa situação de privilégio.

- SPOILER: O final é um absurdo... Eles partirem os 2 pra outro estado com uma espingarda pra matar um cara que pode ou não ser o assassino da filha, pode ou não ter cometido um crime, tudo baseado em suposições... É igual ela incendiar a delegacia... Provas não são necessárias, pois esta é a "verdade dela".

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CONCLUSÃO: Assim como A Forma da Água, um roteiro mal escrito, sem talento, que apela pra discursos políticos polarizadores pra conquistar a plateia.

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri / Reino Unido, EUA / 2017 / Martin McDonagh

FILMES PARECIDOS: A Forma da Água (2017) / Terra Selvagem (2017) / Onde os Fracos Não Têm Vez (2007)

NOTA: 2.5

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Todo o Dinheiro do Mundo

NOTAS DA SESSÃO:

- Filmes de sequestro costumam já ter uma premissa minimamente envolvente, e nesse caso, pela vítima ser o neto do homem mais rico do mundo, a situação é ainda mais interessante.

- Muito boa a apresentação do personagem do J. Paul Getty. A maneira como ele fez sua fortuna com petróleo, os diálogos no início sobre tudo ter um preço (o que nos faz pensar na atitude dele no futuro diante do sequestro). Christopher Plummer está ótimo. E é divertida a maneira como ele se recusa a pagar o resgate. O filme não o mostra como alguém detestável, um vilão, e sim como um homem consciente, não emotivo, que simplesmente entende que não é uma boa ideia negociar com criminosos. Tanto que depois ele contrata o Mark Wahlberg pra ajudar no resgate.

- O fato da Michelle Williams ser distante do Getty, brigada com o ex-marido, torna a situação dela ainda mais complicada (ter que pedir uma fortuna pro ex-sogro que não dá a mínima pra ela).

- Divertidíssimo o Getty e suas mesquinharias (instalar um telefone público em casa para as visitas, etc). Outro ótimo momento é quando ele fala do problema das liberdades que o dinheiro traz e dos parasitas que vivem ao redor dele.

- A suspeita de que o neto possa ter armado o próprio sequestro cria uma reviravolta interessante no meio.

- SPOILER: Ótimo o trecho onde achamos que os bandidos executaram o garoto (por ter visto o rosto dos sequestradores), há toda a sequência do reconhecimento do corpo, e no fim não era o menino. O roteiro é realmente bom. Consegue criar diversas surpresas e variações em cima de uma situação que poderia ser monótona, apenas o garoto sequestrado e a família tentando achá-lo. Logo depois disso há a cena em que a polícia invade o cativeiro, mas daí o garoto já foi vendido, etc.

- Divertida a cena em que achamos que o Getty está negociando o resgate, mas daí ele está apenas comprando um quadro. O filme está sempre brincando com nossas percepções.

- SPOILER: Por que os bandidos querem que o garoto coma bife, fique forte? Cria certa intriga... Legal a tentativa do menino de escapar, provocar o incêndio. Ele não é uma vítima passiva e chata que não faz nada o filme inteiro. E a relação "positiva" que ele forma com um dos sequestradores traz uma leveza pra situação que funciona.

- Um pouco forçado a Michelle Williams lembrar do minotauro que o filho ganhou do avô. Ninguém simplesmente se lembra que tem milhões de dólares guardados no armário por acaso (ainda mais ela não sendo rica). Mas é uma tentativa interessante do roteiro de criar um pequeno twist dentro da história maior, principalmente pelo que isso revela a respeito da personalidade do Getty.

- SPOILER: Forte a cena da orelha! Não sou fã de violência explícita, mas nesse caso não é algo gratuito - é a única cena violenta no filme, e considerando o tema da história, é aceitável (as cenas que vêm depois disso são ótimas também: a secretária recebendo a orelha pela correspondência, depois a Michelle Williams mandando milhares de jornais pro Getty, etc).

- SPOILER: Muito filho da puta o Getty decidir pagar o resgate, mas exigir em troca a guarda dos filhos. Agora sim o filme começa a mostrá-lo como vilão, mau caráter. Pra piorar, em vez de pagar os 4 milhões, ele paga apenas uma parte... Não faz sentido, pois até então, ele estava se recusando pagar o resgate por uma questão de princípios, não de falta de dinheiro. Mas decidir pagar, e não dar o valor cheio, é apenas maldade da parte dele.

- O discurso do Mark Wahlberg no fim reforça essa atitude anti-ricos, anti-dinheiro, que não era a essência da história na minha visão. O conflito principal era mais entre razão e emoção. A mãe (emoção) desesperada, disposta a fazer qualquer coisa que os bandidos pedissem, mesmo que isso tivesse consequências ruins, e o Getty sendo mais frio, tentando manter a objetividade e pensando a longo prazo. No fim o filme consegue fazer o sequestrador parecer mais humano e bondoso do que o Getty!

- Legal a entrega do dinheiro: o carro na estrada seguindo as pistas, etc.

- SPOILER: Não parece muito realista a ação final onde a mãe e os bandidos estão caçando o garoto na cidadezinha... Por outro lado eu gosto dessas liberdades que o filme toma pra tornar a narrativa mais dramática (em vez de ficar preso à história verídica). Getty morrer e a Michelle Williams assumir tudo também parece meio improvável (o timing perfeito), mas é um desfecho irônico pra história (embora faça falta um encontro final entre o Getty, o neto e a mãe pra gerar um senso de conclusão).

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CONCLUSÃO: Há certamente um elemento anti-dinheiro na história que é questionável, mas fora isso é uma trama envolvente, com um roteiro dinâmico, cheio de cenas interessantes, e uma ótima atuação de Christopher Plummer.

All the Money in the World / EUA / 2017 / Ridley Scott

FILMES PARECIDOS: Os Suspeitos (2013) / A Negociação (2012)

NOTA: 7.5

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Maze Runner: A Cura Mortal

NOTAS DA SESSÃO:

- A produção dos Maze Runners sempre me parece mais rica e bem cuidada visualmente do que a de outras sagas adolescentes como Divergente, etc. Não é nenhum Mad Max: A Estrada da Fúria, mas é respeitável.

- A sequência inicial do trem não tem nada de muito especial em termos de ideias, direção, mas é uma tentativa de se criar um Set Piece empolgante logo na cena de abertura, o que é sempre um bom sinal.

- A motivação do herói aqui é mais fraca que no último filme. Todo o objetivo dos personagens é salvar o oriental (Minho) que foi capturado pela WCKD. É algo totalmente altruísta, pouco ambicioso, sem nenhum benefício atraente pro Thomas e pros outros personagens. Eu como espectador não estou nem aí pra esse Minho - ele já era um personagem esquecível no filme anterior, e o roteiro não tenta torná-lo importante pro espectador nesse novo capítulo, pra termos um interesse real em seu resgate. Devemos apenas aceitar que ajudar o próximo vale qualquer sacrifício (especialmente se o próximo for "multicultural").

- Pra quem não sacou, a Last City representa a América egoísta e má, cercada pelo muro do Trump, disposta a metralhar os pobres estrangeiros do lado de fora pra não ter que dividir suas riquezas com eles. E Thomas é um herói, não porque ele tem virtudes interessantes, mas porque apesar de branco, ele se sacrifica em prol dos não-brancos e luta contra o sistema. É o mesmo discurso tedioso anti-América, anti-individualismo que temos que ouvir em todos os filmes, músicas, séries e eventos televisivos hoje em dia. Isso só não arruina o filme pois nesse caso fica claro que o objetivo do filme não é político, intelectual, no fundo ele quer apenas mostrar uma aventura, entreter, etc. Essas mensagens só estão presentes pois são os valores mainstream de hoje - é o que você tem que repetir se você quiser ser pop, atual, politicamente correto, etc.

- Como "heist movie" o filme é bem fraco. A maneira como eles invadem a WCKD é bem trivial (raptam a Teresa que abre as portas facilmente com suas impressões digitais) e pior ainda é a maneira forçada como eles resgatam o Minho e escapam do prédio (Minho pra facilitar já estava fugindo quando os amigos chegam pra resgatá-lo, e daí em poucos minutos eles se livram de todos os guardas saltando pela janela do alto do prédio e mergulhando no espelho d'água mais fundo de todos os tempos).

- O filme é cheio de saídas fáceis, mal pensadas, que não geram nenhuma admiração pelos personagens e ainda fazem o roteiro parecer tolo. Logo após a fuga forçada do prédio, há a cena absurda em que o ônibus com os refugiados é cercado pelas autoridades da WCKD, mas daí milagrosamente cai um cabo de aço do céu, e um guindaste (perfeitamente posicionado onde o ônibus parou aleatoriamente) ergue o ônibus pra fora dos muros da cidade (déjà-vu do vagão do trem sendo "pescado" pela nave na sequência inicial). Filmes que ignoram o conceito de autoestima estão sempre dependendo dessas soluções mágicas pra salvar os heróis (e de dons divinos que tornam o protagonista especial por causa de sua genética, não de seu caráter e suas ações).

- Como a história é fraca, no final eles usam o mesmo recurso da parte 1 e 2 pra dar um senso de conclusão: algo trágico acontece a algum amigo de Thomas, daí ele grita e chora intensamente (e a gente na plateia lembra que Gally, um personagem que morreu tragicamente no fim da parte 1, ressuscitou e está de volta à série - por que então devemos acreditar que os que morreram nesse filme de fato morreram?).

- SPOILER: Como o herói ainda não sofreu e se sacrificou o bastante, no fim ele se entrega voluntariamente pros inimigos pra salvar a humanidade. E de bônus ainda leva um tiro na barriga pra proteger a Teresa (uma personagem má).

- SPOILER: O filme vai cada vez chutando mais o balde. A maneira como Thomas mata o vilão é muito falsa (aquele vidro prendendo os zumbis iria se quebrar tão facilmente?). E depois a maneira forçada como a Teresa acaba morrendo só porque a nave não conseguiu dar uma ré de 2 metros pra ela subir (mais um sacrifício, mais um amigo morrendo pro herói gritar e chorar).

- É meio esquisito os vilões do filme serem pessoas que estão atrás de uma cura pra uma doença mortal que pode acabar com a vida de todos, e os mocinhos serem aqueles que se recusam a colaborar com a cura e não demonstram qualquer interesse nela (a única empresa no mundo querendo salvar a humanidade é essa que é maligna?!). Outro detalhe: os vilões não queriam deixar os estrangeiros entrarem na Last City pois os consideravam perigosos... Mas quando os estrangeiros finalmente entram na cidade, o que eles fazem? Tacam fogo em tudo, derrubam todos os prédios, destroem a cidade, sugerindo que os vilões não estavam tão errados assim.

- SPOILER: No fim a Last City (a civilização moderna, a "América") é totalmente incendiada e destruída pelas pessoas do "bem", os únicos cientistas que tinham conhecimento sobre a cura são mortos, e os mocinhos vão felizes e satisfeitos pra um lugar "paradisíaco" onde tudo é rústico, o trabalho é manual, as pessoas vivem de agricultura, artesanato, moram em tendas, etc.

- A carta do Newt no fim é uma tentativa barata de comover a plateia. Não funciona pois o personagem era raso, esquecível, e não demonstrou essa ligação emocional toda com o Thomas ao longo do filme.

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CONCLUSÃO: Apesar das mensagens políticas péssimas, não acho o filme mal intencionado, pois elas são apenas um pano de fundo. O problema aqui no fim é a história fraca, o protagonista fraco, e a falta de inteligência que tira a credibilidade da ação.

Maze Runner: The Death Cure / EUA / 2018 / Wes Ball

FILMES PARECIDOS: As séries Divergente, Jogos Vorazes, etc.

NOTA: 4.5

domingo, 28 de janeiro de 2018

O Artista do Desastre

NOTAS DA SESSÃO:

- Ótima a cena do Tommy (James Franco) na aula de teatro. Não só é uma apresentação hilária do personagem, como já serve pra unir os protagonistas e estabelecer a relação entre os 2 (é fácil entender o que atrai Tommy a Greg e vice-versa após isso).

- Legal, não sabia que a frase famosa do The Room ("You're tearing me apart, Lisa!") era inspirada em Juventude Transviada!

- É fascinante essa capacidade de Tommy de manter sua "autoestima" e a fé nos seus sonhos independente da realidade, dos fatos externos. Ele representa um caso tão extremo e único que o filme acaba se tornando referência imediata pra todo tipo de comportamento que caia dentro dessa categoria.

- Hilária a cena da mãe do Greg indo até o carro pra conhecer o Tommy. As participações especiais são ótimas surpresas ao longo do filme (Megan Mullally, Sharon Stone, etc).

- Não havia ninguém mais perfeito que James Franco pra interpretar Tommy Wiseau. A risada, o sotaque... Certamente merecia a indicação ao Oscar. Dave Franco está adorável também.

- O roteiro é um acerto. Já começa com a sacada ótima de contar a história do The Room, mas além disso, ele sabe pegar os aspectos mais interessantes da história e transformá-los em cenas hilárias, seguindo uma sequência lógica de acontecimentos cada vez mais absurdos, até o lançamento do filme (as audições, a compra dos equipamentos, a primeira vez de Tommy em frente às câmeras, a filmagem da cena de sexo, etc). A história não tem 1 trecho chato do começo ao fim. É tipo uma mistura de Primavera para Hitler com Toni Erdmann.

- O filme não torna muito explícita a psicologia de Tommy (o que é uma boa ideia), mas há todo o subtexto entre ele e o Greg, a relação de ciúme, possessão, que tornam o filme mais rico do que uma simples comédia de 1 piada só. A cena em que o Greg vai se despedir do Tommy (quando ele decide ir morar com a namorada) é sutilmente genial: Tommy está no banheiro pintando o cabelo, se admirando no espelho, e mal olha na cara de Greg enquanto ele se despede. É um momento que captura todo o drama de Tommy - a autoestima cega, o foco exagerado em suas supostas virtudes (pitando o cabelo pra parecer mais jovem, se gabando de músculos que nem tem) como forma de bloquear psicologicamente a rejeição que está vindo do mundo externo, das outras pessoas.

- Ótimo ele forçar o Greg a escolher entre o filme e o papel na série de TV (o problema de ter que fazer a barba, etc). É um conflito perfeitamente lógico, bem costurado na trama, que revela personagem, avança a história, etc.

- SPOILER: Muito boa toda sequência final na estreia do filme. As reações iniciais da plateia, a situação desesperadora do Greg, a parte da cena de sexo - até o "sucesso" inesperado do filme como comédia. A homenagem do Tommy ao Greg após a exibição é um momento lindo.

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CONCLUSÃO: Original, hilário, inteligente, tocante - um acerto.

The Disaster Artist / EUA / 2017 / James Franco

FILMES PARECIDOS: Toni Erdmann (2016) / Dirigindo no Escuro (2002) / Os Picaretas (1999) / Ed Wood (1994) / Primavera para Hitler (1967)

NOTA: 9.0

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

The Post: A Guerra Secreta

Spielberg continua tentando provar que ele é um cineasta "sério", investindo nesse seu lado mais burocrático, político, de emoções contidas, que na minha opinião não é onde ele brilha mais. Os personagens parecem emocionalmente distantes na maior parte do filme, e a história não chega a ser tão envolvente quanto a de outros dramas de jornalismo como Spotlight: Segredos Revelados. Um dos motivos é o fato de não ficar muito claro o quão bombásticas são as informações que os personagens têm nas mãos, afinal a "bomba" principal (a informação de que o governo americano estava mentindo sobre a guerra do Vietnã) já tinha sido jogada pelo New York Times, então o Washington Post publicar mais páginas do mesmo relatório fica parecendo pra plateia apenas "mais do mesmo", e não algo novo, inesperado, que realmente mudaria o rumo da história, chocaria o mundo, etc.

Minha impressão é que Spielberg fez o filme mais por causa da mensagem pró-liberdade de imprensa (e indiretamente anti-Trump) e pró-feminismo que a história transmite, numa tentativa de se conectar com os "liberals" que dominam Hollywood. O problema é que ele é equilibrado e íntegro demais pra agradar o público moderno nesses termos. Ele defende feminismo e liberdade de expressão só que da maneira sensata, racional, sendo respeitoso em relação aos homens, aos valores americanos... Assim ele nunca vai conquistar o público niilista, raivoso, anti-americano, da mesma forma que um Guillermo del Toro consegue com A Forma da Água, por exemplo, então a estratégia parece frustrada.

Mas apesar desses poréns, volto a dizer o mesmo que disse sobre Ponte dos Espiões: a história é tão bem contada, a produção tão rica, as atuações tão incríveis, a música tão boa, que ainda assim ele se destaca como um dos bons filmes do ano. E apesar do início lento, a história acaba ganhando certa força após a primeira hora, particularmente após 2 cenas (o diálogo entre o Tom Hanks e a esposa, e depois o diálogo entre a Meryl Streep e a filha no quarto das crianças) que nos fazem entender melhor quais os riscos da decisão pra personagem da Meryl num nível mais emocional. A meia hora final é bastante satisfatória e a cena final com Nixon faz a gente apenas lamentar o fato do resto do filme não ter tido mais dessa mesma energia.

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The Post / Reino Unido, EUA / 2017 / Steven Spielberg

FILMES PARECIDOS: Spotlight: Segredos Revelados (2015) / Ponte dos Espiões (2015) / O Voo (2012)

NOTA: 7.5

domingo, 21 de janeiro de 2018

A Forma da Água

Uma das coisas mais tolas e mal intencionadas que eu vi no cinema nos últimos anos. Se o filme fosse de fato uma fantasia do tipo E.T. ("protagonista cria amizade com criatura mágica e precisa salvá-la de homens maus") onde o propósito do filme fosse nos proporcionar escapismo, diversão, fazer a gente embarcar na história, ele já seria ruim o bastante, pois a criatura não é nada gostável, a trama é um insulto à inteligência da plateia (quando algum desses críticos que estão aclamando o filme zombarem de blockbusters hollywoodianos por terem furos de roteiro, ações forçadas, pergunte a ele: por que então A Forma da Água tem permissão pra ter isso tudo?).

(Só pra dar alguns exemplos, como a Sally Hawkins planejava soltar a criatura das correntes, caso o russo não lhe desse as chaves no último minuto? E como ela sabia que iria chover em tais datas? E por que ela precisaria soltar a criatura nas docas, pra daí ela nadar pro mar - não era mais fácil soltar direto no mar ali do lado?)

Claro, a resposta é que A Forma da Água não está querendo fazer a gente acreditar na história, torcer pelo romance, acreditar que uma faxineira conseguiria de fato resgatar essa criatura de um laboratório ultra-secreto, etc. Tudo vale, pois é pra ser "simbólico", o filme no fundo é apenas um discurso político, um ataque à América e a tudo o que ela representa (é fascinante que hoje em dia um cineasta estrangeiro como Guillermo del Toro possa ir para os EUA, insultar o país, e receber dos próprios americanos as maiores honras por isso).

É como se a mensagem política liberasse o filme da necessidade de ter qualquer lógica ou qualidade narrativa real, pois ele está sendo "culturalmente relevante".

Desde o início fica claro que o homem anfíbio representa as minorias, os "oprimidos", e que o vilão interpretado por Michael Shannon representa os EUA, o American Way of Life, que logicamente é branco, racista, machista, estuprador, assassino, etc. Parte do que torna o vilão detestável, curiosamente, é o fato dele ler livros motivacionais (o filme pelo menos é "genial" o bastante pra entender que o que ele odeia no fundo não é a América, e sim os ideais que ela representa — ou costumava representar).

Todo o filme é motivado por ódio, pelo desejo de demonizar o inimigo, e não o de retratar o que seria o correto, o ideal, inspirar mudanças, construir algo positivo. Há uma série de cenas aleatórias totalmente desconectadas da trama principal, que deixam bem evidente essa estratégia. Por exemplo, qual a importância de mostrar o vilão saindo pra comprar um Cadillac novo? O que o carro novo do vilão tem a ver com a história de uma faxineira se envolvendo com um homem anfíbio? Absolutamente nada. É apenas pra passar a noção que dinheiro e carros luxuosos são coisas que pessoas más valorizam (e dar o "prazer" pro espectador mais tarde de ver esse Cadillac sendo destruído). Ou então a cena no bar, onde o Richard Jenkins dá em cima do barman, que logo depois tem uma atitude homofóbica, e também racista ao expulsar um casal de negros do bar? Qual a relevância da vida pessoal do vizinho da protagonista pra história? Ou do caráter do barman que atende o vizinho da protagonista? Absolutamente nenhuma. Mas a cena é inserida de qualquer forma, pois dá ao filme a oportunidade de fazer mais um pequeno discurso político. O filme é apenas uma série de discursos como esses, disfarçados de fantasia escapista.

Toda a arte do roteiro e da narrativa é jogada no lixo, pois o cineasta percebeu que é muito mais simples apelar pro "nós vs. eles", fisgar o espectador através de instintos primitivos.

Já falei muito aqui sobre o que penso de Simbolismo, de Anti-Idealismo, de filmes que colocam a mensagem ideológica acima da narrativa, que atacam valores positivos sem o contexto apropriado, então acho que não preciso me alongar mais pra justificar minha nota.

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The Shape of Water / EUA, Canadá, 2017 / Guillermo del Toro

FILMES PARECIDOS: Mãe! (2017) / Okja (2017) / Expresso do Amanhã (2013) / Distrito 9 (2009) / O Nevoeiro (2007)

NOTA: 0.0

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Me Chame pelo Seu Nome

NOTAS DA SESSÃO:

- As primeiras cenas entre Oliver e Elio são artificiais. Eles não se comportam como 2 estranhos se comportariam socialmente num primeiro contato. Não há naturalidade, já existe um "clima" estranho no ar desde o início. É como em filme pornô, onde o cineasta precisa de uma desculpa esfarrapada pro entregador de pizza entrar no apartamento, tirar a camisa... e força atitudes totalmente falsas nos personagens.

- Eles mal trocaram 2 palavras e já saem de bicicleta pela cidade, vão tomar uns drinks, etc. A amizade é mal construída. E é mal explicada também a relação entre o Oliver e a família do Elio - o que exatamente ele foi fazer na casa por tanto tempo, etc.

- Os personagens são mostrados de maneira superficial, externa... Nós não estamos acompanhando a história nem pelo ponto de vista de Elio, nem pelo de Oliver. Não sabemos o que nenhum dos dois está pensando, sentindo, que conflitos eles têm, etc. Vemos tudo de fora, sem acesso ao mundo interno de cada um. Em vez de contar uma história de maneira universal, com uma narrativa envolvente, criando personagens com os quais a gente possa se identificar, ele prende a atenção só de quem está no cinema pra ver os 2 indo pra cama. Em vez de uma história, o que nós temos aqui são preliminares: "Oh, Oliver tirou a camisa", "Oh, agora ele foi ao banheiro e deixou a porta entreaberta", "Oh, Oliver fez massagem no Elio", "Elio quase foi pego se masturbando", "Agora eles trocaram de shorts um na frente do outro", etc. É a mentalidade de um filme pornô, não de cinema.

- Soa falsa toda essa valorização da arte e da cultura que o filme tenta passar, mostrando que os personagens são cultos, usam palavras sofisticadas, sabem sobre história da arte, etc. Quando no fundo parece que o filme foi feito por alguém que não entende de nada disso, que se interessa por cultura apenas na medida em que isso serve como uma espécie de afrodisíaco (da mesma forma que em 50 Tons de Cinza, era parte do fetiche o fato do cara ser um bilionário). Os personagens estão sempre tocando piano, lendo livros - mas sem camisa, com um shortinho quase mostrando as partes íntimas, etc. Essa falsa erudição já é sinalizada nos créditos iniciais, que é uma montagem com diversas fotos de esculturas antigas - e a única coisa em comum entre essas esculturas é o fato delas todas serem de homens nus. É como se isso servisse como uma máscara pra gente poder ir ao cinema ver sacanagem, sob o pretexto de estarmos consumindo algo mais nobre.

- Faltam conflitos pro romance. O ambiente não parece ser tão opressor e nem os personagens tão reprimidos sexualmente pra justificar esse receio que eles têm de admitir que são gays. E um está claramente a fim do outro. Não há nenhum medo de rejeição, de algum deles acabar ficando com uma mulher, do romance não rolar, deles terem valores e características incompatíveis, etc.

- 1 hora e meia de filme e ainda estamos nas "preliminares".

- Estranha essa ênfase desnecessária no fato deles serem judeus. Todos sabem que Hollywood é dominada por judeus, e que existem várias teorias da conspiração sobre círculos de pedofilia na indústria, assim como existe na Igreja Católica. E agora sai um filme romantizando a ideia de garotos menores de idade se envolvendo sexualmente com caras mais velhos... É no mínimo polêmico.

- Particularmente acho meio estranho isso deles dizerem "me chame pelo seu nome"... Passa uma ideia narcisista, como se a pessoa quisesse se imaginar transando com ela mesma.

- Nem acho que o filme seja tão sexy assim. O Armie Hammer é tão doce, educado, social... É quase incômodo vê-lo tendo atitudes sexuais mais provocativas (a cena pavorosa do pêssego, etc).

- Os pais do Elio não deveriam achar natural ele ir viajar com o Oliver pra Bérgamo. Os 2 não têm uma amizade tão convincente assim pra quem está de fora. Qualquer um sacaria que eles tão se pegando.

- A relação continua rasa, vista de fora. Em Bérgamo, a gente vê os dois gargalhando pelas ruas, dançando... Mas não sabemos o que gerou a gargalhada, o que torna os 2 tão perfeitos um pro outro. Fica apenas uma impressão vaga e superficial de que eles se dão bem.

- Oliver beija Elio logo após ele ter vomitado - seria isso uma "prova de amor"?

- Pra não falar só mal do filme, pelo menos ele mostra uma relação positiva, há uma tentativa de glamourizar o casal, criar um romance ideal, em vez de algo mais deprimente e realista como Azul É a Cor Mais Quente, por exemplo. Mas eu poderia dizer o mesmo de 50 Tons e isso não tornaria o filme excelente.

- SPOILER: Um absurdo o pai de Elio aceitar a relação dele com Oliver sem nenhuma resistência, e ainda dizer que inveja o que eles tiveram. No mínimo o pai se incomodaria com o fato do amigo ter se hospedado em sua casa e "desvirginado" seu filho adolescente por suas costas. Essa cena é apenas mais uma realização de uma fantasia, fora de contexto, sem realismo - uma tentativa de comover o público gay que nunca teve um pai compreensivo, etc. Muito do filme cai no que chamo de Emoções Irracionais - ele espera que o espectador projete suas próprias experiências na tela, e se comova não com a história em si, mas com seus próprios devaneios pessoais.

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CONCLUSÃO: Simpatizo pela intenção de criar um romance idealizado entre 2 pessoas atraentes, num lugar lindo, mas o filme é imaturo e raso demais pra tornar a relação crível e emocionante.

Call Me by Your Name / Itália, França, Brasil, EUA / 2017 / Luca Guadagnino

FILMES PARECIDOS: Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016) / Carol (2015)

NOTA: 4.0