(Capítulo 2 do livro Idealismo: Os Princípios Esquecidos do Cinema Americano)
Alfred Hitchcock, sem saber, fez um ótimo resumo do que é o Idealismo quando disse: “Para mim, o cinema não é uma fatia da vida, mas uma fatia de bolo”.
Como escritor, me sinto naturalmente no dever de buscar a definição mais econômica e eficiente para um novo conceito — uma frase simples que tenha a elegância de uma fórmula matemática. Mas quando estamos falando de algo tão complexo como arte — e um estilo específico de arte que está associado a inúmeras premissas filosóficas —, um pouco mais que uma frase é necessário.
Primeiramente, Idealismo é o tipo de arte que parte do princípio de que o propósito da vida é a felicidade e o seu próprio aproveitamento. É uma arte focada em proporcionar uma experiência prazerosa e inspiradora ao espectador, baseada na visão original de um artista que, fazendo o melhor uso de suas virtudes e talentos, cria essa experiência de acordo com seus próprios valores e interesses (com base naquilo que ele gostaria de vivenciar enquanto espectador).
Por se tratar de arte, a obra deve ser a expressão autêntica da visão criativa de um artista (ou às vezes de uma colaboração entre artistas), mas, para ser Idealista, ela deve ser criada com o intuito de proporcionar essa experiência inspiradora e prazerosa ao espectador — levá-lo às emoções e aos estados de consciência mais elevados e interessantes possíveis dentro do contexto de cada obra (como ela fará isso é algo que discutirei em capítulos futuros, o importante aqui é apenas entender a intenção inicial do artista, qual é sua visão sobre o propósito da arte e seu valor para o ser humano).
O Idealismo defende que há muito que podemos experimentar na vida enquanto seres conscientes além daquilo que encontramos naturalmente no nosso dia a dia — e o artista Idealista é aquele que, através de sua imaginação, enxerga essas possibilidades e as materializa numa obra para o deleite do espectador. O Idealismo busca inspiração, motivação, prazer, mostrando o quão extraordinária e interessante a vida pode ser.
Quanto mais a obra for um produto enlatado e inautêntico visando apenas lucrar e agradar ao público, menos artística ela será, e com isso sua capacidade de inspirar será limitada. Em muitos casos, obras que não são autorais ainda podem divertir e ter boas qualidades artísticas. Mas as melhores delas geralmente estão seguindo a visão de um produtor talentoso, alguém num cargo mais alto na hierarquia de produção, que acaba sendo o principal visionário por trás da obra — como no caso de filmes da era do sistema de estúdios de Hollywood. Sim, Casablanca (1942) será sempre fantástico e está alinhado com princípios Idealistas, mesmo não sendo considerado um filme autoral. Meu argumento é que, caso ele estivesse associado à expressão autêntica de um artista particular, ele poderia ter um poder ainda maior de impactar o espectador, pois realizações individuais sempre nos inspiram mais do que realizações coletivas sem um rosto específico por trás delas.
OS 2 TIPOS DE ESPECTADORES
Na plateia, existem duas espécies distintas de espectadores que precisam ser diferenciadas para os propósitos deste livro: aqueles que enxergam a arte como uma fonte de inspiração (que se sentem estimulados diante da projeção de valores positivos; diante de beleza, virtude, felicidade — diante da visão do ideal) e aqueles que buscam na arte primeiramente um conforto, um remédio contra as frustrações da vida, e que se sentem desmotivados pela visão do ideal. O Idealismo tem o primeiro grupo como seu público-alvo.
O espectador Idealista não é necessariamente bom caráter, nem necessariamente mais feliz e virtuoso em sua vida real. O Idealismo reflete os ideais de uma pessoa, sua visão de mundo, daquilo que ela acha ser a verdadeira essência da vida e do ser humano. Uma pessoa pode ter uma série de defeitos e problemas pessoais, mas se ela ainda preservar essa visão positiva do que a vida poderia ser, ela continuará tendo gosto pelo Idealismo. Então, embora eu possa insinuar que os Idealistas têm uma visão de mundo superior, não estou dizendo que os considero automaticamente pessoas melhores, ou que preferências artísticas são uma prova definitiva de caráter.
IDEALISMO EM RELAÇÃO A QUÊ?
Reparem que existem duas formas pelas quais uma obra pode ser Idealista. Ela pode ser Idealista apenas no conteúdo (uma positividade geral transmitida pela história, pelo tema, pelos personagens), mas o mais importante não é esse tipo de Idealismo, afinal uma obra pode ter uma visão positiva de mundo, passar uma mensagem otimista, mas ainda assim ser uma experiência tediosa para o espectador.
Embora o conteúdo seja relevante, o mais importante é o Idealismo em relação à experiência que a obra pretende proporcionar ao espectador — quanto ao nível de prazer/satisfação/exaltação que o artista consegue estimular com suas técnicas. É por isso que uma obra pode ser Idealista mesmo tendo um conteúdo sombrio. O que mais importa no fim não é tanto a mensagem explícita, e sim como isso é apresentado, que estados de consciência a obra consegue gerar no espectador. É claro que obras com temas deprimentes e seres humanos decadentes dificilmente conseguem inspirar tanto quanto obras focadas em valores positivos, em heróis, conquistas — essas são as mais puramente Idealistas —, mas, dentro de certos limites, obras menos otimistas também podem ser consideradas Idealistas.
Por isso costumo separar os Idealistas em dois grupos: os Idealistas puros, aqueles que focam os positivos da vida, e os Idealistas críticos, aqueles que mostram situações negativas, personagens corruptos, mas num tom de crítica e condenação. O primeiro tipo está num degrau acima e é o mais perfeitamente Idealista, tendo como um de seus melhores representantes no cinema Steven Spielberg (especialmente em suas duas primeiras décadas de carreira). O segundo tipo ainda é Idealista, e é bem representado no cinema por Stanley Kubrick. Embora esse tipo de artista mostre personagens moralmente decadentes, situações indesejáveis, ainda existe um senso de que seus valores de referência são os mesmos dos Idealistas “puros” — é deste ângulo que a crítica aos personagens está sendo feita. Eles ainda passam uma mensagem de que o homem deveria ser virtuoso, que a vida poderia ser positiva, só que em vez de mostrarem a felicidade sendo conquistada, eles preferem alertar o espectador mostrando o que ocorre quando o ser humano não age racionalmente, quando ele não é virtuoso. O primeiro tipo celebra o positivo, e o segundo condena o negativo, mas ambos podem ter resultados positivos, assim como na matemática temos resultados positivos quando multiplicamos dois números com os mesmos sinais, mesmo quando se trata de dois sinais negativos.
Por valorizar tanto expressão individual, talento, autenticidade, quanto a experiência e o prazer do espectador, o Idealismo representa a união ideal entre arte e entretenimento, e é o caminho natural tanto para artistas com uma inclinação mais autoral, mas que desejam também agradar ao público, quanto para artistas mais inclinados ao entretenimento, mas que desejam também trazer autenticidade e qualidade artística a suas produções (quando as duas intenções não estão naturalmente equilibradas).
O Idealismo é baseado em princípios amplos que podem ser aplicados a todas as formas de arte. Algumas artes, no entanto, são mais expressivas e mais poderosas que outras quando se trata de Idealismo. A escultura, por exemplo, embora possa exigir grandes habilidades do artista e possa projetar valores positivos, não tem tanta capacidade de proporcionar uma “experiência ideal” ao espectador quanto o cinema. Nesse sentido, as artes que envolvem uma experiência temporal definida (música, teatro, filmes etc.) têm uma grande vantagem sobre as artes estáticas, pois permitem um controle muito maior do artista sobre a experiência do público. Além disso, as artes que unem elementos narrativos (que comunicam conteúdo verbal, explícito, estimulam o intelecto) a elementos sensoriais (que estimulam nossos sentidos, principalmente a visão e a audição) apresentam mais possibilidades e podem criar experiências mais intensas do que as artes que são apenas verbais/intelectuais (como a literatura) ou apenas sensoriais (como a música instrumental), pois recriam a realidade de uma maneira mais completa e fazem um uso mais pleno e integrado de nossas capacidades mentais (por isso o cinema é uma das artes mais expressivas e equipadas para os fins do Idealismo, especialmente quando aliado ao poder da música).
O Idealismo pode ser visto antes de mais nada como uma atitude, um desejo básico de inspirar, dar prazer e encantar que orienta as decisões de um artista, e que pode ser observado não só nas artes mas também em outras criações que incluem elementos artísticos. Alguém como Walt Disney, por exemplo, ao construir suas atrações e parques temáticos, estava representando muito melhor o Idealismo (e na minha opinião criando uma arte altamente sofisticada) do que um cineasta ou um escritor comprometido com o Naturalismo.
OBJEÇÕES
Uma das objeções mais comuns ao Idealismo é que esse tipo de arte pode criar expectativas muito altas com relação à vida, e com isso causar frustrações e danos psicológicos no espectador. Esse tipo de crítica costuma vir de pessoas que têm uma visão equivocada da função da arte em nossas vidas. A função da arte não é primeiramente a de nos mostrar como devemos viver no dia a dia. Ela não deve ser encarada como um guia prático. A mente humana tem potencial para atingir níveis incrivelmente elevados de prazer e satisfação, e um dos grandes atrativos da arte é sua capacidade de nos levar a esses estados, raramente disponíveis sem o seu auxílio. Traçando um paralelo, o sexo pode proporcionar prazeres físicos que são inatingíveis no resto de nossas rotinas, e ainda assim é algo visto como importante e saudável pela maioria das pessoas. Ninguém faz sexo (acho eu) limitando suas possibilidades de prazer, por achar que uma experiência prazerosa demais prejudicaria o resto de sua vida, tornaria o resto dos dias frustrantes e insatisfatórios. Arte é o sexo da mente, um momento de celebração, uma experiência que tem um fim em si mesmo (o encontro do prazer do artista, de se expressar e criar uma determinada experiência, com o prazer do espectador de receber e vivenciar essa experiência). Arte não deve ser uma simulação equilibrada dos estados de consciência que são apropriados à vida cotidiana, da mesma forma que Hitchcock não diria que você deveria comer bolo no café da manhã, no almoço e no jantar.
Mesmo que a arte possa servir de referência e possa criar certas expectativas em relação à vida real, o espectador não precisa que ela seja realista e didática para se sentir inspirado e extrair alguma mensagem útil dela. Com a exceção talvez de crianças muito pequenas, todo mundo sabe que arte não é vida real e não deve ser interpretada dessa forma; que na arte as coisas são mostradas de maneira exagerada, estilizada, e que o que tiramos dela é apenas uma mensagem abstrata — não devemos levá-la ao pé da letra. Se você se sente inspirado ao ver o Superman no cinema, o que você deve tirar da história é no máximo um exemplo de força, confiança, charme, integridade, que talvez possa te inspirar a melhorar seu caráter na sua vida pessoal. Mas se alguém se lamentar de não poder pegar uma capa vermelha e saltar pela janela, o problema é muito mais da pessoa do que da arte. Arte não é como religião, que afirma que o sobrenatural é real e possível. Arte é assumidamente um “faz de conta”, uma atividade cujo propósito até uma criança de quatro anos entende sem precisar de maiores explicações. Pessoas que nutrem expectativas irracionais a respeito da vida e delas próprias terão problemas psicológicos mesmo sem a “ajuda” da arte Idealista. Uma pessoa que não lida bem com suas limitações irá sofrer até pela existência de pessoas mais virtuosas que ela em seu grupo de amigos, em seu trabalho, nas redes sociais. Ela se sentirá miserável mesmo sem a referência do Superman. Já uma pessoa bem-resolvida, mesmo que não tenha grandes virtudes, poderá se divertir com heróis e até se sentir inspirada por eles sem que a experiência lhe cause qualquer dano. Não é o Idealismo que torna algumas pessoas inseguras e frustradas, e sim problemas emocionais que elas já carregam dentro de si.
Esse é apenas o começo de uma definição do que é o Idealismo. Mas ser uma criação artística focada em inspirar e dar prazer ao espectador ainda é algo muito vago, que pode ser interpretado de diversas formas. Para entender quais são os elementos essenciais do Idealismo, e de que maneiras específicas ele irá proporcionar essa experiência, teremos que entrar em mais detalhes.
As imagens são lindas, a trilha continua espetacular, a história continua poderosa, mas infelizmente nem todo desenho da Disney se traduz bem para uma versão “live-action”. Não achei o filme ruim, mas o compromisso com realismo visual tirou muito da emoção da história, do encanto das sequências musicais, e matou completamente a expressividade dos personagens (que agora dependem 100% das vozes pra transmitirem qualquer emoção). Em termos de tom e valores, o filme se manteve fiel ao original (não tentou ajustar a história para o público atual, o que achei bom). O problema é que não existe quase nada de novo que demonstre talento, criatividade... Tudo o que há de bom no filme basicamente é mérito do original (uma das únicas partes originais pra mim foi a pior cena do filme - a sequência estranha do tufo de cabelo). A polêmica em relação ao filme do Sonic, as reações divididas ao trailer de Cats que saiu esses dias, e agora ao CGI de O Rei Leão pelo menos servem pra lembrar que não basta ter a tecnologia mais avançada no mundo se você não tem artistas e contadores de história habilidosos fazendo o melhor uso dela.
The Lion King / EUA / 2019 / Jon Favreau
Apesar da Marvel supostamente ter encerrado uma era com Vingadores: Ultimato, o que vemos aqui é a velha fórmula ainda em vigor - mais um filme excessivamente familiar, sem grandes ideias, que se parece com 20 outras coisas que vimos recentemente. Na trama, Peter Parker está dividido entre salvar o mundo, ser o herói que todos esperam que ele seja (embora ele não queira mais essa responsabilidade) e curtir suas férias na Europa, perseguir seu objetivo maior que é viver um romance com MJ. Infelizmente nenhum dos 2 objetivos conseguem criar um gancho muito interessante para o espectador. MJ é uma personagem um tanto sem sal (Zendaya está bastante apagada no papel) ficando difícil de entender a fixação que Parker tem por ela. Aliás, Parker também é um personagem sem sal - um desses anti-heróis disfarçados de heróis que no fim servem mais pra celebrar o “loser em todos nós” do que pra gerar inspiração. O plano do vilão de dominar o mundo é tão nonsense que me impediu de embarcar direito na história - a ideia do filme parecia ser a de fazer uma crítica ao Trump, pois o vilão é um criador de ilusões, de "fake-news", que cria medo na população através de mentiras, monstros imaginários, e depois se apresenta como o salvador da pátria. A metáfora teria sido interessante se construída de maneira mais inteligente, mas aqui acaba prejudicando o enredo pois as ações do vilão ficam sem muito sentido - parecem criadas só pra sugerir a metáfora, não pra convencerem de fato (Se os monstros são apenas projeções holográficas feitas pro drones, a população não iria perceber o truque quando os drones fossem embora? Não acharia estranho que a água não molha, que o fogo não queima? Que as cidades não foram de fato destruídas após os ataques?). O mais dramático no fim talvez seja a cena pós-créditos, que apresenta um conflito mais forte do que os que havíamos visto ao longo do filme.
Spider-Man: Far From Home / EUA / 2019 / Jon Watts
Tinha boas expectativas por se tratar de um filme do Daniel Rezende (editor de Cidade de Deus indicado ao Oscar e diretor de Bingo - O Rei das Manhãs, pra mim uma das melhores produções nacionais), e talvez por isso tenha me decepcionado um pouco. A história é tão genérica e despretensiosa (tudo gira em torno do sumiço do cachorro Floquinho) que me pareceu mais adequada pra um episódio do gibi do que pra um longa-metragem de fato (sempre preferi filmes infantis que tratam crianças de igual pra igual, com inteligência, seriedade artística, sem medo emocionar, lidar com temas importantes - em vez de tratá-las como casuais e bobinhas). Acho sempre problemático também quando o Brasil se propõe a fazer filmes mais escapistas, recriar um universo fantasioso na tela. Talvez por falta de verba (e de expertise no gênero), a produção acabe parecendo meio pobre em termos de direção de arte, design de produção, efeitos especiais, quando comparada às produções americanas com as quais estamos acostumados. Giulia Benitte está ótima como a Mônica, mas nem todo o elenco funciona tão bem (Rodrigo Santoro como o Louco me pareceu uma escolha bem equivocada). O filme é bem intencionado e mais bem feito do que se poderia esperar pra um live action da Turma da Mônica, mas infelizmente não chega a cumprir o potencial que tinha de se tornar a nova referência nacional do gênero.
Turma da Mônica: Laços (Brasil / 2019 / Daniel Rezende)
(Esta crítica está no formato de anotações - em vez de uma crítica convencional, os comentários a seguir foram baseados nas notas que fiz durante a sessão.)
ANOTAÇÕES:
- O flashback inicial serve pra estabelecer que Bo foi doada e se separou da turma, mas toda a sequência de ação pra salvar o carrinho da enxurrada parece desnecessária, jogada ali só pro filme começar num ritmo acelerado.
- Muitas vezes os alívios cômicos acabam sendo as melhores coisas nos filmes da Pixar (sacadas divertidas como Forky ser complexado por ser feito de lixo, etc).
- A animação é excelente como de costume, mas o filme acaba parecendo uma continuação desnecessária, redundante, pois volta a falar de abandono, temas já explorados em episódios anteriores. Sem falar que a trama é não é das mais envolventes: a garotinha Bonnie apenas corre o risco de perder um garfo descartável que ela gosta de brincar, e Woody cria toda uma mobilização pra evitar que o garfo se perca - mas não é algo que pareça sério o suficiente pra prender a plateia. Falta um conflito mais dramático.
- Woody é um protagonista meio desinteressante pois é daqueles heróis altruístas cuja missão na história é apenas servir, ajudar os outros a conseguirem o que querem, mas que nunca busca um objetivo pessoal, atraente, com o qual a gente possa se identificar (no começo do filme, fica claro que o desejo real dele é ser importante pra Bonnie, ser amado por ela como ele era amado pelo Andy - com isso a gente até poderia se identificar, o problema é que daí ele percebe que Bonnie gosta mais do garfinho descartável, e então ele passa a fazer de tudo pra que Bonnie e o garfinho fiquem juntos, ignorando suas necessidades pessoais).
- O roteiro é cheio de desvios e sub-tramas desnecessárias, pouco interessantes. Por exemplo Buzz indo atrás de Woody e ficando preso no parque de diversões, ou a missão dos brinquedos de roubar a chave da velhinha pra abrir o armário (várias piadas em cima disso), sendo que não fica claro que o armário está trancado (o boneco de ventríloquo entra e sai de lá pra falar com Gabby Gabby sem parecer usar chave). Daí tem o motoqueiro que precisa fazer o salto pra chegar no armário (criam todo um "arco" pro motoqueiro, vemos flashbacks, ficamos sabendo de seus traumas pessoais) sendo que parece um personagem desnecessário - não parece tão difícil assim subir num armário, ainda mais pra brinquedos que estão o tempo todo saltando de carros, voando pelos ares, etc. SPOILER: No fim tudo ainda dá errado, Forky continua preso no antiquário, e nada disso serviu pra qualquer coisa.
- SPOILER: O filme romantiza tanto o auto-sacrifício que faz Woody praticamente doar um rim (sua caixinha de voz) pra resgatar Forky. E como se isso não bastasse, depois que eles já estão livres, Woody resolve voltar e arriscar tudo de novo só pra ajudar Gabby Gabby, a vilã do filme!
- A sequência de ação final é meio fraca (inventam que é necessário dar um salto épico da roda-gigante pra chegar a tempo no carrossel, o que não parece ter lógica). Isso é como a ação inicial pra salvar o carrinho da enxurrada - o roteirista deve ter lido em algum lugar que é necessário começar um filme com uma cena de ação, terminar com uma ainda mais intensa, e daí inventa qualquer desculpa pra enfiar essas cenas, mesmo que a trama não justifique.
- SPOILER: O final é um festival de abnegação, auto-sacrifício (e oportunidades pra mensagens progressistas sutis). Gabby Gabby, que era a vilã, agora parece ser boazinha pois abandonou seu "sonho americano" (que o filme caracteriza como algo retrógrado, artificial, nocivo - a boneca perfeitinha que serve chá, etc) e ao mesmo tempo passou a ser "socialmente consciente", se doando pra uma garotinha necessitada de família inter-racial. Woody também abre mão de sua estrela de xerife e a entrega para Jessie (assim como o Capitão América e o Thor se aposentaram e entregaram suas armas para representantes de "minorias" no final de Vingadores: Ultimato). Pior de tudo é a ideia de Woody abandonar tudo aquilo que sempre valorizou, seus amigos, sua "criança", pra ficar com uma personagem como a Bo, com quem ele não tem real afinidade (os dois têm valores incompatíveis, tiveram atrito ao longo do filme todo). Em nenhum momento ele pareceu ter romance como seu grande objetivo, ou valorizar Bo mais do que ele valoriza sua vida com uma criança. Toda a proposta de Toy Story costumava ser romantizar a relação entre criança e brinquedo, tornar essa relação algo mágico, parte essencial da infância. É muito claro que felicidade, no universo do filme, é ser querido por uma criança. E que ser abandonado, perdido, é o equivalente à morte para um brinquedo (todos os brinquedos perdidos ou sem dono no filme invejam aqueles que têm uma criança). Mas a esse ponto já está claro que, pra Pixar atual, há algo de maduro e profundo em abrir mão da felicidade, de seus sonhos - em aceitar a infelicidade, a morte (como na pavorosa cena da parte 3, onde os brinquedos dão as mãos em direção à fornalha). É o que discuto na postagem Pseudo-sofisticação. A personagem da Bo representa bem essa vertente "Anti-Idealista" do entretenimento atual. Ela é aquela que não acredita mais na felicidade; fala como se o sonho de Woody de viver com uma criança fosse uma espécie de romantismo ultrapassado, inadequado pros tempos atuais. Ela vive agora numa realidade "pós-idealista", num mundo meio Mad Max, cheia de cicatrizes, endurecida pela vida, vivendo por conta própria, excluída da sociedade - uma realidade onde a magia acabou. E é isso que o filme faz Woody escolher no fim - os amigos, a vida feliz com uma criança, essas são fantasias tolas que ele deve abandonar.
Tenho percebido uma demanda em Hollywood por filmes de ação que sejam ruins de propósito, de forma auto-consciente, como é o caso de Godzilla II (o filme tem tantas ideias nonsense por minuto de projeção que outra explicação me parece improvável) - filmes que lembrem as pessoas de filmes-pipoca do passado que elas curtiam quando jovens (e que na época não eram auto-conscientes), mas que se tornaram tolos demais pra serem apreciados seriamente na vida adulta (protagonistas excessivamente corajosos, atores canastrões, cenas de ação forçadas, etc). É uma pena que esses cineastas não consigam dissociar aquilo que de fato atraía o público a esses filmes (o senso de heroísmo, de aventura - ou seja, valores Idealistas) dos elementos ruins (a falta de sofisticação das produções de segunda linha). Na cabeça deles, é como se pra provocar de novo aquele tipo de sentimento fosse necessário abandonar a inteligência, o bom gosto, a seriedade, e se entregar a prazeres infantis e irresponsáveis. São pessoas cínicas no fundo, que não acreditam mais que a vida possa ser interessante como nos filmes, que não respeitam a função do escapismo, e que agora só conseguem apresentar aventuras do tipo sob um ar de deboche, dando confirmações constantes para o espectador, cena após cena, de que todo aquele espetáculo não passa de uma grande tolice e não deve ser levado a sério. Se essa era a intenção, Godzilla II não é um filme mal sucedido - mas talvez seja necessário ter se juntado ao clube dos cínicos para aproveitá-lo totalmente.
Godzilla II: Rei dos Monstros / EUA, Japão / 2019 / Michael Dougherty
Fênix Negra reforça essa tendência do cinema de querer "humanizar" os heróis, focar em suas falhas e conflitos (reparem como os super-heróis atuais estão constantemente lutando entre si, não apenas contra os vilões) a tal ponto que agora a única coisa que os diferencia de pessoas comuns são suas habilidades físicas inatas, que muitas vezes nos filmes são apresentadas mais como maldições do que como dons atraentes de fato.
Em termos de narrativa, a história é pouco empolgante e cheia de ideias estranhas, como a presença de E.T.'s que podem mudar para a forma humana, embora essa característica deles não tenha a menor necessidade para a trama - e ainda estou tentando entender como é que aquela mini-nebulosa flutuando no espaço pode ter sido confundida com uma "explosão solar" por qualquer pessoa. O filme tem bons atores e uma produção decente, porém nada disso compensa o roteiro fraco. Fênix Negra não é o pior filme da franquia X-Men como aponta o Rotten Tomatoes, mas é um capítulo genérico e não muito inspirado da série, que parece ter sido feito apenas pra aproveitar a onda atual de filmes protagonizados por super-heroínas.
O criador da série Craig Mazin fez sua carreira escrevendo comédias não muito respeitadas como Todo Mundo em Pânico 3 e 4 e as sequências de Se Beber, Não Case - o que nos faz pensar no quanto talento é uma coisa traiçoeira, pois nem sempre ele está naquilo que achamos que mais temos vocação pra fazer, e no caso de Mazin, foi necessário ir na direção oposta do que ele fez a vida toda pra descobrir onde estava escondido seu maior potencial.
Chernobyl é a nova mini-série da HBO que mostra as consequências do acidente nuclear de Chernobyl de 1986, considerado um dos maiores desastres causados pelo homem. Atualmente está em primeiro lugar no ranking de séries mais bem avaliadas do IMDb, acima de Breaking Bad e Game of Thrones, e realmente merece a aclamação que vem recebendo - a série basicamente faz para Chernobyl o que A Lista de Schindler fez para o holocausto em 1993. É um excelente suspense que funciona bem já no nível “filme-catástrofe”, mas quando é hora de focar em substância, a série mantém o mesmo nível de excelência e apresenta cenas, personagens e diálogos tão bem escritos que faz você duvidar de que se trata de um material inédito, escrito originalmente pra TV, e não uma adaptação de um best-seller consagrado. Sem nunca se tornar partidária ou perder o foco do drama humano, Chernobyl também consegue levantar discussões políticas relevantes e, ao explorar 1 único incidente, serve como alerta tanto para os perigos do capitalismo (possíveis problemas ambientais decorrentes da produção de energia) quanto para os perigos do socialismo (a ineficiência e os males de um governo autoritário e centralizado). Muito do mérito vai também pra direção de Johan Renck (famoso diretor de comerciais e videoclipes - como Hung Up da Madonna e Blackstar de David Bowie) que soube transpor o material para a tela da melhor forma, nos fazendo sentir os assombros da contaminação radioativa sem cair pro horror explorativo.
Chernobyl (EUA, Reino Unido / mini-série HBO / 2019)