domingo, 29 de março de 2020

O Poço

(Esta crítica está no formato de anotações - em vez de uma crítica convencional, os comentários a seguir foram baseados nas notas que fiz durante a sessão.)

ANOTAÇÕES:

- A ideia da prisão é curiosa, diferente, mas se a intenção do filme for fazer qualquer tipo de crítica social, é uma enorme besteira, afinal nada nessa prisão tem qualquer semelhança com o funcionamento de uma sociedade. É uma situação tão fora da realidade quanto a premissa de A Centopéia Humana (a diferença mais evidente entre a prisão e o mundo real, é obviamente o fato de que numa sociedade, comida e riquezas não são "propriedades coletivas" que caem do céu, numa quantia fixa, limitada, pra serem distribuídas aleatoriamente entre as pessoas - no mundo real, as pessoas precisam produzir, trabalhar, e consomem proporcionalmente ao que produzem e ao que têm de riquezas a oferecer; e a vida real não é um jogo de "soma zero", onde pra um ficar satisfeito, o outro precisa passar fome).

- Regras mal explicadas: não entendemos direito por que existe essa prisão, qual sua função, quem pode ir pra lá, etc.

- O fato do protagonista ter ido pra lá voluntariamente parece incompreensível e impede a gente de se identificar totalmente com ele, temer pelo que irá acontecer. Não é uma pessoa inocente colocada à força numa situação terrível, tipo Jogos Mortais, Distúrbio (2018), o que gera mais tensão.

- O filme é motivado por uma ideologia coletivista, tem uma visão malevolente de mundo baseada em escassez, em conflitos de classes, que prega altruísmo e auto-sacrifício individual em nome do "bem comum". Claro que pra isso ele precisa criar uma situação impossível, retratar o mundo como um grande bote salva vidas, e o ser humano como um animal selvagem, irracional, perverso, como acabam fazendo todos os filmes do gênero pra tentarem provar suas ideias (Ensaio Sobre a Cegueira, O Nevoeiro, O Expresso do Amanhã, Chappie, etc).

- É um filme mal intencionado - faz a gente acompanhar personagens decadentes, passando por situações desagradáveis do começo ao fim. Não há nenhuma emoção positiva no filme. Ninguém pra admirar, nada pra torcer ou desejar, nada de bonito pra ver. É apenas uma tentativa infantil de expor os males do "capitalismo".

- Não temos como saber se o plano dos 2 faz sentido. Se fazer a panacota chegar intacta ao primeiro andar realmente os libertaria. As regras foram mal explicadas, então não ficamos envolvidos pela ação, torcendo pra dar certo.

- SPOILER: Menos sentido ainda faz a ideia de mandar a garotinha de volta na plataforma, em vez da panacota. O que isso irá provar? O que de fato irá mudar na prisão? Serão todos soltos? Pela velocidade com que sobe a plataforma, dava a impressão que seria impossível uma pessoa sobreviver à subida. Mas se é possível, eles mesmos não poderiam fazer isso e matar todo mundo chegando lá em cima? E escapar? Essa teria sido a primeira ideia de todas se o filme fosse coerente (uma das vantagens de se fazer filmes "simbólicos", é que você não precisa escrever uma trama de fato inteligente).

- SPOILER: Claro que o filme acaba de maneira abrupta, sem explicar nada. Muito mais fácil deixar o filme aberto a interpretações, deixar o espectador imaginando que o diretor tem algo genial em mente, do que ter que mostrar isso no filme em si (leia: Simbolismo e Filmes Interpretativos).

El Hoyo / The Platform / Espanha / 2019 / Galder Gaztelu-Urrutia

NOTA: 2.0

sexta-feira, 13 de março de 2020

Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica

(Esta crítica está no formato de anotações - em vez de uma crítica convencional, os comentários a seguir foram baseados nas notas que fiz durante a sessão.)

ANOTAÇÕES:

- Idealismo Corrompido: Pra variar, em vez de personagens admiráveis, inspiradores, a Disney/Pixar volta a focar em losers, personagens comuns, que refletem o adolescente típico, inseguro, sem autoestima. É quando o Anti-Idealismo se esconde sob uma roupagem Idealista pra manter seu aspecto comercial - externamente, parece uma história sobre coragem, aventura, magia, superação - mas no fim a mensagem é sobre não ter que ser heroico, sobre aceitar suas fragilidades, limitações, aceitar a perda, dizer que no fim só precisamos de afeto, fraternidade, etc.

- Em vez de trazer a magia pro mundo real, o filme acaba tentando criar escapismo dentro de algo que já é uma fantasia, o que não tem muito impacto (precisamos de um contraste com o real pra nos encantarmos pela magia). Uma vez que você já está num mundo mágico, onde as pessoas têm dragões de estimação que soltam fogo pela boca, não há muita graça ver esses personagens se surpreendendo com a existência de um poder ainda mais mágico.

- Acho fraca a ideia do pai que só se forma da cintura pra baixo. Se fosse só uma cena rápida tudo bem, mas como um tema pro filme inteiro, não é algo que cria situações interessantes, que gera algum tipo de significado, ou que simplesmente seja um conceito bom, atemporal, visualmente interessante (um homem invisível, por exemplo, é interessante pois leva a discussões sobre privacidade, um homem disfarçado de mulher cria situações cômicas e discussões sobre gênero, um humano num corpo de animal também gera boas possibilidades, ou um morto se passando por vivo como em Um Morto Muito Louco - agora um pai que é apenas um par de pernas... é um conceito meio nada a ver, sem carga emocional).

- Inicialmente achei interessante a premissa de um mundo onde a magia foi esquecida, onde as pessoas se habituaram a uma realidade banal, sem encanto. Dava a impressão de que o filme seria sobre resgatar essa magia, voltar a viver num mundo interessante (talvez uma crítica aos tempos atuais). Mas no fim, a história não tem nada a ver com isso. É sobre os 2 irmãos tentando se reconectar com a figura paterna. A introdução acaba parecendo enganosa, deslocada. É como se os roteiristas tivessem pensado numa premissa interessante pra um outro filme, mas no só fim jogaram ela aqui na introdução sem desenvolver direito o tema depois.

- O roteiro não se leva a sério, reparem como tudo acontece de maneira tola, fácil, pouco convincente: a ideia deles usarem um jogo ou um menu infantil como base pra encontrarem a pedra mágica, a maneira súbita como a Manticora muda de personalidade, a forma como Barley conclui que a fonte é o local onde está a pedra, a mãe decidindo lutar contra o dragão... Nada é pra convencer, pra parecer possível, o que é uma característica típica do Anti-Idealismo (a aventura é algo desimportante na cabeça dos autores, então tudo bem que a trama não seja convincente, que os protagonistas não pareçam inteligentes de fato, o que importa é a mensagem 'humana'").

- SPOILER: Como não poderia faltar, o clímax envolve um sacrifício gratuito do protagonista pra mostrar como ele é altruísta (já tínhamos visto 1 antes, quando Barley destrói a própria van numa cena que não fazia o menor sentido). Ou seja, depois de tudo, Ian abre mão do seu maior sonho em favor do irmão, que ele mesmo sempre viu como um inútil. Ou seja, a Disney ("Where Dreams Come True") agora diz pro público que o nobre é abrir mão de seus sonhos, desistir de seus objetivos, especialmente se for em favor de alguém mais fraco, menos merecedor.

Onward / EUA / 2020 / Dan Scanlon

NOTA: 5.0

quarta-feira, 11 de março de 2020

Por que tenho deixado de escrever

Tenho postado poucas críticas aqui por pura falta de motivação. Sinto que quanto mais vou chegando perto de uma visão consistente do cinema, quanto mais vou ficando satisfeito com as ideias e princípios que desenvolvo aqui, menos e menos as pessoas se interessam. Não sei exatamente qual o motivo - pode ser que eu simplesmente esteja equivocado em relação a tudo. Mas acho difícil essa ser a explicação, pois a maioria dos críticos não sabem muito bem o que dizem, e isso não os impede de ter público (no meu caso, um diferencial seria no mínimo a coerência interna das ideias - a maioria dos críticos nem isso tem a favor deles). Claro que de uns tempos pra cá eu venho ficado mais preguiçoso na maneira que escrevo, postando apenas minhas anotações ou notas, e isso certamente me impede de alcançar mais gente - mas isso já foi uma consequência da falta de interesse nos textos mais estruturados que fazia antes. Sim, tenho consciência que defendo uma visão de arte e de filmes que irá agradar apenas uma parcela bem pequena da população (ainda mais nos tempos atuais), e também sei que a maioria das pessoas não está interessada em teorias, explicações, fatos brutos, e que mesmo no meio intelectual tudo acaba se resumindo a carisma e a identificação emocional - mas ainda acho que deve haver um nicho por aí que se interessaria pelas ideias do blog (e um nicho, por menor que seja, tem que ser maior do que a meia dúzia de leitores que vejo por aqui). Por isso acho que o grande obstáculo no fim está no formato, na entrega, na maneira como divulgo ou apresento minhas opiniões. Já testei ideias diferentes, como podcast, YouTube, mas até agora não vi respostas positivas em nenhuma delas. Então a não ser que eu tenha alguma grande sacada de como achar esse nicho (se é que ele existe) provavelmente continuarei escrevendo aqui apenas em ocasiões especiais.

segunda-feira, 9 de março de 2020

Outros filmes vistos - Março 2020

Bem-Vindos a Marwen (Welcome to Marwen / 2018): 6.0





A Hora da Sua Morte (Countdown / 2019): 6.5






Honey Boy (2019): 7.0 - Shia LaBeouf interpreta o próprio pai nesse filme escrito por ele que mostra sua infância problemática como ator mirim em Hollywood. Performances excelentes e uma direção cheia de estilo mas que não se sobrepõe ao conteúdo e ao impacto emocional da história.

sexta-feira, 6 de março de 2020

Análise do clipe Stupid Love

Analisando o clipe da Lady Gaga "Stupid Love" assim como fiz com "Beat It" do Michael Jackson.


domingo, 9 de fevereiro de 2020

Outros filmes vistos - Fevereiro 2020

O Homem Invisível (The Invisible Man / 2020): 8.5 - Suspense fantástico que dá uma roupagem meio Dormindo com o Inimigo (1991) pra história clássica de H.G. Wells.




Modo Avião (2020): 6.0 - Bem clichê e formulaico, mas transmite bons valores e é realizado com competência, o que já é um destaque pra um filme brasileiro (claro que é tudo uma desculpa pra Larissa Manoela exibir seu carisma, que é o que acaba carregando o filme).





Maria e João - O Conto das Bruxas (Gretel & Hansel / 2020): 3.0 - O cineasta tem um senso estético interessante (poderia ser um bom diretor de videoclipes, ou de ensaios de moda), mas infelizmente não percebe que há muito mais por trás de um bom filme do que imagens estilosas.





Sonic: O Filme (Sonic: The Hedgehog / 2020): 6.0 - Bonitinho e bem intencionado, embora artisticamente não seja muito mais ambicioso do que um episódio do Papa-Léguas na TV. Não é o desastre que se esperava pelo primeiro trailer, e ainda serve pra matar a saudade das caretas do Jim Carrey.





Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa (Birds of Prey: And the Fantabulous Emancipation of One Harley Quinn / 2020): 5.0 - Visual bonito, Margot Robbie está divertida... Em geral fico incomodado com filmes que esperam que a gente torça por vilões, mas aqui não achei tão problemático pois o filme não leva a personagem a sério (não glamouriza o mal de forma tão grave quanto Coringa, e também não vira uma auto-paródia estilo Deadpool). Ainda assim achei difícil de me importar por alguém, pela trama, por qualquer coisa. Fica um senso de indiferença ao final da sessão - o que pelo menos já é um avanço em relação a Esquadrão Suicida.







Taylor Swift: Miss Americana (Miss Americana / 2020): 6.5 - Taylor tenta nos convencer de que ela cansou de ser uma boa garota, e por isso agora resolveu se posicionar politicamente, defender causas de esquerda, como se isso fosse sinal de rebeldia, independência intelectual. Mal sabe ela que até a Barbie defende causas de esquerda hoje, e que no fundo essa mudança só mostra que ela continua presa à necessidade de parecer uma boa garota: você não pode continuar sendo uma "boa garota" na cultura atual se você não fizer oposição a Trump, não se mostrar lutando pelas minorias, etc. Apesar dessa narrativa meio forçada, o documentário tem momentos interessantes quando foca na trajetória de sucesso de Taylor, no processo criativo, nos impactos psicológicos da fama, etc.





Midway - Batalha em Alto-Mar (Midway / 2019): 5.5 - Filme com jeitão de anos 90, que nos lembra tanto do aspecto divertido quanto do lado ruim dos blockbusters daquela época (excesso de clichês, personagens unidimensionais, etc). Mas como guilty pleasure até que não é ruim.





Klaus (2019): 6.5 - Foi o que achei mais legal entre os 5 indicados ao Oscar de Melhor Animação. Há algumas mensagens ruins (o filme podia muito bem ter sido uma celebração do empreendedorismo, mas ele tenta misturar isso com uma filosofia de altruísmo, o que não funciona tão bem - o protagonista chega a ser vilanizado por ter algum tipo de interesse pessoal no negócio de entregar brinquedos - não ser 100% altruísta como Klaus). Ainda assim é um roteiro bem elaborado, que cria uma história de origem interessante pro Papai Noel.





Link Perdido (Missing Link / 2019): 4.0 - Visualmente bonito, mas o trio central não tem muita química e a história não é das melhores (fica difícil se interessar tanto pelo objetivo do aventureiro, que quer ganhar respeito de homens que ele mesmo despreza, quanto pelo objetivo do Pé Grande, que quer encontrar sua tribo, mas está claramente indo atrás da tribo errada). Irrita também o problema do Herói Envergonhado - a tentativa de passar uma mensagem de heroísmo, integridade, determinação, ao mesmo tempo em que o filme apresenta os protagonistas como losers, figuras atrapalhadas, inseguras, nem um pouco inspiradoras.





Os Órfãos (The Turning / 2020): 3.5 - Apenas mais um amontoado de clichês pra preencher a cota de filmes de terror que estreiam todo mês. É o que costuma acontecer com diretores de videoclipe quando resolvem dirigir um longa: os cenários ficam incríveis, o visual dos atores também, mas a história é péssima e nada funciona num nível emocional. Se for pra ver uma adaptação de "A Volta do Parafuso", fiquem com o clássico de 1961 Os Inocentes.

sábado, 11 de janeiro de 2020

Outros filmes vistos - Janeiro 2020

Perdi Meu Corpo (J'ai perdu mon corps / 2019): 4.0 - Costuma sempre ter 1 animação estrangeira mais "artística" entre as finalistas pro Oscar, da qual eu não costumo gostar muito. Essa aqui conta uma história desconexa e interpretativa sobre um garoto que tem sua mão decepada enquanto vive um amor não-correspondido. É um quase romance entre 2 pessoas comuns, não muito interessantes, que transmite uma visão de mundo cinzenta bem típica do cinema francês. Autoral demais pro meu gosto.





Um Lindo Dia na Vizinhança (A Beautiful Day in the Neighborhood / 2019): 7.5 - Quando começou, achei um pouco frustrante e enganoso o fato do filme não ser uma biografia de Fred Rogers (como o pôster sugere), e sim a história de um jornalista que vai escrever um artigo sobre ele e acaba tendo sua vida transformada. Não me importei tanto pelos dramas pessoais do jornalista, mas no momentos em que Rogers está em cena, o filme é um retrato fascinante de uma personalidade única, de uma generosidade quase sobre-humana, e Hanks está perfeito no papel.




O Caso Richard Jewell (Richard Jewell / 2019): 6.5 - Tenho um pouco de preguiça desses filmes atuais de Clint Eastwood que são sempre histórias reais de americanos comuns que arriscam suas vidas pra salvar outros americanos de desastres e ataques terroristas. Não acho que esse tipo heroísmo torne alguém automaticamente interessante como foco de um filme, e o compromisso com as histórias reais às vezes impede Clint de criar uma narrativa satisfatória, dramática, surpreendente o bastante, como é o caso de Richard Jewell, que prende a atenção na maior parte, mas acaba tendo um desfecho um pouco morno, nunca atinge os picos de tensão que uma obra de ficção atingiria. Ainda assim é um filme decente, provavelmente o melhor dele desde Sniper Americano (2014).





1917 (2019): 8.0 - É daqueles filmes que você admira mais pela técnica e pela enorme dificuldade de realização do que pelo conteúdo em si. Não há personagens muito memoráveis, uma mensagem interessante, uma narrativa particularmente prazerosa, mas é um show tão incrível de direção, produção, fotografia, que a cada 5 minutos você se vê perguntando "como eles fizeram isso?". É uma experiência imersiva, um espetáculo audiovisual estilo Dunkirk, porém feito com inteligência e uma noção superior de cinema.









Jumanji: Próxima Fase (Jumanji: The Next Level / 2019): 5.0 - Não basta ser sequência de um remake, o filme ainda copia vários elementos de Indiana Jones e o Templo da Perdição (1984), refletindo a crise de imaginação e criatividade em Hollywood. É uma aventura bem intencionada, fácil de assistir, mas a pobreza do roteiro e a completa falta de estímulo intelectual me deixaram entediado na poltrona apesar de toda a ação física rolando na tela.




Judy: Muito Além do Arco-Íris (Judy / 2019): 4.0 - Biografia ofensiva, rasa, pobre em roteiro, sem o menor respeito por quem foi Judy Garland. É um desses filmes medianos que saem todo ano apenas como veículos pra atores ganharem prêmios, como foi Hitchcock, Sete Dias com Marilyn, Diana, A Dama de Ferro, onde todo o foco é a performance central (a intenção é sempre a mesma: não celebrar talento, mas expor os males do sucesso, da fama, do poder). Não dá pra dizer que Renée está mal, mas os dentes falsos e a voz ruim para canto (por que não chamaram uma dubladora?) incomodam em vários momentos, então pra mim não chega a ser a performance do ano.




Apollo 11 (2019): 7.5 - Não é um documentário com grandes méritos criativos pois ele consiste apenas de imagens de arquivo da missão Apollo (imagens sensacionais, devo dizer, algumas nunca antes vistas), mas não há novos conteúdos criados pra esse filme em particular (tirando trilha e algumas animações explicativas), não há nem uma narração pra tentar dar um novo ângulo pro evento. Mas talvez nem precisasse mesmo, pois a realidade da missão é tão fantástica que as imagens falam por si mesmas. Vale no mínimo como um documento histórico impressionante, me senti realmente testemunhando a missão pela 1ª vez.




Jojo Rabbit (2019): 3.5 - Não dei 1 risada sequer, Taika Waititi me parece extremamente equivocado na ideia de que humor é seu ponto forte. O filme tem sérios problemas de tom, não consegue achar um equilíbrio satisfatório entre comédia e drama, e no fim não funciona nem como um, nem como outro. Vale no máximo como um exercício em excentricidade no estilo Wes Anderson (mas sem o mesmo requinte visual).




Adoráveis Mulheres (Little Women / 2019): 8.0 - História um pouco Naturalista, focada no retrato de uma época, sem uma narrativa muito forte, porém perfeitamente produzido, atuado (melhor elenco que vi esse ano), a trilha sonora é lindíssima e o final satisfatório compensa algumas das mensagens menos otimistas que absorvemos ao longo da história. Merecidas as 6 indicações ao Oscar.









O Escândalo (Bombshell / 2019): 7.0 - Me lembrou um pouco Spotlight (2015); é um daqueles filmes que apesar de terem uma pauta de esquerda e atacarem alguns símbolos do conservadorismo, não são tão polarizadores, daqueles que agradam apenas os militantes de um lado ou de outro. O roteiro consegue apresentar o problema de forma equilibrada, e o que vemos são apenas mulheres íntegras, lutando honestamente contra um problema real. Destaque pras 3 atuações centrais e pra John Lithgow também.







Frozen II (2019): 6.5 - Alguns dos meus problemas com o primeiro filme foram amenizados aqui; Elsa não é mais aquela princesa rancorosa e niilista, as canções se encaixam melhor na narrativa... A força do filme está nos elementos de fantasia (há algumas ideias ótimas como o cavalo de água) e também nos momentos musicais "showstopper" de Elsa. Não é grande coisa, as mensagens continuam bem duvidosas, mas dá pra aproveitar como um divertimento despretensioso.









quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Joias Brutas

Desde Irreversível (2002) não via um filme tão repulsivo e incômodo em termos de técnica (direção, edição, fotografia, e principalmente som). Claro, isso não é nenhum acidente - o filme foi cuidadosamente planejado pra gerar o máximo de desconforto no espectador, não só através da técnica, mas também do conteúdo, nos mostrando personagens decadentes sempre gritando uns com os outros, passando por situações desagradáveis, estressantes, agindo de maneira autodestrutiva e irracional, tudo isso apresentado para o espectador da maneira mais caótica e de mau gosto possível. Nas minhas postagens sobre Idealismo eu discuto como Objetividade é a qualidade mais fundamental que aprecio na arte, e como os bons filmes conseguem transformar a realidade (frequentemente confusa) em algo ordenado, claro, simplificado, digerido para nossas mentes e nossos sentidos. O que esse filme faz de propósito é justamente o oposto - criar um nível de caos e desorientação sensorial que não encontramos nem nas situações mais estressantes do dia a dia. Descartando a hipótese dos cineastas serem simplesmente sádicos e niilistas, uma explicação mais generosa seria aquilo que discuto na postagem Pseudo-sofisticação - tentar enxergá-los apenas como diretores pretensiosos e imaturos que acham que subverter as regras é uma virtude em si, que ir contra o desejo da plateia, causar desprazer e incômodo prova algum tipo de capacidade ou sofisticação intelectual, simplesmente por ir contra o óbvio.

Em termos de conteúdo / mensagem o filme nem é tão condenável quanto eu esperava. Ele conta a história de um vendedor de joias endividado, fazendo uma série de jogadas e apostas arriscadas pra recuperar seu dinheiro, mas se enfiando num buraco cada vez maior no processo. O joalheiro é uma caricatura do judeu que só pensa em dinheiro e está disposto a abrir mão de qualquer escrúpulo para obtê-lo (se os próprios cineastas e Adam Sandler não fossem judeus, o filme provavelmente seria considerado antissemita ao extremo). Inicialmente parecia que ia ser um ataque ao capitalismo, ao dinheiro, aos ricos em geral (uma das primeiras cenas do filme é a câmera entrando dentro de uma pedra preciosa e isso se transformando em imagens da colonoscopia do protagonista, o que disparou meu alerta vermelho) porém o filme não chega a generalizar - e em vez de uma crítica ao capitalismo em si, ele acaba sendo uma crítica mais centrada na obsessão por dinheiro e na falta de escrúpulos de certas pessoas, o que é válido. O grande problema mesmo é a direção revoltante e a falta de elementos positivos. Mostrar um personagem desprezível pra criticá-lo não é errado - mas ainda não é o bastante pra gerar uma experiência enriquecedora para a plateia (ainda mais quando o filme tenta criar certa empatia por ele - não deixa claro que condena o personagem totalmente). Na ausência de heróis, de coisas para admirar, é apenas uma experiência incômoda. Barry Lyndon (1975) é uma boa prova de que, pra falar sobre pessoas desagradáveis, o filme em si não precisa ser desagradável.

Uncut Gems / EUA / 2019 / Benny Safdie, Josh Safdie

NOTA: 2.0

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

O Farol


Um dos filmes mais aclamados do ano (do diretor de A Bruxa) mas que não passa de um exercício bobo de estilo, de visual, sem conteúdo, sem trama, sem sentido - algo que pertence mais a uma galeria de arte moderna, a uma exposição fotográfica ou desfile de moda do que a uma sala de cinema. O mais irritante é que fica clara a pretensão do cineasta de parecer "cerebral", inteligente. Stanley Kubrick é um dos cineastas mais influentes da história, e muitos cineastas jovens (como Robert Eggers) parecem admirá-lo, mas o que me frustra é que praticamente todos esses "descendentes" de Kubrick acabam espelhando apenas as características superficiais dos filmes dele (imitando o estilo visual, fazendo referência a cenas específicas, usando efeitos sonoros similares, estilos de atuação) e o que falta em todos eles é justamente aquilo que tornava Kubrick grande - sua enorme inteligência e respeito pela racionalidade (tanto dele quanto da plateia). Sim, os filmes de Kubrick tinham um senso estético forte, mas isso nunca vinha em primeiro lugar - seus filmes sempre priorizavam conteúdo, história, ideias - e a notável inteligência era o que integrava todos os elementos (inclusive as decisões estéticas) e os tornavam bons filmes. Mesmo cineastas como Ingmar Bergman ou Andrei Tarkovsky (que também parecem inspirar Eggers) apesar de não serem tão objetivos quanto Kubrick, ainda se baseavam em conteúdo, intelecto, tinham algo interessante a dizer, não eram apenas decoradores focados em imagens estilosas e impressões sensoriais. É como pensar que se você imitar o penteado de Albert Einstein, usar roupas parecidas, e colocar a língua pra fora, você estará de alguma forma mais próximo de sua genialidade.


The Lighthouse / Canadá, EUA / 2019 / Robert Eggers

NOTA: 3.0

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Outros filmes vistos - Dezembro 2019

Minha Mãe É uma Peça 3 (2019) - 7.0

Dois Papas (2019) - 5.0

História de um Casamento (2019) - 7.0

Entre Facas e Segredos (2019) - 6.0

Meu Nome é Dolemite (2019) - 5.5

As Golpistas (2019) - 7.5

Downtown Abbey (2019) - 4.0