domingo, 20 de junho de 2021

Luca

Animação da Disney/Pixar que acabou indo direto pro Disney+ por causa da pandemia, embora isso não tenha me parecido tão terrível neste caso, pois o filme já lembra o tipo de produção menos ambiciosa que era lançada direto em DVD no passado. A história é sobre 2 amigos na Itália que são monstros marinhos, mas têm o poder de assumir a forma humana quando estão fora da água — e a necessidade de esconder suas verdadeiras identidades em público acaba gerando uma série de conflitos que farão o público refletir sobre preconceito, racismo, aceitação LGBT, etc (ou seja, está mais pra A Forma da Água do que pra A Pequena Sereia).

O Idealismo Corrompido é algo que pesa aqui, como já dava pra notar no trailer. Não só os protagonistas são losers, "underdogs" autodeclarados, como o filme vem nessa onda de animações que se passam em lugares fora dos EUA, e exaltam o modo de vida "simples" das culturas estrangeiras. Há diversas referências ao cinema de Fellini — um cartaz de La Strada em uma praça, uma menção a Mastroianni, e o próprio nome da amiga ruiva de Luca parece uma homenagem a Giulietta Masina (assim como a celebração da contra-cultura dos anos 60 em Cruella, este é mais um exemplo da Disney fazendo um pacto com o Anti-Idealismo pra se adequar aos tempos atuais). Mas tirando essas coisas (que já seriam o bastante pra me dar preguiça), minha principal queixa é que o filme só faz sentido quando visto por essa ótica da mensagem social. Se você assisti-lo como entretenimento, o roteiro não se sustenta. Toda a mitologia dos monstros é mal desenvolvida, os personagens centrais não são muito carismáticos, e a ação central que move a história (o desejo de vencer a competição pra ganhar uma lambreta) é tão banal e inconvincente que não empolga ninguém.

Luca / 2021 / Enrico Casarosa

sexta-feira, 18 de junho de 2021

Em um Bairro de Nova York

Versão para o cinema do musical de Lin-Manuel Miranda (criador de Hamilton) sobre imigrantes latinos vivendo em Nova York. Já tinha visto no teatro e achado um derivado fraco de West Side Story, e o filme não mudou essa impressão.

(Os comentários a seguir foram baseados nas notas que fiz durante a sessão.)

- Um "Musical Naturalista" me parece uma contradição em termos, mas aqui eles dão um jeito de unir a estética de musicais a uma história cujo principal objetivo é expor o cotidiano e dramas sociais da comunidade latina de Nova York — mostrar como eles são maltratados pelo sistema, como sofrem com o racismo, com a xenofobia, etc.

- Na crítica de Juntos Novamente, eu comentei como, nos melhores musicais, as canções são motivadas por sentimentos positivos, intensos, e decorrem de eventos importantes na trama. Aqui (seguindo as premissas do Naturalismo) as canções já servem principalmente para expor as condições sociais dos latinos, e elas podem surgir do nada, não dependem de eventos narrativos, até porque o filme não tem trama, é apenas uma exploração da comunidade latina e seus diversos membros.

- Naturalismo: os personagens são todos pessoas comuns, sem grandes ambições ou virtudes de caráter (vivem pelo lema "Paciência e Fé" e têm como maior "sonho" ganhar na loteria!) — e o filme espera que a gente se identifique com eles com base nessa normalidade, nessa não-excepcionalidade.

- Os toques de fantasia (manequins ganhando vida etc.) são comuns no gênero musical, mas aqui acabam destoando, justamente porque a história no fundo é sobre questões sociais, desilusões, não sobre escapismo, sobre transportar o espectador pra uma realidade melhorada.

- As músicas não fazem nada meu estilo. Um dos motivos de eu não gostar de musicais sung-through é o fato das músicas terem que ser escritas em função de diálogos — canções acabam ficando sem forma, sem estrutura, pois vão tendo que se arrastar conforme as necessidades do texto, e melodias dramáticas acabam sendo usadas para comunicar coisas banais, assuntos corriqueiros, etc. Aqui, o musical não é inteiro cantado (ou seja, tem espaço para diálogos normais), e mesmo assim existem canções nesse formato por algum motivo... Lembro de uma discussão sobre estética (do Leonard Peikoff acho) onde ele comentava que na arte romântica você não deve incluir coisas irrelevantes, mesmo que elas aconteçam na vida real, e dava o exemplo de um herói tendo dificuldade pra abrir uma garrafa de vinho num encontro romântico. Tudo o que você inclui numa obra de arte ganha uma importância existencial extra... Portanto, incluir detalhes assim seria desaconselhável até num trecho comum do filme, que dirá numa cena musical. Mas aqui, como a intenção do filme é justamente exaltar o ordinário, o comum, nós chegamos ao absurdo de um momento onde o protagonista não só tem dificuldade pra abrir uma garrafa num encontro (numa resposta irônica ao exemplo do Peikoff), como isso é enfatizado pela música — ele fica tentando tirar o lacre enquanto canta "how do you get this gold s**t off?" num tom poético (!). 

- Também não há um senso de unidade, de integração entre tema/música/cenário/conceito nas sequências musicais. Quando lembramos de Cantando na Chuva, por exemplo, é fácil lembrar qual era a música que Gene Kelly cantava na cena da chuva, que objeto ele carregava em suas mãos, e podemos até lembrar de alguns de seus passos de dança, pois tudo era integrado ao redor de um tema simples e memorável. Aqui, apenas um ou outro momento busca esse tipo de unidade (há um pouco disso em "Carnaval del Barrio") mas em geral é tudo bem aleatório e bagunçado.. A cena na piscina pública é sobre ganhar na loteria, a cena onde os personagens dançam na lateral do prédio não tem nada a ver com desafiar a gravidade, a cena da avó no metrô não tem nada a ver com metrô... O autor parece pensar: "desde que sejam latinos em locações de Nova York, está valendo."

- A contagem regressiva para o apagão dá um vago senso de estrutura pro filme, mas na prática é só um evento aleatório que nada tem a ver com as ações e propósitos dos personagens (digo o mesmo para a morte da avó). No máximo é um uso de simbolismo pra dizer que os latinos se sentem "powerless" em NY. É um problema comum em roteiros de filmes que não têm trama: eles não têm critério pra saber quando acabar, então inventam algum evento dramático (mas puramente acidental) perto do fim, após o qual vai se criando um "clima" de desfecho.

- Tudo parece horrível nos EUA: latinos não conseguem crédito, o ensino é caro demais, falta energia, o metrô que corta o bairro é barulhento, as condições de vida são péssimas, o trabalho é árduo (não dá nem pra vender raspadinha sem a competição do "big business"), não há nenhum personagem americano gostável no filme, o racismo é tão presente na sociedade que uma menina linda como a Nina não se sente respeitada nem em um ambiente universitário por não ser branca. Eles vivem nos EUA, mas detestam a cultura americana, não querem se integrar, querem que o bairro seja exatamente como seus países de origem... É como se a América Latina fosse um paraíso abandonado, mas mesmo assim, na hora de decidir se voltam pra lá, todos resolvem permanecer nos EUA (em West Side Story, pelo menos metade dos porto-riquenhos realmente gostava da América). Nina decide continuar com seus estudos nos EUA, mas em vez de perseguir seu sucesso profissional como antes (o sonho americano a essa altura já parece uma farsa), agora seu objetivo será lutar por mudanças políticas... Ou seja, em vez de mostrar imigrantes como pessoas ambiciosas, produtivas, independentes, que podem trazer valor ao país, o filme acaba reforçando a paranóia de muitos conservadores que acham que imigrantes vão pra lá só pra viver às custas do governo, tirar o que é deles, subverter a cultura, etc.

In the Heights / 2021 / Jon M. Chu

Mare of Easttown

Série policial da HBO com Kate Winslet no papel principal. A maioria das séries eu abandono logo no primeiro episódio, e essa quase não passou nesse meu primeiro "teste", mas minha curiosidade em relação à trama e ao mistério de assassinato estilo whodunit me fez seguir em frente. Minha resistência inicial surgiu por conta do tom excessivamente pesado da história (queixa que tive também em relação a Sharp Objects) — Kate Winslet está bastante desglamourizada, interpreta uma mulher quebrada emocionalmente, que raramente sorri, a série tem uma atmosfera nublada, tudo é meio marrom, em escalas menores, os relacionamentos são todos conflituosos, etc. Mas apesar disso, fica sempre a sensação de que a história está caminhando para algo melhor, que seu objetivo no fundo é mostrar uma evolução da protagonista (não apenas ficar remoendo suas tragédias), e surpreender o espectador com reviravoltas e revelações cuidadosamente plantadas ao longo dos 7 episódios — e nesse sentido, a série cumpre sua promessa. Algumas subtramas me pareceram jogadas ali só pra preencher o tempo (como o romance da filha de Mare, ou o sumiço de 2 garotas que consome boa parte dos episódios mas não contribui muito para a investigação central), mas de forma geral, é uma série bem escrita, inteligente, com personagens ricos, ótimas atuações (além de Kate, a amiga dela interpretada por Julianne Nicholson tem um arco espetacular), e principalmente, uma trama instigante com 3 excelentes episódios finais.

terça-feira, 15 de junho de 2021

Juntos Novamente

Curta-metragem da Disney que foi exibido junto com Raya e o Último Dragão nos cinemas. Visualmente é um trabalho incrível, mas pra mim é um daqueles "anti-musicais" estilo La La Land que fazem referências a musicais clássicos apenas pra manchar o gênero com o espírito tedioso dos tempos atuais. Além da visão negativa da velhice (a ideia de que pessoas mais velhas são sempre inativas, sem propósito, e suas únicas alegrias só podem vir de lembranças do passado) o que mais me incomodou no filme foi sua atitude em relação à felicidade (simbolizada pela dança e pela música). Nos bons clássicos do gênero, um número musical surge normalmente como consequência de alguma conquista, alguma emoção que, de tão intensa, não pode ser contida dentro dos personagens, e por isso precisa ser manifestada musicalmente. Por exemplo: em Cantando na Chuva, a cena famosa de Gene Kelly na chuva ocorre logo após ele e seus parceiros terem uma ideia brilhante para um filme que estão gravando — uma solução criativa que poderá salvá-los de um grande fracasso. Nesse momento, o futuro é promissor para o protagonista: seu sucesso profissional parece certo, ele encontrou um novo amor, e é com base nesse entusiasmo que Gene começa a cantar e a dançar. Essa abordagem reflete a noção de que a felicidade é uma consequência da conquista de valores importantes no mundo real, e reforça a ideia de que nossos objetivos podem ser atingidos, que dificuldades podem ser superadas com atitudes inteligentes, etc. Contraste isso com o que acontece em Juntos Novamente... Aqui, o protagonista é um senhor rabugento, infeliz (sem um motivo claro) e que não tem nenhum motivo específico para se alegrar também. Ele apenas "decide" ser feliz de um minuto para o outro, pois percebe que sua infelicidade deixa sua esposa mal. Ou seja, "felicidade" é apenas um pequeno teatro que ele está disposto a criar por consideração a ela, o que não convence o público, e acaba transmitindo a ideia de que felicidade é uma ilusão. Ele também recebe a ajuda de uma chuva mágica que faz com que ele seja jovem de novo, reforçando a noção de que idade é sinônimo de tristeza. Esse artifício cria também uma associação estranha entre chuva (um símbolo de mau tempo) a alegria. Em Cantando na Chuva, Gene Kelly dança apesar da chuva... É como se ele estivesse tão feliz que nem a chuva conseguisse estragar seu entusiasmo. Aqui, já há a sugestão de que a felicidade é estimulada pela chuva e até depende da chuva em partes (não entendi exatamente a mensagem por trás disso, mas é o tipo de inconsistência que não me surpreende no cinema atual). SPOILER: No fim, a chuva vai embora, e o personagem percebe que não poderá sustentar aquele nível elevado de felicidade o tempo todo — afinal, ele não é mais jovem. O filme termina com eles num estado mais moderado de contentamento que, na visão dos autores, parece ser o máximo que o entretenimento tem o direito de inspirar no público. Fica aí mais uma ilustração para o fenômeno do Idealismo Corrompido.

Us Again / 2021 / Zach Parrish

terça-feira, 8 de junho de 2021

Bo Burnham: Inside

Especial totalmente criado e filmado por Bo Burnham, que basicamente é uma sequência aleatória de sketches e canções metalinguísticas e paradoxais que ele foi gravando em casa ao longo da pandemia, e que exploram seus dilemas na criação do próprio especial, questões de saúde mental, e suas observações cínicas a respeito da sociedade moderna (ele não tem nada de muito sólido a dizer, mas acho que fazer referências a coisas como Instagram e Jeff Bezos em tom sarcástico já é o suficiente para alguns). Pessoalmente acho a atitude de Burnham um tanto irritante (toda a tentativa de conciliar sua egolatria com seu "white guilt" — o desejo de parecer genial, demonstrar todos os seus talentos, brigando com a crença de que é um pecado ter autoestima ou parecer superior em qualquer coisa). Sua criatividade é inegável, mas acaba sendo um exercício vazio, um exemplo do que acontece com pessoas altamente capazes quando desprovidas de ideais e propósitos positivos (tenho certeza que Burnham não desenvolveu todas as suas habilidades como músico, videomaker, escritor e intérprete ao longo da vida pensando que no fim elas serviriam apenas como instrumento para auto-ridicularização). Há instantes engraçados e coisas a serem apreciadas na execução do projeto, mas pra mim é incômodo ver alguém usando seus talentos dessa forma — a sensação foi mais ou menos a de assistir um milionário queimando seu dinheiro e usando-o como papel higiênico em frente às câmeras na tentativa de amenizar sua culpa e ganhar a simpatia do público.

domingo, 6 de junho de 2021

Invocação do Mal 3: A Ordem Do Demônio

Assim como os outros 2, achei muito bem produzido e caprichado visualmente. Senti um pouco a falta da direção de James Wan, que garantiu sustos melhores e set pieces mais memoráveis aos filmes anteriores... A premissa aqui é interessante, e gostaria até que eles tivessem explorado melhor a parte toda do julgamento de Arne, que acaba ficando em segundo plano. Uma das limitações da franquia (e que aqui ficou mais evidente), é que os protagonistas sempre parecem um pouco distantes e unidimensionais, o que enfraquece a história. Não são pessoas reais com as quais podemos nos identificar — em partes pelo fato deles serem investigadores paranormais, figuras muito distantes da nossa realidade (a graça de filmes de terror muitas vezes está no fato de eventos extraordinários estarem acontecendo a pessoas comuns, que jamais esperariam aquilo), mas em partes pela ausência de toques de caracterização que os tornem mais palpáveis... Acho importante o uso de arquétipos em filmes, mas é sempre necessário acrescentar algumas peculiaridades e traços de caráter marcantes a esses arquétipos para torná-los indivíduos convincentes, carismáticos (como o fato de Indiana Jones ter medo de cobras), se não, nunca sentimos que conhecemos realmente os personagens, que temos uma relação próxima com eles (um caso mais claro disso seria a própria vilã do filme, que parece mais um boneco de trem-fantasma do que um personagem de fato). Ainda assim, acho que o filme mantém a série respeitável, enquanto A Maldição da Chorona (do mesmo diretor) e alguns dos outros spin-offs lutam pra chegar no mesmo padrão.

Invocação do Mal 3: A Ordem Do Demônio (The Conjuring: The Devil Made Me Do It / 2021)

PRA QUEM GOSTOU DE: Invocação do Mal 1 e 2 / Sobrenatural 1 e 2 / Annabelle (2014) / Ouija: Origem do Mal (2016)

sexta-feira, 28 de maio de 2021

Maio 2021

Cruella (2021)

Não superei totalmente o fato de que estava vendo um filme da Disney situado na Londres dos anos 60, cheio de referências à contracultura, com músicas de The Doors, David Bowie, Nina Simone na trilha, e que pede para simpatizarmos com uma vilã/anti-heroína moralmente ambivalente, motivada em partes pelo desejo de "destronar" os ricos e poderosos — o que me fez ver Cruella como uma espécie de Coringa (2019) para um público mais familiar. Mas tirando esse estranhamento, o filme é surpreendentemente bem feito, não só em termos de produção — o roteiro também me pareceu bastante inteligente, bem construído, e Emma Stone e Emma Thompson formam uma dupla memorável de rivais. PRA QUEM GOSTOU DE: Malévola (2014) / O Diabo Veste Prada (2006) / Coringa (2019)



Mortal Kombat (2021)

Bastante satisfatório pra quem entra no cinema sabendo o que vai consumir. As lutas são muito bem coreografadas, os efeitos especiais são divertidos (gostei particularmente dos poderes do Sub-Zero), e embora parte da graça dependa da nostalgia e de você pegar as referências ao jogo, a história estabelece bem suas regras e cria um conflito claro entre bem e mal que faz com que ela funcione até pra quem está no meu nível de expertise e memória — que é aquele onde você já não sabe direito se Kung Lao e Chun Li pertencem ao mesmo jogo. PRA QUEM GOSTOU DE: Power Rangers (2017) / G.I. Joe: Retaliação (2013)



Aqueles Que Me Desejam a Morte (Those Who Wish Me Dead / 2021): 6.0

Angelina Jolie faz uma bombeira que vigia queimadas florestais e passa a proteger um garoto sendo perseguido por dois assassinos. O filme é uma espécie de neo-western com um pé em filme-catástrofe dos anos 90, e tenta resgatar um estilo mais tradicional de thriller. O roteiro tem algumas coisas meio bagunçadas — em vez de focar na Angelina e no garoto, o filme dá ênfase a alguns personagens secundários e eventos que às vezes parecem até mais dramáticos que a própria história central; como se o drama da Angelina fosse o mais fraco entre tudo o que está ocorrendo, o que enfraquece a trama e especialmente o clímax. Há também a tentativa de dar um tom mítico e profundo pra história que não é justificado pelo conteúdo real do filme (os personagens e conflitos são bem superficiais), e isso deixa a produção parecendo desnecessariamente pretensiosa (senti o mesmo em Relatos do Mundo e em A Qualquer Custo, este último também escrito por Taylor Sheridan). Mas os vilões implacáveis e a ação garantem um mínimo de entretenimento pra quem curte o gênero.



Army of the Dead: Invasão em Las Vegas (Army of the Dead / 2021): 4.5

Após uma cena de abertura interessante, o filme rapidamente decai em mais um desses enredos estilo John Wick, onde a cada 5 minutos os personagens se deparam com um novo agrupamento de inimigos e entram em uma batalha sangrenta. É preciso ver um valor intrínseco na violência, em imagens de pessoas dando tiros umas nas outras, sem qualquer contexto dramático, pra realmente se divertir com um filme como este, o que não é bem o meu caso (os anarquistas talvez simpatizem mais com a história, pois um diálogo no meio do filme sugere que esta seria a visão de uma América "livre", mais próxima de seus ideais).



Oxigênio (Oxygène / 2021): 5.0

Não sei se é aquele efeito de quando você compra um carro, que você passa a notá-lo na rua com muito mais frequência, mas desde o texto sobre 1999 parece que todo filme que assisto vira mais um exemplo para aquela discussão. Esse aqui é um suspense de confinamento estilo Enterrado Vivo, porém que se passa num "caixão" mais futurista e cheio de recursos. A protagonista, como de costume, tem dificuldade de distinguir o que é real ou imaginário, e, pra variar, está sofrendo pela morte de um ente querido. Diferente de Passageiro Acidental, cujos personagens mantêm a calma e a racionalidade diante da emergência, a heroína aqui entra em desespero logo que acorda, e passa o filme todo chorando, perdendo o controle, sentindo dor, o que torna ainda mais "agradável" a ideia de ficar 1h30 olhando pra alguém numa câmara criogênica. O filme é bem realizado e tem algumas ideias interessantes enquanto ficção-científica — SPOILER: exceto, claro, a maneira como Liz finalmente consegue o oxigênio no final, uma das soluções mais dignas de um facepalm desde que Leslie Nielsen tropeçou no fio e tirou a bomba da tomada em Corra que a Polícia Vem Aí 2 1/2. Talvez o mais interessante de tudo seja que, ao apresentar essa imagem de uma mulher perdendo a sanidade, trancada num espaço pequeno, sem contato com outros seres humanos, correndo risco de morrer por falta de oxigênio, sua única referência do mundo externo sendo uma tela de computador que oculta informações, e ainda com o governo tentando enfiar agulhas nela o tempo todo, o filme criou a metáfora perfeita para esses anos de pandemia.



A Mulher na Janela (The Woman in the Window / 2021): 6.0

Este é um "6.0" diferente dos debaixo. Em vez de um filme uniformemente razoável, minha nota seria uma média entre alguns pontos excelentes, misturados com alguns problemas fatais. Os pontos positivos estão na produção e na sofisticação do estilo de Joe Wright, sempre talentoso e ousado. O grande problema é que a trama já perde o sustento logo no início, quando tudo no filme (não apenas os eventos da história, mas também a fotografia, a edição, etc.) indica que a protagonista é louca e está imaginando as coisas que vê. Sem um senso mínimo de objetividade, todas as tentativas do filme de engajar através da lógica dos acontecimentos e criar reviravoltas surpreendentes falham, pois a atmosfera de sonho vai contra esse propósito e ativamente pede para o espectador não confiar em nada do que se passa na tela.



Mundo em Caos (Chaos Walking / 2021): 6.0

O conceito das emoções visíveis é interessante, e nas mãos de um roteirista melhor poderia ter sido usado pra uma discussão mais rica sobre o declínio da privacidade no mundo pós-internet, ou quem sabe sobre o declínio da objetividade na cultura atual, etc. No fim, virou apenas um filme de aventura num futuro distópico como tantos outros, simpático até, mas cuja ação poderia ter permanecido basicamente a mesma sem esse artifício, que é (ou deveria ter sido) seu maior diferencial.




Os Pequenos Vestígios (The Little Things / 2021): 6.0

O roteiro tem uma solidez respeitável que talvez se deva ao fato dele ter sido escrito no início dos anos 90, quando os padrões para filmes de suspense (e para o cinema americano em geral) eram mais altos. A semelhança com Seven (1995) acaba prejudicando um pouco, até por criar a expectativa de um final igualmente bombástico e conclusivo, que o filme promete mas acaba não entregando da melhor forma.


segunda-feira, 24 de maio de 2021

Continuo escrevendo, mas...

Algumas pessoas talvez tenham reparado que eu dividi meu canal do YouTube em dois... Coisas mais pessoais foram pra um canal zerado, e os vídeos legendados sobre filosofia ficaram no mesmo canal, mas que agora não leva mais o meu nome. O motivo é que de uns tempos pra cá eu tenho ficado um pouco cansado de política e debates ideológicos... Em vez de me motivar e me aproximar dos meus objetivos, esses conteúdos parecem fazer o oposto e acabam só me desviando dos meus verdadeiros interesses. O YouTube particularmente era uma das coisas que mais me prendiam a esse universo, deixando minha identidade sempre associada a discussões que nada têm a ver com cinema ou entretenimento. Recentemente recebi até um convite pra escrever em um site sobre cultura, mas acabei não aceitando, pois seria algo mais voltado pra esse lado político do cinema, e a essa altura eu já entendi que esse tipo de "ativismo" não é algo que me satisfaz e que eu desejo para o futuro. Aqui no blog é o último lugar onde eu ainda me vejo um pouco nesse papel... Os filmes hoje são tão imbuídos em política que é quase impossível discuti-los honestamente sem entrar em uma discussão mais alarmante sobre o assunto. Mas tenho tentado fazer o exercício de lembrar como as coisas eram no passado, quando o que me motivava primeiramente era uma paixão genuína pelos filmes, e não a necessidade de combater forças negativas da cultura... Meu sonho no fundo sempre foi um dia poder fazer cinema, contar novas histórias, não apenas escrever a respeito. Claro que a cultura mudou tanto nos últimos tempos que esse sonho começou a parecer mais e mais distante, pois o que me encantava no universo do cinema foi deixando de existir. As reflexões aqui do blog foram importantes nesse processo, até pra eu entender melhor o que estava acontecendo. Mas conforme essas questões vão ficando mais bem resolvidas na minha cabeça, eu percebo que vai diminuindo meu interesse em ficar militando a favor ou contra certas causas constantemente.

Quem é do mundo da política, pra mim é quase como quem trabalha com saúde, numa sala de emergência... É um outro mindset, de alguém que tem que lidar com questões básicas de sobrevivência, com o lado mais pesado e grave da vida — coisas que pessoas comuns, num mundo ideal, só precisariam lidar em situações de urgência, quando algo dá errado. Existem pessoas com o temperamento certo pra esse tipo de missão, mas eu no fundo sempre me atraí pelo oposto disso... Costumava dizer que eu sou o tipo de pessoa que pertence ao "último andar do shopping", que normalmente é onde ficam os cinemas, os teatros, restaurantes... as coisas mais leves da vida, em contraste com o térreo e os subsolos, onde ficam supermercados, farmácias, bancos, coisas funcionais, mais ligadas a necessidades de sobrevivência. Pra mim há uma certa incompatibilidade entre o mundo do entretenimento e o mundo da política e das discussões ideológicas. Há espaço, claro, pra temas mais filosóficos e intelectuais no entretenimento — mas não o tipo de debate explícito/polarizador ao qual nos acostumamos nos últimos anos, que afastam a gente do universo leve da arte, e nos trazem de volta para um mindset de sobrevivência (despertam aquelas regiões de "luta e fuga" do cérebro que pra mim deveriam ficar adormecidas num espaço de diversão). Os últimos anos foram extremamente turbulentos, e esse "último andar do shopping" foi praticamente interditado, me forçando a habitar mais os pisos inferiores... Mas não é aí que eu gostaria de ficar pra sempre, ou onde eu me sinto mais em casa. E agora, passada a temporada do Oscar 2021 e o ponto mais crítico da pandemia (que pra mim representaram o fundo do poço tanto pra política quanto pro entretenimento), eu sinto que é um bom momento pra começar a procurar as escadas rolantes. Não tenho planos de mudar muita coisa por aqui... Resolvi postar isso só porque talvez eu entre numa fase onde eu ponha menos energia em assuntos indigestos que vão além do cinema em si.

sábado, 8 de maio de 2021

Cultura geek vs. Idealismo

Estava assistindo à nova animação A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas na Netflix e me ocorreu que seria importante frisar um ponto aqui pra quem acompanha o blog, até porque alguns dos leitores se interessam pelo universo geek, e embora eu sempre seja crítico em relação aos filmes da Marvel, DC, aos novos produtos Star Wars, eu nunca abordei o tema por este ângulo.

Quando falo de Anti-Idealismo e discuto os problemas do entretenimento atual, normalmente enfatizo mais o papel da cultura "woke" nessa história, mas a verdade é que uma boa parte do Anti-Idealismo que vejo nos filmes populares hoje não está claramente ligado a ideologias políticas, e parece estar apenas atendendo às exigências do público — inclusive o público geek.

A cultura geek é um movimento Anti-Idealista em grande parte, assim como o movimento progressista/woke. São grupos com características diferentes, mas que têm alguns objetivos em comum no mundo do entretenimento, então muitas vezes acabam unindo forças e se confundindo. Em alguns aspectos, a cultura geek talvez seja até mais perigosa para o entretenimento do que as influências da cultura woke, por ela dominar mais o cinema comercial, as grandes produções, e portanto atender um público bem maior (sem falar que ela não enfrenta grandes oposições, ao contrário do wokismo que tem muitos críticos). Se você pensar, "cinéfilo" parece ter virado quase que um adjetivo para alguém que, além de filmes, também é fã de games, quadrinhos, frequenta a Comic-Con, de tão dominante que se tornou o movimento. Quando entro em um shopping e vejo aqueles quiosques que vendem camisetas de filmes, objetos customizados, tudo praticamente é sobre o universo geek. Quando procuro canais grandes no YouTube ou influenciadores que falam sobre cinema, os que têm mais seguidores no fundo estão falando de cultura geek. Pessoas que gostam de cinema de fato, num sentido mais fundamental, parecem ter se tornado uma pequena minoria. É como se os espectadores tivessem se dividido em vários grupos com interesses especiais, e o maior desses grupos é formado pelos geeks. Se você quer ganhar prêmios, ter "prestígio", você precisa agradar o público de esquerda, mas se você quer ganhar dinheiro, atrair as massas, você é praticamente obrigado a apelar pra cultura geek atualmente — o que não te impede de incluir temas progressistas nas histórias também, já que esse movimento é meio indefinido politicamente (filmes que combinam as 2 coisas, aliás, parecem se tornar os mais unânimes, como as animações da Pixar ou um caso como Coringa, cujo anti-herói acaba representando os excluídos de todos os campos).

Sempre que você faz críticas a alguma cultura ou grupo é importante esclarecer alguns pontos... Eu não tenho nada contra pessoas introvertidas (inclusive sou uma delas) e nada contra pessoas que gostam de ciência, tecnologia etc. Porém o conceito geek (ou nerd) é uma espécie de pacote que une algumas dessas características neutras a outras características que já não são tão desejáveis, como ser socialmente awkward, ter baixa autoestima, ser visto como um loser, etc. Minhas críticas à cultura geek não são um ataque às qualidades neutras ligadas aos "nerds", e sim à tentativa de romantizar o pacote inteiro, incluindo esses traços negativos.

Em vez de contar histórias com heróis admiráveis, que façam o público querer superar suas limitações, os filmes de hoje querem apenas replicar as fragilidades do espectador na tela; promover aceitação, gerar conforto, um senso de comunidade ao redor de inseguranças em comum, etc. Autoestima é o valor que geralmente falta a quem se junta a essas comunidades — é por isso que, no cinema, desconstruir o conceito de herói e torná-los figuras mais realistas, menos idealizadas, é uma das principais metas não só da cultura geek, mas também da cultura woke.

A predominância dos geeks na cultura popular me parece até uma ramificação ou uma consequência do movimento progressista. Este "empoderamento" dos geeks não teria sido possível nos anos 80/90, por exemplo — ele só faz sentido hoje, em meio às mudanças culturais que ocorreram nos últimos 10–15 anos. Se você observa os filmes mais antigos, nerds eram retratados sempre de maneira meio cômica — como o vilão Dennis Neadry em Jurassic Park, ou o pai de Marty McFly em De Volta para o Futuro (que se torna respeitável apenas no final do filme, onde ele continua sendo escritor, continua sendo fã de ficção-científica e preservando seus interesses, porém deixou de ser um nerd pois se livrou das características negativas associadas ao estereótipo — a insegurança, inadequação, etc.).

Muitos dos problemas do cinema atual que costumo discutir aqui parecem diretamente relacionados à cultura geek. Alguns exemplos:

- A atitude anti-virtude, já mencionada antes: como muito da cola que une a cultura geek tem a ver com inseguranças, inadequações, há sempre uma necessidade de desconstruir os heróis nos filmes, romantizar as fraquezas dos personagens, colocar losers como protagonistas, atores de aparência mais comum — o que vai contra um dos principais pilares do Idealismo (discuto isso mais a fundo nos textos Idealismo Corrompido, O que torna um personagem gostável?, A Invasão Anti-Idealista).

- O desinteresse pela realidade: há uma certa atração nesse universo por tudo aquilo que é altamente artificial, virtual, digital, desconectado da realidade (o que não me surpreenderia se fosse consequência do ponto anterior: já que os geeks mais fragilizados já perderam a esperança de obter um senso de autoestima no mundo real, qualquer outro mundo que não seja o real deve se tornar mais atraente) — e deste fascínio pelo artificial/virtual surgem vários desequilíbrios estéticos, como os excessos de computação gráfica, a fantasia pela fantasia em si, filmes de ação que rejeitam completamente as leis da física, que se parecem cada vez mais com video games, etc.

- O subjetivismo que advém do apelo à tribo: antigamente os filmes americanos buscavam contar histórias de maneira universal para atingir e emocionar o número máximo de espectadores ao redor do mundo. A única forma de fazer isso é apelando para a racionalidade da plateia, que é a única linguagem realmente universal (apelando para valores fundamentais do ser humano — não interesses concretos e locais). Mas agora, os produtores descobriram que eles precisam apenas agradar o público geek pra faturar bilhões de dólares. E pra agradar uma comunidade específica, já conhecida, você não precisa mais contar histórias de forma universal, apelar para valores amplos e se comunicar racionalmente como antes — basta você entender os interesses e necessidades particulares daquela comunidade, naquele momento, e agradar o espectador com base em símbolos, referências internas, "fan service" (mesmo sendo cinéfilo, eu, por exemplo, fico muitas vezes perdido em sessões da Marvel, sem entender por que todo mundo na sala riu ou começou a aplaudir de repente — como se eu fosse um intruso num clube privado onde todos falassem um dialeto próprio).

Mais uma vez — embora eu não ache boa ideia alguém amarrar seu valor próprio a uma "identidade geek", não tenho problema algum com quem seja geek em sua vida pessoal. Alguns dos cineastas que mais respeito, que começaram a carreira nos anos 70/80, de certa forma eram os geeks de sua época. Mas em seus filmes, eles tinham uma atitude totalmente diferente da dos geeks de hoje, influenciados pelo progressismo — mesmo o "papa" da cultura geek, George Lucas, não colocou um monte de personagens tímidos pra protagonizar Star Wars, nem moldou a história ao redor de suas inseguranças e inadequações. Ele fez um filme para todo tipo de público, sobre pessoas fortes realizando coisas admiráveis. Meu problema com a cultura geek atual (pelo menos com a cultura geek mais dominante — sei que existe também uma ala mais conservadora dentro do mundo geek, e com esse público eu teria um tipo diferente de divergência) é simplesmente que ela se tornou mais uma das forças Anti-Idealistas que vêm deteriorando o entretenimento nas últimas 2 décadas.

segunda-feira, 26 de abril de 2021

O pior Oscar da história?

O Oscar 2021, se não foi o pior da história, foi certamente o pior que eu vi em mais de 20 anos que não perco uma transmissão. Em termos de indicados e vencedores, as últimas edições já estavam praticamente no mesmo nível de ruindade — não é novidade que hoje é tudo sobre política, sinalização de virtude, diversidade, não sobre talento e mérito — então nem vou comentar isso. Mas essa foi a primeira vez que os "AIs" conseguiram destruir a cerimônia em si. Nos outros anos, os premiados eram fracos, mas em termos de evento, o Oscar ainda parecia o Oscar — uma inconsistência que foi resolvida na festa de ontem.

O maior choque pra mim foi perceber que a cerimônia se passaria inteira na Union Station, não apenas parte da festa como tinha sido anunciado. O teatro Dolby é enorme, então desde o início eu não estava entendendo a necessidade de um segundo local para apresentar parte da cerimônia, pois seria perfeitamente possível fazer distanciamento social no Dolby Theatre (já que os convidados seriam limitados a indicados e apresentadores). Mas se no fim a festa acabou sendo apresentada praticamente inteira em 1 local só, qual foi o sentido então de fazê-la na Union Station? Tudo aquilo que vimos não poderia ter ocorrido no Dolby Theatre? A resposta está na atitude que descrevi no texto sobre a Pandemia: o Dolby Theatre é um símbolo de luxo, glamour. Uma estação de trem é mais humilde, low profile, é um lugar do "povo". Como já vimos, nada disso é sobre saúde, segurança, lógica — é sobre sacrifício, sobre mostrar que vivemos um "novo normal", é sobre o desejo de destruir a felicidade, o prazer, o conforto, em nome de um falso bem coletivo.

A festa não teve host, não teve o tradicional espetáculo de abertura, não teve as apresentações musicais (que foram jogadas pro pré-show), a orquestra foi substituída por um DJ, não havia telões e palcos grandiosos, e as poucas tentativas de humor foram tímidas e deslocadas. Não vimos prêmios honorários, prêmios para inovações técnicas, nem montagens épicas celebrando a história do cinema — em compensação, tivemos dois prêmios humanitários.

O prêmio de Melhor Filme (logicamente, o grand finale de toda cerimônia) não foi apresentado no final, mas foi anunciado antes dos prêmios de Melhor Atriz e Melhor Ator pela primeira vez, gerando um anti-clímax, um momento de "desconstrução", que parecia querer dizer de que há algo de "ultrapassado" em hierarquias, que nada é tão importante assim, então pra que gerar expectativas?

Quando Nomadland ganhou melhor filme, tivemos também a visão bizarra da Frances McDormand uivando como um lobo no palco, mais um ato de niilismo que, sob um manto de irreverência e descontração, atende o desejo coletivo de degradar a premiação, de colocar uma figura animalesca e primitiva num podium que deveria representar o auge da sofisticação, do desenvolvimento profissional e artístico do ser humano.

A "cereja do bolo" foi deixar o Oscar de Melhor Ator por último, sendo que já era possível prever que os dois atores favoritos ao prêmio não estariam presentes na cerimônia (Anthony Hopkins e Chadwick Boseman — este último por razões óbvias), o que seria garantia de que a festa terminaria numa nota inconclusiva, frustrante, ainda mais na ausência de um anfitrião.

Steven Soderbergh, que foi produtor da cerimônia, disse que a festa deste ano iria se parecer com a experiência de assistir a um filme... Ele só esqueceu de avisar que seria um filme horrível, como os que a Academia tem premiado ultimamente.