segunda-feira, 28 de março de 2022

Oscar 2022

Mais um ano, mais uma ilustração da decadência da Academia. Achei alguns prêmios merecidos (como o de Melhor Atriz pra Jessica Chastain), mas quando o Oscar principal vai pra algo tão fraco quanto No Ritmo do Coração, isso acaba manchando a edição como um todo. E o culpado já conhecemos: todas as tendências culturais de hoje que colocam a função social do cinema acima de qualidade, inclusão acima de virtude (o que explica também a baixa audiência).

Sobre o caso Will Smith... Eu acho péssimo o humor degradante de apresentadores como Chris Rock, Ricky Gervais, e é revelador sobre a cultura que esse tipo de piada tenha se tornado uma convenção em cerimônias que foram criadas originalmente para enaltecer artistas, celebrar talento, habilidade, glamour etc. Óbvio que Smith se descontrolou e respondeu de forma totalmente inapropriada... Então vejo os dois como errados, só que em âmbitos e níveis diferentes: Smith pecou pelo descontrole/impulsividade (cruzou uma linha pior que a de Rock, mas que pode ter sido um impulso atípico, algo que não representa seu comportamento normal), e Rock pecou pela indelicadeza/falta de respeito (não violou os direitos de ninguém, nem as regras da festa, mas fez uma piada de mau gosto — ainda mais se ele já sabia da condição de Jada).

P.S.: O mais curioso de tudo é que vi pessoas defendendo o tapa de Will Smith aqui no Brasil usando argumentos tanto de "direita" quanto de "esquerda". Uns dizendo que foi certo o tapa, pois "homem que é homem" protege a esposa, não deixa a Família ser insultada; outros dizendo que foi certo o tapa, pois Jada estava numa posição de vítima, de mulher negra vulnerável, oprimida. Os dois lados se unindo na ideia de que é aceitável usar força física como resposta a ataques verbais, a não-crimes — algo que se reflete em debates políticos mais amplos.

domingo, 27 de março de 2022

Red: Crescer é uma Fera

Achei bem simpática essa animação da Disney/Pixar que foi direto pro streaming (apesar do tom despretensioso de Sessão da Tarde, tinha nível pra passar nos cinemas), que se destaca principalmente pelo humor mais espirituoso que de costume. Nem tudo me agradou: ainda temos os temas "socialmente relevantes" sendo usados pra validar a história (o panda vermelho é uma espécie de metáfora pra puberdade feminina), além dos anti-heróis no centro da trama (o maldito sorriso invertido logo na capa) — mas como estamos falando de uma comédia, não de uma aventura bem-humorada (mas essencialmente dramática) tipo Onward / Luca, o aspecto "loser" dos personagens não me incomodou pois não é romantizado — as meninas e o panda existem pra provocar risadas na plateia na maior parte do tempo, e o resultado é divertido. A parte musical também é boa, e as canções do grupo 4*TOWN (compostas pela Billie Eilish e o irmão) são grudentas e convencem como hits de boy bands.

Turning Red / 2022 / Domee Shi

Nível de Satisfação: 6

Categoria B: Idealismo com pouca ambição, e com alguns toques de Não Idealismo (motivação educacional, etc.).

Filmes Parecidos: Encanto (2021) / O Touro Ferdinando (2017) / Meu Malvado Favorito (2010) / Monstros S.A. (2001)

quinta-feira, 24 de março de 2022

The Last Floor

Música nova..! E com alguns easter eggs pra quem conhece meu lado cinéfilo! Rs. 

quinta-feira, 3 de março de 2022

Batman

A impressão é que a única questão na mente dos produtores neste filme era "Como parecer respeitável?". Eles sabem que os fãs entram na sala já querendo amar tudo e dar nota 10, portanto não existe a necessidade básica de elaborar uma boa história, pensar em como estimular e envolver o público (eles não precisam ganhar pontos, como filmes normais, só não querem perder os que já têm garantidos) — então todos os princípios e técnicas que discuto aqui no blog vão por água abaixo. E como é que eles conseguem "parecer respeitáveis"? Simples: colocando uma espécie de filtro sobre o filme todo, que deixa tudo escuro, chuvoso, com uma trilha tenebrosa, e faz os atores falarem num tom grave, dramático, independentemente do contexto — se Batman parasse no drive-thru de um McDonald's pra pedir um lanche, tanto ele quanto a funcionária estariam na penumbra falando desse jeito anti-natural. É o que falo no texto Pseudo-Sofisticação (a analogia do garoto fumante). Filmes que de fato são densos e sérios não precisam fazer esse teatro todo. Pois a seriedade é fundada no conteúdo. Se você assiste a O Poderoso Chefão, até as cenas mais pesadas do filme têm mais sentimento e naturalidade do que as de Batman, que é totalmente árido e forçado. Batman é um filme vazio em ideias, conteúdo, inteligência... É apenas uma reciclagem de dezenas de outras produções que vimos antes. Portanto, a única forma dele parecer um filme imponente é através do tom, do estilo. É um filme que funciona muito bem pra quem senta na poltrona e se conecta apenas com a aparência das coisas: quer saber se Pattinson ficou com um visual cool, se a estética do filme está dentro do que é considerado legal no momento, se é fiel aos quadrinhos. Mas se você se conecta com uma história através do conteúdo: do que acontece, dos valores em jogo, dos personagens, das ideias, o filme não tem nada pra você. Até porque mal somos apresentados ao protagonista. Apesar de não ser uma sequência, e o título sugerir um reboot ou uma história stand-alone, Bruce Wayne é jogado na tela sem grandes introduções e já parte pra missão da vez, como se fosse uma série já na segunda temporada... Não há um cuidado em apresentá-lo, mostrar seus atuais dramas e desejos, então vira um típico "filme de serviço". Existem mistérios, traições, perigos na história, mas o que o espectador vê 90% do tempo são personagens conversando sobre uma trama vaga que está ocorrendo em outro lugar, falando sobre personagens secundários que mal conhecemos — e não vendo a trama de fato se desenrolar diante de seus olhos. Nada do que acontece tem grande impacto emocional. E o filme parece propositalmente evitar coisas muito dramáticas, grandiosas. O mundo não parece correr um grande perigo, o vilão fica em segundo plano, os próprios gadgets do Batman estão mais discretos que no passado (tecnologias, carros, motos, etc), SPOILERS — o "grand finale" é uma sequência de ação bem capenga onde Batman apenas solta umas pessoas presas numas ferragens em um ginásio alagado. Os filmes de Nolan, embora sérios e sombrios, pelo menos buscavam espetáculo, grandiosidade. Aqui é tudo mais contido, reprimido, realista... Batman não luta grandes batalhas, não derrota o vilão definitivamente (aliás quase nenhum bandido morre o filme todo; punir o mal virou politicamente incorreto), não vive o romance com a mocinha (em vez de suicídio, o auto-sacrifício desta vez tem ares celibatários). Não há nada de terrível ou de tão incômodo no filme (além do tempo de duração), mas também não há nada de bom. É apenas um grande nada, algo que nem me parece um filme; porém um nada "respeitável".

OBS: se eu fosse atualizar a lista das 10 Tendências Irritantes do cinema, eu acrescentaria agora essa moda de traduzir textos para o português já na imagem em si, em vez de colocar legendas (textos que aparecem em celulares, telas, até mesmo o título do filme no início). Em Batman eles foram além, e traduziram até um texto pichado no chão em uma cena! Qual a lógica por trás disso (exceto a do exibicionismo tecnológico)? Daqui a pouco vão começar a substituir digitalmente dólares por cédulas de Real nas cenas... e quando surgir um noticiário na TV, veremos o William Bonner inserido digitalmente para que o espectador daqui "entenda" melhor.

The Batman / 2022 / Matt Reeves

Nível de Satisfação: 2

Categoria C: Idealismo Corrompido (Pseudo-Sofisticação; tom sombrio / Emoções Irracionais)

Filmes Parecidos: Liga da Justiça de Zack Snyder (2021) / Batman vs Superman: A Origem da Justiça (2016) / Coringa (2019)

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Licorice Pizza

Novo de Paul Thomas Anderson (Magnólia / Boogie Nights), indicado aos Oscars de Melhor Filme, Direção e Roteiro Original, que se passa nos anos 70 e acompanha 2 jovens que se conhecem no colégio e passam por uma série de experiências pessoais e profissionais enquanto decidem se são um casal ou apenas bons amigos. A Califórnia dos anos 70 pode ser vista como um dos protagonistas do filme, que apesar de não ser autobiográfico, é claramente um projeto movido por nostalgia, onde Anderson recria inúmeros aspectos do universo onde cresceu, escalando amigos do meio artístico e familiares para papéis coadjuvantes (parece que desde Roma se tornou moda diretores famosos fazerem filmes de nostalgia pessoal — além de Belfast, de Kenneth Branagh, o próximo de Spielberg, The Fabelmans, também será baseado em sua infância). O grande problema de Licorice Pizza é a falta de história... Depois da primeira hora, o roteiro começa a se perder em uma série de sketches aleatórios que fogem demais da narrativa central, se tornando um pouco arrastado. Mas Anderson é sempre tão original, talentoso e imprevisível, que mesmo suas divagações são cheias de riquezas. Não é um filme pra todos os gostos, mas fãs de cinema e pessoas saudosistas em relação à época terão bastante pra aproveitar.

Licorice Pizza / 2021 / Paul Thomas Anderson

Nível de Satisfação: 6

Categoria A/D: Idealismo tombando pro Naturalismo e pro cinema de autor

Filmes Parecidos: Era uma Vez em Hollywood (2019) / Belfast (2021) / A Primeira Noite de um Homem (1967) / American Graffiti (1973)

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Flee

Primeiro caso de um filme indicado simultaneamente aos Oscars de Melhor Filme Internacional (Dinamarca), Melhor Animação e Melhor Documentário. Conta a história verídica de um refugiado do Afeganistão vivendo na Dinamarca, que depois de adulto resolve contar pela primeira vez as experiências traumáticas que viveu na juventude tentando escapar de seu país. É um filme tipicamente Naturalista, cujo propósito é conscientizar e sensibilizar o público em relação ao drama dos refugiados na Europa (e que dá um jeito de discutir questões LGBT também, pois o protagonista cresceu gay em uma cultura bastante opressora). Como muitos sabem, não sou um grande fã de filmes cuja função principal é social/política, mas este pelo menos consegue fazer um retrato tocante da situação; os personagens transmitem dignidade, e a narrativa tem um tom afetuoso, não de militância agressiva (o fato de Amin ter uma cultura um tanto americanizada — ter um crush no Van Damme, escutar A-ha, Roxette — talvez ajude a criar uma ponte com espectadores ocidentais, que costumam ter dificuldade de se identificar com povos islâmicos).

Flee / 2021 / Jonas Poher Rasmussen

Nível de Satisfação: 6

Categoria D: Naturalismo (função social)

Filmes Parecidos: Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016) / Cafarnaum (2018)

domingo, 13 de fevereiro de 2022

Moonfall: Ameaça Lunar

Filme-catástrofe dirigido pelo rei do gênero Roland Emmerich (Independence Day / Godzilla) que não dá pra dizer que é bom, mas que é do tipo de filme ruim que ainda assisto com prazer, pois os erros que ele comete não são erros típicos do cinema dos anos 2020, e sim erros daqueles que víamos nos filmes B dos anos 90, que eram mais inocentes. Um dos problemas aqui (além do ritmo apressado e do excesso de informações por minuto, que deixa tudo com uma superficialidade de trailer), é que o próprio conceito do desastre é confuso (SPOILERS): a lua estar "caindo" na Terra já seria um evento grandioso o bastante pra um filme inteiro, só que fora isso, ainda temos que processar uma série de outras revelações igualmente fantásticas, como o fato da lua ser uma estrutura artificial, e estarmos no meio de uma guerra intergaláctica. O filme não consegue lidar com a mistura de gêneros e apresentar tudo isso de forma convincente, e cai no ridículo principalmente na segunda metade, que diverte mais pelas risadas involuntárias do que pelo espetáculo em si.

Moonfall / 2022 / Roland Emmerich

Nível de Satisfação: 5

Categoria B: Idealismo sem inteligência

Filmes parecidos: Terremoto: A Falha de San Andreas (2015) / O Dia Depois de Amanhã (2004)

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Mães Paralelas

Novo do Almodóvar que não foi a escolha da Espanha pra concorrer à vaga ao Oscar de Filme Internacional — decisão equivocada, pois o filme acabou sendo indicado "por fora" mesmo assim, nas categorias de Melhor Trilha Sonora e Melhor Atriz pra Penélope Cruz, e ficou sem a indicação principal que era quase garantida. A história fala sobre duas mulheres que dão à luz no mesmo dia, no mesmo hospital, e desenvolvem uma relação próxima nos meses seguintes. Ao contrário do que parece, o roteiro não se sustenta apenas com base em diálogos e desenvolvimento de personagem: há uma trama novelesca, porém bastante envolvente, que gera suspense logo cedo, e dá ao filme um gancho narrativo sólido, com direito até a plot twists. Achei curioso observar no filme como Almodóvar é ao mesmo tempo profundamente progressista (em sua visão desconstruída do amor e do sexo), e profundamente conservador por outro lado, pela sua enorme preocupação com laços familiares, tradições, um certo nacionalismo etc. Talvez este seja um dos segredos de sua popularidade. Na última década estava sentindo ele um pouco fora de seu elemento — Dor e Glória foi bom, mas não era tão feminino quanto de costume e tinha um tom mais sombrio; e Julieta e Os Amantes Passageiros foram filmes que simplesmente não funcionaram tão bem — então Mães Paralelas traz aquela sensação boa de estarmos vendo o "verdadeiro" Almodóvar, de volta ao universo onde ele brilha mais.

Madres Paralelas / 2021 / Pedro Almodóvar

Nível de Satisfação: 7

Categoria A/D: Idealismo misturado temas e estéticas Naturalistas

Filmes Parecidos: Abraços Partidos (2009) / Volver (2006) / Fale com Ela (1999) / Vicky Cristina Barcelona (2008) / Blue Jasmine (2013)

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Cultura - Fevereiro 2022

8/2: Foram anunciados agora os indicados ao Oscar 2022. Vou listá-los abaixo com meus "níveis de satisfação":

Belfast - 7
Drive My Car - 4
Duna - 7

Não tenho grandes favoritos, mas a boa notícia é que o clima está menos tenebroso do que no ano passado, onde vários dos filmes tinham agendas políticas explícitas e um tom mais pesado. Talvez seja o fim da pandemia se aproximando, mas nos últimos meses deu pra sentir que a cultura anda menos raivosa, querendo se distanciar das polêmicas, dos embates constantes. Vamos ver se é uma guinada mesmo ou apenas uma trégua.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Spencer

Pablo Larraín basicamente fez outro Jackie (2016), só que agora com a Princesa Diana; Spencer também não tem muita história (começa já com o bonde andando e termina sem conclusão) e tem um estilo de direção pretensioso que se sobrepõe ao conteúdo (enquadramentos à la Kubrick, música dissonante, etc.). Ironicamente, o filme pretende criticar aqueles que trataram Diana como objeto, como produto, e não se preocupavam com sua individualidade, mas o filme em si também não tem grande interesse no universo interno de Diana, e existe principalmente pra explorar seu estilo, beleza, reproduzir seus looks icônicos, etc. Ele não diz nada relevante sobre ela, além de expor que ela sofria na família Real por se sentir restringida, o que não é novidade pra ninguém. E nem isso ele consegue dramatizar direito. É tudo sugerido vagamente, como se o espectador já tivesse que entrar na sala conhecendo sua biografia. Kristen Stewart passa o filme todo com cara de angústia, sofrendo terrivelmente por ter que colocar um vestido, ficar linda, e ir a um banquete — não é mostrado um real abuso da parte da família Real, nem mesmo dos paparazzis. O filme a faz parecer uma chata, alguém que gosta de se fazer de vítima (está mais pra Elsa que pra Cinderela). Em vez de trazer conteúdo psicológico real, dados biográficos interessantes, o filme fica na superfície e tenta parecer profundo romantizando sofrimento e subvertendo a imagem de Diana — fazendo a doçura e inocência que marcavam sua persona parecerem uma farsa; como se na prática ela fosse uma pessoa niilista, dark, uma esquisitona, que está sempre falando palavrões, fazendo coisas destrutivas. É uma desconstrução gratuita da imagem de Diana, que reflete a relação estranha que as pessoas têm com os ricos e poderosos: por um lado querem saber tudo sobre eles, como se vestem, como vivem, mas ao mesmo tempo, precisam rebaixá-los e expor seus podres pra não se sentirem por baixo. Se Diana estivesse viva, o filme só a faria se sentir mais usada.

Spencer / 2021 / Pablo Larraín

Nível de Satisfação: 4

Categoria C: Valores negativos (Pseudo-sofisticação / toques de Anti-Idealismo)

Filmes Parecidos: Jackie (2016) / Grace de Mônaco (2014) / A Dama de Ferro (2011) / Cisne Negro (2010) / Maria Antonieta (2006)