sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Sorria | Crítica

Sorria 2022 crítica poster
Um dos filmes de terror mais assustadores do ano. Conta a história de uma terapeuta que, após testemunhar o suicídio de uma paciente, recebe uma maldição em corrente no estilo It Follows, e passa a ser atormentada por uma força maligna que se manifesta na imagem de pessoas sorrindo. 

Costumo reclamar sempre dessas tramas psicológicas focadas na "cura emocional", mas a vantagem aqui é que, embora muitas das visões da personagem pareçam existir apenas na cabeça dela, a gente não sente que é tudo uma alucinação — as mortes do filme estão de fato acontecendo, mais ou menos como em A Hora do Pesadelo, o que impede a história de se tornar simbólica demais (embora o monstro aqui seja um tanto imaterial — algo típico do horror moderno, que resiste aos vilões personificados e icônicos dos anos 70/80).

Embora a trama seja interessante, ela não é das melhores em termos de "regras" e explicações para o fenômeno, o que se torna um pouco frustrante no terceiro ato. Mas o filme é bem dirigido, bem fotografado, transmite mais inteligência que a média (as conversas sobre psicologia soam reais e embasadas) e em termos de mistério/medo/jump scares, achei bastante satisfatório (os trabalhos de som e trilha sonora merecem uma menção especial).

Smile / 2022 / Parker Finn

Satisfação: 7

Categoria: I-

Filmes Parecidos: O Telefone Preto (2022) / Corrente do Mal (2017)

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Não Se Preocupe, Querida | Crítica

Não Se Preocupe Querida crítica poster
Drama sobre uma dona de casa americana nos anos 50 (Florence Pugh) vivendo numa comunidade experimental, que começa a suspeitar que há algo de errado com a realidade ao seu redor, e que a empresa na qual seu marido (Harry Styles) trabalha pode estar por trás de tudo.

Há um meme de Twitter que diz: "Imagina se eles fizessem um filme onde há uma cidadezinha suburbana que parece perfeita na superfície, mas daí descobrimos que há um segredo obscuro por trás!". A graça, pra quem não entendeu, é que a ideia é tão clichê que apenas um lunático pensaria ter dito algo interessante. Mas os roteiristas de Não Se Preocupe, Querida parecem ser exatamente essa pessoa.

Em vez de apresentar um conceito realmente criativo (como O Show de Truman), um mistério sólido, o filme fica apenas na superfície, repetindo cena após cena a mesma ideia de que a comunidade parece perfeita, mas "algo" sinistro se esconde por trás — sem se aprofundar nos personagens, sem ter uma crítica real ao American Way of Life. É o tipo de filme "interpretativo" que pra esconder a própria superficialidade e soar inteligente, deixa tudo vago, subjetivo, esperando que a substância venha toda das entrelinhas, não do que ele de fato apresentou.

Don't Worry Darling / 2022 / Olivia Wilde

Satisfação: 4

Categoria: IC

Filmes Parecidos: Corra! (2017) / Mãe! (2017) / Boa Noite, Mamãe! (2022) / Mulheres Perfeitas (2004) / Men (2022) / Foi Apenas um Sonho (2008) / A Origem (2010) / O Show de Truman (1998)

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

A Mulher Rei | Crítica

Quando soube que Viola Davis (com cinquenta e tantos anos) interpretaria uma guerreira africana num filme de ação intitulado A Mulher Rei, tive sérias dúvidas quanto ao projeto; parecia daquelas coisas com potencial pra ser uma grande bomba e manchar uma carreira tão digna quanto a de Viola. Ao mesmo tempo, se funcionasse, o filme poderia elevá-la a um outro nível de estrelato, e é exatamente isso que acontece — já na primeira cena, quando Nanisca (Viola) emerge lentamente do matagal com seu olhar ameaçador, sabemos que ela acertou em cheio e está no completo domínio do personagem, mesmo num papel tão improvável.

Antes da entrada de Viola eu já estava simpatizando com o filme — a teatralidade e o clima de fábula da narração inicial eliminaram minha maior preocupação, que era a do filme ser uma dessas produções raivosas de hoje que estão mais preocupadas em dar lição de moral no público do que em criar espetáculo.

O filme gira em torno das Agojie, guerreiras da África Ocidental que lutam (no filme, pelo menos) contra colonizadores e traficantes de escravos no século 19. A trama foca na relação entre a general Nanisca e uma jovem chamada Nawi (Thuso Mbedu, numa performance quase tão fenomenal quanto a de Viola), que foi deserdada pelo pai e entregue ao exército. A história é basicamente sobre a evolução da garota Nawi como guerreira, o estreitamento de seu laço com Nanisca, e o arco emocional da própria Nanisca, que tem um passado traumático e feridas emocionais que vêm à tona com a chegada de Nawi.

O filme mantém um equilíbrio excelente entre ação e profundidade emocional/desenvolvimento de personagem. E "equilíbrio" talvez nem seja o termo certo, pois o acerto aqui não tem nada a ver com ritmo ou com a frequência desses tipos de cenas, e sim como o fato delas estarem integradas: da ação (muito bem coreografada, por sinal) estar sempre conectada a personagens fortes e a um drama central interessante.

Quanto à imprecisão histórica, não é algo que vejo como problema. O filme tem um tom mitológico claro desde o começo, e é bem diferente de produções que se apresentam como relatos históricos sérios, com uma finalidade didática. Pra mim, o importante é que a história envolva, divirta, e tenha valores positivos — não que ela seja fiel a fatos jornalísticos ou que defenda certos símbolos/bandeiras. Embora superficialmente o filme pareça atacar o homem "civilizado", na realidade ele promove todos os valores iluministas que são a essência da cultura ocidental. Se você for ver, o filme se passa num mundo que respeita razão, liberdade, progresso, felicidade individual: reparem como no primeiro dia de treinamento, Viola deixa claro que as guerreiras podem ir embora se quiserem, que não se trata de um regime opressor. Em cenas onde a menina Nawi e outros personagens se rebelam contra as tradições e regras do reino (como o garotinho que espia as Agojie passando na rua), este ímpeto individualista/racional é usado pra torná-los mais carismáticos na história (é tipo o Maverick quando vai contra as normas da marinha e se prova mais eficaz). Viola é mostrada como empreendedora; incentiva a produção de óleo de dendê na região para que o reino possa se sustentar economicamente sem o tráfico de escravos (ao contrário do que alguns dizem, o filme reconhece sim que o Reino de Daomé traficava escravos — aliás, acho que é a primeira vez que vejo um filme mostrar que negros também capturavam escravos na África). Há muita fantasia, claro, mas isso não compromete o filme enquanto arte/entretenimento, da mesma forma que o fato de leões não cantarem não compromete O Rei Leão. O filme evita também uma visão tribal/racista do conflito — não é desses filmes onde 100% dos homens são maus, e 100% das mulheres são boas, onde caráter é definido por nacionalidade, etnia, sexo etc. Temos homens que são bons, outros que são maus; mulheres que são fortes, outras que são fracas (baseadas em suas próprias escolhas); e o principal vilão nem é um colonizador, e sim um general africano. 

Ou seja, é uma história tradicional de bem vs. mal, focada nas virtudes das protagonistas (não na demonização do inimigo), com uma mensagem positiva, e o filme tem ótimas qualidades de produção, grandes performances da dupla central, com Viola Davis apresentando uma das heroínas mais icônicas do cinema recente.

The Woman King / 2022 / Gina Prince-Bythewood

Satisfação: 8

Categoria: I

Filmes Parecidos: Gladiador (2000) / Mulher-Maravilha (2017) / As Viúvas (2018)

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Moonage Daydream | Crítica

Documentário de Brett Morgen sobre David Bowie que vem sendo aclamado por público e crítica, e inclui imagens inéditas, além de ser o único documentário endossado pelo espólio de Bowie. O filme tem um ar experimental, não muito jornalístico; o único senso de estrutura vem da cronologia, mas o conteúdo está mais pra uma colagem abstrata de imagens, performances musicais, com a voz de Bowie ao fundo filosofando sobre a vida e sobre sua carreira. Eu nunca fui particularmente fã de Bowie, mas o respeito como estilista, artista visual, e admiro seu senso de individualidade. Em geral, o que me distancia do rock enquanto gênero é a agressividade, o apelo à malevolência, mas Bowie não era particularmente desagradável nesse sentido — ele expressava primeiramente uma obsessão pelo diferente, pelo estranho (socialmente), e pelo não-objetivo (intelectualmente). É aí que às vezes vejo aquela combinação de ingenuidade e pretensão que discuto no texto Pseudo-Sofisticação — pra ele, a genialidade e as grandes respostas da vida estavam todas além deste plano, no campo do irracional, e sua vida parece ter sido uma eterna busca por esse tipo impossível de transcendência, o que dá um caráter meio vazio e melancólico pras suas indagações. 

O momento que mais gostei do documentário foi o do final dos anos 70, começo dos anos 80, quando ele lança músicas como Heroes, Modern Love e Let's Dance (Heroes foi lançada em 1977, num período emblemático para o Idealismo e para os heróis no entretenimento). Claro que para alguns críticos, nessa fase ele estava se "vendendo", cedendo ao comercialismo americano (o próprio Bowie se refere a algumas composições desta época como menores, por serem "óbvias" e reforçarem sentimentos positivos). Não acho que ele foi inautêntico, mas é interessante pensar até que ponto Bowie tinha uma visão artística sólida, inabalável, e até que ponto ele era apenas um camaleão, se transformado de acordo com as tendências de cada época (como a maioria dos músicos), e mantendo apenas a essência da sua persona: nos anos 60 ele tinha uma vibe meio Beatles, nos anos 70 ficou psicodélico e subversivo como muitos, nos anos 80 ficou dançante e alegre — todos esses estilos eram o que atraíam os jovens de cada momento; o fato da fase "alegre" ser a única vista como comercial/menos autêntica revela apenas um bias Anti-Idealista comum na cultura.

Moonage Daydream / 2022 / Brett Morgen

Satisfação: 6

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

Boa Noite, Mamãe! | Crítica

Minha crítica do filme original de 2014 já resume bem minha opinião sobre este remake americano desnecessário, estrelando a Naomi Watts. O filme mostra dois garotos gêmeos chegando numa casa de campo pra ficar com a mãe, mas se deparando com uma figura bem diferente da mãe que eles lembravam; não só em comportamento, mas também por ela estar com o rosto todo enfaixado após uma cirurgia plástica. A partir daí, uma série de eventos estranhos começam a ocorrer.

SPOILERS: O problema do filme é que ele só faz algum sentido se você já sabe do final e está acompanhando a narrativa só pra ver como o cineasta despista a plateia cena após cena pra não entregar a surpresa. Pra quem pega a história desinformado, é uma narrativa monótona, inconvincente, e o suspense em torno da mãe não faz sentido algum. E não só a surpresa é mal guardada (eu, que não sou bom de ficar adivinhando reviravoltas, sempre achei óbvio que a mãe nunca se dirige a um dos irmãos), como o filme continua chato mesmo quando você já sabe do fim. Não há nada de brilhante ou original na forma como o filme lida com o irmão (ainda mais no remake), e também não é como O Sexto Sentido, que tem uma boa trama de terror, personagens cativantes, falas icônicas, vários momentos de tensão (onde você realmente acredita que aquilo está acontecendo), e o final surpresa é apenas a cereja do bolo. Aqui falta o bolo; falta a história em si ser interessante, ter conteúdo, gerar envolvimento. Se acreditássemos que a mãe fosse de fato uma impostora ou estivesse possuída por algum demônio, o filme teria uma situação mais sólida. Mas fica claro que ela não é nada disso, e que toda a história é "simbólica", um terror "psicológico" desses que estão na moda, onde nada precisa ser convincente, ninguém precisa agir de maneira plausível, pois tudo é apenas uma representação de um trauma. (Pra entender o que há de errado com esse tipo de abordagem, recomendo meu post Simbolismo e Filmes Interpretativos.) O filme apenas finge se interessar por psicologia, por temas complexos, mas seu interesse mesmo está apenas no gimmick e nos plot-twists que a psicologia barata oferece pra esse tipo de história.

Goodnight Mommy / 2022 / Matt Sobel

Satisfação: 3

Categoria: IC

Filmes Parecidos: Men (2022) / Você Deveria Ter Partido (2020) / O Chalé (2019) / Hereditário (2018)

sábado, 17 de setembro de 2022

Quebrando Mitos | Crítica

Documentário de Fernando Grostein Andrade (Quebrando o Tabu) que faz uma análise crítica de Bolsonaro e da direita atual sob o ponto de vista da masculinidade tóxica (ou "masculinidade catastrófica") — mostrando como ela seria responsável por muitos dos males do "capitalismo", desde a homofobia à destruição do meio-ambiente (Fernando, que é irmão do Luciano Huck, é gay e cresceu numa família rica onde o pai era o editor da Playboy no Brasil — ou seja, nem dá pra culpá-lo muito por ter feito uma associação entre capitalismo e masculinidade tóxica nesse contexto).

As mensagens anti-preconceito e anti-violência do documentário são válidas, e o filme não é tão raivoso e desonesto quanto alguns do gênero. Mas é equivocado quanto ao que é capitalismo, tem uma visão inconsistente e pouco profunda da política, reforçando apenas as crenças básicas da esquerda mainstream. Ele até tenta buscar uma postura equilibrada, menos extremista, mas não aponta soluções para nenhuma questão importante, sem as quais é impossível promover um real equilíbrio. Por exemplo: No fim do documentário, ele diz que direitos humanos não precisam ser inimigos do crescimento econômico. Ótimo! Concordo com ele. Por que então ele não é libertário ou algo do tipo? Assim ele poderia se dizer a favor das duas coisas. Mas as palavras soam vazias, pois durante o filme todo, ele sugeriu ser contra o livre-mercado, contra o impacto ambiental, retrata empreendedores, investidores, grandes empresas, arranha-céus, lucro, riqueza, como coisas nocivas, como se o progresso e a masculinidade tóxica fossem inseparáveis. Ele não consegue imaginar riqueza como fruto de inteligência, virtude, de pessoas promovendo suas vidas e felicidades naturalmente — há sempre algo freudiano e doentio por trás. E se ele deseja restringir todas essas coisas, de onde ele acha que virá o crescimento econômico?

Não fica clara também a ligação entre a personalidade e as falas preconceituosas de Bolsonaro, e a violência real que se vê no país, as reais políticas implementadas nos últimos anos. Houve um aumento de crimes contra minorias após a vitória de Bolsonaro em 2018? Leis que liberaram a crueldade? Essa é a impressão que o documentário passa — que votar em Bolsonaro é o mesmo que votar por mais violência nas ruas. Mas ao mesmo tempo, ele usa vídeos de Marielle em 2017 lutando contra os mesmos problemas que existem hoje. Não seria então uma questão mais ampla, que não poderia ser atribuída ao presidente? (É o que discuto no post Por que temo mais os "ditadores da matéria" que os "ditadores do espírito".)

Não sou expert na situação ambiental da Amazônia, mas essa é outra daquelas pautas que sempre me parecem amplamente exageradas pra servir de alavanca política. O filme mostra queimadas na Amazônia como se ela estivesse sendo devastada atualmente. Mas só como exercício, sem querer provar qualquer coisa, entre neste link do Google Earth e veja a floresta Amazônica do espaço em fotos tiradas em 2022. No estado do Amazonas (uma área tão vasta que é difícil de conceber) é raro você ver áreas que não pareçam tingidas de verde escuro. E quando você dá o zoom até enxergar as copas das árvores, você vê que isso não é uma ilusão de óptica. Tenho certeza que coisas destrutivas devem estar ocorrendo lá, mas o recorte que esse tipo de documentário faz não parece ter qualquer senso de proporção (imagine alguém te dizer que estão inundando o Saara, ou acabando com a areia em certas áreas do deserto, mas a imagem que se vê do alto é esta ao lado). Da mesma forma, ele nunca coloca na balança os supostos males do capitalismo (que não podem incluir estupro, genocídio e coisas que nada têm a ver com o sistema) com o enorme benefício que ele trouxe pra humanidade nos últimos dois séculos, na medida em que foi praticado.

Quebrando Mitos / 2022 / Fernando Grostein Andrade

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

O Alfaiate | Crítica

Suspense sobre um alfaiate (ou "cortador", interpretado por Mark Rylance) em Chicago, nos anos 50, que tem mafiosos como seus principais clientes e em determinada noite acaba se vendo no meio de uma disputa perigosa entre gangues. O roteirista é Graham Moore, o mesmo de O Jogo da Imitação, que agora também assume o papel de diretor. O roteiro é a principal razão de se ver o filme, mas é dele também que vem seus pontos fracos. É daqueles suspenses que se passam em uma só locação, têm uma trama cheia de reviravoltas, surpresas, onde cada personagem está sempre um passo à frente do outro, e todos estão diversos passos à frente do espectador — como se o filme fosse um grande tabuleiro de xadrez armado pro diretor derrotar a plateia no final. Eu não sou muito fã desse tipo de história, nem mesmo quando o jogo é limpo. Mas quando os personagens começam a agir de forma artificial, têm poderes mentais tipo Sherlock Holmes, e as reviravoltas são muito improváveis, isso pra mim se torna tão "divertido" quanto perder no xadrez pra um oponente que pode pegar um peão e pular várias casas, fazer a torre andar na diagonal, etc. Ainda assim, é raro ver histórias com esse nível de atenção à trama, com bons diálogos, e que não sejam adaptações de peças ou livros, então ainda dou crédito ao filme.

Alguns "chamber dramas" famosos envolvem personagens que são escritores, e um paralelo costuma ser traçado entre a engenhosidade do escritor e a engenhosidade do filme em si. Aqui, como o personagem é um alfaiate, uma comparação parecida é feita, mas entre a trama e os ternos super bem cortados e bem costurados do protagonista. Concordo que, no caso do roteiro, as partes parecem amarradas com capricho, que há um senso de coesão, de harmonia interna — só não sei se a peça final serviu tão bem no cliente.

The Outfit / 2022 / Graham Moore

Satisfação: 6

Categoria: I-

Filmes Parecidos: O Jogo da Imitação (2014) / Ponte dos Espiões (2015) / Festim Diabólico (1948) / Armadilha Mortal (1982)

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

A Fera | Crítica

Thriller de sobrevivência onde um homem (Idris Elba) e suas duas filhas se veem caçados por um leão fora de controle durante um tour por uma reserva na África. É uma espécie de Jurassic Park mais realista — referência que é confirmada pelo fato de uma das filhas usar uma camiseta do Jurassic. O filme até que começa bem... Há a tradicional cena de morte no prólogo pra criar um ar mítico pra criatura; temos as vítimas iniciais que são encontradas em choque e mal conseguem descrever o que houve, ficam apenas balbuciando palavras apocalípticas. A intenção é divertida, porém conforme a trama avança, o filme começa a se tornar cada vez mais forçado: os personagens vão se colocando em situações desnecessárias de risco, fazem coisas estúpidas, todos os rádios, telefones e carros pifam sem boas justificativas etc. E sem falar que há ênfase demais no drama familiar — em vez da situação se tornar uma oportunidade pra aventura, experiências inesquecíveis, ações admiráveis, ela acaba virando uma oportunidade pra família ter DRs, lavar roupa suja, resolver traumas do passado, etc. E não é como em Fall (2022), onde o trauma do passado tem uma relação direta com o perigo sendo enfrentado. Aqui é apenas um drama qualquer inventado pra dar "profundidade" à história, mas que nada tem a ver com o confronto com o leão (acho que nem os críticos mais criativos vão ousar dizer que a Fera é uma metáfora para o luto). 

Beast / 2022 / Baltasar Kormákur

Satisfação: 4

Categoria: I- / IC

Filmes Parecidos: Medo Profundo (2017) / Águas Rasas (2016) / A Perseguição (2011)

Livro: Unique Ability

Livro com ótimos insights, que parte do princípio de que cada indivíduo tem uma combinação única de habilidades, aptidões e paixões que, se identificados e colocados em prática numa certa estrutura, podem gerar grande valor para o mundo e levar a uma vida mais satisfatória... Que muitas das frustrações e dificuldades que encontramos na vida vêm do fato de não estarmos alinhados com nossas Habilidades Únicas e de não estarmos administrando bem nossos recursos (e os recursos das pessoas à nossa volta). Às vezes resistimos às nossas Habilidades Únicas por um senso de culpa, por termos aprendido que elas não têm verdadeiro mérito, não são úteis, ou por estarmos preocupados demais em fortalecer nossas fraquezas. Às vezes insistimos em atividades onde somos competentes, mas que na prática drenam nossa energia e não ampliam nossas oportunidades. O livro distingue atividades em que temos uma Habilidade Única de atividades onde somos Excelentes, Competentes ou Incompetentes, e mostra os benefícios de focarmos apenas em nossas Habilidades Únicas, e de delegarmos/evitarmos todo o resto — ele sugere que até as atividades em que somos Excelentes não devem consumir muito do nosso tempo, pois apesar de sermos eficazes nelas, elas não nos dão energia e não envolvem a mesma satisfação e resultados das Habilidades Únicas. Habilidades Únicas são aquelas que parecem ter vindo "de fábrica", que geram bons resultados com consistência, criam mais energia do que consomem, que outras pessoas reconhecem em nós e sentem que podem contar conosco para exercê-las. É um conceito atraente, mas que pode ser desafiador ao mesmo tempo, pois pode exigir uma reestruturação de nossas rotinas, prioridades, abrir mão de velhos objetivos, etc.

Lendo livros sobre este tópico (os da Barbara Sher eu também gosto muito, como o I Could do Anything - If I Only Knew What it Was) já aprendi algumas coisas. Ainda não tenho uma formulação precisa da minha Habilidade Única, mas pelo menos os erros mais grosseiros que cometi no passado eu já consigo evitar melhor. Por exemplo: por gostar de cinema, muitas vezes surgem pra mim oportunidades de produzir vídeos para outras pessoas — fotografar, editar, operar câmera, ajudar em filmagens etc. São atividades que parecem estar próximas do meu universo, mas que quando vistas pelo prisma das Habilidades Únicas, não estão de fato. Acho útil ter uma compreensão geral dessas funções, mas nunca tive um real interesse (ou H.U.) na parte técnica/operacional do cinema; e confundir essas coisas já me fez questionar até meu interesse pelo lado do cinema que de fato gosto. Na música já foi ainda mais grave, pois em geral, quando estou envolvido em algum projeto musical, estou trabalhando mais pra superar minhas Incompetências do que pra potencializar minhas Habilidades Únicas, o que é um processo desgastante (isso vale também pra qualquer coisa que envolva performance, falar em público, gravar vídeos para o YouTube, etc.). Como já me forcei a fazer diversos tipos de coisas e a praticar habilidades que não são realmente "de fábrica", decifrar essa "Habilidade Única" no meu caso parece ainda mais confuso que o normal. Mas acho que até uma compreensão básica deste conceito, e pequenos avanços na direção da estrutura de vida proposta pelo livro, já têm seus benefícios.

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

Pinóquio | Crítica

Mais um live-action decepcionante da Disney, que marca também mais um fracasso pra Robert Zemeckis no gênero família/fantasia. Zemeckis costuma lidar bem com temas adultos, com comédias sobre jovens rebeldes, mas nenhum de seus filmes que tentaram criar um senso de magia e inocência infantil funcionaram, e ele continua insistindo no tema. O grande problema de Pinóquio não é que a trama é mal estruturada, que a produção é ruim, que deturparam totalmente o espírito do clássico... É simplesmente a falta de tato de Zemeckis pra lidar com o material. Awkwardness ou esquisitice é o que destrói o filme; como se o conceito de "vale da estranheza" pudesse ir além de seu escopo habitual e provocar um incômodo sobre o filme como um todo. A intenção até que parecia boa, e tecnicamente o filme tem suas qualidades — a cada cena, Zemeckis tenta trazer algum toque especial, exercitar seu domínio sobre a imagem (embora haja alguns problemas de CGI que até eu, que não sou de obcecar por essas coisas, acabei notando). Mas num nível dramático, emocional, nada funciona: nem as cenas de magia (como a da aparição da fada), nem as tentativas de humor, nem as sequências musicais (há algumas canções novas péssimas, e até "When You Wish Upon a Star" conseguiram deixar feia), as cenas assustadoras do desenho de 1940 foram amenizadas e não causam grande impacto, a ambientação não atrai (o filme se passa num vilarejo charmoso da Itália no final do século 19, porém há uma série de toques modernos e referências à cultura pop atual que quebram constantemente a realidade do lugar). Mas o pior de tudo é que nem Pinóquio, nem Geppetto, nem o grilo e nem a fada são personagens carismáticos aqui, ou formam relacionamentos cativantes (por questões de design, atuação, dublagem, mas também de roteiro — quando Pinóquio diz pro Geppetto "Eu te amo também, pai" e eles se abraçam, não há 1 pixel da tela que pareça autêntico). Sim, algumas modificações feitas à trama foram infelizes (como o sumiço da fada após a primeira aparição, toques nonsense como a sequência de esqui barefoot, e o desfecho anticlimático, onde não temos o "dream come true" imaginado), mas o problema maior não é esse, pois mesmo que Zemeckis tivesse seguido à risca a narrativa do clássico, sua desconexão emocional com o material ainda o teria impedido de dar vida a esses personagens.

Pinocchio / 2022 / Robert Zemeckis

Satisfação: 3

Categoria: I-

Filmes Parecidos: Convenção das Bruxas (2020) / Dumbo (2019) / As Aventuras de Tintim (2011) / O Expresso Polar (2004) / Amor, Sublime Amor (2021)