Quando soube que Viola Davis (com cinquenta e tantos anos) interpretaria uma guerreira africana num filme de ação intitulado
A Mulher Rei, tive sérias dúvidas quanto ao projeto; parecia daquelas coisas com potencial pra ser uma grande bomba e manchar uma carreira tão digna quanto a de Viola. Ao mesmo tempo, se funcionasse, o filme poderia elevá-la a um outro nível de estrelato, e é exatamente isso que acontece — já na primeira cena, quando Nanisca (Viola) emerge lentamente do matagal com seu olhar ameaçador, sabemos que ela acertou em cheio e está no completo domínio do personagem, mesmo num papel tão improvável.
Antes da entrada de Viola eu já estava simpatizando com o filme — a teatralidade e o clima de fábula da narração inicial eliminaram minha maior preocupação, que era a do filme ser uma dessas produções raivosas de hoje que estão mais preocupadas em dar lição de moral no público do que em criar espetáculo.
O filme gira em torno das Agojie, guerreiras da África Ocidental que lutam (no filme, pelo menos) contra colonizadores e traficantes de escravos no século 19. A trama foca na relação entre a general Nanisca e uma jovem chamada Nawi (Thuso Mbedu, numa performance quase tão fenomenal quanto a de Viola), que foi deserdada pelo pai e entregue ao exército. A história é basicamente sobre a evolução da garota Nawi como guerreira, o estreitamento de seu laço com Nanisca, e o arco emocional da própria Nanisca, que tem um passado traumático e feridas emocionais que vêm à tona com a chegada de Nawi.
O filme mantém um equilíbrio excelente entre ação e profundidade emocional/desenvolvimento de personagem. E "equilíbrio" talvez nem seja o termo certo, pois o acerto aqui não tem nada a ver com ritmo ou com a frequência desses tipos de cenas, e sim como o fato delas estarem integradas: da ação (muito bem coreografada, por sinal) estar sempre conectada a personagens fortes e a um drama central interessante.
Quanto à imprecisão histórica, não é algo que vejo como problema. O filme tem um tom mitológico claro desde o começo, e é bem diferente de produções que se apresentam como relatos históricos sérios, com uma finalidade didática. Pra mim, o importante é que a história envolva, divirta, e tenha valores positivos — não que ela seja fiel a fatos jornalísticos ou que defenda certos símbolos/bandeiras. Embora superficialmente o filme pareça atacar o homem "civilizado", na realidade ele promove todos os valores iluministas que são a essência da cultura ocidental. Se você for ver, o filme se passa num mundo que respeita razão, liberdade, progresso, felicidade individual: reparem como no primeiro dia de treinamento, Viola deixa claro que as guerreiras podem ir embora se quiserem, que não se trata de um regime opressor. Em cenas onde a menina Nawi e outros personagens se rebelam contra as tradições e regras do reino (como o garotinho que espia as Agojie passando na rua), este ímpeto individualista/racional é usado pra torná-los mais carismáticos na história (é tipo o Maverick quando vai contra as normas da marinha e se prova mais eficaz). Viola é mostrada como empreendedora; incentiva a produção de óleo de dendê na região para que o reino possa se sustentar economicamente sem o tráfico de escravos (ao contrário do que alguns dizem, o filme reconhece sim que o Reino de Daomé traficava escravos — aliás, acho que é a primeira vez que vejo um filme mostrar que negros também capturavam escravos na África). Há muita fantasia, claro, mas isso não compromete o filme enquanto arte/entretenimento, da mesma forma que o fato de leões não cantarem não compromete O Rei Leão. O filme evita também uma visão tribal/racista do conflito — não é desses filmes onde 100% dos homens são maus, e 100% das mulheres são boas, onde caráter é definido por nacionalidade, etnia, sexo etc. Temos homens que são bons, outros que são maus; mulheres que são fortes, outras que são fracas (baseadas em suas próprias escolhas); e o principal vilão nem é um colonizador, e sim um general africano.
Ou seja, é uma história tradicional de bem vs. mal, focada nas virtudes das protagonistas (não na demonização do inimigo), com uma mensagem positiva, e o filme tem ótimas qualidades de produção, grandes performances da dupla central, com Viola Davis apresentando uma das heroínas mais icônicas do cinema recente.
The Woman King / 2022 / Gina Prince-Bythewood
Satisfação: 8
Categoria: I
Filmes Parecidos: Gladiador (2000) / Mulher-Maravilha (2017) / As Viúvas (2018)