Foi a primeira vez que pratiquei o famoso "binge-watching" e vi uma série inteira em um dia só. Estava esperando algo formulaico seguindo a linha Louca Obsessão, mas já nos 2 primeiros minutos, quando Donny oferece o chá de cortesia para Martha, eu me vi fisgado, pois percebi que a série estava inovando em cima da fórmula e trazendo uma discussão ética/psicológica que eu pessoalmente nunca tinha visto bem explorada antes — a relação problemática entre os "vampiros psíquicos" e os "empatas"; pessoas que sobrevivem com base no altruísmo dos outros e pessoas com uma tendência a sacrificar as próprias necessidades diante da vontade alheia. Há muitos filmes sobre stalkers e pessoas obsessivas, mas poucos que falam dos perigos desse tipo de auto-abnegação. Bebê Rena é praticamente um filme de terror pra quem tem dificuldade de dizer não e impor limites; a série combina o tipo de suspense presente em filmes como Louca Obsessão e Mulher Solteira Procura, com um "cautionary tale" (História Idealista #5) igualmente envolvente sobre um jovem artista que se afunda cada vez mais em problemas por conta de sua própria falta de auto-respeito e sua "síndrome de bom garoto". É uma das poucas minisséries que achei interessantes do começo ao fim, que não me deram a sensação de estar sendo enrolado com episódios e subtramas desnecessárias só para preencher o tempo. Alguns dos motivos são a duração relativamente curta da série, a sutileza e a autenticidade do texto do Richard Gadd, que baseou muita coisa em experiências pessoais, além também do fato do material ter sido testado e lapidado no palco antes de chegar à TV.quinta-feira, 2 de maio de 2024
Bebê Rena
Foi a primeira vez que pratiquei o famoso "binge-watching" e vi uma série inteira em um dia só. Estava esperando algo formulaico seguindo a linha Louca Obsessão, mas já nos 2 primeiros minutos, quando Donny oferece o chá de cortesia para Martha, eu me vi fisgado, pois percebi que a série estava inovando em cima da fórmula e trazendo uma discussão ética/psicológica que eu pessoalmente nunca tinha visto bem explorada antes — a relação problemática entre os "vampiros psíquicos" e os "empatas"; pessoas que sobrevivem com base no altruísmo dos outros e pessoas com uma tendência a sacrificar as próprias necessidades diante da vontade alheia. Há muitos filmes sobre stalkers e pessoas obsessivas, mas poucos que falam dos perigos desse tipo de auto-abnegação. Bebê Rena é praticamente um filme de terror pra quem tem dificuldade de dizer não e impor limites; a série combina o tipo de suspense presente em filmes como Louca Obsessão e Mulher Solteira Procura, com um "cautionary tale" (História Idealista #5) igualmente envolvente sobre um jovem artista que se afunda cada vez mais em problemas por conta de sua própria falta de auto-respeito e sua "síndrome de bom garoto". É uma das poucas minisséries que achei interessantes do começo ao fim, que não me deram a sensação de estar sendo enrolado com episódios e subtramas desnecessárias só para preencher o tempo. Alguns dos motivos são a duração relativamente curta da série, a sutileza e a autenticidade do texto do Richard Gadd, que baseou muita coisa em experiências pessoais, além também do fato do material ter sido testado e lapidado no palco antes de chegar à TV.segunda-feira, 29 de abril de 2024
Rivais
- SPOILERS: O homoerotismo às vezes beira a paródia. Há aquela teoria na internet que Top Gun (1986) seria uma história gay, que dá toda uma leitura alternativa pras cenas de vestiário etc. É como se o Luca Guadagnino tivesse ouvido essa teoria e pensado: que tal fazer um filme, mas que seja realmente sobre isso?! Aí criou uma história em que amigos supostamente heterossexuais conversam nus em saunas, têm uma intimidade mais que suspeita, estão sempre se entreolhando enquanto comem bananas e outras coisas de formato fálico etc. Até a câmera consegue tornar homoeróticos certos momentos que não seriam caso fossem filmados por outro ângulo — um plano, por exemplo, destaca desnecessariamente a proximidade do pé de um amigo em relação ao rosto do outro; o cúmulo é a cena em que o Art está conversando com a Tashi no quarto, e quando ele se debruça sobre a cama, a câmera faz um movimento inexplicável que dá a impressão que o cinegrafista queria voar direto pro traseiro dele mas no meio do caminho resistiu à tentação. E todo esse homoerotismo no fim parece gratuito, algo que existe só pro deleite do cineasta, já que Art e Patrick não parecem ser de fato bissexuais, e essa suposta atração não tem consequência narrativa.quinta-feira, 25 de abril de 2024
Cultura: "O cinema acabou"
Esta fala do Jerry Seinfeld em uma entrevista recente repercutiu bastante, talvez por refletir o sentimento de muitos espectadores hoje:Há uma razão pela qual, numa casa, colocamos vidro nas janelas, mas o encanamento fica escondido dentro de paredes opacas. Talvez no passado, quando ainda se estava experimentando com planejamento urbano, alguém tenha tido a ideia de construir um sistema de esgoto totalmente exposto, passando pelo meio das casas e das ruas - mas ao longo dos séculos, a humanidade teve que aprender na prática que nem tudo que faz parte dela deve ficar à vista pra ser contemplado o tempo todo. Talvez um processo similar de aprendizado tenha que ocorrer num futuro próximo, só que em relação à informação. Pois é como se a internet e as redes sociais tivessem padronizado um sistema de esgoto na cultura que usa canos de vidro, por onde passa não o lixo físico, mas o lixo espiritual da população. Ou pior: um sistema no qual esgoto e água limpa fluem juntos pelos mesmos canos. Esse tipo de exposição criará suas próprias categorias de doenças, pestes, infecções, pras quais ainda não temos todas as vacinas inventadas.
terça-feira, 23 de abril de 2024
Ibsen, Rand e Tubarão
O Inimigo do Povo de 1978, com o Steve McQueen no papel de Stockmann, já é bem superior tanto em estilo quanto em conteúdo. Visualmente, a produção te transporta muito melhor para o universo da peça, e as mensagens também são bem mais próximas do texto original. Porém, as passagens que criticam a religião e a "maioria coesa" de forma mais aberta foram amenizadas, especialmente durante o discurso de Stockmann, que não chega nem perto do original em impacto, ainda que não subverta sua intenção básica.
O enredo de Um Inimigo do Povo só conseguiu encontrar seu caminho para o sucesso no cinema quando passou por uma série de metamorfoses, foi despido de seus elementos mais socialmente incômodos, e teve o antagonista modificado — em vez da "maioria coesa", passou a ser os "burocratas corruptos": o resultado foi Tubarão (1975), um filme que não é uma adaptação direta, mas que é frequentemente citado como uma modernização da peça de Ibsen.sexta-feira, 19 de abril de 2024
Guerra Civil
quarta-feira, 17 de abril de 2024
Cultura: Tongue-in-cheek vs. Straight Face
quinta-feira, 11 de abril de 2024
Haters do YouTube
Do vídeo sobre Idealismo Corrompido:
Claro que meus vídeos tiveram pouco alcance. Alguém com centenas de milhares de seguidores certamente deve receber críticas de pessoas mais interessantes. Mas essa experiência já serviu pra mostrar que aquela noção que eu tinha, que seria confrontado por argumentos fortes e válidos sempre que postasse algo impopular, se provou algo muito mais hipotético do que eu poderia ter previsto.
terça-feira, 9 de abril de 2024
A Primeira Profecia
Estreia notável da diretora Arkasha Stevenson, que só tinha dirigido curtas e séries de TV até agora. O filme não é livre dos clichês irritantes do gênero — as alucinações que só servem pra gerar um jump-scare inútil, os desenhos infantis que sempre revelam algo sinistro etc. — só que o resto do filme é tão autêntico pros padrões atuais, tão cheio de detalhes e decisões ousadas, que você conclui que esses clichês devem ter vindo mais das exigências do estúdio do que de uma falta de imaginação da própria cineasta. Nas mãos de um diretor mais comum, o filme seria apenas o que ele aparenta ser à distância — mais uma produção de "pedigree" duvidoso que só existe pra lucrar em cima de uma franquia popular. Mas em vez de entrar no piloto automático, Arkasha Stevenson (que me parece acima do material artisticamente) decidiu levar o filme a sério e aproveitar a oportunidade pra mostrar seu potencial como realizadora. A primeira coisa que me chamou atenção foi que o filme traz uma epistemologia bem mais racional que de costume pro gênero. Não há aqui, por exemplo, aquele clima tenebroso constante que dá a impressão que os personagens já sabem desde o início que estão num filme de terror. Há diálogos descontraídos e até bem humorados na introdução, que criam um universo crível e personagens mais fáceis de gostar. A religião também é mostrada por uma lente mais real — a igreja aqui existe dentro de um contexto político/histórico reconhecível, está sujeita a erros, corrupções, as noviças são mostradas como jovens devotas, mas que ao mesmo tempo questionam a igreja em certas áreas, têm vida privada, impulsos sexuais normais etc. O elenco também é um destaque. A protagonista Nell Tiger Free está muito bem, mas me chamaram a atenção especialmente alguns coadjuvantes como a amiga dela interpretada pela Maria Caballero — uma atriz com uma presença marcante e um rosto que a tornaria perfeita para um biopic da Elizabeth Taylor ou da Viven Leigh. Sônia Braga como freira do mal foi outra escolha de casting inusitada que funcionou melhor do que se poderia esperar. O material não permite que a cineasta salve completamente o filme, mas mesmo os clichês ela faz uma espécie de alquimia cinematográfica pra tentar transformar em algo mais interessante. Há uma cena de parto, por exemplo, que acaba não passando de uma dessas alucinações bobas — mas que apresenta uma das imagens mais horríveis (no bom sentido) que vi no terror recentemente. Em outro momento, a personagem precisa ficar fazendo aqueles contorcionismos nonsense de mulher possuída, e a cena poderia muito facilmente ter caído no ridículo, pois dura vários segundos e foi filmada em plano aberto, com poucos cortes, o que evidencia qualquer defeito. Mas a cena acaba funcionando por conta da direção cuidadosa, e se tornando até intrigante do ponto de vista técnico/"coreográfico". Acabei procurando uma entrevista depois com a Arkasha Stevenson pra saber quem era ela, e o que ouvi só confirmou minha impressão de que o filme, apesar dos problemas, tinha sido feito por um cineasta mais inteligente e autêntico que a média, com boas premissas cinematográficas (o oposto do que senti quando vi entrevistas com o David Gordon Green depois de O Exorcista: O Devoto).
The First Omen / 2024 / Arkasha Stevenson
Satisfação: 7 (Idealismo Imperfeito)
segunda-feira, 1 de abril de 2024
Smartphones, Redes Sociais e o Declínio Cultural
sexta-feira, 29 de março de 2024
Quiet on Set: The Dark Side of Kids TV
Série documental que expõe uma série de abusos que ocorreram nos bastidores da Nickelodeon nos anos 90 e 2000. Eu vi os 4 episódios em uma tacada só (foi anunciado que um episódio extra será lançado em breve), o que mostra que o documentário é no mínimo bem feito no sentido de ter uma narrativa que prende a atenção. Mas depois de ver a série toda, eu acabei revendo o 1º episódio, e constatei que muito dessa atenção foi capturada de forma desonesta pela série, que promete revelações gravíssimas (especialmente a respeito do produtor Dan Schneider) que no fim não são exatamente o que se espera.
A série mostra pelo menos 1 caso indiscutível de pedofilia — que envolve o assistente de produção Jason Handy, que enviou fotos explícitas pra uma atriz-mirim de apenas 11 anos — e isso dá bastante credibilidade pro documentário. Outro caso claro de abuso é o do ator Drake Bell, que é o que vem ganhando mais repercussão na mídia, embora eu coloque o caso dele mais numa categoria de assédio/estupro do que de pedofilia exatamente, pelo simples fato dele ter 15 anos na época (já ter passado pela puberdade). Esta é uma diferenciação polêmica de ser feita, pois um estuprador e um abusador de crianças são ambos imorais, e diferenciá-los faz parecer que você quer "passar pano" para um ou para outro. Mas acho que há uma diferença significativa entre os dois casos que a mídia frequentemente gosta de ignorar: alguém que tem desejo sexual por uma criança — um ser não-sexual biologicamente, que tem uma confiança inocente nos adultos por nem ter concepção ainda do que é sexo — é naturalmente visto como alguém doentio. Culturalmente, a figura do pedófilo tem uma aura meio satânica que parece exclusiva desse tipo particular de distúrbio. Nem mesmo terroristas às vezes são vistos pela sociedade de maneira tão desumana.
E pra mim o grande problema da série é a maneira como ela pega "emprestada" esta aura satânica da pedofilia (que só existe nesse contexto específico de um adulto abusando sexualmente de uma criança) pra colorir uma série de outras acusações — algumas que nada têm a ver com abuso — e dar a impressão que elas vêm do mesmo lugar.
Desde o início, a série define Dan Schneider como o grande vilão da história: o produtor todo-poderoso que aparentemente será exposto como o Harvey Weinstein da Nickelodeon. Mas o que o documentário tem pra apresentar contra Schneider não é nem de longe tão grave quanto esses outros casos que são apresentados ao longo da série. No primeiro episódio, há uma clara insinuação de que Schneider teria uma proximidade estranha com a atriz Amanda Bynes, e um bom trecho do documentário é dedicado à exploração dessa relação "suspeita". Considerando a gravidade dos outros casos, você assume que Schneider estaria molestando Bynes também, e que isso será revelado em episódios futuros. (Enquanto insinuações desse tipo são feitas, a edição frequentemente insere fotos de Schneider na tela, sempre sorrindo, mas sob uma luz pouco lisonjeira e com uma música sinistra de fundo, aproveitando o Efeito Kuleshov pra transformar sua expressão na de um velho safado.)
(SPOILERS) Só que nunca é dito que Schneider abusou sexualmente de Bynes nem de qualquer outra pessoa. As acusações contra ele envolvem principalmente comportamentos tóxicos no set, geralmente envolvendo mulheres da equipe (o hábito dele de pedir massagem nas costas, ou de fazer piadas sexuais desrespeitosas) e também o senso de humor duvidoso de seus programas, que frequentemente colocavam crianças em sketches com conotação sexual. Mas tudo isso pra mim cai na categoria "coisas sem-noção dos anos 90". Não estou dizendo que essas coisas eram apropriadas, mas se você for analisar os anos 90/2000 sob a ótica do que é considerado correto hoje, muita coisa vai parecer um absurdo completo, do Programa Silvio Santos ao Xou da Xuxa.
E se você conviveu nos bastidores da TV/cinema/publicidade naquela época, você sabe que o tipo de comportamento denunciado pelo documentário era absolutamente típico. Não há nada de especial no caso de Schneider que o faça parecer uma anomalia pra época. Ainda assim, o documentário mostra tudo que havia de desagradável naquele ambiente de trabalho com o mesmo tom satânico que discute abusos de crianças — até coisas que nem erradas são, como o simples fato de algumas crianças serem cortadas dos programas depois que perdiam relevância ou ficavam velhas demais pro papel (frustrações que qualquer um no showbusiness precisa enfrentar).
Há também o caso da roteirista que descobre estar trabalhando por um salário menor que o estabelecido pelo sindicato dos roteiristas (embora ela tivesse concordado com o salário) e usa isso em um processo contra Schneider — algo que só é antiético pra quem acha que o poder do WGA é absolutamente ético.
Ou seja, o documentário tem coisas relevantes pra denunciar, não é 100% desonesto, só que em muitos momentos ele se torna mais um desses documentários com viés de esquerda que sabem que dá ibope manchar a reputação de empresas e pessoas de sucesso, especialmente essas que têm uma imagem pura e idealista — afinal, se você expõe casos de pedofilia no Talibã, ninguém te dá muita bola, mas se você pega a Disney ou a Nickelodeon e as associa a algo maléfico, cria-se um ar conspiratório que deixa todos fascinados.
Não há nada de surpreendente no fato de ambientes como o da Nickelodeon serem atraentes para pedófilos e eventualmente algum acabar se infiltrando — da mesma forma que não é surpreendente bancos serem ambientes atraentes pra assaltantes. É desonesto criar uma associação maléfica entre o ambiente e o criminoso, como se o propósito da instituição fosse facilitar o crime. Considerando que a Nickelodeon tem mais de 40 anos, os 2 casos de abuso registrados pela série não transformam o canal exatamente em um antro de pedófilos. Ainda assim, é possível que essa associação entre a Nickelodeon e pedofilia seja criada por causa do documentário e se mantenha por anos no imaginário popular, causando danos à empresa, da mesma forma que Blackfish (2013) mudou pra sempre a imagem do Sea World. Nesse sentido, a série se torna em si abusiva, algo que no futuro poderia virar tema de um documentário igualmente polêmico, expondo os horrores da cultura do cancelamento dos anos 20.
Quiet on Set: The Dark Side of Kids TV (2024)








