Tenho visto filmes normalmente mas sem postar crítica aqui. Essas foram as notas que dei para os últimos:
CINEMA:
Halloween (2018) - 7.5
Podres de Ricos (Crazy Rich Asians / 2018) - 7.0
O Primeiro Homem (First Man / 2018) - 7.5
Nasce uma Estrela (A Star is Born / 2018) - 8.5
Venom (2018) - 4.0
TV / ONLINE:
Christopher Robin: Um Reencontro Inesquecível (Christopher Robin / 2018) - 4.5
O Conto (The Tale / 2018) - 8.0
Domando o Destino (The Rider / 2017) - 8.0
Círculo de Fogo: A Revolta (Pacific Rim: Uprising / 2018) - 5.0
Sicário: Dia do Soldado (Sicario: Day of the Soldado / 2018) - 6.0
Kingsman: O Círculo Dourado (Kingsman: The Golden Circle) - 4.0
A Festa (The Party / 2017) - 2.0
Quincy (Documentary, 2018) - 7.5
Visages Villages (Documentary, 2017) - 7.0
Spielberg (Documentary, 2017) - 8.5
Distúrbio (Unsane / 2018) - 6.0
David Lynch: A Vida de um Artista (David Lynch: The Art Life / Documentary, 2017) - 8.0
terça-feira, 9 de outubro de 2018
domingo, 23 de setembro de 2018
O Princípio do Contraste

(Capítulo 13 do livro Idealismo: Os Princípios Esquecidos do Cinema Americano)
Para que qualquer emoção numa história seja transmitida de maneira satisfatória para o espectador, deve haver uma dose do oposto daquela emoção incluída na obra como forma de tornar mais claro o valor positivo e realçar o seu “sabor” — assim como muitas sobremesas às vezes levam sal na receita, criando um contraponto para o açúcar.
Então se você quer inspirar o espectador e criar um senso de Autoestima, possibilidade, talvez seja essencial mostrar que o herói possui certas fragilidades e incertezas também, antes de mostrá-lo sendo vitorioso. Se você quer passar a ideia de que o herói é inteligente, sensato, talvez isso fique mais evidente se ele estiver rodeado de tolos ou personagens menos brilhantes. Se você quiser criar um senso de otimismo, de que o universo é um lugar bom, antes do final feliz ocorrer talvez você deva incluir tragédias ou situações tensas que coloquem a possibilidade de vitória seriamente em risco. Se você quiser transportar o espectador para um lugar incrível, mágico, gerar um senso de escapismo, talvez você deva incluir uma referência do comum, do banal, do cotidiano, do realista — e por aí vai.Isso não quer dizer que podemos pegar todo tipo de coisa maligna num filme e interpretá-la como sendo um contraste. Uma das regras aqui é que o negativo deve ser incluído apenas em função do positivo, mas nunca como um fim em si mesmo. Se você quiser fazer como Hitchcock, por exemplo, e “torturar” a plateia por alguns minutos, prolongando uma cena de suspense para depois ter uma solução satisfatória e gerar alívio, ótimo. Mas se o propósito for primeiramente gerar desconforto, perturbar, daí isso será inapropriado. Num filme Idealista, o foco do artista está sempre nos valores positivos. O objetivo final é proporcionar prazer, inspiração, satisfação — e os negativos são usados apenas de maneira estratégica para atingir esse objetivo de maneira mais eficaz. Portanto, existem os contrastes adequados e os inadequados: enquanto uma pitada de sal na receita pode tornar um doce melhor ainda, ou a massa do biscoito fazer o recheio parecer ainda mais delicioso, uma pitada de veneno ou de vômito não seria “contraste” algum numa comida, apenas algo repulsivo que destruiria o aproveitamento do valor positivo.
Por exemplo: é perfeitamente aceitável Spielberg dar a entender que E.T. morreu no final do filme, só para minutos depois ressuscitá-lo e fazer a gente vibrar. Mas se ele incluísse na história um longo monólogo sobre a falta de sentido da vida, sobre os males da sociedade moderna, filmasse algumas cenas fora de foco para parecer mais avant-garde, isso não seria um “contraste” para a diversão, e sim a implosão do filme inteiro.
Cada pilar tem o seu contraste (e uma ideia interessante é criar tabelas para concretizar esses contrastes também, não apenas os valores positivos, como discutido no capítulo “Os 4 Pilares do Idealismo”):
O contraste para a Objetividade costuma ser principalmente um senso de complexidade. Embora o espectador queira simplicidade, clareza, ordem, se tudo for absolutamente básico, didático e explícito numa história, isso pode soar infantil ou artificial demais e desestimular o espectador. Então, dentro da simplicidade da arte, nós queremos também um senso de complexidade — mais ou menos como em um jardim, onde existe ordem, a natureza foi reorganizada e simplificada para atender necessidades humanas, mas, dentro desta ordem, você ainda enxerga a riqueza e a complexidade da natureza real. Filmes que contam com a inteligência do espectador para preencher algumas lacunas, sacar algumas ideias, que funcionam em diversos níveis de intelecto, do mais básico ao mais sofisticado, que têm outras camadas além da mais superficial — estes são mais satisfatórios cognitivamente do que aqueles onde tudo é extremamente óbvio e explícito o tempo todo.
Para a Autoestima, os contrastes são geralmente as desvantagens e vulnerabilidades dadas ao herói (como falei no capítulo “O Que Torna um Personagem Gostável?”). Mostrar que, apesar de ser virtuoso, atraente, capaz, o herói não é onipotente, assim como o espectador — o que tornará sua vitória ainda mais satisfatória. Esses elementos evitam também que o personagem soe arrogante, esnobe, e perca seu carisma (todo valor positivo pode ter um “excesso” indesejável, e esses contrastes, além de servirem para comunicar valores com clareza, ajudam também a evitar esses excessos).
Para Benevolência, o contraste seria, por exemplo, um toque surpreendente de seriedade, maturidade, momentos de suspense, medo, violência, vilões assustadores, momentos de verdadeira preocupação e desesperança, onde os sonhos do personagem pareçam realmente estar fora de alcance. Se tudo é extremamente otimista, inocente e ingênuo o tempo todo, isso acaba entediando o espectador e a mensagem não tem impacto — os desejos do protagonista parecem fáceis demais de serem atingidos, quase garantidos. O artista fica parecendo também alguém desconectado da realidade, cego para as dificuldades da vida, e seu otimismo não tem grande efeito.
Para Excitação, o contraste tem a ver com o lado frustrante da vida, reconhecer a existência dos sacrifícios, deveres e responsabilidades que costumam fazer parte do nosso dia a dia, os momentos de tédio, as pressões sociais e familiares que limitam nossos prazeres — e, em contraste com isso, os momentos de diversão e escapismo da história serão muito mais satisfatórios.
Se juntarmos os quatro pilares e pensarmos no conceito de Entretenimento como um todo, podemos resumir tudo isso dizendo que o entretenimento em si precisa de um contraste para ser eficaz. Ele não pode soar como algo fútil, superficial, infantil, imaturo e desconectado da realidade. Ele só tem uma verdadeira capacidade de inspirar e divertir quando parece ser levado a sério. Quanto mais inteligência, mais maturidade, sofisticação, qualidade técnica, talento e nível artístico ele tiver, melhor ele será. Se um adolescente desmiolado sem nenhum tipo de conhecimento ou virtude te diz “a felicidade é possível”, isso não tem credibilidade alguma. Agora, se um senhor sábio, experiente, culto, talentoso, que conheceu o mundo, passou por todas as dificuldades, enfrentou diversos obstáculos na vida, vira pra você e diz a mesma coisa, a frase é muito mais convincente.
sábado, 22 de setembro de 2018
Buscando...
Assim como Amizade Desfeita (2014), a história aqui é inteira contada através de telas de computadores, celulares, TVs, o que impõe ao cineasta uma limitação criativa interessante, mais ou menos como ocorre no gênero found-footage. No começo a ideia estava me entediando um pouco, pois além de ser meio monótono e esteticamente frustrante ir ao cinema pra olhar uma tela de computador, essa regra me pareceu um pouco aleatória - não parecia algo pra tornar a narrativa mais interessante pro espectador, mas apenas um gimmick pra exibir a engenhosidade do cineasta e justificar o baixo-orçamento. Apesar disso, após o incidente inicial que dá partida à história, o roteiro é forte o bastante pra que a gente esqueça um pouco desse artifício e se envolva de fato no suspense e nos conflitos dos personagens. Há uma série de observações sociais e psicológicas interessantes que dão uma dimensão maior pra história, além do mistério central que prende bastante a atenção.
O maior problema do filme pra mim é a improbabilidade de muitos dos acontecimentos (principalmente mais pro final). Algumas coisas são tão forçadas que fica óbvio que o roteirista se empolgou demais no seu desejo de surpreender o público. SPOILERS: As 2 coisas que mais me incomodaram foram (1) a ideia da garota desaparecida ter um stalker, um garoto obcecado por ela, sendo que a personagem deveria ser uma completa loser socialmente, mas principalmente (2) a ideia de que uma policial tão esperta quanto aquela faria isso tudo pra acobertar um crime sem antes confirmar que a garota havia de fato morrido.Aneesh Chaganty me lembra um pouco o Shyamalan - um diretor com um talento visível pra contar histórias, ter sacadas interessantes pra filmes, criar suspense, finais de impacto, mas que talvez como roteirista ainda precise de um pouco mais de senso crítico. Mas pra uma estreia na direção é certamente um trabalho notável.
Searching / EUA / 2018 / Aneesh Chaganty
NOTA: 7.0
sexta-feira, 14 de setembro de 2018
O Predador
Apesar do título dar a impressão de um reboot ou remake, essa na verdade é uma sequência de O Predador que reconhece a existência dos filmes de 87, 90 e 2010. O filme foi co-escrito e dirigido por Shane Black (de Beijos e Tiros e Homem de Ferro 3) que é conhecido por seu humor irreverente. Em vez de ser respeitoso em relação à franquia e manter um tom coerente com o dos outros filmes, Black decidiu reinventar a série, a transformando numa pseudo-paródia, mais ou menos como temos visto em filmes como Deadpool e Thor: Ragnarok. Ao fazer isso, na minha opinião ele arruinou o filme e o transformou numa grande fraude, que atrai o público sugerindo um tipo de coisa, e na prática entrega uma "anti-coisa".Quem já leu minhas postagens sobre Anti-Idealismo e Idealismo Corrompido sabe bem do que estou falando, e não cometerá o erro de enxergar a atitude do filme como "irreverência", ou apenas um erro inocente de tom. Se trata de uma tentativa consciente de ridicularizar o gênero e tudo aquilo que nos remete aos filmes dos anos 80 - ou seja, tudo aquilo que o espectador deveria buscar quando vai ao cinema ver um lançamento como esse.
O filme usa 2 estratégias principais para essa ridicularização - a mais óbvia é o uso destrutivo de humor - que é inserido não pra aumentar o carisma dos personagens ou oferecer um alívio entre cenas mais dramáticas - mas pra diminuir a estatura dos personagens e a seriedade das cenas dramáticas. Não só os supostos heróis do filme são ridicularizados, como os próprios monstros são alvos de zombaria (em determinada cena, o Predador é descrito como uma "Whoopi Goldberg alienígena" por um dos coadjuvantes). É importante constatar que zombar do vilão dessa maneira é tão destrutivo quando zombar dos heróis. As 2 coisas buscam minar a seriedade da história, o tom épico da batalha. Filmes que são pró-heróis, pró-autoestima, investem um esforço enorme em também glamourizar os vilões, torná-los ameaçadores, imponentes, icônicos - afinal, não há muita graça em superar um obstáculo medíocre.A outra estratégia de ridicularização é a do exagero - tornar algumas ações tão forçadas, tão ilógicas, que se perde toda a realidade da situação. Pegue por exemplo a personagem da bióloga - uma cientista exageradamente esperta, que está sempre deduzindo coisas que ela não teria a menor condição de saber. Quando a vemos, ainda no começo do filme, pegando uma espingarda e saindo correndo atrás do Predador, saltando em cima de ônibus em movimento (sem que ela tenha qualquer treinamento militar ou conhecimento especial sobre a criatura), isso não é feito pra gerar admiração pela personagem. É na verdade uma forma de tornar a cena propositalmente ridícula; gerar "admiração" apenas pelo cinismo do cineasta talvez, que está claramente se divertindo ao zombar dos "filmes tolos" dos anos 80 com Schwarzenegger, Stallone ou Sigourney Weaver, onde os protagonistas eram exércitos-de-1-homem-só e pareciam poder tudo. Ou seja, o filme não foi feito por alguém que respeita o Predador original, e sim por alguém que considera o filme meio ridículo - só que em vez então de torná-lo respeitável (de acordo com seus próprios critérios) o cineasta resolveu torná-lo mais ridículo ainda, exagerando justamente aquelas características que ele considerava tolas.
É uma pena, pois dá pra ver pelas entrelinhas que Black tem bastante habilidade e energia como cineasta (não me parece desses que abraçam o Anti-Idealismo como forma de ocultar a própria falta de talento). Fica a impressão que, se ele não estivesse tão comprometido com seu cinismo, ele teria sido capaz de fazer um filme respeitável (e respeitoso), no espírito do original.
The Predator / EUA, Canadá / 2018 / Shane Black
NOTA: 2.5
domingo, 9 de setembro de 2018
A Freira

Tinha achado muito legal a figura da freira no Invocação do Mal 2, e me pareceu uma boa ideia criar um filme só pra ela, até porque não me lembro de uma outra freira maligna no cinema de horror que tenha feito sucesso. Infelizmente os acertos do filme não vão muito além dessa sacada inicial. A parte visual / física da produção é muito bem feita (como em todos os outros capítulos da franquia) o que dá certa ilusão de que o filme tem mais qualidade do que as estreias mais rotineiras do gênero. Mas naquilo que realmente importa - roteiro, direção, personagens - o filme representa o que há de mais pobre e inautêntico no entretenimento atual.
Os problemas aqui não são de valores, da intenção do filme... A intenção parece boa. O problema é a completa falta de noção dos cineastas do que é que constitui um filme, de como é que se conta uma história. Mais uma vez, é a falta de Objetividade que faz ruir toda a narrativa. Em vez de uma história onde os personagens têm motivações plausíveis, objetivos claros, agem de maneira convincente em um universo crível, o filme se parece mais com um pesadelo onde você nunca sabe direito se é dia ou se é noite, os acontecimentos parecem totalmente randômicos, irreais, coisas acontecem num minuto e no minuto seguinte deixam de existir, as pessoas agem de forma ilógica, seguem vultos em porões sinistros quando deveriam estar correndo deles, fazem cara de espanto quando veem algo sobrenatural, como se já não tivessem tido 200 provas antes de que o lugar é amaldiçoado... Se ao menos os Set Pieces isoladamente fossem bons, o filme teria certo valor de entretenimento. Mas as cenas de terror não têm a menor criatividade, são totalmente baseadas em clichês (não sei quantas vezes usam o recurso da câmera que gira pra um lado, daí quando volta revela um fantasma ao fundo que antes não estava lá), e a ambientação é fantasiosa demais pra gerar medo. É tudo muito óbvio: o cineasta acha que se ele colocar pessoas caminhando com lampiões num cemitério tenebroso, acrescentar névoa, teias de aranha, uma luz misteriosa, isso irá gerar mais medo... Quando na verdade é muito mais impactante ver um fantasma num ambiente que o espectador julgue familiar (se você está na selva amazônica e vê uma tarântula, o impacto é menor do que se ela saísse debaixo do seu travesseiro).
Mas nenhum filme consegue flertar com o status de "trash" sem o auxílio de um personagem particularmente estúpido que tempere a experiência com atitudes e falas constrangedoras - função que o mocinho Frenchie cumpre brilhantemente com seus momentos "I'm french-canadian!" ou "The blood of Christ - holy shit!", por exemplo (quem achou que Jonas Bloquet com seu rosto de modelo da Abercrombie seria convincente como um aldeão do interior da Romênia em 1952, realmente precisa repensar seu futuro na área de casting).
Não-surpreendentemente, o filme faturou $131 milhões de dólares mundialmente nesse fim de semana (a segunda maior estreia de terror da história) provando que, se os cineastas estão cada vez mais incompetentes e despreparados, os marketeiros estão se tornando os verdadeiros gênios desse ramo.
The Nun / EUA / 2018 / Corin Hardy
NOTA: 3.0
terça-feira, 4 de setembro de 2018
Você Nunca Esteve Realmente Aqui
Thriller psicológico escrito e dirigido por Lynne Ramsay (a mesma de Precisamos Falar Sobre o Kevin) sobre um matador de aluguel (Joaquin Phoenix) que ganha a vida resgatando escravas sexuais de cativeiros e matando brutalmente os responsáveis no processo. O filme ganhou os prêmios de Melhor Ator e Melhor Roteiro no Festival de Cannes.Esse é o típico filme pseudo-intelectual, charlatão - daqueles que querem parecer artísticos, profundos, psicologicamente complexos, mas apelam pro Subjetivismo e pras Emoções Irracionais pra atingirem esse objetivo - tudo pra esconder o fato de que o autor não tem de fato algo substancial a dizer, não tem o intelecto nem a profundidade nem o requinte artístico que tenta passar.
Acabando o filme, a primeira coisa que fiz foi procurar uma entrevista com Ramsay no YouTube pra ver ela falando qualquer coisa, pois minha impressão era a de que o filme tinha sido feito por uma pessoa com sérias dificuldades de raciocínio e de comunicação (como pra mim a objetividade é a 1ª necessidade de qualquer filme, se você ainda não dominou essa habilidade, você não deveria se arriscar a escrever e dirigir um filme). Não estava enganado - veja essa entrevista e, caso você consiga entender pelo menos 10% do que ela fala (eu tive quase uma dor de cabeça tentando), repare no senso de caos, de imprecisão e falta de propósito e de estrutura em sua fala, na impressão de que nada é "preto e branco" em seu processo, que tudo é improvisado, aproximado, que ela pensa em termos de "sons e imagens" (ou seja, que ela não pensa - que ela filma movida por sensações que desconhece). É um exemplo incrível de como uma obra, antes mesmo de refletir seus valores, acaba sendo um raio-X do método de pensamento de um artista.You Were Never Really Here / Reino Unido, França, EUA / 2017 / Lynne Ramsay
NOTA: 0.0
quarta-feira, 29 de agosto de 2018
Sharp Objects

Apesar do clima pesado, foi uma das poucas séries recentes que conseguiu prender minha curiosidade até o final. Um pouco pelo mistério dos assassinatos, mas mais até pelo mistério envolvendo o passado da protagonista Camille (Amy Adams está brilhante) e de sua família disfuncional. Além também da qualidade da direção de Jean-Marc Vallée (o mesmo de Big Little Lies) que é cheia de sutilezas e tem uma atenção aos detalhes que não se vê tanto na TV.
A série não chega a ser totalmente malevolente em seu Senso de Vida, pois se esforça pra mostrar que Camille é uma boa pessoa e que ela pode superar seus traumas. Ainda assim, na maior parte do tempo que gastamos vendo a série, estamos olhando pra temas deprimentes e situações negativas. Muito do incômodo vem do retrato quase exclusivo de relacionamentos conflituosos entre os personagens. As únicas relações positivas que vemos aqui estão nas poucas cenas em que Amy Adams interage com seu chefe e sua esposa. Praticamente todas as outras relações entre todos os personagens de alguma forma expressam cinismo, desarmonia, raiva, inveja, agressividade, desconfiança... E os relacionamentos entre os personagens numa história pra mim são como os acordes de uma música - eles determinam o tom geral da experiência. Essa negatividade é algo que eu percebo não incomodar muito os fãs de séries de TV (afinal a grande maioria das séries têm esse foco em relacionamentos conflituosos, então isso deve dar algum tipo de prazer pras pessoas) porém pra mim, ficar num ambiente como esse por muito tempo me coloca num mindset realmente ruim, quase como o de ter que conviver com pessoas tóxicas na vida real, me afastando da maioria das coisas produzidas pra TV hoje em dia (uma convicção minha é que pra falar sobre pessoas negativas e temas negativos, um filme não precisa colocar o espectador também num estado mental indesejável).
Ainda assim, as qualidades da série me pareciam compensar esse problema central - a sensação constante de que algo impactante estava pra acontecer nos capítulos seguintes me fez seguir em frente, e os 2 últimos episódios fizeram valer a pena.
Sharp Objects (HBO Mini-Series) / EUA / 2018 / Criadora: Marti Noxon
NOTA: 7.5
sexta-feira, 17 de agosto de 2018
O Protetor 2
Vendo filmes como esse, como John Wick, ou mesmo fenômenos do mundo dos games como GTA, fica claro que existe uma enorme fatia da população que vê algo de prazeroso nesse tipo de violência, em assistir alguém descontando sua raiva fisicamente, se vingando de forma brutal... E que não se trata apenas de uma busca por justiça, algo motivado por um senso de moralidade, pois em muitos casos (como aqui em O Protetor 2) o espectador nem tem como saber se as atitudes do protagonista são justas ou não (na verdade, o simples fato dele não ter informações o suficiente antes de partir pra ação, e de nem esperar pra ver se a Justiça fará algo primeiro, já torna a atitude condenável). Por exemplo: numa cena no início do filme, Denzel Washington (trabalhando como motorista) dá carona pra uma mulher cheia de hematomas no corpo, que é colocada pacificamente no táxi por um homem. Sem que a gente saiba mais nada a respeito da situação (quem bateu nela, por que, se ela também agrediu alguém), e sem nem informar a polícia antes, Denzel volta até o apartamento dos supostos agressores e tortura / assassina todo mundo! E não, Denzel não é retratado como uma pessoa desequilibrada, imoral, e sim como um herói, um homem incorruptível, corajoso, uma espécie de mito, que está fazendo tudo aquilo que o espectador secretamente gostaria de fazer. Outra pista de que não se trata apenas de uma busca por justiça - do desejo de se livrar de um problema pra daí perseguir valores positivos (ele não busca nada positivo, sua vida é toda sobre destruir negativos - inclusive negativos que nada têm a ver com sua vida pessoal) - é a enorme ênfase na violência gráfica: o "herói" não se contenta apenas em eliminar os vilões, ele precisa torturá-los, achar maneiras particularmente grotescas de realizar o ato (e o filme faz questão de mostrar tudo em detalhes). Em determinada cena ele praticamente admite ter prazer no ato de infligir dor, e diz que se fosse possível, mataria os vilões mais de 1 vez só pela satisfação.
Infelizmente o filme inteiro é baseado em cima desse único "prazer", portanto não sobra muito pros outros espectadores apreciarem em termos de história, técnica, etc. A trama não é muito clara, demora pra engrenar, e até mesmo as cenas de ação são fracas, cheias de clichês e coisas forçadas pra darem um ar sobre-humano pro protagonista (Denzel ouve um latido de cachorro pelo telefone e já tem certeza que o garoto está em perigo; o vilão está numa cidade deserta no alto de uma torre, em vigilância, armado, e Denzel consegue escalar a torre e golpeá-lo sem que ele perceba, etc).Não estou querendo dizer que os fãs desse tipo de filme sejam psicopatas (assim como quem joga games violentos não são pessoas sádicas necessariamente), de qualquer forma, ainda não consegui entender o mecanismo psicológico pelo qual uma pessoa com valores totalmente positivos, num estado saudável de consciência, consegue achar satisfação numa história como essa.
The Equalizer 2 / EUA / 2018 / Antoine Fuqua
NOTA: 3.5
sexta-feira, 10 de agosto de 2018
Megatubarão

Sempre que eu entro pra ver um filme, talvez meu desejo mais profundo e essencial (e raramente satisfeito) é o de ver uma união entre arte e entretenimento (ou, num nível mais profundo, entre intelecto e felicidade). Então se externamente o filme se apresenta como uma obra séria, autoral, minha primeira pergunta antes de começar o filme é: será que ele fará um esforço pra também ser prazeroso? E por outro lado, se o filme se apresenta como pura diversão, escapismo (como Megatubarão) minha primeira pergunta é: será que ele fará um esforço pra também ser sofisticado, inteligente, criativo? E aqui logo que começa o filme já percebemos que a resposta é não: o roteiro é composto basicamente de clichês e ideias emprestadas de outros filmes, não há grande respeito pela lógica e pelas leis da física, a ação é inacreditável, os personagens estão sempre se colocando em situações desnecessárias de risco, há alguns personagens tolos que dão um clima meio Zorra Total pra certas cenas... Outro ponto fraco é que o filme não consegue dar uma personalidade forte pro monstro, tornar o tubarão uma figura assustadora, mítica, como no clássico de 75. Aqui é apenas um efeito digital que precisa ficar apelando pra jump scares pra causar qualquer reação no público.
Em termos de valores há também algumas coisas que dão preguiça - a romantização do auto-sacrifício, tentativas de tornar o filme "inclusivo" e multicultural que soam artificiais e às vezes enfraquecem o herói, etc. Não chega a ser um filme ruim - a produção é bem feita, Jason Statham é carismático, a história tem uma boa estrutura - mas a não ser que você tenha 15 anos e nunca tenha assistido nada pra trás dos anos 2000, ficará claro que se trata apenas de uma reciclagem não muito inspirada de velhas fórmulas.
The Meg / China, EUA / 2018 / Jon Turteltaub
NOTA: 5.5
terça-feira, 7 de agosto de 2018
O Paradoxo Cloverfield

Essa deve ser a franquia com o conceito mais vago do cinema, e está chegando num ponto onde qualquer história onde algo inexplicável aconteça poderá ganhar o rótulo "Cloverfield" e um link duvidoso para os outros filmes (tanto esse quanto Rua Cloverfield, 10 eram roteiros independentes que nada tinham a ver com Cloverfield: Monstro - até o produtor J.J. Abrams resolver conectar tudo). Se você for pensar, inúmeros filmes poderiam passar a fazer parte da série com apenas algumas modificações no roteiro: Aniquilação, Círculo de Fogo, Godzilla, Planeta dos Macacos, Transformers, Stranger Things, qualquer episódio antigo do Twilight Zone, etc. Tirando a premissa básica de que um portal interdimensional foi aberto e agora coisas bizarras podem acontecer, não há muito o que conecte os 3 filmes em termos de clima, estilo, qualidade técnica, mensagem, etc. O que falta aqui é um pouco do senso de unidade e planejamento que sentimos ao ver algo como Black Mirror, por exemplo, que consegue mudar de gênero, ambientação, personagens, mas ainda assim preservar um tema central, uma atmosfera consistente.
Mas deixando de lado essa conexão com os outros Cloverfields, como uma aventura espacial isolada o filme até que é divertido de assistir; o ponto de partida é interessante (a crise de energia na Terra, o experimento com a "partícula de Deus"...) a história é cheia de ideias surpreendentes, a narrativa é clara (apesar do filme brincar com realidades paralelas, múltiplas dimensões, paradoxos, ele nunca se torna "Nolanesco" demais). Mas infelizmente falta talento no roteiro, na direção, e apesar de algumas boas sacadas, na tentativa de entreter o filme acaba muitas vezes soando infantil e criando vários momentos ridículos que farão até um garoto de 12 anos revirar os olhos (a absurda cena do braço, a surpresa final, etc). Ou seja, não é nenhum Alien (1979) - não chega nem a ser um Vida (2017) - mas pelo menos não dá pra dizer que é entediante.
The Cloverfield Paradox / EUA / 2018 / Julius Onah
NOTA: 5.0
Assinar:
Postagens (Atom)

