sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Eternos

ANOTAÇÕES:

(Os comentários a seguir foram baseados nas notas que fiz durante a sessão.)

- A sequência inicial já deixa a impressão do filme ser meio malfeito, e da Chloé Zhao não ter mão pra esse tipo de cinema (o que já era meio óbvio). A cena na praia tem uma fotografia feia; a ação não é bem coreografada; a escolha da trilha na hora do título é estranha; Angelina Jolie que merecia uma grande entrada já é revelada no meio de outros heróis de forma casual, como uma mera coadjuvante; um simples movimento de câmera que só precisava acompanhar a adaga sendo pega no chão parece desleixado, pois a câmera não acompanha direito a subida; mais pra frente em cenas de diálogo onde não há trilha sonora, ouve-se um som ambiente estranho de fundo, que deixa o filme com cara de produção independente, etc.

- Os Eternos estão há 5 séculos aguardando o retorno dos monstros (Deviants), mas quando finalmente um deles aparece na Terra, em vez do filme criar uma cena impactante, grandiosa, o monstro surge num riozinho em Londres, numa sequência bem esquecível.

- O filme devia ser uma história simples de heróis tentando livrar o mundo dos invasores, mas a narrativa vai ficando extremamente confusa. Vamos pulando de um milênio pro outro, de um continente pro outro, de uma cultura pra outra... não é criado um universo coeso nem uma estrutura clara.

- Muitos atores parecem mal escalados. Poucos convencem como super-heróis ou têm o tipo de carisma certo pro gênero (e quem tem, é mal aproveitado).

- O documentário sendo gravado é um alívio cômico que destrói a seriedade de vários momentos. E o filme fica insistindo no personagem do cinegrafista, que não tem muita graça ou relevância.

- Os filmes de heróis hoje parecem ser os que mais lutam pra não provocar nenhum senso de admiração... Não só nenhum herói consegue se destacar direito pois o foco é todo no esforço coletivo (temos até uma "uni-mente"), como o filme segue as tendências de borrar a linha entre bem e mal, mostrando heróis agindo de forma destrutiva, traindo os outros, criando conflitos internos... E o maior obstáculo deles é o Celestial dentro da Terra, que não é uma criatura má, porém seu nascimento requer a destruição do planeta... Então em vez de um embate claro entre bem e mal, o filme foca mais em dualidades, conflitos de interesse complexos etc.

- A narrativa continua um caos... Uma hora o filme discute a origem do universo, daí do nada estamos em Hiroshima ouvindo um discurso sobre a bomba, depois vamos pra um musical de Bollywood — há uma bagunça de elementos, e às vezes nem sabemos claramente o que é flashback e o que está acontecendo de fato (SPOILER: a Salma Hayek acho que morre umas 3 vezes na história, e quando ela aparece, eu nunca sei se ela usou poderes de regeneração, ou se ela ainda está morta e é um flashback).

- A maneira como o Celestial vai saindo do centro da Terra não faz o menor sentido. Em vez do planeta rachar, é como se ele estivesse emergindo de um líquido, quando na verdade ele já teria que ter destruído todo o manto e a crosta terrestre daquela região antes de chegar na superfície (aliás, o Celestial está pequeno demais pra uma criatura que deveria ter quase o tamanho do planeta... se ele é "só" deste tamanho, dava pra deixá-lo nascer tranquilo que ele não iria destruir o planeta inteiro). Sem falar que foi fácil demais matá-lo (esforço coletivo parece realmente ser a solução pra tudo).

- SPOILER: Alguns auto-sacrifícios no final pra manter a tradição... Pelo menos aqui temos algo menos clichê: um herói que comete um suicídio real, motivado por culpa, em vez de um ato altruísta pra salvar alguém!

- SPOILER: Um pouco anticlimático a Duende abrir mão da imortalidade pra realizar seu sonho de ser humana, mas depois de transformada, o filme mostrá-la numa cena cotidiana, com cara de emburrada, como se nada tivesse mudado (em vez de mostrá-la feliz, vivendo seu sonho).

- Ridículo o Celestial gigantesco surgindo nos céus, pra no fim só dar uma "bronca" nos heróis, e dizer que volta mais tarde pra resolver se irá puni-los.

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Eternals / 2021 / Chloé Zhao

Nível de Satisfação: 0

Categoria F: Anti-Idealismo

Filmes Parecidos: Mulher-Maravilha 1984 (2020) / Capitã Marvel (2019) / O Último Mestre do Ar (2010)

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Marighella

Filme dirigido por Wagner Moura sobre a vida do guerrilheiro comunista Carlos Marighella que foi um dos líderes da luta armada contra a ditadura militar no Brasil nos anos 60. Nos últimos anos vimos diversas histórias parecidas no cinema, como Judas e o Messias NegroMangrove, então os adiamentos na estreia de Marighella fazem ele chegar aos cinemas agora com uma cara de lugar-comum que não é totalmente merecida. Mas parte dessa impressão é também culpa do próprio filme e da caracterização dada ao protagonista, que pra mim pareceu apenas mais um de tantos líderes similares que lutaram pelas mesmas causas nessa época, sem nada de particularmente extraordinário ou diferente (algo que ocorre também em biografias de músicos famosos, que seguem sempre a mesma fórmula: falam do vício em drogas, das relações abusivas, etc.). Essa qualidade genérica é típica também de filmes que querem retratar "mitos" em vez de personalidades críveis (como filmes sobre Jesus) pois o personagem já surge na tela pronto, com seu caráter formado, com uma missão pré-estabelecida, e o espectador assiste a tudo de fora, sem conhecer as motivações e conflitos mais pessoais que movem aquele indivíduo, o que gera menos envolvimento.

Não costumo gostar muito de filmes biográficos e nem de dramas políticos, pois são gêneros que tendem a colocar a função histórica/informativa acima da satisfação do público, então filmes como Marighella pra mim são naturalmente chatos de assistir (sem falar que este é bem longo). Ele é basicamente um relato histórico dos últimos anos do guerrilheiro, e pula de um evento relevante para o próximo de forma meio desconexa, sem grandes ideias narrativas, sem criar suspense, cenas elaboradas, etc. A direção é igualmente funcional; quase tudo é filmado com câmera na mão, reforçando essa ideia de um relato realista, sem rodeios (apesar da produção ser de ótimo nível). Outro ponto negativo pra mim é que este é daqueles filmes que romantizam personagens de caráter duvidoso, onde todo mundo na história parece motivado por ódio, vingança (tanto os "mocinhos" quanto os "bandidos") e não há nada de realmente positivo pra esperar. Desde o começo você sabe que o ápice de "satisfação" do filme será provavelmente um grande massacre, uma cena de tortura difícil de assistir, e que a intenção do diretor é causar indignação na plateia, ganhar respeito através da brutalidade, etc. Então não é um filme pra mim, mas levando em conta os grandes hits do cinema brasileiro como Tropa de Elite e Cidade de Deus, não duvido que faça sucesso, pelo menos entre os que não cancelarem o filme de antemão por conta do teor político.

Marighella / 2021 / Wagner Moura

Nível de Satisfação: 4

Categoria D/C: Não Idealismo (função política/social) / Entretenimento com valores negativos

Filmes parecidos: Judas e o Messias Negro (2021) / Small Axe: Mangrove (2020) / Infiltrado na Klan (2018) / Tropa de Elite (2007)

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Annette

Dirigido por Leos Carax, o mesmo de Holy Motors, que foi uma das minhas principais referências ao escrever a postagem Experimentalismo e Subjetivismo (só por aí já dá pra ter uma ideia do que achei do novo trabalho). O filme (que venceu melhor direção em Cannes) "conta a história" de um comediante de stand-up e de uma cantora de ópera famosa que vivem um casamento conturbado, e têm uma filha chamada Annette (interpretada por uma boneca de madeira sem grandes explicações) que herda o talento vocal da mãe e se torna uma sensação mundial ainda muito pequena. O filme é um musical (com músicas compostas pela banda americana Sparks) e tem elementos de fantasia. Mas não espere boas músicas, bons cantores ou mesmo uma boa história. O propósito aqui (como de costume no cinema francês) é principalmente o de brincar com a linguagem cinematográfica, subverter o gênero, quebrar normas estéticas, etc. O filme não é desprovido de valor de produção — apesar de alguns efeitos trash e das músicas parecerem amadoras, vemos atores de primeira como Adam Driver e Marion Cotillard, a fotografia é decente, etc. Mas isso tudo só serve pra fornecer uma embalagem respeitável ao grande nada que é o filme. Durante a primeira meia hora ainda me diverti com os elementos inusitados, mas passada a novidade, a ausência de história, aliada à pretensão de Carax, pra mim tornaram o filme desinteressante.

Annette / 2021 / Leos Carax

Nível de Satisfação: 3

Categoria D: Não Idealismo (experimentalismo)

Filmes Parecidos: The Square: A Arte da Discórdia (2017) / As Boas Maneiras (2017) / Holy Motors (2012)

Atualizações Pessoais - Novembro 2021

- Asperger:

Em 2017 eu gravei um vídeo sugerindo que eu poderia ter Síndrome de Asperger (uma suspeita levantada por um psiquiatra em 2012), e só pra atualizar quem não me segue nas redes sociais, entre Julho e Outubro deste ano eu passei por uma avaliação neuropsicológica mais completa (que é uma série de testes aplicados por uma psicóloga pra medir suas aptidões e funções cognitivas), e no fim do processo foi descartada a hipótese de Asperger, assim como a de outros transtornos relacionados. Pelo contrário, meu desempenho foi acima do esperado não só nos testes cognitivos, mas também nos de percepção social, nos quais quem tem Asperger não se sai bem. Claro que isso não faz desaparecer os incômodos que me levaram a consultar um psiquiatra em primeiro lugar, mas muda a explicação para esses incômodos (isso tudo me fez pensar que meu psiquiatra de 2012 funcionou como uma espécie de Matrix na minha trajetória pessoal, plantando uma semente de dúvida na minha mente que me faria questionar a validez das minhas percepções com mais frequência a partir dali, rs). 


- Objetivismo:

Embora o objetivismo tenha me trazido inúmeros benefícios e aprendizados, desde o início eu sempre hesitei em me rotular como objetivista, pois a filosofia não consiste apenas de suas premissas mais fundamentais, mas vem atrelada a um pacote enorme de valores e atitudes com os quais nem sempre eu concordei. Essas diferenças não me pareciam grandes demais até uns anos atrás, então não me incomodava que outros me rotulassem assim — mas novos insights e descobertas foram me levando a querer me dissociar do movimento, especialmente nos últimos meses, pois ficou mais claro que minhas divergências não envolvem apenas detalhes superficiais. Então embora eu ainda continue acompanhando alguns intelectuais da área, admirando as realizações de Rand, e mantendo muitos dos mesmos princípios, hoje eu já prefiro enfatizar que não me identifico como objetivista, e não abraço a filosofia em todo seu "pacote". Em Fevereiro de 2020 eu postei um vídeo no YouTube discutindo meu status em relação ao objetivismo, e embora o vídeo seja bem ponderado, hoje ele já estaria um pouco desatualizado. E até passagens do meu livro, onde o objetivismo tem uma influência mais direta, já sofreriam edições caso eu o relançasse hoje, por isso acho importante deixar esse registro.

* Vou deixar disponível abaixo a palestra do Nathaniel Branden "The Benefits and Hazards of the Philosophy of Ayn Rand" (dividida em 4 partes) que mencionei nos comentários:


quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Cultura - Outubro 2021

29/10: Brasil Paralelo: A SÉTIMA ARTE | EPISÓDIO 3 - A teoria do Parasita Pós-Moderno no Cinema

Vendo esse documentário fiquei quase com a impressão de que alguém na Brasil Paralelo estava lendo meu blog e adaptando as ideias para o público deles (ou que eu devo ser muito alienado, e as coisas que escrevo aqui são muito mais óbvias e mainstream do que eu imaginava). Esse episódio discute várias coisas que venho apontando aqui há anos (falam da Elsa, de Star Wars: Os Últimos Jedi, da decadência do Oscar, da subversão de símbolos como Cinderela/Superman como tática, etc.). Mas claro que a perspectiva conservadora resulta em muitas diferenças também. Por exemplo: enquanto eu falo de autossacrifício como uma das tendências negativas do cinema atual, eles já falam como se fosse um valor positivo e importante (o que me fez pensar que eles nem deveriam então estar tão insatisfeitos com o cinema, já que mensagens cristãs estão por toda parte). Outra diferença interessante é quando eles criticam a tendência dos filmes de focarem na psicologia dos personagens (aquilo que chamo de "cura emocional" no texto sobre 1999). Como os conservadores tendem a ser religiosos, eles não têm como falar que o problema aqui é o "declínio da objetividade". Então eles jogam a culpa no individualismo, na busca da felicidade, sugerindo que o certo seria os personagens aprenderem a servir o outro, a se sacrificar por coisas mais importantes que suas próprias necessidade (o que não bate com meu conceito de herói). Mas até nessas diferenças, achei surpreendente o quanto o debate fica ao redor dos mesmos pontos.


27/10: Why People Don’t Want To Hear or Speak The Truth — Teal Swan

Há uns 2 anos que acompanho a Teal Swan, que é uma guia espiritual controversa mas que eu acho uma das mulheres mais fascinantes no YouTube — especialmente quando ela discute assuntos ligados a relacionamentos, psicologia, emoções etc. (o conteúdo esotérico que eu não acredito eu pulo e fico com o que me interessa). Achei curiosa a semelhança deste novo vídeo dela com meu texto Racionalizações.


14/10: O Hóspede Americano

Vi 2 episódios da mini-série da HBO Max O Hóspede Americano, dirigida pelo brasileiro Bruno Barreto, que mostra a expedição de Theodore Roosevelt pela Amazônia no início do século passado. Barreto diz ter se interessado pela história por causa da "complexidade" de Roosevelt, que comparado aos políticos polarizados de hoje, não seria nem de esquerda nem de direita, algo que ele parece achar raro e admirável (eu já acho esse tipo de inconsistência ideológica a coisa mais comum na política, mas enfim). A série é decente, tem um conteúdo surpreendentemente intelectual, mas o retrato ambíguo de Roosevelt (que não é nem celebrado, nem condenado, mas mostrado de forma meio fria, imparcial) torna difícil de se importar pelo personagem e entender qual o propósito da história. Talvez eu dê mais uma chance e veja o 3º episódio que saiu esta semana.


4/10: Round 6 / Squid Game

Vi só o primeiro episódio pra entender do que se tratava. Achei divertida a sequência final (embora não seja nenhuma novidade - é apenas uma variação de inúmeros filmes com "jogos mortais"), mas ela demora muito pra acontecer, e o resto da história não me interessou. Me pareceu basicamente um Parasita num formato mais pop, levando as mesmas mensagens políticas para as grandes massas, mas sem os requintes cinematográficos que tornavam o filme interessante.

domingo, 24 de outubro de 2021

Duna

Passei boa parte da sessão encantado com o visual, com a escala da produção, com o som poderoso, e realmente querendo aproveitar o filme. No IMAX em particular, o espetáculo audiovisual foi quase o suficiente pra prender minha atenção e fazer o filme parecer bom — como costuma ocorrer com as produções do Christopher Nolan também — e diante dessa "opressão sensorial" (regida muitas vezes por Hans Zimmer), avaliar os méritos reais do filme exige uma atenção maior (imagine um general importante gritando na sua cara, e você querendo julgar o conteúdo de suas palavras primeiro pra decidir se irá respeitá-lo ou não).

Assim como Nolan, Denis Villeneuve é um dos diretores que me arrastam com mais facilidade pro cinema hoje — não por eu gostar sempre de seus filmes, mas por ele ser dos poucos cineastas autorais trabalhando em grandes produções, tentando trazer qualidade artística pro cinema comercial. E embora eu veja muito de Pseudo-Sofisticação na técnica de Villeneuve (o tom sombrio e os toques subjetivos são constantes) o cinema de hoje é tão carente desta combinação que acabo vendo seus filmes com boa vontade.

Mas como costuma ocorrer, lá pela 1 hora e pouco de projeção, a ausência de conteúdo dramático e de uma boa trama começou a diminuir um pouco meu entusiasmo. Eu nunca fui fã de sagas como O Senhor dos Anéis, onde muito da energia é gasta na construção do universo, em apresentar todos os detalhes e regras de um mundo fantasioso. Isto pra mim deveria ser apenas os entornos de uma história, detalhes que vão sendo apresentados em função da trama, pra fazer o universo parecer crível, mas que não deveriam substituir a trama. A trama pra mim precisa ser uma linha de ação simples, baseada em objetivos claros, conflitos envolventes, apresentados logo no início — algo que não temos em Duna, que parece ver a fantasia quase como um fim em si mesmo. O filme acaba parecendo uma grande introdução para a parte 2, uma série de discussões burocráticas que vão nos informando sobre aquele mundo, intercaladas por algumas sequências de ação grandiosas para o filme não ficar muito parado (lembrei um pouco do Snyder Cut, que mesmo com uma duração enorme, ainda precisou acabar com a promessa de que "agora sim as coisas vão começar").

O que falta em grande parte aqui é um protagonista menos passivo, mais motivado, com obstáculos sérios e objetivos atraentes para perseguir (nada na história parece partir de um desejo autêntico dele, e o pai deixa claro que se ele não estiver a fim de embarcar na jornada, que não há problema algum). Meu texto As 5 Histórias Idealistas dá uma boa ideia de qual o problema com esse tipo de narrativa, onde as missões não estão conectadas aos desejos da plateia e às paixões do herói (o filme poderia ter seguido as Histórias 2 ou 3 pra ser mais envolvente, mas não o faz). E embora Timothée Chalamet esteja muito bem como Paul Atreides, o personagem é um pouco distante e genérico. O arquétipo do "Escolhido" é muito popular nesse gênero de filme, mas se você não acrescentar alguns traços de caráter mais específicos e carismáticos, o arquétipo acaba não gerando identidade o bastante pra dar vida ao personagem (no final, quando Paul toma uma decisão importante que definirá a parte 2, sua atitude acaba parecendo forçada, vinda do nada, até porque nada nele parecia precisar de uma conexão com o mundo dos Fremen — ter "visões" não é o mesmo que ter uma necessidade psicológica/emocional).

Essa superficialidade/genericidade caracteriza muito do filme, incluindo a trama e os conteúdos políticos/filosóficos. Nessa esfera, o filme acaba lembrando um pouco Avatar tematicamente (ou Avatar lembrando Duna, levando em conta o livro de Frank Herbert), ao discutir a exploração humana de recursos naturais, o tratamento dado a povos indígenas, etc. Se o ambientalismo de Avatar já era meio maçante mesmo diante da exuberância de Pandora e da dependência dos Na'vi da floresta, os dilemas éticos da exploração de Arrakis já são menos compreensíveis, considerando que o planeta é um enorme deserto, hostil à vida (o que não deve impedir o público atual de aprovar a mensagem, afinal qualquer interferência do homem civilizado na natureza é considerada negativa hoje, mesmo quando a "vítima" é areia). Entre os valores questionáveis no filme, há a velha romantização de culturas primitivas (que aqui vem com ares islâmicos), e uma celebração de tudo o que é místico e esotérico. As forças do herói acabam não sendo muito bem dramatizadas no filme por conta dessa inclinação mística. Paul não é como Neo de Matrix, que começa como um homem comum e aos poucos vai evoluindo, adquirindo habilidades visíveis, até se provar o "Escolhido". Ele é mais como Harry Potter, um garoto que já nasceu com um talento especial, mas que nunca se torna palpável no filme — em geral Paul parece se livrar de enrascadas por sorte, por alguma força vaga, ou pela ajuda de alguém, o que deixa as cenas de ação menos poderosas do que poderiam ser (pense em como a sequência do vôo na tempestade de areia é resolvida sem grandes sacadas e sem realmente explorar as virtudes de Paul).

O elenco é todo muito bem escalado. Jason Momoa traz um toque de leveza muito bem-vindo ao filme, que em geral é excessivamente sério. Charlotte Rampling está assustadora em suas breves aparições. E Rebecca Ferguson é a que mais se destaca na minha opinião, roubando a cena em diversos momentos. A cena na nave onde ela usa seus poderes pra tentar escapar é um dos pontos altos do filme — o que me conscientizou do quão pouco excitante é a narrativa de modo geral; esta cena nem é tão surpreendente ou intensa assim, mas perto da inibição emocional do resto do filme, acaba sendo um momento de destaque.

Apesar desses elementos que não me agradaram, o filme no fim conseguiu me transportar pra um lugar fascinante, com personagens atraentes, e isso me deixou com uma lembrança positiva da experiência. Além disso, a adaptação era um sonho de garoto de Villeneuve, e toda vez que alguém tem o privilégio de poder gastar uma fortuna pra realizar um sonho, de colaborar com os melhores profissionais da indústria, e tem habilidade o bastante pra realizar sua visão, é um filme que eu vou ver com interesse.

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ADENDO (26/10)

Eu nunca li o livro Duna, e esses dias revendo a versão de 1984 de David Lynch, me dei conta das similaridades da história com a de Lawrence da Arábia. Dando uma rápida uma pesquisada na internet, vi que de fato esta tinha sido uma das inspirações de Frank Herbert ao escrever o livro. E só pra reforçar minha impressão de que um dos pontos fracos do filme de Villeneuve tem a ver com ele não se enquadrar nas 5 Histórias Idealistas, reparem como Lawrence não só se enquadra, como se enquadra em 3 delas. A história de Lawrence já é satisfatória do ponto de vista de um homem que é visto como fraco/inadequado para certa missão, e evolui para se provar um líder mais impressionante do que todos esperavam (História 2). Ela também funciona como a história de um homem que sai de um ambiente familiar/comum, e vai pra um lugar fantástico viver uma enorme aventura no deserto (História 3). E ela também funciona como a história de um homem com uma "falha trágica" numa jornada autodestrutiva (História 5). Em Duna (2021), como o protagonista já parece o "escolhido" desde o início, como ele já parte de um mundo fantástico cheio de magias, e como apenas na parte 2 o personagem deverá revelar um lado obscuro de sua personalidade, o filme não tem tantos contrastes e não cumpre direito nenhum desses arcos narrativos que costumam ser necessários pra tornar uma história satisfatória.

Dune: Part One / 2021 / Denis Villeneuve

Nível de Satisfação: 7

Categoria B/C: Idealismo impuro (alguns problemas estéticos e valores negativos)

Filmes Parecidos: Mad Max: Estrada da Fúria (2015) / Interestelar (2014) / Star Wars: O Despertar da Força (2014)

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Halloween Kills: O Terror Continua

Poucas vezes vi uma franquia mudar tanto de tom de um episódio pro outro, quando o diretor e os produtores permaneceram os mesmos. O Halloween de 2018 tinha sido um acerto, respeitado o original, e agradado à maioria das pessoas. Este agora já é daqueles que muitos vão adorar, e muitos vão odiar. E o que mudou basicamente é que, além do roteiro ser muito mais experimental e problemático, alguém parece ter decidido que o filme devia acompanhar as tendências do gênero e aumentar a dose de "humor", de autoparódia (ler: Idealismo Corrompido), incluir toques ridículos para os "fãs" darem risada, além de inserir comentários políticos na narrativa (há uma multidão revoltada na história que serve pra discutir a psicologia do eleitor de extrema-direita). Não é mais um filme de terror honesto, cujo principal propósito é entreter o público... Agora virou algo mais "conceitual", cujo foco é a "esperteza" do cineasta em brincar com o gênero e fazer comentários irônicos nas entrelinhas (às custas da história).

Procurei algumas entrevistas com o diretor David Gordon Green pra entender sua proposta, e estranhamente não achei nada dele comentando sobre essa mudança; como se ele tivesse tentado apenas fazer uma continuação normal pro primeiro filme. Mas há coisas tão bizarras na narrativa que não é possível que tenham acontecido acidentalmente (minha impressão é que o produtor Jason Blum, que tem uma atitude bem mais cínica que Green, seja a principal influência por trás disso). 

O filme já causa estranhamento logo no início, quando em vez de ir direto para a cena do incêndio que encerra a parte 1 (o que seria o natural), gasta diversos minutos em sequências esquisitas que parecem não ter nada a ver com a história: longos flashbacks dos anos 70 mostrando a relação do policial Hawkins com Michael Myers, algo que nem terá um papel tão importante na narrativa; depois vamos para um bar onde sobreviventes de Myers estão celebrando os 40 anos de sua prisão (há muitas referências a outros filmes e fan-services fora de contexto); só depois vamos ver que Myers sobreviveu ao incêndio e continuará a matança. O problema é que mesmo depois disso o filme não parece começar. Há um senso de bagunça e de falta de direção na narrativa que vem muito do fato do filme não ter um protagonista. Naturalmente, se Jamie Lee Curtis está no filme, isso faz com que o espectador fique o tempo inteiro aguardando ela tomar as rédeas da história e partir pra ação (isso faria o filme "começar"). E um dos grandes crimes do roteiro é que isso nunca acontece. Ela passa praticamente o filme todo num hospital, como uma personagem coadjuvante (uma ideia péssima que parece só existir pra criar um paralelo com Halloween 2 de 1981), e em 1 hora de filme, ela ainda não está fazendo nada, achando que Michael continua morto. O filme não assume que ela será coadjuvante, substituindo-a por uma outra protagonista e criando um outro foco de interesse... A história fica simplesmente sem uma âncora, alguém pra gente se importar, torcer, seguir o objetivo. Ficamos acompanhando diversos personagens menos interessantes espalhados pela cidade, enquanto Michael comete seus assassinatos, mas falta um centro dramático pra história, uma linha de ação coesa.

Esses problemas já seriam suficientes pra tornar o filme caótico e frustrante, mas além disso, há todo o lance do "humor" e da tentativa péssima de dar um ar mais alternativo/cult pro filme... Vemos isso em momentos óbvios como o da mulher atirando na própria cabeça, ou nas cenas envolvendo o casal gay caricato (a própria Jamie Lee Curtis, em vez de heroica, está com um ar ligeiramente ridículo aqui). Há também vários detalhes menores inseridos pra dar um tom excêntrico à produção, algo que não fazia parte do outro filme e nem do clássico: a ária “Fígaro” tocando na cena do carro; a cena do boneco de ventríloquo que nem sei pra que existiu; a sequência longa e surrealista da multidão no hospital, etc. É como se o cineasta estivesse mais interessado em mostrar que tem personalidade do que em fazer um filme de verdade. Só que é uma personalidade forçada, inautêntica, que em alguns momentos parece querer imitar o estilo de filmes dos anos 70/80 (que de fato eram mais livres e ousados em estilo), mas acaba refletindo apenas a pobreza artística e os maus valores do cinema de hoje (não diferente de Freaky, MalignoRua do Medo e outras produções recentes que seguiram essa linha).

Halloween Kills / 2021 / David Gordon Green

Nível de Satisfação: 2

Categoria C/F: Idealismo corrompido / toques de Anti-Idealismo

Filmes Parecidos: O Predador (2018) / Rua do Medo (2021) / Freaky - No Corpo de um Assassino (2020)

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

O Último Duelo

Novo filme de Ridley Scott, que é o primeiro roteiro que Matt Damon e Ben Affleck (que também atuam no filme) escreveram juntos desde Gênio Indomável. A história se passa na França em 1386 e acompanha a rivalidade entre 2 amigos (Damon e Adam Driver) que começa por causa de uma disputa de terras, mas acaba evoluindo pra uma traição num nível mais pessoal. O filme é dividido em 3 capítulos, e cada um reconta a mesma história por um ponto de vista diferente (remetendo ao que discuti recentemente na crítica de A Menina que Matou os Pais). Apesar de haver um duelo importante na história, está mais pra um drama do que pra um épico de ação tipo Gladiador. Algumas cenas de batalha foram incluídas, mas parece que só pra não frustrar as expectativas do público em relação ao gênero, pois elas não são fundamentais para a trama.

Achei a história bem interessante, principalmente depois que é estabelecido o conflito entre o trio principal, e versões alternativas do ocorrido começam a ser apresentadas. SPOILER: Uma coisa curiosa (e que pra mim enfraquece um pouco a narrativa) é que as versões não são radicalmente diferentes umas das outras... Seria mais natural que o personagem do Adam Driver fosse apresentado como inocente em sua versão, e culpado na versão de Marguerite - e que a verdade fosse revelada para o espectador só mais para o final. Mas nas duas ele é claramente culpado, o que torna o filme menos previsível, mas tira um pouco do dilema moral e elimina a possibilidade de grandes surpresas.

Outra coisa ligeiramente insatisfatória é que embora o personagem de Damon esteja lutando por justiça, por uma boa causa, qualquer vitória no contexto horrível da Idade Média não parece significar uma vitória de verdade (aliás, o sistema político da época é tão bizarro que qualquer pessoa sensata deve sair da sala um defensor dos direitos individuais e do estado laico). Não é um mundo onde possam existir conceitos como justiça, provas, direitos... Ganhando a luta ou perdendo, ficamos com a impressão de que ninguém de fato conhecerá a verdade, que no fim tudo terá sido resolvido pela força bruta, com base em sorte, e que também não há um futuro realmente feliz para ninguém na história (independentemente do incidente, o casamento de Damon já não era positivo nem baseado em amor).

Mas essas são questões que não comprometem o aproveitamento da história. O roteiro é fundado em bons conflitos, tem um desenvolvimento interessante, e o filme como um todo é muito bem realizado. Ridley Scott está em modus operandi, sem grandes ideias ou esforços extras na direção, mas como a história é sólida e os atores/personagens são bons (gostei particularmente do Affleck loiro), sua competência habitual já é o suficiente pra fazer o filme funcionar.

The Last Duel / 2021 / Ridley Scott

Nível de Satisfação: 8

Categoria A/B: Idealismo com ênfase no negativo

Filmes Parecidos: Gladiador (2000) / As Bruxas de Salém (1996) / O Leão no Inverno (1968)

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Análise musical - They Don't Care About Us

No meu texto Idealismo na Música, o ideal seria que eu tivesse feito uma análise de uma música de fato. Mas como é complicado fazer isso através de texto, acabei incluindo apenas aquela análise do clipe Beat It. Mas como aqui não tenho essa limitação, resolvi gravar este vídeo como complemento, que não chega a ser uma análise da música como um todo, apenas de um aspecto dela, mas um aspecto fundamental que pode começar a dar uma noção mais clara de como os princípios Idealistas se traduzem pra essa outra mídia. Lembrando que gosto musical é algo bastante pessoal e eu não tenho nenhum desejo de influenciar ninguém a gostar dos mesmos artistas e músicas que eu. Mas acho que a discussão pode ser útil e levar as pessoas a apreciarem melhor o trabalho de outros músicos também.




(Uma coisa que acabei não enfatizando no vídeo é o fato de que o clímax aqui não ocorre no refrão da música como de costume, e sim neste retorno ao primeiro verso. Após o bridge, a maioria das músicas segue para o refrão final, que costuma ser o trecho mais aguardado da composição, algo que não ocorre aqui. Então acaba sendo uma ótima ilustração de como a estrutura musical pode ser diversa, quebrar regras, e ainda assim funcionar.)

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Sem Tempo Para Morrer

Gostei do filme. Achei melhor que 007 Contra Spectre e mais próximo da qualidade e do tom de Skyfall. Apesar da pressão externa que deve existir, essa é uma das poucas franquias que conseguiu atravessar a última década sem perder sua essência. A produção é de alto nível (fotografia, direção de arte, som, música, edição — tudo é state-of-the-art), e me fez pensar no quão prazeroso (e raro) é ir ao cinema hoje e ver uma super-produção realmente caprichada visualmente, com cara de "filme de verdade", que não tenha aquela estética artificial de videogame que domina os blockbusters (realmente vale a pena ver na tela grande).

Há um spoiler mais pro final que foi a única coisa meio duvidosa que vi no filme, que provavelmente é reflexo do pessimismo de nossos tempos. Mas até isso foi feito de maneira mais inteligente que de costume, e preservando a estatura do herói.

No Time to Die / 2021 / Cary Joji Fukunaga

Nível de Satisfação: 7

Categoria A/B: Idealismo com alguns toques negativos