quinta-feira, 22 de abril de 2021

Abril 2021 - outros filmes vistos

Passageiro Acidental (Stowaway / 2021): 8.0

Um dos melhores filmes sobre situações "lifeboat" que lembro ter visto. O roteiro parte de uma reviravolta interessante, mas diferente de outros do gênero, que não costumam ter muito pra mostrar depois dessa primeira sacada, esse aqui consegue a cada 20 minutos escalar a situação pra um novo patamar, tornando a situação cada vez mais envolvente, elevando o nível do suspense, sem nunca parecer forçado ou desrespeitoso com a inteligência do público (SPOILER: a única coisa que me pareceu mal explicada foi a necessidade da morte de um dos personagens, pois não ficou claro por que ele teve que se expor à tempestade solar, e não podia esperar umas horas — mas como é algo que acontece mais pro final, não chega a abalar estrutura geral da trama). O filme também não cai no erro comum de se tornar apenas um estudo sobre a dor, focar demais no sofrimento — ele prende a atenção com base nos dilemas morais, no suspense intrínseco à situação, e na nossa curiosidade sobre as possíveis soluções para o problema, sem ter que fazer os personagens começarem a agir de maneira irracional, entrarem numa briga interna desagradável. A nave giratória presa por cabos é um conceito incrível, e vira palco pra uma das sequências mais tensas que vi recentemente (embora a ação do filme seja pontual e minimalista, pra mim é 10x mais impressionante do que algo como King Kong e Godzilla se esmurrando e destruindo arranha-céus). Palmas para o brasileiro Joe Penna (que ficou famoso nos primórdios do YouTube como "Mystery Guitar Man") que com menos recursos, deu uma aula em muito diretor consagrado que se aventurou por este gênero nos últimos anos.



Amor e Monstros (Love and Monsters / 2020): 7.0

Num mundo infestado por monstros (animais de sangue frio que sofreram mutações e devastaram o planeta) um garoto parte sozinho numa jornada pra tentar se reunir com sua ex-namorada. Apesar de alguns toques de Idealismo Corrompido (no tom não-sério da aventura) o filme é surpreendentemente positivo e bem feito. Dylan O'Brien está perfeito no papel — ele carrega aquela mistura especial de vulnerabilidade e força que é característica dos bons astros, e consegue fazer o personagem ir de um semi-loser no início da história a um leading man respeitável mais pro fim. O roteiro é bem estruturado, tem acontecimentos interessantes ao longo de todos os atos, a narrativa é clara (coisas básicas, mas que temos que aplaudir hoje em dia), e o filme evita a maioria dos "pecados" do entretenimento atual — não chuta o balde do realismo só por ser uma fantasia, se esforça pra ser original, criar conceitos interessantes de monstros (não é a 20ª adaptação de algo existente), é sobre ações concretas (não cai no subjetivismo/simbolismo), nem fica apelando para o sombrio/melancólico/violento, apesar de se passar num contexto pós-apocalíptico. Pelo título e pela premissa, estava esperando algo bem mais "tongue-in-cheek" e carregado de cinismo (como Zumbilândia), então foi uma boa surpresa.



Them (série / 2021) - 1º episódio

Achei que tinha algo a ver com o Jordan Peele, não só por "Them" parecer uma resposta a "Us", mas também pela ideia (já batida a essa altura) de usar o terror de maneira simbólica pra discutir questões raciais. Mas depois vi que Peele não tem nada a ver com a série. Acho curioso que o cinema "político" hoje tenha se tornado tão mainstream que esteja adotando táticas de marketing que antes eram mais associadas a chicletes e produtos industrializados de segunda categoria. Só vi o 1º episódio pra saber do que se tratava e achei detestável, além de altamente racista em sua atitude. A produção é de boa qualidade, alguns momentos de terror são eficazes, mas com base no piloto (não sei que rumo a série toma depois), pra mim ficou claro que o foco aqui não é o suspense, a diversão, nem mesmo qualquer propósito educacional, e sim a motivação por ódio e vingança que está se tornando cada vez mais explícita no entretenimento atual (lendo este artigo, descobri não só que "race horror" e "black trauma" são considerados gêneros de filmes, como o termo "black trauma PORN" já é usado pra descrever seus representantes mais vulgares).



Emma. (2020): 4.0

Em adaptações, uma das melhores formas de captar a intenção do cineasta é observando as alterações mais marcantes feitas em relação à obra original ou às adaptações mais famosas. Aqui, a primeira que notamos logo de cara é a decisão de colocar uma atriz que não é bonita pra interpretar uma personagem que necessariamente precisa ser bonita na história (a própria Anya Taylor-Joy reconheceu isso e se sentiu desconfortável pra fazer o papel). Outro detalhe curioso foi a decisão de incluir uma hemorragia nasal durante a cena da proposta de casamento, quebrando o clima da cena mais romântica do filme (2 toques claros de Anti-Idealismo). Costumo ficar entediado com romances de época e provavelmente não seria fã nem de uma adaptação excelente de Emma, que é uma história em grande parte Naturalista, focada em superficialidades, em descrever os costumes de uma determinada época, onde os eventos mais "dramáticos" são coisas como alguém recusar uma dança num baile, ou dizer algo ligeiramente rude num piquenique. A protagonista não tem grandes paixões, propósitos, conflitos pessoais... Parece uma garota desocupada que fica interferindo na vida dos outros por falta do que fazer. A história é vista como uma comédia, mas sinceramente não consigo ver humor algum aqui — os atores estão o tempo todo arregalando os olhos, fazendo expressões excêntricas ao som de uma trilha "engraçadinha", mas nada do que está acontecendo é de fato cômico. Enfim — pra continuar no tema das últimas críticas — me parece mais um caso de cineastas inexperientes (tanto a diretora quanto a roteirista são estreantes em longa) nos trazendo uma versão piorada de uma história antiga.



Fúria Incontrolável (Unhinged / 2020): 5.5

Por acaso revi Encurralado (1971) um dia antes deste filme, então foi curioso (e frustrante) ver como uma premissa similar foi desenvolvida 50 anos depois (ambos os filmes são sobre uma pessoa comum que passa a ser perseguida por um motorista psicopata após um desentendimento bobo no trânsito). O filme funciona como uma distração passageira, prende a atenção minimamente, mas a falta de inteligência na trama, a protagonista fraca, e os toques grotescos de violência pra mim tornaram a experiência um tanto irritante e incômoda. Kubrick disse uma vez: "Tudo já foi feito. Todas a histórias já foram contadas. Todas as cenas já foram filmadas. Nosso trabalho é fazê-las um pouco melhor." Mas vendo Fúria Incontrolável ou um filme como Fuja (que comentei abaixo), a impressão que fica é quase a oposta... Que o "trabalho" agora dos cineastas tem sido descobrir como contar as velhas histórias da maneira mais preguiçosa e econômica possível, fazendo apenas o mínimo necessário pra atrair o interesse do espectador casual, de inteligência mediana, que nunca viu os clássicos, que no fim é quem garante a bilheteria (pra que se esforçar cada vez mais se é possível obter o mesmo retorno financeiro com menos?). É como se todo o conhecimento cinematográfico acumulado ao longo do último século tivesse sido perdido, e as pessoas estivessem tentando reaprender a contar histórias partindo do zero, do nível amador mais uma vez, ignorando tudo o que já foi feito no passado.



Fuja (Run / 2020): 6.0

Suspense sobre uma garota paraplégica que começa a suspeitar das intenções de sua mãe (Sarah Paulson), sua única cuidadora. O filme é obviamente inspirado em Louca Obsessão (tem até uma personagem chamada Kathy Bates), mas apesar das boas referências e das boas intenções, o roteiro é cheio de clichês (às vezes parece mais um plágio do que algo simplesmente inspirado pelo filme de 1990) e diálogos ruins que vão empobrecendo a produção aos poucos ("Você não fez isso por mim, você fez isso por você!"). A atriz principal é esforçada, mas não tem star quality pra carregar o filme (depois fui ler que ela foi escalada pro papel por ser de fato paraplégica — o que ilustra o problema que discuti no texto sobre diversidade). Diverte até certo ponto, mas não chega a ser um acerto como foi O Homem Invisível (2020).


quarta-feira, 21 de abril de 2021

A Caminho da Lua

(Os comentários a seguir foram baseados nas notas que fiz durante a sessão.)

- Inesperado ser um musical. Esse estilo tradicional de musical não combina em nada com os toques Naturalistas / Anti-Idealistas do resto da história: a protagonista é uma menina meio loser, insegura, de aparência simples, há também um foco no sofrimento, nas frustrações e problemas de pessoas comuns.

- O personagem do irmão consegue ser ainda mais deprimente que a menina — em vez de um sidekick pra uma heroína, vira praticamente um sidekick pra um sidekick.

- Não é nada convincente a ideia de que esta garotinha conseguiria construir um foguete, nem mesmo um foguete de brinquedo. Quando ela pega o foguete e consegue decolar pro espaço, o filme admite que a aventura é uma grande bobagem pra não ser levada a sério (repare que tudo que é ligado a sofrimento no filme é mais convincente — a perda da mãe, as dores e os problemas familiares — agora tudo que tem a ver com capacidade, otimismo, alegria, é feito pra parecer uma fantasia assumidamente tola e sem sentido).

- O universo da lua é mal elaborado, uma salada de más ideias... A Pixar, com todos os seus problemas, pelo menos consegue sempre criar universos coesos, cheios de conceitos inteligentes, elementos e criaturas que parecem pertencer organicamente a um mesmo espaço. Aqui é uma bagunça... A menina chega na lua e dá de cara com aqueles dragões típicos da cultura chinesa, mas daí logo em seguida tem um show pop super americanizado que já destoa dessas tradições (a artista está mais pra uma Cardi B do que pra algo que remeta à China). Depois vão surgindo vários bichos aleatórios — coelhos, sapos gigantes, umas galinhas meio Angry Birds, criaturas fosforescentes — que em termos de estilo não parecem pertencer ao mesmo filme.

- A garotinha Fei Fei entra naquela competição enorme pra encontrar o tal do presente, e assim conseguir a foto que tirou com a Chang'e pra mostrar pro pai. Mas por que a foto servirá como prova de que a Chang'e é real? Não poderia ser uma foto da Fei Fei com uma mulher qualquer? Fica difícil se importar pela história quando tudo no roteiro é tão bobinho e mal fundamentado.

- A cena do ping pong é uma das mais aleatórias do filme... O roteirista deve ter pensado: ping pong é popular na China (embora seja uma invenção da Inglaterra) então vamos enfiar uma partida aí de algum jeito!

- O humor e todos os beats cômicos são baseados em clichês, parecem tirados de um catálogo desgastado de expressões, ações, reações e one-liners engraçadinhos para filmes infantis.

- Tudo é emocional/subjetivo como descrevi no texto 1999 e o Declínio da Objetividade. Durante o filme você não acredita nas ações, no ambiente físico em que a garotinha está... Parece tudo uma representação simbólica de sentimentos. Os personagens estão boa parte do tempo flutuando em espaços indefinidos, cercados de bolhas com cores e formas fluidas, perseguindo outros objetos de identidades elásticas, tudo numa eterna busca pela "cura emocional".

- A protagonista tem o "super poder" de atravessar a parede e entrar na "Câmara da Extraordinária Tristeza" pra ir confortar a Chang'e... Um lugar "especial" onde apenas os deuses são capazes de entrar. Ou seja, não são suas forças e suas virtudes que te dão acesso ao mundo dos deuses... mas seu sofrimento! A protagonista é especial pois ela sofre muito...

- No começo a Fei Fei detestava o novo irmão, e o filme tentou construir essa narrativa pra gente torcer pra ela aceitá-lo e se emocionar no final quando os dois se abraçam. Mas o garoto continua uma figura tão patética quanto era no início... O conceito de "amor" aqui não é baseado em valores positivos — mas em pena, sacrifício, aceitar fraquezas.

- SPOILER: Reparem que tanto a Chang'e quanto a Fei Fei tinham desejos concretos que elas achavam que trariam a felicidade (Fei Fei não queria que o pai se casasse, Chang'e queria se reencontrar com seu grande amor) mas no fim nenhuma das duas consegue o que quer. A chave como sempre está na "cura emocional", na aceitação, em saber aceitar a dor, em não se apegar a nada externo, especialmente a conceitos antiquados como "finais felizes".

- SPOILER: A cena na mesa de jantar onde Fei Fei observa sua nova família com um olhar de aceitação é deprimente. As pessoas à mesa parecem estranhos completos, como se ela tivesse sentado numa mesa por engano em algum restaurante. O filme finge que a mensagem é "aceite as mudanças", quando na verdade a mensagem é "aceite o não ideal, o medíocre". Por exemplo, em A Noviça Rebelde, também temos crianças aceitando uma "nova mãe" na família. Porém a história é contada de uma forma que ao final, essa mudança parece a realização de um sonho para elas. A nova mãe promete tornar a vida delas muito mais rica e divertida do que elas jamais imaginaram. Já aqui, não há essa intenção de mostrar que mudanças podem ser pra melhor, que elas podem tornar sua realidade ainda mais satisfatória, mais próxima do ideal. O foco está na aceitação, na conformidade, em dizer que o passado já foi, que aquela felicidade que você conheceu não pode mais existir, portanto é hora de aceitar os "novos tempos", aceitar o "outro", o "diferente", e se desapegar de seus valores ultrapassados.

Over the Moon / China, EUA / 2020 / Glen Keane, John Kahrs

NOTA: 2.5

sábado, 3 de abril de 2021

Godzilla vs. Kong

(Esta crítica está no formato de anotações - em vez de uma crítica convencional, os comentários a seguir foram baseados nas notas que fiz durante a sessão.) 

ANOTAÇÕES:

- Em menos de 1 minuto, King Kong já é totalmente revelado sem nenhum drama ou suspense, e além disso agora ele ganhou um verniz meio Deadpool/Guardiões da Galáxia, surgindo ao som daquela música retrô irônica, coçando a bunda ao "levantar da cama", etc. (Idealismo Corrompido já saindo de arrancada.)

- Pra quem leu meu texto sobre 1999, repare na cúpula estilo O Show de Truman ao redor da Skull Island: antigamente os filmes ainda eram sobre pessoas normais vivendo em realidades artificiais; agora já temos o King Kong descobrindo que seu universo é ilusório (!).

- O fato do empresário super-rico ser o vilão é um desses clichês anti-capitalistas comuns nos filmes. É algo tão usado que nem sempre revela uma motivação política por trás da história (MM84 acho que tinha, esse aqui nem tanto, parece mais uma repetição de clichês).

- A primeira aparição do Godzilla também é totalmente repentina, sem drama, sem preparo... O filme não tem nenhuma intenção de criar "awe".

- A "ciência" por trás da história é bem nonsense. Por que uma "inversão gravitacional" iria esmagá-los? Fica mal explicado também por que eles precisam ir até o centro da Terra, por que essa seria a única forma de combater o Godzilla. O Godzilla de fato é uma ameaça? Vai destruir o mundo? Ou esse ataque foi algo pontual, pois ele foi provocado? Quais os riscos envolvidos pro planeta? Nada é bem estabelecido, então embarcamos na história sem entender direito a necessidade de tudo.

- Divertida a ideia do King Kong se comunicar via linguagem de sinais. Pena que o filme não consegue criar boas cenas/reações nesses momentos de surpresa.

- O compromisso com realismo do filme é menor que zero. A batalha no mar é um absurdo após o outro (os navios capotam e continuam navegando normalmente, conseguem aguentar os 2 monstros lutando em cima deles). Filmes de aventura/fantasia sempre foram exagerados, mas costumavam ser exageros que partiam da realidade (o cúmulo da forçação nos anos 90 eram cenas como a do ônibus de Velocidade Máxima conseguindo saltar o vão da ponte)... Aqui é como se os cineastas tivessem crescido num universo de video games, nunca tivessem conhecido o mundo real, então os exageros já fossem feitos em cima de um referencial de games, sem nenhum lastro mais na realidade.

- Não é uma ideia nova, mas acho legal o conceito da Terra Oca, eles descobrindo uma espécie de "Pandora" no centro da Terra, etc. Mas claro que tudo é mal aproveitado, há vários detalhes meio bobos... Por exemplo: como é que existe um Sol no centro da Terra?

- O trio da Millie Bobby Brown e os 2 garotos é péssimo. Coisas assustadoras estão acontecendo, e eles ficam fazendo piadinhas em tom casual, comentários do tipo "Bitch, whaaaaat?", como se nada daquilo realmente estivesse acontecendo, fosse tudo um jogo.

- O Godzilla solta aquele raio da boca e faz um buraco até o centro da Terra, o que já é difícil de comprar... A gente acha que é pra ele descer até lá e ir atrás do King Kong (aliás, como ele saberia onde está o Kong?), mas daí é o King Kong que misteriosamente consegue escalar pelo buraco e sair em Hong Kong em poucos minutos (pelo visto apesar da boca do Godzilla ser relativamente pequena, o raio faz um buraco de dezenas de metros de diâmetro, onde caberiam vários King Kongs).

- Acho desagradável ver os 2 lutando e destruindo uma cidade tão bonita — estou com mais pena de Hong Kong que do King Kong. O filme nem faz referência às milhares de pessoas dentro desses prédios que eles devem estar matando. É como se fosse um cenário de Lego, a ação não tivesse consequência alguma. Tem um momento onde o King Kong pula em cima de um prédio, e o prédio começa a tombar de lado... Mas em vez de mostrar o impacto final, criar um grande momento, o filme corta no meio da queda pra uma outra cena qualquer... É tudo tão irreal, que um prédio desabando com um macaco gigante em cima se torna uma imagem casual, como a de alguém amarrando o tênis, que pode ser cortada no meio.

- SPOILER: No fim, nem King Kong nem Godzilla são tão monstruosos se comparados ao verdadeiro vilão da humanidade: o empresário ganancioso! Depois de destruírem Hong Kong, eles agora vão unir forças pra salvarem a humanidade da pior ameaça de todas: as grandes corporações. Acho simbólico que antes da luta o King Kong receba orientações da garotinha "multicultural", que simboliza o "futuro do planeta", e aprende com ela que o vilão é o Mechagodzilla criado pelo homem, não o Godzilla (dá pra ir longe nas analogias que li na internet, que comparam o King Kong aos políticos de esquerda, o Godzilla aos de direita, etc — mas como disse, não tenho a impressão que o filme seja motivado por política, ele não me parece ter intelecto o bastante pra ter pensado em algo do tipo). 

- SPOILER: Sempre comento que os filmes não sabem mais criar vitórias empolgantes no final, como tudo é sempre solucionado de maneira boba, preguiçosa, esquecível. Mas jogar líquido no computador foi uma das soluções mais ridículas que vi até agora pra derrotar o monstro (talvez soe mais convincente pras gerações mais novas, que já cresceram com a ideia internalizada que derrubar água no teclado é o maior desastre possível).

Godzilla vs. Kong / EUA, Austrália, Canadá, Índia / 2021 / Adam Wingard

NOTA: 2.0

* Tinha planejado ver o filme no cinema, como sempre faço com os lançamentos, mas depois de inúmeros adiamentos por causa da pandemia, resolvi assistir via torrent, o que sempre acho ruim... Por isso tenho me comprometido a comprar os ingressos dos filmes, uma vez que eles são lançados, mesmo quando já assisti (e compro também a pipoca, refrigerante, etc, tudo pelo aplicativo do Ingresso.com, afinal quando você baixa um filme, o cinema está deixando de ganhar com isso também). Acho que poucos irão adotar esse hábito, mas se você de fato iria gastar o dinheiro pra ver o filme no cinema, e só não está indo por causa dessas confusões criadas pelos lockdowns, acho que é uma forma de minimizar um pouco os estragos pra indústria.

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Julgando edição e outros aspectos técnicos

O filme Meu Pai (2020) vem sendo elogiado por sua edição por muitos críticos (é um dos favoritos ao Oscar na categoria) e acho que isso expõe uma confusão das pessoas (e até da Academia) ao avaliarem certos aspectos técnicos dos filmes.

É muito comum filmes com narrativas não-lineares serem elogiados por suas edições, quando na verdade isso é um "mérito" do roteiro, não da edição. Se um filme cria um labirinto narrativo complexo, cenas que se entrelaçam de forma engenhosa, uma ordem de eventos que confunde o espectador, isso é porque o roteiro do filme foi escrito assim — a não ser em casos onde os cineastas são tão amadores que não tinham a menor ideia do que estavam fazendo até chegarem na ilha de edição. Não foi o editor que pegou um filme linear, e depois teve a brilhante ideia de transformá-lo em um pretzel narrativo. Ele apenas montou a cena 1 do roteiro, colocou cena 2 na sequência, depois a cena 3, como seria em qualquer outro filme. Pode até ser que exista algum "truque" especial em Meu Pai que eu não tenha notado (pra mim a edição pareceu apenas competente, eficaz — aliás nem todo filme precisa de uma edição excepcional), mas de qualquer forma, o simples fato da narrativa não ser lógica/linear não deveria acrescentar nada aos méritos da edição.

Por exemplo: nos 20 minutos finais de 2001: Uma Odisséia no Espaço, não é o fato do tempo começar a se tornar relativo que torna a edição boa, e sim certos ritmos e cortes específicos que, dentro do que o roteiro já tinha estabelecido, aumentam ainda mais o estranhamento e nossa imersão na cena. Claro que muito do efeito nesse caso vem da direção, da atuação, do som — a edição em si não é a única responsável pelo resultado (existem outros momentos de 2001 onde a edição é ainda mais brilhante, incluindo o famoso corte do osso que é um dos mais icônicos da história do cinema, e mesmo assim 2001 não foi indicado ao Oscar de edição).

Uma boa edição é quando você, como espectador, pode perceber enquanto assiste ao filme que ideias e efeitos relacionados à edição contribuem de maneira positiva e talentosa para a experiência. Se o filme foi escrito de um jeito, e na edição resolveram inverter a ordem de certas cenas (ou seja, se o editor resolveu assumir o papel do roteirista), o espectador não tem como saber disso. Se uma cena foi regravada 200 vezes, e deu o maior trabalho na edição pra escolher entre as milhões de opções de cortes, mas o resultado final se parece apenas com uma cena comum, sem nenhuma ideia interessante em termos de montagem, isso também não é de interesse do espectador. O espectador só tem como saber que uma edição é boa quando ele pode ver algum tipo de excelência nos cortes, nos padrões, nos ritmos e nas justaposições criadas pelo editor em cenas específicas.

(Nada contra criarem prêmios técnicos que levem em conta esses bastidores das produções, méritos que vão além da obra em si e que mereçam reconhecimento, da mesma forma que certas inovações tecnológicas na indústria são reconhecidas pela Academia numa premiação paralela. Mas é preciso diferenciar esse tipo de mérito de qualidades artísticas que devem ser julgadas apenas com base naquilo que pode ser visto na obra final.)

A Técnica "Invisível"

É comum veteranos da indústria defenderem a tal da "técnica invisível", a crença de que um trabalho técnico, quando bem feito, não deve ser perceptível para o espectador. Mas isso, quando mal entendido, só leva ao subjetivismo e à perda de critério. Claro, você não quer chamar a atenção do espectador pra técnica quando isso for tirar a atenção da história ou de algo mais importante naquele momento do filme. Se o foco de uma cena é o diálogo, ou a emoção no rosto de um ator, não é uma boa ideia ficar fazendo cortes estranhos ou movimentos de câmera desnecessários que irão distrair o público. A maioria das técnicas por trás de uma cena precisam de fato ficar em segundo plano pra não atrapalharem a história. Mas em outros momentos, o objetivo do diretor pode ser justamente chamar a atenção do espectador para a técnica, deixar algum recurso cinematográfico específico se destacar. 

Sou contra a noção de que o cinema "puro" é quando o foco do espectador está 100% na história e ele praticamente esquece que está vendo um filme. Arte não é apenas sobre o conteúdo (o "o que"), mas sobre o estilo também (o "como"). Alguns dos maiores prazeres do cinema vêm justamente dos momentos geniais de direção, fotografia, edição, efeitos especiais, trilha sonora, atuação, onde o espectador fica absolutamente consciente da técnica — pelo menos o espectador mais atento, com alguma sensibilidade artística. A técnica invisível pressupõe uma plateia mais ignorante, que nada entende de arte, que vai ao cinema apenas interessada em ver atores bonitos e situações excitantes — o que podia ser o caso em 1920 quando o cinema era uma novidade e ninguém tinha noção alguma de linguagem audiovisual, mas certamente não é o caso hoje. É como se uma "elite" do cinema quisesse empurrar os cinéfilos pra esse nível inferior de consciência, tornando a técnica cada vez mais sutil, a ponto dela fugir da percepção até de experts — o que é um absurdo, uma tentativa de trazer uma mentalidade analítica, abstrata, de volta a uma mentalidade puramente perceptual (quem sabe pra dar a essa "elite" exclusividade no campo da análise, a impressão de ter algum tipo de visão mística, superior, que a coloca numa posição de vantagem sobre nós; ou talvez seja apenas uma estratégia pra poder premiar coisas sem que estas precisem demonstrar virtudes reais; ou quem sabe seja apenas um apelo à humildade, uma tática pra desencorajar artistas talentosos de demonstrarem suas habilidades, por receio de serem chamados de "exibidos" — ouça esta fala de David Lean).

Quanto melhor a obra e mais sofisticado o público, maior se torna a relevância da técnica (quando falamos de literatura clássica, por exemplo, ninguém diz que o autor deveria ter focado na história apenas e jamais deixado seu estilo transparecer). O importante, obviamente, é diferenciar questões técnicas ligadas a escolhas artísticas, de técnicas que expõem os bastidores da produção e quebram a ilusão da obra. Se uma mulher chega com um vestido glamouroso no tapete vermelho, e a etiqueta do vestido está pra fora, isso é um elemento "técnico" que você não quer ver. Porém escolhas ligadas ao design do vestido, combinações de cores, tecidos, essas não necessariamente precisam ser invisíveis. Da mesma forma, no cinema você não quer ver o microfone entrando em quadro durante um diálogo, ou efeitos especiais malfeitos — já outras coisas caem numa outra categoria de "técnica", e podem acrescentar muito à experiência. 

Sim, a história vem sempre em primeiro lugar. Mas que graça teria ver um filme de David Lean com uma fotografia invisível? Um filme do Kubrick com uma direção invisível? A cena do chuveiro de Psicose com uma edição invisível? Tenho quase a impressão oposta: a de que os melhores filmes são aqueles que justamente abrem espaço para que aspectos técnicos como esses tenham a chance de brilhar e "roubarem a cena" em algum momento. A regra básica aqui é que a técnica deve sempre estar integrada ao conteúdo, aos propósitos emocionais da história, nunca se tornar um exibicionismo fora de contexto, destrutivo para a história. Levando isso em conta, se sua técnica de fato for superior, exiba-a à vontade — estamos longe de uma época em que alguém poderia reclamar do excesso de ambição artística nos filmes.

Índice: Artigos e Postagens Teóricas

quarta-feira, 31 de março de 2021

Março 2021 - outros filmes vistos

Bad Trip (2021): 6.0

Comédia que mistura ficção com pegadinhas "reais" estilo Sacha Baron Cohen. Embora eu não goste deste formato, comparando com Borat, Bad Trip tem um humor mais bem intencionado, não é motivado por política — eu particularmente gosto mais, dei algumas boas risadas (Eric André parece um cruzamento dos irmãos Wayans com Jackass) mas claro que eventualmente a falsidade de algumas das pegadinhas começou a arruinar a graça pra mim. Tentei me esforçar pra tirar o foco disso (agir como um espectador "normal") e no começo estava dando certo, pois acho que muita coisa de fato pode não ter sido combinada... Mas bastou 1 cena obviamente desonesta, como a que o carro capota e "explode" a poucos metros de "pedestres", pra eu desconfiar de todo o resto e achar que o filme estava me chamando de burro. Valeu por algumas piadas no entanto.



Professor Polvo (My Octopus Teacher / 2020): 4.0

Indicado ao Oscar 2021, o documentário acompanha um cineasta/mergulhador no sul da África que forma uma "amizade" com um polvo, que o ensina a ser mais "humano" e a ter mais apreço pela natureza. Achei o filme triste e perturbador... Eu realmente não tenho essa visão romântica da vida selvagem; onde o cineasta enxerga beleza, eu vejo apenas vazio, uma existência horrível, um animal com uma vida curta, que vive sozinho, num estado de medo constante, onde tudo é sobre matar ou ser morto, cuja biologia é toda voltada pra se esconder, se proteger, escapar da morte, nada positivo. Algumas das cenas de animais comendo outros animais são de embrulhar o estômago, sem falar que o polvo é uma das criaturas mais feias do planeta — ver o cineasta tentando retratá-lo de forma poética é como a experiência de ver uma cena de amor entre a Sigourney Weaver e o "Facehugger" de Alien. Craig Foster não tem carisma pra carregar o documentário sozinho, e suas reflexões não são tão ricas a ponto de tornar documentário interessante do ponto de vista psicológico/filosófico. É curioso pensar como seu estado emocional acaba provocando essa visão trágica da vida; como o Senso de Vida de uma pessoa e as coisas nas quais ela escolhe focar definem todo o tom da realidade física ao redor dela. Consigo imaginar um outro documentário sobre o fundo do mar que não me causasse o mesmo incômodo, se narrado e dirigido por outra pessoa. Mas Craig Foster era claramente uma pessoa deprimida em sua vida anterior na "civilização". Ele foi pro mar e se apegou ao animal numa tentativa de fugir da realidade, da depressão, mas em vez de se livrar dela, ele parece apenas ter trazido sua escuridão para um novo ambiente.



The United States vs. Billie Holiday (2021): 6.5

Estava curioso pra entender por que a crítica não tinha gostado tanto deste filme (exceto pela performance de Andra Day), mas adorado A Voz Suprema do Blues, por exemplo, e me parece que o motivo é o fato da bússola política/moral do filme ser um pouco ambígua e às vezes ir contra os ideais progressistas do momento, o que é uma grande desvantagem se seu objetivo é ganhar prêmios. O filme tem seus problemas; o roteiro é um pouco confuso, desestruturado, e eu pessoalmente não sou fã dessas biografias que focam na decadência dos artistas. Mas em geral achei um filme honesto, e a performance de Andra Day de fato é incrível, uma dessas estreias no cinema que de tão maduras e acertadas parecem inexplicáveis.



Cherry - Inocência Perdida (Cherry / 2021): 6.0

Tom Holland faz um estudante que vai pra guerra do Iraque nos anos 2000, volta com Transtorno do Estresse Pós-Traumático e começa a se afundar em drogas e crimes. É um desses filmes tipo Réquiem para um Sonho que parecem se orgulhar de serem "barra pesada", e concentram seus esforços criativos não em coisas positivas, mas em retratar o fundo do poço dos personagens de forma impactante e "cool". Temas como drogas, crime, guerra, prisão são ótimos pra esse tipo de "culto à dor", e esse filme dá um jeito de costurar isso tudo numa trama só. É certamente envolvente, bem produzido — mas bem mais clichê e juvenil do que provavelmente gostaria de ser. 



Liga da Justiça de Zack Snyder (Zack Snyder's Justice League / 2021): 4.0

Não vi diferença alguma entre a primeira versão e esta em termos de qualidade cinematográfica — qualidade de história, direção, texto, performances, ação... Continua tudo tão vazio e enlatado quanto antes, apenas bem mais longo e pretensioso, o que na verdade torna o filme pior na minha visão — afinal, quando algo não é muito bom, o ideal é que seja o menos pretensioso possível (uma versão de 1h30 do filme talvez tivesse mais chances de subir no meu conceito do que esta de 4h, que apesar de ter todo o tempo do mundo, ainda não consegue criar uma experiência satisfatória, conclusiva, tendo que inserir vários ganchos no epílogo pra dar aquela sensação de que tudo não passou de um aperitivo e "o melhor ainda está por vir"). Me senti maratonando uma série de TV (coisa que não faço), como se algum seriado desses atuais tivesse se disfarçado de filme, empurrado o padrão estético da TV (e seus problemas) para o mundo do cinema, e conseguido me trapacear para consumi-lo.



The Mauritanian (2021): 7.5

História real de um prisioneiro de Guantánamo que ficou detido por anos sem provas concretas (por suspeita de envolvimento no 11/9), e uma advogada que lutou ao seu lado por justiça. É um daqueles filmes que parecem "estranhos" hoje em dia justamente por serem bons; por se parecerem com um filme de verdade, como se fazia antigamente... Há 20 anos talvez não fosse um grande destaque (não chega a ser tão bom quanto um Questão de Honra, que me parece a comparação mais óbvia), mas hoje merece reconhecimento por ter um roteiro sólido, ótimos atores, uma produção redonda, e por simplesmente ser decente em termos de valores... por conseguir contar uma história que fala de política, mas que não cai no discurso partidário vulgar, que nos lembra que racionalidade, justiça e liberdade estão acima de tudo, e são os únicos valores capazes de trazer pessoas de diferentes origens e crenças a algum acordo.



Raya e o Último Dragão (Raya and the Last Dragon / 2021): 6.0

Parece uma amálgama de Mulan, Moana e diversas produções recentes da Disney, tentando trazer uma mensagem de união, paz, ajudar a combater a polarização da sociedade atual, etc. A protagonista Raya é uma dessas "princesas" mais cínicas e modernas que me dão um pouco de preguiça, e o roteiro é extremamente clichê e familiar. Mas comparando com outras animações recentes, acabou me parecendo uma das menos negativas. A mensagem de união não chega a inspirar muito por ser bem fantasiosa e desconectada da realidade — em vez de sugerir que o bem pode vencer o mal, há uma noção meio mística aqui de que o mal nem existe no fundo, que se todos derem as mãos e confiarem uns nos outros, poderemos "voltar" a viver numa espécie de Jardim do Éden, etc. Há também a obsessão habitual por auto-sacrifício e uma série de toques duvidosos, mas na balança final acho que os pontos positivos compensam os negativos. Em termos de visual e de trilha sonora foi um dos filmes mais bonitos que vi no último ano.



Um Príncipe em Nova York 2 (Coming 2 America / 2021): 6.5

Sequência do sucesso de 1988, o filme tenta ser fiel à estética e ao espírito do original, e até que não se sai mal (os figurinos em particular continuam incríveis). O filme só não é tão engraçado quanto, em partes porque a história do primeiro era essencialmente mais cômica e divertida (a ideia de um príncipe africano disfarçado na América, animado pra viver como um pobre no Queens). No segundo, já existe um toque de correção política no coração da trama que estraga um pouco o humor e diminui o carisma de Eddie Murphy — sem falar que o rapaz que faz o filho dele foi um erro de casting grotesco, um dos personagens mais sem graça que já vi. Ainda assim, achei agradável e bem intencionado de modo geral.



Duas Tias Loucas de Férias (Barb and Star Go to Vista Del Mar / 2021): 5.0

Duas amigas inseparáveis que nunca viajaram resolvem ir de férias pra Flórida e viver uma grande aventura. Kristen Wiig e Annie Mumolo formam uma boa dupla e o começo é divertido (o humor é muito em cima da "cafonice" associada ao estado e a senhoras de classe média), mas como toda comédia atualmente, falta uma boa dose de seriedade no roteiro e principalmente uma curadoria melhor de piadas — as boas sacadas acabam sendo ofuscadas por outras que de tão péssimas te tiram a coragem de indicar o filme. Algo na linha de A Missy Errada (2020) ou Festival Eurovision da Canção (2020) - embora Eurovision ainda esteja uns pontinhos acima.



Meu Pai

Um homem idoso reluta em aceitar a ajuda de sua filha, enquanto lida com um tipo de demência que gera perda de memória progressiva. O filme é contado pelo ponto de vista dele, portanto a linearidade da história é constantemente quebrada pra gerar na plateia um estado de desorientação psicológica parecida com a do protagonista. É um ótimo filme pra assistir levando em conta o que discuti no texto 1999 e o Declínio da Objetividade. Aqui vemos mais uma vez a realidade objetiva sendo questionada, mas por uma tática diferente, esperta, pois retrata as percepções do personagem como sendo perfeitamente racionais, consistentes do ponto de vista dele, e mostra o protagonista como um homem particularmente orgulhoso de sua racionalidade, sempre tentando provar as coisas que percebe através da lógica — mas obviamente, quem vê de fora sabe que ele está apenas criando racionalizações, e está completamente desconectado da realidade. O filme não sugere subtextos políticos, mas achei interessante o fato da pessoa perdendo a razão aqui ser uma espécie de "patriarca", um homem do século 20, do "velho mundo", uma figura frequentemente diminuída no cinema atual — é quase como se o filme estivesse sugerindo que o conceito de objetividade estivesse morrendo e se tornando ultrapassado junto com essa geração, que a lógica do passado não fizesse mais sentido no mundo atual.

O filme é bem feito, tem personagens ricos, uma performance magistral de Anthony Hopkins, sutilezas interessantes como a obsessão do personagem por seu relógio de pulso, que ele vive esquecendo onde guardou — um instrumento de precisão que pode ser visto como suas últimas tentativas de se agarrar a algo objetivo, preservar um senso de controle (em determinada cena ele acusa a empregada de ter roubado o relógio, mostrando que suas racionalizações podem ser motivadas por preconceitos, não fatos). O filme não chega a mergulhar no subjetivismo a ponto de deixar o espectador completamente perdido na trama. Mas às vezes acaba parecendo um "one-trick pony" — foca demais nesse recurso narrativo, e a história vai se tornando um pouco monótona e repetitiva depois que isso deixa de ser novidade. Como o protagonista está perdendo sua mente, ele não tem como levar a história adiante, pois a essa altura já é incapaz de perseguir propósitos, ter grandes aprendizados ou transformações no filme. Ele parece impotente e perdido na maior parte do tempo, o que dá um tom mais episódico/Naturalista pra história. Se o filme focasse mais na filha, nos dilemas dela em relação a cuidar ou não do pai, se sacrificar ou priorizar seus planos, teríamos um arco mais satisfatório possivelmente. De qualquer forma, é um dos poucos filmes sólidos do Oscar 2021, que está lá por méritos artísticos, por conteúdo, não por fazer panfletagem política.

The Father / Reino Unido, França / 2020 / Florian Zeller

NOTA: 7.0

* Um detalhe que gostaria de comentar é que o filme está indicado ao Oscar de Melhor Edição, e vi alguns críticos como o Dalenogare elogiarem bastante a edição do filme, que pra mim não pareceu nada além de correta, eficiente. Mas vou comentar isso num texto separado, que poderá ser adicionado aos posts teóricos depois: 

Julgando edição e outros aspectos técnicos

terça-feira, 30 de março de 2021

1999 e o Declínio da Objetividade

Uma das coisas mais assustadoras da cultura atual é o desprezo pela razão e pela objetividade que pode ser visto não só no entretenimento, mas também na política, no jornalismo, nas discussões comuns entre pessoas etc. É difícil dizer o que exatamente deu início a essa era "anti-razão", "pós-verdade" em que vivemos — se foi a educação, a mídia, crises globais, etc. Mas o entretenimento sempre teve uma relação muito íntima com mudanças na cultura, e mesmo que ele não tenha sido a causa inicial dessa mudança, ele certamente respondeu a ela imediatamente, e acho interessante rastrear esse processo através dos filmes.

Creio que o ponto de virada que nos trouxe à situação atual (em termos epistemológicos) ocorreu no final dos anos 90. Antes de Matrix, por exemplo, não era normal o espectador (e o cidadão comum) ficar questionando a natureza da realidade, a validez da razão e das estruturas sociais no seu dia a dia. Filmes eram sobre acontecimentos concretos, se passavam numa realidade objetiva, estável, até mesmo quando retratavam coisas sobrenaturais. Se aliens invadissem a Terra, eram criaturas sólidas, com características específicas, e o herói tinha que usar a razão pra solucionar o problema da mesma forma que a usaria pra resolver qualquer outro problema mundano.

É interessante lembrar que ao longo dos anos 80/90, eram comuns filmes de grande orçamento onde cientistas eram personagens principais. E não apenas técnicos, nerds, mas figuras heroicas, admiráveis, como Jodie Foster em Contato, Sam Neill em Jurassic Park, Pierce Brosnan em O Inferno de Dante, Helen Hunt e Bill Paxton em Twister (sem falar que vários desses filmes eram baseados em livros escritos por cientistas de fato). Quando criança eu sonhava em ser inventor por causa de filmes como De Volta para o Futuro ou Querida, Encolhi as Crianças... arqueólogo por causa de Indiana Jones... A impressão que os filmes davam é que tudo de fantástico que pudesse acontecer no mundo aconteceria por causa de cientistas, pessoas criativas inventando algo novo. Usar a razão pra lidar com a natureza e resolver problemas era uma virtude constantemente celebrada nos filmes. Questões emocionais subjetivas podiam fazer parte das histórias também, mas não eram o foco principal, existiam para dar certa profundidade à história, gerar mais conexão e envolvimento.

Mas no fim dos anos 90, as coisas começaram a mudar. Lembro de sair da sessão de Matrix com alguns familiares, e as pessoas estavam realmente confusas, perplexas. Havia algo de novo naquele filme, que fazia a gente pensar de uma maneira nada familiar. Matrix não foi o primeiro sucesso desse período a questionar nossa percepção da realidade, mas se destacou por abordar essa questão de forma explícita e inovadora. No ano anterior, em 1998, O Show de Truman já começava a estimular na plateia certos questionamentos existenciais que não eram comuns na cultura mainstream. E se nossa vida não passasse de um reality show? Um grande palco pra vender produtos? Mas 1999 foi o ano que marcou essa transição. Depois de O Sexto Sentido, ninguém mais confiava 100% na realidade da trama de um filme de terror (o que foi reforçado em 2001 com Os Outros). Depois de Matrix, nenhuma cena de ação precisava mais fingir qualquer respeito pelas leis da física. A Bruxa de Blair nos fez questionar se o próprio filme em questão era cinema ou um pedaço de evidência. Um filme realista podia subitamente ter uma chuva de sapos sem maiores explicações (Magnólia). Clube da Luta, assim como O Sexto Sentido, mostrou que não só não podíamos mais confiar nas nossas percepções, como trouxe isso ainda pra mais perto da nossa realidade: agora não era mais necessário o sobrenatural ou algo fantástico existir pra colocar a realidade objetiva em xeque: nossos problema psicológicos já estavam fazendo isso o tempo todo. Até mesmo a noção de família foi desafiada e exposta como uma farsa, quando Beleza Americana levou o Oscar de Melhor Filme.

Daí pra frente não houve mais volta. No começo dos anos 2000, vimos Donnie Darko e Cidade dos Sonhos se tornarem cults instantâneos, Charlie Kaufman se tornar o roteirista mais cobiçado do mundo com Quero Ser John Malkovich, Adaptação, Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, uma avalanche de filmes sobre pessoas com distúrbios psicológicos (Uma Mente Brilhante, A Identidade Bourne, Efeito Borboleta) e é claro, o surgimento daquele que iria encabeçar essa nova onda e levá-la para as décadas seguintes: Christopher Nolan, com Amnésia. O subjetivismo se tornou o "padrão ouro" do cinema. Filmes que focavam em ações concretas e não traziam uma mensagem subjetivista, algum tipo de questionamento existencial, já pareciam datados, pouco sofisticados, menos "sexy".

É importante dizer que muitos filmes desse período ainda eram excelentes. Eles questionavam a realidade, nossos sentidos, mas faziam isso através de tramas inteligentes, compreensíveis, se comunicavam de maneira racional com o espectador — eram "objetivos ao questionarem a objetividade", pois traziam uma herança das décadas anteriores, dominadas por uma epistemologia mais racional (e principalmente, um respeito pelo talento). Mas obviamente, isso apresenta uma contradição, e contradições tendem a buscar uma resolução ao longo do tempo.

Conforme avançamos nos anos 2000 e 2010, esse elemento racional foi sendo abandonado pouco a pouco, e o subjetivismo deixou de ser apenas um tema discutido dentro de filmes racionais, mas foi sendo incorporado na própria forma em que os filmes eram feitos e as histórias eram contadas. Enquanto Matrix (1999) tinha um roteiro bem estruturado, contava com a racionalidade e o foco do espectador para transmitir a ideia de que a realidade é uma ilusão, A Origem (2010) já apresenta uma narrativa caótica, e conta com a irracionalidade e a confusão mental do espectador para sugerir a mesma ideia. A Origem destrói a capacidade cognitiva do espectador como tática para promover a mensagem anti-razão, o que é muito mais eficiente (da mesma forma que livros de certos filósofos subjetivistas são frequentemente impossíveis de entender e de serem lidos em foco, e o estado de confusão mental provocado pelo estilo da escrita trabalha para validar a mensagem de que a razão é inválida).

Esses temas foram se tornando cada vez mais comuns nos filmes, ao ponto que hoje, se eu fosse com familiares ver um filme como Matrix ou Clube da Luta no cinema, ninguém ficaria minimamente surpreso. Questionar a realidade objetiva já faz parte dos hábitos mentais do espectador comum. Por exemplo: outro dia na rua, um amigo caminhando ao meu lado deixou cair algo no chão e parou pra pegar... Eu não percebi e continuei andando, até que alguns segundos depois me surpreendi com sua ausência e olhei pra trás intrigado. Ele riu e brincou: "Imagina se você olhasse pra trás e eu não estivesse lá? E você descobrisse que eu fui uma projeção da sua mente todos esses anos?". Uma brincadeira casual, mas que provavelmente apenas um roteirista criativo teria feito 30 anos atrás. Hoje, são coisas que a gente pensa a todo momento, pois fomos treinados por centenas de filmes ao longo de 2 décadas a questionar a realidade do mundo ao nosso redor — da mesma forma que quando eu era pequeno, eu imaginava constantemente a possibilidade de uma invasão extraterrestre, ou de um meteoro entrar em rota de colisão com a Terra, ou de dinossauros voltarem à vida etc.

Pensar em desastres pode soar algo negativo, mas enquanto os filmes afirmavam que podíamos lidar com esses problemas racionalmente, eles promoviam um senso de otimismo. Agora quando a razão e a realidade objetiva começam a ser questionadas, a primeira coisa que vai embora é o otimismo. Dificilmente um personagem descobre que sua realidade é falsa, que tudo é relativo, que sua mente não está em contato com a realidade, e isso resulta em autoconfiança, em uma história alegre e inspiradora. Subjetivismo vem sempre acompanhado de pessimismo, melancolia e cinismo. Portanto, não é acidente que no final dos anos 90, junto com o subjetivismo, os filmes começaram também a ficar mais sombrios (e com o 11 de Setembro, que tornou o pessimismo a nova realidade da cultura americana, essa tendência parece ter se tornado irreversível).

Outra coisa que começa a ir embora com a objetividade é o talento e os padrões de qualidade. Pois enquanto um filme respeita a objetividade da plateia, tudo nele precisa significar algo, tudo tem que ser comunicado claramente, fazer algum sentido, ser feito com competência, portanto as exigências sobre os criadores são muito maiores — da mesma forma que um modelo precisa ser realmente atraente pra ser fotografado em plena luz do dia, com uma lente cristalina, em foco total — mas as exigências diminuem bastante no escuro, numa atmosfera nebulosa, com uma lente turva (o que indica por que muitas pessoas se sentem atraídas pela "névoa" do subjetivismo). Se um filme é livre para ter finais abertos, contradições internas, buracos na trama, coisas aleatórias, não precisa ter um impacto específico na plateia, afinal tudo é uma experiência subjetiva, emocional, tanto para os personagens da história, quanto pro artista criando o filme, quanto pro espectador na poltrona, muito menos habilidade é exigida dos realizadores. 

É difícil dizer o que começou primeiro, se foi o declínio do talento, da objetividade, do otimismo — mas uma virtude essencial, quando rejeitada, vai sempre arrastando as outras pra baixo com ela. Portanto se os filmes já foram talentosos, objetivos e otimistas, eles passaram para talentosos, semi-objetivos e mais sombrios, e terminaram amadores, irracionais e deprimentes.

Durante os anos 70–90, filmes de terror costumavam ser sobre vilões e monstros reais, com identidades bem estabelecidas. E mesmo quando apareciam só nos sonhos dos personagens (como em A Hora do Pesadelo) havia um senso de que era uma criatura real no universo do filme, que outros personagens podiam vê-lo também, e que ele podia ser derrotado através de alguma ação inteligente. Agora observe a quantidade de filmes de terror hoje em dia onde o monstro no fundo não existe concretamente, nem mesmo no universo do filme — é apenas uma metáfora, uma maneira simbólica do filme retratar algum problema emocional do protagonista. Tudo no cinema se tornou sobre emoções, sobre a experiência subjetiva do personagem. Pense nos inúmeros filmes de ficção-científica recentes onde em vez de lidarem com a natureza, com o mundo externo, solucionarem problemas científicos, os cientistas terminam apenas lidando com traumas pessoais, relações familiares, sentimentos de perda — como O Céu da Meia-Noite ou Interestelar, por exemplo, onde ciência e emoções se tornam indistinguíveis.

Nos filmes atuais, a solução para os problemas não está na racionalidade, na competência, na criatividade, em saber lidar com a natureza — e sim em algum tipo de "cura emocional". Até filmes mais mainstream, que não trazem discussões filosóficas pretensiosas, promovem essa ideia ao colocarem todo o foco das histórias nas emoções dos personagens. Por exemplo: personagens de animações infantis não buscam mais o amor verdadeiro, não precisam derrotar um monstro de fato, não têm que desenvolver habilidades interessantes. Tudo é sobre a "cura emocional". Os problemas de Elsa em Frozen se derretem quando ela aprende a lidar com suas emoções. Raios mágicos trazem paz e abundância ao mundo de Raya e o Último Dragão no momento em que a vilã deixa de ser fria e aprende o valor da confiança. Em Festa no Céu, em vez de matar o touro no duelo final, o herói pega um violão e canta uma canção de paz, pois entende que seu maior problema no fundo é o medo de ser autêntico, e quando ele supera isso, o monstro demoníaco a sua frente se desintegra.

A cura emocional é o novo "príncipe encantado", o novo "matar o monstro", o novo "passar na audição", o novo "sobreviver ao desastre", o novo "criar DNA de dinossauro". Todos os seus sonhos parecem se tornar realidade uma vez que você foque nas suas emoções e elimine conflitos internos (como se nosso universo interno estivesse desconectado do externo, ou melhor, como se ele criasse o universo externo, e nós pudéssemos atingir a felicidade apenas manipulando nosso estado interior, sem depender de ações no mundo real: obter consequências sem causas, recompensas sem ações). O que obviamente é uma mensagem perigosa — e se você nasceu nos últimos 20/25 anos, essa é uma das principais ideias que você absorveu da cultura popular.

Não que emoções não sejam importantes. Elas só não devem ser utilizadas como meios de cognição, colocadas acima da razão, especialmente quando surge algum conflito entre uma coisa e outra (e quanto menos racional você é, mais conflitos surgem). Filmes do passado não eram anti-emoção, mas emoções não eram tratadas como o principal referencial das pessoas. Como ilustrado no curta da Disney, Reason and Emotion (1943), sanidade exige que a razão ocupe o "assento do motorista", e que emoções permaneçam no banco do passageiro. Se há um conflito entre fatos e emoções, você aceita os fatos, mesmo que isso te cause desconforto emocional por um tempo. Esse era o senso comum no passado. Mas hoje, se surge um conflito entre fatos e emoções, é a razão que é jogada pro banco de trás.

Portanto não é surpresa que todos hoje desconfiem da ciência, das notícias — já que nos filmes, até as mentes mais racionais e brilhantes parecem cegas para a realidade e no fundo são motivadas por emoções subjetivas (e se os cientistas de hoje sofreram influência o bastante da cultura, eles podem de fato ter perdido a objetividade, e assim entramos no velho ciclo onde o subjetivismo se retroalimenta de suas próprias crias). Não é surpresa que a liberdade de expressão esteja em constante ataque: se emoções são a base de toda sua existência, palavras e insultos se tornam tão destrutivos quanto violência física; ambos representam uma ameaça para a "cura emocional" que é a chave de tudo. Desinteressadas na realidade, as pessoas foram perdendo (ou nem chegaram a desenvolver) a sensibilidade para distinguir verdade de mentira, fatos de opiniões e sentimentos.

Como cinéfilo, minha grande perda nisso tudo tem a ver com os filmes. Mas esse declínio da objetividade é uma questão que deveria preocupar a todos, pois atinge a sociedade em todos os aspectos e tem graves consequências a longo prazo. Não é possível colocar um satélite em órbita através da "cura emocional", inventar o iPhone através da "paz interna", assim como não é possível produzir Lawrence da Arábia focando na "sua verdade".

Quanto tempo o equilíbrio emocional de uma pessoa poderá durar quando o mundo físico começar a desmoronar ao redor dela? E não precisamos nem esperar o mundo físico ruir pra sofrermos as consequências dessa mentalidade. Afinal, até pra solucionar problemas emocionais é preciso usar a razão: se você atinge sucesso no mundo material, ou sucesso na sua vida emocional, em ambos os casos, foi seu lado racional que tornou isso possível. Se você observar o estado emocional das pessoas hoje em dia, o tom de revolta, confusão e pessimismo que marcou a última década, talvez essa seja a maior prova de que o subjetivismo só leva à destruição, e que sua primeira vítima é o próprio equilíbrio emocional que as pessoas tanto buscam.

domingo, 28 de março de 2021

Seaspiracy: Mar Vermelho

O nível de burrice e irracionalidade aqui é tão extremo que é daqueles casos onde eu realmente começo a questionar a saúde mental de alguém que acredite plenamente na narrativa apresentada pelo filme — a pessoa pra mim começa a entrar na categoria de terraplanistas ou coisas piores. Não é preciso ter conhecimento especializado sobre oceanos pra detectar a desonestidade intelectual do cineasta, basta ter algum senso de lógica, observar a coerência interna dos argumentos (ou a falta dela), e as estratégias pelas quais o documentário tenta passar "informações" e persuadir o espectador. É puro teatro, entretenimento para pessoas com um viés de esquerda (e um Q.I. baixo) relaxarem num domingo à noite. O grande "benefício" do documentário talvez seja que, em sua obsessão por provar que a pesca comercial (o fato de seres humanos comerem peixes) é de longe o maior problema ambiental do planeta, ele acaba minimizando a importância de todas as outras causas favoritas dos ambientalistas. Ele afirma que canudos plásticos são insignificantes e representam uma porcentagem desprezível do plástico no mar... Que as emissões de gases por automóveis no mundo todo não são nada perto das consequências da pesca para a atmosfera... Diz que grandes vazamentos de óleo no oceano não são grande problema, e na prática são até bons, pois durante um período diminuem a pesca na região! É estranho, pois o filme fala de pescadores como se estivesse falando de pessoas garimpando ouro, um material raro, prestes a ser extinto, impossível de se reproduzir (sugere que os peixes estão quase acabando nos oceanos, e ao mesmo tempo se contradiz dizendo que 80% da vida do planeta vive nos mares, e que a maior parte dos oceanos permanece inexplorada até hoje). Pense... Será que existem mais ou menos galinhas no mundo pelo fato delas servirem de alimento para humanos? Mais ou menos vacas do que existiriam caso elas não tivessem utilidade alguma para nós? E porcos? Indústrias que precisam de morango para produzir certos produtos, saem por aí tentando achá-los na natureza, e depois ficam sem quando acabam com todos? Ou passam a cultiva-los? Outra pérola é um trecho onde eles falam do "absurdo" dos americanos gastarem 35 bilhões de dólares por ano pra subsidiar a indústria da pesca, enquanto apenas 30 bilhões seriam necessários para combater a fome mundial. Mas pera aí... Se as pessoas que comeriam os peixes não tiverem mais peixes no menu, elas não terão que comer outra coisa no lugar? E o investimento para essa outra indústria agora não terá que subir em 35 bilhões ou algo equivalente? E será que tudo bem pro cineasta comermos outros animais, que não peixes? Ou apenas plantas são permitidas? Pois certamente deve dar pra achar outros documentários tão "sérios" quanto Seaspiracy na Netflix que revelam os horrores da indústria agropecuária (Cowspiracy?), expõem os males do desmatamento, etc. Esses documentários politizados da Netflix parecem ter ocupado o lugar que antigamente era ocupado por documentários sobre abduções por OVNIs, autópsias em extraterrestres, ou por tablóides de supermercado cujas manchetes anunciavam o homem "meio-humano, meio-jacaré" (que pelo menos eram divertidos e inofensivos politicamente). Se notícias falsas podem dar banimento em redes sociais hoje em dia, o que mereceria alguém que produz um documentário inteiro disseminando mentiras ridículas e mal intencionadas como essas?

Seaspiracy / EUA / 2021 / Ali Tabrizi

NOTA: 0.0

terça-feira, 16 de março de 2021

O Tigre Branco

Indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado, o filme conta a história de um garoto indiano pobre que passa a trabalhar como motorista para uma família milionária e começa a mudar suas crenças em relação a dinheiro, riqueza e tradições culturais. Apesar do meu Alerta Vermelho ter soado logo no início (por causa da atitude cínica do narrador em relação ao capitalismo, aos EUA, etc.), acompanhei a história com curiosidade e até com uma leve simpatia pelo personagem principal, que a princípio me parecia apenas uma vítima da cultura indiana (que prega submissão, pobreza, auto-sacrifício etc.). Estava vendo potencial pra um tema positivo na trama — pensei que ele poderia se libertar de suas "crenças limitantes", desenvolver uma mentalidade empreendedora saudável, e quem sabe até ir embora do país. Foi só no 3º ato que vi que estava enganado, e que se trata de mais um filme do gênero "kill the rich" para as plateias estúpidas e ressentidas da atualidade se sentirem vingadas.

Se a cultura indiana anti-sucesso é mostrada negativamente pelo filme, a alternativa que ele apresenta não é muito melhor... É a típica visão de mundo onde ou você é presa, ou você é predador; onde ou você é devorado, ou você devora; onde ou você é pobre, oprimido e miserável (mas honrado), ou você abre mão da ética e se torna um rico ladrão, corrupto e opressor, mas que vive a boa vida (o protagonista é "esperto" o bastante para escolher a 2ª opção). Pense em quem é que se sente confortado com essa interpretação da realidade. A pessoa honesta, que aceita os fatos, que quer apenas o que é justo e merecido? Não — os fracassados medíocres, desonestos, que dessa forma podem acreditar que não são ricos pois são "bons demais", que aqueles que têm mais que eles não têm virtude alguma; e também os trapaceiros, malandros, bandidos, que agora podem acreditar que não tiveram escolha, que não são responsáveis por tudo de criminoso e abominável que tiveram que fazer na subida ao "topo".

Há muito em comum com Parasita aqui, inclusive essa noção de que a moralidade é um "luxo" apenas para os que nascem ricos. Mas Parasita é um filme mais cômico, mais alegórico, que dá pra assistir sem levar tão a sério. Já O Tigre Branco é um filme que, apesar do tom irônico, tenta parecer mais realista, discutir questões sociais de maneira mais madura, equilibrada. [SPOILER] Então quando ele mostra o protagonista roubando, assassinando o patrão, e trata isso como se fosse um mal necessário, sem mostrá-lo pagando o preço depois, decaindo no final — mas se tornando confiante e bem sucedido, isso é ainda mais chocante e odioso.

É um filme bem realizado, bem escrito (além do texto ser inteligente, a história é envolvente, bem estruturada), mas que treina os espectadores (como tantos filmes hoje) para enxergarem os ricos como ladrões, trapaceiros, exploradores, que devem ser destruídos e ter suas riquezas expropriadas. 

The White Tiger / India, EUA / 2021 / Ramin Bahrani

NOTA: 4.5

sexta-feira, 5 de março de 2021

Como a diversidade está arruinando o cinema

Vendo o Globo de Ouro 2021 ficou claro não só pra mim, mas para muitos, que esse foi um dos piores anos da história do cinema em termos de qualidade. Ficou evidente também que foi um dos anos mais "diversos" do Globo de Ouro, onde mais minorias ganharam prêmios, onde mais mulheres foram indicadas como diretoras... Será que esses 2 fatos são coincidentes? Provavelmente não. Calma, não estou dizendo que as minorias sejam menos competentes do que os americanos brancos héteros — apenas que a forma como a diversidade vem sendo imposta em Hollywood é destrutiva para o cinema (espero que como gay, não americano, membro de um casal "inter-racial" e fora da indústria, eu possa falar isso sem parecer ter uma agenda racista/xenofóbica/interesseira oculta).

A imposição atual de diversidade é basicamente uma fórmula para diminuir qualidade de resultado, algo que ocorre não só no cinema mas em qualquer área onde essa mentalidade é aplicada. É apenas uma consequência lógica: pra obter o melhor resultado em qualquer coisa, você tem que ser livre para selecionar os melhores profissionais, considerando antes de mais nada a capacidade deles de entregarem o melhor resultado. Se você coloca na equação uma segunda exigência arbitrária, por exemplo, "alguém capaz de entregar o melhor resultado, mas que também seja sul-coreano", você já diminui consideravelmente o leque de opções, e o resultado será provavelmente pior do que se você pudesse ter considerado todas as opções disponíveis, visando o melhor resultado possível. Isso ocorreria até se você impusesse limitações em questões aleatórias, que nada tivessem a ver com etnia, nacionalidade — por exemplo, exigir diversidade em termos de signos do zodíaco.

Imagine esse processo se repetindo dezenas de vezes na produção de um filme — questões de diversidade sendo priorizadas não apenas no elenco, mas em toda a equipe, em toda a produção (pra poder concorrer ao Oscar, a Academia agora está exigindo representatividade em vários aspectos dos filmes, às vezes até no conteúdo das histórias).

Não me parece coincidência que os filmes estejam se tornando mais fracos ao mesmo tempo em que essas tendências se tornam mais e mais fortes em Hollywood. É ignorância achar que existe um número infinito de pessoas talentosas, que não faltam excelentes escritores, diretores, atores em qualquer país ou grupo social, a qualquer momento, e que portanto exigir diversidade não interfere em nada na qualidade do resultado. Quanto melhor um filme e melhor um cineasta, mais você verá uma equipe cuidadosamente selecionada, parcerias insubstituíveis, sintonias especiais que às vezes se assemelham a de relacionamentos românticos, e que só acontecem quando o produtor/diretor tem total liberdade de escolha, quando está atento a todas as possibilidades, empenhado em encontrar as melhores parcerias possíveis.

Algumas áreas e indústrias não exigem um processo tão rigoroso de seleção, não exigem profissionais tão específicos e raros para chegar num bom resultado. Mas quando estamos falando de Oscar, de grandes produções de Hollywood, estamos falando de reunir o que há de mais profissional e de mais talentoso no mundo... Não estamos falando de bons profissionais apenas, de pessoas competentes. Mas das mais habilidosas do ramo. De celebrar talentos raros. E obviamente, se um profissional está entre os melhores do mundo, é porque não existem 200 alternativas igualmente boas para você escolher. Se houvesse, então é porque ele ainda não estaria entre os melhores, e portanto não deveria ser a escolha final para as produções mais ambiciosas. São nessas áreas que buscam o grau máximo de excelência onde limitações e burocracias do tipo se tornam especialmente destrutivas (não estou dizendo que em todas as situações existe sempre 1 única opção perfeita, como um ideal platônico, apenas que as opções se tornam cada vez mais escassas conforme você se aproxima do "topo da pirâmide"; e que nesse momento, impor questões como diversidade te força a permanecer sempre uns degraus abaixo, onde há um número maior de candidatos).

Um dos principais dons que um diretor deve ter é saber se cercar dos melhores profissionais, para que estes lhe ajudem a criar o melhor filme. Pense no que acontece quando você coloca uma série de travas e obstáculos nesse processo extremamente delicado — quando um estúdio já seleciona o próprio diretor (que é a figura mais importante de um filme) com base em questões de diversidade, e esse diretor (que agora já não é o melhor possível) usa o mesmo critério na seleção de todas as outras pessoas chave da equipe?

O movimento atual da diversidade é um movimento anti-qualidade. E se você pensar que "qualidade" nada mais é do que algo que serve bem à vida humana — assim como uma comida de qualidade é aquela que tem os melhores ingredientes, que nutre melhor o organismo, que é mais saborosa — podemos dizer que a diversidade se tornou um movimento anti-vida, pois foi colocada acima de questões mais importantes como habilidade (e com menos habilidade, tudo o que é produzido se torna pior, e por consequência nosso padrão de vida diminui). Isso talvez não fique tão evidente no mundo do cinema, pois as consequências da arte mal feita não são letais a curto prazo (tenho certas dúvidas quanto ao longo prazo), mas pense nesse mesmo raciocínio sendo aplicado a outras atividades... à indústria... à medicina... Imagine você tendo que fazer uma cirurgia complicada, e não poder selecionar os médicos com base em competência, em qualidade de resultado... Imagine o médico não ter liberdade pra selecionar sua equipe (o anestesista, etc.) com base naquilo que trará os resultados mais garantidos, mas ter que necessariamente selecionar pessoas levando em conta questões irrelevantes para o contexto, como etnia, orientação sexual? Isso não criará limitações no processo de escolha? E limitações desse tipo não resultam, pela lógica demonstrada, em resultados menos ideais do que seriam possíveis?

A cultura de hoje está sendo inteira levada a abraçar essa mentalidade, sob uma falsa aura de benevolência. Enquanto essas políticas de diversidade não forem questionadas e a cultura não voltar a priorizar mérito, habilidade, talento, teremos que nos acostumar com padrões de qualidade cada vez mais baixos.

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