terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Cultura - Fevereiro 2026

24/2 — Netflix vs. Paramount

A batalha pela aquisição da Warner continua e é uma negociação complexa, mas pensando puramente pelo lado do cinema, minha torcida certamente iria pra David Ellison/Paramount — não só pelas declarações que ele vem dando, mais respeitosas em relação ao cinema do que as de Ted Sarandos, mas também pelo histórico de Ellison como produtor. Ele foi indicado ao Oscar por Top Gun: Maverick, está por trás da fase mais recente da franquia Missão: Impossível e produziu Air: A História por Trás do Logo — alguns dos poucos filmes decentes alinhados com o Idealismo lançados nos últimos anos.

16/2 — Erudição Judaica

Como mencionei na crítica, uma das coisas que mais apreciei em Marty Supreme foi a qualidade da escrita, a riqueza de ideias e a bagagem cultural que, intelectualmente, colocam o filme num patamar superior. Me ocorreu que isso não é raro em filmes de autores judeus. Lembro de ter notado essa qualidade específica em alguns filmes recentes, como Blue Moon, Saturday Night e A Verdadeira Dor — todos de roteiristas judeus. O nível de cultura da população parece ter decaído tanto nas últimas décadas que, hoje em dia, quando você nota essa qualidade intelectual em um roteiro, você quase pode adivinhar que o autor é judeu. A cultura judaica é conhecida por incentivar o desenvolvimento intelectual, os estudos e o conhecimento, de forma que, entre judeus, talvez esse declínio na erudição média tenha sido menos acentuado.

Fico pensando se a superficialidade do cinema contemporâneo pode ser explicada, em parte, por uma diminuição na presença de judeus na indústria. Lembrem-se que o cinema deve muito de sua legitimação enquanto arte aos judeus — a figuras como Irving Thalberg, que fizeram um esforço consciente para trazer cultura e sofisticação à indústria em seus primórdios, quando os filmes eram considerados apenas uma distração vulgar.


15/2 — Alguns cineastas estão sob ataque no Festival de Berlim — não por comentarem sobre política, mas por quererem evitar o assunto em coletivas de imprensa e focar em cinema. Isso revela uma situação curiosa nesses ambientes: se você não se posiciona, você é cancelado. Se você se posiciona, mas tem uma opinião que diverge do posicionamento “correto”, também é cancelado. Qual a única opção que sobra pra não ser cancelado, então? Falar — e falar aquilo que a imprensa quer que você fale.


15/2 — Se eu fosse fazer uma versão atualizada daquele meu vídeo do Oscar dos amputados:


12/2 — Dawson

Assisti a um ou outro episódio de Dawson’s Creek na época em que ia ao ar e, com a morte de James Van Der Beek ontem, lembrei de uma cena do episódio 10 da 3ª temporada que me marcou. Dawson, que era um estudante idealista, fã de Spielberg e aspirante a cineasta, estava se inscrevendo em um festival de cinema. Na recepção, após fornecer alguns dados, perguntam a ele qual era seu diretor favorito. Ele responde, sem hesitação: Spielberg. A reação da recepcionista foi o que eu nunca esqueci: ela olha para ele incrédula, revirando os olhos, como se ele tivesse dito algo totalmente bizarro, inesperado e uncool.

Esse episódio foi ao ar entre 1999 e 2000, numa época em que eu ainda não entendido que o Idealismo estava ficando “fora de moda” e não era bem aceito em ambientes acadêmicos. Pra mim, Dawson estava sendo totalmente sensato e respeitável ao dar essa resposta. Mas, no final dos anos 90, jovens cinéfilos já viviam no mundo de cineastas como Tarantino, David Fincher e Paul Thomas Anderson, em que Spielberg representava o establishment — o “óbvio” do qual eles sentiam necessidade de se diferenciar — uma atitude que definiu os cineastas da Geração X, que são o establishment em Hollywood hoje (Pulp Fiction foi o grande estopim dessa virada).

O curioso é que, hoje, os jovens cineastas não estão indo contra o novo establishment. Sim, eles querem se diferenciar, mas não rejeitando a atitude básica da Geração X. Em vez de voltar na direção do Idealismo, eles estão apenas “dobrando a aposta” e tentando ser ainda mais subversivos em relação ao antigo establishment do que os Tarantinos da época foram.


6/2 — O desejo de parecer inteligente

Outro dia li um comentário do diretor Scott Derrickson no X que ficou comigo: ele disse que a maioria das listas de melhores filmes do ano são feitas para “fazer o autor da lista parecer inteligente”. Isso é a pura verdade, mas o que me impactou ao ler essa frase foi perceber que muito do entretenimento hoje é feito com esse mesmo objetivo: muitos artistas produzem não pra dar prazer ou apresentar algo edificante ao público, mas pra parecerem inteligentes.

Se duvidar, escute algumas faixas do álbum do Bad Bunny que venceu o Grammy 2026 e reflita se alguém honestamente escuta aquilo pra ter qualquer tipo de satisfação musical. É como se o desejo de parecer inteligente estivesse arruinando a cultura inteira: artistas criam para parecerem inteligentes, o público consome e diz que gostou para parecer inteligente, e os críticos exaltam para parecerem inteligentes — num ciclo que mantém todos isolados em suas próprias bolhas de infelicidade.

Nada contra quem quer ser inteligente e ser apreciado por essa qualidade — o problema é que, quando esse não é de fato o ponto forte da pessoa, ela acaba confundindo inteligência com as táticas que discuto na postagem Pseudo-sofisticação, e o resultado disso é o estado da cultura pop atual.

3/2 — Michael - Trailer Oficial

O trailer oficial de Michael me deixou mais animado quanto ao filme. Há um foco claro na trajetória de sucesso e nas mensagens otimistas que Michael costumava transmitir; não me parece o tipo de filme que irá focar demais nos traumas de infância, no sofrimento psicológico, nem o tipo de biografia Naturalista/minimalista que anda em alta hoje. Tem tudo para ser um raro blockbuster Idealista em 2026, pelo menos no nível do conteúdo.

3/2 — Kleber Mendonça Filho e a feiura

Notei algo perturbador em O Agente Secreto que me levou a fazer o seguinte comentário na crítica: “Não sei se o diretor tem um olhar que, sem querer, revela a feiura das coisas ou se isso é proposital — se ele tem algum compromisso ideológico com a representação do feio na arte.” Não estava falando exclusivamente dos atores, mas outro dia me deparei com uma matéria da Hollywood Reporter que me ajudou a compor um perfil. Apesar do que chamo de Casting Naturalista já ser uma prática comum no audiovisual há muitos anos, na entrevista, Kleber fala como se ainda houvesse uma pressão enorme na indústria pra escalar atores de boa aparência — algo que ele considera “ultrapassado”. Não só ele não valoriza a aparência dos atores, como diz também que não gosta de distinguir entre atores profissionais e não-atores. A matéria obviamente foi escrita porque O Agente Secreto está concorrendo ao Prêmio da Academia de Melhor Seleção de Elenco e, pelo visto, essa inversão de valores o coloca à frente na disputa.

3/2 — Vilanização da riqueza

Revendo a lista dos filmes mais populares de 2025, percebi que hoje são minoria os filmes que NÃO vilanizam a riqueza e o sucesso: Marty Supreme, apesar de celebrar ambição, não deixa de ser um retrato crítico da busca por sucesso; Hamnet e Valor Sentimental mostram os danos emocionais que homens de sucesso causam à família; A Única Saída e Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out são sobre pessoas matando umas às outras pra subir na vida; em Pecadores, os ricos são racistas, assassinos, parte de uma elite opressora, assim como em Uma Batalha Após a Outra, O Agente Secreto e Zootopia 2; em A Empregada, eles são psicopatas mentalmente desequilibrados; em Bugônia, são aliens infiltrados querendo destruir a humanidade — e daria pra achar mensagens similares em diversos outros filmes populares, como Wicked: Parte II, O Sobrevivente, Acompanhante Perfeita, A Longa Marcha, Materialistas etc. O item 4 do Screen Guide for Americans nunca foi tão necessário.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

IA e o Criador

Venho discutindo os perigos da IA para o entretenimento, focando mais no lado do espectador e em como os filmes podem se tornar menos impactantes para o público, mas a IA pode ser igualmente destrutiva do lado do criador.

A arte é uma das expressões máximas da potência criativa do homem. Há poucas coisas mais satisfatórias e que trazem mais plenitude do que criar uma obra da qual você se orgulhe. E o processo criativo é tão gratificante quanto o resultado final. Ter uma grande ideia é uma das experiências mais prazerosas que um homem pode ter. Por essa ótica, pense no absurdo que é delegar o processo criativo à IA. Seria tão bizarro quanto ficar feliz com uma nova tecnologia que permita que um robô brinque com seus filhos por você ou faça sexo com sua esposa, já que ele pode fazer isso de maneira muito mais eficiente e lhe poupar esforço.

A autoestima é uma necessidade psicológica fundamental para o ser humano, e o trabalho criativo é onde o homem consegue a maior parte de sua autoestima. Mas autoestima vem da avaliação que você faz de si mesmo, não do que os outros acham de você. Por isso, pra ter uma autoestima autêntica, você tem que saber que é o autor do seu trabalho, que se superou, que realmente desenvolveu as capacidades que admira e está demonstrando. Senão, você está tentando obter uma autoestima falsa, baseada em uma ilusão na mente de outras pessoas.

Meu temor é que obter esse tipo de “autoestima” seja a motivação principal daqueles mais empolgados com os avanços da IA. Por que será que a IA generativa parece tão focada em Hollywood, em se desenvolver a ponto de poder imitar a arte perfeitamente? Eu não tenho nada contra a tecnologia em si. Mas há vários usos para ela fora do campo da arte que me interessam muito mais. Imagine como aplicativos de mapas podem evoluir. Imagine como vai ser mais fácil planejar um corte de cabelo, uma cirurgia plástica, visualizar uma reforma. Imagine aulas de história para crianças acompanhadas de vídeos realistas mostrando como era a Grécia Antiga etc. Tudo isso eu acharia fantástico, mas por algum motivo, estão todos obcecados em fazer filmes com IA, músicas com IA, escrever livros com IA — ou seja, fazer arte, aquilo que serve para expressar a potência criativa do homem e que, historicamente, sempre foi uma das fontes mais elevadas de autoestima e de prestígio na sociedade. É um senso de orgulho e valor pessoal que as pessoas estão buscando na IA — porém, de forma desonesta.

Vamos traçar um paralelo com as Olimpíadas. Imagine que inventem uma espécie de perna mecânica que permita que uma pessoa sedentária possa correr tão rápido quanto um atleta profissional. Eu não teria nada contra a tecnologia em si, que poderia ser usada para vários fins práticos fora do esporte — chegar mais rápido ao trabalho, passear pela cidade sem se cansar etc. Pra isso, a perna não precisaria ser ultrarrealista e se parecer exatamente com uma perna humana. Agora imagine que o usuário não esteja interessado nessas funções práticas, mas queira usar a perna mecânica para competir nas Olimpíadas. Qual é seu objetivo, nesse caso? Obter o tipo de admiração e prestígio que apenas atletas profissionais antes conseguiam. E, como ele deseja fazer o público acreditar que as capacidades da perna são suas capacidades naturais, ele precisa que a perna seja realista, indistinguível de uma perna humana.

Pense no quão ridícula é essa atitude. Não só esse homem está sendo desonesto com o público, como está confessando que a única coisa que lhe importa na vida é o que os outros acham dele. Ele sabe que não tem as virtudes que está exibindo, mas isso não importa, desde que receba os aplausos, as medalhas, os créditos sociais. Ele confessa também que não tem nenhum prazer no esporte em si. Que treinar, atingir metas, superar seus limites não lhe interessa. Que o esporte é apenas um meio para obter aplausos — e, se uma máquina puder eliminar toda a parte “chata”, melhor.

Minha esperança é que essa confusão a respeito da função da arte, tanto para o artista quanto para o espectador, leve a um cenário caótico apenas nos primeiros anos de IA, mas que, com o tempo, as pessoas comecem a cair em si e a limitar o uso da IA apenas a funções mais técnicas, “braçais”, que não destruam a dimensão criativa da arte. Veremos.


Mais sobre IA:

Hollywood vs. IA

IA e Criatividade

Inteligência Artificial: meus pensamentos

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Fortes vs. Fracos: a maior mentira do cinema

A moralidade altruísta dominante na cultura cria uma “regra” que dificilmente consegue ser quebrada hoje no cinema: vilões devem sempre ser representados pelos fortes, poderosos, privilegiados, e as vítimas/mocinhos, sempre pelos mais humildes, desprovidos, vulneráveis.

Na ética por trás do Idealismo, não associamos força ao mal. Muito pelo contrário: o mal vem da irracionalidade, do erro, que, em última instância, torna o agente impotente. A fraqueza, portanto, é que é associada ao mal. Por trás da maldade, enxergamos burrice, ignorância, motivações como inveja, ressentimento, racionalizações e o desejo de proteger uma pseudoautoestima.

Pouquíssimos filmes, no entanto, retratam o mal dessa forma. O mal absoluto, no entretenimento, quase sempre é associado à força — a um personagem poderoso que ataca suas vítimas não por invejá-las ou para camuflar suas próprias fragilidades, mas porque é forte demais, e a força corrompe.

A realidade, porém, é que pessoas realmente fortes (estou falando de força de caráter, de pessoas motivadas por autoestima, ambição moral, pela conquista de valores positivos) não perdem tempo indo atrás de pessoas fracas para atacá-las; não ocupam suas mentes com elas. Pena, indiferença ou desprezo — não ódio mortal — é o que uma pessoa forte sente por aqueles que não têm suas forças. O forte odiará o fraco apenas se for atacado e prejudicado por ele, mas não gratuitamente, não como um impulso primário. Já a pessoa de caráter fraco (dominada pela “moralidade de escravo” descrita por Nietzsche) tende a odiar os mais fortes apenas por eles serem mais fortes — como a existência dos fortes evidencia sua fragilidade, eles representam uma “ameaça”, um “ataque”, mesmo que não tenham tomado nenhuma ação contra ela.

Essa verdade — de que o ódio primordial é um ódio da fraqueza em direção à força, não da força em direção à fraqueza — é o grande tabu que o cinema raramente ousa quebrar. Isso é ainda mais verdadeiro em sociedades ou eras decadentes, quando a autoestima geral da população é baixa.

Isso significa que, para ser mainstream, politicamente correto e aceito pelo público, todo conflito entre bem e mal, de uma forma ou de outra, acaba tendo que ser distorcido e apresentado como uma agressão provocada pelo forte. Isso leva, entre outras coisas, a uma falta de realismo psicológico no entretenimento: a vilões caricatos, cujo ódio parece gratuito, exagerado, irracional, sem as motivações mundanas, de lógica simples, que encontramos em conflitos da vida real.

Sim, existem pessoas “fortes” que não têm senso ético e, na busca de seus objetivos, podem atropelar os fracos — não por odiá-los, mas por não se importarem o bastante com eles, por vê-los como meros obstáculos em seu caminho. Nesse contexto, o fraco pode odiar o forte por razões legítimas — mas seu ódio será voltado contra a falta de ética de indivíduos específicos; não criará todo um ressentimento contra pessoas fortes, colocando no mesmo saco os éticos e os antiéticos. Mas esse tipo de distinção é raro entre pessoas que se colocam no time dos fracos. Pra essas, é muito mais conveniente ver os fortes sempre como opressores, os iniciadores de qualquer violência.

Outro ódio legítimo é o dirigido à pessoa obstinada por poder, por dominar outros homens, que muitas vezes consegue ser bem-sucedida economicamente, obter poder político e é confundida com alguém forte. Mas a obsessão por poder sobre os outros é sempre sinal de fraqueza de caráter, não de força. Por trás desse comportamento, há sempre um ego frágil, um ressentimento contra pessoas que o “poderoso” enxerga como ainda mais fortes do que ele — mas esse fato raramente é reconhecido pelos filmes hoje, que insistem na ideia de que o mal tem sua origem no poder.

É por causa dessa regra criada pela moralidade altruísta que dificilmente vemos filmes denunciando regimes comunistas. Discutir os males do comunismo honestamente requer que se exponha o ódio do fraco em relação ao forte, o que é um tabu. A maioria dos filmes anticomunismo acaba retratando os comunistas praticamente da mesma forma que os fascistas são retratados no cinema: autoritários, confiantes, oprimindo uma população humilde.

Os Gritos do Silêncio (1984), sobre os horrores cometidos no Camboja nos anos 70, nunca deixa claro que os Khmers Vermelhos eram seguidores do partido comunista. Se você não entender o contexto histórico, vai sair do filme com a impressão de que os Estados Unidos (fortes) foram os responsáveis pelo genocídio e que os mocinhos são os jornalistas expondo a crueldade do imperialismo ocidental.

Primeiro, Mataram o Meu Pai (2017) é um pouco melhor nesse sentido, pois, embora evite associar o Khmer Vermelho ao comunismo e culpe parcialmente os EUA no final, pelo menos expõe que os vilões são igualitários, rejeitam o luxo e a propriedade privada — características claras do comunismo. Mas a história não deixa de ser contada por uma lente altruísta, que quer que simpatizemos com os cambojanos por serem vulneráveis, simples, vítimas passivas, em contraste com os vilões assertivos e autoritários. Há toda uma atitude “humanitária” na abordagem que, pra o espectador comum, pode se traduzir em uma crítica à força excessiva.

No caso de filmes que denunciam o nazismo, já estamos tão acostumados com a ideia de os nazistas serem os “fortes” que achamos que, nesse caso, o retrato é honesto e não há controvérsia alguma. Mas será mesmo? Um dos maiores “plot twists” da minha vida adulta foi descobrir que, ao contrário do que os filmes sempre fizeram parecer, os judeus, na verdade, eram vistos como fortes pelos nazistas e pela população europeia — não como um grupo frágil, humilde, digno de desprezo. No documentário Shoah (1985), isso fica claro nos depoimentos de alguns poloneses entrevistados. Eles não descreviam os judeus como inferiores no período pré-Segunda Guerra, mas como “os mais ricos em qualquer profissão”, as mulheres mais bem vestidas etc. Ou seja, o antissemitismo também era um ódio da fraqueza direcionado contra a força, e só quando entendi isso a perseguição contra os judeus fez sentido psicológico para mim.

A crueldade dos nazistas contra um povo tão vulnerável sempre me soou um pouco estranha — mas talvez essa tenha sido a narrativa que os judeus tiveram que construir para se proteger. Judeus em Hollywood, muito espertos, sabiam que, se fossem vistos como fortes pela população, sempre gerariam desconfiança e seriam julgados como maus. Portanto, o cinema ressignificou essa dinâmica e construiu a imagem do judeu simples, humilde, oprimido pela força dos nazistas. Quando eu era criança e ouvia falar em “povo judeu”, me vinha imediatamente à mente a imagem de pessoas frágeis, “simplinhas”, mal alimentadas — o equivalente ao que se pensa hoje em relação aos palestinos. Enquanto essa narrativa se sustentou, o antissemitismo esteve em baixa. Nos últimos anos, porém, a percepção de que os judeus na verdade são os fortes voltou à atenção das massas, e o antissemitismo no mundo explodiu.

Um filme relevante nessa discussão e que quebra essa regra altruísta do cinema de maneira única é Dogville (2003). A artimanha de Dogville é dar a entender que a história se trata de uma crítica aos EUA. Não sei até que ponto isso foi intencional e até que ponto é reflexo das contradições do autor, mas gosto de me iludir que é um truque de mestre de Lars von Trier. Ao anunciar o filme como parte de uma trilogia irônica chamada “EUA: Terra das Oportunidades”, ele confunde o espectador o bastante para que ele acompanhe a história achando que se trata de um ataque aos fortes, sem perceber que Trier está, ao longo do filme todo, fazendo o contrário — expondo a mediocridade dos cidadãos de Dogville e revelando a verdadeira nascente do ódio humano: o ressentimento do fraco.

Em culturas dominadas pelo altruísmo, celebrar a força é sempre politicamente incorreto, sempre impopular e arriscado. É por ir contra a moralidade altruísta — contra a ideia de que os fortes são maus e os fracos são os nobres — que o Idealismo não consegue florescer em tempos como os atuais. Quanto mais o altruísmo domina a cultura, mais o artista precisará usar artimanhas, camuflagens, ser indireto, confundir o público, se quiser desafiar esses valores sem se tornar persona non grata na sociedade.

Hollywood vs. IA

A lista ao lado mostra uma divisão em Hollywood entre cineastas que estão abraçando a IA e outros que estão resistindo. Minha maior preocupação com relação à IA no entretenimento ainda é a questão da identificação. Se o conteúdo criado por IA for facilmente identificável, diferenciado de registros fotográficos e de trabalhos autorais feitos sem IA, será apenas uma revolução tecnológica como o CGI foi. Sim, muitas pessoas perderão seus empregos atuais, longas poderão ser feitos num estalo de dedos por amadores em seus laptops, e isso pode ter o efeito de degradar ainda mais o status do cinema na cultura — mas essa é uma consequência inevitável do progresso tecnológico. Reclamar disso é como reclamar da invenção da eletricidade, da fotografia digital etc.

Cineastas que quiserem manter o nível da arte continuarão podendo fazer filmes à moda antiga (fotografando atores em ambientes reais — o que se tornará apenas mais caro e inconveniente) ou usarão a IA com bons critérios — apenas para funções não criativas — colaborando com outros artistas (escritores, atores, diretores de arte, fotógrafos, compositores etc.), para que cada detalhe da obra seja intencional, reflita decisões e talentos humanos, e não funções automáticas do algoritmo.

O problema é se não pudermos diferenciar facilmente trabalhos feitos com IA de trabalhos feitos sem IA.

Muita gente parece não entender, por exemplo, que existe uma diferença fundamental entre imagens fotografadas e imagens feitas no computador. Por mais que você torne um ator de IA realista, ele nunca terá o mesmo impacto de um ator que existe de verdade. Astros são tão importantes que, até em animações, hoje se tornou uma convenção contratá-los para dublar os personagens, pois isso aumenta o interesse pela produção.

O mesmo princípio vale para os cenários e os espaços físicos do filme: por mais grandiosa que seja uma imagem de CGI, ela sempre parecerá pequena em comparação com um panorama de David Lean. Se a IA se tornar a forma padrão de se criar imagens, isso significa que todo o cinema se transformará em animação. Animações podem ter muitos dos méritos criativos de um filme, mas o magnetismo de uma imagem fotografada não pode ser recriado por um desenho. “Ah, mas e se chegar a um ponto em que a imagem feita por IA fique indistinguível da realidade?” — Aí, o espectador terá uma desconfiança eterna em relação a tudo o que vê e, por via das dúvidas, assumirá que tudo é IA — ou seja, não se permitirá confiar na imagem e sentir o tipo de emoção que sentimos quando estamos diante de algo real. Mesmo quando a imagem for real, ele terá um pé atrás e reagirá a tudo como se fosse uma animação (isso já acontece hoje, com o excesso de CGI nos filmes). A confiança é uma coisa frágil. Se você descobre que uma pessoa lhe contou uma mentira descarada, você começa a duvidar de todas as suas outras afirmações.

Mais grave ainda é o fato de muita gente não entender a importância do talento humano, da autoria da obra (e dos diversos aspectos da obra), como se apenas o produto final importasse, independentemente de sua origem (já discuti isso no texto IA e Criatividade). Mas pense: toda vez que você viu algo realmente extraordinário na arte, toda vez que uma obra impactou sua vida, você provavelmente se perguntou logo em seguida: “Quem fez isso?” — e foi pesquisar sobre o artista. Se a autoria de tudo for colocada em xeque com a chegada da IA no entretenimento, a “desconfiança eterna” criada pela tecnologia prejudicará também essa dimensão da arte.

Agora pergunte-se: quem é que se beneficiaria ao borrarmos a linha entre trabalhos feitos com IA e trabalhos feitos sem IA? Quem teria interesse em não identificar que seu trabalho foi feito por IA? Certamente não é o artista talentoso, capaz de inspirar o público com suas verdadeiras capacidades. É aquele que deseja usar a IA para esconder sua incapacidade e tentar obter algum crédito imerecido desse estado de incerteza inaugurado na mente do público. A IA, nesse cenário, torna-se uma máquina gigante de “redistribuição de crédito”, dando crédito a quem não merece às custas de quem merece.

Num futuro mais distante, pode ser que a tecnologia avance tanto que modifique por completo a natureza humana; aí, nossas filosofias e valores terão de ser totalmente repensados. Mas, por enquanto, não vivemos nesse futuro, e ainda é importante que saibamos o que é verdade e o que não é, o que reflete talentos humanos reais e o que não reflete. Enquanto essa for nossa realidade, fazer arte com IA e não avisar o espectador será uma forma de fraude.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

A Voz de Hind Rajab

A Voz de Hind Rajab, indicado ao Prêmio da Academia de Melhor Filme Internacional, é sobre o caso real de uma menina palestina de cinco anos que foi morta em 2024 na Faixa de Gaza durante um ataque do exército israelense. O filme mostra tudo pelo ponto de vista de socorristas que atendem a uma chamada de emergência da menina.

É um caso interessante de avaliar. Imagine que você vá ver um filme, e a história mostre apenas um jovem artista no início do século 20 desenvolvendo suas habilidades como pintor e tentando entrar na Academia de Belas Artes de Viena. O ator principal é carismático, o filme foca em suas qualidades positivas, há uma narrativa de sucesso razoavelmente envolvente, e a sessão, de modo geral, é agradável. O único “detalhe” é que esse artista se chama Adolf Hitler. Nada sobre seus males é citado na tela, não há críticas nem ironias nas entrelinhas, de modo que, se uma pessoa sem conhecimento de história entrasse na sala, ela só teria motivos pra admirar o personagem. Que nota você daria pra tal filme? Você julgaria o filme apenas pelo que ele apresenta — pelas emoções e ideias que evoca na plateia durante a sessão — ou levaria em conta informações que traz de fora da sala; o impacto que tal retrato pode ter no mundo?

Eu busco avaliar filmes sempre pelo que apresentam na obra em si. Quando me irrito com um filme por questões ideológicas, é porque essas questões estão infundidas na narrativa, porque os valores que desprezo se manifestam na própria obra — não porque li declarações do diretor, etc. Então, no caso de Hind Rajab, que foca em um drama específico, deixando o conflito Israel x Palestina em segundo plano, sou forçado a ignorar o contexto político externo e dar ao filme a mesma nota que daria a um filme sobre socorristas falando ao telefone com uma criança israelense durante um ataque terrorista islâmico.

Não é uma nota muito boa, pois trata-se ainda de um filme semi-Naturalista, não muito dinâmico, focado em sofrimento, com uma relevância muito mais jornalística do que criativa — mas não é a nota zero que eu daria a um filme que representasse um ataque aberto ao mundo civilizado e ao direito de países livres de se defenderem.

The Voice of Hind Rajab / 2025 / Kaouther Ben Hania

★★

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Filmes em Alta

Queria aproveitar melhor a coluna lateral pra deixar dicas ou informações que possam tornar o blog útil mesmo na ausência de novas postagens (continuo com o plano de comentar só os filmes de maior impacto cultural). Neste painel “Filmes em Alta”, a ideia é destacar os filmes mais discutidos do momento. As estrelas ao lado são a minha avaliação. A cor funciona como uma espécie de termômetro cultural: filmes em verde são os que fazem alguma movimentação relevante na direção do Idealismo; em amarelo, são os filmes mistos que não mudam muito o status quo; em vermelho, são os que fortalecem as más tendências. Filmes em cinza são os que não vi.

Têm achado essas informações úteis?