quinta-feira, 26 de março de 2026

Cultura - Março 2026

26/3 — Harry Potter (HBO)

A nova série baseada nos livros de Harry Potter é um bom exemplo do que discuto no texto Casting Naturalista. Ao ver as novas imagens, fiquei me perguntando por que essa tendência — que também afeta o cinema — é especialmente forte nas séries. Uma hipótese: não é apenas ativismo dos criadores, mas talvez os estúdios tenham descoberto que, para o público, as séries de TV têm uma função ainda mais paliativa do que os filmes. Que os adeptos do "binge-watching" costumam buscar conforto emocional, diminuição da ansiedade (em vez de inspiração/admiração), ainda mais do que o espectador de cinema.

16/3 — Prêmios da Academia: Vencedores

Uma Batalha Após a Outra foi o grande vencedor e, como eu disse, reflete um posicionamento mais moderado da Academia — a demonstração de algum respeito ainda por técnica cinematográfica, merecimento: é como se estivéssemos nos anos 70, quando filmes mais cínicos e de teor político ganhavam o prêmio, mas pelo menos eram bem dirigidos, tinham grandes atuações etc.

Michael B. Jordan levar Melhor Ator foi o prêmio mais forçado da noite, assim como o de Melhor Roteiro Original para Pecadores. A performance de Timothée Chalamet e o roteiro de Marty Supreme pra mim eram obviamente superiores, e o fato de Marty Supreme ter saído de mãos abanando é um mau sinal. Mas Pecadores ter perdido 12 dos 16 prêmios ajuda a diminuir um pouco a sensação de “fim dos tempos” que tive quando saíram as indicações.

Fora isso, não acho que os resultados foram exageradamente injustos, levando em conta os filmes disponíveis. Posso não gostar da maioria dos filmes como um todo, mas não discordo que tenham mérito em categorias específicas: gosto de Amy Madigan em A Hora do Mal (uma versão mais camp da personagem de Ruth Gordon em O Bebê de Rosemary, que também venceu Atriz Coadjuvante), achei Sean Penn ótimo em Uma Batalha, a performance de Jessie Buckley não me toca, mas não havia outras muito mais premiáveis que a dela; respeito a direção de Paul Thomas Anderson, a fotografia de Pecadores, gosto dos cenários e figurinos de Frankenstein, da canção de Guerreiras do K-Pop...

Em 2025, quase não tivemos bons filmes alinhados com o Idealismo, então, pela ausência de constraste, minha sensação de injustiça nessa cerimônia foi menor que de costume.

12/3 — Hamnet: arte paliativa

A cena que mais me incomodou em Hamnet foi a cena final da apresentação da peça. Pra minha surpresa, é a cena que mais vem emocionando as pessoas. Fãs do filme parecem achar particularmente bonita a maneira como o filme ilustra o poder da arte; a maneira como a arte se torna crucial para a transformação dos personagens no final. Até aí não vejo nenhum problema. O que me impede de me conectar com a cena (além dos problemas de caracterização) é que ela só funciona sob a perspectiva da “arte paliativa”: da arte como remédio para as dores da vida, não como afirmação de valores positivos. De certa forma, é um final metalinguístico. O espectador se comove com Hamnet por ser uma história sobre luto e, no final, a protagonista de Hamnet vai a uma peça que a comove igualmente por falar sobre luto. 

11/3 — Prêmios da Academia: Expectativas

Pra usar a cerimônia deste domingo como termômetro cultural, os três filmes mais importantes pra ficar de olho são Uma Batalha Após a Outra, Pecadores e Marty Supreme.

Marty Supreme é o concorrente “opressor” da temporada. Ainda que tenha toques desconstruídos, no contexto atual, ele acaba simbolizando a busca por excelência, padrões elevados e merecimento à moda antiga — por isso mesmo vem perdendo força na disputa. A única categoria na qual ainda tem chances é a de Melhor Ator. Caso Timothée Chalamet vença, será um aceno bem-vindo (e hipócrita) da Academia à meritocracia.

Uma Batalha Após a Outra é o filme militante “respeitável”. Se vencer Melhor Filme e Melhor Direção, será a Academia optando por uma alternativa menos radical. Sim, ela ainda funciona como plataforma política, continua sendo contra os valores do antigo Oscar, mas pelo menos acredita que é importante equilibrar essa agenda com um pouco de mérito, reconhecendo artistas talentosos, de bom currículo etc.

Pecadores já é o chute no balde. É o filme que jamais conseguiria ser indicado pelos critérios antigos e só tem força na disputa por questões ideológicas que nada têm a ver com a qualidade real do filme. Prêmios técnicos ou ligados à produção podem até ser merecidos, mas, se ganhar Melhor Filme, Direção, Roteiro Original e qualquer prêmio de atuação, será uma vitória da “justiça social”, a mensagem clara de que mérito e excelência não são mais os critérios, que o antigo Oscar continua morto etc. Com base nos resultados da última década, seria minha aposta para Melhor Filme.

11/3 — Todo Mundo em Pânico 6 — trailer

Os Wayans estavam afastados da franquia Todo Mundo em Pânico desde o segundo filme e agora estão voltando determinados a ressuscitar o besteirol politicamente incorreto dos anos 90/2000. Marlon Wayans disse à Deadline que seu objetivo é "cancelar a cultura do cancelamento" e que o filme é "sobre trazer a comédia de volta". Uma missão mais do que nobre e, pelo trailer, acho que eles têm tudo pra conseguir.

2 comentários:

  1. Olá, Caio.

    Vi em seu letterbox as notas para Bride! e The Ugly Stepsister. Fiquei curioso sobre sua nota. Poderia comentar a respeito?

    Também fiquei intrigado sobre o que achou de Iron Lung. Eu tenho uma ideia pelo trailer (não vi o filme), mas quero saber se é semelhante às suas impressões.

    Abraços.

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  2. Oi Leonardo, tudo bem? Aí vão minhas impressões:

    A Noiva! e A Meia-Irmã Feia são dois filmes que eu achei que não fosse gostar nem um pouco porque pareciam fazer parte dessa onda atual de cinema "feminista" (misândrico/anti-idealista), mas não foi exatamente o caso. Muitos filmes hoje eu acabo rejeitando por causa da intenção básica… são motivados por ódio, se importam só com a mensagem, e por isso acabam ignorando questões narrativas mais fundamentais. No texto "A intenção de um filme", eu listo como uma das más intenções:

    "Demonizar algum indivíduo ou grupo social que o autor despreza; criar caricaturas ou uma narrativa persuasiva para convencer os espectadores do quão detestáveis são certas pessoas, reafirmar um ódio que eles já sentem."

    Mas não achei que A Noiva! e A Meia-Irmã Feia caíram nessa categoria. Ambos estão mais pra narrativas trágicas sobre personagens ingênuos que se cegam para certas realidades da vida (a "sombra do Inocente") e pagam o preço no final.

    A Noiva! também cai na categoria de história "o crime não compensa", sobre criminosos carismáticos tipo Bonnie & Clyde. Mas não achei que ele chega a fazer os criminosos de vítima, romantizar a violência etc. No início me surpreendeu principalmente por ter um roteiro mais estruturado, com mais substância que a média (é daqueles que fizeram eu me perguntar "será que esse roteirista é judeu?" - e era, rs). Depois da metade, acho que o filme se perde um pouco, esquece do tema central… E outro problema pra mim é o casting da Jessie Buckley que não funciona. No fim, acabei dando uma avaliação mista, mas mais por esse desenrolar insatisfatório do roteiro na segunda metade do que por problemas éticos.

    A Meia-Irmã Feia fez eu me sentir vendo um legítimo filme cult, como aqueles da minha lista antiga. Moralmente, não me incomodou porque a protagonista é responsável pelas decisões que toma… Ela tem um sonho infantil e irracional de se casar com o príncipe, acha que fazendo cirurgias e se tornando artificialmente bonita vai conseguir — e paga o preço. O foco não é o mal dos padrões de beleza impostos pela sociedade, a perversidade dos ricos/belos, mas as decisões destrutivas da protagonista. Achei a atriz ótima (a transformação me fez até questionar se era a mesma pessoa), a narrativa envolvente, o padrão criativo bom (ideias divertidas como a da tênia, etc.). Tem um pouco do que me faz gostar dos filmes do Trier.

    Iron Lung achei ruim em todos os níveis. Se fosse um filme normal, feito em Hollywood por profissionais experientes, eu ainda não gostaria. Tem daqueles "começos abertos" onde você é jogado já no meio da história e vc tem que torcer pelo protagonista sem contexto algum. É uma situação desagradável que vai só se tornando cada vez mais desagradável ("culto à dor")… A história é puro senso de vida malevolente cristão: o homem perdido num universo de sofrimento (oceano de sangue), cheio de monstros, sem olhos pra poder se orientar, onde realidade e sonho se confundem etc. Agora imagine isso feito com o requinte artístico de um trabalho de faculdade, e por um diretor que não sabe se comunicar objetivamente… Metade do filme é o protagonista em silêncio, olhando com cara de preocupado para instrumentos no painel do submarino, e closes nesses painéis, como se o espectador pudesse entender o que eles estão indicando, ler os pensamentos do personagem etc. É um caos epistemológico, que acabou me lembrando da conexão entre misticismo, pessimismo e problemas cognitivos. Abs!

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