segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A Garota no Trem

NOTAS DA SESSÃO:

- O começo é promissor. Intrigante pelo menos. Emily sonhando no trem, depois a história mudar pro ponto de vista das outras mulheres, etc. Não é óbvio o rumo que a história irá tomar.

- Muitas vezes acho a Emily Blunt inadequada nos papéis que escolhe. Ela não convence como uma stalker alcoólatra desequilibrada. Fica parecendo uma atriz meio "sessão da tarde" tentando se esforçar pra entrar num papel mais complexo.

- Narrativa confusa. Há muitos flashbacks, datas, personagens secundários pouco relevantes, as 2 mulheres loiras se parecem muito uma com a outra, e tudo é misturado com elementos de alucinação.

- O problema do filme é que a protagonista não é gostável. Ela não chega a ser má, mas está longe de ser alguém admirável.. e em vez do filme retratá-la negativamente, ele tenta criar empatia por ela. Então ficamos naquela posição desagradável de termos que defender uma mulher frágil, confusa, que comete uma série de erros, age de forma irracional, etc. Não dá pra torcer por ela, se identificar com a obsessão que ela tem pela loira, esperar um romance com o cara, etc. E os outros personagens do filme também são negativos. A história é sobre um monte de gente desequilibrada fazendo burrice e sofrendo as consequências. E as caracterizações são superficiais, não chega a ser um estudo psicológico fascinante pra compensar.

- SPOILER: Forçada a ideia da mãe dormir na banheira com o bebê. É a cena mais chocante do filme, e qual a importância disso pra trama? Nenhuma. É algo enfiado ali pra tentar tornar o filme mais pesado. O grande deleite do autor parece ser o de mostrar como as pessoas podem ser perturbadas psicologicamente. Há certo prazer aqui em mostrar o ser humano como um saco de traumas, uma vítima de emoções "complexas", etc.

- Os persongens são desprezíveis. Em particular as mulheres. Parece que elas não pensam em nada na vida a não ser em conquistar homens, formar família e procriar. Estão dispostas até a matar por isso. Ninguém tem um mínimo senso de independência.

- A Emily Blunt nunca teria conseguido matar alguém estando bêbada do jeito que estava, desarmada, apenas com um golpe. É criado todo um mistério em cima disso, mas é algo muito improvável. E mesmo que ela tivesse matado a outra, não seria uma revelação tão chocante. Na cena em que a ela rouba o bebê da loira, já fica claro que ela é perturbada e capaz de fazer loucuras. E nós mal conhecemos os outros personagens pra nos importarmos por eles.

- SPOILER: Péssimo o ex-marido de uma hora pra outra ser o vilão. Ela nem suspeitava do caráter dele? Só porque vivia bêbada não percebeu direito que era casada com um completo monstro? Muito forçado o roteiro. O final vai ficando cada vez mais ridículo (a Emily ir até a casa do cara e chamá-lo de assassino, se colocando numa posição de extremo risco). Parece uma versão piorada de Garota Exemplar, que já era problemático. E o fato de surgir um vilão inquestionavelmente mau não inocenta a protagonista das coisas duvidosas que ela fez ao longo do filme. Ela não se torna a "mocinha" de uma hora pra outra.

- Por que a loira chamou o cara até o meio da floresta pra contar que estava grávida e ameaçá-lo? Estava implorando pra ser assassinada? É tudo forçado no filme. Inclusive a premissa da protagonista poder acompanhar a vida dos outros passando de trem em frente às casas.

- SPOILER: Ridícula a cena em que a Emily Blunt golpeia o ex e depois a mulher desce e finaliza o serviço. Sensacionalismo amador. Primeiro o filme retrata mulheres de forma deplorável, depois vilaniza os homens e vira a "revanche das oprimidas". O filme não consegue decidir se é misógino ou misândrico.

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CONCLUSÃO: Roteiro tolo e confuso tentando se passar por suspense de primeira linha.

The Girl on the Train / EUA / 2016 / Tate Taylor

FILMES PARECIDOS: Garota Exemplar (2014) / Reencontrando a Felicidade (2010)

NOTA: 4.0 

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

É Fada

Não tinha gostado do trailer por causa da ênfase nos palavrões e no humor vulgar (o próprio título já é um trocadilho de gosto duvidoso). Pensei que fosse ser um caso de Idealismo Corrompido - o filme exagerar nesse lado baixo como um pedido de desculpas pelo aspecto mais inocente da história (já que isso anda fora de moda). Mas no fim quase tudo que tinha de grosseiro no filme estava no trailer e o resto não chegou a me incomodar (toda vez que a Kéfera tirava algum objeto do traseiro eu apenas dava uma revirada de olho, mas em seguida dava pra voltar pro clima da história).


A Kéfera está excelente no filme - carismática, espontânea, engraçada, bonita (nunca acompanhei ela no YouTube e os poucos vídeos que vi não me impressionaram muito pelo conteúdo, mas aqui pra mim ficou claro que ela nasceu pra estar em frente às câmeras e que ela pode ter uma carreira de sucesso como atriz se fizer boas escolhas).

Achei o filme nostálgico porque ele lembra coisas infantis dos anos 80/90, filmes da Xuxa, etc, daqueles com efeitos especiais mal feitos e todas aquelas coisas "politicamente incorretas" divertidas que não são permitidas mais hoje em dia, o que dá a impressão de realmente estarmos vendo algo fora de seu tempo (a menina por exemplo alisa o cabelo pra impressionar os colegas de classe, e isso é mostrado com total naturalidade, o que certamente irritará muita gente; há também uma certa erotização de menores de idade, o que era comum há umas décadas atrás mas não mais hoje em dia).

Claro, há algumas cenas constrangedoras (as dancinhas são sempre uma tortura), e também não dá pra fazer grandes elogios ao filme em termos estéticos, mas dentro de sua proposta acho que ele diverte e funciona. Se eu tivesse filhos iria preferir levá-los pra ver este filme do que a maioria das coisas lançadas pra crianças recentemente.

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É Fada / Brasil / 2016 / Cris D'Amato

FILMES PARECIDOS: Hannah Montana: O Filme (2009) / High School Musical (2006) / O Diário da Princesa (2001) / Sonho de Verão (1990) / Lua de Cristal (1990)

NOTA: 6.5

sábado, 22 de outubro de 2016

O Contador

- Misterioso e intrigante o começo (o flashback com os assassinatos sem revelar os personagens). A cena do garotinho montando o quebra-cabeça é excelente e uma ótima apresentação do personagem.

- Ben Affleck está bem no papel e o personagem é bem delineado, tem aquela combinação ideal de vulnerabilidades e forças que fazem alguns dos heróis mais interessantes (acho divertido que ele tem habilidades quase sobrenaturais, mas ainda assim convincentes pois são justificadas pela caracterização do personagem - o autismo, a criação do pai, etc. - acaba sendo bem mais empolgante do que esses filmes de super-heróis que de fato têm super poderes).

- Uma das melhores direções e fotografias do ano (nada de altamente virtuoso ou que chame atenção para si, mas dá pra ver que a equipe tem uma noção de narrativa acima da média).

- O elenco coadjuvante é muito bom (J.K. Simmons, John Lithgow...). A relação entre o Ben Affleck e a Anna Kendrick é positiva e atraente (no começo ele é grosso com ela, não se dão bem, mas sabemos que eles são compatíveis, torcemos por uma amizade, etc).

- Ótimo roteiro - todas as cenas são interessantes, avançam a história, enriquecem os personagens, sempre acontece algo de surpreendente que modifica a situação e cria um pequeno clímax dentro de cada cena, etc.

- Demais o detalhe de quando ele volta pra casa transtornado e erra o "timing" da entrada na garagem (que antes era milimetricamente pensado).

- Muito bom quando ele começa a agir e a matar os bandidos, salvar a mocinha, etc. O filme criou bastante expectativa em relação às habilidades do herói, então não víamos a hora dele começar o "show".

- O roteiro é bom porque mesmo que você não entenda nada de finanças, dos detalhes mais técnicos da trama (como eu por exemplo) o filme continua prendendo a atenção num nível mais essencial.

- Bons os flashbacks mostrando o Affleck criança sendo "treinado" pelo pai. É quase um milagre que esse roteiro seja original, e não baseado num livro. Não se vê mais hoje em dia histórias sólidas como essa, ricas em detalhes, etc, sendo criadas diretamente para o cinema.

- SPOILER: O único problema do filme na minha opinião é o final. Os flashbacks começam a ficar confusos demais pra entender (o motivo do herói ter sido preso no passado, etc), mas principalmente a surpresa envolvendo o irmão acaba soando forçada, uma coincidência total que não gera um significado interessante pro filme. Ao longo da história, não foi construído um conflito interessante entre os 2 pra isso parecer um clímax necessário e emocionalmente satisfatório. É uma surpresa que meio que "vem do nada" e deixa a gente desconfiado da trama. Como ação pelo menos a sequência na casa funciona.

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CONCLUSÃO: Raro exemplo (hoje em dia) de um entretenimento que se leva a sério e tem boa qualidade cinematográfica.

The Accountant / EUA / 2016 / Gavin O'Connor

FILMES PARECIDOS: O Jogo da Imitação (2014) / Argo (2012) / Jack Reacher: O Último Tiro (2012) / O Fugitivo (1993)

NOTA: 7.8

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Inferno

NOTAS DA SESSÃO:

- O começo é envolvente, cheio de tensão, introduz um tema grandioso (o tema da superpopulação / fim do mundo), coloca o protagonista no meio de um grande mistério, etc.

- A história é contada com clareza e bom senso, conseguimos acompanhar o passo a passo da investigação junto com o herói (não é como muitas tramas de mistério onde o protagonista tem sacadas impossíveis que soam como misticismo).

- O roteiro é um pouco monótono pois do começo ao fim a situação é a mesma: uma eterna cena de perseguição onde os 2 protagonistas tentam decifrar códigos enquanto fogem dos vilões.

- Em termos de direção / fotografia também não há nada de muito interessante ou artístico. O filme é apenas bem produzido.

- SPOILER: Muito forçada a revelação de que a Felicity Jones está do lado do vilão e estava fingindo o tempo todo. Começamos a questionar a trama inteira. Se ela era amante do vilão, por que ele deixaria pistas tão difíceis pra ela seguir, a ponto dela precisar da ajuda do Langdon e correr sérios riscos de fracassar, de ser pega?

- SPOILER: Depois ainda há a revelação de que o acidente do Langdon, a cena no hospital, foi tudo uma armação... A trama começa a ficar muito artificial, confusa, dependente de diálogos de exposição. Não entendemos mais nada direito, ficamos apenas com a vaga noção conspiratória de que "nada é o que parece" e que há poderosos por aí controlando nossas vidas. Sem falar que o herói fica parecendo um tolo que não fez nada de útil durante o filme inteiro.

- A ação final pra impedir a bomba de explodir é tensa, mas um pouco forçada, visualmente confusa. A locação pelo menos é interessante.

- Ótimo o argumento do Langdon de que os maiores crimes da história foram cometidos em nome do "amor pela humanidade", e que nada justifica usar força contra pessoas inocentes por um "bem maior".

- SPOILER: Divertida a cena de conclusão (a devolução da máscara).

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CONCLUSÃO: Entretenimento tradicional, eficiente, mas sem nada de muito criativo ou especial cinematograficamente.

Inferno / EUA, Japão, Turquia, Hungria / 2016 / Ron Howard

FILMES PARECIDOS: Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres (2011) / Anjos e Demônios (2009) / O Código Da Vinci (2006) / Sob o Domínio do Mal (2004) / Hannibal (2001)

NOTA: 6.5

sábado, 1 de outubro de 2016

O Lar das Crianças Peculiares

NOTAS DA SESSÃO:

- Por que de uma hora pra outra coisas fantásticas começam a acontecer? Qual a explicação pro sobrenatural na história?

- Jake é um "herói envergonhado" - não tem nada de especial, atraente como protagonista. A relação dele com o pai também é artificial e a viagem deles pra ilha parece improvável.

- O começo do filme sugere que Jake irá descobrir um lugar mágico, encantador, mas quando ele chega no outro mundo, é um ambiente melancólico, sem cor, com personagens sinistros e infelizes (o que são esses gêmeos horríveis com pano na cabeça?). É o que falo na postagem das "tendências irritantes" - filmes pra jovens hoje em dia competem pra ver qual soa mais sombrio (como se isso fosse sinal de qualidade).

- Os poderes das crianças são as ideias mais divertidas do filme (a menina colocando a mão no bule pra ferver a água, a outra crescendo cenouras, etc).

- A ideia do lar pra crianças com poderes lembra muito X-Men, Harry Potter, o que impede a história de soar mais original.

- As regras do universo do filme são meio mal explicadas. Não entendi direito eles precisam viver sempre num mesmo dia.

- O protagonista não tem objetivo (o romance com a menina é um tédio, ele não quer voltar pra casa, também não quer realizar algo na fenda, nenhuma relação interessante se desenvolve ao longo da história...). O filme é apenas uma apresentação do universo criado pelo autor. O problema é que não há nada de muito atraente nesse lugar pra gente querer permanecer nele (nem visualmente é tão interessante assim). E também não é um lugar assustador de onde nós queremos que o herói escape. O herói sai de sua vida comum e vai parar num lugar que não é nem fantástico nem terrível... é apenas "peculiar" com diz o título, cheio de coisas esquisitas. Mas é uma situação morna, não uma grande aventura.

- Vou repetir aqui o que escrevi sobre Song of the Sea: fantasia só equivale a entretenimento e magia quando associada a temas positivos: virtude, felicidade, diversão, realização de sonhos, solução de problemas, etc. Ela não torna encantadora uma história melancólica sobre personagens comuns.

- Herói típico da atualidade: tímido, não faz nada de impressionante na história, a única coisa especial que ele tem é algo puramente genético que ele nem sabia. E o poder específico dele não é legal: a habilidade de ver monstros que pros outros são invisíveis (mais uma vez a história valorizando o sombrio, o melancólico).

- SPOILER: Nada prático "ressuscitar" o navio fantasma pra servir como meio de transporte. Com tantos poderes eles não podiam simplesmente ir voando ou algo do tipo? (Provavelmente sim, mas daí não seria "sombrio").

- As regras vão ficando cada vez mais confusas (em que tempo eles estão, eles estão dentro da fenda, fora da fenda, quem sobrevive fora da fenda, o que pode ser visto fora da fenda pelas pessoas comuns, etc?). Mas o maior problema nem é esse, e sim que emocionalmente a história não funciona. Não estamos torcendo pro herói realizar algo, reencontrar com o avô, ficar com a menina, superar alguma dificuldade, etc.

- SPOILER:  A meia hora final é ruim. Tudo confuso, feio visualmente, sem carga dramática, com ideias fracas (a batalha dos esqueletos, o menino colocando o coração naquele elefante de pano, ou mesmo a ideia final do Jake viajar anos pra reencontrar os amigos, como se eles tivessem desenvolvido um grande laço afetivo).

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CONCLUSÃO: Personagens fracos e história fraca. Mais uma adaptação desses livros adolescentes genéricos que querem lançar uma nova franquia.

(Miss Peregrine's Home for Peculiar Children / Reino Unido, Bélgica, EUA / 2016 / Tim Burton)

FILMES PARECIDOS: Alice Através do Espelho (2016) / Divergente (2014) / Dezesseis Luas (2013) / Os Instrumentos Mortais: Cidade dos Ossos (2013) / Percy Jackson e o Mar de Monstros (2013) / série Harry Potter

NOTA: 4.5

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Sete Homens e Um Destino

NOTAS DA SESSÃO:

- A produção é ótima (visual lindo, elenco estelar, equipe técnica de primeira, etc). Não há nada de muito artístico, mas é tudo feito com competência.

- A história é um pouco previsível. A maneira como eles conseguem juntar um time de homens habilidosos parece meio fácil, repetitiva. Todo mundo que surge já atira extremamente bem e está disponível, etc. Fica a impressão de que será fácil o combate. Não vimos ainda o tamanho do exército do vilão pra termos receio de que eles possam perder.

- Há também o problema da motivação dos personagens. É o que chamo de "filme de serviço". Falta uma dimensão mais emocional / intelectual pra história. Só mais pro final entendemos que há um passado entre o Denzel Washington e o vilão. Mas ao longo da história a plateia acompanha tudo como se fosse apenas um trabalho qualquer que eles foram pagos pra realizar.

- SPOILER: A história fica mais interessante quando eles começam a planejar a estratégia da batalha: treinando os moradores da cidade, a ideia de construir trincheiras, convocar os trabalhadores das minas (e usar os explosivos), etc. Embora o vilão continue ausente demais, sem representar uma ameaça forte na narrativa, o que diminui o suspense.

- SPOILER: Um pouco óbvio que o Ethan Hawke iria resolver voltar na última hora.

- Quando finalmente chega o vilão na cidade e vemos que ele tem um exército enorme, deixa de parecer que os mocinhos irão ganhar facilmente. Só acho que isso devia ter sido plantado desde o começo.

- Gosto que apesar do número grande de mortes, o filme mostra tudo sem apelar pra violência de forma desagradável.

- SPOILER: Um pouco frustrante a maioria dos heróis morrerem no final. Mas como os personagens eram meio distantes, não chega a ser um anticlímax terrível. Só fica a impressão de que o prejuízo foi maior que o lucro. Que toda essa matança no fim não resolveu a vida dos que sobreviveram (é o tipo de situação que faz a gente agradecer a existência do governo).

- Legal que nos créditos toca o tema famoso do Elmer Bernstein. Não poderia faltar.

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CONCLUSÃO: Remake conservador, sem muita originalidade ou surpresa, mas bem produzido e eficiente.

The Magnificent Seven / EUA / 2016 / Antoine Fuqua

FILMES PARECIDOS: Os Infratores (2012) / Bravura Indômita (2010) / Inimigos Públicos (2009) / Os Indomáveis (2007)

NOTA: 6.5

sábado, 24 de setembro de 2016

Supermax - Primeiro Episódio


(Crítica "encomendada" por um leitor.)

Já reclamei aqui algumas vezes do fato dos reality shows atualmente não terem nada de "reality" e serem todos roteirizados, armados, tudo pra se criar mais conflito e entretenimento, o que acaba sendo uma fraude e traindo o propósito de um reality show (e destruindo o entretenimento). Agora eles deram um passo adiante... Resolveram assumir que é tudo ficção, contrataram atores famosos pra esse "reality fictício" - o que sem dúvida é mais honesto do que fingir que é tudo real. O problema é que, em vez dos criadores entenderem que agora eles estão de volta no campo da ficção - e que em ficção as regras são diferentes das de um reality show - eles continuaram apostando nas mesmas regras de um reality, e usando os mesmos recursos que realities usam pra prender a atenção do espectador! O que é um absurdo e não funciona.

Durante o episódio eu fiquei o tempo inteiro pensando: "Ok, legal, a história é sobre um grupo de pessoas que decide participar de um reality show numa prisão no meio da Amazônia. E agora, o que vai acontecer na história? Será que vai ter um desastre natural ou uma guerra nuclear e todos terão que sair da falsa prisão e parar na selva, pra de fato lutarem pela sobrevivência? Será que eles descobrirão que foram enganados, e que eles não estão de fato num programa de TV, mas nas mãos de sádicos que querem fazer um experimento humano, e que mesmo que eles queiram desistir, agora não podem mais sair da prisão?". Mas nada acontece! A "história" é de fato sobre um reality show - as provas de resistência, as relações entre os participantes, tudo o que está planejado pela emissora e que o público de casa também estaria vendo! Ou seja, nada acontece pra quebrar a ordem e dar início a uma história... O que acontece dentro do contexto do reality não é de fato um conflito pros personagens, afinal tudo não passa de uma gincana da qual eles podem sair quando quiserem pra suas vidas normais (não é como em Jogos Vorazes, por exemplo). Então é como filmar alguém num parque de diversões passando por diversos sustos, emoções, mas dentro do previsto e do seguro... Não há um "Incidente Incitante" que muda a situação dos personagens e os coloca numa verdadeira situação de perigo, de luta pela sobrevivência... É como se, em Jurassic Park, nunca houvesse uma tempestade e os dinossauros nunca escapassem! E o filme tentasse entreter o público mostrando os personagens participando dos "rides" e se impressionando com os dinossauros de forma segura do lado de fora da jaula, conforme o previsto pelo parque. Mas a jaula tem que abrir pra haver uma história, e é isso que os criadores desse programa parecem não ter percebido (me baseando nesse primeiro episódio). A produção é bem feita, os atores são bons, mas é sem dúvida uma das coisas mais malucas que já vi em termos de dramaturgia. Espero que as coisas mudem e que eventualmente as "jaulas" se abram ao longo da temporada (eu não pretendo acompanhar).

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Desculpe o Transtorno

NOTAS DA SESSÃO:

- Duvivier funciona no papel, mas sempre acho difícil de gostar / me identificar com esse estereótipo do cara loser que tem um emprego chato num escritório, vive uma rotina sem graça ("vítima do capitalismo"), e não parece ter nenhum sonho ou plano de mudar isso (exatamente o que falei sobre Walter Mitty).

- Divertido o elenco coadjuvante (Dani Calabresa, Rafael Infante).

- Legal a cena dele entrando em sua antiga casa, redescobrindo objetos de sua infância, a maneira como eles iluminam o lugar pra parecer algo nostálgico, etc (só é meio forçado o pôster do Che Guevara na parede!).

- Acho ruim essa premissa do personagem adquirir subitamente um transtorno de personalidade  sem explicação. Não é como em Um Espírito Baixou em Mim ou O Mentiroso, por exemplo, onde um evento sobrenatural justifica a transformação e permite que a gente embarque na história. Fica parecendo apenas o roteirista querendo chamar atenção pro "conceito" dele, como no filme Entre Abelhas.

- Duas reviravoltas importantes acontecem num espaço muito curto de tempo (o transtorno de identidade, e o encontro com a Clarice Falcão), deixando a narrativa confusa. (Qual é o "incidente incitante" que realmente motiva a história? São 2 elementos competindo entre si.)

- O humor em geral é apenas "simpático", mas com muitos clichês (a sequência na terapia de grupo, por exemplo) e sem grandes invenções, insights, etc. Funciona porque os atores são carismáticos, mas muita coisa é baseada em referências culturais, o que é uma forma mais preguiçosa de humor (por exemplo, fazer a plateia rir só por citar Ruth / Raquel de Mulheres de Areia).

- O roteiro é meio falso e impreciso. Não sabemos como funciona a memória dele exatamente (o que ele pode lembrar quando muda de identidade, etc). E às vezes não faz sentido ele ficar viajando toda hora entre Rio e São Paulo.

- Duvivier tem boa química com os amigos e até com a Dani Calabresa, mas a relação mais sem graça da história é a dele com a Clarice Falcão. O tipo de romance é meio tedioso. Eles entram em sintonia pois percebem que ambos têm uma "vida merda", e que podem melhorar um pouco a "vida merda" um do outro. Isso pode até ser realista, mas não dá pra dizer que é uma relação empolgante. Além disso eles já se gostam logo de cara... Não há nenhum conflito interessante, nenhuma dúvida de que eles darão certo. A relação atual dele com a Dani Calabresa é errada demais pra representar qualquer empecilho.

- Não acho esse personagem da Clarice Falcão muito gostável ou convincente. É meio artificial ela se fazer de tonta/loser, ter um sub-emprego desse, sendo uma menina tão bonita, sofisticada. Não parece uma pessoa de carne e osso com a qual ele poderia ter um relacionamento, e sim alguém que está constantemente "fazendo tipo", escondendo a verdadeira identidade, as verdadeiras motivações (até o Duvivier que tem 2 personalidades parece mais real que ela).

- O conflito do flime não funciona muito bem. De um lado, ele tem uma vida totalmente chata, um emprego que detesta, uma mulher que detesta. Do outro uma vida maravilhosa ao lado de uma mulher que gosta. Pra ter a garota que ele quer, ele precisa abandonar a outra vida por completo? Não basta se separar da Dani Calabresa? Tem que perder o emprego também? A Clarice não pode mudar pra São Paulo? O Duvivier, sendo rico e filho do dono da empresa, não pode conseguir um trabalho melhor?

- Outros clichês de comédia inseridos de maneira forçada: ele tendo que dançar zumba pra conversar com a namorada na aula; ele no avião dividido entre as 2 personalidades, uma lutando contra a outra.

- O discurso final é muito óbvio. A mensagem do filme é extremamente simples, didática, mas apesar disso ele se acha profundo o bastante pra precisar mastigar tudo pra plateia no fim, explicando o significado da história de maneira verbal e inconfundível. Não sobra nenhum subtexto, nada pra plateia conectar ou concluir sozinha.

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CONCLUSÃO: Alguns atores divertidos, mas o romance não empolga, o humor não é dos mais inspirados, e a história é previsível, construída em cima de conflitos desinteressantes.

Desculpe o Transtorno / Brasil / 2016 / Tomás Portella

FILMES PARECIDOS: Entre Abelhas (2015) / A Vida Secreta de Walter Mitty (2013) / Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças (2004)

NOTA: 4.5

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Bruxa de Blair

NOTAS DA SESSÃO:

- Os personagens são desinteressantes, sem personalidade (em particular o protagonista), e não são tão realistas e naturais quanto os do original, que realmente pareciam amigos, tinham personalidades definidas, etc. O filme não consegue chegar naquele grau de realismo (as entrevistas super convincentes com as pessoas na cidade, etc).

- O filme repete exatamente a estrutura do original, apenas com mais gente e com câmeras mais modernas. A mesma sequência de eventos parece acontecer: alguém some do meio da noite; os protagonistas ficam gritando o nome da pessoa; eles acordam no dia seguinte e a cabana está cercada por aquelas macumbas; conflitos surgem entre os amigos; eles descobrem que estão andando em círculos, etc, etc.

- Os sustos em geral são irritantes e forçados. As pessoas estão sempre aparecendo subitamente na frente dos personagens sem nenhuma lógica só pra assustar a plateia.

- Bizarro esse bicho dentro do pé da menina!!! O que isso tem a ver com a bruxa? As coisas tão começando a ficar mais interessantes - ou pelo menos menos previsíveis.

- Essa câmera subjetiva no meio da floresta apenas com iluminação da lanterna é desesperadora (ainda mais com esses personagens gritando, fazendo barulho, se expondo quando sabemos que há algo maligno ali). A cena em que o negro é atacado na floresta é bem tensa (os efeitos sonoros do filme são ótimos)! É legal que nesse filme algumas coisas de fato acontecem - se fosse igual ao primeiro onde nunca vemos nada até o final, seria meio frustrante (e ainda assim eles conseguem manter certo mistério, sem revelar de fato o que é o "monstro").

- SPOILER: Impressionado com o momento em que a Talia e o Lane aparecem sujos dizendo que estão há 5 dias na floresta! To começando a ficar com medo desse filme. Na primeira parte ele estava indo muito na linha do filme original, mas agora ele começou a explorar esse conceito de realidade distorcida e ficou bem assustador. É uma representação de medo com a qual eu pelo menos consigo me identificar (especialmente depois da minha experiência com ácido lisérgico). Eu não tenho medo nenhum de filmes que envolvem espíritos, conceitos que vêm de religião, etc - mas aqui o horror é simplesmente um senso de confusão, de desespero, de perda da noção do tempo, do espaço, da objetividade, com uma presença oculta e maligna por trás de tudo.

-  SPOILER: Muito bem feito (e nojento!!!) o bicho saindo da perna da menina.

- Meio falso a menina escalar a árvore machucada no meio da noite pra pegar o drone.

- Toda a sequência na casa é bem apavorante (a câmera subjetiva com as portas se abrindo, etc). Teve 1 ou 2 momentos nessa parte em que eu cheguei a berrar na sala! Rss.

- SPOILER: A menina passando pelo túnel é agonizante (lembra Abismo do Medo). Há poucos cortes, então realmente nos sentimos lá dentro presos com ela (parece que o diretor resolveu pegar todas as ideias mais desesperadoras que ele já viu nos filmes e juntar numa história só, rs).

- SPOILER: O clímax com os 2 no canto também funciona - o filme copia a estrutura do A Bruxa de Blair original, mas acrescenta esses elementos de realidade paralela que dão um novo sabor à história.

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CONCLUSÃO: Artificial e pouco inventivo no começo, mas da metade pra frente se torna uma das experiências de terror mais viscerais que eu pessoalmente tive nos últimos tempos.

Blair Witch / EUA / 2016 / Adam Wingard

FILMES PARECIDOS: A Morte do Demônio (2013) / Sobrenatural (2010) / Abismo do Medo (2005)

NOTA: 7.3

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

O Peso do Silêncio

Um dos filmes mais ridículos e desonestos que já vi. O "documentário" (que foi indicado ao Oscar e tem 96% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes) pretende denunciar o golpe militar que houve na Indonésia nos anos 60, onde milhares de supostos comunistas foram assassinados. O protagonista é um rapaz que teve membros de sua família mortos pelos militares na época, e que agora, décadas depois, decide ir atrás dos responsáveis (já idosos) para confrontá-los diante das câmeras. Uma ideia bastante ousada pra um documentário, exceto que tudo o que vemos na tela é uma farsa: todos as pessoas estão fingindo, e tudo o que acontece foi ensaiado e gravado como em um longa normal de ficção.

Eu tenho certa experiência com sets de filmagem e posso dizer, melhor do que a maior parte da população, o que é uma cena real e o que é uma cena ensaiada (baseado não só no comportamento das pessoas, mas também em questões técnicas como fotografia, edição, som, etc). Venho reclamando cada vez mais disso, que acho ser o aspecto mais assustador do cinema e da TV hoje em dia - a maneira descarada com que os produtores enganam o espectador, fingindo que algo armado está de fato acontecendo. Não sei se o mais assustador é eles estarem fazendo isso de maneira tão oficializada, ou se é o fato de praticamente ninguém do público perceber ou se importar!

Esse foi o motivo pelo qual dei nota 0.0 praquele filme Vovô Sem Vergonha do Jackass - a diferença é que em Vovô Sem Vergonha a situação era mais inocente. A intenção dos cineastas era apenas a de fazer a plateia rir e se divertir por algumas horas. Aqui, a farsa toda já tem um objetivo bem mais maligno: criar simpatia pelo comunismo e retratar seus opositores como assassinos religiosos perversos que matam por prazer e bebem o sangue de suas vítimas. E o culpado de tudo quem é? Os EUA, claro. Em uma determinada cena, um dos assassinos diz com todas as palavras: "nós fizemos isso tudo porque os EUA nos ensinaram a odiar os comunistas" (!).

Coisas para reparar no filme:

- Nas conversas entre o protagonista e os assassinos, repare nos inúmeros ângulos de câmera que são usados pra registrar as cenas, e lembre-se que pra cada ângulo, teria que haver uma câmera diferente (e uma câmera acabaria pegando a outra se fosse esse o caso, afinal algumas teriam que estar bem perto do rosto do entrevistado, e seriam vistas pelas câmeras que pegam a cena mais de longe). Ou (se só houvesse 1 câmera) teria que haver uma pausa longa na conversa toda vez que a câmera mudasse de ângulo. De qualquer jeito, não é possível, pela forma em que o filme é gravado, que essas conversas não sejam ensaiadas e dirigidas.

- Pense no quão provável é o cineasta conseguir convencer não só 1, mas 3, 4, 5 pessoas a confessarem alegremente diante de câmeras que elas são assassinas cruéis, e a descrever como matavam suas vítimas para o deleite do espectador (lembrando que eles estão falando isso tudo pra alguém que teve sua própria família morta por eles).

- Repare no comportamento incoerente dos supostos criminosos. Como eles perdem todos os "argumentos" facilmente, ou como às vezes eles sorriem sem motivo após dizerem algo extremamente sério, como uma criança que não consegue se brincar de ficar séria por muito tempo sem deixar escapar uma risada.

- Será que esse protagonista é de fato oculista (ou sei lá o que ele faz)? E que todos os criminosos estariam precisando de exame de vista coincidentemente na época das gravações? Ou será que o diretor simplesmente achou que ficaria "cool" esteticamente essas imagens como a do cartaz?

- Dê uma procurada no Google nos nomes dos responsáveis pelas mortes (Amir Hasan, Inong, Amir Siahaan...) ou então no nome do rio onde aconteceu o grande massacre ("Snake River"). Não achei nenhum Snake River na Indonésia (há um nos EUA) e os nomes dos "chefões" só aparecem em matérias relacionadas ao próprio documentário.

- Repare nas cenas em que o protagonista assiste TV (os vídeos "antigos" dos assassinos mostrando como matavam). Esses vídeos não são antigos. Aposto um rim que eles foram gravados na mesma época do documentário, e depois o diretor simplesmente aplicou um filtro e deixou a imagem quadrada pra parecer algo feito no passado, dando mais "autenticidade" pras imagens. Uma das evidências disso é que os homens que aparecem nesses vídeos "antigos" não envelhecem nada depois quando aparecem no tempo presente do documentário, sendo entrevistadas pelo protagonista (em 2 casos os caras estão usando toucas no presente, provavelmente pra disfarçar que o cabelo está igual ao do vídeo gravado uns 15 anos antes).

O filme inteiro é uma farsa tão ridícula que eu poderia ficar horas aqui listando tudo de absurdo que se vê nas entrelinhas. Pensei até em fazer um vídeo destrinchando o filme cena a cena, mas não tenho paciência nem tecnologia pra fazer isso direito.

E o mais revoltante é que as pessoas celebram uma monstruosidade dessa por sua "humanidade". Há uma cena numa escola onde o filme expõe um professor que mente pras crianças a respeito dos comunistas, os retratando como monstros, etc. Qual é a ética de se fazer isso, quando o próprio documentário está fazendo a mesma coisa, só que com os anti-comunistas?

Pegue as cenas onde o filme registra a rotina do idoso de quase 100 anos em sua casa (uma das vítimas, portanto alguém por quem o filme simpatiza), mostrando ele tomando banho, o pênis aparecendo, ele se rastejando pelo chão e mostrando demência (num quarto iluminado artificialmente pela produção)... Você exporia alguém que você respeita dessa forma tão humilhante? Por que expor um idoso frágil e miserável sob a luz menos elogiosa possível é algo "humano", "artístico"?

Fiquei me perguntando que tipo de ser humano faria um filme como esse... Mas quando vi o primeiro vídeo do cineasta Joshua Oppenheimer no YouTube, um frio me subiu pela espinha que pareceu responder todas as perguntas (Ele teve a cara de pau de gravar um vídeo falando sobre a importância da autenticidade! Repare no ato-falho no segundo 0:15, quando ele confunde "lie" com "truth").

Atualmente o filme está disponível na Netflix e eu recomendo que todos o assistam, no mínimo como um exercício de atenção e ceticismo.

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The Look of Silence / Dinamarca, Indonesia, etc. / 2014 / Joshua Oppenheimer

FILMES PARECIDOS: O Sal da Terra

NOTA: 0.0